27 de fevereiro de 2017

O golpe do sono nuclear

Manlio Dinucci

Il Manifesto

O governo Gentiloni reverteu o voto do governo Renzi, votando a favor do lançamento de negociações para o desarmamento nuclear! A sensacional notícia foi rapidamente difundida, levando certos defensores do desarmamento a se alegrar.

Para obter esclarecimentos sobre o tema, o senador Manlio Di Stefano (Movimento Cinco Estrelas) e alguns outros apresentaram uma questão, à qual o governo respondeu por escrito no boletim da Comissão de Assuntos Exteriores. A nota esclarece a forma como as coisas se passaram. Em 27 de outubro de 2016, durante o governo Renzi, a Itália (alinhando-se aos Estados Unidos) votou “Não”, na primeira comissão da Assembleia Geral, sobre a resolução que propunha lançar em 2017 negociações para um Tratado internacional destinado a proibir as armas nucleares; a resolução foi aprovada na comissão por ampla maioria. Posteriormente, em 23 de dezembro de 2016, já durante o governo Gentiloni, quando a mesma resolução foi votada na Assembleia Geral das Nações Unidas, a Itália, ao contrário, votou “Sim”.

Mudança da posição italiana? Não, apenas um erro técnico. “Este erro – explica o governo na resposta por escrito – parece ter dependido das circunstâncias nas quais ocorreu a votação, num horário avançado da noite”.

Em outros termos, o representante italiano, provavelmente por causa do sono, apertou o botão errado.

“A indicação errônea do voto favorável – continua a explicação do governo – foi em seguida retificada por nossa Representação permanente nas Nações Unidas, que confirmou o voto negativo manifestado na primeira comissão”.

O governo Gentiloni, como o de Renzi, considera que “a convocação, em 2017, de uma Conferência das Nações Unidas para negociar um instrumento juridicamente obrigatório sobre a proibição das armas nucleares, constitui um elemento fortemente divisionista que arrisca comprometer nossos esforços em favor do desarmamento nuclear”.

Com os países militarmente não nucleares da Aliança Atlântica, “a Itália é tradicionalmente partidária de uma abordagem progressiva do desarmamento, que reafirma a centralidade do Tratado de não Proliferação”.

O governo reafirma desse modo a centralidade do Tratado de não Proliferação das Armas Nucleares, ratificado em 1975, sobre cuja base a Itália “se compromete a não receber de ninguém armas nucleares nem controlar tais armas, direta ou indiretamente”. Então, na realidade ela viola o Tratado, porque mantém em seu próprio território, em Aviano (Friuli) e em Ghedi Torre (Brescia), ao menos 70 bombas nucleares estadunidenses B-61, para cujo uso foram inclusive treinados pilotos italianos. Do que se trata a “abordagem progressiva do desarmamento nuclear” seguido pela Itália é demonstrado pelo fato de que em cerca de dois anos ela receberá dos EUA, para substituir as atuais, as novas bombas nucleares B61-12, lançadas por controle remoto e com capacidade de penetração anti-bunker.

Armas nucleares de first strike (primeiro ataque) dirigidas sobretudo contra a Rússia, que, tornando mais provável o lançamento de um ataque nuclear desde nosso solo, o expõem ainda mais ao perigo de represálias nucleares.

O modo concreto através do qual podemos contribuir para a eliminação das armas nucleares, que ameaçam a sobrevivência da humanidade, é exigir que a Itália pare de violar o Tratado de não Proliferação e em consequência exija dos Estados Unidos que retirem imediatamente todas as armas nucleares do território italiano e renuncie a instalar as novas bombas B61-12.

Batalha política fundamental se, por contágio, a oposição não for também tomada pelo sono, que adormece até mesmo o instinto de sobrevivência.

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