22 de março de 2017

Rússiagate e o Partido Democrata são estúpidos

Paul Street

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O freakshow tingido de laranja que é Donald Trump deveria ser removido da casa branca e enviado para algum calabouço imundo, infestado por ratos, com uma sentença de Vida sem Twitter. O mesmo vale para o restante de sua administração racista, ecocida, arquiplutocrática e chocantemente fascista cristã. Eles devem ser forçados a trabalhar até o pôr-do-sol em um campo de trabalho de montagem de painéis solares no deserto do Arizona.

Mas Trump e sua equipe devem ser defenestrados por quais crimes e para qual alto propósito? Para pôr no poder outro subdemocrata tipo Bill Clinton, Hillary Clinton ou Barack Obama? Deus nos livre! Claro que não! Chegamos a esse horrendo momento Trump por causa da ideologia neoliberal do 'livre mercado', que os Democratas sempre exatamente igual ao que dizem os Democratas, ao longo de toda a última geração e mais. O poder econômico há muito tempo converteu o Partido Democrata em poodle sem serventia democrática das grandes instituições financeiras, grandes multinacionais e do vasto império militar que são os EUA. Tudo isso deprime e desmobiliza grande parte dos pobres e da cidadania trabalhadora/classe trabalhadora, convertendo milhões em não eleitores, ou em eleitores do Partido Republicano mais direitista, branco-nacionalista que a história jamais vira.

Ao mesmo tempo, a doutrina neoliberal reinante entre os democratas e republicanos - "duas asas da mesma ave de rapina" (Upton Sinclair, 1904) - despojou o governo americano de sua capacidade e força de vontade para desempenhar funções sociais e democráticas positivas . O neoliberalismo mata o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou de "a mão esquerda do Estado" - as partes do setor público que atendem às necessidades sociais e democráticas da maioria não-rica. Ao mesmo tempo, alimenta a "mão direita" regressiva e repressiva do Estado, as partes do governo que distribuem riqueza e poder ao mesmo tempo que punem as classes trabalhadoras e baixas e todos os que resistem às ditaduras não-eletivas e inter-relacionadas do dinheiro e do império.

É um processo mortal em vários níveis. Quanto menos a classe governante confia na luva de veludo do bem-estar estatista de cooptação para manter a hierarquia, mais ela confia na mão de ferro e repressão bruta da polícia do Estado. Com governo-Estado famigerado, quando se trata de só atender sobretudo às necessidades dos poucos mais ricos, o caminho está escancarado para que qualquer demagogo se aproprie dos ressentimentos populares e entre em cena, a clamar que ele, e só ele, pode corrigir todos os problemas do país e torná-lo "grande outra vez". Quando as instituições burguesas e as elites liberais "normais" são vistas (muitas vezes muito acertadamente) como igualmente patéticas e nefandas, o vácuo aspira para dentro da cena política qualquer manipulador populista carismático. Ali, o nefando encontra seu nicho para prometer qualquer restauração de perdidas grandezas nacionais.

Foi o gambito de Hitler na Alemanha nos anos 1930. É uma das grandes cartas-trunfos com que contou Herr Donald ano passado.

Agora, Trump e os 34 governadores Republicanos nos EUA puseram-se a aplicar os sempre crescentes poderes do estado-polícia contra uma nação cuja população perdeu a fé em praticamente todas as grandes instituições dos EUA, exceto duas: o exército e a polícia. É um Estado policial militarizado que os democratas ajudaram a criar.

Nesse ponto, sempre acontece de um "Democrata progressista" entrar em cena e esclarecer que não precisa ser sempre assim, porque o Partido Democrata pode ser orientado para uma direção eleitoralmente vencedora social-democrática de esquerda. Ouço os democratas a repetir isso desde que nasci para a vida política consciente. É tolice. É fantasia ingênua e desesperadamente frustrante.

Os progressistas com inclinação à esquerda são há muito tempo objeto do mais desdenhoso desprezo que lhes dedicam as elites do Partido Democrata. Escrevo sobre isso há anos – sobre Democratas que compreendem muito bem que seu primeiro serviço, antes e acima de todos os demais, é impedir que surja oposição de esquerda realmente séria e ela chegue a posições no Estado das quais possa controlar o poder da classe governante nos EUA. O principal dever do Partido da Oposição Não Autêntica [Inauthentic Opposition Party, IOP] (como o falecido cientista social Sheldon Wolin chamava os Democratas) é manter a verdadeira resistência popular, bem distante dos Parlamentos.

Esse desprezo ativado contra a esquerda mantém-se intacto até hoje, e absolutamente não arrefeceu ante o colapso eleitoral dos Democratas neoliberais. Até o doce progressismo levemente social-democrata do "socialista" pró-guerra Bernie Sanders tem de ser marginalizado a qualquer custo, no que diga respeito às cúpulas dos Democratas. Mas... e se o tipo de progressismo de Sanders for uma via para fazer reviver e novamente levar à vitória um partido que se tornou ainda mais impopular que os universalmente execrados Republicanos e Trump? Como Trevor Trimm do Guardian escreveu recentemente:

"Se se consideram os números, Bernie Sanders é o político mais popular nos EUA – com ampla vantagem. Mesmo assim, bizarramente, o Partido Democrata – expulso do poder em todo o país e cada dia mais irrelevante – ainda se recusa a acolhê-lo e a acolher sua mensagem ... a ala establishment do partido continua a resistir contra ele praticamente todos os dias, e não largam mão da ideia de que não precisam mudar de atitude para recuperar o apoio de vastas porções do eleitorado em todo o país... Essa semana, Politico publicou matéria sobre reação de Democratas ante o fato de que apoiadores de Sanders podem fazer gorar todos os esforços deles para retomar o governo nos estados do sul; aqueles Democratas sugeriam insistentemente que seus candidatos abraçassem as políticas populistas de Sanders – dado que obviamente Sanders dá-se muito bem também em alguns daqueles estados. ... A ala establishment do partido agressivamente indicou candidato próprio para concorrer contra Keith Ellison, indicado por Sanders para dirigir o Comitê Nacional Democrata, aparentemente com o objetivo básico de manter o partido bem longe da influência de Sanders. ... Recusaram-se firmemente a assumir a causa das grandes corporações nas aparições na esfera pública e aprovarão para esse ano uma regra da era Obama que excluiu dinheiro dos lobbys do financiamento do Comitê Nacional Democrata, rescindida ano passado. E apesar da grande popularidade que o governo alcançou com garantir atenção à saúde para todos, ainda não fizeram qualquer movimento a favor de um plano de Medicare-para-todos, que Sanders cobra há muito tempo, como reação contra o movimento dos Republicanos para desmantelar o Obamacare".

Mas o que há de "bizarro" nisso? A recusa dos Democratas a tomar a trilha de Sanders só parece doida e estúpida se você pensa que o principal trabalho do Partido Democrata fosse vencer eleições e promover avanços sociais e melhor democracia... Nada mais idiota. A tarefa mais urgente Partido da Oposição Não Autêntica, é servir ao poder financeiro-corporativo, o que significa manter longe do poder até os social-democratas de salão como Sanders, o defensor do Jato F35 Fighter. Que ninguém se engane: a liderança do Partido Democrata sempre preferiu que "a belicista neoliberal e mentirosa" Hillary Clinton derrotasse Sanders (mesmo que pelas vias mais imundas) e depois fosse derrotada por Trump, a qualquer cenário no qual Sanders derrotasse Hillary e depois atropelasse Trump (como todas as pesquisas importantes já indicavam que aconteceria)

Claro que os Democratas reinantes sabem que eles e o sistema que representam têm interesse em que o partido deles conserve alguma importância eleitoral e se distancie do patético status que tem hoje. Sem querer abraçar a "revolução" excessivamente esquerdista (para eles e para o big money que lhes dá suporte) de Sanders, os Democratas reinantes supõem que possam desestabilizar a besta de cabelos cor-de-laranja com, simplesmente, atá-lo ao Kremlin, com acusações enlouquecidas, baseadas em matérias vagas de jornalismo, vindas das mais nebulosas fontes "na inteligência". E sonham que essas duvidosas missivas anti-Trump, vindas da inteligência e da mídia-empresa liberal, possam "servir de combustível... para um frenesi russo"... o qual, nas palavras de Masha Gessen, "crie uma nuvem de suspeitas suficientemente escura em torno de Trump, para que o Congresso consiga mobilizar vontade e provas para derrubá-lo por impeachment".

Mas é provável que o verdadeiro truque de cartas russas seja aplicado, não contra Trump, mas contra os progressistas e liberais. Não há chance de as acusações russas destronarem Trumpenstein. Como Gessen escreveu recentemente na New York Review of Books, "Ele sacrificará mais gente sua, como já sacrificou Flynn, se novos vazamentos o desacreditarem. As investigações devem arrastar-se por meses, deslocando outras questões, muito mais urgentes. No fim, os Republicanos do Congresso concluirão que seus eleitores não dão tanta importância aos laços russos de Trump, a ponto de aceitarem que o presidente Republicano seja derrubado por impeachment".

Ainda que os Democratas venham a conseguir derrubar Trump com o estratagema russo, só o farão se pagarem pesado preço em decência e dignidade democráticas. E terão metido o pé ainda mais fundo nos perigosos pântanos de notícias falsas e "fatos alternativos".

Mas o maior preço democrático do Rússiagate já está sendo pago. A Loucura da Rússia enfoca a atenção pública em algo que Trump não é, uma ferramenta do Kremlin, e não o que ele realmente é: um inimigo arqui-plutocrático pré-fascista, racista e sexista e super-militarista dos pobres e da classe trabalhadora. Enquanto Gessen reflete sobre o que ela chama de "armadilha da conspiração da Rússia":

"... as acusações não derrubarão Trump. Enquanto a Rússia continuam a dominar as páginas dos jornais, Trump continuará a fazer guerra aos imigrantes, cortar orçamento de tudo que não sejam os militares, construindo seu gabinete de deploráveis... para levar a efeito o que Steve Bannon chama de 'desconstrução do estado administrativo'. ... no seu primeiro discurso como procurador-geral [, Jeff Sessions] prometeu cortar a aplicação dos direitos civis e ele já abandonou um caso do Departamento de Justiça contra uma lei discriminatória de identificação de eleitores do Texas.. Mas só a mentira dele sobre 'Rússia' chegou e plantou-se nas grandes manchetes. ... Imaginem se o mesmo tipo de atenção pudesse ser treinada e mantida para outras questões – como muçulmanos proibidos de viajar. ... Trump está nada menos que destruindo as instituições e princípios norte-americanos ao converter a presidência em máquina para gerar lucros para sua família; envenenando a cultura política com retórica de ódio, mentirosa, de subliteratura, minando a esfera pública com ataques à imprensa e aos manifestantes e iniciando o real serviço de desmantelar cada uma e todas as partes do governo federal que exista para qualquer outra finalidade que não seja fazer guerra.O Rússiagate está ajudando-o - tanto distraindo de questões reais, documentáveis e documentadas, e promovendo uma teoria da conspiração xenófoba a fim de remover um teórico xenófobo da conspiração do ofício."

Gessen dá a Trump muito crédito prejudicial.. O que ela chama de "destruição dos princípios e das instituições democráticas norte-americanas" nunca passou de projeto de uma classe dominante distribuída por dois Partidos controlados, que está em andamento desde, no mínimo, os anos 1970. (Ao mesmo tempo, Gessen tem de saber que a Casa Branca de Trump não quer desmantelar outras funções de Estado que interessam à direita, além dos militares. Um exemplo, aqui, dentre muitos: a Casa Branca de Trump apoiará a capacidade do Departamento de Segurança Nacional para monitorar, invadir, desmontar e reprimir por todas as vias possíveis os ativistas ambientalistas e lutadores a favor de justiça social.)

Apesar disso, o argumento de Masha Gessen é muito bem sacado. O esquema da conspiração russa é armadilha perigosa para políticos de esquerda. Não vai derrubar Trump, mas distrai as pessoas dos crimes reais e mais substantivos e ultrajes da administração Trump.

Então, é uma estratégia Democrática maluca, certo? Não tão depressa. Não esqueçamos que as questões que "Rússiagate" marginaliza, incluindo racismo, classismo, ecocídio e o esvaziamento da esfera pública, são todas áreas problemáticas para os Democratas corporativos e imperiais. Os tediosos Democratas encharcados de dólares foram sempre profundamente cúmplices dos Republicanos no serviço de criar uma deriva liberal de direita na política dos EUA nos últimos 40 anos. Não se pode esquecer nem por um segundo que a primeira e principal função dessa gente (sempre a serviço de ditadores não eleitos em todos os cantos do mundo e de ditaduras nas quais se casam muito dinheiro e o poder do Império Anglo-sionista) é manter sempre marginalizadas as forças e os sentimentos da esquerda. O Rússiagate fazem perfeito sentido para os Democratas do establishment nos mais variados níveis, inclusive no modo como os absolve por terem detonado as eleições de 2016 (porque "Rússia interferiu e Comey é culpado"), envenenadas por campanha eleitoral horrível, vergonhosa, na qual o establishment só ofereceu candidatos idênticos entre eles, todos com a mesma suja cara neoliberal.

Mas há outra questão macabra a ser abordada aqui. E se os democratas tivessem tomado um caminho progressista e social-democrata "vencedor" nas eleições de 2018 e 2020? É, pelo menos, questionável que os republicanos da Era Trump consentissem a remoção através de eleição. Qual foi a alegação absurda do governo de Bannon-TrumPence de ter vencido o voto popular de 2016 (em até 5 milhões de cédulas!), but an advance impeachment of voter repudiations they might face in coming elections? As íngremes barreiras eleitorais ao nível estadual, provocadas pela proliferação republicana e pela supressão de eleitores (legais e ilegais) são bastante ruins. Eles serão complementados, se necessário, por falsas acusações de fraude eleitoral e a perspectiva muito real de violência (legal e extra-legal). Os fascistas nacionalistas brancos não consentem a ser removidos do cargo por simples eleitores. Pode parecer uma coisa chocante a se dizer, mas eu não vejo o lote atual de republicanos no poder aceitar resultados de eleições que eles não gostam. Não é como eles operam. Não é sobre o que eles estão. Eles só podem ser derrubados através de uma grande revolta popular de baixo e além das extravagâncias eleitorais quadrienais que funcionaram há muito tempo como um método potente para a marginalização da cidadania como eleitorado.

Rússiagate e os democratas são para estúpidos liberais e progressivos. Então, talvez, agora as eleições também sejam.

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