13 de abril de 2017

A partir da Europa, armas estadunidenses para a guerra contra Síria e Iêmen

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Chama-se Liberty Passion, ou seja “Paixão pela Liberdade”. É um moderno e enorme navio estadunidense do tipo Ro/Ro – concebido para transportar veículos e carga sobre rodas – de 200 metros de comprimento, com 12 conveses e uma superfície total de mais de 50.000 metros quadrados, capaz de transportar o equivalente a 6.500 automóveis.

Esse navio, propriedade da companhia estadunidense Liberty Global Logistics, fez a sua primeira escala – em 24 de março de 2017 – no porto de Livorno, Itália. Iniciou-se assim oficialmente uma ligação regular entre Livorno e os portos de Aqaba, na Jordânia, e de Jeddah, na Arabia Saudita, garantida mensalmente pelo Liberty Passion e outros dois navios similares, o Liberty Pride (“Orgulho de Libertar”) e o Liberty Promise (“Promessa de Liberdade”). A abertura desse serviço de transporte foi celebrada como “uma festa para o porto de Livorno”.

Mas ninguém disse porque escolheu precisamente esse porto italiano a companhia estadunidense. Um comunicado da administração marítima estadunidense explica – em 4 de março de 2017 – que o Liberty Passion e os outros dois navios que asseguram a linha Livorno-Aqaba-Jeddah integram o "Programa de Segurança Marítima" que, no quadro de uma associação entre interesses privados e estatais "assegura ao Departamento de Defesa uma poderosa frota móvel de propriedade privada, com bandeira e tripulações estadunidenses". Le tre navi hanno ciascuna «la capacità di trasportare centinaia di veicoli da combattimento e da sppoggio, tra cui carrarmati, veicoli per il trasporto truppe, elicotteri ed equipaggiamenti per le unità militari».

Isso esclarece o motivo que levou a companhia estadunidense a escolher o porto italiano de Livorno para abrir essa linha de transporte marítimo para dois portos do Oriente Médio. Ele está conectado a Camp Darby, a base logística dos EUA (na Itália), que assegura o aprovisionamento das forças terrestres e aéreas estadunidenses na área mediterrânica, o Oriente Médio, África e mais além. É a única instalação das forças armadas dos EUA em que o material de guerra "preposicionado" (tanques, carros de assalto, etc.) se armazena no mesmo lugar que as munições. Os 25 búnquer de Camp Darby contêm todo o equipamento necessário para 2 batalhões blindados e 2 batalhões de infantaria mecanizada. Existem armazenadas também enormes quantidades de bombas e misseis para aviões de guerra e os "kits de montagem" para a instalação rápida de aeródromos em zonas de guerra.

Tudo isso e outros tipos de material de guerra pode ser rapidamente enviado para os teatros de operações através do porto de Livorno, ligado a Camp Darby pelo Canal de Navicelli – recentemente ampliado – e também através do aeroporto de Pisa, também na Itália. Dali saíram as bombas utilizadas nas guerras contra Iraque, Iugoslávia e Líbia. Na sua viagem inaugural – segundo reportam fontes documentadas como AsiaNews e outras –, o Liberty Passion transportava 250 veículos militares de Livorno para o porto jordano de Aqaba, onde chegou a 7 de abril depois de cruzar o Canal de Suez. Dois dias antes, o presidente Trump recebia em Washington, pela segunda vez desde fevereiro, o rei Abdalá e reafirmava o apoio dos EUA à Jordânia face à ameaça que representam os terroristas provenientes da Síria. Mas ninguém disse que foi precisamente na Jordânia que durante anos foram treinados – sob o comando de instrutores estadunidenses, britânicos e franceses – os membros do "Exército Livre Sírio" que cometem atos de terrorismo na Síria.

Diversas informações mencionam crescentes movimentos de tropas estadunidenses, equipadas com tanques e veículos blindados, na fronteira entre a Jordânia e a Síria. O objetivo seria apoderar-se, utilizando também tropas jordanas, da franja meridional do território sírio, onde operam já forças especiais dos EUA e Grã-Bretanha em apoio ao “Exército Livre Sírio”, que supostamente enfrenta o Emirato Islâmico (Daesh). Já em fevereiro, o presidente Trump tinha discutido com o rei Abdalá «a possibilidade de estabelecer zonas seguras na Síria». Por outras palavras, a possibilidade de balcanizar a Síria, dado que é impossível controlar todo o seu território devido à intervenção russa.

Nesta operação de guerra, e em outras, como a guerra da Arabia Saudita que está a massacrar civis no Iêmen, será utilizado o armamento estadunidense que sai de Livorno, cidade na qual, por convite do presidente da câmara Nogarin (do movimento 5 Estrelas), realizará provavelmente uma visita o papa Francisco, que ainda há pouco denunciava novamente "os traficantes de armas que ganham dinheiro à custa do sangue de homens e mulheres". Mas em Livorno festeja-se a designação desse porto toscano como escala da Liberty Global Logistics, com grandes perspectivas de desenvolvimento. Enquanto há guerra, há esperança.

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