5 de abril de 2017

Bill Gates e os 4 bilhões na pobreza

por Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / A pobreza global está caindo ou crescendo? Estimativas realistas calculam que há mais de 4 bilhões de pessoas na pobreza neste mundo, ou dois terços da população. No entanto, em sua “carta pública” mais recente, escrita no mês passado, Bill e Melinda Gates, a família mais rica do mundo, estavam entusiasmados para nos dizer que a batalha contra a pobreza global estava sendo vencida, pois desde 1990 caiu pela metade o número de pessoas que vivem com menos de US $ 1,25 por dia. Como conciliar essas duas estimativas?

Em 2013 o Banco Mundial divulgou um relatório apontando que havia 1,2 bilhões de pessoas vivendo com menos de US $ 1,25 por dia, um terço das quais eram crianças. Isso se compara com a linha de pobreza dos EUA de US $ 6 por dia para uma família de quatro pessoas. Mas, de acordo com o Banco Mundial, a situação está melhorando, com 720 milhões de pessoas a menos neste limiar muito baixo de pobreza em relação a 1981. E o vencedor do Prêmio Nobel Angus Deaton enfatizou que a expectativa de vida global aumentou 50% desde 1900 e continua subindo. A proporção de pessoas que vivem com menos de US $ 1 por dia (em termos ajustados pela inflação) caiu para 14%, ante 42% em 1981. Um residente típico da Índia é tão rico quanto um típico britânico em 1860, por exemplo, mas tem uma expectativa de vida mais parecida com a de um europeu em meados do século XX. A disseminação de conhecimento sobre saúde pública, medicina e dieta explica a diferença.

No entanto, quando nos aprofundamos mais nos dados, há uma história menos otimista. Martin Kirk e Jason Hickel foram rápidos em contra-argumentar os dados da carta do casal bilionário. Os Gates “usam números baseados em uma linha de pobreza de US $ 1,25 por dia, mas há um forte consenso acadêmico de que esta linha é baixa demais... Usando uma linha de pobreza de US $ 5 por dia, que até mesmo a Agência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento sugere como o mínimo necessário para que as pessoas possam obter comida adequada e ter uma chance de alcançar a expectativa de vida normal, a pobreza global medida neste nível não tem caído. Na verdade, tem aumentado – dramaticamente – ao longo dos últimos 25 anos para mais de 4 bilhões de pessoas, ou quase dois terços da população mundial”.

Atualmente, o Banco Mundial já aumentou sua linha de pobreza oficial para US $ 1,90 por dia. Mas isso simplesmente ajusta o antigo valor de US $ 1,25 para as mudanças no poder de compra do dólar dos EUA. Mas isso também significou que a pobreza global foi reduzida em 100 milhões de pessoas da noite para o dia.

E como Jason Hickel aponta, este US $ 1,90 é ridiculamente baixo. Um limite mínimo seria de US $ 5, como calculou o Departamento de Agricultura dos EUA como o mínimo necessário para comprar comida suficiente. E isso ainda não leva em conta outros requisitos para a sobrevivência, como moradia e roupas. Hickel mostra que na Índia as crianças que vivem com US $ 1,90 por dia têm uma chance de 60% de estarem desnutridas. No Níger, as crianças que vivem com 1,90 dólares têm uma taxa de mortalidade três vezes superior à média global.

Em um artigo de 2006, Peter Edward, da Universidade de Newcastle, usa uma “linha de pobreza ética” que calcula que, para atingir a expectativa de vida humana normal de pouco mais de 70 anos, as pessoas precisam de 2,7 a 3,9 vezes o valor da linha de pobreza existente, que no passado foi de US $ 5 por dia. Usando os novos cálculos do Banco Mundial, isto representaria US $ 7,40 por dia. O que representa uma cifra de cerca de 4,2 bilhões de pessoas vivendo na pobreza hoje; um acréscimo de até 1 bilhão de pessoas nos últimos 35 anos.

Agora, outros especialistas defendem que a razão pela qual há mais pessoas na pobreza é porque há mais pessoas! A população mundial aumentou nos últimos 25 anos. Você precisa olhar para a proporção da população mundial na pobreza; e com um corte de US $ 1,90, a proporção abaixo da linha caiu de 35% para 11% entre 1990 e 2013. Então, os Gates estavam certos, afinal de contas, argumentam. Mas isso é malícia, para dizer o mínimo. O número de pessoas em situação de pobreza, mesmo no limiar ridiculamente baixo de US $ 1,25 por dia, aumentou, mesmo que não tanto quanto a população total nos últimos 25 anos. E mesmo assim, toda esta evidência otimista de especialistas está realmente baseada na melhoria dramática da renda média na China (e, em menor medida, na Índia).

Em seu artigo, Peter Edward descobriu que havia 1,139 bilhões de pessoas recebendo menos de US $ 1 por dia em 1993, e que esse número caiu para 1.093 bilhões em 2001, uma redução de 46 milhões. Mas a redução da China nesse período foi de 108 milhões (nenhuma mudança na Índia), de modo que toda a redução nos números de pobreza foi devida à China. Excluindo a China, a pobreza total permaneceu inalterada na maioria das regiões, aumentando significativamente na África subsaariana. E, de acordo com o Banco Mundial, a pessoa pobre “média” em um país de baixa renda vivia com 78 centavos de dólar por dia em 2010, em comparação com 74 centavos por dia em 1981, quase nenhuma mudança. Mas essa melhora foi toda na China. Na Índia, o rendimento médio dos pobres subiu para 96 centavos de dolar ao dia em 2010, comparado com 84 centavos em 1981, enquanto os rendimentos dos pobres médios da China subiram para 95 centavos, contra 67 centavos. A economia estatal da China, ainda na maior parte planejada, viu as pessoas mais pobres fazerem o maior progresso.

Os níveis de pobreza não devem ser confundidos com a desigualdade de renda ou de riqueza. Sobre a segunda, a evidência da crescente desigualdade de riqueza globalmente está bem registrada e é a mesma história. Se você tirar a China dos números, a desigualdade global vem crescendo nos últimos 30 anos. O gráfico em formato de “elefante” da desigualdade global, apresentado por Branco Milanovic, constatou que os cerca de 60 milhões de pessoas que constituem o 1% de maior rendimento no mundo viram seus rendimentos crescerem 60% desde 1988. Cerca de metade deles são os 12% de estadunidenses mais ricos. O restante do 1% do topo é composto pelos 3 a 6% no topo dos britânicos, japoneses, franceses e alemães, e o 1% superior de vários outros países, incluindo Rússia, Brasil e África do Sul. Estas pessoas integram a classe capitalista mundial – os proprietários e controladores do sistema capitalista e os estrategistas e criadores de políticas do imperialismo.

Mas Milanovic também descobriu que aqueles que ganharam ainda mais renda nos últimos 20 anos são aqueles na “classe média global”. Estas pessoas não são capitalistas. Trata-se principalmente de pessoas na Índia e na China, anteriormente camponeses ou trabalhadores rurais que migraram para as cidades para trabalhar em sweatshops e nas fábricas da globalização: suas rendas reais saltaram de uma base muito baixa, mesmo que suas condições e direitos não tenham acompanhado. Os maiores perdedores são os mais pobres ainda (principalmente os agricultores africanos) que não ganharam nada em 20 anos.

A evidência empírica apoia a visão de Marx de que, sob o capitalismo, haveria uma “imiseração da classe operária” (empobrecimento) e refuta a Carta de Gates de que as coisas estão melhorando. Qualquer melhoria nos níveis de pobreza, não importa como seja medida, vem do aumento da renda na China controlada pelo Estado e qualquer melhoria na qualidade e na duração da vida provém da aplicação da ciência e do conhecimento através do gasto público na educação, no saneamento básico, prevenção e proteção contra doenças, hospitais e melhor desenvolvimento infantil. São coisas que não vêm do capitalismo, mas da preocupação com o bem comum.

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