20 de maio de 2017

Brasil: Temer está no seu fim?

Michael Roberts

The Next Recession

A notícia de que o presidente de direita do Brasil, Temer, foi pego tentando subornar políticos para se manterem calados sobre acusações de corrupção, aumenta a probabilidade de que ele seja cassado pelo Congresso brasileiro este ano. Temer já é o presidente mais impopular da história democrática do Brasil. Ele só entrou no cargo organizando um "golpe constitucional" que derrubou a presidente eleita de centro-esquerda, Dilma Rousseff, com base nas chamadas "violações orçamentárias". Uma aliança de partidos em favor de medidas pró-capitalistas para cortar salários, benefícios sociais e pensões tomou conta do Congresso para apoiar Temer. Os mercados de ações e a moeda brasileira subiram e o capital internacional voltou a investir.

Mas agora todas estas "reformas" no interesse da rentabilidade estão em perigo. Embora as políticas neoliberais adotadas pelos anteriores presidentes do Partido dos Trabalhadores, Lula e Dilma, tenham levado a uma perda de apoio entre a classe trabalhadora brasileira e sua eventual destruição, a aliança liderada por Temer nunca recebeu o apoio da maioria e o último escândalo poderia levar a seu fim.

Para onde isso vai levar a economia brasileira e seu povo é difícil de julgar - eu deixo para que meus leitores brasileiros expliquem. Mas aqui posso acrescentar que o objetivo da administração Temer tem sido claro: impulsionar a baixa rentabilidade da indústria e do capital brasileiros, reduzindo a parcela que vai para o trabalho; destruir os sindicatos e outras tendências de oposição; e recorrer ao capital estrangeiro para obter apoio.

A grande razão pela qual o governo Dilma caiu foi a economia. Após o colapso dos preços das commodities a partir de 2011, a economia brasileira mergulhou em uma queda demorada, mas profunda. E ainda está nesta recessão econômica.


Mas Temer e o capital brasileiro, após expulsar Dilma, esperavam que uma recuperação geral da economia mundial se espalharia para o Brasil. As coisas mudariam e permitiriam cimentar seu domínio. E tem havido alguns sinais de tal recuperação. Os empresários brasileiros mostraram sinais de mais confiança.


Embora os preços das commodities não tenham retornado às alturas inebriantes de antes de 2010, pelo menos inverteu-se um pouco de seu colapso profundo no período até o final de 2015. Além disso, no último ano, parece que o prognóstico de um colapso na China e uma desaceleração nos EUA não se materializou. E a China e os EUA são, de longe, os maiores mercados de exportação do Brasil.


Além disso, a recessão econômica levou a uma grande queda nas importações de bens estrangeiros. Assim, a balança comercial brasileira melhorou.


E depois da "fuga de capitais" significativa dos brasileiros ricos sob Dilma, o investimento estrangeiro começou a retornar ao Brasil, dado seu governo pró-capitalista.


Um dos resultados da profunda depressão foi a queda acentuada da inflação. Assim, embora o salário para a família brasileira média tenham estagnado ou mesmo caído, em termos reais (acima da inflação) eles aumentaram, ainda que apenas para o nível de dois anos atrás.


Mas o desemprego continua em espiral, já que as empresas brasileiras reduzem o pessoal e os empregos do setor público são dizimados.


O futuro de médio prazo para a economia brasileira não parece brilhante, apesar do recente otimismo dos principais economistas e políticos pró-capitalistas no Brasil. Foi um boom das commodities que alimentou grande parte do crescimento do PIB brasileiro antes de 2010. A participação do país nas exportações globais de recursos não-petrolíferos aumentou de 5% em 2002 para 9% em 2012. Hoje os preços das commodities permanecem altos comparados com suas médias históricas, mas o aumento excepcional da demanda e dos preços se estabilizou.

Ao mesmo tempo, tanto as famílias como as corporações ficaram sobrecarregadas com dívidas significativas. Dívida das famílias cresceu de 20 por cento da renda em 2005 para 43 por cento da renda em 2012, e altas taxas de juros reais (em média 145 por cento em cartões de crédito) tornam este um fardo pesado para os consumidores. No lado do governo, as despesas federais aumentaram de 15,7% do PIB em 2002 para 18,9% em 2013, principalmente devido aos pagamentos de juros sobre a dívida. Como resultado, os impostos já subiram de 29 por cento do PIB em 1995 para 36 por cento em 2013, o maior nível entre os pares do mercado emergente do Brasil. Como parcela do PIB, a dívida bruta do setor público brasileiro é inferior a um terço da do Japão, mas os custos do serviço da dívida são quase 15 vezes mais altos.

Acima de tudo, há pouco sinal de que o capital brasileiro possa realmente desenvolver as forças produtivas da economia e de seu povo. As exportações de recursos e o consumo alimentado pelo crédito não se traduziram em maiores investimentos ou produtividade. Entre 2000 e 2011, a taxa de investimento global do Brasil foi de 18% do PIB, abaixo de outras economias em desenvolvimento, como Chile (23%) ou México (25%) e muito abaixo da China (42%) e da Índia (31%).


A produtividade do Brasil está quase estagnada desde 2000; hoje é pouco mais da metade do nível alcançado no México.


Segundo a McKinsey, consultora de gestão global, mais da metade da população brasileira permanece abaixo de uma renda mensal per capita de R$ 560. Reduzir esse nível de pobreza para menos de 25% exigiria produtividade quatro vezes mais rápida que a taxa atual. E não há perspectiva disso sob o capitalismo no Brasil. Isso porque a rentabilidade do capital brasileiro é baixa e continua baixa.

A lucratividade do setor capitalista dominante no Brasil esteve em declínio secular, impondo pressão contínua de baixa sobre o investimento e o crescimento. Certamente, a derrubada dos regimes militares e o aumento dos preços das matérias-primas viraram a queda da rentabilidade durante algum tempo. Mas a rentabilidade agora ainda está bem abaixo de seus melhores anos no início dos anos 2000.

O gráfico abaixo mostra três medidas indexadas (1963 = 100) (M = Maito, Mar = Marquetti, P = minha com base nas tabelas Penn World e poli = média aplainada).


Mesmo se Temer sobreviver, a elite dominante do Brasil enfrenta uma tarefa difícil ao impor o controle sobre sua classe trabalhadora e cortar gastos públicos e salários, atraindo assim capital estrangeiro significativo. É mais provável que a elite governante fuja com seu capital a cada sinal de dificuldade. Assim, o capitalismo brasileiro ficará preso em um futuro de baixo crescimento e baixa rentabilidade, com contínua paralisia política e econômica. E isto sem que uma nova recessão global surja no horizonte.

2 comentários:

  1. Por favor, envie suas traduções para voyager@voyager1.net

    Para serem publicadas no site https://www.facebook.com/voyagerum/

    Muito obrigado

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