16 de maio de 2017

Comissão da Verdade e Reconciliação revela história da guerra da Coreia

Os EUA e a Coreia do Sul executaram massacres de civis

Eric Struch

Information Clearing House

Tradução / Segundo conta grande parte dos manuais de história, a guerra da Coreia teria começado com a invasão do Sul, em 25 de junho de 1950, pelo Norte comunista. Os EUA, amantes da liberdade, teriam então vindo em auxílio da democrática Coreia do Sul ameaçada. A realidade foi muito diferente.

Não só a Coreia do Sul era um regime ditatorial fascista como um fantoche dos EUA, Syngman Rhee, fez o primeiro movimento, preparou-o com mais de um ano de antecedência. Esta preparação incluía usar organizações paramilitares fascistas e o exército regular para ataques transfronteiriços contra povoados do Norte a fim de testar as defesas da República Popular Democrática da Coreia (RPDC).

Internamente, a preparação significou também levar a cabo execuções em grande escala de supostos comunistas, pessoas de esquerda e qualquer um que se opusesse ao regime neocolonial dos EUA no Sul. A maioria destes massacres ocorreu durante o verão de 1950, mas milhares de civis foram executados por militares e policiais da Coreia do Sul ao longo da guerra.

Os militares dos EUA – que tinham o comando operacional do exército da Coreia do Sul – não só tinham conhecimento destes massacres, como assistiram e mesmo dirigiram muitas das execuções. Que estes massacres ocorreram era do conhecimento comum entre as pessoas, tanto no Norte como no Sul. Porém, devido à repressão anticomunista e a "lei de segurança nacional", que ameaçava com penas de décadas na prisão, até recentemente ninguém no Sul ousava falar.

Meio século de silêncio oficial começou finalmente a terminar após a árdua luta do movimento pró-democracia na década de 1980 que criou um espaço político. Mesmo aqueles que fugiram para os Estados Unidos a fim de escapar à repressão não podiam falar. Eles dependiam de americanos de origem coreana para postos de trabalho, habitação e empréstimos e estes elementos privilegiados muitas vezes tinham ligações com o partido de direita Grand National Party ou à CIA sul-coreana.

Ao longo de décadas uma voz disse a verdade ao mundo acerca dos assassinatos em massa. A imprensa da RPDC que constantemente tentou chamar a atenção do mundo para estes crimes. Dado que a propaganda racista de Washington anti-RPDC era onipresente a verdade nunca ganhou qualquer atenção nos meios de comunicação controlados.

Comissão da Verdade e Reconciliação

Atualmente na Coreia do Sul, a Comissão Verdade e Reconciliação (CVR), fundada pelo governo, liderada por Ahn Byung-ook está a investigar 1 200 incidentes de execuções em massa além de 215 casos em que o exército americano esteve diretamente envolvido em execuções. Das mais de 150 valas desenterradas até agora, a Comissão tem a evidência física, documentação e testemunhas para confirmar oficialmente duas execuções em massa em Ulsan e Cheongwon.

O governo da Coreia do Sul reconhece agora que as suas forças armadas, polícia nacional e paramilitares fascistas mataram mais de 100 mil civis naquela época, quando a população da Coreia era de 20 milhões. Kim Dong-choon da CVR qualificou esta estimativa do governo sobre o custo humano do sangrento paroxismo anticomunista "muito conservadora".

Os números podem ser tão elevados como 200 mil pessoas, com algumas fontes a colocá-lo tão alto quanto 300 mil. Estes números não incluem as execuções extrajudiciais durante a guerra pelas tropas fantoche da Coreia do Sul.

Ideólogos da direita, tanto em Seul como em Washington, apontam para supostos massacres realizados pelo Exército Popular da Coreia (EPC), negando que os atualmente comprovados assassinatos perpetrados pelas forças do Sul fantoche tenham ocorrido. Na realidade, de acordo com um estudo da CIA datado de 19 de julho de 1950, citado pelo especialista em assuntos coreanos Bruce Cumings, durante a ocupação do Sul pelo EPC "funcionários norte-coreanos dirigiram uma situação tensa, mas sem muito derramamento de sangue."

Noutro relatório da CIA, a partir de 1950, uma "grande percentagem de sindicalistas e dirigentes sindicais juntaram-se ao EPC somente 10 dias durante a guerra. O Presidente da RPDC Kim Il Sung havia enviado uma mensagem pela rádio a exortar o povo da República da Coreia a organizar-se por si próprio. Assim, foram formados Comitês do Povo que procederam à apreensão de propriedades japonesas e do governo da Coreia do Sul, bem como dos mais ricos.

As unidades do EPC no sul distribuíram arroz ao povo e esvaziaram as prisões de presos políticos, que então se viraram contra a polícia e os grupos fascistas. Tropas do EPC em aliança com o campesinato pobre, realizaram uma reforma democrática da terra à medida que avançaram para o Sul. Mesmo no caos da guerra, o EPC manteve a sua disciplina. Cumings diz que "documentos norte-coreanos capturados continuaram a mostrar que funcionários de alto nível advertiram contra a execução de pessoas."

O mesmo não pode ser dito das forças fantoche da República da Coreia. Antes mesmo do início da guerra, o governo da República da Coreia criou a National Guidance League, um corpo de inspiração fascista para a "reeducação" de pessoas que a ditadura de Rhee afirmava serem comunistas. Em 1950, mais de 300 mil pessoas foram forçadas a participar do naquela organização.

Kim Dong-choon diz que a polícia ou o exército executaram muitos dos admitidos à força na Liga. A Polícia Nacional, sob a supervisão de um grupo de conselheiros militares dos EUA (Korean Military Advisory Group, KMAG) executou 7.000 pessoas em Yangwol (perto de Taejon) entre 2 a 6 de junho de 1950.

Os EUA supervisionaram os extermínios

Alan Winnington do Daily Worker britânico num artigo intitulado "U.S. Belsen in Korea" informou que 20 testemunhas observaram que em 2 de julho (de 1950) caminhões da polícia chegaram e fizeram as pessoas cavarem seis poços de 200 jardas [183 m] cada. As execuções duraram três dias, com duas metralhadoras, quando as balas acabaram, procederam à decapitação pela espada. De acordo com testemunhas oculares, oficiais dos EUA supervisionaram tudo sentados nos seus jeep. A embaixada dos EUA em Londres, em seguida, teve o descaramento de chamar às conclusões de Winnington uma "invenção".

Militares dos EUA, através de seu comando operacional sobre o exército da RK, envolveram-se ao mais alto nível em execuções. Charles Grutzner, correspondente do New York Times falou sobre "a matança de centenas de civis sul-coreanos, mulheres, bem como homens, por algumas tropas dos EUA e polícia da República".

Keyes Beech, em 23 de julho de 1950, escreveu um artigo no Newark Star-Ledger: "Não é hora de ser coreano, porque os yankees estão atirando em todos."

Donald Nichols, um antigo oficial da segurança da força aérea, escreveu no seu livro de memórias de 1981 ter testemunhando um massacre "inesquecível" de "aproximadamente 1 800 pessoas" em Suwon durante a guerra.

Além disso, uma investigação feita em 1960 pelo legislador da Coreia do Sul Park Chan-hyun durante o interlúdio (relativamente) democrático da Segunda República de Chang Myon revelou que cerca de 10 mil pessoas haviam sido executadas em Busan.

A ditadura na Coreia do Sul era instável

O que estas atrocidades horríveis e desumanas revelam é que a ditadura fantoche da Coreia do Sul sabia que o seu poder assentava em bases profundamente instáveis. Tal como outro relatório bastante franco da CIA citado por Cumings observou, a liderança do governo de direita da Coreia do Sul era "formada por essa classe numericamente pequena que praticamente monopoliza a riqueza e a educação no país... Dado que essa classe não poderia ter adquirido e mantido a sua posição favorecida sob domínio japonês sem um mínimo de 'colaboração', tem tido dificuldade em encontrar candidatos aceitáveis para cargos políticos e foi forçado a apoiar políticos expatriados importados como Syngman Rhee e Kim Koo. Estes, embora não tenham nenhuma mácula pró-japonesa, são essencialmente demagogos determinados a um regime autocrático."

A camarilha corrupta de Rhee sabia que o seu plano para Norte dependia do afogamento em sangue dos elementos patrióticos e comunistas no Sul. Bolsas da guerrilha comunista, que tinham lutado durante a ocupação japonesa ainda estavam ativas no Sul em 1950.

De acordo com o general W.L. Roberts, comandante do KMAG, o exército fantoche da Coreia do Sul matou 6 000 guerrilheiros comunistas de novembro de 1949 a março de 1950. Acerca dos ataques contra povoados na fronteira Norte realizados pelo exército e paramilitares das juventudes fascistas que tiveram lugar em 1949, disse o general Roberts que "cada um foi na nossa opinião, provocado pela presença de uma pequena saliência sul coreana a Norte do paralelo 38... Os sul-coreanos desejavam invadir o norte".

Apesar da escalada de assassinatos em massa realizados pelo regime fantoche de Rhee, o sentimento patriótico ainda corria tão profundamente entre o povo coreano que mesmo na Assembleia Nacional da Coreia do Sul, 48 membros declararam lealdade à Coreia do Norte no final de julho de 1950.

A questão da execução em massa de civis ainda divide aqueles que são subservientes ao neocolonialismo dos EUA e aqueles que querem uma Coreia independente. O ex-presidente Roh Moo-hyun da Coreia do Sul desculpou-se em missão oficial pelos 870 assassinatos confirmados no Ulsan, chamando-os de "atos ilegais". Em contraste, o presidente Lee Myung-bak, (presidente entre 2008 e 2013) já profundamente impopular, ameaçou cortar o financiamento à CVR.

Sete anos atrás, o governo dos EUA finalmente admitiu parte de sua própria culpa: que em 1950 soldados seus haviam matado centenas de civis inocentes no município sul-coreano de Nogun-ri logo após o início da guerra da Coreia. O presidente Bill Clinton expressou "profundo pesar" numa declaração pública em 11 de janeiro de 2001.

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