26 de maio de 2017

Homem queimado na Venezuela

O homem incendiado em Caracas pode ser o símbolo perfeito da oposição desembestada do país.

Greg Grandin


Um homem que foi incendiado pelos opositores do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foge em Caracas, Venezuela, 20 de maio de 2017. (Reuters / Marco)

Tradução / Outro dia, manifestantes antigoverno na Venezuela incendiaram um homem, queimando quase 80% de seu corpo. O homem tinha a pele negra, e os partidários do governo dizem que era um chavista, para destacar a selvageria racista de seus adversários. A oposição diz que era um ladrão.

O vídeo do incidente – que mostra um manifestante antigoverno jogando um agente acelerador sobre o homem, que explode em chamas e corre pela rua enquanto outros manifestantes, ao invés de ajudar a apagar o fogo, o deixam queimar – é assustador. Não se encaixa, de forma alguma, na narrativa de ativistas bravos, virtuosos e democráticos que enfrentam um governo tirânico. Os canais de notícias escolheram uma abordagem curiosa: decidiram que a notícia não é "manifestantes da oposição incendiaram um homem no domingo", mas "Maduro estraçalha manifestantes da oposição por incendiarem um homem no domingo" Escolha o lead correto, e você também pode se tornar um correspondente estrangeiro: Homem explode bomba na entrada da arena; ou: Theresa May estraçalha homem por explodir bomba na entrada da arena? Os EUA são responsabilizados por bombas que atingiram hospital afegão, ou: os EUA são responsabilizados por bombas que atingiram hospital afegão?

A crise que atingiu a Venezuela é profunda, com calamidades sobrepostas, incluindo escassez crítica de alimentos e remédios, explosão da criminalidade violenta, corrupção, degeneração da capacidade petrolífera e a escalada de protestos antigovernamentais. A crise é tão existencial quanto econômica e política, atingindo o cerne da identidade nacional. Ativistas se inquietam com a possibilidade de seu país se tornar outra Síria. (Notei, depois do último texto que publiquei sobre a Venezuela – uma "mesa redonda" de opiniões de fontes diversas – um fenômeno novo, no qual o post foi denunciado por alguns com a mesma moralidade geralmente reservada para discussões sobre a Síria, em que "Chavista" foi usado com a mesma veemência de "Assadista". Isso não pode ser bom.)

Há muitos simpatizantes do Chavismo, dentro e fora da Venezuela, que criticam muito o sucessor de Hugo Chávez, Nicolás Maduro. No fim das contas, no entanto, quem cada um culpa pelo desastre depende da sua visão política. Os esforços da oposição para derrubar o governo são uma resposta ao autoritarismo do regime, e são justificados por este – ou, inversamente, o autoritarismo do regime é uma resposta justificada pelos esforços dos oponentes em derrubá-lo. Por um lado, o Estado Chavista tem governado como se estivesse em uma longa campanha eleitoral, em constante risco de ser derrubado, senão pelas elites domésticas, pelas elites domésticas apoiadas pelo eixo Washington-Bogotá. Por outro lado, a oposição faz uma igualmente longa campanha não para controlar e fazer um contrapeso ao chavismo, mas para derrubá-lo.

Aqueles que acompanham a situação da Venezuela conhecem a história desse debate, desde quando Chávez foi eleito pela primeira vez, em 1998, passando pelo golpe de Estado de 2002, apoiado pelos EUA, a greve do petróleo, o recall de 2004, os anos dourados do Chavismo, que duraram da reeleição de Chávez, em 2006, até sua morte, de câncer, em 2013, quando os indicadores de saúde, educação e habitação estavam subindo e a Venezuela estava no caminho certo para atingir muitas das Metas sociais do milênio. Julia Buxton fez um resumo muito bom nesta entrevista à New Left Review, há cerca de um ano.

Onde quer que se localize a causa inicial da crise – seja como algo latente na ideia de usar a política para alcançar a reforma social, ou manifesto no medo primordial da classe dominante de perder status econômico, cultural e racial – a Venezuela está em uma espiral descendente e autopropulsora, presa ao que o grande historiador da Europa, Arno Mayer, chamou, escrevendo sobre as revoluções francesa e russa, de as fúrias (no livro The Furies, sem tradução em português).

Mayer fornece dois critérios para julgar o quão revolucionária é realmente uma revolução: o primeiro tem a ver com a natureza da reação local que provoca. Para Mayer, "revolução/contrarrevolução" é um conceito indivisível; você não pode ter a primeira sem a segunda. O segundo critério está relacionado à reação internacional. Todas as revoluções verdadeiras desafiam não apenas a hierarquia local, mas a hegemonia dominante do sistema internacional.

Para Mayer, as "fúrias" são dialéticas. A ruptura revolucionária da soberania do estado cria um vácuo preenchido não apenas por conflitos políticos e ideológicos, mas por antagonismos locais, ódio às pretensões da elite, desejo de vingança, interesses e ambições da base. As revoluções são "estufas" da "realização dos desejos", momentos simultaneamente comprimidos e expandidos de intensas esperanças e temores – esperança de desprendimento e libertação, medo tanto da chegada do novo quanto da volta do antigo.

É preciso prestar muita atenção ao desdobramento cronológico desses êxtases, às desforras reais ou imaginárias que marcam os contornos da polarização. Os revolucionários, os bem-sucedidos como os aspirantes, têm que aproveitar essas fúrias, ligando o local ao nacional em um novo sistema de soberania. Enquanto procuram estabelecer a soberania sobre um terreno social que eles mesmos arrasaram, os revolucionários também buscam monopolizar a violência e o terror, não só para neutralizar a inevitável oposição, mas também para incorporar demandas populares diversas por justiça e vingança em novas estruturas de estado. Esta é uma das razões pelas quais o Terror Vermelho é muitas vezes público, incessantemente teorizado e abertamente justificado (pense nos primeiros julgamentos e fuzilamentos em Cuba, realizados às claras), enquanto o Terror Branco faz seu trabalho na sombra, discreta e secretamente (pense em Pinochet no Chile ou Uribe na Colômbia).

Contra aqueles que argumentam que o terror é intrínseco à ideologia revolucionária, Mayer recorre ao existencialismo marxista dos anos 1970 para argumentar que os atores políticos não operam com um roteiro ideológico fixo. Enquanto atores históricos emergentes no palco político confrontados com obstáculos e oposições aparentemente arcaicos, Mayer escreve, "os revolucionários aceleram seu salto em direção a um futuro necessário, mas incontrolável e perigoso". Ele cita Maurice Merleau-Ponty para argumentar que, em momentos revolucionários, "a história é suspensa e as instituições em extinção exigem dos homens decisões fundamentais e de enorme risco, uma vez que seu resultado final depende de uma conjuntura em grande parte imprevisível". "História", escreve Merleau-Ponty, "é terror porque há contingência”. Assim, os revolucionários muitas vezes tomam a resistência ao seu programa por mais coerente do que normalmente é, levando a um corte amigo-inimigo cada vez mais profundo.

Os contrarrevolucionários, por sua parte, diante de uma constante ameaça à sua classe, status e visão de mundo, não podem mais simplesmente defender de maneira automática a hierarquia como algo bom segundo o senso comum. Eles precisam se tornar mais ideológicos, mais ativos, o que geralmente requer adotar um estilo revolucionário e disposição para se projetar no futuro. Mas para que a contrarrevolução se fortaleça, precisa olhar para fora e atrair a atenção e o apoio, sob a forma de invasão ou de cerco, de potências estrangeiras (como os venezuelanos de direita fizeram com Washington e, em menor grau, com Bogotá sob Uribe). Mas também é preciso olhar para baixo. As classes têm que se conectar com as massas, que têm seus próprios motivos para se opor ao – ou romper com – o estado revolucionário.

A revolução bolivariana, inaugurada com as eleições de Chávez, em 1998, claramente passou nos dois testes: destruiu um establishment doméstico já cambaleante e seus mitos governamentais, e chocou a hierarquia estabelecida, abrindo o campo político para a maioria dos venezuelanos, até então excluídos e marginalizados. Ameaçou ainda os pressupostos neoliberais da ordem internacional, liderada pelos Estados Unidos, especialmente nos esforços da revolução em repolitizar o petróleo, retornando à concepção dos anos 1970 de usar o recurso como instrumento para taxar nações ricas e, através da ajuda internacional e programas de bem-estar social, socializar o lucro. E a Venezuela hoje parece presa em uma espiral de Mayer, onde contratempos aprofundam fissuras, dando um significado político a todos os atos, transformando cada evento em uma provocação, intensificando a distinção amigo-inimigo e deixando a Venezuela à beira de uma guerra civil ou de um banho de sangue.

Mas é preciso salientar que, na Venezuela, as fúrias foram, decididamente, não-dialéticas. Sim, o regime tornou-se mais autoritário, e os observadores não estão de acordo sobre em que medida isso foi (1) uma resposta às ações da oposição, ou (2) inerente à ideia e à política do próprio Chavismo. Mas, apesar de todos os arroubos populistas de Hugo Chávez e dos ataques retóricos à oligarquia, seu governo foi extraordinariamente atraente, capaz de incorporar inimigos em potencial em suas novas estruturas políticas e econômicas com relativamente pouca repressão. Poucas pessoas foram presas por seu papel no golpe de Estado de 2002, ou seja, por tentar derrubar o governo (nos Estados Unidos, Oscar López Rivera passou 36 anos na prisão por uma atuação secundária no planejamento de uma ação com bombas pela independência porto-riquenha – e Leonard Peltier continua preso).

De fato, mesmo com toda a atenção dada na Venezuela a Leopoldo López, preso por seu envolvimento nos protestos violentos de 2014, as vítimas chavistas do golpe de 2002 criticam os dois pesos e duas medidas na indulgência com os conspiradores golpistas, ressaltando que a pele branca ainda representa algo como um passe livre para venezuelanos de direita saírem da prisão. Em outras palavras, o estado chavista evitou há muito o que Mayer argumenta ser um requisito central da centralização de um estado revolucionário: a canalização da raiva e das queixas populares em novas estruturas judiciais através de atos públicos destinados a ritualizar legitimidade. "Que mensagem está sendo enviada ao povo venezuelano?", perguntou uma vítima, antes de ela mesma responder: "Não se preocupem, golpistas, fascistas, vocês podem continuar matando chavistas... não haverá punição para vocês, vocês não serão presos, não terão que pagar por isso".Nos relatos de Mayer sobre revolução e contrarrevolução, o tipo de violência utilizada pela oposição, primeiro em 2002-03 e, depois, de 2013 até hoje, deveria (em vez de derrubar o governo, como no Chile em 1973) ter mergulhado o país em uma guerra civil (pense na Nicarágua sandinista), numa guerra internacional (novamente Cuba, que procurou enfraquecer a campanha de Washington contra ela patrocinando "dos, tres, muchas" insurreições pela América Latina) ou um período de longo de Terror Vermelho (como na Rússia e na França). Mas houve nenhuma guerra ou expurgo. Ainda.

Em 2013, animada por uma eleição nacional mais apertada do que esperado (que levou Maduro ao poder após a morte de Chávez), a campanha derrotada de Henrique Capriles (considerado parte da ala mais moderada da oposição, por sua disposição em contestar as eleições) denunciou, sem provas, uma fraude e incitaram protestos. Oito chavistas foram mortos. Meses depois, em 2014, a oposição incitou protestos de rua mais violentos, que deixaram mais de 40 pessoas mortas, na sua maioria chavistas ou funcionários do governo. Um motociclista foi decapitado por um fio que manifestantes antigoverno amarraram na estrada, uma guilhotina improvisada. Mais de 50 pessoas morreram no atual ciclo de protestos e contra-protestos.

Maduro, de fato, cedeu em uma série de questões, inclusive estabelecendo uma data para as eleições regionais. Mas a oposição – dividida entre os "moderados", dos quais muitos adotaram o sistema de direitos sociais do Chavismo, e "extremistas" de direita, que acreditam travar a luta do fim dos tempos – está totalmente dedicada a acelerar a crise, convocando mais e mais protestos. Esses protestos focam nos agentes repressivos do estado, quando forças de segurança são atacadas com balas, pedras e coquetéis Molotov, na esperança de provocar represálias, que serão então cobertas pelos meios de comunicação internacionais. Mas eles também focam nos símbolos redistributivos do estado. Como os Contras fizeram na Nicarágua, na década de 1980, os manifestantes na Venezuela gastam energia destruindo centros de saúde e perturbando o funcionamento de centros de distribuição de alimentos. O objetivo é claro: cortar tanto a mão direita (a ação repressiva) enquanto a mão esquerda (ação social) do estado, tornando-o incapaz.

O governo Maduro parece paralisado. Os sandinistas, na década de 1980, pagaram pela Guerra dos Contras ao reduzir muitos de seus programas sociais e embarcar em um programa punitivo de austeridade. O antropólogo Roger Lancaster me conta que a primeira vez que ouviu a palavra "neoliberalismo" foi quando fazia um trabalho de campo em Manágua, para descrever o recuo dos sandinistas em sua ambiciosa agenda social inicial. Ainda assim, diz Lancaster, os "sandinistas resistiram à crise, em grande parte graças à disciplina de sua base, para não falar da disciplina de sua polícia e do exército. Os sandinistas souberam reprimir sem causar nem um banho de sangue nem uma onda de assassinatos seletivos. Mas é claro que esse período de dificuldades corroeu o apoio popular ao projeto sandinista: a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSNL) perdeu as eleições seguintes, mesmo depois de vencer a guerra. "De certa forma, Maduro está em um aperto pior, em grande parte porque Chávez optou por manter a moeda nacional artificialmente supervalorizada (o que contribui para a escassez). E Maduro insiste em fazer pagamentos “surreais e suicidas” da dívida externa, em vez de gastar esse dinheiro em ajudas emergenciais que acalmem a tempestade.

A bola está com a oposição, mas neste momento o movimento é auto-impulsionado e potencialmente calamitoso. Eles não podem cancelar os protestos, por mais violentos que se tornem, já que isso arriscaria enfraquecer seu poder. Um retorno à calma poderia criar um cenário onde a ala "moderada" negociaria um acordo com o governo, sem a capitulação total deste último (o único resultado aceitável para os extremistas). Também é preciso que os protestos continuem para que se mantenha a força centrípeta, à la Mayer, capaz de unir as classes altas e as massas. Os meios de comunicação em inglês estão constantemente enfatizando a natureza multi-classe e multiétnica dos manifestantes, e o fato de que a oposição, diferentemente do passado, tem hoje uma base ampla. Talvez.

Mas eles estão desesperados para que os chavistas de verdade – aqueles que vivem em favelas das encostas ao redor de Caracas e que ajudaram Chávez a retornar ao poder após o fracassado golpe de 2002, em bairros como 23 de enero – passem para a oposição. Alejandro Velasco, meu colega na NYU e autor do excelente Barrio Rising: Urban Popular Politics and the Making of Modern Venezuela (A ascensão do Barrio: Política Popular Urbana e a Construção da Venezuela Moderna, sem tradução em português) diz que é verdade que há mais protestos nesses bairros hoje, incluindo saques e vandalismo, do que havia em 2014, mas, em grande medida, ocorrem de forma paralela às manifestações antigovernamentais. Esses bairros, como Velasco explicou recentemente à BBC, apoiaram Chávez porque ele os entendeu não em termos instrumentais ou contingentes, mas como atores "sociais" centrais na política venezuelana. Mesmo que a situação esteja muito ruim, há uma profunda desconfiança nos barrios em relação à oposição, uma sensação de que os líderes querem apenas usá-los como soldados de sua guerra. O que os líderes da oposição fariam se essas pessoas de fato descessem para a capital e decidissem ficar por ali depois que o governo caísse?

Há também um profundo medo do ódio, do racismo e da fúria primitiva da oposição, dirigidos por enquanto aos agentes do governo de Maduro, mas frutos, na verdade, da inclusão dos pobres da Venezuela na esfera pública promovida por Chávez. Afinal, não é nada convincente dizer que aqueles manifestantes antigoverno pensaram estar incendiando um "ladrão" e não um "chavista", uma vez que, para eles, os dois termos são sinônimos. Velasco me diz que ele está "em contato com amigos e conhecidos nos barrios: eles são espantados e com muito medo: 1) da violência revanchista por parte de alguns setores da oposição, 2) de como os meios de comunicação, especialmente no exterior, escondem a violência (ou comemoram, como no caso do homem queimado), 3) de como o governo está mal preparado ou sem disposição para lidar com esta violência (tenho, por exemplo, ouvido muitos argumentos para que Maduro implemente um toque de recolher). Nenhum dos três pontos é surpreendente em si. Juntos, porém, formam um caldeirão de medo e paralisia que tem deixado muita gente aterrorizada, com razão, com o que está por vir".

A imagem do homem correndo em chamas é a metáfora perfeita da oposição da Venezuela.

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