9 de junho de 2017

A esperança transformou o inimaginável em realidade

O Fatalismo está morto e a crença na mudança está de volta

Sam Kriss

Vice

(Dominic Lipinski/PA Wire/PA Images)

Nos dias que seguiram o anúncio dessa eleição, várias pessoas que conheço começaram a fazer algo que, diante da situação, parecia muito estranho: eles decidiram acreditar.

Enquanto a mídia trovejava apocalipticamente sobre uma maioria de 200 assentos para os Tories e a destruição final do projeto socialista; enquanto os Tories se preparavam alucinadamente para um massacre e metade do Partido Trabalhista parecia estar os incitando; enquanto tudo parecia totalmente sombrio e sem ar; enquanto crescia a sensação de estarmos em um navio prisional velho e apodrecido, a água entrando e cada guinada nos fazendo descer para o deserto sem sol nas profundezas do mundo, as pessoas decidiram que na verdade, Corbyn poderia chegar lá. Nós iríamos ignorar os jornais e as pesquisas, nós teríamos fé que algo de bom poderia de fato acontecer – e se isso significasse recuar para uma pequena bolha de fanáticos, tudo bem.

Esta não era uma esperança ingênua; não estávamos nos iludindo. Todo mundo sabia que a situação parecia incrivelmente sombria, que o senso comum e a inevitabilidade política estavam apontando em apenas uma direção, que os ricos e poderosos estavam fazendo tudo o que podiam para nos esmagar completamente. Foi, de certa forma, uma espécie de esperança irônica – a esperança do já-derrotado, mantendo simultaneamente a certeza cansada da perda e a absoluta insistência na vitória. Poucas pessoas genuinamente se atreveriam a acreditar que Corbyn realmente sairia por cima, mas o objetivo era dizer o indizível, era recusar um mundo feio e viver por algumas semanas como se tudo fosse possível. Foi um encantamento. Corbyn é o menino absoluto. Ele nunca perdeu uma eleição na vida. Foi, no final, um tanto mágico: nossos pensamentos, esperanças e puras forças mentais poderiam tornar algo impensável em realidade.

E funcionou.

Desde o início de sua liderança, o Projeto Corbynista foi considerado por todos os especialistas políticos sensatos e impassíveis como sendo uma impossibilidade. Quando as primeiras pesquisas de opinião bateram embaixo no final de 2015, eles vasculharam os números e declararam com a voz morta da razão que tínhamos cometido um erro terrível. Os Trabalhistas estavam bem atrás de onde estavam em 2010, depois da vitória da liderança de Miliband; a única maneira de evitar uma derrota catastrófica na próxima eleição seria através de uma onda inédita na história recente da política britânica. A estratégia de Corbyn – reconquistar não-eleitores e energizar jovens com um programa positivo e oferecendo a eles algo tangível ao invés de marketing e palavras vazias – foi universalmente ridicularizada. Todos sabiam que os jovens simplesmente não votam; todos sabiam que uma vez que alguém parasse de se envolver com a política eleitoral, era para sempre. A única maneira dos Trabalhistas irem bem seria imitando os Tories, oferecendo uma versão em miniatura esdrúxula de toda a sua insensibilidade e idiotice para um público essencialmente conservador, levando os limites do discurso político cada vez para mais perto de um buraco pequeno e sufocante, sem esperança, sem ideologia, onde a verdade e o bom senso se calariam em desgosto.

Ontem à noite, conseguimos uma onda sem precedentes na história recente da política britânica. Ontem à noite, vimos um grande número de jovens votando pela primeira vez e votando pelo Partido Trabalhista. Ontem à noite, vimos massas inumeráveis que desistiram da política por décadas voltando, porque tinham algo para acreditar.

As pomposas Cassandras Anti-Corbyn estavam erradas – ensurdecedoramente, magnificamente erradas – porque elas pensavam que a política era antes de tudo sobre números, em vez de pessoas: uma ciência newtoniana morta, o cálculo de corpos inertes. Algo tão amargo, determinado e irônico como a esperança de última hora dos que acreditavam, não tinha como entrar em seus cálculos. Os escritórios locais do partido sitiados todos os dias por centenas de pessoas dispostas a bater nas portas, distribuir folhetos e fazer qualquer coisa para ajudar não tinham como entrar no modelo. Nem as mães bondosas que fizeram ligações telefônicas, nem as grandes multidões comparecendo nas reuniões, ou as crianças fazendo memes no Paint. Isso tudo era só entusiasmo, uma doença de fanáticos, uma onda efêmera que se quebraria contra a solidez bruta do fato político. Não era real. E eles não estavam inteiramente errados: não era real; todo esse entusiasmo era apenas um potencial de tempestade, até que as eleições fossem chamadas e ele fosse derramado pelo céu para assumir forma concreta.

Os Tories realizaram uma campanha que não era sobre pessoas; era sobre o inevitável. Em vez de oferecer qualquer coisa, eles emitiram um comando para o eleitorado: assim é como as pesquisas e os números dizem que as coisas serão, façam acontecer. Theresa May se recusou a debater, porque qual era o objetivo? Isso só a arrastaria até o nível de seus concorrentes condenados. Eles não tentaram realmente ganhar, porque não havia necessidade; a imprensa cuidaria de tudo e diria aos leitores exatamente o que fazer. Numa época em que milhões de pessoas estavam desesperadas por uma mudança positiva, eles espalharam a promessa de uma eternidade sem vida, em que todos os dias seriam como o último – mas com as noites mais longas, o amarelecimento da grama, o escurecimento do sol, porque é assim que as coisas são. Foi o maior ato de auto-sabotagem na história política britânica.

Jeremy Corbyn não é primeiro-ministro – ainda não, pelo menos. Mas o mundo mostrou ter seu próprio tipo de ironia. Depois de semanas de gritaria sobre coalizões caóticas e vínculos com o terrorismo irlandês, os Tories se apoiam agora com a ajuda do DUP, uma gangue de homofóbicos tóxicos e fanáticos, ligados a paramilitares assassinos de extrema direita. Eles estão mais fracos do que nunca; algumas eleições parciais poderiam revogar sua maioria em meses. E nada disso teria sido possível sem Jeremy Corbyn.

Em toda a Europa, os partidos social-democratas tradicionais estão desaparecendo; sob uma Yvette Cooper ou um Owen Smith, o Partido Trabalhista teria se triangulado para o abismo. Os centristas sem sangue, sem esperança e sem sentido tentaram realizar uma espécie de mágica própria – por dois longos anos, eles insistiram que Corbyn era inelegível, e eles pensavam que, dizendo isso com a maior frequência e amargura possível, se tornaria realidade. Mas eles deixaram passar uma coisa: o que eles repetiram era só placebo, o recitar cansativo de como as coisas são. O que todos aprendemos com as eleições ontem à noite é que, como as coisas são, não é o mesmo que como elas sempre serão. As pessoas podem reverter todas as certezas que nos são impostas. O mundo é nosso, podemos mudá-lo.

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