8 de junho de 2017

Esta é a verdadeira história por trás da crise econômica que se desenrola no Catar

Somente as peças de Shakespeare poderiam se aproximar da descrição de tal traição - as comédias, evidentemente

Robert Fisk

The Independent

A nação está agora envolvida em uma crise - mas em que parte a Arábia Saudita está brincando? Reuters

Tradução / A crise no Catar prova duas coisas: a infantilização continuada dos estados árabes e o total colapso da unidade dos muçulmanos sunitas, unidade que teria sido supostamente criada pela participação absurda de Donald Trump na conferência de cúpula dos sauditas, há duas semanas.

Depois de prometer lutar até a morte contra o "terror" xiita iraniano, a Arábia Saudita e parceiros mais íntimos agora se mobilizaram para combater um de seus vizinhos mais ricos, o Catar, que seria a cabeça do "terror". Só em peças de Shakespeare se vê traição de tais proporções. Nas comédias de Shakespeare, claro.

Porque, na verdade, há algo de inacreditavelmente delirante nessa charada. Claro que cidadãos do Catar com certeza contribuíram para o ISIS. Mas, isso, cidadãos da Arábia Saudita também fizeram.

Nenhum catari disparou aviões no dia 11/9 contra New York e Washington. Mas todos os 19 assassinos eram sauditas. Bin Laden não era catari. Era saudita.

Mas Bin Laden dava preferência ao canal al-Jazeera do Catar, para divulgar suas falas pessoais, e foi o canal al-Jazeera quem tentou dar novo ânimo aos desesperados da al-Qaeda/Jabhat al-Nusrah na Síria, garantindo ao líder deles horas e horas de transmissão gratuita para explicar que, sim, eram grupo muito moderado, dedicado amante da paz.

Primeiro, tiremos da frente as partes histericamente cômicas dessa história. Vejo que o Iêmen estaria rompendo suas conexões aéreas com o Catar. A notícia deve ser sido um choque para o pobre emir do Catar, Xeique Tamim bin Hamad al-Thani, porque o Iêmen – sob bombardeio ininterrupto pelos ex-amigos sauditas e dos Emirados –, já não tem sequer um avião aproveitável com o qual criar, imaginem romper, conexões aéreas.

As Maldivas também romperam as relações com o Catar. Com certeza, isso não tem nada a ver com a promessa recente de uma facilidade de empréstimo saudita de cinco anos de US $ 300 milhões para as Maldivas, a proposta de uma empresa de propriedade saudita de investir US $ 100 milhões em uma estância familiar nas Maldivas e uma promessa de estudiosos islâmicos sauditas de gastar US $ 100.000 em 10 mesquitas de "classe mundial" nas Maldivas.

E não vamos mencionar o número bastante significativo de militantes do ISIS e outros cultistas islâmicos que chegaram para lutar pelo ISIS no Iraque e na Síria - bem, das Maldivas.

Agora que o emir do Catar está sem soldados suficientes para defender o próprio pequeno país, os sauditas resolvem que ele teria de solicitar que os exércitos sauditas invadam o Catar para restaurar a estabilidade – como os sauditas em 2011 persuadiram o rei do Bahrain a fazer. Mas o Xeique Tamim sem dúvida espera que a gigantesca base aérea militar dos EUA no Catar seja suficiente para conter a generosidade saudita.

Quando perguntei ao pai de Tamin, Xeique Hamad (que adiante foi impiedosamente derrubado do poder por Tamin) por que não despachara os americanos para bem longe do Catar, ele respondeu: "Porque, se tivesse despachado, meus irmãos árabes me invadiriam."

Tal pai, tal filho, suponho. Deus abençoe a America.

Tudo começou – conforme querem que acreditemos – com um suposto ataque de hackers contra a Agência Catar News, que expôs alguns comentários pouco elogiosos, mas incomodamente corretos, do emir do Catar sobre a necessidade de manter um relacionamento com o Irã.

O Catar negou a veracidade da história. Os sauditas resolveram que era tudo verdade e divulgaram aqueles conteúdos pela própria (e mortalmente entediante) rede de televisão estatal. O supracitado emir, essa era a mensagem, fora longe demais daquela vez. Os sauditas, não o minúsculo Catar, mandam no Golfo. E a visita de Donald Trump não comprovou precisamente isso?

Mas os sauditas têm outros problemas com os quais se preocupar. O Kuwait, longe de romper relações com o Catar, faz agora as vezes de pacificador entre Catar e sauditas e Emirados. O Emirado de Dubai é muito próximo do Irã, recebeu dezenas de milhares de expatriados iranianos e absolutamente não segue o exemplo de ira anti-Catar que vem de Abu Dhabi.

Há poucos meses, Omã estava até fazendo manobras navais conjuntas com o Irã. O Paquistão há tempos declinou o convite para mandar seus exércitos ajudar os sauditas no Iêmen, porque os sauditas requereram só soldados sunitas, não soldados xiitas; o exército paquistanês sentiu-se muito compreensivelmente ultrajado ao se dar conta de que a Arábia Saudita já operava para sectarizar até o corpo militar paquistanês.

O ex-comandante do exército do Paquistão, o general Raheel Sharif, espalhou rumores que está à beira da renúncia como chefe da aliança muçulmana patrocinada pelos sauditas para combater o "terror".

O presidente marechal de campo al-Sissi do Egito andou chiando contra o Catar por apoiar a Fraternidade Muçulmana no Egito – e o Catar, sim, apoia mesmo o grupo agora banido, que Sissi diz, erradamente, que seria parte do ISIS – mas o Egito, embora receba milhões dos sauditas, tampouco tem intenção de mandar soldados seus para ajudar os sauditas naquela guerra catastrófica que fazem contra o Iêmen.

Além disso, Sissi precisa de seus soldados egípcios para expulsar o ISIS e manter, mancomunado com Israel, o sítio contra a Faixa de Gaza palestina.

Mas, se se olha um pouco adiante pela estrada, não é difícil ver o que realmente preocupa os sauditas. O Catar também mantém silenciosos laços com o regime de Assad; ajudou a libertar com segurança as freiras cristãs sírias sequestradas pela Jabhat al-Nusrah; e ajudou a libertar soldados libaneses sequestrados pelo ISIS no oeste da Síria. Quando as freiras deixaram o cativeiro, agradeceram a ambos, a Bashar al-Assad e ao Catar.

E há suspeitas crescentes no Golfo de que o Catar tem ambições muito maiores: financiar a reconstrução da Síria pós-guerra. Mesmo se Assad permanecer como presidente, a dívida síria poria a nação sob controle econômico do Catar.

Isso, sim, daria ao minúsculo Catar duas taças de ouro. Dar-lhe-ia um império territorial que faria dupla com o império midiático al-Jazeera. E estenderia a prodigalidade aos territórios sírios, os quais muitas empresas de petróleo gostariam de usar como rota de oleodutos do Golfo à Europa via Turquia, ou via navios-tanques petroleiros, do porto sírio de Lattakia.

Para os europeus, essa rota reduz as chances de serem chantageados pelo petróleo russo, e cria vias marítimas para o petróleo, menos vulneráveis se os navios-tanque não tiverem de cruzar o Golfo de Hormuz.

Então, colheitas ricas para o Qatar - ou para a Arábia Saudita, claro, se os pressupostos sobre o poder dos EUA dos dois emires, Hamad e Tamim, se provar inútil. Uma força militar saudita no Qatar permitiria que Riyad engolisse todo o gás líquido do emirado.

Mas evidentemente os sauditas "antiterror" e amantes da paz – deixemos de lado por um instante as degolas – jamais desejariam a um irmão árabe destino tão desgraçado.

Assim sendo, esperemos que, pelo menos por enquanto, as linhas aéreas da Catar Airways sejam a única parte esquartejada do corpo político catari.

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