20 de junho de 2017

Os Estados Unidos parecem mais interessados em atacar Assad na Síria do que em destruir o ISIS

É instrutivo que o Ocidente agora exprima mais indignação com o uso de gás - culpa o regime de Assad por isso, é claro - do que a continuada crueldade do ISIS

Robert Fisk


Um jato sírio (semelhante ao fotogrado em 23 de março de 2017) foi derrubado pelas forças dos EUA no domingo. Getty Images

Tradução / A extraordinária destruição de um avião de combate sírio por um avião americano no domingo, 18 de junho, tem muito pouco a ver com o alvo do avião sírio no deserto, perto de Rassafa, mas muito mais com o avanço do exército sírio perto das forças curdas apoiadas pelos Estados Unidos ao longo do Eufrates. Nos últimos meses, os sírios suspeitam cada vez mais que a maioria das forças curdas no norte da Síria – muitos delas aliados do governo de Assad até pouco tempo atrás – passou para o lado dos americanos.

De fato, os militares em Damasco não ocultam o fato de que terminaram o fornecimento de armas regulares e munições aos curdos – a quem, aparentemente, forneceram 14 mil rifles YAK-14 desde 2012 – e o regime sírio ficou indignado ao saber que as forças curdas receberam recentemente um enviado dos Emirados Árabes Unidos.

Há informações não confirmadas de que um enviado saudita também teria visitado os curdos. Isto, evidentemente, é posterior ao infame discurso de Trump em Riad, no qual o presidente dos Estados Unidos deu total apoio americano à monarquia saudita em suas políticas anti-iranianas e anti-sírias e depois apoiou o isolamento saudita do Catar.

No terreno, o exército sírio está realizando uma de suas operações mais ambiciosas desde o começo da guerra, avançando ao redor de Sueda no sul, na campina de Damasco e a leste de Palmira. Dirigem-se paralelamente ao Eufrates naquela que é, claramente, uma tentativa por parte do governo de “libertar” a circunscrita cidade de Deir fez-Azor, cujos 10 mil soldados sírios estiveram sitiados ali durante mais de quatro anos.

Caso puderem levantar o sítio, os sírios terão outros 10 mil soldados que poderiam se unir para recapturar mais territórios. No entanto, o mais importante é que o exército sírio suspeita que o Estado Islâmico – prestes a perder Raqua para os curdos e Mosul para os iraquianos, ambos apoiados pelos Estados Unidos – pode tentar assaltar a guarnição de Deir fez-Azor e declarar uma “capital” alternativa para si mesmo na Síria.

Neste contexto, o ataque americano da segunda-feira foi mais uma advertência aos sírios para se manterem afastados das chamadas Forças Democráticas Sírias – nome de fachada de um grande número de curdos e alguns combatentes árabes – já que agora estão muito próximos uns dos outros no deserto. Os curdos tomarão Raqua – pode ter havido um acordo entre Moscou e Washington sobre isso –, já que o exército sírio está muito mais interessado em aliviar Deir fez-Azor.

O mapa está literalmente mudando a cada dia. Mas o exército sírio segue ganhando contra o Estado Islâmico e suas milícias – com a ajuda da Rússia e de Hezbollah, evidentemente – embora relativamente poucos iranianos estejam envolvidos. Os Estados Unidos exageraram enormemente o tamanho das forças iranianas na Síria, talvez porque isto encaixa com os pesadelos sauditas e americanos de expansão iraniana. Mas o êxito do regime de Assad é certamente preocupante para os americanos e para os curdos.

Então, quem está lutando contra o Estado Islâmico? E quem não está lutando contra o Estado Islâmico? A Rússia afirma que matou o terrível e auto-denominado “califa do Estado Islâmico”, al-Baghdadi. A Rússia disse que está lançando mísseis cruzeiros contra o Estado Islâmico. O exército sírio, apoiado pelos russos, está lutando contra o Estado Islâmico. Presenciei isso com os meus próprios olhos.

Mas o que os Estados Unidos estão fazendo ao obstruírem, primeiro, a base aérea de Assad perto de Homs, depois os aliados do regime perto de Al Tan e agora um dos aviões de combate de Assad? Parece que Washington está agora mais disposto a atacar Assad – e seus partidários iranianos dentro da Síria – do que em destruir o Estado Islâmico. Isso seria seguir a política da Arábia Saudita, e talvez seja o que o regime de Trump quer fazer. De fato, os israelenses bombardearam tanto as forças do regime sírio como o Hezbollah e os iranianos, mas nunca o Estado Islâmico.

É ilustrativo ver que o Ocidente manifeste agora mais indignação pelo uso de gás – culpa o regime de Assad por isso, evidentemente – do que pela contínua crueldade do Estado Islâmico com os civis na maioria das áreas que o “califado” ainda ocupa na Síria e no Iraque. Se devemos acreditar no que todos os americanos agora dizem, que querem destruir o Estado Islâmico, por que estão muito dispostos a continuar a obstruir as forças do governo sírio que estão lutando contra o Estado Islâmico? Quer Washington simplesmente destruir a Síria e deixá-la como um estado fracassado? E pode ter sucesso se a Rússia estiver ameaçando atacar aviões americanos, caso voltarem a atacar os jatos sírios?

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