9 de junho de 2017

Os fatos que provam o triunfo eleitoral de Corbyn

Jonathan Cook

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Assistindo à cobertura que a BBC deu à eleição, qualquer um chegaria a duas conclusões. Primeira, que a campanha de Theresa May foi horrível e sabotou a candidata, em vez de promovê-la; e segunda que, por mais que Jeremy Corbyn estivesse festejando, ele saía das urnas, isso sim, absolutamente derrotado.

São as conclusões que se poderia esperar de uma classe de especialistas midiáticos que consumiram dois anos, sem trégua, ofendendo e caluniando Corbyn, declarando-o "inelegível", avisando que só teria votos de um pequeno nicho de radicais de esquerda, e anunciando que os Trabalhistas estavam a um passo da pior derrota eleitoral da história contemporânea – se não de todos os tempos. A mensagem de justiça social de Corbyn estaria alienando o interior do Reino Unido.

Assim sendo, temos de dar um passo atrás, examinar os números da eleição e ver como se saiu, na verdade, o partido Trabalhista liderado por Corbyn.

Corbyn obteve 41% dos votos, contra 44% para May. Dado o sistema inerentemente falho do Reino Unido, obteve cerca de 50 cadeiras a menos que os Conservadores – mas mesmo assim obteve melhora muito significativa em relação ao número de cadeiras trabalhistas sob Ed Miliband. Não há grupo majoritário no Parlamento e, para sobreviver, May dependerá dos votos de um pequeno grupo de sindicalistas do Ulster da Irlanda do Norte, o que cria governo terrivelmente instável.

Mas como Corbyn se saiu em termos de votos do Partido Trabalhista em comparação com seus antecessores recentes? Ele teve muitos mais votos do que Ed Miliband, Gordon Brown e Neil Kinnock, que estavam entre aqueles que, às vezes, ruidosamente, se opuseram à sua liderança do partido.

Mas o que dizer dos votos que Corbyn obteve, comparados aos de Tony Blair, seu crítico de mais alta hierarquia midiática cujos muitos aliados na bancada Trabalhista nunca se cansaram de desafiar e subverter a liderança de Corbyn nos últimos dois anos, e tentaram derrubá-lo, inclusive encenando um movimento contra o líder, no ano passado?

Aqui vão os números das três vitórias de Blair. Em 2005, obteve 36% dos votos – muito menos que Corbyn. Em 2001, 41% – praticamente o mesmo que Corbyn. E a vitória arrasadora de Blair em 1997 foi-lhe assegurada por 43% dos votos, apenas 2 p.p. acima da porcentagem de votos para Corbyn na noite passada.

Em suma, Corbyn é hoje comprovadamente o líder Trabalhista mais popular entre os eleitores em mais de 40 anos, exceto no caso da vitória de Blair em 1997. Sim, mas é preciso lembrar o preço que Blair pagou por uma vantagem realmente muito pequena sobre os votos dados a Corbyn. Por baixo dos panos, Blair vendeu a alma do Partido Trabalhista à City de Londres, às megacorporações e aos seus lobbyistas. Esse pacto faustiano atraiu para a candidatura de Blair o apoio de quase toda a mídia britânica, inclusive do bloco de jornais e canais de TV comandado por Rupert Murdoch. As empresas mobilizaram toda sua máquina de propaganda para pôr Blair no poder. E com tudo isso Blair só conseguiu 2 p.p. de votos a mais que Corbyn – que teve a mesma violenta máquina de propaganda, mas trabalhando contra ele.

Além disso, também diferente de Corbyn, Blair não precisou enfrentar grande parte do próprio partido que operava para destruí-lo também de dentro para fora.

Além disso tudo, Blair contou com muitos votos escoceses para os Trabalhistas, bloco que já não existia quando Corbyn chegou à liderança. Hoje, a maior parte daqueles votos vão para o Scottish National Party (SNP) que atua pela independência da Escócia.

Todos esses números já indicam claramente a extensão do feito de Corbyn.

Outro ponto. A grande vitória em 1997 foi o auge do sucesso de Blair. Quando os membros do Partido Trabalhista deram-se conta do que Blair fizera para chegar àquela vitória, o apoio parlamentar começou a diminuir e nunca mais se recuperou, até que Blair teve de deixar a liderança; e entregou ao sucessor, Gordon Brown, um partido exangue.

Com Corbyn, a campanha eleitoral mostrou que há um grande desejo por sua honestidade, sua paixão, seu compromisso com a justiça social - pelo menos quando o público teve a chance de ouvir diretamente dele, ao invés de ter suas políticas e personalidade mediadas e distorcidas por uma mídia corporativa tendenciosa e auto-suficiente. Diferente de Blair, que destruiu o Partido Trabalhista a ponto de convertê-lo em partido Thatcherista, Corbyn está reconstruindo o Partido Trabalhista como movimento social instrumento de políticas progressistas.

Aqui está um gráfico que oferece outra medida da extensão da conquista da Corbyn ontem à noite.


Aí se vê que Corbyn obteve o maior aumento na porcentagem de votos trabalhistas em relação à eleição geral prévia, desde Clement Attlee em 1945. Em resumo: Corbyn conseguiu reformatar o destino eleitoral do Partido Trabalhista inglês mais completamente que qualquer outro líder do partido, em 70 anos.

E, ao contrário de Blair, ele fez isso sem fazer negócios escusos com as grandes empresas para eviscerar os programas econômicos e sociais de seu partido.

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