30 de junho de 2017

Pela primeira vez na minha vida, não sinto como se as coisas só pudessem piorar

Juliet Jacques

Repeater Books

Ao contrário de muitos amigos de esquerda em Londres, que têm sido melhores do que eu na participação em manifestações, nunca conheci Jeremy Corbyn. Para minha vergonha – e talvez porque minha ansiedade e depressão me impediram de viajar de Manchester para Londres para a manifestação anti-guerra em fevereiro de 2003– eu nunca tinha ouvido falar dele antes de ele concorrer à liderança do Partido Trabalhista há dois anos.

Mas eu já havia conhecido o John McDonnell – no evento do “Parlamento Popular” [“People’s Parliament”, no original] que ele organizou com a (antiga) Zero Books na Câmara dos Comuns, em março de 2014. McDonnell explicou que ele convocou as sessões para receber diferentes vozes no Parlamento, onde os deputados poderiam ouvi-las. Ele realizava painéis mensais sobre vários assuntos; embora muitos fossem para trabalhadores e sindicalistas, muitas vezes ele abria espaço para escritores e ativistas. Dessa vez, esses escritores eram Mark Fisher, Rhian Jones e Alex Niven – todos pessoas que conheci em Londres, e que considerava amigas, depois de passar dois anos vagando pelos círculos de escritores e jornalistas até encontrar aquele que mais me entusiasmava, centrado em torno da Zero (agora Repeater) e da Verso Books. (J. D. Taylor, a quem eu não conhecia, apresentou o painel final).

McDonnell estava interessado nas idéias do grupo: na análise de Mark sobre o “realismo capitalista” e a necessidade de se imaginar um futuro melhor, apesar daqueles que insistiam que “não há alternativa” e que o pensamento utópico era inútil; na “Oposição Popular” [no original, “Folk Opposition”] de Alex, sobre histórias e possibilidades da cultura popular de oposição, enquanto comentaristas perplexos constantemente perguntavam “o que aconteceu com a música política?”; e na “Repressão” [no original, ‘Clampdown’] de Rhian, uma interrogação sobre classe, gênero e política racial no Britpop, que ainda dominava a imaginação dos nostálgicos picaretas do “Novo Trabalhismo”, e do “indie” conservador e estupefaciente que o seguiu.

Todos esses autores defendiam mudanças abrangentes na relação entre política, cultura, e o clima ideológico em que operavam. Eu havia atingido um pico de desespero com a política parlamentar, especialmente com a forma como a imprensa de direita ditava seu tom, mesmo depois do inquérito Leveson. Sob Ed Miliband, o projeto do Novo Trabalhismo parecia completamente esvaziado, e o Partido Trabalhista Parlamentar me parecia (e a muitos outros) dominado por um comitê sem alma, pensando e se rendendo aos termos que os Tories, os tablóides e seus patrocinadores queriam impor à sociedade britânica. (Na verdade, eu havia estado a menos de dois metros de Miliband na festa do centenário da New Statesman em 2013, quando eu publicava um blog para a revista, em uma tentativa desesperada e, enfim, condenada de trazer uma perspectiva política e cultural mais à esquerda para o seu site. Eu decidi não me apresentar e não incomodar.) Eu não percebia que o Partido Trabalhista ainda abrigava gente como McDonnell: eu assumia que todos abandonaram o navio ou foram purgados durante os anos de Blair e que não haviam sido atraídos de volta por eventos como o protesto anti-austeridade da TUC em março de 2011 – uma marcha com bastante comparecimento (mas estranhamente sem vida) para ver Miliband e, possivelmente, Billy Bragg – nem me lembro.

Gostei do evento, mas saí de lá com o mesmo sentimento de melancolia que eu costumava ter depois de tais discursos. Eu tinha ouvido algumas provocações interessantes, mas muitas das nossas conclusões tinham uma sensação similar: nós identificávamos os problemas, mas frases como “precisamos encontrar uma maneira de mudar o discurso” sobre [digamos] refugiados buscando asilo, requerentes de programas sociais ou sobre s cortes no setor público raramente mascaravam nosso senso de impotência. Sem um movimento sindical ou um partido político que parecesse poder ser um veículo de mudança, estávamos cuspindo no vento: algumas pessoas estavam ouvindo, mas não o suficiente, e muito poucas com influência.

Mais tarde naquele ano, em um painel organizado pelo think tank CLASS na TUC, falei sobre o “potencial da arte e da cultura” – discutindo como o valor da arte hoje parecia ser considerado apenas em termos financeiros, com o financiamento cortado para qualquer coisa que possa não gerar dinheiro, sem qualquer pensamento sobre mérito artístico ou sobre como idéias que inicialmente atingem apenas um punhado de pessoas podem ser transformadoras para aquele punhado e, em última instância, para todos. Com uma eleição geral se aproximando, um amigo expressava seus temores de que “o Partido Trabalhista agora não passava de um bando de bitolados” – tecnocratas com quem ninguém se identifica, que afastavam inúmeras pessoas do partido. Não me esqueci de McDonnell, mas, até onde eu via, os deputados mais jovens pensavam quase exclusivamente que a ordem existente precisava apenas de pequenos ajustes – sem possibilidades para nada mais ambicioso – e não entendiam que, se não havia nenhum tema sobre a qual eles não cederiam, então eles não estavam fazendo concessões, mas capitulando.

Eu não conhecia nada além do Novo Trabalhismo, conforme me aproximava da meia idade: eu tinha 33 anos quando a eleição geral de 2015 foi realizada. Nunca votei no Partido Trabalhista. Em 2010, vivendo em Brighton Pavilion, me deleitei quando meu voto para Caroline Lucas contribui para uma vitória sem precedentes pelo Partido Verde, mas eu sabia que nunca iria muito além desse assento (e que os Verdes haviam dedicado pouco tempo para fazer campanha em áreas mais de classe-trabalhadora, como Hollingdean). Embora gostasse da minha deputada, Diane Abbott, não conseguia engolir o Partido Trabalhista como era. Devido a um erro burocrático em Hackney, demorou duas horas e meia para votar: o pessoal da zona eleitoral me mandou para a Câmara Municipal de Hackney, onde entrei numa longa fila de pessoas, lívida com a sensação de privação dos meus direitos. Eu estava mais deprimida do que ansiosa ou irritada e, eventualmente, marquei meu xis na Liga Comunista – um protesto fútil contra a hegemonia pós-Thatcher e pós-Blair de austeridade e autoritarismo – e contra o apelo para qualquer um na esquerda aceitar o ‘mal menor’ do ‘centrismo’. (Eles tiveram 102 votos.)

A coisa toda parecia desesperadora, mas o pior ainda estava por vir. Eu terminei num evento na Close-Up Cinema, onde planejamos assistir juntos a cobertura da noite da eleição da BBC. Então vimos que a pesquisa de boca de urna previa uma maioria Tory – algo que eu tinha previsto antes do início da campanha, mas que eu tinha deixado para trás quando as pesquisas de opinião sugeriram um parlamento suspenso ou uma vitória estreita dos Trabalhistas – e fui para casa. Voltei para encontrar meus companheiros de quarto em um silêncio atordoado, tendo chorado antes, mas eu simplesmente me sentia entorpecida. Eu queria uma vitória dos Trabalhistas – cinco anos de cortes Tory e uma cultura cada vez mais autoritária tinham esgotado a mim e a muitos dos meus amigos -, mas não podia sentir que o fracasso de Miliband em se tornar primeiro-ministro fosse uma verdadeira tragédia. O fundo do poço foi a resposta de grandes nomes do Partido Trabalhista insistindo que sua derrota se devia ao Miliband ter “levado o partido demais para a esquerda” – mesmo depois de perder toda a Escócia para um movimento anti-austeridade. Como James Butler disse: a tragédia para a maioria das pessoas não era a falta de um governo trabalhista, mas que a política simplesmente continuasse daquele jeito.

Quando Miliband renunciou e Corbyn entrou na disputa pela liderança, ousei imaginar se o Partido Trabalhista poderia ser algo diferente – algo mais emocionante, aproveitando a dignidade e a solidariedade dos antigos movimentos sindicais e as conquistas socialistas, enquanto que usando novas mídias para comunicar um forte desejo por um “novo tipo de política”, em contraste com o vazio nos discursos cuidadosamente trabalhados de seus três adversários, projetados mais para televisão do que para o Twitter, presos em um presente perpétuo que nem sequer lembrava o otimismo da campanha de Tony Blair em 1997, mas a resignação e a exaustão de Gordon Brown em 2010.

Foi a presença de McDonnell que mais me animou. Na década seguinte à minha entrada no jornalismo, eu me sentia sozinha, apoiada apenas por uma pequeno grupo de amigos. Eu tinha finalmente deixado a New Statesman, esgotada e amargurada pela forma como meus esforços para trazer uma perspectiva socialista, queer e trans havia terminado, mas satisfeita por ter me dissociado antes da campanha anti-Corbyn deles ter passado dos limites. O Guardian parecia grande o bastante para sustentar um espectro mais amplo de opiniões, mas sua posição editorial parecia estar veementemente em oposição a qualquer tentativa de tornar o Partido Trabalhista em um movimento baseado nos membros, e de esquerda, não percebendo (como nós havíamos percebido) que não era apenas a ideologia do Novo Trabalhismo que estava acabada, mas também sua metodologia.

Minha exaustão começou a melhorar. Finalmente, eu conseguiria investir energia em algo maior do que eu mesma – e me energizar com isso. A aliança desengonçada entre liberais, socialistas e radicais durante a coalizão, quando era difícil ser tribal com relação ao Partido Trabalhista ou aos Liberais Democratas, colapsou na medida em que a ascensão de Corbyn tornou as linhas divisórias mais claras – mas não me importei. Senti que estávamos no lado certo da história, e que os ‘centristas’ estavam errados. Eventualmente, pensei, o mundo lá fora iria acabar concordando – se apenas Corbyn e McDonnell pudessem receber uma cobertura justa.

Os dois anos desde a eleição de Corbyn para líder foram difíceis. Eu não estava sozinha nas minhas dúvidas com relação à maneira que Corbyn estava lidando com o referendo sobre a União Européia. Muitas das críticas por aí eram desonestas, e fazia tempo que tinha parado de dar ouvidos aos seus detratores na mídia tradicional, mas não estava segura de que ele havia entendido que a maior questão não era a União Européia em si, mas as consequências de um voto Leave para os imigrantes, as pessoas de cor e qualquer um que não se encaixasse no perfil imposto por um nacionalismo inglês recrudescente, com seu militarismo, monarquismo e nostalgia imperialista. Com frequência, me sentia frustrada com como a energia e o entusiasmo das campanhas de Corbyn para a liderança – que quebraram todos os recordes – se dissiparam depois de suas vitórias avassaladoras. Sentia que uma boa parte era culpa do conluio entre a mídia e os parlamentares trabalhistas rebeldes, mas não toda, e ficava imaginando se não havia sido delirante da minha parte colocar qualquer fé que seja na política parlamentar, e no Partido Trabalhista em particular.

Pensei em cancelar minha filiação ao Partido, mas algo me impediu. Inicialmente, era o quanto eu detestava os inimigos do Corbyn, entoando sua cantilena presunçosa e paternalista de como eles estavam certos sobre Corbyn ser “inelegível” – como se isso fosse um fato objetivo, e eles fossem mero observadores externos do discurso político britânico, e não agentes influentes no interior dele. Rotulando aqueles que apoiavam as ideias de Corbyn para o futuro do Partido Trabalhista como “trotskistas” infiltrados, vândalos homofóbicos, anti-semitas raivosos e apoiadores do IRA, o equivalente britânico a uma alt-right apoiadora de Donald Trump (assisti-los agora comer uma bela torta de humildade, particularmente na forma de seus próprios livros, tem sido uma diversão). Mas não era apenas a raiva que me motivava: nunca perdi a memória de McDonnell, ou a sensação de que ele oferecia a possibilidade de uma política que fosse mais do que falatório dos deputados no parlamento, e que partidos políticos poderiam tomar inspiração não apenas de think tanks, mas também da história e da filosofia acadêmicas, da arte e da música, da literatura e da poesia. Me lembrava de como Corbyn me inspirou a assistir pela primeira uma transmissão ao vivo da Casa dos Comuns pela primeira vez, em 6 de julho de 2016, quando ele desafiou o chamado, vindo do banco de trás do Partido Trabalhista, para “sentar-se e calar-se”, e, ao contrário, fez um discurso sobre o Inquérito de Chilcot sobre a guerra do Iraque. Tremia ao longo de todo o discurso, frente à fúria calma e controlada das palavras de Corbyn, sua recusa em deixar pra lá as motivações imperiais da guerra e as consequências desastrosas da invasão e ocupação, e sua convicção de que os milhões, em todo o mundo, que se opuseram a guerra agora estavam sendo provados certos.

Então, quando eu e meus amigos do no.w.here film lab vimos a pesquisa de boca de urna – muito melhor do que minha previsão de que Cobyn perdia “apenas” por 20 ou 30 cadeiras – aquela quinta a noite pareceu uma vindicação. Não apenas pelo nosso apoio ao Corbyn, mas pelas ideias que nós na esquerda estávamos explorando pela última década, e todos os seminários nos quais tentamos estabelecer algum terreno comum intelectual. Como a muitos, me fez pensar na trágica morte de Mark Fisher mais cedo esse ano, logo depois do Brexit e da ascensão de Trump, quando parecia que a ortodoxia neoliberal seria simderrubada – mas por um afundamento no fascismo, forçando aqueles de nós que passamos anos plantando as sementes para um futuro melhor agora a ter que batalhar para salvar as instituições neoliberais que haviam nos excluído, nos ridicularizado e nos combatido, com a preservação do status quo do establishment (que depois retornaria para nos esmagar) parecendo o melhor cenário possível.

Imagino o que Mark faria com esse resultado. Como Corbyn foi ridicularizado como “inelegível” por aqueles que se aferravam ao velho modo de fazer política do “Novo Trabalhismo”, e então lançou uma espetacular campanha que foi capaz de dar um novo propósito e reavivar os princípios social-democratas do partido; conseguiu a maior subida nas pesquisas na memória recente, o que se traduziu na maior ampliação da votação dos trabalhistas desde 1945, e evitou assim a formação de uma maioria conservadora em uma eleição que Therese May convocou porque pensou que poderia arrasar com o Partido Trabalhista e com qualquer oposição de esquerda – pra sempre.

Penso com frequência no incrível entusiasmo do Mark com qualquer coisa que pudesse desgastar a ideologia dominante, mesmo quando não o compartilhava, ou concordava com as posições que resultavam desse entusiasmo. E penso com frequência também em quantas amizades devo a ele, por meio do círculo de blogueiros no qual ele era central, no seu papel na fundação da Zero e depois da Repeater Books, através das quais conheci tantos camaradas – muitos dos quais, como eu, foram inspirados a se filiar no Partido Trabalhista quando o movimento de Corbyn e McDonnell desabrochou. Se você olhar apenas para os número, então sim, nós perdemos – dessa vez. Mas se você olhar para o quadro mais amplo, para as possibilidades que agora se sente que eles abriram para qualquer um com sonhos, um coração e uma alma – então, estamos ganhando. Hoje eu não me sinto ansiosa, eu não me sinto deprimida. Sinto que podemos barrar aquilo que parecia antes como uma onda avassaladora de direita na cultura britânica, quebrar a dominância de figuras como Lynton Crosby, Paul Dacre e Rupert Murdoch sobre o discurso público, assim como o estrangulamento – por parte dos auto-proclamados analistas “sensatos” ligados ao trabalhismo – das conversas sobre o que uma política de esquerda pode ser. Sinto que podemos construir uma contra-cultura revigorada a partir da energia jovem de movimentos como o #grime4corbyn, muito mais excitantes do que a carcassa de um Britpop musicalmente reacionário e politicamente retrógrado. Pela primeira vez na minha vida, eu não sinto como se as coisas só pudessem piorar. Tenho certeza que John McDonnell compartilha do meu otimismo, e gosto de pensar que o Mark também compartilharia.

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