16 de junho de 2017

Por que tantos eleitores jovens estão se apaixonando por velhos socialistas?

Sarah Leonard


Um comício da campanha do Partido Trabalhista em Glasgow, na Escócia, em 7 de junho de 2017. Andy Buchanan/Agence France-Presse/Getty Images

Tradução / Com 68 anos, Jeremy Corbyn tem mais anos na ala esquerda do Partido Trabalhista do que muitos de seus mais entusiasmados apoiadores — esses que o impulsionaram para quase ganhar as eleições gerais britânicas desse mês — têm de vida. Bernie Sanders, que levou mais votos da juventude nas primárias de 2016 do que Donald Trump e Hillary Clinton juntos, tem 75 anos, e tem um jeito que, francamente, me lembra o meu avô judeu. Jean-Luc Mélenchon, o candidato apoiado pelos comunistas que, graças a campanha dos jovens, teve uma ascensão meteórica nas pesquisas logo antes do primeiro turno das eleições presidenciais francesas, tem seus joviais 65 anos.

O que tem levado tantos jovens ao trabalho político apaixonado, empurrando velhos socialistas com velhas ideias a novos picos de popularidade? Para entender o que está acontecendo, você precisa se dar conta de que políticos como o Sr. Sanders e o Sr. Corbyn têm carregado a tocha da esquerda numa espécie de corrida de longa distância, pulando gerações de centristas como Bill Clinton e Tony Blair, para entregá-la nas mãos dos que têm hoje menos de 35. E é preciso entender porque hoje a juventude está tão disposta a agarrar essa tocha e correr com ela.

Tanto a Grã-Bretanha quanto os Estados Unidos costumavam ter partidos que ao menos declaravam fidelidade à classe trabalhadora. Mas desde a década de 1970, acelerando nos anos 80 e 90, as tábuas de esquerda têm sido arrancadas, uma a uma, de suas plataformas. Sob o Sr. Blair, o Partido Trabalhista reescreveu sua famosa Cláusula IV, que comprometia o partido ao objetivo de “propriedade comum dos meios de produção, distribuição e troca”. Sob o Sr. Clinton, o Partido Democrata cortou programas sociais e empurrou acordos de livre-comércio internacionais contra os interesses dos trabalhadores. Escrevendo em 1990, Kevin Phillips, um ex-estrategista de Richard Nixon, chamou os democratas de “o segundo partido mais entusiasmadamente capitalista da história”. Enquanto isso na Europa, partidos socialistas tradicionais se tornavam cada vez mais envelhecidos e camaradas das grandes empresas. Tudo isso deixou muitos eleitores com a sensação de que simplesmente não existia mais um partido de esquerda dedicado a proteger os interesses dos pobres, da classe trabalhadora e da juventude.

No entanto, pessoas da minha idade — tenho 29 — estão precisando agora mais que nunca de uma robusta plataforma de esquerda. A ordem capitalista pós-Guerra Fria falhou com a gente: ao longo da Europa e dos Estados Unidos, os millennials se encontram em condições de vida piores que seus pais e são pobres demais para iniciar famílias. Nos Estados Unidos, esses millennials estão sobrecarregados de dívida estudantil (ou com probabilidades muito menores de encontrar emprego se não tiverem educação superior) e trabalhando em condições precárias, sem a proteção de sindicatos. Ah, e também: o planeta está derretendo.

Não há nada de inerentemente radical na juventude. Mas nossa política atual foi marcada por uma era de crise financeira e cumplicidade dos governos. Especialmente desde 2008, temos visto as grandes corporações tomarem as casas de nossas famílias, explorar nossa dívida médica e retirar nossos empregos. Vimos governos imporem uma austeridade brutal para satisfazer banqueiros. Os capitalistas não fizeram isso por acidente, fizeram por lucro, e investiram esses lucros comprando nossos partidos políticos. Para muitos de nós, o capitalismo é algo a se temer, não a se celebrar, e nosso inimigo está em Wall Street e na City de Londres.

E uma vez que nos tornamos conscientes da política bem depois de 1989, não ficamos instintivamente assustados com socialismo. Na verdade, achamos até atraente: uma pesquisa conduzida por Harvard em 2016 mostrou que 41% dos americanos entre 18 e 29 anos rejeitam o capitalismo, e um terço disse apoiar o socialismo. Uma pesquisa da Pew de 2011 mostrava já que essa mesma faixa etária tinha uma visão mais favorável do socialismo do que do capitalismo. O que socialismo efetivamente significa para esses millennials está em fluxo — mostra mais um afastamento do capitalismo do que o compromisso com uma plataforma específica. De todo modo, para essa geração certos programas universais — saúde pública para todos, educação pública, universidade gratuita — ,e fazer com que os ricos paguem, são apenas senso comum.

Nas urnas, nossas opções têm sido relativamente limitadas. Os liberais da era Clinton e Blair mutilaram a capacidade de seus partidos para se contraporem aos problemas do capitalismo. Mas enquanto os partidos de centro-esquerda se jogaram nos braços acolhedores dos banqueiros, o Sr. Corbyn e o Sr. Sanders se mantiveram fiéis à sua política de esquerda.

Em maio, quando o novo manifesto do Partido Trabalhista — propondo educação universitária gratuita e ampliação do financiamento do Serviço Nacional de Saúde — foi vazado, a imprensa tradicional inglesa respondeu com escárnio: “O Manifesto dos Trabalhistas nos arrastará de volta para a década de 70”, lia-se em uma manchete do Daily Mail (de fato, algumas propostas do Sr. Corbyn, como a nacionalização das ferrovias e das companhias de água, fazem lembrar diretamente dos compromissos trabalhistas com a Cláusula IV). Para alguns leitores isso pode ter soado como uma ameaça, mas para muitos jovens parecia mais uma promessa. Depois das manchetes, o resultado dos trabalhistas nas pesquisas decolou. Nas eleições de 8 de junho, o partido terminou com chocantes 40% dos votos, sua maior proporção em anos. E muito desse sucesso foi graças aos eleitores jovens.

Claro que o Sr. Corbyn, que é famoso por ir de bicicleta ao trabalho e ser “totalmente contra o açúcar por razões de saúde”, tem um certo charme asceta. E há algo de cativantemente despretensioso no sotaque do Brooklyn de Sanders e na sua aparência descuidada. Mas parece seguro dizer que o sucesso deles com o público jovem foi baseado nas plataformas, não no carisma.

E isso é uma boa coisa também, uma vez que, mais cedo ou mais tarde, essas plataformas vão precisar encontrar novos representantes. A classe trabalhadora estadunidense é cada vez mais racialmente diversa. Uma política intensamente contestada em torno de raça, gênero e sexualidade dão forma ao nosso terreno político (e à nossa experiência de mobilidade social descendente). O Sr. Sanders tem insuficiências nesse quesito: ele já confessou que quando começou a campanha não compreendia bem a escala da brutalidade policial, e soa desajeitado quando vai falar de raça e gênero.

A vantagem é que a campanha de Sanders e a liderança de Corbyn prepararam o caminho para uma nova política socialista que não se parece com eles.

No dia seguinte às eleições britânicas, voei para Chicago para falar na Cúpula dos Povos, uma convenção nacional de militantes progressistas e de esquerda organizada pelas pessoas da campanha do Sanders junto com o movimento das Enfermeiras Nacionais Unidas.

Estava lá também a próxima geração de organizadores e candidatos da esquerda: Linda Sarsour, uma palestina-americana de 37 anos de Nova York conhecida por suas habilidades de construir pontes entre comunidades; Dante Barry, o jovem de 29 anos diretor executivo do movimento Um Milhão de Capuzes por Justiça, e Maria Svart, também em seus 30, que se tornou em 2011 a diretora nacional dos Socialistas Democráticos da América.

Encontrei muita gente jovem que se radicalizou nos últimos anos e que está agora se juntando a campanhas em suas comunidades por saúde pública universal nos estados e habitação popular. Essas campanhas existem porque velhos ativistas carregaram a tocha. De toda essa atividade é quase certo que vá emergir uma nova geração de candidatos socialistas que possa efetivamente refletir o que é o povo estadunidense.

Quando o Sr. Sanders subiu ao palco, olhei ao redor para ver centenas de jovens militantes vibrando com seu programa de socialismo democrático. Andei pela convenção e vi pessoas da minha própria idade apresentando novas revistas e organizações de esquerda. Um amigo me mandou um emoji do Corbyn: dedões para cima.

Três dias depois das eleições gerais, o Sr. Corbyn sentou para uma entrevista com Andrew Marr na BBC. O Sr. Marr pressionou o líder do Partido Trabalhista sobre a viabilidade de tornar sua plataforma em efetivas políticas públicas, no governo. Estaria o Sr. Corbyn, a essa altura de sua carreira, realmente nisso para o longo prazo? “Olhe pra mim!”, ele disse, “eu tenho a juventude do meu lado”.

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