26 de julho de 2017

Medo e perturbação em Tel Aviv: estará Israel a perder a guerra na Síria?

Ramzy Baroud

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Israel, que desempenhou um papel bastante arriscado na guerra da Síria, desde 2011, está a ficar furioso por constatar que o futuro do conflito não se desenrola como gostaria.

A guerra na Síria, que dura há seis anos está a evoluir para um novo patamar, talvez o último. O regime sírio está a consolidar o controle sobre a maior parte dos centros populacionais, enquanto o ISIS perde rapidamente terreno – e em toda a parte.
As áreas evacuadas pelo grupo militante, em rápida desintegração, estão prestes a ser tomadas. Há muitas regiões fortemente contestadas, almejadas pelo governo de Bashar al-Assad em Damasco e seus aliados, por um lado e, por outro, os vários grupos de oposição anti-Assad e os seus apoiadores.

Com o ISIS totalmente derrotado no Iraque – com um custo de 40.000 vidas humanas, só em Mosel – os partidos da guerra estão a movimentar-se para o oeste. Milícias xiitas, encorajadas pela vitória no Iraque, têm estado a ser empurradas para o oeste até à fronteira Iraque-Síria, convergindo com forças leais ao governo sírio que estão do outro lado.

Ao mesmo tempo, os primeiros passos para um cessar-fogo permanente estão a ser dados e têm sido frutuosos, em comparação com muitas tentativas falhadas no passado.

Na sequência de um acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e a Rússia, alcançado no dia 7 de julho na cimeira do G-20 em Hamburgo, na Alemanha, três províncias no sudoeste da Síria – que fazem fronteira com a Jordânia e os territórios dos Montes Golan, ocupados por Israel – estão agora relativamente calmas. O entendimento parece que irá estender-se por todo o território.

O governo de Israel deixou claro aos EUA que estava desagradado com o acordo, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, tem estado a desenvolver grandes esforços para boicotar o cessar-fogo.

Os maiores medos de Netanyahu estão, talvez, a concretizar-se: uma solução para a Síria que permita uma presença permanente do Irã e do Hezbollah no país.

Nas primeiras fases da guerra, tal possibilidade parecia remota; mas as mudanças constantes nos resultados dos brutais combates na Síria tornavam a discussão completamente irrelevante.

Mas as coisas agora mudaram.

Apesar das afirmações em contrário, Israel esteve sempre envolvido no conflito da Síria. Israel repetia declarações de que “mantém uma política de não intervenção na guerra civil da Síria” e só os loucos meios de comunicação do sistema dos EUA se faziam eco destas posições.

Israel não só esteve envolvido na guerra, como também não participou nos esforços humanitários, nem estendeu uma mão solidária aos refugiados sírios.

Centenas de milhares de sírios morreram nesta guerra sem quartel; muitas cidades e aldeias foram totalmente destruídas e milhões de sírios tornaram-se refugiados.

Enquanto o frágil e pobre Líbano abrigou mais de um milhão de sírios, todos os países da região e muitas nações em todo o mundo receberam também refugiados sírios. Exceto Israel.
Até uma simbólica proposta do governo, no sentido de acolher 100 órfãos sírios, foi finalmente rejeitada.

Porém, a natureza do envolvimento de Israel na Síria está a começar a mudar. O cessar-fogo, o crescimento do envolvimento da Rússia e a posição inconsistente dos EUA obrigou Israel a redefinir o seu papel.

Um sinal dos tempos foi as mais frequentes visitas de Netanyahu a Moscou, para persuadir o reforçado presidente russo Vladimir Putin dos interesses de Israel.

Moscou pressiona com cautela, ao contrário de Washington, e não concebe os interesses de Israel como algo superlativo. Quando Israel abateu um míssil sírio usando um míssil de flecha, no passado mês de março, o embaixador de Israel em Moscou foi chamado, para ser repreendido.

O castigo de Israel aconteceu apenas alguns dias depois da visita de Netanyahu a Moscou e de “deixar claro” a Putin que quer “evitar qualquer situação na Síria que permita ao ‘Irã e seus aliados ter uma presença’ militar no país”.

Desde o início do conflito, Israel quis aparecer como se controlasse a situação, pelo menos no que toca ao conflito no sudeste da Síria. Bombardeou alvos na Síria quando achou oportuno e, de vez em quando, dizia que mantinha contatos com certos grupos da oposição.

Em comentários recentes perante funcionários europeus, Netanyahu admitiu ter atacado caravanas iranianas na Síria “dezenas de vezes”.

Mas, sem um plano conjunto Israel-EUA, Israel aparece agora como um parceiro fraco. Tendo tomado consciência disso tardiamente, Israel ficou cada vez mais frustrado. Depois de anos a fazer lóbi, a administração Obama recusou-se a encarar os objetivos de Israel na Síria como a linha condutora das políticas do seu governo.

Tendo falhado também esse apoio do recém-eleito presidente Donald Trump, Israel está agora a tentar desenvolver a sua própria estratégia independente.

A 18 de junho, o Wall Street Journal referiu que Israel tinha estado a dar “ajuda secreta” aos rebeldes sírios em “dinheiro e ajuda humanitária”.

A 20 de julho, o New York Times dizia que se esperava que um grande embarque de ajuda israelense desse uma “centelha de esperança” aos sírios.

Escusado será dizer que dar esperança aos sírios não é uma prioridade israelense. Além dos bombardeamentos frequentes e da recusa em acolher refugiados, Israel ocupou os Montes Golan sírios, em 1967 e anexou ilegalmente o território, em 1981.

De fato, o objetivo de Israel é infiltrar-se no sul da Síria para criar um tampão contra os iranianos, o Hezbollah e outras forças hostis.

Na chamada “Operação Bom Vizinho”, Israel está a trabalhar diligentemente para construir laços com vários chefes de tribos e grupos influentes naquela região.

Entretanto, o plano israelense aparenta ser uma fraca tentativa de recuperação, já que a Rússia e os EUA, além dos seus aliados regionais, parecem estar a convergir para um acordo independente dos próprios objetivos ou, mesmo, preocupações de segurança de Israel.

As autoridades israelenses estão furiosas e sentem-se especialmente traídas por Washington. Se as coisas continuarem a ir nesta direção, o Irã poderia brevemente ter um caminho seguro ligando Teerã a Damasco e Beirute. O chefe do Conselho de Segurança Nacional israelense, Yaakov Amidror, ameaçou, numa recente conferência de imprensa, que seu país está preparado para agir sozinho na Síria, contra o Irã.

Rejeitando veementemente o cessar-fogo, Amidror disse que o exército israelense “intervirá e destruirá todas as tentativas de construir infraestruturas iranianas permanentes na Síria”.

As declarações igualmente carregadas de Netanyahu, durante a sua visita europeia, também apontam para a crescente frustração em Tel Aviv.

Isto contrasta fortemente com os dias em que os neoconservadores em Washington geriam o Oriente Médio através de uma visão que era – em grande parte, se não totalmente –, consistente com os impulsos israelenses.

O famoso documento de estratégia elaborado por um grupo de estudo dos EUA liderado por Richard Perle, em 1996, é pouco utilizado agora, já que a região não é mais modelada por um ou dois países.
O documento intitulado “Uma clara ruptura: uma nova estratégia para garantir o domínio” via um mundo árabe hostil magistralmente gerido pelos EUA e Israel.

Por um fugaz momento, Tel Aviv teve esperança de que Trump trouxesse mudanças à atitude dos EUA.

De fato, houve esse movimento eufórico em Israel, quando a administração Trump atacou a Síria. Mas a natureza limitada da luta deixou claro que os EUA não tinham planos para uma mobilização militar maciça similar à do Iraque, em 2003.

A excitação inicial foi eventualmente substituída pelo cinismo, como o expressado por este título no Monitor: “Netanyahu avisa Trump sobre a Síria”.

Em 1982, aproveitando os conflitos sectários, Israel invadiu o Líbano e instalou um governo liderado pelos seus aliados. Aqueles dias já se foram há muito.

Enquanto Israel permanece militarmente forte, a própria região mudou e Israel não é o único poder a possuir todas as cartas.

Além disso, a liderança global recuada dos EUA sob Trump torna a dupla israelo-americana menos efetiva.

Sem aliados alternativos suficientemente influentes para preencher a lacuna, Israel fica, pela primeira vez, com opções muito limitadas.

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