10 de julho de 2017

O governo iraquiano recupera Mosul, onde sofreu a maior derrota para o Daesh

O grupo islâmico perdeu a cidade, mas ainda pode travar uma guerra de guerrilha nos desertos do Iraque e da Síria.

Patrick Cockburn


A Polícia Federal iraquiana comemora na Cidade Velha de Mosul / Reuters

Tradução / O Iraque está declarando vitória sobre o Daesh em Mossul, com o primeiro-ministro Haider al-Abadi chegando à cidade, ostentando um uniforme militar preto, para felicitar os seus soldados no final de uma épica batalha de nove meses.

As forças de elite do governo iraquiano ergueram a bandeira do país nas margens do rio Tigre, embora os atiradores do Daesh ainda estejam disparando a partir dos últimos edifícios que ocupam na Cidade Velha.

A magnitude da vitória conquistada pelo governo iraquiano e as suas forças armadas, três anos depois de terem sofrido uma derrota catastrófica em Mossul, não é posta em causa.

Alguns milhares de combatentes do Daesh equipados com armamento ligeiro, surpreenderam o mundo, derrotando em quatro dias uma guarnição iraquiana de pelo menos 20.000 homens equipados com tanques e helicópteros. A recaptura de Mossul agora é uma vingança pela humilhação anterior.

A devastação na cidade é enorme: quanto mais perto nos encontramos da luta no centro, maiores são os sinais de destruição dos ataques aéreos. Onde o Daesh assumiu posição, as forças iraquianas chamaram a coligação liderada pelos EUA para usar o seu enorme poder de fogo para transformar blocos inteiros em montes de escombros e alvenaria esmagada.

Um médico voluntário, que pediu para manter o anonimato, disse que, em dias maus, "cerca de 200 a 300 pessoas com lesões apareciam no meu centro médico. Ouço histórias de muitas famílias morrendo, presas em caves onde estavam protegendo-se das bombas ".

Os homens armados do Daesh mataram civis que tentavam escapar das áreas que eles controlavam.

Jasim, um motorista de 33 anos que vivia atrás das linhas do Daesh na Cidade Velha, morreu quando um atirador do Daesh o atingiu pelas costas enquanto tentava atravessar o Tigre sobre uma ponte parcialmente destruída.

Há dois meses atrás, ele estava em contato com o The Independent pelo telefone depois de ter sido ferido na perna por um ataque de um drone da coligação.

"Depois de um tempo, senti uma forte dor na minha perna, e depois de alguns momentos percebi que estava ferido", disse. "Fui andando e arrastando-me para uma pequena clínica temporária nas proximidades, mas eles não podiam tratar a minha perna adequadamente".

Abdulkareem, um trabalhador da construção civil de 43 anos, residente no distrito de Al-Maydan, onde o Daesh está a defender a sua última posição, falou com The Independent na semana passada sobre os perigos que ele e a sua família enfrentam.

"Podemos ouvir o estrondo do bombardeamento e do fogo de morteiro", afirmou. "Mas não sabemos se é o exército iraquiano, os ataques aéreos da coligação ou o Daesh".

Poucos dias depois, um ataque aéreo atingiu a sua casa. Amigos disseram que ele estava gravemente ferido.

Longe da atual zona de batalha em Mossul, muitos distritos estão desertos e apenas transitáveis porque as escavadoras abriram um caminho por entre os destroços.

Numa rua secundária no distrito de Al-Thawra, onde alguns edifícios foram destruídos, uma multidão de pessoas, principalmente mulheres com túnicas pretas que cobriam os seus rostos, bem como os seus corpos, estavam este fim de semana a tentar desesperadamente receber cestas de comida doadas por uma instituição de caridade iraquiana.

"Estas mulheres são de famílias Daesh, então não tenho muita simpatia por elas", disse Saad Amr, um trabalhador voluntário de Mossul que já tinha sido preso pelo Daesh durante seis meses em 2014.

"Eu sofri todas os torturas com exceção da violação", lembrou, acrescentando que os homens das famílias Daesh foram levados para Bagdad para investigação, mas a evidência dos seus crimes é difícil, pelo que a maioria deverá ser libertada. A perspectiva deixou-o nervoso.

Questionado sobre as atitudes populares em Mossul a favor do Daesh, Saad, que trabalha a tempo parcial para uma estação de rádio iraquiana, disse que há três anos, em junho de 2014, quando o Daesh capturou Mossul, "cerca de 85% das pessoas apoiaram-nos porque a população foi muito maltratada pelas forças do governo iraquiano. A percentagem mais tarde caiu para 50 por cento por causa das atrocidades cometidas pelo Daesh e agora é cerca de 15 por cento".

Ahmed, o irmão de Saad, que vive no leste de Mossul, disse mais tarde que estava nervoso porque muitos ex-militantes do Daesh estavam a passear pela cidade depois de raparem as suas barbas.

Numa instalação médica localizada numa loja adaptada em al-Thawra, um combatente do Daesh ferido, que tinha sido atingido no rosto por estilhaços de um morteiro, estava deitado numa cama a receber soro.

"Não pode falar com ele porque ele ainda está sob investigação", advertiu um guarda de uniforme. Outros 30 suspeitos do Daesh estavam detidos numa mesquita nas proximidades, embora seja mais provável que sejam funcionários administrativos e não combatentes.

Saad disse que o comportamento das tropas de combate iraquianas, em particular o Serviço de Combate ao Terrorismo, também conhecido como Divisão de Ouro, em relação a civis foi excelente e que "os soldados geralmente dão as suas rações às pessoas famintas". Ele estava mais hesitante no que respeita a como as tropas do exército iraquiano e a polícia vão agir junto da população local.

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