3 de julho de 2017

Para onde foram os racistas britânicos?

Aidan O'Brien*

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Há um ano, a Grã-Bretanha votou pela saída da União Europeia. E muitos progressistas não conseguiram entender isso. Culparam os britânicos – em particular, as classes trabalhadoras inglesas e galesas. Os progressistas vilipendiaram aqueles que tiveram a temeridade de rejeitar Bruxelas. Alguém que quisesse deixar a UE era considerado um racista, um homem das cavernas, um nacionalista irracional e, até, um bêbado louco.

No entanto, hoje – exatamente um ano depois –, após o desempenho de Jeremy Corbyn nas recentes eleições britânicas, progressistas de todo o lado estão entusiasmados e otimistas com os eleitores britânicos. Alguns falam mesmo num Brexit “suave” ou, até, num não Brexit. Mas fará sentido esta variação de humor entre os progressistas, que num ano veem Hitler e no próximo veem Jesus? Mudou assim tanto a Grã-Bretanha num ano? Ou estão os progressistas a fazer uma leitura completamente errada do voto do eleitorado britânico? Será que desapareceram subitamente todos aqueles “odiosos imigrantes”, ou estavam mesmo lá anteriormente?

A Grã-Bretanha não se mudou a si própria no último ano. A recente eleição – que, inesperadamente, deteve a marcha dos Tories – complementou (e, ao invés, não contrariou) o voto para sair da União Europeia. O sucesso de Corbyn baseou-se num argumento antiausteridade. Ele deu aos britânicos uma alternativa, não só à visão conservadora da sociedade, mas também à visão da Europa da UE. Ele tentou acabar, explicitamente, com o absurdo neoliberal que traumatizou a maioria e enriqueceu a minoria. E, ao fazê-lo, estava a afastar a Grã-Bretanha da UE – e não a aproximá-la.

Se, este ano, os britânicos compreenderam o horror da austeridade, não é possível que também o tivessem compreendido no ano passado, quando votaram pelo Brexit? Considerando que “a UE” defende a “austeridade fanática”, é razoável assumir que a rejeição britânica da UE, no ano passado, foi baseada no medo da austeridade e não no medo dos imigrantes.

Se o ódio à imigração fosse a força motriz do voto no Brexit, no ano passado, então deveria ter-se manifestado novamente nas eleições gerais deste ano. Mas não. Pelo contrário, desapareceu da vista. O único partido político que, nos últimos anos, fez da imigração uma grande questão – o UKIP (o Partido da Independência do Reino Unido) - foi destruído nas recentes eleições. Isto sugere que a imigração foi e é uma questão superficial entre o eleitorado britânico.

Em retrospetiva, é justo concluir que a verdadeira questão, no ano passado, não era a dos imigrantes, mas a da própria UE – em particular, as suas brutais políticas de austeridade –, políticas que os conservadores britânicos, desde há muitos anos, abraçaram incondicionalmente. Os eleitores britânicos responderam negativamente a essas políticas, não só este ano, mas também no ano passado. Esta é a única verdadeira lição que podemos retirar desses dois dramáticos votos britânicos. O fio comum é a rejeição racional da austeridade praticada na UE e no Reino Unido.

Portanto, os progressistas erraram ao criticar ferozmente o voto no Brexit, no ano passado. Foram enganados por uns meios de comunicação dominantes, que minimizaram as políticas de austeridade da UE – com as quais eles (os meios de comunicação) concordavam – enquanto exageravam o medo dos imigrantes. Os progressistas perderam completamente o significado positivo de esquerda do voto no Brexit (John Pilger e Tariq Ali são as exceções) – algo que pode ser hoje claramente percebido.

E o que dizer da juventude britânica – aqueles que adoram Corbyn e, ao mesmo tempo, supostamente, amam a UE? Após a votação do Brexit, argumentou-se que os britânicos mais velhos e obsoletos traíram os britânicos jovens e europeístas. No entanto, nas eleições gerais, os jovens votaram esmagadoramente pelo fim da austeridade. Mais uma vez: como se pode afirmar que um jovem que se opõe à austeridade no Reino Unido quer – ao mesmo tempo – pertencer a uma organização europeia que festeja a austeridade permanente? Ou os jovens estão loucos, ou o seu querer político tem sido constantemente sub-representado nos meios de comunicação dominantes (como tudo o mais) e só agora se está a afirmar claramente.

O descarrilamento do comboio conservador não significa o descarrilamento do Brexit, mas sim o descarrilamento da austeridade na Grã-Bretanha. Isto encoraja os progressistas em todo o lado – e com razão –, ainda que alguns deles continuem paradoxalmente a apoiar uma União Europeia que se trancou num colete de forças de austeridade neoliberal. Esta contradição na consciência progressista é encoberta pela crença de que a UE é uma barreira ao racismo, ou ao que alguns chamam “nacionalismo”. E, por isso, qualquer pessoa que se oponha à UE é vista como um racista ou um “nacionalista” com uma estreita mentalidade de direita, mesmo que a própria UE esteja a aprofundar a desigualdade e, consequentemente, o ódio social e nacional em todo o continente.

Cegos por esta falsa luta (falsa porque não é efetuada) contra o “ódio racial nazista”, os progressistas não conseguem ver o amplo ódio de classe que enforma o núcleo essencial da UE e que – entre outras coisas infernais – gera efetivamente o racismo. A ironia é que aqueles que amam a UE por causa das suas credenciais “antirracistas” (“antinazistas” ou “antinacionalistas”) acabaram a apoiar um regime fanaticamente austero que promove as divisões sociais (assim como as divisões internacionais), que são a pedra fundamental do racismo. E da guerra.

Os votos no Brexit e em Jeremy Corbyn foram positivamente antissistémicos. Os progressistas compreenderam o significado do segundo voto, mas interpretaram mal o primeiro. Em geral, esse mal-entendido resultou de o povo ou as classes trabalhadoras estarem muito à frente da classe política. Não há maior sinal deste fato do que a diferença entre o povo os meios de comunicação dominantes. Depois de ridicularizarem o Brexit e Corbyn, os meios de comunicação – à luz dos resultados do último ano – agora, não têm qualquer base para se sustentar. Isto, porque os meios de comunicação representam a “classe neoliberal politicamente correta” e nada mais. Contudo, as linhas de batalha do povo estão claras e sólidas. E o povo está no terreno da classe e não da raça.

No entanto, os racistas britânicos existem.

E, neste momento, estão a apoiar o governo minoritário de Teresa May. O Partido Democrático Unionista (DUP) do nordeste da Irlanda representa “os israelenses da Irlanda”. E, agora, são os fazedores de reis da Grã-Bretanha. Por um longo tempo, o hábito britânico foi o de exportar os seus racistas arruaceiros. Os seus homens armados e colonizadores viajaram e estabeleceram-se em todo o mundo – e muitos não foram além da Irlanda. Agora – ironia de ironias – estão a instalar-se no n.º 10 da Downing Street, no que aparece como uma última estadia.

O DUP votou de fato no Brexit por razões racistas (eles odeiam os irlandeses). É com isto que a Irlanda tem de viver. A questão agora é: viverão também com isto Corbyn e a juventude britânica? Se ambos são sérios sobre o combate à austeridade, Corbyn e o seu exército juvenil irão também combater o racista DUP. O Brexit facilitará a luta de Corbyn, porque este não terá de fingir uma unidade com os racistas coloniais. Os progressistas ambíguos, porém, são outra questão.

* Aidan O'Brien é um trabalhador hospitalar em Dublin, na Irlanda.

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