23 de julho de 2017

Trump e os fascistas cristãos

Chris Hedges

TruthDig

O vácuo ideológico de Trump, quanto mais são isolados e atacados, vai sendo preenchido pela direita cristã. Esse fascismo cristianizado, com sua rede de megaigrejas, escolas, universidades e faculdades de Direito e imenso império de rádio e TV, é aliado potente de uma Casa Branca capada. A direita cristã prepara-se e organiza-se há décadas para tomar o poder. Se a nação sofrer outro colapso econômico, o que é provavelmente inevitável, outra onda de ataques terroristas ou inventar alguma nova guerra, o poder de Trump para impor a agenda da direita cristã e fazer calar qualquer oposição ou dissidência estará dramaticamente aumentado. Na eleição presidencial nos EUA, 81% dos evangélicos brancos apoiaram Trump.

Os movimentos de Trump para restringir o aborto, impedir que o Planned Parenthood continuasse a receber fundos, permitir a discriminação contra pessoas LGBT em nome da "liberdade religiosa" e permitir que as igrejas se tornem ativas na política, destruindo a Emenda Johnson, juntamente com suas nomeações de juízes defendidas pela Sociedade Federalista, e seu apelo à proibição dos imigrantes muçulmanos, tem direcionado-o para o direita cristã. Ele reverteu  a legislação de direitos civis e regulamentações de negócios e meio ambiente. Ele elevou ao poder vários figurões da direita cristã – Mike Pence à vice-presidência, Jeff Sessions ao Departamento de Justiça, Neil Gorsuch para a Suprema Corte, Betsy DeVos ao Departamento de Educação, Tom Price para Saúde e Serviços Humanos e Ben Carson para Moradia e Desenvolvimento Urbano. Trump abraça o suprematismo branco, a intolerância branca, o chauvinismo norte-americano, a ganância, a intolerância religiosa, o ódio e o racismo que definem a direita cristã.

Mais importante, o desprezo de Trump pelos fatos e sua propensão para o pensamento mágico e as teorias de conspiração se encaixam bem com a visão de mundo da direita cristã, que se vê como atacada pelas forças satânicas do humanismo secular incorporadas na mídia, academia, establishment liberal, Hollywood e o Partido Democrata. Nesta visão de mundo, as mudanças climáticas não são reais, Barack Obama é muçulmano e milhões de pessoas votaram ilegalmente nas eleições de 2016.

Os seguidores da direita cristã, Trump e seus assessores pensantes, inclusive Stephen Bannon, são Maniqueístas. Veem o mundo em branco e preto, bem e mal, eles e nós. A fala de Trump no discurso na Polônia, em que clamou por uma cruzada contra as hordas de muçulmanos sem Deus – os mesmos que tentam salvar-se das guerras e caos que os EUA criamos – replica a visão da direita cristã. Líderes da direita cristã, em sinal de apoio, visitaram a Casa Branca dia 10 de julho, para rezar por Trump. Dois dias depois, Pat Robertson já lá estava para entrevistar o presidente para sua Christian Broadcasting Network.

Se a aliança entre esses zelotes e o governo for bem sucedida, isso eliminará os últimos vestígios da democracia americana.

Na superfície pareceria incongruente que a direita cristã se pusesse a seguir um especulador nova-iorquino ativo no ramo imobiliário, conhecido publicamente como mulherengo e adúltero, sem qualquer consideração pela verdade, consumido pela ganância, que não dá qualquer sinal de algum dia ter lido ou ouvido falar da Bíblia, que rotineiramente assalta seus investidores e fornecedores, que expressa a mais crua misoginia e narcisismo ainda mais cru e mostra propensão para o despotismo. Pareceria incongruente, mas, na verdade, essas são as características que definem a maioria dos líderes da direita cristã. Trump saqueou gente em desespero nas milhares de máquinas caça-níqueis em seus cassinos, em sua universidade de impostura e em seus negócios imobiliários bem reais. Pastores de megaigrejas são como aves de rapina na predação dos infelizes que os seguem, para extrair "sementes ofertadas", "dádivas de amor", dízimos e doações, vendendo curas milagrosas e "roupas de orar", livros de autoajuda, gravações de áudio e vídeo e até shakes de proteína. Os pastores estabeleceram-se dentro de suas megaigrejas, como Trump estabeleceram-se em seus 'direitos', negócios e feudos despóticos. Não podem ser desafiados nem questionados, assim como aquele Trump onipotente não podia ser desafiado no programa "O aprendiz". E os bispos tentam agora replicar em escala nacional as suas pequenas tiranias – sempre com homens brancos no comando.

A piedade pessoal da maioria dos bispos e ministros que lideram a direita cristã não passa de fachada. A vida privada dele é quase sempre marcada pelo mais ostentatório hedonismo, que inclui mansões, aviões particulares, limusines, esquadrões de guarda-costas, assistentes e serviçais pessoais, viagens para compras, férias de ostentação e escapadas sexuais que rivalizam com as de Trump. E uma vez que comandam "igrejas", em muitos casos os fundos da igreja pagam por aqueles impérios livres de impostos. E praticam o mesmo nepotismo que se vê nas empresas Trump, elevando amigos, sócios e familiares às posições de mais prestígio ou de mais altos salários, e passam 'o serviço' para os filhos.

The Christian right’s scandals, which give a glimpse into the sordid lives of these multimillionaire pastors, are legion. Jim and Tammy Faye Bakker’s Praise the Lord Club, for example, raked in as much as $1 million a week before Jim Bakker went to prison for nearly five years. He was convicted of fraud and other charges in 1989 because of a $158 million scheme in which followers paid for vacations that never materialized. As the Bakker empire came apart, there also were accusations of drug use and rape. Tammy Faye died in 2007, and now Jim Bakker is back, peddling survival food for the end days and telling his significantly reduced television audience that anyone who opposes Trump is the Antichrist.

Paul and Jan Crouch, who gave the Bakkers their start, founded Trinity Broadcasting, the world’s largest televangelist network, now run by their son Matt and his wife, Laurie. Viewers were encouraged to call prayer counselors at the toll-free number shown at the bottom of the TV screen. It was a short step from talking with a prayer counselor to making a “love gift” and becoming a “partner” in Trinity Broadcasting and then sending in more money during one of the frequent Praise-a-Thons.

The Crouches reveled in tasteless kitsch, as does Trump. They sat during their popular nightly program in front of stained glass windows that overlooked Louis XVI-inspired sets awash in gold rococo and red velvet, glittering chandeliers and a gold-painted piano. The network emblem, which Paul Crouch wore on the pocket of his blue double-breasted blazer, featured a crown, a lion, a horse, a white dove, a cross and Latin phrases among other elements. The Crouches would have been at home in Trump Tower, where the president has a faux “Trump crest”—allegedly plagiarized—and has decorated his penthouse as if it was part of Versailles.

The Crouches were masters of manipulation. They exhorted viewers to send in checks for $1,000, even if they could not afford it. Write the check anyway, Paul Crouch, who died in 2013, told them, as a “step of faith” and the Lord would repay them many times over. “Do you think God would have any trouble getting $1,000 extra to you somehow?” he asked during one Praise-a-Thon broadcast. Viewers, many of whom struggled with deep despair and believed that miracles and magic alone held them back from the abyss, often found it impossible to resist this emotional pressure.

A rede de mídia Trinity Broadcasting Network (TBN) é lar dos piores charlatães na direita cristã nos EUA, incluindo o curandeiro Benny Hinn, que diz que Adão foi um super-herói que podia voar até a Lua, e que um dia os mortos serão ressuscitados, se assistirem às transmissões da rede Trinity dentro dos próprios esquifes. Hinn claims his “anointings” have cured cancer, AIDS, deafness, blindness and numerous other ailments and physical injuries. Those who have not been cured, he says, did not send in enough money.

Esses grandes mentirosos de massa são alguns dos charlatães mais bem-sucedidos nos EUA, traço que partilham com vários dos moradores da Casa Branca ao longo da história.

Em 2007 publiquei um livro intitulado "American Fascists: The Christian Right and the War on America". Não usei a palavra "fascistas" levianamente. Consumi várias horas ao final de dois anos de pesquisas, com dois dos maiores especialistas norte-americanos em fascismo – Fritz Stern e Robert O. Paxton. Será que essa ideologia dita "evangélica" satisfaz os parâmetros do fascismo clássico? Será virulenta e organizada que chegue para tomar o poder? Irá aos extremos mais cruéis dos movimentos fascistas prévios, de perseguir e silenciar qualquer dissidência? Terá nossa sociedade desindustrializada replicado o desespero que alucina, a alienação e o ódio que sempre alimentaram os movimentos fascistas?

O evangelismo promovido pela direita cristã é muito diferente hoje do evangelismo e do fundamentalismo de há um século. A ênfase na piedade pessoal que definia o movimento antigo, a lição de evitar a contaminação da política do capitalismo, foi substituída pelo Christian Reconstructionism, que muitos chamam de Dominionism. Essa nova ideologia tem a ver com assumir o controle de todas as instituições, inclusive no governo, para construir uma nação "Cristã". Rousas John Rushdoony em seu livro de 1973, "The Institutes of Biblical Law" foi o primeiro a articular a nova ideologia. Rushdoony argumentou que Deus dá ao eleito, assim como deu a Adão e Noé, o domínio sobre a Terra, para construir uma sociedade Cristã. O estado virá com a erradicação física das forças de Satã. É dever da igreja e do eleito 'resgatar' o mundo, para que Cristo possa voltar.

Essa é uma ideologia da morte. Promete que a sociedade secular, humanista será fisicamente destruída. Os Dez Mandamentos serão a base do sistema legal. Criacionismo ou "Desígnio Inteligente" será ensinado nas escolas públicas. Pessoas consideradas 'desviantes, incluindo homossexuais, imigrantes, humanistas seculares, feministas, judeus, muçulmanos, criminosos e os descartados como "cristãos nominais" – quer dizer, cristãos que não abraçam a interpretação 'deles' da Bíblia (que para eles seria a única versão certa do livro sagrado) – serão silenciados, aprisionados ou mortos. Nesse mundo, o papel do governo federal será reduzido a proteger direitos de propriedade, a segurança "da pátria-mãe" e a fazer guerras, muitas guerras. Organizações religiosas receberão fundos do Estado e os correspondentes direitos, para organizar e dirigir agências de bem-estar. Aos pobres, condenados por indolência e por viverem 'em pecado', não receberão qualquer assistência do estado. A pena de morte será expandida para incluir "crimes morais", dentre os quais apostasia, blasfêmia, sodomia e bruxaria, além de aborto, que será tratado como assassinato. As mulheres serão subordinadas aos homens. Crentes de outras fés serão tratados na melhor das hipóteses como cidadãos de segunda classe, na pior, serão expulsos da sociedade, convertidos em párias. As guerras no Oriente Médio serão definidas como cruzadas religiosas contra muçulmanos. Não haverá separação entre igreja e estado. As únicas vozes legítimas serão 'cristãs'. Os EUA serão convertidos em agentes de Deus. Os que se opuserem às autoridades cristãs serão declarados agentes de Satã.

Dezenas de milhões de norte-americanos já estão hermeticamente fechados dentro dessa visão de mundo bizarra. São alimentados por dieta rigorosa de teorias conspiracionais e mentiras, nos jornais, na televisão, na internet, nas igrejas, nos colégios e universidades religiosos. Elizabeth Dilling, que escreveu "The Red Network" [A Rede Vermelha] será livro obrigatório (a autora era simpatizante do nazismo). Thomas Jefferson, que pregava a separação entre igreja e estado, já é ignorado. Essa propaganda cristã promove as "significativas contribuições da Confederação. O senador Joseph McCarthy, que comandou a caça às bruxas do anticomunismo nos anos 1950, já está reabilitado como herói dos EIA. O conflito Israel-Palestina, e as guerras no Iraque, Afeganistão, Iêmen, Somália e Líbia são definidas como parte da batalha planetária contra o terror islâmico-satânico. Atualmente, quase 40% dos norte-americanos creem no criacionismo ou no "Desígnio Inteligente". E quase um terço da população, 94 milhões de pessoas, consideram-se 'evangélicas'.

Aqueles que permanecem em um universo baseado na realidade muitas vezes descartam esses descontentes como bufões. Eles não levam a sério o grande segmento do público, na maior parte branco e da classe trabalhadora, que por causa do sofrimento econômico tem anseios primários de vingança, nova glória e renovação moral e são facilmente seduzidos pelo pensamento mágico. Estes são os anseios e emoções que Trump explorou politicamente.

Os que abraçam esse movimento têm de sentir, mesmo que não o sejam, que são vítimas cercadas por grupos obscuros e sinistros dedicados a destruí-los. Eles precisam autoelevar-se ao papel de guerreiros santificados, imbuídos de um objetivo nobre e que receberam chamamento divino. No poder, têm de santificar o ódio e o machismo que estão no cerne do fascismo. A rigidez e o infantilismo dessa crença, que inclui ser escolhido por Deus para um específico objetivo na vida, são armas potentes na luta contra os demônios que eles mesmos criam e contra a ânsia, jamais respondida, por significado.

"O mal, quando estamos presos em suas garras, nós não o sentimos como mal, mas como necessidade, até mesmo como dever" – escreveu Simone Weil.

Esses crentes, como todos os fascistas, detestam o mundo construído de realidades. Condenam esse mundo real como contaminado, decaído e imoral. Esse mundo acabou com os empregos, destruiu o futuro, arruinou cidades e comunidades. Desgraçou seus filhos. Afogou a vida dos próprios crentes – antes de verem a luz, claro – no álcool, nos narcóticos, na pornografia, no abuso sexual, em longas sentenças de prisão, na violência doméstica, na privação e no desespero. E então, das profundezas do desespero suicidário, os hoje crentes repentinamente descobriram que Deus sempre tivera um plano para eles. Deus os salvará. Deus é fiel. Deus intervirá na vida deles e protegerá os crentes. Deus os convocou para levar adiante essa missão no mundo e para serem ricos, poderosos e felizes.

As forças racionais, seculares, aquelas que falam a linguagem do fato e da prova lógica e material, são odiadas e temidas, porque sempre tentam puxar os neocrentes outra vez para "a cultura da morte" que quase os destruíram antes de terem visto a luz. O sistema da crença mágica, como foi para os trabalhadores alemães empobrecidos que acorreram aos milhares para o Partido Nazista, é uma boia salva-vidas emocional. É a única coisa que os mantêm à tona. A única via para desmascarar e esvaziar esse movimento mágico é reintegrar aquelas massas à economia, dar-lhes estabilidade no mundo real mediante bons salários e benefícios, para lhes restaurar a autoestima. Precisam viver numa sociedade não predatória, mas, isso sim, que provê escolas públicas com financiamento abundante, educação universitária gratuita e atenção universal à saúde, uma sociedade na qual eles e suas famílias possam prosperar.

Não podemos nos deixar ficar junto aos portões escancarados da cidade, passivamente à espera de que cheguem os bárbaros. Eles estão chegando. Correm furiosos em direção a Belém. Temos de nos livrar de toda nossa complacência e nosso cinismo. Temos de desafiar abertamente o establishment liberal, que não nos salvará; exigir e lutar por reparação econômica para os pobres e a classe trabalhadora. Temos de dar a todos os brasileiros e norte-americanos uma esperança objetivamente baseada na realidade, que os faça encontrar algum futuro viável. O tempo está acabando. Se não agirmos, os fascistas cristãos, agarrados a cruzes e estandartes e aventaizinhos maçônicos, agarrados a bandeiras nacionais e a patos amarelos, e orquestrando 'cultos' em massa, que ocupam as cidades, e nos quais todos recitam o juramento de compromisso, todos unidos por trás da figura patética de Donald Trump usurpadores –, levarão todo o ódio que os une, até o centro do poder.

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