30 de novembro de 2016

As consequências da destruição da URSS. Para marcar o 25º aniversário deste evento histórico

Um texto fundamental, para ser apreciado lentamente, pois oferece uma nova perspectiva de pesquisa e avaliação da situação atual, incluindo as condições de aprofundamento da crise do capitalismo após a queda do URSS (nota Danielle Bleitrach)

por Juozas Jermalavičius

Le Grand Soir

A criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas como reunião de povos e federação de Estados comprometidos na construção socialista foi um extraordinário acontecimento, sem precedentes na história mundial. Antes do nascimento da União Soviética, a história global da humanidade nunca conhecera uma tal associação voluntária em tão grande escala de nações e nacionalidades num único Estado.

Esta experiência foi tornada possível pela vitória da Grande Revolução Socialista de Outubro, que libertou os povos do Império Russo, da opressão social e exploração, proporcionando-lhes uma perspectiva de desenvolvimento livre. É por isso que o socialismo soviético foi o supremo grau de progresso histórico da humanidade no século XX.

Não é portanto surpreendente que a destruição da União Soviética tivesse resultado em consequências catastróficas para os povos do nosso país multinacional e a humanidade no seu conjunto.

Tendo como objetivo a destruição da União Soviética, a contra-revolução imperialista não tinha nenhuma ideia real das possíveis consequências desta brutal agressão de dimensão mundial. A contra-revolução não tinha uma percepção adequada e muito menos uma compreensão científica da realidade histórica de como se encontrava a humanidade moderna nas últimas décadas do século XX. Ela voltava as costas às leis objetivas do desenvolvimento social da comunidade mundial, ignorava o impacto transformador a nível mundial da revolução tecnológica e distorcia a natureza global do agravamento da crise geral do capitalismo.

A contra-revolução não podia imaginar que, devido ao alto grau de integração e interdependência da comunidade internacional, o desmembramento da União Soviética iria inevitavelmente conduzir à ruptura do equilíbrio no desenvolvimento social global e ao mesmo tempo provocar uma completa desestabilização do processo histórico global. A contra-revolução era guiada pela estratégia fascista do imperialismo dos EUA, para estabelecer o domínio global e a restauração completa do capitalismo em todo o planeta, o que, objetivamente, era impossível.

A criminosa destruição da União Soviética significou uma derrota grave do sistema socialista mundial, um enfraquecimento do processo revolucionário mundial, uma deterioração da democracia política e do progresso social no mundo e a extrema intensificação da crise global do capitalismo. Com o desmembramento da União Soviética desencadeou-se a agressão imperialista contra a humanidade, na medida em que tinha sido perdido o seu principal fator de dissuasão. Foi assim que o imperialismo dos EUA se ocupou a provocar guerras civis, conflitos étnicos e religiosos, viu-se prosperarem bandos armados em vários "pontos quentes”: no Cáucaso, Balcãs, Ásia Central, Médio Oriente, Norte da África, Ucrânia e outras partes do mundo. Por último, a “guerra de interesses” agravou-se de modo significativo em toda a parte.

O colapso da União Soviética foi um choque económico, social, político e espiritual de dimensão mundial, afetando o desenvolvimento histórico da humanidade. Como resultado da desintegração da União Soviética, a contra-revolução imperialista ela própria foi arrastada para uma configuração particular do desenvolvimento social global, que não podia dominar, condenando-se ela própria a uma morte inevitável. Constituindo uma anomalia no processo histórico natural, o desmembramento da União Soviética foi marcado por consideráveis consequências devastadoras em todos os países. Como resultado, a crise global atingiu o paroxismo. Em última análise, com a destruição da União Soviética começou a fase final do colapso do sistema capitalista mundial e a ordem social baseada na propriedade privada. O afundamento da velha ordem mundial tem conhecido uma significativa aceleração tomando o aspeto de uma avalanche.

A destruição da União Soviética foi imediatamente seguida por colocar em condições de escravidão colonial o país, aniquilando em grande escala as suas forças produtivas, a transformação do seu território num apêndice de matérias-primas para os monopólios transnacionais e o genocídio de seu povo. O papel destrutivo principal foi desempenhado pela privatização dos meios de produção, para a restauração do capitalismo no país desmantelado. Diretamente oposta à principal lei objectiva de desenvolvimento da produção material – a sua socialização – a lei de privatização resultou numa falha catastrófica da economia nacional e um colapso completo da produção social. As consequências sociais da privatização foram o enorme empobrecimento da população, a polarização social da sociedade, a extinção da população do país. Os povos da União Soviética encontraram-se sob a ameaça do fim da sua existência como comunidade histórica de pessoas.

Para os povos da União Soviética, a destruição de seu Estado federal causou uma catástrofe nacional no primeiro semestre de 1990, devido ao colapso da base económica comum da sociedade soviética, minando os fundamentos da vida material e produtiva das populações. A queda da produção social foi mais importante que os danos sofridos pela economia nacional da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Em consequência, assistiu-se a um declínio acentuado do nível e da qualidade de vida, a grande maioria das massas encontrou-se abaixo da linha da pobreza, uma grande parte da população do país foi atingida pelo desemprego, a lumpenisação, a pauperização. Em alguns lugares eclodiram guerras civis sangrentas, marcadas por numerosas vítimas humanas e causando a fragmentação das antigas repúblicas soviéticas. A consequência foi a degradação social dos povos soviéticos, a diminuição da população total do país desmembrado, tendo a destruição do Estado-União Soviética arruinado as principais fontes da sua viabilidade.

A restauração do capitalismo na União Soviética desintegrada caracterizou-se, acima de tudo, pela destruição acelerada das forças produtivas da sociedade soviética. O país, que anteriormente era auto-suficiente, provendo totalmente as necessidades da sua população, perdeu neste desastre sectores industriais inteiros como a construção de máquinas-ferramentas, equipamentos, engenharia eléctrica, electrónica e outros domínios do progresso científico e tecnológico. A restauração capitalista transformou a ex-União Soviética, numa região atrasada, desesperada, cinzenta. Os povos da URSS foram destruídos sob o domínio do capital comprador, com a privatização da economia fez-se passar a riqueza social para o controlo ou mesmo posse direta de monopólios estrangeiros. É a própria soberania dos povos ex-soviéticos que está ameaçada.

A restauração do capitalismo na União Soviética afetou o sistema capitalista mundial, porque provou-se incompatível com as leis objetivas do desenvolvimento social. Portanto, a restauração do capitalismo na União Soviética desencadeou tendências destrutivas à escala global, como a desestabilização do desenvolvimento social global, a extrema intensificação da crise geral do sistema capitalista mundial, a desintegração completa dos sistemas económicos e políticos no mundo, a aceleração da derrocada do sistema social baseado na propriedade privada, etc. Seguiu-se uma repartição territorial do mundo, um importante agravamento dos problemas e contradições globais, um aumento significativo da ameaça de uma catástrofe global na humanidade. Todas estas condições tiveram por efeito um caos generalizado e global: acelerou-se o colapso da velha ordem social, rejeitada no mundo inteiro que recusa o poder egoísta das forças políticas atuais. Mas quando o caos mundial começa gerir o desenvolvimento social global, é a própria existência da humanidade que está em perigo.

A desintegração da União Soviética tem contribuído para o aumento da agressão imperialista global contra a humanidade que vai até à real ameaça de uma catástrofe nuclear. Mas na realidade histórica, tornou-se evidente que os imperialistas destruidores da União Soviética acabaram como reféns de seus atos criminosos. Eles são incapazes de controlar a situação crítica do mundo, porque com o desmembramento do Estado Soviético transpuseram o limite do aceitável no processo histórico mundial.

Portanto, todas as suas aspirações egoístas transformam-se no seu oposto, dando origem a consequências desastrosas para eles próprios. Não podia ser de outra forma dado que as forças políticas no poder na maioria dos países vão contra as leis objetivas do desenvolvimento social. É algo que está determinado pela lógica objetiva da história do mundo. A dialética da história orienta as nações do mundo para a formação de uma nova união de Estados, mais poderosa que a antiga União Soviética. O exemplo da União Soviética – uma Federação Socialista multinacional – servirá como protótipo a uma União mundial dos povos do planeta, que só é verdadeiramente realizável numa base socialista. A agressão imperialista global não faz senão reforçar os espasmos de sua agonia.

A agonia universal em que mergulha o sistema capitalista mundial não é devida ao colapso da União Soviética. As causas mais fundamentais e mais antigas estão relacionadas com a revolução científica e técnica. Durante esta enorme revolução no desenvolvimento das forças produtivas da humanidade, o capitalismo esgotou todas as suas possibilidades e entrou naturalmente na etapa histórica do fim irreversível da sua existência. Tendo sofrido o impacto transformador da revolução tecnológica, a economia mundial não pode desenvolver-se espontaneamente sob o sistema obsoleto das relações de produção baseado na propriedade privada. Ela está esgotada e cai sob os golpes da crise global. O capital financeiro monopolista que domina no campo capitalista rompeu com a produção material e está imerso na especulação a nível global. Assim, o capital financeiro transformou-se em ficção, funcionando apenas por inércia e tende a esgotar-se de maneira inexorável e irreversível. A especulação capitalista degenera numa agonia universal do modo de produção capitalista, com todas as consequências que isso implica nos planos económico, social, político e espiritual, que se combinam na destruição do sistema social capitalista no planeta. A desintegração da União Soviética não fez senão acelerar e aprofundar este processo histórico natural.

Todas essas manifestações da crise global tomadas como um todo testemunham a formação no final do século XX, de uma situação revolucionária a nível mundial. É caracterizada por uma completa desestabilização das relações internacionais, o aumento das tendências catastróficas e caóticas no desenvolvimento social dos povos do mundo. É marcada pelo desencadear no cenário mundial de forças sociais e políticas da regressão social e da agressão militar, a agressão mundial do imperialismo contra a humanidade, a perda de controlo das forças contra-revolucionárias sobre os processos no mundo. Pela sua própria natureza, ela reflete a inevitabilidade da destruição da ordem social fundada na propriedade privada. E portanto, a situação de crise aguda à escala planeta está ligada ao objetivo condicionamento pela revolução científica e técnica à escala global da via socialista de desenvolvimento da comunidade mundial das nações. Esta situação revolucionária mundial abre novas perspectivas de uma vaga de revoluções socialistas primeiro na maioria dos países, mais tarde sobre o resto do planeta.

O imperialismo agonizante tornou-se extremamente agressivo e perigoso. A agressão mundial da reação fascizante do imperialismo empurra a crise global para uma escalada que pode conduzir à catástrofe universal e à autodestruição da humanidade. A única alternativa para a autodestruição da humanidade é a transformação revolucionária da sociedade, de acordo com princípios socialistas na maioria dos países. É uma verdadeira alternativa que tiraria os povos do mundo da crise global, iria compromete-los na construção de uma sociedade socialista sem classes, a liberdade social, a justiça e a igualdade. Não há outro meio de sair da crise mundial. Tanto mais que a revolução científica e técnica torna acessíveis capacidades produtivas suficientes para satisfazer as necessidades humanas de toda a população do planeta. A implementação desta oportunidade estratégica para a humanidade pressupõe o triunfo global do socialismo.

O imperialismo agonizante pode ainda destruir dezenas de nações e atirar a humanidade para longe do caminho do seu desenvolvimento histórico. Mas o imperialismo não é mais capaz de sair vivo de sua própria crise, que encerra a história secular da civilização baseada na propriedade privada. A sua crise global é a última crise na história do mundo. A transformação das características básicas do capitalismo no seu oposto durante o século XX conduziu à degeneração económica do capital. Devido à especulação, tornou-se virtual, fictício, ilusório. Transformou-se num pseudo capital. Paralelamente a isto seguiu-se uma degenerescência social da sociedade burguesa e a sua desumanização e dessocialização, a ferocidade e a barbárie. Essas tendências refletem as últimas convulsões do sistema capitalista mundial.

Após a agonia do imperialismo no processo histórico mundial acontece naturalmente o socialismo, cuja fase inicial já foi percorrida pelos povos soviéticos. Confrontados com o problema da sua conservação e sobrevivência, os povos da URSS destruída ampliam cada vez mais os seus movimentos de protesto contra a restauração do capitalismo no nosso país dividido. A salvação e a sobrevivência dos povos soviéticos situa-se no socialismo renovado num nível superior de desenvolvimento social ao que foi construído e implementado na URSS no século XX. Este objectivo estratégico será seguido por outros povos do mundo. A sua passagem para um modo de vida socialista é objetivamente imposta pela revolução científica e tecnológica em todo o mundo. Não há nenhuma outra via.

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