2 de agosto de 2017

Por trás do fim repentino de um US $ 1 bilhão secreto da CIA. Guerra na Síria

Mark Mazzetti, Adam Goldman, Michael S. Schmidtaug 


Forças armadas russas e militares em uma base aérea fora de Latakia, na Síria, no ano passado. Os bombardeios russos ajudaram a afundar um exército rebelde apoiado pela C.I.A. Ministério da Defesa da Rússia, via European Pressphoto Agency

Tradução / O final chegou com celeridade para um dos mais dispendiosos programas de ação encoberta na história da CIA.

No decurso de uma reunião de trabalho na Casa Branca no início do mês passado, o diretor da CIA, Mike Pompeo, recomendou ao Presidente Trump o encerramento da iniciativa, já com quatro anos, para armar e treinar rebeldes sírios. O presidente encerrou o programa de imediato.

Nessa altura o exército rebelde não passava de uma concha, esvaziada por mais de um ano de bombardeamentos por parte de aviões russos, e confinada a cada vez mais reduzidas zonas da Síria ainda não reconquistadas pelas tropas governamentais. No Congresso, vozes críticas vinham há anos reclamando acerca dos custos – mais de $1 bilhão no tempo de vida do programa – e a informação de que armamento fornecido pela CIA tinha acabado nas mãos de um grupo rebelde ligado à al-Quaeda reduziu ainda mais o apoio político ao programa.

Embora críticos de Trump tenham argumentado que este encerrou o programa para agradar ao Presidente da Rússia, Vladimir F. Putin, existiam de fato opiniões desfavoráveis acerca dele tanto na Casa Branca de Trump como na de Obama – uma convergência de opinião rara em políticas de segurança nacional.

O encerramento do programa da CIA, uma das mais dispendiosas iniciativas de armamento e treino de rebeldes desde o programa visando os mujahidin no Afeganistão no decurso dos anos 80, forçou a um balanço acerca os seus êxitos e insucessos. Opositores dizem que foi disparatado, caro e ineficaz. Apoiadores dizem que foi desnecessariamente cauteloso, e que os seus sucessos são notáveis tendo em conta que a administração Obama lhe colocou desde o início numerosas limitações, que dizem terem, em última análise, conduzido ao seu fracasso.

O programa teve efetivamente períodos de sucesso, incluindo em 2015, quando rebeldes utilizando mísseis antitanque fornecidos pela CIA e também pela Arábia Saudita derrotaram forças governamentais no norte da Síria. Mas no final de 2015 a ofensiva militar russa na Síria estava claramente concentrada nos combatentes apoiados pela CIA que enfrentavam as tropas governamentais. Muitos combatentes foram mortos e os sucessos do exército rebelde sofreram uma reversão.

Charles Lister, um perito em assunto sírios no Middle East Institute, disse não ficar surpreendido por a administração Trump encerrar o programa, que armou e treinou milhares de rebeldes sírios. (Por comparação, um programa de $500 milhões do Pentágono que visava treinar e equipar 15.000 rebeldes sírios foi cancelado em 2015 tendo produzido apenas algumas dúzias de combatentes.)

“Em muitos aspectos, atribuiria a culpa à administração Obama”, disse Lister sobre o programa da CIA. “Nunca lhe atribuíram os recursos ou o espaço necessário para determinar as dinâmicas no campo de batalha. Alimentaram a conta-gotas grupos de oposição, o suficiente para sobreviverem mas nunca o suficiente para se tornaram atores dominantes.”

Desde que encerrou o programa, Trump já por duas vezes o criticou publicamente. Depois de o The Washington Post ter pela primeira vez informado acerca da sua decisão, Trump escreveu no twitter que estava a pôr fim a “pagamentos massivos, perigosos e destruidores a rebeldes sírios lutando contra Assad”. Durante uma entrevista no mês passado com o The Wall Street Journal, o presidente disse que muito do armamento fornecido pela CIA tinha acabado nas mãos da “al-Quaeda” – presumivelmente referindo-se à Frente Nusra, filiada à al-Quaeda, que frequentemente combateu lado a lado com os rebeldes apoiados pela CIA.

Michael V. Hayden, um diretor anterior da CIA, disse que os comentários do presidente “poderiam dar à agência um tempo de pausa para refletir sobre o quanto poderá assumir em futuras ações encobertas.”

O General Raymond A. Thomas III, chefe do Comando de Operações Especiais dos EUA, disse no decurso de uma conferência no mês passado que pôr fim ao programa da CIA constituíra uma “dura, dura decisão.”

“Tanto quanto sei do programa e da decisão de lhe pôr fim, não se tratou em absoluto de agradar aos russos”, disse. “Penso que foi baseada numa avaliação da natureza do programa, do que procurávamos conseguir, da viabilidade de prosseguir.”

Um porta-voz da CIA recusou-se a comentar.

O presidente Barack Obama tinha em 2013 dado com relutância o seu acordo ao programa, em uma altura em que a administração se esforçava para deter o ímpeto das forças governamentais sírias leais ao presidente Bashar al-Assad. Em breve foi vítima das constantes variações no sistema de alianças na guerra civil síria, já com seis anos, e da limitada visão que os militares e os serviços de informações dos EUA tinham sobre o que estava ocorrendo no terreno.

Uma vez que os combatentes treinados pela CIA atravessavam a Síria, os oficiais da CIA tinham dificuldade em controlá-los. O fato de algum do armamento fornecido pela CIA ter acabado nas mãos de combatentes da Frente al-Nusra – e de alguns dos rebeldes se terem juntado a esse grupo – confirmou os receios de muitos na administração Obama manifestados no início do programa. Embora a Frente al-Nusra fosse amplamente considerada como uma força combatente efetiva contra as tropas de Assad, a sua filiação à al-Quaeda tornava impossível que a administração Obama lhe desse apoio direto.

Agentes dos serviços de informações norte-americanos estimam que a Frente al-Nusra tem agora por volta de 20.000 combatentes na Síria, tornando-se assim a maior filiada na al-Quaeda. Ao contrário de outras filiadas na al-Quaeda, como as que se encontram na península arábica, a Frente al-Nusra tem-se concentrado no combate contra o governo sírio, em vez de planejar ataques terroristas contra os EUA e a Europa.

Estes agentes norte-americanos falaram anonimamente, por não quererem ser identificados a discutir um programa que não é de acesso público.

No verão de 2012 David H. Petraeus, então diretor da CIA, propôs pela primeira vez um programa encoberto visando armar e treinar rebeldes, alvo de pressão por parte das forças governamentais sírias.

A proposta forçou um debate no interior da administração Obama, com alguns dos principais conselheiros de Obama argumentando que o caótico campo de batalha sírio tornaria praticamente impossível garantir que o armamento fornecido pela CIA seria mantido longe das mãos de grupos militantes como a Frente al-Nusra. Obama rejeitou o plano.

Mas mudou de opinião no ano seguinte, assinando uma resolução presidencial autorizando a CIA a armar e treinar de forma encoberta pequenos grupos de rebeldes em bases na Jordânia. A mudança de opinião por parte do presidente resultou em parte da intensa pressão por parte de dirigentes estrangeiros, incluindo o rei Abdullah II da Jordânia e o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu de Israel, que defendiam que os EUA deveriam assumir um papel mais ativo na tentativa de pôr fim ao conflito.

O programa, ao qual foi atribuído o nome de código Timber Sycamore, começou lentamente, mas em 2015 os grupos rebeldes apoiados pela CIA já tinham feito significativos progressos contra as forças sírias, penetrando em zonas do país há muito consideradas como praças-fortes governamentais. A ofensiva ganhou ímpeto depois de a CIA e a Arábia Saudita terem começado a fornecer aos grupos rebeldes poderosas armas de destruição de tanques.

Mas a ofensiva rebelde nas províncias de Idlib, Hama e Latakia no norte da síria criou também problemas a Washington. A Frente al-Nusra, frequentemente combatendo ao lado dos grupos rebeldes apoiados pela CIA, foi obtendo os seus próprios ganhos territoriais. Os sucessos da al-Nusra no campo de batalha foram uma das justificativas de Putin para a ofensiva militar russa na Síria, que teve início em 2015. A campanha russa, bombardeando sem cessar os combatentes apoiados pela CIA e os militantes al-Nusra, devastou os rebeldes e obrigou-os à retirada.

O programa sofreu outros contratempos. O armamento e o treinamento dos rebeldes ocorreu na Jordânia e Turquia, e em certa ocasião agentes dos serviços de informações jordanos surripiaram grandes quantidades de armamento que a CIA enviara para o país destinados aos rebeldes sírios, e venderam-nos no mercado negro. Em novembro, um membro da tropa jordana atingiu a tiro três soldados norte-americanos que tinham estado treinando rebeldes sírios integrados no programa da CIA.

Funcionário da Casa Branca recebiam também informações periódicas de que os rebeldes treinados pela CIA tinham executado sumariamente prisioneiros e cometido outras violações das regras de conflito armado. Por vezes, essas informações levavam a que a CIA suspendesse a cooperação com grupos acusados de tais práticas.

John O. Brennan, o último diretor da CIA de Obama, permaneceu um vigoroso defensor do programa apesar das divergências internas na agência de espionagem sobre a sua eficácia. Mas pela altura do último ano da administração Obama, o programa tinha perdido muitos apoiadores na Casa Branca – em particular depois da prioridade principal da administração ter passado a ser o combate ao Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou ISIL, mais do que o esforço para acabar como o governo al-Assad.

No decurso de uma reunião no Situation Room da Casa Branca, no final da administração Obama, com os rebeldes apoiados pela CIA continuando a perder terreno face ao persistente bombardeamento aéreo russo Brennan insistiu, segundo uma pessoa presente, em que os EUA continuassem a apoiar os esforços para derrubar Assad.

Mas Susan E. Rice, conselheira de segurança nacional, disparou de volta. “Não se equivoque” disse, segundo o mesmo testemunho. A prioridade do presidente na Síria é combater o ISIS.”

Apoiadas pela Força Aérea russa, as forças governamentais sírias começaram gradualmente a recuperar áreas próximas da fronteira turca que há muito constituíam praças-fortes rebeldes, e eventualmente fizeram retroceder muitos dos rebeldes para a cidade sitiada de Alepo.
Alepo tombou nas mãos das tropas governamentais sírias em dezembro.

Eric Schmitt, Matthew Rosenberg e Matt Apuzzo contribuíram com reportagem.

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