14 de novembro de 2017

As dimensões financeiras do impasse do capitalismo

François Chesnais

a L'encontre

Em fevereiro, publiquei um artigo [1] em que avancei a hipótese de que um modo de produção pode estar em uma situação histórica em que deixa de ser capaz de ultrapassar os seus limites “imanentes”, tanto aqueles explicitamente definidos por Marx [2] quanto aqueles que pertencem à relação do capitalismo com o meio ambiente. Destes limites apenas nos tornamos conscientes recentemente. No artigo de fevereiro, as dimensões financeiras do impasse do capitalismo não foram abordadas. O objetivo deste artigo é preencher essa lacuna, continuando assim um esforço que também tem o sentido de um esclarecimento pessoal. Somente as dimensões econômicas da financeirização são aqui tratadas; não abordaremos as dimensões de natureza social que são pelo menos tão importantes.

Atualmente, os economistas marxistas, assim como os economistas heterodoxos, afirmam sempre que a centralidade das finanças é uma característica importante do capitalismo contemporâneo. Mas não há acordo quanto à definição do que agora é comumente referido como “financeirização”. As abordagens diferem, muitas vezes significativamente, de um autor para outro, especialmente porque se trata de um fenômeno que tem muitas facetas. Ela afeta certamente a produção e a gestão industrial, mas, na verdade, invadiu toda a vida social. O meu enforque está baseado na Quinta seção do Livro III de O capital e se concentra nos efeitos econômicos e políticos do capital de empréstimo, do capital portador de juros [3]. Este é valorizado sem sair da esfera dos mercados financeiros; aí se encontra atrelado a valores mobiliários representativos de direitos de extração de renda que dependem do mais-valor atualmente gerado, assim como daquele que será gerado do futuro. Operam com eles os grandes bancos, as grandes companhias de seguros, os fundos de investimento e as tesourarias dos grandes grupos industriais. Para usar a importante distinção feita por Marx, dado o grau atual de concentração dos detentores de ações e títulos, podemos afirmar que o “capital como propriedade” invadiu os poros do “capital como função”.

No artigo de fevereiro foi apresentada uma figura que aqui retomamos com a adição de mais dois anos.

Figura 1: Taxa de crescimento do PIB mundial por grupo de países (2010-2016) 

Fonte: Haver Analytics, IMF: The Economist

Podemos, agora, adicionar a essa evidência outra que mostra o movimento do comércio mundial desde 2012, ou seja, após o fim oficial da recessão dos EUA.

Figura 2: Comércio mundial entre 2007 e 2016 Média semestral de mudança em relação ao ano anterior 

Fonte: The Economist, dezembro de 2016.

Essas duas figuras testemunham uma situação que tem suscitado, sob o nome de “estagnação secular”, questionamentos de diferentes correntes da teoria econômica burguesa, neoclássica e keynesiana. Elas se perguntam se está ocorrendo uma grande pane na economia capitalista. Esses questionamentos sugerem que se está diante de um sistema que não se recupera da crise porque suas fontes estão esgotadas.

O artigo de fevereiro ofereceu uma explicação para essa situação. Essas duas figuras, entretanto, fornecem um quadro que reclama mais investigação. Um dos fios condutores da análise que se segue é que a financeirização vem a ser consequência e não causa da situação atual de bloqueio de acumulação.

O artigo começa com uma apresentação das noções de capital portador de juros e de capital fictício, bem como de fetichismo do dinheiro. Tem-se, hoje, um grau de acumulação e de concentração financeira qualitativamente diferente daquele que Marx observou em seu tempo. Um exame rápido dos processos atuais mostra que, desde o final da década de 1960, ocorreu uma enorme “acumulação financeira”, isto é, uma acumulação de capital formada por direitos de extração de rendas sobre o mais-valor atual e futuro. Para aqueles que detêm e esperam um retorno, ela representa capital; entretanto, afigura-se como capital fictício em termos do movimento do capital como um todo. Esses processos incluem o mecanismo de reprodução contínua das dívidas públicas uma vez contraídas, a centralização de poupança proporcionada pelas aplicações capitalizadas (fundos de pensão), o investimento das classes superiores de renda e de propriedade dos lucros não consumidos. O salto da acumulação financeira ocorreu de modo concomitante com as mudanças no equilíbrio de poder entre o capital e o trabalho resultantes das derrotas da classe trabalhadora nos governos Thatcher e Reagan. O declínio da burocracia soviética nos anos 1980 também colaborou. O resultado foi a liberalização e a globalização do capital. Na última fase da década de 2000, ocorreu a globalização do exército industrial de reserva e se abriu o caminho para a organização de novos arranjos industriais transnacionais conhecidos agora como cadeias de valor ou cadeias globais de aprovisionamento. Nomeadas de CGV (cadeias globais de valor, ou GVC - global value chains, em inglês), elas combinam produção própria e terceirizada de modo a obter altos lucros para os grandes grupos industriais.

O capital portador de juros suscita uma ilusão de autonomia em relação ao que pode ser chamado por conveniência de “economia real”. Na verdade, ele ainda continua dependente dela. A realização de tais direitos de extração de renda depende da produção e da realização de mais-valor em quantidade suficiente para satisfazer a massa de capital fictício que o reclama. Esta situação empurra os acionistas a exigir um controle cada vez maior sobre o nível de lucros e sobre o pagamento de dividendos. Assim que o investimento e o crescimento começam a vacilar, os gestores de fundos recorrem à especulação e à criação de “inovações financeiras”. À medida que o ritmo da acumulação real diminui, mas a massa de capital fictício continua a aumentar, cresce a escala dos negócios especulativos, assim como a diversidade dos títulos de capital fictícios emitidos e postos nos mercados. Na década de 1990, a especulação dizia respeito a mercados específicos, tais como os investimentos estrangeiros no México e na Ásia; tais como os títulos emitidos pelas indústrias de crescimento acima da média, incluindo aí as ações das duas primeiras empresas de alta tecnologia (Nasdaq), as quais entraram em colapso em 2001. A década de 1990 também viu o início de um aumento das dívidas das famílias, incluindo as dívidas hipotecárias. Ocorreu um salto qualitativo na década de 2000 por meio da criação de arranjos financeiros sofisticados, os quais permitiram a ocultação de riscos. Surgiu então o “shadow banking”, que é um sistema de crédito não regulamentado do qual participam subsidiárias dos grandes bancos.

Ao contrário de 1929, a crise financeira de setembro de 2008 viu apenas uma pequena destruição de capital fictício. Devido ao resgate dos bancos com exceção da Lehmann Brothers, bem como das grandes companhias de seguros, a massa de capital fictício cresceu continuamente. Dois fenômenos, então, se originaram e eles mostram o impasse do capitalismo no campo financeiro. O primeiro é o alto volume de transações nos mercados de derivativos; elas são perfeitamente estéreis economicamente, mas implicam em elevados potenciais de crise. O segundo é o movimento descendente das 4 taxas de juros rumo à taxa zero; não apenas caíram as taxas dos bancos centrais, mas também, especialmente, aquelas dos mercados de valores mobiliários.

Dois indicadores gerais do nível de financeirização

O fundamento da financeirização é uma acumulação muito grande de capital na forma de capital portador de juros. Para se ter uma ideia do grau atingido por esse crescimento, pode-se usar o indicador proposto pelo McKinsey Global Institute. A curva da Figura 3 mostra o seu crescimento desde o início dos anos 90 como porcentagem do PIB mundial (em vermelho). O próprio PIB mundial é apresentado aí em trilhões de dólares (em azul). O montante aí registrado inclui quatro categorias principais de ativos financeiros: ações, títulos privados, dívida pública e depósitos bancários, ou seja, ativos provindos em sua maior parte de linhas de crédito que pagam juros. Este montante não inclui a categoria de ativos que é chamada de “derivativos”; para esta há indicadores específicos que serão mostrados posteriormente. Trata-se de um indicador com o status de "proxy" já que depende das avaliações de mercado (no caso das ações tomam-se os seus preços nas bolsas de valores) obtidas nos principais centros financeiros. Ele mostra o movimento de crescimento da massa de capital de empréstimo que está se valorizando nos mercados financeiros. Fornece por isso, também, a ordem de magnitude da quantidade de direitos potenciais de extração de renda sobre o mais-valor.

Figura 3: Crescimento dos ativos financeiros em porcentagem do PIB mundial 

Fonte: McKinsey Global Institute, Financial Globalization, Retreat or Reset? 2013.

Como pode ser visto, o ritmo de crescimento é impressionante: a taxa média observada foi de 9% entre 1990 e 2007, mas esta se acelerou em 2006 e 2007, tendo atingindo, então, mais de 18% ao ano. Em 2007, a proporção dos ativos financeiros para o PIB mundial atingiu 376% [4]. Os vinte anos de crescimento exponencial foram, então, interrompidos pela crise financeira de setembro de 2008. Note-se que a curva azul do PIB global cai entre 2007 e 2008 e permanece então quase estacionária, enquanto que a curva vermelha retoma seu curso para cima, embora com uma taxa mais baixa. É isto o que a consultoria McKinsey chama de “uma taxa anêmica de 1,9%” [5]. A queda na capitalização, assim como o declínio nos mercados de títulos privados, nos principais 5 mercados de ações foram pelo menos parcialmente compensados por um aumento nas economias “emergentes” e por um crescimento das dívidas públicas em 2011 e 2012. Calcula-se que este último chegou a 4,4 trilhões de dólares. Assim, a proporção de ativos financeiros em relação ao PIB mundial atingiu, já em 2012, a marca de 356%.

Um segundo indicador foi recentemente fornecido pelo BIS (Bank of International Settlements) em seu mais recente relatório anual, pois nele dedica um capítulo ao estado atual da globalização [6]. Ele mostra a evolução ao longo de um período muito extenso dos fluxos comerciais e financeiros. Estes últimos foram medidos pelas somas dos ativos e passivos financeiros nas contas de capital do balanço de pagamentos dos países, compostos principalmente por juros e dividendos (como também por royalties sobre patentes). Em termos de comércio de bens, a "segunda globalização" excedeu definitivamente a "primeira" em virtude da implementação do Tratado de Marraquexe e da entrada em funcionamento da OMC (Organização Mundial do Comércio). Por outro lado, os fluxos financeiros passaram a crescer exponencialmente a partir de 1995. Em consequência, o BIS começou já a falar em uma “terceira globalização’.

Figura 4: Comércio mundial e fluxos financeiros internacionais % do PIB mundial – 1825-2015 

Fonte: BIS, 2017

É interessante notar nesse gráfico que os fluxos financeiros atingiram um patamar mais elevado no período mais recente, o que será explicado mais adiante.

Os ativos financeiros são "capital fictício"

Antes de atentar para os fatores que sustentaram a enorme acumulação de ativos financeiros apresentada na Figura 3 é preciso definir claramente a sua natureza. Para os detentores de títulos e para os gestores financeiros, os ativos financeiros são simplesmente “capital”. Eis que eles geram fluxos de dividendos e de juros, podendo também ser vendidos nos mercados financeiros existentes e que são específicos para cada tipo de ativos. Os lucros financeiros, os chamados ganhos financeiros, os quais são obtidos por especulações bem-sucedidas, em alguns casos, tornaram-se para eles tão importantes quanto os fluxos de mais-valor. Mas este “capital” é fictício. Este termo, entretanto, foi recusado pelo economista marxista grego Costas Lapavistsas num artigo publicado em um importante jornal de língua inglesa [7]. É, pois, bem importante entender o que ele significa. 6 Tratando primeiro das ações, Marx escreveu que elas “representam um capital real: aquele (das sociedades anônimas ou SAs) que foi investido e que funciona nessas empresas”. Entretanto, ele imediatamente acrescenta que este capital “não pode existir duas vezes, uma vez como valor-capital dos títulos de propriedade, as ações, e uma outra vez como capital realmente investido. Eis que ele existe apenas nessa última forma; as ações, portanto, não são mais do que títulos de propriedade que dão o direito a participar, de maneira proporcional, do mais-valor ou do mais-trabalho que este capital gera” [8]. Já os títulos de dívida pública, “os quais, aos olhos das pessoas, produzem rebentos (juros), provindos estes dos pagamentos do Estado, não são mais do que capitais fictícios, ilusórios (...) as parcelas dos impostos anuais que retornam aos detentores destes valores mobiliários e que representam juros de seu capital são da mesma natureza que os pagamentos em bens ou dinheiro que os clientes pródigos fazem para os usurários; no entanto, nem em um caso nem no outro, a soma do dinheiro emprestado foi gasta como capital” [9]. A situação a que fomos acostumados após o fim da Segunda Guerra Mundial, na qual o Estado apoia o capital industrial, faz empréstimos para gerar investimentos produtivos, não foi considerada por Marx. Mas, uma vez que tais processos foram se configurando ao longo do tempo, as dívidas públicas deixaram de ser passíveis de extinção; ao contrário, elas se recompõem periodicamente, de tal modo que fica, mais e mais, reafirmada a natureza usurária do endividamento estatal. Entre outros efeitos, isto deu uma capacidade aos credores de ditar a política dos governos dos países devedores.

Finalmente, há crédito bancário (na terminologia de Marx, “crédito do banqueiro” em oposição ao crédito de curto prazo relacionado ao desconto de letras de câmbio comerciais). Trata-se de empréstimo de certos montantes ou da abertura de linhas de crédito concedidas a um industrial para investimento em capital constante ou em capital variável (fábricas, escritórios, equipamentos, insumos de produção, salários). O crédito é concedido por um prazo fixo e está sujeito a extinção, assim que o investimento retorna a partir da produção e da realização do valor e do mais-valor. No caso de “crédito bancário”, as questões que preocupam Marx dizem respeito à euforia financeira no final da expansão cíclica, assim como o excesso de crédito que, desde então, tem sido chamado de bolhas financeiras. As crises econômicas que analisa ainda são crises bancárias. A vulnerabilidade dos bancos se deve ao fato de que a criação de crédito repousa basicamente sobre “capitais próprios” amplamente fictícios pois são compostos em grande parte por ações e valores mobiliários, isto é, títulos de dívidas. Trata-se apenas de uma questão de engenharia financeira e de circulação interbancária de títulos: “entre os banqueiros estabelecem-se compromissos recíprocos sobre depósitos que não existem, criações estas que se deduzem umas das outras” [10].

Fetichismo e "magia do dinheiro" no século XXI 

O nível atual de acumulação de capital fictício, bem como o grau alcançado no processo de centralização e concentração das empresas capitalistas que detêm esse capital, exige que se dê a maior atenção ao que Marx chama de fetichismo do dinheiro. O capítulo 24 da quinta seção do Livro III de O capital começa com uma frase que diz: “é no capital portador de juros que a relação capitalista assume sua forma mais exterior e mais fetichista. Aqui deparamos com D – D', dinheiro que engendra mais dinheiro, valor que se valoriza a si mesmo, sem o processo mediador entre os dois extremos. No capital comercial, D – M – D’, encontra-se pelo menos a forma geral do movimento capitalista” [11]. Na p. seguinte, Marx continua: “O capital aparece como a fonte misteriosa e autocriadora de juros, de seu próprio incremento. (...) No capital portador de juros, portanto, produz-se em toda pureza esse fetiche automático do valor que se valoriza a si mesmo, do dinheiro que gera dinheiro, mas que, ao assumir essa forma, não traz mais nenhuma cicatriz de seu nascimento. (...) Assim, criar valor torna-se uma qualidade do dinheiro tanto quanto dar peras é uma qualidade da pereira”. As noções de fetichismo da mercadoria e de fetichismo do dinheiro interessou aos filósofos marxistas [12], mas não praticamente aos economistas [13]. Mas quando eles o fizeram foi para se concentrarem (como no meu caso) especialmente nas características rentistas do capital portador de juros, o que está sublinhado na última frase citada. Mas isto é insuficiente.

Para obter o máximo efeito da noção de fetichismo do dinheiro é necessário retornar a um momento anterior de seu desenvolvimento e de sua formulação, atentando para o que Marx chama de “magia de dinheiro” [14]. É preciso voltar, mais particularmente, às p. do capítulo 4 do Livro I de O capital, na seção que trata da “forma geral do capital”. Lá se lê o seguinte: “como sujeito usurpador de tal processo, em que ele ora assume, ora se desfaz da forma dinheiro e da forma mercadoria, mas se conserva e se dilata nessa mudança, o valor precisa, antes de tudo, de uma forma autônoma, por meio da qual a sua identidade consigo mesmo é constatada. E essa forma ele só possui no dinheiro. Este constitui, por isso, o ponto de partida e o ponto final de todo processo de valorização. ” Um pouco mais adiante, lê-se em complemento: “O valor torna-se, portanto, valor em processo, dinheiro em processo e, como tal, capital. Ele provém da circulação, entra novamente nela, sustenta-se e se multiplica nela, retorna aumentado dela e recomeça o mesmo ciclo sempre de novo. D – D’, dinheiro que gera dinheiro – money which begets money – diz a descrição do capital na boca dos seus primeiros tradutores, os mercantilistas” [15].

Essas frases devem agora ser lidas à luz do lugar ocupado pelos bancos Goldman Sachs, UBS, BNP-Paribas, assim como outros, no capitalismo de hoje. Em 1867, o “representante”, o “suporte consciente” do movimento no curso do qual o capital passa de D para D’ é o capitalista industrial. É a partir daí que Marx diz que “como portador consciente desse movimento, o possuidor do dinheiro torna-se capitalista. Sua pessoa, ou melhor, seu bolso, é o ponto de partida e o ponto de retorno do dinheiro. O conteúdo objetivo daquela circulação — a valorização do valor — é sua meta subjetiva, e só enquanto a apropriação crescente da riqueza abstrata é o único motivo indutor de suas operações, ele funciona como capitalista ou capital personificado, dotado de vontade e consciência. O valor de uso nunca deve ser tratado, portanto, como meta imediata do capitalismo. Tampouco o lucro isolado, mas apenas o incessante movimento do ganho.” [16].

Em 1867, o que contava e prevalecia era o “ciclo completo” do capital, aquele em que D aumenta, cresce para chegar a D', passando pelo movimento D – M – P – M' – D' [17]. Atualmente, não apenas o “ciclo curto” D – D’ ocupa um lugar central, mas são as operações especulativas bem-sucedidas que garantem o sucesso dos gerentes financeiros. Eles têm de ser capazes de mover seu portfólio de D para D’ por meio de novos fluxos de dividendos e de juros. O “autômato fetiche”, o movimento do “dinheiro gerando mais dinheiro” parece agora ser um mero produto dos mercados financeiros enquanto tais, ou mesmo, portanto, da “exuberância irracional” (Allan Greenspan) ou da “hybris” dos operadores. Em alguns mercados, como no mercado de derivativos, que serão examinados na terceira parte deste artigo, a distância em relação à economia real é tão grande que notícias da economia real não o afetam. Eis que os operadores aí vivem em estado de pura levitação.

Para poder apreciar melhor o poder social e político da finança foi necessário fazer um rápido desvio pela teoria. Agora, é preciso voltar à Figura 3 da primeira parte para falar dos fatores que conduziram, por mais de cinquenta anos, ao crescimento da massa de capital que procura se valorizar nos mercados financeiros. A incursão feita deve ajudar a explicar agora as suas raízes. 

As etapas da acumulação do capital portador de juros 

Em três capítulos da seção V do Livro III de O capital, intitulados “capital monetário e capital real”, Marx nos convida a estudar o movimento específico de acumulação do capital-dinheiro/capital de empréstimo em oposição ao que ele denomina de “verdadeira acumulação de capital” [18]. Em seu estudo, este movimento está vinculado ao ciclo econômico: uma parte do capital acumulado pelos capitalistas industriais na fase de expansão passa a ser, durante o período de crise e de recessão, valorizada como capital de empréstimo. Ele acrescenta um pouco laconicamente que “a acumulação de capital monetário pode ser o resultado de fenômenos que acompanham a acumulação real, mas diferem totalmente dela” [19]. Aquilo que era um fato cíclico no século XIX tornou-se, no capitalismo atual, uma característica estrutural, nascida em primeiro lugar das relações imperialistas “norte-sul”, assim como dos novos mecanismos institucionais que transformam parte do salário em capital por meio dos sistemas de pensão por capitalização.

Após a longa recessão após a Grande Depressão da década de 1930 e da Segunda Guerra Mundial, a acumulação de capital de empréstimo recomeçou no chamado mercado “eurodólares”, na City de Londres, entre 1965 e 1973. As empresas multinacionais norte-americanas (EMN) começaram a colocar seus lucros industriais não reinvestidos nos bancos americanos, britânicos e europeus em geral ali situados, para desfrutar do status de “offshore”.

A próxima fase consistiu na chegada à Londres das rendas do petróleo. Ora, esse movimento fortaleceu a posição internacional da finança; eis que reviveu contemporaneamente algo do século dezenove, a obtenção de renda com base na propriedade de recursos naturais [20]. Em seguida, a partir de 1976, os grandes bancos reunidos em consórcio passaram a reciclar os “petrodólares” colocados na City pelas monarquias do Golfo, os quais foram então emprestados aos países da América Latina e da África, econômica e politicamente subordinados ao imperialismo. Os governos desses países foram encorajados a tomar emprestado a uma taxa de juros variável num momento em que ela era muito baixa e por isso, aparentemente, muito favorável aos devedores. Alguns anos depois, eles se viram presos numa armadilha. O aumento simultâneo, em 1981, nas taxas de juros dos EUA e na taxa de câmbio do dólar, o que era exigido pela mudança no método de financiamento do déficit orçamentário federal desse país – por meio da colocação de bônus do tesouro (os T-bonds) no mercado de títulos – precipitou a "crise da dívida do terceiro mundo" cujo primeiro ato foi a crise mexicana de 1982. 

A mudança no modo de financiamento do déficit governamental dos EUA teve importantes consequências para os países imperialistas avançados. Para os países neocoloniais e coloniais, os seus efeitos foram devastadores. As dívidas, a começar pela do México, nunca foram totalmente reembolsadas, mas reproduzidas ano a ano por meio do serviço da dívida [21]. Elas também se tornaram uma alavanca formidável para impor aos países do Terceiro Mundo as políticas de desmantelamento do setor público (os “ajustes estruturais”), bem como a liberalização dos movimentos de capitais. No relatório anual do BIS (Bank of International Settlements) de 2017 há uma evidência interessante; encontra-se nele (Figura 5) um indicador do grau de abertura financeira e da composição dos passivos das contas financeiras do balanço de pagamentos por grandes grupos de países. Podemos ver aí que os chamados países “emergentes” mantêm há muito tempo, com a exceção da China, um status claramente semicolonial por causa das dívidas e das “reformas estruturais” codificadas pelo nome de “Consenso de Washington”. A abertura financeira conduzida pelo serviço da dívida ocorreu mais cedo e de modo mais importante do que nos países avançados. Mais tarde, retornaremos às informações dessa figura para explicar a evolução dos pagamentos relacionados aos investimentos diretos no exterior (a massa pintada de amarelo na Figura 5).

Figura 5: Nível e composição do passivo financeiro com o exterior Por grupo de países entre 1972-2015; como porcentagem do PIB

Fonte: BIS Annual Report 2017, chapitre7 sur la globalisation.

A fase paroxística da crise da dívida mexicana também viu o início do boom da dívida federal dos EUA. Ela é corretamente atribuída aos programas militares de Reagan (ou seja, ao keynesianismo militar); entretanto, coincide também com o momento em 3 que se tornou imperativo para o sistema americano de pensões por capitalização, para os fundos de pensão e para os fundos de investimento, que se abrissem novas oportunidades de investimento em grande escala. As aplicações estavam entrando em fase de maturidade de tal modo que esses fundos começaram a enfrentar o pagamento de aposentadorias de parte dos beneficiários. Era, pois, necessário que a “capitalização” necessária ao serviço das pensões se materializasse em grande escala. A Figura 6 mostra o crescimento da massa de ativos detidos por investidores financeiros institucionais nos Estados Unidos, na sequência das reformas da Paul Volcker.

Figura 6: Ativos financeiros nos Estados Unidos Em 1980, 1990 e 1994

Fonte: A. Mérieux et C. Marchand, Revue d’économie financière, 1996.

Agora é preciso explicar bem o significado da centralização da poupança dos assalariados nas mãos dos bancos, companhias de seguros e fundos. Ninguém o fez mais claramente do que Marx. Por isso, é melhor citá-lo do que parafraseá-lo a esse respeito. Quer-se com isso simplesmente ressaltar certos aspectos do problema que são ignorados ou mesmo cuidadosamente ocultados na maioria dos debates.

“As caixas de poupança são cadeia de ouro por meio das quais o governo apreende uma grande parte dos trabalhadores. Desse modo, eles não apenas passam a ter interesse em manter as condições existentes. Não apenas, ademais, produz-se uma cisão entre aquela parte da classe trabalhadora que participa das caixas de poupança e aquela que não participa. Assim, os trabalhadores colocam nas mãos de seus inimigos armas que permitem a preservação da organização existente da sociedade, a qual os oprime. O dinheiro reflui assim ao banco nacional, que o empresta de novo aos capitalistas, de tal modo que ambos compartilham de lucro adicional. Assim, com a ajuda do dinheiro que as pessoas lhes emprestam por um juro vil – e que se torna uma poderosa alavanca industrial graças a essa centralização – ambos aumentam o seu capital e, assim, a sua dominação direta sobre o povo” [22].

A securitização dos bônus do Tesouro, bem como a suspensão dos controles sobre as entradas e as saídas de capitais, provocou um afluxo de capitais para a praça de Nova York. Vindos do Japão e da América Latina, passaram a buscar aí investimentos. O mercado secundário para a dívida federal tornou-se tão importante quanto aquele 4 dos valores mobiliários. Isto deu um novo impulso à Wall Street. E este se acentuou devido à revogação das regras sobre a repatriação de lucros das multinacionais norteamericanas.

A liberalização dos movimentos de capitais e dos mercados financeiros não se limitou aos Estados Unidos, pois os países do Terceiro Mundo foram constrangidos a aceitá-la devido ao seu endividamento. A securitização das contas do tesouro rapidamente encontrou adeptos. Em vez de tributar as famílias de renda alta e altamente capitalizada, criou-se um processo de transferência em benefício de bancos e de fundos de investimento por meio do serviço da dívida pública. O processo foi conduzido na França por Laurent Fabius e Pierre Bérégovoy. A substituição do imposto sobre dívidas para rendimentos elevados também visava fortalecer o centro financeiro de Paris, dotando-o de mercados de dívida pública primária e secundária muito ativos que atraíam os fundos de investimento anglo-saxões. No final da década de 1990, o serviço dos juros sobre a dívida passara já a ser o segundo item orçamentário do Estado. Entre 1991 e 1996, como resultado de uma baixa taxa de crescimento, menor do que as taxas de juros, o mecanismo de crescimento acumulado denominado “bola de neve da dívida” foi lançado [23].

Figura 7: Evolução da dívida pública na França 1978-2009

Fonte: https://fr.wikipedia.org/wiki/Dette_publique_de_la_France.

Vê-se na França, em sequência, as consequências sobre o montante da dívida das medidas de salvação dos bancos e das empresas automobilísticas no momento da crise econômica e financeira de 2008. O crescimento da dívida recomeçou a partir de 2009; já entre 2012 e 2015, antes de que as taxas de juros começassem a baixar, o serviço da dívida tornou-se o primeiro item orçamentário na França [24].

Direitos de extração de renda quando o crescimento enfraquece 

É preciso repetir uma vez mais que as ações e os bônus do tesouro são títulos que dão direitos a receber dividendos e juros. São estes, entretanto, direitos potenciais, virtuais, que apenas se tornam efetivos na dependência da obtenção numa escala suficientemente alta – numa escala que corresponde aos direitos acumulados – do ciclo completo (D – M – P – M' –D') de valorização do capital envolvido na produção. Uma quantidade suficiente de sobrevalor deve ter sido produzida e, em seguida, realizada por meio da venda das mercadorias produzidas para que as pretensões de remuneração 5 dos proprietários de valores mobiliários sejam satisfeitas. Mas isso depende, em cada momento, do funcionamento sistêmico do capitalismo, de seu movimento como um todo. Fiz uma tentativa inicial de definir o momento atual no artigo de fevereiro; mencionei, então, a conclusão da formação do mercado global, a dominância de tecnologias que eliminam o trabalho e aumentam a composição orgânica do capital, os custos da energia e das matérias-primas, uma exploração extrativista – bem estudada na América Latina – cada vez mais desavergonhada e, finalmente, o impacto das mudanças climáticas.

Mesmo antes de chegarmos a esse ponto, a acumulação de direitos extração de renda se acelerou (ver a Figura 3) ao mesmo tempo em que a economia capitalista já começou a perder o seu dinamismo nos países industrializados. Um indicador desse fato é o declínio da taxa de crescimento do investimento nos Estados Unidos (Figura 8).

Figura 8: Investimento privado não imobiliário nos EUA Em porcentagem do PIB

John Bellamy Foster and Fred Magdoff, The Great Financial Crisis: Causes and Consequences, Monthly Review Press, New York, 2009

Outro indicador do mesmo fato é o comportamento do PIB no pós-guerra, nos países industrializados (Figura 9) [25]. Essa figura é interessante porque decompõe o período como um todo em decênios, mostrando uma desaceleração de subperíodo para subperíodo daquilo que foi, em conjunto, a mais longa fase de expansão da história do capitalismo [26]. Dois períodos de queda acentuada, em 1974-75 e em 1980-82, estão aí registrados; foram períodos da recessão que encerraram o “regime de acumulação fordista”. O gráfico mostra, também, um declínio menor no início da década de 1990, o qual se deve à crise dupla no Japão, no mercado imobiliário e no mercado de ações, com repercussões nos bancos nos Estados Unidos. Registra-se também a queda entre 2000- 2001 durante a crise do mercado de ações Nasdaq. A redução abaixo de zero só ocorreu entre 2008-2009. Em seu artigo de agosto, Michel Husson apresentou indicadores equivalentes para a França [27].

Figura 9: Crescimento anual do PIB nas economias avançadas, taxa anual e média de mais de 10 anos

Fonte: Cédric Durand et Philippe Léger, Review of Radical Political Economy, 2014.

Volume de mais-valor em alta, mas insuficiente diante das pretensões da finança 

Em sua revisão do livro Financial Capital Today, Husson questionou a ideia avançada por mim segundo a qual “o mais-valor global está em declínio e, por isso, há uma situação de crescente escassez de mais-valor ou sobrevalor” [28]. Ele ofereceu, sem realmente explicar o seu método de cálculo, “uma estimativa estatística, certamente pouco sofisticada, do volume de mais-valor, a qual mostra que não é possível falar de tendência declinante dessa variável. O seu gráfico mostra que impacto da crise já foi superado nos Estados Unidos, pois o volume agregado de mais-valor, assim medido, está aí aumentando de novo, o que ainda não ocorreu na Europa”.

Figura 10: Estimativa do crescimento do mais-valor elaborado por Michel Husson

Fonte: Michel Husson http://alencontre.org/economie/le-capital-financier-et-ses-limites-autour-du-livre-de-francois-chesnais.html.

O impacto da crise foi realmente superado nos Estados Unidos? Podemos duvidar seriamente que isto seja verdade. Seja como for, duas páginas depois, ele escreve algo um pouco diferente; diz que a tese central do livro Finance Capital Today permite compreender porque a crise está durando.

“A financeirização da economia” – 7 escreveu ele – “indica que há uma inflação dos direitos de extração de renda potenciais sobre o mais-valor atual e futuro, os quais excedem a capacidade do sistema para produzi-los. A crise pode então ser interpretada como uma chamada à ordem da lei do valor: o capitalismo não pode simplesmente distribuir mais-valor excedente do que produz; assim, parte desse capital fictício tem de ser desvalorizado. Mas, para usar as palavras de Chesnais, é preciso deixar que a crise siga o seu curso”. As observações de Michel Husson permitem que eu possa explicar melhor minha posição. Se houve um aumento no volume do mais-valor – e isto não significa que ocorreu um aumento de sua proporção em relação ao capital investido –, a característica saliente do momento atual do capitalismo é a inadequação crônica desse volume relativamente à massa de direitos de extração de renda [29]. A ascensão da financeirização ocorreu no contexto do movimento descendente do fluxo de mais-valor, tal como mostra, dentro outros indicadores, as figuras 7 e 8.

A concentração bancária mundial e seus espaços específicos

Uma das reações, por assim dizer “espontâneas”, levada a efeito pelos grupos industriais importantes e pelos grandes bancos frente à desaceleração da taxa de produção de mais-valor, foi fazer aquisições e fusões (M&A, mergers and acquisitions, em inglês). Eles passaram a absorver as empresas ou bancos menores ou mais fracos; procuraram, outrossim, a fusão com rivais mais ou menos do mesmo nível. Marx chama este processo de “centralização do capital” em oposição à "concentração” que se confunde com a acumulação. Nesse segundo caso, a empresa cresce como resultado do reinvestimento de lucros [30].

A “concentração dos capitais já formados, a fusão de um número superior de capitais em um número menor” é feita por meio de um “processo violento de anexação”. Certos capitais se tornam centros de gravidade muito poderosos em relação a outros capitais. Assim, eles se tornam capazes de destruir a coesão individual desses outros para se enriquecerem por meio de sua desagregação. Preferem-na em relação ao método “mais doce”, isto é, aquele que se vale das fusões negociadas entre os acionistas [31]. Seguem-se os “planos de reestruturação” que empregam, como método principal, a desqualificação e a demissão de trabalhadores. Sob o efeito da liberalização dos fluxos financeiros, das anexações e dos investimentos diretos, prossegue a centralização e a concentração de capital tanto em nível nacional quanto em nível internacional. Desse processo resultou a formação de oligopólios globais tanto na indústria e nos serviços quanto nas atividades bancárias.

O que caracteriza o setor bancário é o grau de concentração não só dos bancos, mas também dos mercados mais importantes nos quais eles operam. Os outros oligopólios globais, como aquele do automóvel, estão espalhados nos mercados de todos os países, mas o oligopólio bancário opera em um punhado de mercados financeiros ou mesmo em apenas um deles. É necessário, agora, entrar em acordo sobre o significado da palavra “banco”. Os bancos são grupos financeiros que possuem múltiplas atividades; mais precisamente, são cabeças de grandes “conglomerados financeiros”. O BIS (Bank of International Settlements) define os conglomerados financeiros como “grupos de empresas sob controle comum cujas atividades consistem 8 na prestação de serviços significativos em pelo menos dois setores financeiros distintos (banco, gestão de ativos e seguros) [32]. Atualmente há bancos muito grandes. Os governos contribuíram para o processo de concentração bancária, seja por meio de políticas deliberadas como na França [33], seja por conveniência quando concede acesso ao mercado primário das letras do tesouro apenas para um punhado de bancos. Desde 2012, reconhece-se 28 bancos como “sistêmicos”; estes têm um tamanho e uma densidade de relações com outros bancos que o seu fracasso pode desencadear, tal como no caso de Lehmann Brothers, uma crise financeira global. Desde então, esse número foi aumentado para 30.

Esta cifra não reflete completamente a situação. Devido à grande concentração de mercados-chave, há uma espécie de “oligopólio no oligopólio” e este é formado por cerca de quinze ou mesmo por uma dúzia de bancos que aí operam. O caso mais extremo de concentração é o da Libor de Londres; é nesse mercado que se fixa o nível das taxas de juros interbancárias, ao qual se vinculam os outros centros financeiros do mundo. De 2012 em diante, as autoridades judiciais dos EUA e do Reino Unido, assim como da Comissão Europeia, investigaram manipulações nesse mercado, multando 11 bancos: Bank of America, BNP Paribas, Barclays, Citigroup, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC , JP Morgan Chase, Royal Bank of Scotland e UBS [34]. No caso dos mercados de câmbio, o BIS informa que, em 2016, 77% das operações cambiais estavam concentradas em cinco centros financeiros, Londres, Nova York, Tóquio, Hong Kong e Cingapura [35]. Em Londres, o Deutsche Bank, o Barclays e o UBS lida com a maioria das transações. Finalmente, existem posições dominantes ocupadas em mercados de derivativos pelo mesmo grupo de bancos, o que discutiremos mais a frente.

Uma vez que isto é constatado e que se explica essa altíssima concentração, é preciso tirar as conclusões decorrentes. François Morin, em particular, atribui ao oligopólio bancário um poder extremamente grande. Em uma palestra dada durante o lançamento de L´hydre mondiale (A hidra mundial), ele argumentou que “a posição dominante dos bancos lhes dá a capacidade de fixar o preço do dinheiro” [36]. Ora, isso tem sido desmentido pelo declínio contínuo das taxas de juros, fato este que se será discutido abaixo. Há, também, os relatórios da indústria financeira. Em seu livro mais recente, ele escreve que “em um mundo onde as finanças globalizaram suas atividades, a empresa industrial encontra-se dominada, enquanto os atores financeiros figuram como dominantes” [37]. Ele aporta como único argumento para apoiar essa afirmação a transformação dos derivativos, os quais surgiram como instrumentos de cobertura de riscos nas operações das empresas, em instrumentos especulativos com riscos financeiros sistêmicos significativos. Mas isto simplifica muito os mecanismos da financeirização, ao mesmo tempo em que minimiza fortemente o poder das empresas transnacionais (ETNs).

A financeirização dos grupos industriais 

Nos setores de manufatura, energia, mineração e serviços, a liberalização e a desregulamentação levaram à formação de oligopólios globais, alguns dos quais se caracterizam por manterem maior grau de concentração do que no setor bancário. Este 9 é o caso, claro, dos gigantes da Internet. Do mesmo modo, há outros oligopólios que não os bancos que merecem ser nomeados de hidras, em particular aqueles da agroquímica e do agronegócio [38]. A financeirização dos grupos industriais largo sensu lhes confere simplesmente, antes de mais nada, uma identidade de “atores financeiros”. É bem notória a importância de suas carteiras de ativos e a escala de suas operações nos mercados financeiros. O trabalho de referência francês é o de Claude Serfati [39]. Notese, porém, que esse tipo de tema de pesquisa foi eliminado das universidades francesas. Em um estudo recente sobre empresas norte-americanas, um pesquisador calculou que a razão das receitasfinanceiras – isto é, juros, dividendos e lucros especulativos (capitalmarket-investment gains) – no fluxo de caixa [40] aumentou de 20% em 1980 para 60% em 2001 [41].

A dimensão da financeirização dos grupos industriais que recebeu maior atenção acadêmica foi a introdução, há cerca de vinte anos atrás, do paradigma gerencial da governança corporativa (corporate governance), isto é, da gerência que foca a maximização do valor recebido pelo acionista (shareholder value). Ele consagra a preeminência dos acionistas, fazendo do nível dos dividendos e dos preços das ações os principais objetivos das empresas. Para tanto, foi implementado critérios de avaliação de desempenho adaptados para esse fim, assim como de instrumentos de fidelização da gestão, em particular a remuneração das opções de compra de ações. Trata-se não de uma “dominação” dos bancos, mas de todos os investidores. Fundos hedge são os mais ativos no monitoramento desse tipo de avaliação.

É preciso acrescentar uma palavra sobre as recompras de títulos no mercado de ações. Os dividendos dependem dos lucros e, portanto, da eficiência da exploração e do marketing. Mas o preço dos títulos depende em parte de técnicas estritamente financeiras. Quando um investidor compra as ações de uma empresa, é para embolsar os dividendos, mas também para obter um ganho no momento da revenda. Tanto a alta do valor do dividendo por ação quanto o nível de seu preço podem ser obtidos por meio da recompra. A empresa listada compra as suas próprias ações para cancelá-la em seguida. Esta técnica de redução do número de ações para aumentar o ganho potencial daqueles que os detêm é bem conhecida [42]. A queda das taxas de juros permitiu que os grupos listados em bolsa tomassem emprestado a preços muito baixos e, assim, aumentassem os seus ganhos por meio desta prática.

Cadeias de valor globais

No entanto, o nível dos dividendos não pode estar baseado simplesmente em artifícios. Exige a produção e a apropriação da mais-valor. Com base na liberalização e na desregulamentação, os grupos emergentes por meio da centralização/concentração do capital puderam usar as tecnologias da informação e da comunicação (TICs) para criar formas organizacionais de acordo com suas necessidades, ou seja, cadeias de valor globais (CVGs). Construídas por grupos oligopolistas muito grandes, elas permitem que esses grupos se apropriem e centralizem quantidades de mais-valor criadas em pequenas empresas terceirizadas e localizadas em diferentes pontos do globo [43]. O termo designa, pois, a organização de uma divisão internacional do trabalho entre subsidiárias e subcontratadas. Esses grupos empresariais transnacionais reorganizam, 10 então, o estágio P – M do circuito de capital desde a criação de um projeto (design) até sua produção e distribuição. O projeto é feito nos países centrais, mas a produção passa a se localizar, por meio de subcontratação, nos países onde o exército industrial de reserva é ao mesmo tempo abundante e indefeso; o marketing é feito naqueles países em que há uma demanda final. A existência de programas de gerenciamento de informações, assim como de computadores, cada vez mais poderosos reduziram o custo e aceleraram a velocidade de coordenação das atividades entre diferentes sítios de produção. O uso de containers, a padronização e a automação do transporte de mercadorias fez o mesmo na circulação de mercadorias. Samir Amin imagina mesmo uma situação em que os monopólios oligopolistas “não sejam mais ilhas mais ou menos importantes em um oceano de empresas pouco importantes, mas um sistema integrado (em que) pequenas e médias empresas e até grandes empresas (...) estão encerradas em redes de meios de controle implantados a montante e a jusante dos centros oligopolistas” [44].

A UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento) estimou, em 2013, que cerca de 80 por cento do comércio mundial ocorria no interior das CVGs montadas pelas corporações transnacionais [45]. No comentário explicativo para o caso das “economias emergentes”, tal como se afigura na Figura 5, o BIS vê o crescimento das CVGs como uma das explicações da importância do IDE (investimento direto estrangeiro) no passivo das contas de capital das economias “emergentes” [46]. A sua quantidade recuou um pouco a partir de 2014 [47] e isto oferece uma explicação da evolução observada no período, tal como mostra a Figura 2.

O grau de assimetria nas relações entre os oligopólios e as empresas subcontratadas, a importância da apropriação do mais-valor produzido por estas últimas possibilita que se fale das CVGs como uma forma de gestão peculiar à financeirização. As cadeias de valor mais massivas são construídas para operar com uma ampla gama de produtos de consumo. Elas são geridas por grandes grupos de distribuição que detêm a capacidade de acessar o mercado final (isto é, que funcionam como monopsônio). Elas podem ser globais como o Wal-Mart ou continentais como o Carrefour. No setor industrial do vestuário, as grandes marcas (Zara, Mango, HM) funcionam normalmente como CVGs. As empresaslíderes se concentram exclusivamente no design, no marketing e na rede de distribuição. No final da cadeia, ficam os capitalistas locais que se submetem à exploração. Bangladesh, onde ocorreram graves acidentes de trabalho (tal como a catástrofe de Rana Plaza, em 2013), fornece um excelente exemplo. Os trabalhadores dessas empresas asiáticas são predominantemente mulheres. Em todos os lugares, os seus salários estão bem abaixo do nível médio nacional.

Figura 11: Distribuição do valor para um IPAD em 2010 


No ramo da eletrônica, a empresa ao mesmo tempo farol e melhor estudada é a Apple. Uma investigação permitiu aos pesquisadores construir a Figura 11. Não é, pois, surpreendente que o nível de preço das ações da “maçã mordida” esteja no grupo superior do Dow Jones. No ramo da eletrônica, as empresas subcontratadas podem ser elas próprias muito grandes. Este é o caso do grupo taiwanês Foxconn que é a maior empresa de montagem eletrônica do mundo; ela é fornecedora de todas as maiores marcas do setor: Apple, mas também Sony, HP, Dell, Nintendo, Nokia, Motorola, Microsoft. Em sua fábrica Longhua em Shenzhen, ela tem entre 250.000 e 300.000 trabalhadores e trabalhadoras que vivem sob condições de trabalho e de vida militarizadas [48].

Se o desenvolvimento das cadeias de valor globais não for além do nível atual, tal como sugerem os últimos números, o atendimento das exigências dos acionistas envolverá encontrar maneiras de aumentar a taxa de exploração doméstica além do ponto que se encontra atualmente.

É preciso, agora, olhar novamente para os títulos de crédito cujos retornos assumem a forma de juros para examinar a primeira etapa de uma evolução em que o desempenho dos gestores de fundos passa a depender cada vez mais do sucesso de suas operações especulativas. Durante os últimos 25 anos dessa evolução surgiram novos títulos de crédito, os quais se juntaram aos ativos “clássicos”. Assim, as “formas mais degeneradas de ativos parecem ser a fonte de seu próprio aumento” [49].

O sentido econômico da especulação foi perfeitamente definido por Hilferding: “enquanto a classe capitalista como tal se apropria de uma parte do trabalho do proletariado sem equivalente e, assim, obtém lucro, os especuladores ganham apenas alguns os outros. O negócio de cada um deles é tomar o dinheiro dos outros” [50]. A natureza econômica das operações especulativas é sempre aquela de um jogo de soma zero. A perda de um vem a ser o benefício do outro. Daí que a escala dessas operações tenho um caráter marcador da saúde do capitalismo.

O crescimento das dívidas das famílias e sua securitização

Voltemos à Figura 3 apresentada na primeira parte. Por trás do crescimento da curva vermelha encontra-se especialmente os Estados Unidos. A partir da década de 1990 e mais na década de 2000, passou a crescer muito nesse país os empréstimos às famílias, incluindo-se aí as hipotecas. A conjuntura financeira esteve marcada pela busca de novas oportunidades de investimento em face do refluxo à Wall Street do capital escaldado das crises asiática e russa.

No plano econômico, teve-se o início do declínio da participação dos salários no PIB dos países industrializados sob o efeito da liberalização do comércio e do investimento, assim como da concorrência que se estabeleceu entre trabalhadores do mundo. Nos Estados Unidos, passou-se a nomear certos salários de “salários da China”. A demanda precisou ser sustentada permitindo-se aos assalariados, agora chamados de “classe média”, continuar a manter o padrão de vida a que estavam acostumados por meio de crédito. Aos mercados financeiros dos EUA foi dada, então, essa tarefa. O crédito para as famílias trouxe por um momento “bons dias” para o capital portador de juros. Enquanto o consumo permaneceu estagnado na Europa, ele experimentou um crescimento espetacular nos Estados Unidos (Figura 12). 

Figura 12: Salários e consumo como porcentagem do PIB dos EUA 

Fonte: Michel Husson Le capitalisme toxique, Inprecor n° 541-542, septembre-octobre 2008.

A formidável expansão do setor imobiliário não teria ocorrido sem a criação de novos tipos de títulos que tornavam as hipotecas facilmente negociáveis. A partir de 1990, e ainda mais na década de 2000, os títulos do mercado de dívidas (credit market debt) experimentaram um crescimento muito forte tal como mostra bem a Figura 14 que aparece em sequência. Os valores incluem outros títulos além daqueles relacionados às hipotecas, mas são estes aqueles que comandam o crescimento da curva. Em consequência, mudou o epicentro da crise financeira em Wall Street. A quebra do mercado de títulos relativos à alta tecnologia (Nasdaq), que ocorreu em 2000- 2001 mediante o estouro da bolha dot.com, foi uma crise de mercado “clássica”. E ela pode ser considerada como bastante circunscrita. Ao se transferir a partir de 2003, massivamente, para o mercado hipotecário, o alargamento da securitização por meio de uma engenharia financeira cada vez mais complexa criou as condições para um tipo diferente de crise. A mundialização financeira, bem como a opacidade dos títulos e dos interesses intervenientes, vai dar ao termo “sistêmico” um conteúdo novo.

Diferentemente dos títulos de dívida emitidos por uma única instituição (por exemplo, pelo Tesouro), a emissão de títulos garantidos por hipotecas era extremamente descentralizada. A emissão original era feita por bancos locais e por empresas imobiliárias. Depois, eles vendiam esses títulos para os bancos maiores, incluindo aí os cinco bancos de investimento de Nova York, como também duas empresas hipotecárias do governo, Fannie Mae e Freddie Mac [51]. Estas instituições, por sua vez, os vendiam para os fundos de investimento que operam com riscos (hedge funds) e, de 2005 a 2006, para as subsidiárias de outros grandes bancos (caso do BNP Paribas) [52] ou mesmo para os bancos alemães (Länder). Ao contrário dos títulos públicos, tem-se aqui valores mobiliários que são derivativos, isto é, títulos que se apoiam em algo subjacente (mercadorias, divisas, empréstimos, etc.), tal como será abaixo explicado. No caso em questão, o suporte dos novos produtos eram as hipotecas, daí o seu nome de “mortgage-backed securities” (MBS). Sendo derivativos, tratavam-se de títulos compósitos parcialmente opacos. Os MBS também eram chamados de 3 produtos “estruturados” pois combinavam ativos classificados de acordo com diferentes níveis de risco. 

As subsidiárias especializadas criadas pelos grandes bancos faziam combinações de títulos que reuniam empréstimos com diferentes níveis de risco. As parcelas “super sênior” ou “sênior” eram as mais seguras; as parcelas “juniors” com mais exposição ao risco eram as mais bem remuneradas; as parcelas “subprime”, resultantes de empréstimos aos chamados tomadores NINJA [53] obtinham os melhores ganhos, mas possuíam riscos muito elevados. Elas ofereciam esses títulos bastante opacos para investidores e poupadores em geral. Todas as transações eram realizadas (como continuam a ser nos mercados de derivativos) por acordo mútuo entre os “traders” (ou por OTC, abreviatura do termo “over the counter”) [54]. 

Apesar das notas atribuídas pelas agências (Moody's, Standard & Poor's, Fitch Ratings), os investidores que atuavam como compradores procuraram se proteger. Eles adquiriram das principais companhias de seguros uma outra categoria de derivativos, denominada de “evento de crédito”, que é mais conhecida por seu nome inglês “credit default swaps” (CDS). O comprador paga um prêmio ex-ante anual ao vendedor de proteção e este lhe promete compensar ex-post as perdas no ativo de referência em caso de que certo evento especificado no contrato ocorra. O vendedor desta proteção, por definição, considera esse evento como improvável e, assim, não é obrigado a reservar fundos para garanti-la. Ele recebe bônus periódicos; se tal “evento de crédito” não ocorre, ele ganha o bônus até o final do contrato. No caso oposto, ele é forçado a fazer o que é chamado de “pagamento contingente”. Se a proteção foi vendida para muitos compradores, ela pode assumir grandes proporções. 

Por exemplo, a venda de CDS com base em títulos garantidos por hipotecas levou, em 2008, a maior companhia de seguros americana, a American Insurance Group (AIG), à beira da falência, forçando o governo federal a financiar seu resgate no valor de 85 bilhões de dólares [55]. Warren Buffett, em 2002, nomeou o CDS como “arma de destruição em massa”; George Soros, em 2006, disse que “os riscos apresentados pelos derivativos negociados no balcão não são totalmente compreendidos, mesmo por investidores sofisticados, incluindo eu próprio”. 

As agências de rating avaliaram positivamente esse tipo de ativos. Um estudo do Banco da França explica muito claramente por que eles existem. Eis o que diz: “por construção, o funcionamento e o valor de produtos estruturados são de difícil compreensão para os investidores” [56]. Para ajudá-los a vender o MBS, então, os bancos envolvidos em sua produção pediram às agências que lhes dessem uma nota semelhante à dada aos títulos emitidos pelos Estados. Para tanto, as agências deveriam ter reunido asinformações verificando o nível de risco dos empréstimos “empacotados” segundo cada tipo de ativos. O estudo mostra, educadamente, que esse processo tinha “duas fraquezas importantes”. Em primeiro lugar, o modelo utilizado para classificar produtos estruturados era idêntico ao usado para produtos de títulos tradicionais, enquanto que os riscos eram de uma ordem bem diferente. Em segundo lugar, as agências se consideraram responsáveis unicamente pela avaliação do risco de crédito – e não do risco de liquidez dos vendedores de ativos (o caso Lehmann foi elucidativo). Porém, os investidores eram frequentemente convencidos do contrário.

A participação em tais emissões, vendas e compras de títulos de balcão, de um conjunto de investidores e de intermediários – fundos especulativos (hedge funds), subsidiárias de grandes bancos, bancos investimento e outras empresas financeiras não regulamentadas – levou à formação do que foi denominado sistema do “shadow banking”, ou seja, da finança das sombras [57]. Por causa dessa designação, ele foi tido como o responsável pela crise financeira; foi mesmo objeto de uma vingança pública, de origem popular, mas fortemente mediatiza pelos órgãos de imprensa. Um órgão intergovernamental, o Conselho de Estabilidade Financeira (em inglês, Financial Stability Board ou FSB), foi criado pelo G20 em 2009 com a missão de monitorar sua evolução (sem dispor de fato dos meios de controle). Foi lhe dado, entretanto, um papel oficial: “acompanhar o sistema de intermediação de crédito envolvendo entidades e atividades que estão potencialmente fora do sistema bancário”. 

Não se pode ser ambíguo sobre a importância das operações das subsidiárias especializadas nos investimentos de risco dos grupos bancários. Não há fronteira clara entre o “shadow bank system” e o sistema bancário “tradicional” com suas subsidiárias. Em seu relatório mais recente, o BIS (Bank of International Settlements) informa que, em 2015, as finanças sombras atingiram 92 trilhões de dólares, ou seja, 150% do PIB mundial, superando assim o nível atingido no momento da crise financeira de 2008; desta data até 2010, ela havia despencado um pouco, isto é, chegara a pouco mais de 120% do PIB global. A influente agência financeira nova-iorquina Bloomberg comentou um estudo acadêmico sobre o sistema sombra sob o seguinte título “o shadow banking continua a crescer sem ficar melhor” [58].

Lucros bancários, alavancagem e liquidez

À medida que o endividamento se expandiu e assumiu um caráter estrutural, os juros sobre empréstimos empresariais, familiares e governamentais (com configurações específicas para cada país e cada conjuntura), as comissões obtidas na organização de financiamentos e os ganhos em transações de balcão tornaram-se as principais fontes de lucros do banco. O seu montante depende, como sempre, de dois fatores: 1º) da diferença entre o nível das taxas a que os bancos tomam emprestado (do mercado ou do banco central) e aquela a que emprestam e 2º) dos volumes das operações enquanto tais. Ora, isto depende também da extensão do uso de capitais de terceiros além do próprio patrimônio, o que é chamado de alavancagem.

Os números disponíveis mostram a dimensão da alavancagem entre 2003 e 2007 para os cinco bancos de investimento de Nova York. Conforme está mostrado na Figura 13, três deles tinham alavancagem maior que a do Lehmann Brothers. 

Figura 13: Alavancagem dos maiores bancos de investimento Praça de Nova Iorque 


O volume de oferta de capital de empréstimo, que depende também da alavancagem, é sistêmico. Depende, em grande medida, do endividamento recíproco dos bancos e, portanto, da confiança que têm nas possibilidades de recuperar os empréstimo feitos, a qualquer momento. A falência do Lehmann ocorreu por causa de empréstimos feitos para os hedge funds, os quais, com o colapso do mercado de títulos hipotecários, não podiam mais ser reembolsados de imediato; entretanto, os bancos JPMorgan e Chase exigiram que isso ocorresse durante o próprio tumulto financeiro. Em 2016, ele concordou em pagar US$ 1,32 bilhão em compensação aos credores que haviam perdido tudo em 2008 [59]. A importância do endividamento mútuo entre os bancos e os fundos de investimento pode ser vista na Tabela 1 na linha “empresas financeiras”; note-se aí que apresenta o montante mais alto. 

Tabela 1 : Endividamento por setor institucional nos Estados-Unidos 1980-2008
(em % do Produto Interno Bruto ou PIB)


Setor
1980
1990
2000
2008
Famílias
49
65
72
100
Sociedades não-financeiras
53
58
63
75
Empresas financeiras
18
44
87
119
Estado
35
54
47
55
Total
155
221
269
349




Fonte: Michel Aglietta, exposé au CEPREMAP, mai 2008, à partir de la Federal Reseve Bank, Flow of Funds

Os motivos pelos quais o secretário do Tesouro, Henri Paulson, ex-Goldman Sachs, recusou-se a salvar o Lehmann Brother da falência nunca foram entendidos; a magnitude das consequênciassobre o sistema financeiro como um todo certamente não foi antecipada. A memória do encadeamento sistêmico produzido em setembro de 2008 permitiu que os bancos franceses e alemães se beneficiassem de um tratamento diferente durante a crise da dívida pública grega [60].

Em 2012, no momento mais forte da retração dos empréstimos que gerou o mergulho da economia europeia em uma segunda recessão, os dois maiores bancos franceses detentores de títulos do governo grego tinham as seguintes relações capital próprio/endividamento: 24% para o Societe Generale e 32% para o BNP Paribas. A mesma relação para o Deutsche Bank, também muito comprometido, estava no mesmo nível. Eles receberam ajuda elevada e incondicional. Foi para salvá-los que o Banco Central Europeu (BCE) começou a atuar por meio de ações que foram chamadas modestamente de “medidas de política monetária não convencionais”, ou seja, injeções de liquidez virtualmente ilimitadas. As primeiras consistiram em comprar os títulos gregos detidos pelos bancos; logo, isso se estendeu para os títulos emitidos por outros países (Espanha, em particular), ou seja, aqueles com os quais os bancos franceses e alemães estavam fortemente envolvidos. Um banqueiro britânico comentou: “era mais fácil vender esse plano dizendo que o dinheiro está sendo usado para salvar a Grécia, Espanha e Portugal, do que admitir que era para ajudar e salvar os bancos” [61]. 

A ascensão dos mercados de derivativos no auge do descolamento da finança 

Não há necessidade de repetir aqui toda a história do resgate dos bancos, nos dois lados do Atlântico, mesmo a do AIG, em 2008. As profundas raízes econômicas e sociais do capital fictício impediram qualquer hesitação por parte da burguesia mundial liderada pelos Estados Unidos. A recessão econômica colocou centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras no desemprego, mas algo semelhante não podia ocorrer com o montante dos direitos de extração de renda nas mãos dos bancos e fundos de investimento. Os beneficiários dos sistemas de aposentadorias por capitalização formavam o único grupo social que podia sofrer perdas de capital devido à queda do preço das ações durante a crise financeira. Nos países da OCDE, eles sofreram perdas agregadas em torno de 23% entre 2008-2009 [62] e mesmo quando os mercados de ações se recuperaram, eles continuaram a sentir os efeitos da crise financeira sobre as suas aposentadorias [63]. 

Os mercados de títulos reduziram o seu alto nível de dependência em relação ao fornecimento de crédito para algumas indústrias, em particular, para a automobilística nos EUA e para a da construção em outros países. As medidas de ajuda direta dos governos a grupos econômicos, assim como a transferência de dívidas para o Estado, mediante a transformação de créditos privados em dívidas públicas, foram então limitadas. Porém, em sequência, adotou-se uma política monetária “não convencional”, chamada de “flexibilização quantitativa” (quantitative easing) pelo Fed. Desse modo, como mostra a Figura 14, a máquina de criação de novos instrumentos de crédito começou a andar de novo.

Figura 14: Crescimento dos títulos de dívida negociáveis (EUA) 


Na ausência de quase qualquer efeito duradouro sobre o crescimento, é importante entender para onde for dirigido esse crédito, em quais mercados foram postos. Ora, eles foram aplicados nos mercados financeiros e nos mercados de derivativos. Certos títulos nas formas de MBS e CDS tinham sido centrais no desenvolvimento da crise. A Figura 15 mostra que o seu montante tendeu a crescer no período entre 2005 e 2016. O declínio no final do período se deveu a uma mudança no método contábil e ao aumento da taxa de câmbio do dólar [64]. 

Figura 15: Volume de derivativos “over-the-counter” 


Devemos, portanto, dedicar-lhe uma análise específica. A literatura sobre os derivativos – relatórios oficiais, trabalhos acadêmicos, artigos de jornal – se concentram exclusivamente em dois pontos: trata-se, primeiro, de um instrumento financeiro importante, mas que é passível de emprego com objetivos incorretos; segundo, os mercados de derivativos escondem grandes riscos sistêmicos. Em termos nocionais [66], as operações com derivativos representam oito vezes o PIB mundial. Os comentaristas notam que esse tamanho é altíssimo, mas não questionam o que isto significa.

Com a exceção de François Morin que insiste especialmente sobre a concentração dos mercados, não se encontra qualquer menção sobre o fato de que uma massa particularmente grande de capital fictício, concentrada nas mãos dos maiores bancos do mundo, não tem nada melhor a fazer do que se envolver em especulações. Ora, isto mostrar na esfera das finanças o impasse do capitalismo. 

Os primeiros derivativos foram criados como instrumentos que permitiam às empresas se assegurarem contra diferentes tipos de riscos financeiros. E isto por meio da definição do preço de compra ou de venda de um ativo – mercadoria ou título – antecipadamente. Ora, este ativo é dito “subjacente” [67]. Inicialmente, os riscos cobertos concerniam ao preço das matérias-primas – cereais, mais tarde petróleo. Em sequência, com o fim do padrão dólar/ouro em 1971 e com o início de taxas de câmbio flexíveis, eles passaram usados também contra os riscos de taxa de câmbio. Eis que estes riscos eram muito importantes para empresas de importação e exportação e para corporações transnacionais. Em sequência ainda, foram empregados para cobrir os riscos da flutuação das taxas de juros. Hoje, estima-se que apenas 5% das transações tenham de fato a finalidade de proteção contra riscos efetivos. 

As demais operações envolvem instrumentos de crédito (os quais são já capitais fictícios). São, assim, totalmente especulativas. Os lucros dependem tanto do volume das transações feitas na forma de intermediação quanto do resseguro feito em relação aos capitais criados e vendidos aos compradores [68]. Qualquer forma de incerteza pode levar à criação de um derivativo. Um exemplo recente bem notável apareceu no Deutsche Bank, que teria perdido US$ 60 milhões em um tipo de derivativo que lida com a evolução da taxa de inflação [69]. Atualmente, os derivativos são aquilo que nomeei no Finance Capital Today de capital fictício de enésimo grau. Os intervenientes nos mercados desses ativos são principalmente bancos e fundos de investimento que operam com uma alavancagem extremamente alta (até 90% do patrimônio próprio). François Morin lista quatorze grupos bancários que organizam o mercado em todo o mundo [70]. Para esses grupos, trata-se de uma fonte importante de lucro. 

Um recente estudo realizado pela Brookings Institution estimou que, no final da década de 1990, 30% dos lucros dos grupos bancários dos EUA provinham dessa atividade [71]. Não encontrei uma estimativa mais recente, mas dado o tamanho do volume de operações, parece que se tem o seguinte: quanto maior for o valor das transações de um grupo bancário nos mercados de derivativos maior será a participação dessa fonte em seus lucros. Tais lucros são perfeitamente fictícios do ponto de vista do movimento geral da acumulação; os lucros obtidos por uns são retirados e outros participantes desses mercados (tal como menciona a citação acima da obra de Rudolf Hilferding). Entretanto, eles influenciam a posição do grupo no mercado acionário. 

A figura 15 mostra que, após 2008, os derivativos sobre taxas de juros em diferentes tipos de empréstimos passaram a representar a maior parte das operações. Como os juros são a principal fonte de lucros dos bancos, os títulos de dívida negociáveis assumiram enorme importância e é isto o que se vê na Figura 14; ora, não se trata de algo surpreendente. Os mercados de derivados são extremamente concentrados. Em 2016, nos Estados Unidos, 90% da emissão de seu montante total nocional estava nas mãos de quatro bancos dos EUA (JP Morgan Chase, Bank of America, Citybank e Goldman Sachs) [72]. Os ativos são negociados de comum acordo entre operadores 9 grudados em suas telas e pendurados em seus telefones. Atualmente, eles recorrem em grande medida aos algoritmos. 

O modo de medida das trocas em mercados de derivativos refere-se ao seu valor nocional (referido abreviadamente como “nocional”). Trata-se do valor de face que permite calcular o fluxo de pagamentos entre os operadores. O valor do subjacente é irrelevante. Uma vez que a sua liquidação ocorre na data de vencimento, o contrato exige apenas um adiantamento inicial em dinheiro e este ou é muito pequeno ou é nulo. Somente quando a aposta é perdida, como no caso da CDS sobre ativos hipotecários em 2008, ocorre de fato um pagamento. A especulação contra a Grécia e a Espanha provocou fingida indignação contra um “CDS nulo” [73]. 

Acumulação de dinheiro, rumo à taxas de juros nulas Bancos centrais presos na armadilha 

Durante dois anos após 2008, o nível de endividamento global caiu um pouco, na verdade apenas ligeiramente. O valor recorde registrado pelo McKinsey Global Institute, em 2015, mostrou que havia muita dívida e pouca desalavancagem (not much deleveraging) [74]. Desde então a dívida retomou um curso ascendente. A proporção da dívida para o PIB global aumentou de 200 para 220% em dois anos. No terceiro trimestre de 2016, atingiu quase 325%. Eis que foi afetada pelas emissões de títulos de dívida pública nas “economias maduras”, assim como por obrigações emitidas pelos bancos e pelas empresas nas “economias emergentes” [75]. 

Figura 16: Dívida global total (todos os setores) 


O mesmo período testemunhou a aceleração de um movimento que começara já há vinte anos: uma tendência de redução das taxas de juros de longo prazo nos mercados de títulos. De fato, desde então, formou-se uma configuração em “tesoura” sem precedentes na história do capitalismo, a qual não se observara mesmo no auge da grande crise da década de 1930. Eis o que está escrito no último relatório anual BIS: “as taxas de juros despencaram enquanto que as dívidas não pararam de crescer” [76]. Nas palavras de um dirigente do BIS: “mesmo Keynes, a quem devemos a aterradora metáfora (sic) da ‘eutanásia dos rentistas’, não previu taxas de juros nominais negativas” [77]. 

Figura 17: A cisão entre taxas de juros e elevação da Dívida 


As políticas "não ortodoxas" seguidas pelo Fed, assim como pelos outros bancos centrais, isto é, a criação maciça de moeda e o apoio permanente aos bancos, justificados pelo argumento de que emprestam às empresas e às famílias, contribuíram para a tendência descendente em 2009. O departamento de pesquisa do grupo Natixis estima que elas explicam dois terços do corte da taxa [78]. Porém, os especialistas do BIS insistem que tais políticas não são suficientes para explicar o declínio já que ele começou muito antes. Neste declínio – dizem eles – é impossível “separar o que é secular e o que é cíclico, assim como, no que é cíclico, deslindar a importância dos fatores monetários e não monetários” [79]. 

No quadro de análise que comecei a esboçar no artigo de fevereiro, as causas do longo declínio as taxas de juros de mercado são encontradas nas relações sociais de produção, no viés das mudanças tecnológicas e no bloqueio dos mecanismos de acumulação assim criados. A insuficiência de oportunidades de investimento rentáveis significa que a demanda por capital é menor do que a oferta [80]. Esta última continua sendo permanentemente alimentada pela apropriação da mais-valor, porém, a exploração não produz o suficiente para satisfazer os acionistas e os credores. 

A flexibilização quantitativa e as políticas “não ortodoxas” dos bancos centrais não foram as causas fundamentais do declínio, mas, obviamente, elas o acentuaram. Os seus efeitos “indesejáveis” colidem com os objetivos de relançamento das economias. Vamos listar os principais: 1º) Os rentistas pertencentes à oligarquia financeira ficam protegidos dos efeitos da queda das taxas de juros em virtude do grande volume de suas aplicações. A sua eutanásia fica, assim, para o futuro. Por outro lado, tem ocorrido o enfraquecimento dos regimes de pensões por capitalização e, em geral, a redução das pequenas poupanças nos países da OCDE. Isto está em movimento com todas suas consequências potenciais, sociais e políticas. A corrosão das pequenas economias tem o efeito de reforçar o “motivo precaução” (Keynes), isto é, de aumentar, em face da insegurança do emprego, a necessidade sentida pelos funcionários para alimentar as suas reservas, mesmo que seu rendimento seja muito, muito baixo. 2º) Os investidores financeiros mantém a possibilidade de emprestar livremente e a taxas quase nulas, o que alimenta a especulação, criando as condições para o desenvolvimento de novas bolhas financeiras, as quais o FMI, o BIS e os bancos centrais 11 estão apenas observando. Em um artigo muito detalhado, The Economist observa que “os mercados se mostram altistas em todos os ativos” (isto é, tem-se bull market na linguagem cifrada do setor financeiro da City de Londres) [81]. Há muitas bolhas em andamento. Elas estão crescendo nos mercados de ações (por exemplo, a bolsa de valores de Tóquio alcançou seu maior nível em 21 anos) [82], assim como, uma vez mais, no setor imobiliário. 3º) Mais cedo ou mais tarde, uma ou mais de uma dessas bolhas estourarão, talvez simultaneamente. Nesse momento, confrontados com uma nova recessão, os bancos centrais já terão queimado todos os seus cartuchos. Ao mesmo tempo, sabe-se que se tornou difícil para eles, mesmo diante de uma ligeira melhora na economia, aumentar as taxas de juros. Pois, correm o risco, julgado provável, de desencadear uma crise nos mercados de títulos. (Um aumento das taxas de juros produz uma depreciação dostítulos sem que essa queda possa ser compensada). Os bancos centrais estão presos nessa armadilha. Em seu relatório de outubro de 2016 sobre o estado da economia mundial, o FMI advertiu que "um ciclo deflacionário em que uma fraca demanda e uma deflação se reforçam mutuamente está sobrevindo” (...) A economia pode acabar em uma armadilha deflacionária (deflation trap)” [83]. É essa a situação em que se encontram os tomadores de decisão financeiros globais.

Para terminar

As causas do impasse do capitalismo não devem ser encontradas na finança, mas na produção, nas características e efeitos particulares da tecnologia e na relação do capitalismo com os recursos não renováveis. O ambiente físico é o fundamento insubstituível da sociedade humana. Mencionei isto no artigo de fevereiro; agora vou tentar voltar ao tema.

A força das “leis coercivas” que movem o capitalismo foram qualitativamente reforçadas pela desregulamentação e pela globalização do capital. As leis “externas” engendradas pela competição [84] constrangem cada setor da acumulação de capital tomados separadamente, mesmo se o capital se encontra altamente concentrado. Mas elas constrangem também o capital como um todo. Ao mesmo tempo em que se nota que a posse de ativos financeiros é a principal forma de propriedade do capital, vem ocorrendo um debate sobre o declínio das oportunidades de investimento e sobre a insuficiência dos fluxos de mais-valor. Os impasses inerentes ao acúmulo de capital fictício invadiram o cotidiano capitalista. A visão de mundo da burguesia moldada pelo fetichismo do dinheiro condiciona a vida política, a seleção dos governantes, as políticas que eles concebem, as posições que tomam em face das mudanças, procurando negar o fatalismo. Trabalhando num quadro teórico diferente, compartilho o julgamento de Bruno Latour segundo o qual “as classes dominantes já não pretendem mais governar, mas apenas se protegerem do mundo” [85].

Notas:

[1] O artigo original, em francês, foi publicado em 4 de fevereiro de 2017, no sítio do L'Encontre.
[2] Marx, Le Capital, Editions Sociales, Livro III, tomo 6, p. 263.
[3] Marx às vezes usa um desses termos, às vezes emprega o outro. Utilizarei, tanto quanto possível, o termo capital portador de juros, incluindo aí o recebimento de dividendos.
[4] McKinsey Global Institute, Global Financial Markets, Entering a New Era, 2009.
[5] McKinsey Global Institute, Financial Globalization, Retreat or Reset? 2013.
[6] Bank of International Settlements, Annual Report 2017. http://www.bis.org/publ/arpdf/ar2017e.pdf
[7] Costas Lapavistsas e Ivan Mendieta-Munöz, The Profits of Finanzialisation, The Monthly Review, 2016.
[8] Marx, Le Capital, Livro III, tomo 7, p. 129 (sublinhado no texto).
[9] Ibid. p. 127.
[10] Ibid, p. 132-133.
[11] Marx, Le Capital, Livro III, tomo 7, p. 56.
[12] Ver Antoine Artous, Le fétichisme chez Marx, le marxisme comme théorie critique. Syllepse, Paris, 2006. Ver também Alain Bihr, http://www.ekouter.net/le-fetichisme-dans-lecapital-par-alain-bihr-au-seminaire-marxau-xxieme-siecle-524.
 [13] Uma exceção é o livro de Louis Gill, Fondements et limites du capitalisme, Boréal, Canada, 1996.
[14] Marx, Le Capital, Livro I, tomo 1, p. 103. [15] Ibid, p. 158-159. [16] Ibid, p. 156. [17] D = dinheiro gasto na compra de determinadas mercadorias; M = mercadorias compradas nas formas de força de trabalho, máquinas e matérias-primas; P = produção de mercadorias que contém mais-valor; M' = comercialização dessas mercadorias; D’ = mais-dinheiro se tudo corre bem.
[15] Ibid, pages 158-159.
[16] Ibid, page 156.
[17] A = argent lancée dans l’achat de formes déteminées de marchandise ; M = marchandise dans ses formes de force de travail achetée, de machines et de matières premières ; P = Production de marchandises contenant la plus-value ; M’ = commercilisation de ces marchandises ; A’ si celle-ci a bien lieu.
[18] Ibid, p. 139.
[19] Ibid., p. 168.
[20] Marx, Le Capital, Livro III, tomo 8, p. 156 e seguintes.
[21] CADTM, http://cadtm.org/Les-Chiffres-de-la-dette-2015
[22] Marx, Travail salarié et capital. Paris : Editions Sociales, 1952, p. 54. Internet: www.marxists.org/francais/marx/works/1847/12/km18471230-8.htm
[23] Ver François Chesnais, Les dettes illégitimes. Quand les banques font main basse sur les politiques publiques. Paris: Raisons d’agir, 2011. A imagem da bola de neve provém de um relatório do Senado francês, de 1998.
[24] http://www.lepoint.fr/economie/budget-2015-la-charge-de-la-dette-n-est-plus-lepremier-poste-de-depenses-01-10-2014-1868315_28.php
[25] Recentemente, o FMI e o Banco Mundial publicaram dados sobre um período que chega a 2015: 12 http://www.imf.org/external/datamapper/NGDP_RPCH@WEO/OEMDC/ADVEC/WEOWORLD et https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG
[26] Em sua resenha do livro Finance Capital Today, Michel Husson defendeu uma periodização diferente: http://alencontre.org/economie/le-capital-financier-et-ses-limitesautour-du-livre-de-francois-chesnais.html
[27] http://alencontre.org/europe/france/dix-ans-de-crise-et-puis-macron.html [28] http://alencontre.org/economie/le-capital-financier-et-ses-limites-autour-du-livre-defrancois-chesnais.html
[29] Esta proposição é mais precisa do que aquela que eu havia feito no livro Finance Capital Today em apoio às posições de Shanon Williams et Andrew Kliman. É apenas relativamente às pretensões dos portadores de direitos de extração de renda que o montante de mais-valor se mostra decrescente, apesar do aumento da taxa de exploração.
[30] Esta distinção despareceu mesmo no L’Impérialisme, stade suprême de Lenin. E isto eu já havia mostrado num artigo de 2015. http://alencontre.org/economie/economie-mondialeune-situation-systemique-qui-estspecifique-a-la-financiarisation-comme-phasehistorique.html
[31] Marx, Le Capital, vol. I, Editions Sociales, tomo 3, p. 68.
[32] Joint Forum on Financial Conglomerates, Bank for International Settlements, Basileia, 2001, p. 5. A diretiva sobre os conglomerados financeiros da União Europeia os define, por seu turno, como “grandes grupos financeiros ativos em diferentes setores financeiros que operam em vários países”.
[33] François Chesnais, Les dettes illégitimes, p. 57-59.
[34] François Morin, L’hydre mondiale : l’oligopole bancaire. Quebec : Lux/Humanitées, 2015.
[35] http://www.bis.org/publ/rpfx16fx.pdf
[36] http://www.universitepopulairetoulouse.fr/spip.php?article493
[37] François Morin, L’économie politique du XXI° siècle. Quebec : Lux/Humanitées, 2017, p. 117
[38] Ver os artigos sobre a Monsanto no sítio de A L’Encontre.
[39] Claude Serfati, Le rôle actif des groups à dominantes industriels dans la financiarisation de l’économie em François Chesnais (coord.) La Mondialisation financière: Genèse, coût et enjeux, Editions Syros, 1996.
[40] Para conhecer a denominação francesa e o modo de cálculo ver: https://www.lesechos.fr/financemarches/vernimmen/definition_cash-flow.html
[41] Greta Krippner, The Financialization of the American Economy, Socio-Economic Review, 3, nº 2, p. 173–208, 2005.
[42] Ver François Morin, Ibid., p. 107.
[43] Isto é estudado como todas as referências num artigo de 2015 publicado no A L’encontre: http://alencontre.org/economie/economie-mondiale-une-situation-systemique-qui-estspecifique-a-lafinanciarisation-comme-phase-historique.html, de 1° de março de 2015.
[44] Samir Amin, L’implosion du capitalisme contemporain. Automne du capitalisme, printemps des peuples ? Editions Delga, Paris, 2012, p. 15.
[45] http://unctad.org/fr/PublicationsLibrary/wir2013_en.pdf
[46] BIS, Annual Report 2017, p. 103. 13
[47] Raphael Auer, Claudio Borio, Andrew Filardo, The Globalisation of Inflation: the Growing Importance of Global Value Chains, CESIFO Working Paper n° 6387, Março de 2017.
[48] Ver os artigos em http://www.monde-diplomatique.fr/2012/06/POUILLE/47866 et à //www.peuplessolidaires.org/foxconn-des-conditions-de-travail-inhumaines-poussent-ausuicide/.
[49] Leda Paulani, apresentação no sexto congresso Marx International, Nanterre 2010.
[50] Rudolf Hilferding, Le Capital financier, Editions de Minuit, 1970, p. 200. Em frances no original.
[51] A Federal National Mortgage Association (FNMA), conhecida sob o nome de Fannie Mae, é uma sociedade por ações (government sponsored enterprise) criada pelo governo federal dos Estados Unidos, em 1938, com a finalidade de aumentar a liquidez no mercado das hipotecas. A Federal Home Loan Mortgage Corporation (FHLMC), conhecida como Freddie Mac, foi criada em 1975 para reforçar a capacidade de apoio governamental ao acesso à moradia por parte de trabalhadores e empregados.
[52] É preciso lembrar que foram as retiradas dos clientes de três fundo monetários gerenciados pelos BNP Paribas, em 7 de agosto de 2007, que deu início à crise financeira.
[53] NINJA significa “no income, no job, no assets”. [54] A Wikipédia fornece uma definição correta. Um mercado de balcão – over-the-counter (OTC) em inglês — é um mercado no qual as transações são concluídas diretamente entre os vendedores e os compradores. Um mercado organizado, ao contrário, é aquele regulado por uma comissão sob a responsabilidade da “bolsa” em consideração. Este tipo de transação aumentou de modo importante depois do ano 2000 mesmo nos mercados acionários: nos Estados Unidos, em 2014, 40 % das ações foram comercializadas por meio do mercado de balcão contra apenas 16 % em 2008.
[55] https://insight.kellogg.northwestern.edu/article/what-went-wrong-at-aig
[56] www.banquefrance.fr/fileadmin/user_upload/banque_de_france/publications/Documents_Ec onomiques/documents-et-debats-numero-3-chapitre-1.pdf
[57] Esther Jeffers et Dominique Plihon, Le Shadow banking system et la crise financière, La documentation française, Cahiers français n° 375 http://www.ladocumentationfrancaise.fr/var/storage/libris/3303330403754/3303330403754_ EX.pdf [58] www.bloomberg.com/view/articles/2017-03-28/shadow-banking-is-getting-biggerwithout-getting-better
[59] http://fr.reuters.com/article/businessNews/idFRKCN0V40DY
[60] Tratei disso num artigo publicado na revista Contretemps, n° 7, em 2011: https://npa2009.org/content/r%C3%A9pudiation-des-dettes-publiques-europ%C3%A9ennesparfran%C3%A7ois-chesnais-contretemps-n%C2%B07
[61] Citação de Charles-André Udry em seu artigo Une guerre sociale nouvelle s’ouvre en Europe, www.alencontre.org, 27 mai.
[62] OECD, Pension Markets in Focus, Outubro de 2009, nº 6, www.oecd.org/finance/privatepensions/43943964.pdf et OECD, Private Pensions Outlook, 2009/www.oecd.org/finance/privatepensions/42153142.pdf
[63] Ver Daily Telegraph, 7 de outubro de 2011: www.telegraph.co.uk/finance/personalfinance/pensions/8814750/Valueof-private-pensionsfalls-by-nearly-a-third-in-three-years.html
[64] Jean-Miche Naulot, Eviter l’effondrement, Seuil, Paris, 2017, p. 107-108
[65] Trata-se de uma figura que remonta à 1998: https://www.les-crises.fr/produits-derives/
[66] Por nocional deve se entender o capital de referência em relação ao qual, em um contrato de derivativo, as duas partes assumem compromisso de compra e venda. Todos os cálculos de ganhos ou de perdas feitos pelos intervenientes em função da posição tomada são calculados com base nessa referência.
[67] Mostra-se particularmente completo e claro o verbete “produit dérivé financier” encontrado na Wikipedia.
[68] http://capitalinstitute.org/blog/how-banks-make-money-derivatives/
[69] O seu nome em inglês é “zero-coupon inflation swaps”. Ver sobre isso www.bloomberg.com/news/articles/2017-06-27/deutschebank-said-to-face-possible-60- million-derivative-loss-j4fx1yar. Além disso, suspeita-se que Deutsche Bank, o banco alemão mais importante, tenha ainda em suas contas uma grande quantidade de dívidas irrecuperáveis. Foi multado em US$ 14 milhões (valor reduzido depois para US$ 8 milhões) por ter vendido títulos sintéticos que continham subprimes durante a crise financeira
[70]. Ver sobre isso Morin, L’économie politique du XXI° siècle, op. cit., p. 136
[71] www.brookings.edu/opinions/the-dangers-of-derivatives/
[72] https://www.occ.gov/topics/capital-markets/financial-markets/derivatives/dq416.pdf O órgão conhecido pelo nome de Office of the Comptroller of the Currency (OCC) pertence ao Estado e trabalha sob a tutela do Departamento do Tesouro.
[73] Ver o artigo de Anne-Laure Delatte : www.ofce.sciences-po.fr/blog/entree-en-vigueur-delinterdiction-descds-a-nu/
[74] www//MGI%20Debt%20and%20not%20much%20deleveragingFullreportFebruary2015%20(3). pdf
[75] https://www.iif.com/press?page=1
[76] www.bis.org/publ/arpdf/ar2017e.pdf, p. 19.
[77] http://www.bis.org/speeches/sp150424.pdf
[78] http://www.capital.fr/economie-politique/taux-d-interet-les-dessous-d-une-baisse-ahaut-risque-1142877
[79] Peter Hördahl, Jhuvesh Sobrun and Philip Turner, Low long–term interest rates as a global phenomenon, BIS Working paper nº 574, Agosto de 2016.
[80] Este uso das noções de oferta e de demanda é teoricamente legítimo. No Capítulo XXII do Livro III, que trata da determinação do nível da taxa de juros, Marx escreve que “vimos que o capital portador de juros, embora seja uma categoria econômica absolutamente diferente da mercadoria, converte-se numa mercadoria sui generis, que tem nos juros o seu próprio preço, o qual, tal como o preço de mercado das mercadorias comuns, é fixado em cada momento pela ação da oferta e da demanda. A taxa de juros de mercado, apesar de flutuar constantemente, aparece em cada momento tão constantemente fixada e uniforme como preço de mercado da mercadoria. Os capitalistas monetários oferecem essa mercadoria, e os capitalista produtivos a compram, formando assim a sua demanda.” Capital, Livro III, Edições sociais, volume 7, página 33.
[81] The Economist, 7 de outubro de 2017.
[82] www.theguardian.com/business/live/2017/oct/11/japanese-stock-market-hits-21-yearhigh
[83] International Monetary Fund, World Economic Outlook, October 2016, chapter 3, p. 121
[84] Marx, Le Capital, Editions Sociales, livre I, tome 3, p. 33.
[85] Bruno Latour, Où aterrir? Comment s’orienter em politique, Paris, La Découverte, outubro de 2017, p. 10. Bruno Latour procura compreender o movimento que se desenvolveu, a partir da década de 1990, junto com a “desregulação”. Dela nasceu a globalização tal como 14 conhecemos. Com ela, adveio uma “explosão cada vez mais vertiginosa das desigualdades, assim como o empenho sistemático para negar as mudanças climáticas”. Para ele, as classes dominantes chegaram à conclusão de que não há espaço suficiente na terra para elas e para o resto dos seus habitantes. Para elas “não há mais um mundo comum à compartilhar”. Mostram, assim, que a luta social e a luta ecológica, as quais se mantiveram separadas até agora, devem ser unificadas.

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