8 de dezembro de 2017

A decisão do presidente Trump sobre Jerusalém arrisca unir todo o mundo árabe contra os EUA

O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel tornará mais fácil para Teerã convocar todos os muçulmanos, xiitas e sunitas, para que se juntem em defesa dos palestinos e dos locais sagrados

Patrick Cockburn


Manifestante palestino lança pedras enquanto gás lacrimogênio é disparado por tropas israelenses. Mussa Issa Qawasma / Reuters

Tradução / O presidente Trump e o governo de Israel com certeza previram, mas subestimaram, o "dia de fúria" palestina, com protestos de muçulmanos em todos os cantos do mundo, na sequência do reconhecimento de Jerusalém, pelos EUA, como "capital de Israel" e planos de transferir para lá a embaixada dos EUA. Com certeza entendem que a fúria logo se dissipará, porque aliados dos EUA, como os governantes da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito se darão por satisfeitos com breves protestos formais, e os palestinos são fracos demais para qualquer coisa além de manifestações que nada mudam.

EUA e Israel podem ter errado gravemente nessas avaliações: quando vivi em Jerusalém aprendi que muitos eventos dramáticos em Israel, como tiroteios e bombas, quase sempre têm repercussão interna muito menor do que o mundo externo poderia esperar. Mas qualquer coisa, seja o que for, que envolva diretamente Jerusalém, e sobretudo os lugares santos dos muçulmanos que lá estão, sempre tem impacto muito maior do que alguém que viva longe de lá possa imaginar.

A consequência imediata da ação de Trump é que os EUA se tornam ainda mais fracos, porque tomaram mais uma iniciativa que absolutamente todo o mundo desaprova. Uma superpotência no auge do próprio poder poderia talvez insistir nesse movimento. Mas não os EUA de hoje, politicamente divididos, cuja influência está em maré vazante na sequência dos fracassos militares no Iraque e no Afeganistão. O movimento de Trump é tão obviamente contrário aos interesses da política externa dos EUA que acabará de convencer outros líderes mundiais de que Trump é aliado impossível.

Mas o movimento pode ter também outras consequências perigosas. Há um mito segundo o qual a luta israelenses-palestinos seria questão distante das preocupações de Osama bin Laden ou que não tenha tido qualquer influência na ascensão da al-Qaeda. Verdade é que os discursos e escritos de bin Laden estão cheios de referências aos palestinos – e suas primeiras manifestações públicas, na década de 1980, foram conclamações para que os árabes boicotassem produtos norte-americanos, por causa do apoio dos EUA a Israel.

A conexão entre a questão palestina e o 11/9 foi sempre diminuída e apagada à época, especialmente nos veículos e think-tanks a serviço dos neoconservadores que garantiam que os EUA poderiam ignorar a questão e manter política de agressão ao Iraque, sem que isso comprometesse a segurança do país. É verdade que o 11/9 prejudicou os palestinos, porque foram marginalizados quando EUA e aliados iniciaram uma sequência de guerras durante as quais a causa palestina praticamente sumiu da pauta Ocidental de notícias.

Mas com as guerras no Iraque e na Síria chegando ao fim, o foco volta a recair sobre israelenses e palestinos. O Estado Islâmico (EI) e a al-Qaeda foram derrotados nos seus esforços para derrubar governos e 'mudar o regime' em Bagdá e Damasco. Se aqueles grupos pretendem sobreviver e angariar apoios no mundo muçulmano, terão de definir um novo inimigo. Por destroçados que talvez estejam, com certeza aqueles grupos têm hoje muito mais recursos e ativistas do que bin Laden tinha à época do 11/9. A declaração de Trump sobre Jerusalém joga uma boia salva-vidas aos movimentos tipo al-Qaeda, bem quando tentam sobreviver à mais completa derrota.

Trump herdou de Obama a guerra para eliminar o autoproclamado "Califato", e deu-lhe andamento sem qualquer mudança. Muitas decisões sobre o conflito foram tomadas, sem dúvida, pelo Pentágono, não pela Casa Branca. Até agora, a maior modificação na política dos EUA na região foi o esforço para pôr fim à détente de Obama com o Irã, substituindo-o por esforço na direção oposta, para construir uma coalisão anti-Irã. Agora, isso também se torna trabalho ainda mais difícil.

Em outubro, Trump rejeitou o acordo nuclear com o Irã, demonizando os iranianos como se fossem fonte e causa de toda a instabilidade na região. Trump e seu governo tendem a misturar iranianos e xiitas, mais ou menos como fazem a Arábia Saudita e os monarcas sunitas do Golfo. O Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, H R McMaster disse no final de outubro que "o mais importante, não só para os EUA, mas para todas as nações, é enfrentar os flagelos que são o Hezbollah, os iranianos e o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica."

Ainda não se pode ver com clareza até onde essa retórica beligerante será efetivamente convertida em ação militar. Se Trump quer confrontar o Irã e o eixo de estados e organizações paramilitares que o Irã lidera, então chegou tarde demais. O lado xiita iraniano já venceu a guerra na Síria e no Iraque contra uma resistência predominantemente sunita, que era apoiada por Arábia Saudita, Qatar e Turquia. O papel do Hezbollah e o grupo paramilitar xiita Hashd al-Shaabi será naturalmente reduzido, porque já não há guerra a combater e os governos centrais em Bagdá e Damasco vão-se tornando mais fortes.

O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel tornará ainda mais fácil para Teerã conclamar todos os muçulmanos, xiitas e sunitas, a defenderem juntos o povo palestino e os lugares santos na Palestina. E tornará ainda mais difícil, se não impossível, para a Arábia Saudita e aliados no Golfo agir ao lado dos EUA, aproximarem-se de Israel e pintar o Irã como se fosse a principal ameaça na região.

Há uma consequência ainda mais ampla, dessa mudança na política dos EUA: há cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo que são maioria em cerca de 50 estados e constituem 22% da população do mundo. Nenhum deles aprovará o mais recente movimento de Trump. A população de muitos daqueles países, inclusive alguns dos maiores como a Turquia (80 milhões) e o Paquistão (193 milhões), já era muito fortemente anti-norte-americana, mesmo antes de Trump ser eleito. Em 2012, pesquisas mostraram que 74% dos paquistaneses consideravam os EUA como país inimigo. E esse número, já muito alto, é ainda maior na Turquia, onde 82% dos turcos disseram, nesse verão, que têm impressão desfavorável dos EUA. Divididos em praticamente todas as questões, os turcos estão unidos contra os EUA, o que tornará ainda mais difícil qualquer movimento dos EUA contra o Irã.

O presidente Putin deve visitar Istambul na segunda-feira para falar com o presidente Erdogan sobre Jerusalém e a Síria, um sinal de que pode ser difícil isolar a questão da capital israelense de outros conflitos.

Todos esses importantes desenvolvimentos estão em curso, mas nada mudou de fato em campo: Israel já tratava Jerusalém como sua capital, e o chamado processo de paz com os palestinos está há anos em estado de total confusão. Os EUA já não podem sequer fingir que seriam mediador equilibrado, o que, na verdade e sobretudo, jamais foram.

Ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel, Trump e Israel podem ter quebrado uma regra política que ensina que não é recomendável mexer em situações de fato que outros já tenham acabado por aceitar, mesmo que informalmente. É movimento que pode ter consequências desastrosas inesperadas. Bom exemplo disso se viu há menos de três meses, quando o presidente Masoud Barzani promoveu um referendum que declarou a independência formal do Curdistão Iraquiano, apesar de os curdos iraquianos já viverem em situação de fato bem próxima da independência desde 2003. Os governos do Iraque, da Turquia e do Irã, que durante anos aceitavam a situação anterior, reagiram furiosamente; e em três semanas os curdos perderam o controle sobre Kirkuk e grande parte de seu território. É provável que o presidente Trump e Israel logo descubram que apostaram mais alto do que recomendava a prudência e terão de pagar preço mais alto do que esperavam ao formalizar o controle israelense sobre Jerusalém.

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