17 de dezembro de 2017

A mentira permanente, nossa ameaça mais mortífera

Chris Hedges


Tradução / O perigo mais sinistro que enfrentamos hoje não vem do atentado à liberdade de expressão através do fim da neutralidade da rede, ou dos algoritmos da Google, que mantêm a população sem acesso a conteúdos divergentes dos meios hegemônicos, com poucas chances de acessar opiniões progressistas ou anti bélicas. Tampouco vem da reforma tributária de Trump, que abandona qualquer pretensão de responsabilidade fiscal, enriquece as corporações e os oligarcas, preparando o caminho para o desmantelamento de programas como o da Seguridade Social. Também não vem da exploração de terras coletivas para benefício da indústria mineradora e dos combustíveis fósseis, ou da aceleração do ecocídio por parte de uma legislação ambiental irresponsável, ou da destruição da educação pública. E tampouco tem a ver com o desperdício de fundos federais para inflar o orçamento militar enquanto o país colapsa economicamente, nem do uso de sistemas de segurança doméstica para criminalizar a dissidência. O perigo mais sinistro que enfrentamos vem da marginalização e destruição daquelas instituições que -- junto com os tribunais, a academia, os entes legislativos, as organizações culturais e os meios de comunicação -- garantiam que o discurso público se ancorava na realidade do fatos, e nos ajudavam a distinguir entre a verdade e a mentira, o que é uma forma de promover a justiça.

O atual governo de Donald Trump e do Partido Republicano representam a última etapa da ascensão do totalitarismo corporativo. Para saquear e oprimir a população usa-se a tática da mentira permanente, um tipo de mentira diferente das falsidades e meias verdades proferidas por políticos como Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. A mentira política dos antecessores não pretendiam eliminar a realidade, era mais uma forma de manipulação. Quando Clinton promulgou o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, por sua sigla em inglês) prometeu que ele “significaria mais empregos, o que significaria mais empregos estadunidenses, o que significaria mais empregos estadunidenses bem pagos”. George W. Bush justificou a invasão do Iraque porque Saddam Hussein supostamente possuía armas de destruição massiva. Porém, passados alguns anos, nem Clinton continuou fingindo que o NAFTA era benéfico para a classe trabalhadora, já que a realidade mostrou o contrário, nem Bush continuou simulando a existência de super armas no Iraque, pois já não havia onde encontrar algum tipo de prova a respeito.

A mentira permanente não está circunscrita ou limitada pela realidade, ela se perpetua inclusive diante da evidência abrumadora que a desacredita. É simplesmente irracional. Aqueles que falam a linguagem da verdade e dos fatos são atacados e acusados de mentirosos, traidores e provedores de notícias falsas. Uma vez que as elites totalitárias acumulam suficiente poder -- um poder agora garantido pela supressão da neutralidade da rede --, os que que dela divergem serão banidos da esfera pública. A férrea resistência a reconhecer a realidade -- independentemente do grau de transparência com que esta se apresente -- por parte daqueles envolvidos na mentira permanente cria uma psicose coletiva.

“O resultado de uma substituição sólida e total da verdade fática por mentiras táticas não é a segunda sendo aceita como a versão correta, enquanto a verdade é difamada como se fosse uma mentira. É muito pior que isso, tem a ver com o sentido que nos orienta no mundo real – e a categoria do verdadeiro diante do falso é um dos nossos meios mentais encaminhados a este fim – sendo destruído”, escreveu Hanna Arendt em “As Origens do Totalitarismo”.

A mentira permanente transforma o discurso político num teatro absurdo. Donald Trump, que já mentiu sobre o número de espectadores de sua posse com presidente, apesar das evidências fotográficas, agora fala das suas finanças pessoais para dizer que será “assassinado” pela reforma tributária, que na verdade favorece a ele e ser herdeiros, que serão poupados em mais de um bilhão de dólares em taxas. O Secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, afirma que possui um informe que demonstra como os cortes tributários serão equilibrados e não aumentarão o déficit fiscal, mas esse levantamento nunca chegou a existir. O senador estadunidense John Cornyn, contrariando todas as evidências fáticas, diz que “não se trata de uma reforma desenhada para beneficiar os ricos e os grandes negócios”, mas é.

Enquanto isso, cerca de 8 mil quilômetros quadrados de terras públicas, estão sendo entregues à indústria mineradora e a dos combustíveis fósseis, enquanto Trump insiste em dizer que isso significa que “as terras públicas serão uma vez mais para uso público”. Quando os ecologistas denunciam que se trata de um roubo, o republicano Rob Bishop acusa a posição crítica de “falsa narrativa”. Ao acabar de forma efetiva com a neutralidade da rede e a liberdade de expressão na Internet, Ajit Pai, presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC, por sua sigla em inglês), comenta que “isso demonstra que estavam equivocados aqueles que sugeriam que a internet tal como a conhecemos está a ponto de desaparecer… temos uma internet livre que está se aperfeiçoando”. e nos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças, frases como “baseado em evidências” e “baseado cientificamente” estão proibidas.

A mentira permanente é a apoteose do totalitarismo. Já não importa o que é verdadeiro. Só importa o que é “correto”. As cortes federais estão sendo preenchidas por juízes imbecis e incompetentes a serviço da “correta” ideologia corporativa e dos rígidos costumes sociais da direita cristã, um setor que simplesmente despreza a realidade, incluindo a ciência e o Estado de Direito, e que pretende dizimar aqueles que vivem num mundo com princípios de realidade definidos pela autonomia moral e intelectual. A norma totalitária sempre destaca o brutal e o estúpido, e estes idiotas no poder não têm metas nem filosofia política alguma, usam somente clichês e slogans -- a maioria dos quais são absurdos e contraditórios -- tentando justificar sua cobiça e ânsia de poder. Isso é tão válido para a direita cristã que já está ocupando o vazio ideológico da administração Trump, junto com os corporativistas que predicam em favor do neoliberalismo e da globalização. Essa fusão dos corporativistas e da direita cristã é como um matrimônio entre o Godzilla e o Frankenstein.

“Os políticos corruptos nem precisam compreender as consequências sociais e políticas dos seus comportamentos”, escreveu o psiquiatra Joost A.M. Meerloo em um de seus livros. “Não são obrigados a agir por uma crença ideológica, independentemente de quanto a racionalizem ou estejam convencidos, e sim por distorções de suas próprias personalidades. Não estão motivados por um impulso dirigido a servir o seu país ou a humanidade, mas sim pela abrumadora necessidade e compulsão de satisfazer os anseios de suas próprias estruturas de carácter patológicas. As ideologias que declamam não são metas reais, mas sim -- e somente -- os mecanismos cínicos por meio dos quais esses homens doentes esperam obter certo sentido pessoal de valor e poder. Estas mentiras internas, por mais sutis que pareçam, os prejudicam: são auto enganos defensivos, uma visão distorcida, a ausência de identificação emocional com os outros, a degradação da empatia – a mente tem muitos mecanismos de defesa que permitem cegar a consciência”.

Quando a realidade é substituída pelos caprichos da opinião e do oportunismo, o que é verdadeiro um dia pode ser falso no dia seguinte para esse mesmo indivíduo. A consistência ou coerência se torna descartável. A complexidade, os matizes, a profundidade, tudo e deixado de lado em nome da crença mais simplória, a qual muitas vezes se impõe através da ameaça e da força bruta. É por isso que a administração Trump despreza a diplomacia e está destruindo o Departamento de Estado. Segundo o novelista e crítico social Thomas Mann, o totalitarismo é, em seu núcleo mais profundo, o desejo de um simples conto popular. Uma vez que este conto popular toma o lugar da realidade a moral e a ética são abolidas. “Aqueles que podem fazer você acreditar nos despropósitos mais absurdos, podem te levar a cometer as maiores atrocidades”, advertiu Voltaire.

As elites corporativas, que em outros tempos atentaram contra as pessoas de pele escura, contra os pobres, contra a classe trabalhadora, agora atentam sem seguir nenhuma regra. Os lobistas, os políticos comprados, os acadêmicos servis, os juízes corruptos e as celebridades dos informativos de televisão dirigem um Estado cleptocrático definido pelo suborno legalizado e a exploração desenfreada. As elites empresariais escrevem leis, regulações e reformas para expandir o saque das corporações, ao mesmo tempo que impõem uma dívida que escraviza e paralisa a população, como o que acontece com a enorme carga para os estudantes que são os financiamentos educacionais. As medidas de austeridade desmantelam os serviços estaduais e municipais, como é o caso da saúde e da educação públicas. Ainda assim, insistem em que a solução aos nossos problemas se encontra nas instituições que eles mesmos corromperam, e nos pedem para investir tempo e energia em campanhas políticas e em apelos aos tribunais. Tentam nos atrair ao seu mundo esquizofrênico que abandonou o discurso racional em nome de um bando de charlatões baratos. Querem que esperemos justiça num sistema desenhado para perpetuar a injustiça. É um jogo onde nunca poderemos ganhar.

“Toda dignidade reside no pensamento” escreveu Pascal. “É através do pensamento que devemos buscar nossa recuperação, não no espaço ou no tempo, vazios que nunca poderemos preencher. Temos de nos esforçar, então, em pensar bem, o princípio básico da moralidade”.

Para enfrentar o poder é preciso mais poder. Devemos construir instituições e organizações paralelas que nos protejam do assalto empresarial e resistam à dominação das corporações. Devemos nos distanciar o máximo possível deste Estado vampírico. Quanto mais comunidades autônomas possamos criar, com suas próprias divisas e infraestruturas, mais poderemos golpear a besta corporativa. Devemos estabelecer cooperativas de trabalhadores, sistemas locais de fornecimento de alimentos baseados em dietas veganas e organizações culturais, artísticas e políticas independentes. Temos que obstruir, por qualquer meio possível, o assalto das corporações, desde o bloqueio direto de gasodutos e poços destinados ao fracking à ocupação das ruas através de atos de desobediência civil contra a censura e o ataque às liberdades civis, ou a criação de “cidades santuário”. E tudo isso deverá ser realizado como sempre foi feito na história da humanidade; construindo relações pessoais de proximidade. Talvez não haja tempo e não sejamos capazes de salvar a nós mesmos -- sobretudo devido a insistência das elites em não reagir corretamente aos problemas da crise climática do planeta -- mas ao menos poderemos criar espaços de resistência onde a verdade, a beleza e a empatia possam durar o tempo que ainda nos resta.

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