19 de dezembro de 2017

O exército de Israel primeiro tirou suas pernas e depois, sua vida

Na sexta-feira, um atirador de elite alvejou e matou Ibrahim Abu Thuraya, um habitante de Gaza que tinha ambas as pernas amputadas, quando protestava de sua cadeira de rodas perto da fronteira israelense.

Gideon Levy


O manifestante palestino Ibrahim Abu Thuraya, que, de acordo com médicos, foi morto na sexta-feira durante confrontos com tropas israelenses perto da fronteira de Gaza, 15 de dezembro de 2017. Mohammed Salem / Reuters

O atirador de elite do exército de Israel não poderia mirar na parte inferior do corpo de sua vítima — Ibrahim Abu Thuraya não a tinha. Ele tinha 29 anos, trabalhava lavando carros e vivia no campo de refugiados Shati na cidade de Gaza, perdeu suas duas pernas a partir do quadril para baixo em um ataque aéreo durante a Operação Chumbo Fundido em 2008. Ele utilizava uma cadeira de rodas para se locomover. Na sexta-feira, o exército terminou o trabalho: um atirador de elite apontou para sua cabeça e o matou.

As imagens são horríveis: Abu Thuraya em sua cadeira de rodas, empurrada por seus amigos, convocando protestos contra a declaração dos EUA reconhecendo Jerusalém como a capital de Israel; Abu Thuraya no chão, rastejando até a cerca atrás da qual a Faixa de Gaza está aprisionada; Abu Thuraya empunhando uma bandeira palestina; Abu Thuraya erguendo ambos os braços fazendo o sinal da vitória; Abu Thuraya carregado por seus amigos, sangrando até a morte; o cadáver de Abu Thuraya em uma maca: The End.

O atirador de elite não poderia mirar na parte inferior do corpo de sua vítima na sexta-feira, então ele atirou na cabeça e o matou.

Pode-se presumir que o solado percebeu que estava atirando em uma pessoa em uma cadeira de rodas, a não ser que estivesse atirando de forma indiscriminada na multidão de manifestantes.

Abu Thuraya não representava nenhum perigo para ninguém: que perigo poderia constituir um homem amputado de suas duas pernas em uma cadeira de rodas, preso atrás de uma cerca? Quanta maldade e insensibilidade é preciso para ordenar atirar em uma pessoa com deficiência em uma cadeira de rodas? Abu Thuraya não foi o primeiro, nem será o último, palestino com alguma deficiência a ser assassinado por soldados do Exército de Defesa de Israel — os mais humanos soldados do mundo, só que não.

O assassinato de um jovem com deficiência passou quase sem ser mencionado em Israel. Ele foi um dos três manifestantes mortos na sexta-feira, apenas mais um monótono dia. Pode-se facilmente imaginar o que ocorreria se um palestino tivesse matado um israelense que utilizasse uma cadeira de rodas. Que furor teria despertado, com tinta sem fim derramada contra a crueldade e barbárie dos perpetradores. Quantas prisões teriam ocorrido em consequência disso, quanto sangue teria corrido em retaliação. Mas quando os soldados se comportam de forma bárbara, Israel silencia e não demonstra nenhum interesse. Não há choque, não há vergonha, não há piedade. Desculpas ou uma expressão de remorso é somente fantasia. A ideia de responsabilizar os que realizaram esse ato criminoso é também delirante. Abu Thuraya eram um homem morto quando ele se atreveu em participar no protesto de seu povo e seu assassinato não interessa a ninguém, já que ele era um palestino.

A Faixa de Gaza está fechada para jornalistas israelenses há 11 anos, assim que só podemos imaginar a vida que este lavador de carros de Shati tinha antes de sua morte – como se recuperou de seus ferimentos na ausência de serviços decentes de reabilitação na cercada Faixa, sem chances de obter pernas prostéticas; como ele se locomovia lentamente em uma velha cadeira de rodas, não uma elétrica, nas ruelas de areia de seu campo de refugiados; como ele continuava a lavar carros apesar de sua deficiência, já que não há outras oportunidades em Shati, incluindo para pessoas com deficiência; e como ele continuava lutando com seus amigos, apesar de sua deficiência.

Nenhum israelense pode imaginar a vida naquela jaula, a maior do mundo, aquela que se denomina Faixa de Gaza. É parte de um interminável experimento com seres humanos.

É preciso ver os desesperados jovens que se aproximavam da cerca na manifestação de sexta-feira, armados com pedras que não poderiam chegar a nenhum lugar, atirando-as através das brechas nas grades atrás das quais eles estão encurralados.

Esses jovens não têm esperança em suas vidas, mesmo quando possuem duas pernas para caminhar. Abu Thuraya tinha ainda menos esperança.

Há algo patético, mas digno, na foto dele erguendo a bandeira palestina, dado ao seu duplo confinamento – em sua cadeira de rodas e em seu país sitiado.

A história de Abu Thuraya é um reflexo preciso das circunstâncias de seu povo. Pouco depois de ser fotografado, sua vida atormentada teve um fim. Quando as pessoas gritavam todas as semanas: “Netanyahu na prisão de Maasiyahu”, alguém deveria finalmente começar a falar sobre [a Corte de] Haia.

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