19 de janeiro de 2018

A Palestina e o reconhecimento de Israel

Robert Fantina*

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O fraco líder da Palestina, traidor e sem coluna vertebral, Mahmoud Abbas, assegurou um voto para rescindir o reconhecimento palestino de Israel. Foi apenas há um ano que declarou o fim da “cooperação para a segurança” (leia-se: a cumplicidade palestina na opressão exercida por Israel sobre a Cisjordânia) e as coisas continuaram como sempre. A decisão do reconhecimento de Israel será provavelmente a mesma.

Alguns membros da comunidade internacional, que pela primeira vez, desde há muito tempo, parece dar-se conta do abjeto sofrimento dos palestinianos (não que importe fazer alguma coisa a esse respeito), e reconhecem que Israel viola numerosas leis internacionais, tiveram uma reação tépida, que vai do “inútil” (França) ao “completamente compreensível” (Rússia).

Existe uma variedade de questões que esta última “decisão” não vinculativa levanta e vamos analisar algumas.


  • Por que é que a Palestina reconhece o seu brutal opressor sem exigir a mesma concessão de Israel? Agindo assim, dá alguma legitimidade à ocupação e, de todos os países que em nenhuma circunstância o deveriam fazer, é a Palestina que está no topo da lista. Com certeza, uma vez que os EUA fomentam a violência, apoiaram Israel e oprimiram a Palestina, é natural que a Palestina tenha pouca escolha na matéria.
  • Por que é que um país não pode deixar de reconhecer outro? As circunstâncias mudam e, apesar de não ser um gesto fácil ou imediato, quando uma nação viola seriamente a lei internacional durante décadas, é governada por um regime de apartheid e recusa qualquer monitorização da sua capacidade nuclear, parece haver uma boa razão para as outras nações retirarem o seu reconhecimento oficial.
  • Por que é que Mahmoud Abbas ainda não saiu deste filme? Há anos que a Palestina ultrapassou o tempo para a realização de eleições que, seguramente, mandariam embora o velho, traidor e incompetente fantoche de Israel. Os EUA, claro, enquanto hipocritamente proclamam o seu apoio à autodeterminação do povo, trabalha para evitar tal eleição, porque o Hamas, com toda a probabilidade, ganharia a maioria. E se não fosse o Hamas, qualquer outro partido que desse um pontapé na linha EUA-Israel. O partido vitorioso seria o que, pela primeira vez em muitos anos, tivesse as necessidades e aspirações dos palestinos no coração, em vez de outro que se ajoelhe perante as exigências do brutal ocupante da Palestina e o seu cruel facilitador.


Evitar eleições em outros países, cujo resultado não possa ser predeterminado a favor dos EUA, é algo de que o governo dos EUA não tem falta de experiência. Um único caso específico chegará para demonstrar este fato.

Em 1954, quando os franceses estavam a tentar, com bastante insucesso, ficar com o Vietnã como colônia, foi assinado o Acordo de Genebra, que dividia o Vietnã: o norte comunista e o sul não comunista. Os acordos previam eleições a realizar em 1956, que constituiriam um referendo à reunificação. Estas eleições foram boicotadas pelo sul, sob pressão dos EUA. Na memórias do presidente Dwight D. Eisenhower, ele escreveu que, se as eleições se tivessem realizado em 1956, “Ho Chi Min (o líder comunista do norte) teria tido 80% dos votos”. Permitir ao povo decidir a sua própria liderança só é admitido se os EUA gostarem dela.

O respeito pela vontade do povo declarado pelos EUA sempre foi um mito. Em 1916, o presidente Woodrow Wilson disse que “Todas as pessoas têm o direito a escolher a soberania sob a qual desejam viver”. O secretário de Estado de Wilson, Robert Lansing, ficou bastante perturbado com tais declarações. “Nas suas notas privadas escreveu que isso (o conceito de autodeterminação) estava carregado de dinamite, podia criar a desordem, o descontentamento e a rebelião. A sua mente arrumada e lógica viu que tais declarações levariam o presidente a estranhas contradições. ‘Não poderiam os maometanos da Síria e da Palestina e, possivelmente, do Marrocos e Tripoli apoiar-se nisso? Como se pode harmonizar isto com o sionismo, com o qual o presidente está praticamente comprometido?’”.

Os palestinos na Cisjordânia, desarmados e desprotegidos, sabem que, quando os policiais não estão em cena, podem esperar os terroristas das Forças de Defesa de Israel, que virão invadir as suas casas, negócios, mesquitas e escolas, prender e aterrorizar todos os que encontrarem e matar inocentes, homens indefesos, mulheres e crianças. Isto é conhecido na linguagem particular de Israel e de Abbas como “cooperação para a segurança”. Os palestinos não podem atirar pedras, mas os israelitas podem atirar a matar.

Esta é a política que, há um ano, Abbas disse que não iria respeitar mais. Do mesmo modo que acontece com os políticos americanos, as suas palavras não têm significado; os palestinos na Cisjordânia continuam a ser agredidos, mortos, desmoralizados, presos sem culpa formada durante meses e anos, independentemente da idade, e tudo isto com assistência voluntária do seu dito líder. Qualquer eleição na Palestina poria um fim a esta “cooperação para a segurança”.

As iniciativas políticas que Abbas diz que vai tomar e não toma poderiam ser uma viragem para os palestinos. Se os policiais da Fatah passassem o tempo a fazer frente a Israel em vez de trabalhar com ele, a desobediência civil atingiria rapidamente um ponto de ebulição com que a comunidade internacional teria de lidar. Se ele retirar o reconhecimento de Israel, ou mesmo apenas a ameaça de fazê-lo, pode motivar outras nações a concordar com o reconhecimento da Palestina, se esta mantiver o reconhecimento do estado de apartheid.

Mas estas são iniciativas que beneficiariam o povo palestino, e Abbas já provou repetidamente, durante anos, que essa é a última das suas preocupações.

O que vai acontecer a seguir? Com os EUA a pregar os pregos do caixão da Palestina e Israel ocupado a cavar a sua sepultura, procura-se em vão apoio substancial dos líderes da comunidade internacional. A grande esperança está nos membros mais humildes dessa comunidade, as pessoas que estão sempre a a exigir o boicote, o desinvestimento e as sanções econômicas (movimento BDS) em Israel. Os EUA e outros países tentam futilmente ilegalizar estas ações (nos EUA em completo desrespeito da Constituição), enquanto Israel gasta milhões de dólares para tentar anular as consequências econômicas e reputacionais do movimento BDS.

Infelizmente, no curto prazo, isto não muda nada para os palestinos; em Gaza, continuam fechados na maior prisão do mundo ao ar livre, e na Cisjordânia continuam a sofrer as ações brutais dos terroristas das Forças de Segurança de Israel e dos colonos terroristas. As pessoas de todo o mundo com consciência e humanismo devem aumentar os seus esforços; a própria existência da nação da Palestina depende disso.

* O último livro de Robert Fantina é Empire, Racism and Genocide: a History of US Foreign Policy [Império, Racismo e Genocídio: uma História da Política Externa dos EUA] (Red Pill Press).

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