23 de janeiro de 2018

Assassinato extrajudicial de um pashtun expõe a brutalidade do Estado no Paquistão

Ali Mohsin

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

O assassinato de um Pashtun em Karachi pela polícia Sindh na semana passada trouxe uma atenção renovada às brutais práticas das forças policiais e de segurança do Paquistão.

De acordo com os seus parentes, Naqeebullah Mehsud, um jovem de 27 anos, da região devastada pela guerra do Waziristão do Sul, foi sequestrado por oficiais da polícia à paisana, em Karachi, no início deste mês. Em 16 de janeiro, a família de Mehsud foi informada de que ele havia sido morto num tiroteio com a polícia, juntamente com outros 4 alegados terroristas, poucos dias antes. Mehsud foi enterrado na sua cidade natal de Makin, no sul do Waziristão, na sexta-feira. No mesmo dia, uma grande manifestação em Karachi a exigir justiça para Mehsud foi violentamente reprimida por policiais com bastões.

Naqeebullah Mehsud ganhava a vida como dono de uma pequena loja de roupas nos arredores de Karachi. Também era um aspirante à apresentação de moda, tendo conseguido 14 mil seguidores na conta do Facebook que usava para promover os seus modelos, de acordo com a Al Jazeera. Enquanto a polícia Sindh afirmava que Mehsud era um membro do Talibã Paquistanês (TTP) e que estava envolvido em ataques terroristas, não conseguiu fornecer uma única prova para fundamentar essa afirmação. Entretanto, os familiares de Mehsud, organizações de direitos humanos e ativistas pashtunes continuam a insistir que ele foi uma vítima inocente de um assassinato extrajudicial. De acordo com o Dawn, um porta-voz da seção do Waziristão do Sul do TTP divulgou uma declaração, na semana passada, em que negou qualquer associação com Mehsud e descreveu as alegações da polícia de Sindh contra ele como “sem fundamento”.

No sábado, após dias de inflamados protestos em todo o país, o Superintendente Sênior da Polícia (SSP) de Sindh, Rao Anwar, que comandou a operação que resultou na morte de Mehsud, foi transferido do seu posto. Os apoiadores da família Mehsud exigiram uma investigação independente, não aceitando o inquérito policial de três membros nomeados pelo governo para investigar o assassinato.

A morte de Naqeebullah Mehsud provocou grande indignação em todo o país, particularmente entre os Pashtuns. Nos últimos anos, membros desta etnia têm sido muitas vezes qualificados, de forma estereotipada, como irremediavelmente “atrasados” e mais propensos a envolverem-se em ataques terroristas contra alvos paquistaneses. Raramente mencionado é o facto de o povo Pashtun ter sofrido desproporcionadamente com a feroz guerra dos dois lados da fronteira Afeganistão-Paquistão.

Desde 2004, o exército paquistanês realizou inúmeras operações de contrainsurgência nas Áreas Tribais Administradas Federalmente (ATAF). Estas operações foram realizadas a mando de Washington e contra a vontade do povo paquistanês. A região natal de Naqeebullah Mehsud, no Waziristão do Sul, tem sido o cenário de tais operações, que, muitas vezes, envolveram bombardeamentos indiscriminados, tortura e execuções extrajudiciais. Os Pashtuns, nas áreas tribais, também foram aterrorizados por drones dos EUA, com a aprovação tácita das elites governantes do Paquistão e do situacionismo militar. Milhões foram deslocados, em resultado das políticas de Islamabad.

O assassinato de Naqeebullah Mehsud deve ser entendido como parte de uma mai0r tendência de brutalidade estadual. O uso de matanças extrajudiciais e outras impiedosas táticas ​​têm sido uma prática generalizada entre a polícia e as forças de segurança paquistanesas, particularmente quando confrontadas com movimentos de grupos étnicos marginalizados. Na verdade, isto é um facto que os Pashtuns e também as comunidades Baloch e Muhajir podem confirmar.

No início deste mês, o grupo de reflexão de Islamabad, Centro de Pesquisa e Estudos de Segurança, divulgou um relatório sobre as mortes por violência no país, em 2017. De acordo com o mesmo, morreram mais paquistaneses no ano passado em “homicídios em recontros”, um eufemismo para assassinatos extrajudiciais, com a polícia, do que em atentados suicidas. 495 pessoas foram mortas no que a polícia afirmou serem tiroteios, enquanto 298 morreram em ataques suicidas e 144 em vários atentados à bomba.

Recentemente, a polícia do Paquistão tem sido submetida a um maior escrutínio, devido ao horrível estupro e assassínio de uma garota de 7 anos, chamada Zainab, na cidade de Kasur, no Punjab. O assassinato desencadeou furiosos protestos contra a polícia local, que não investigou uma série de estupros e assassinatos de outras crianças em Kasur, no ano passado. Depois de dois manifestantes terem sido abatidos a tiro pela polícia, moradores de Kasur incendiaram o escritório de um burocrata e tentaram queimar as casas de políticos locais. Embora os protestos tenham sido provocados pelo assassinato de Zainab, também eram uma expressão de raiva de classe que visava as corruptas elites dirigentes do Paquistão. Isto foi evidente nas entrevistas concedidas aos meios de comunicação por muitos moradores de Kasur, em que questões como a desigualdade e a corrupção governamental foram levantadas, ao lado da praga da violência sexual. Finalmente, os Punjab Rangers – uma força paramilitar –, tiveram de ser chamados para restaurar a “ordem”.

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