1 de fevereiro de 2018

O inimigo está aqui: O Imperialismo norte-americano na Síria"

Como a destruição na Síria se encaixa em padrões históricos mais amplos? Como situamos a guerra na Síria nas histórias do imperialismo dos EUA, do mundo árabe (incluindo a Palestina) e da relação entre os dois? Somente postando essas questões, podemos desenvolver os fundamentos teóricos necessários para construir os movimentos e estabelecer as alianças necessárias para derrotar a máquina de guerra dos EUA na Síria e em outros lugares.

Diana al-Hadid, Nolli’s Orders, 2012
Patrick Higgins

Viewpoint Magazine

"... Todos os planos estão unidos; eles são ondas que parecem separadas, mas ainda assim se misturam" 
– Louis Antoine de Saint-Just

"Onde os imperialistas não encontram desordem, eles a criam deliberadamente..." 
– C.L.R. James, Jacobinos negros
Tradução / Em 1971, próximo do apogeu da guerra extremamente sangrenta dos Estados Unidos contra o Vietnã, um grupo de cineastas revolucionários argentinos e italianos que se chamavam de Colectivo de Cine del Tercer Mundo lançaram um filme com um título provocador: Palestina, outro Vietnã. O título diz muito em poucas palavras, uma breve declaração que carrega uma gama de possíveis significados. A principal sugestão do título - que tanto o Vietnã como a Palestina eram zonas de agressão imperial assim como de resistência a ela - de maneira nenhuma seria deslocada ou incomum entre a esquerda global em 1971. De fato, os revolucionários da Palestina da época estavam com os olhos bastante voltados para o Vietnã, estudando tanto as brutais táticas militares usadas pelo Imperialismo norte-americano para esmagar o movimento popular revolucionário bem como a histórica resistência popular vietnamita. O que poderia se aprender?

Em 1973, enquanto a revolução anticolonial vietnamita estava declarando vitória contra um Estados Unidos militarmente superior, um grupo de revolucionários palestinos e intelectuais árabes convocaram uma mesa de discussão moderada por Haytham Ayyoubi, o dirigente da divisão de Estudos Militares da Organização pela Libertação da Palestina (OLP). “Os Estados Unidos, com sua intervenção violenta contra a revolução vietnamita e contra seu povo, tentou apresentar um ponto, e na prática o fez”, afirmou Tahsin Bashir, o até então Auxiliar do Secretário-Geral da Liga Árabe. Os Estados Unidos tentou apresentar que “a ciência e tecnologia modernas, no uso de computadores e especialistas, são capazes de derrotar humanos”. Em resposta à essa proposição arrogante, Bashir afirmou o que ele pensava ser a lição principal da derrota da guerra dos EUA contra o Vietnã: “O sucesso da experiência vietnamita se baseia no sucesso dos seres humanos sobre a tecnologia”. O Co-palestrante de Bashir, Dawud Talhami da Divisão de Estudos Mundiais do Centro de Pesquisas da OLP, declarou que o Vietnã é a “experiência mais rica apresentada para nós pela herança revolucionária moderna ao enfrentar diferentes formas de opressão”. Afinal de contas, ali estava uma sociedade, a do Vietnã, que o império dos EUA tentou destruir - muito parecido com o que as forças do colonialismo britânico e do Sionismo tentaram na Palestina mesmo antes dos desastrosos acontecimentos de 1948, quando milícias Sionistas realizaram limpeza étnica e expulsaram até 750.000 palestinos, deixando a própria sociedade palestina em frangalhos. E aqui, no Vietnã, também tinha uma sociedade que havia expulsado as forças da destruição imperialista.

É pertinente que não exista cópia sobrevivente de Palestina, outro Vietnã em vídeo - foi esquecido, assim como muitas outras coisas da era da solidariedade antiimperialista em que ele foi produzido. Após a contrarrevolução global dos anos 80, parecia, principalmente para a esquerda ou antigos intelectuais de esquerda, que o internacionalismo antiimperialista do final dos anos 60 e começo dos 70 havia se transformado em relíquia. Além disso, surgiu um consenso sobre a campanha militar dos EUA no Vietnã: era produto de uma crise, uma desventura e um pântano que os organizadores imperiais dos EUA se afundaram em uma violência extrema contra-intuitiva para os interesses estadunidenses. Mas investigar os alvos de hoje do imperialismo ianque, principalmente no mundo árabe, faz parecer que, em que pese todas as diferença de antes e de agora, a prática dos EUA de destruir sociedades em massa, como os Estados Unidos tentou no Vietnã, parece estar a pleno funcionamento. A Palestina, a causa central histórica do mundo árabe, permanece ocupada. Os países vizinhos da Palestina, Iraque, Líbia, Yemen e a Síria foram desmembrados, e em alguns casos, destruídos. Pode se dizer até mesmo que cada um destes países - todos eles zonas de violência militar estadunidense em larga escala - constituem outra “Nakba” ou “catástrofe”, o nome dado pelos árabes para os acontecimentos na Palestina em 1948, que se baseavam na tentativa de destruir em massa a sociedade Palestina através de uma invasão militar Sionista, seguida de limpeza étnica e assassinato de habitantes palestinos, seguido então pela substituição dos nomes das aldeias Palestinas e estruturas físicas com nomes e estruturas israelenses.

A Síria é provavelmente o assunto que mais dividiu e deixou boquiaberta a esquerda Ocidental. Também é a zona mais recente de ocupação militar norte-americana direta. Em 31 de outubro de 2017, foi relatado que o Major-General do Exército James B. Jarrard acidentalmente revelou que o número de tropas dos EUA dentro da Síria chega próximo a 4000 - bem maior que os 500 que o Pentágono está vendendo. Essa polêmica em torno da Síria apenas a faz mais importante para se compreender. Não podemos nos opor a sério ao imperialismo ianque em qualquer lugar se nós cedemos ou agimos com a menor tranquilidade com relação a atuação dele na Síria. Como a destruição da Síria se encaixa em padrões históricos mais amplos? Como situamos a guerra contra a Síria na história do Imperialismo norte-americano, do mundo árabe (incluindo a Palestina), e a relação entre ambos? Apenas colocando essas questões que podemos desenvolver a base teórica necessária para construir os movimentos e estabelecer as alianças necessárias para derrotar a máquina de guerra dos EUA na Síria e em qualquer outro lugar.

Nosso entendimento atual do Imperialismo dos EUA e como ele atua hoje em um local como a Síria portanto precisa extrair da história e ser reformulado para se ater às demandas da conjuntura atual. Isso significa que é necessário considerar tanto as urgências políticas como os ciclos de acumulação de capital da guerra, que permanecem profundamente entrelaçados. Os objetivos políticos da guerra e a rede de lucros que fazem parte da lógica de uma força inconcebivelmente cruel e bárbara que causa misérias e colapsos sociais através do globo, deveriam não só nos guiar para uma estratégia política, mas também deveriam servir para nos lembrar do motivo de nos opormos ao Imperialismo norte-americano em primeiro lugar, ajudando a nós que estamos nos Estados Unidos a nos lembrar do aviso atual de Karl Liebknecht lançado às vésperas de uma Guerra Mundial: o inimigo principal está aqui dentro! Também não devemos esquecer seu imperativo adicional: “Aprenda tudo, não esqueça nada”.

Os imperativos políticos dos EUA na Síria

Em 5 de janeiro de 1957, Dwight D. Eisenhower, como presidente de um império dos EUA que estava se tornando cada vez mais agressivo na sequência da Segunda Guerra Mundial, chamou por uma resolução do Congresso que o autorizaria, nas palavras de Salim Yaqub, a “se comprometer com aumento de ajuda econômica e militar e até a proteção direta dos EUA para qualquer nação do Oriente Médio disposta a reconhecer a ameaça do comunismo internacional”. Um adicional importante desta resolução, conhecida às vezes como a “Doutrina Eisenhower” foi “conter o nacionalismo árabe radical do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e colocar em descrédito sua política de ‘neutralidade positiva’ na Guerra Fria, que sustentava que as nações árabes deveriam gozar de relações benéficas com ambos blocos da Guerra Fria”. Em outras palavras, a política de Eisenhower visava abater a independência das nações árabes.

Conforme a política de Eisenhower começava a funcionar como questão de política dos EUA, os Estados Unidos desenvolveram laços políticos e econômicos com entidades regionais que os auxiliariam a abater o Pan-arabismo em seus aspectos anticoloniais e antiimperialistas. A primeira de tais entidades foi o Estado de Israel, uma colônia de ocupação europeia no coração do mundo árabe que se tornou, nas palavras do organizador da comunidade palestina Hatem Abu Dayyeh, o “cão de guarda” dos Estados Unidos contra os povos árabes na região. A segunda entidade, ou entidades, eram as monarquias árabes que recusavam os movimentos nacionalistas árabes por, entre outros motivos, sua tendência para o republicanismo radical.

Em 1962, durante uma guerra em Yemen, entre forças republicanas e monarquistas, Israel e o Reino da Arábia Saudita colaboraram com o objetivo de derrotar as primeiras. Em 1967, após os Estados Unidos testemunhar a utilidade do potencial militar de Israel no combate às capacidades e influência das forças pro-independência na região rica em petróleo durante a dita “Guerra de Seis Dias”, os Estados Unidos consagraram seu papel (até hoje) como signatário de Israel, quando a ajuda militar dos EUA para Israel aumentou 450% entre 1967 e 1968, de $7 milhões para $25 milhões. Em 1970, durante um período da história da Palestina e Jordânia conhecido popularmente como Setembro Negro, os Estados Unidos e Israel intervieram em favor do Rei Hussein da Jordânia para esmagar uma revolução dirigida pela OLP. Como resultado da guerra na Jordânia, onde seu braço militar destruiu instituições populares e cívicas que a Revolução Palestina havia construído nos escombros dos campos de refugiados, a CIA chegou ao ponto de colocar o Rei Hussein diretamente em sua lista de pagamento. O episódio, além disso, foi presságio de outro boom na ajuda dos EUA para Israel, desta vez astronômico: subiu para $1,15 bilhões de dólares entre 1971 e 1973.

Em diante estas relações cresceram. Embora as alianças táticas dos Estados Unidos tenham variado de forma a cada conjuntura particular, e ao passo que houve e continua a existir grandes desacordos táticos dentro do imperialismo estadunidense quanto à política na Ásia Ocidental, essa corrente estratégica geral sempre se manteve até nosso momento atual, mesmo depois do colapso da União Soviética, até o ponto que os países árabes que ardem hoje (Iraque, Iêmen, Líbia, Síria) têm em comum uma história de estruturas de estado nacionalistas árabes e republicanas, em contraposição às monarquias retrógradas que permanecem comparativamente estáveis e gozam de relações amigáveis com os EUA (Arábia Saudita, Emirados Árabes, Jordânia e por aí vai).

O objetivo político dos Estados Unidos ao obter essas relações regionais era ao menos em alguma medida consistentes com aqueles das potências francesas e britânicas quando ergueram fronteiras entre as sociedades árabes em 1916, sob a base do Acordo Sykes-Picot. Nas palavras de Ali Kadri, o Imperialismo norte-americano historicamente buscou “propositalmente erguer entraves entre Estados árabes”. Como o argumento de Kadri indica, isso é, do ponto de vista do Imperialismo ianque e do Sionismo, uma estratégia racional, dado que a reduzida soberania econômica dos estados árabes contribuiu para a soberania política reduzida, e vice-versa. Ou seja, se observarmos a história do mundo árabe ao longo do século XX e XXI, se torna claro que conforme os Estados Unidos e Israel conquistavam vitórias militares sobre os Estados árabes em várias guerras (1948 e 1967, 1982 no Líbano, e 1991 e 2003 no Iraque mais recentemente), a capacidade dos Estados árabes de usar de seus próprios instrumentos econômicos (controle de capital e comércio, e taxas de juro e câmbio, para dar alguns exemplos) rapidamente encolheu. Simultaneamente, as vitórias militares de Israel e dos EUA contra os Estados árabes abriram caminho para uma série de rendições políticas, particularmente na questão palestina, dos Acordos de Camp David de 1979 até as negociações de Oslo de 1993.

A ideia Pan-arabista que os Estados Unidos buscavam combater não pode simplesmente ser reduzida a seu ideal de um único Estado Árabe (geralmente defendido como socialista) que se estendesse do Norte da África, cruzando o Levante até o Golfo. Também vigorou como uma realidade viva no campo prático da organização política de massas. As capacidades dos partidos socialistas e de esquerda árabes mais importantes - dos Partidos Comunistas até as ramificações do Movimento de Nacionalistas Árabes, e cada organização de massas e sindicatos associados com os partidos - sempre se fortaleciam através da formação de relações internacionais.

A ideia Pan-Árabe também foi historicamente importante para as capacidades militares do movimento revolucionário Palestino contra o Imperialismo e o Sionismo. De acordo com Sa’ad Sayel, General Brigadista da Revolução Palestina no Líbano durante a horrível guerra de 1975-1990, a vantagem estratégica histórica do movimento palestino se assenta em suas raízes árabes (Como Mao disse em 1965 para uma delegação da OLP na China: “Quando vocês discutem Israel vocês devem ter o mapa de todo o mundo árabe diante de seus olhos”). Sayel descreveu as contínuas guerras regionais dos anos 80, no Líbano e assim como a Guerra entre Irã e Iraque, como conflitos “secundários” que “faziam desviar do conflito principal” com Israel. No Líbano, Israel viu um potencial “estado de confronto” e então tentou “manter a tensão na arena libanesa com fins de evitar que fosse conseguido um equilíbrio estratégico na região. Portanto, a hegemonia militar de Israel, e por conseguinte dos Estados Unidos, reside na fragmentação das sociedades árabes e igualmente da fraqueza militar dos Estados árabes.

Então onde entra a Síria nisso, um Estado nacionalista que professa o antissionismo em sua constituição? A relação entre a República Árabe Síria e o movimento de libertação da Palestina certamente é carregada de discussões, rivalidades política e até de violência direta, mais notadamente quando o Presidente sírio Hafez al-Assad ordenou uma intervenção militar contra a OLP no Líbano em 1976. Críticos palestinos do governo sírio argumentam que este último apenas apoia as organizações Palestinas desde que eles as controlem. É uma acusação que vem de um histórico de fortes cruzamentos entre a Síria e Palestina. Houveram figuras Palestinas, talvez o exemplo mais notável sendo o de Ahmed Jibril da Frente Popular pela Libertação da Palestina-Comando Geral (FPLP-CG), que declararam apoio à estratégia proposta pelo governo sírio para a luta antissionista (o Partido Ba’ath Sírio também tinha sua própria fração na OLP, al Saiqa). Seja como for, nenhuma dessas tensões de dentro do movimento nacionalista árabe ocupa grande importância com relação ao olhar dos estrategistas estadunidenses, particularmente desde a segunda administração Bush, para as relações do governo sírio com forças anti-Israel. Para um império buscando proteger seu satélite militar Sionista, a resistência material ao colonialismo israelense sob qualquer forma se torna inaceitável.

Em 2006, a liderança síria cumpriu com algumas de suas promessas tanto para sírios como palestinos ao oferecer apoio militar e político à resistência guerrilheira árabe do Hezbollah contra Israel. Para citar apenas uma análise da guerra feita pelos EUA entre várias, do Major Anthony A. Kerch da Marine Corps Academy, circulou entre estrategistas militares uma impressão que “muitos adversários irão imitar as táticas do Hezbollah”, e, fundamentalmente, “a ajuda que o Hezbollah recebeu veio de países que o Estados Unidos pode se envolver em futuros conflitos num futuro próximo (Coreia do Norte, Irã, China e Síria)”. Isso fazia parte dos “fatores que contribuíram para o sucesso do Hezbollah e as lutas de Israel no campo de guerra”. Essa análise foi corroborada e sentida no centro do Cão de Guarda dos Estados Unidos, Israel. Mais notadamente, o “Relatório Final” da Comissão Winograd verificou que em 2006 “uma organização semi-militar de poucos milhares de homens [Hezbollah] resistiu, em poucas semanas, contra o exército mais forte do Oriente Médio, que gozava de plena superioridade aérea e vantagens tecnológicas e numéricas”.

Na Síria, no começo de 2011, os Estados Unidos empregou suas alianças com Israel e as monarquias do Golfo, principalmente Arábia Saudita e Qatar, para abalar as ligações atuais entre a República Islâmica do Irã e organizações de resistência. E essas organizações não se limitavam ao Hezbollah. O fato, por exemplo, que organizações de esquerda da Palestina eram capazes de realizar conferências abertas sobre estratégia em Damasco antes do estourar da guerra, não é de forma alguma insignificante, tanto para os imperialistas estadunidenses como para antiimperialistas, em uma região onde tais organizações são banidas e forçadas na clandestinidade a se esconder para sempre e fugir da vigilância de monarcas absolutistas e ocupantes israelenses implacáveis.

O capital americano e a guerra na Síria

Para voltar, para fins de contextualização, para as tentativas anteriores do império dos EUA de desmembrar outra sociedade no Sudeste asiático: a guerra dos EUA contra o Vietnã seria um “erro” para os estrategistas dos EUA se não tivesse levado a uma crise de legitimidade dentro de seu país? É uma questão válida. Certamente a retirada dos EUA do Vietnã veio como consequência da incapacidade de impor sua vontade política contra o povo vietnamita. Inegavelmente a campanha militar de terra arrasada dos Estados Unidos enfrentou um dilema fundamental que não podia ser resolvido. Quanto mais recursos os Estados Unidos injetavam na guerra, mais os chefes de estado dos EUA sentiam a necessidade de se manter nesse curso para que os investimentos anteriores não tivessem sido em vão. Igualmente, quanto mais permaneciam e continuavam a sustentar perdas militares, seus investimentos aumentavam, apenas prolongando e assim aprofundando a vergonha da retirada inevitável.

Os gastos da guerra do Vietnã se tornaram tão colossais que o Presidente Lyndon Johnson buscou, nas palavras de Atif A. Kabursi e Salim Mansur, “travar a guerra indiretamente tributando aliados americanos através da pressão para que eles aceitassem um fluxo ilimitado de dólares americanos”[1]. O sucessor de Johnson, Richard Nixon avançou essa iniciativa ao acabar com o padrão ouro. Mas apontar esses problemas do imperialismo norte-americano não responde uma pergunta que paira: Por que os Estados Unidos, a nação líder do sistema capitalista, expressa seu poder mundo afora por via de, como Gabriel Kolko coloca, “[fazer do] Vietnã do Sul um mar de fogo como questão de política, transformando toda uma nação em um alvo”?

Essa pergunta agora deve ser abordada com o conhecimento de que os Estados Unidos, embora sob diversos meios e em um contexto global diferente, novamente fez transformar nações em mares de fogo como questão de política em vários Estados árabes. Não apenas a Palestina é “outro Vietnã”; também podemos sugerir a Síria nesse sentido. Na Síria, e de fato em todas as nações árabes miradas como alvo pelos Estados Unidos, não apenas as sociedades estão sendo destruídas, mas as infraestruturas de Estado inextricavelmente entrelaçadas com o tecido dessas sociedades. Com uma política tão frequente, se torna necessário também considerar em que medida essa destruição é intrínseca para toda a organização do Imperialismo norte-americano: que enquanto os Estados Unidos for um império, haverão nações menores e mais fracas reduzidas a chamas e escombros.

Então, perguntemos uma questão mais concreta: quais setores do capital estadunidense se beneficiam da guerra na Síria? Qualquer pergunta requer uma investigação de perto dos meios pelo qual os Estados Unidos executou a guerra. O império recorreu a terra arrasada e ataques pelo ar com armas químicas em parte da Síria. Por exemplo, “O porta-voz do Comando Central dos EUA (CENTCOM) Major Josh Jacques disse para a Airwars e Foreign Policy que 5265 tiros de Armor-piercing de 30 mm contendo urânio empobrecido (DU) foram disparados da Força Aérea de aviões de asa fixa A-10 em 16 de novembro e 22 de novembro de 2015” no leste rural da Síria.

Mas grande parte dos motivos que fizeram a Síria frustrar os analistas foi que, antes de sua ocupação militar direta, o principal meio dos Estados Unidos de agressão militar foi levado a cabo por forças-satélite, com as funções de armamentos sendo executadas pela CIA assim como terceirizadas para os serviços de inteligência sauditas e do Qatar. Essa tática de guerra tem precedentes no arsenal do imperialismo norte-americano onde a CIA buscou direitistas, no caso sírio, antinacionalistas, bandos rebeldes para fazer suas licitações “por fora”. Como Andrew Cockburn documentou, as ligações entre a CIA e fundamentalistas sectários durante as atividades secretas dos Estados Unidos no Afeganistão nos anos 80 foram firmemente consolidadas até o ponto que fundos conjuntos com a Arábia Saudita seriam depositados em escritórios de recrutamento de rebeldes no Brooklyn na Atlantic Avenue através de uma organização de nome Maktab al-Khidamat.

Na Síria, uma campanha parecida tomou forma. Como a imprensa mainstream dos EUA comunicou em Dezembro de 2017, o Conflict Armament Research (CAR) conduziu um relatório de 200 páginas descobrindo que “os Estados Unidos constantemente desviou armas fabricadas na UE e munição para forças de oposição no conflito sírio”. Consequentemente, “forças do ISIS rapidamente se apoderaram de quantidades significativas deste material”. Essas armas foram entregues a várias organizações repugnantes além do Estado Islâmico, da Jabhat al-Nusra até a Nour al-Din al-Zenki.

O destino dessas armas não eram nem um mistério para setores do governo norte-americano envolvidos e nem setores da mídia americana. Uma orientação de 2012 da Agência de Inteligência da Defesa afirma claramente que “os Salafistas [sic], a Irmandade Muçulmana e [al-Qaeda no Iraque] são as principais forças que dirigem a insurgência na Síria”. A própria mídia do Establishment dos EUA em vários momentos falava abertamente das políticas dos rebeldes já em 2012, quando Foreign Policy defendeu os rebeldes sírios porque eram, em suas palavras, “islamitas”: “enquanto o surto islamita não será um piquenique para o povo sírio”, a revista alertou, casualmente colocando como irrelevante a miséria incalculável e a regressão social de toda uma sociedade, “possui um lado bom para os interesses dos EUA”, como desferir golpes contra o Irã[2]. Logicamente se os estrategistas americanos não gostaram das consequências de sua política de armas na Síria, da qual os jornalistas estavam cientes em 2012, eles poderiam ter adotado medidas para impedi-las, ao invés de permitir que continuasse por mais de 5 anos.

Para ser bem sucedido em tal campanha, os Estados Unidos e Estados aliados precisavam de duas coisas: armas e combatentes. Atender a primeira necessariamente impulsiona a indústria bélica; atender a segunda prevê uma variedade de prestadores privados que realizam uma gama de serviços, desde equipar e treinar combatentes de milícias armadas, a construir bases militares. Ambas atestam para o fato de que, desde 1945, o complexo industrial-militar dos EUA serviu como o elemento estruturante central do capital norte-americano, com a campanha de terra arrasada contra a Coreia de 1950 a 1953 (que Curtis LeMay, o chefe do Comando Aéreo Estratégico durante a guerra, disse ter “matado 20% da população[norte-coreana]”[27]) marcando um ponto de aceleração significativo em que os fabricantes de armas determinaram que fazer produtos para o Departamento de Defesa era mais lucrativo que entrar nos mercados civis[28]. A mesma confiança dos fabricantes de armas nas compras do Estado aumentou durante a guerra dos EUA contra o Vietnã.

A guerra contra a Síria explodiu junto - e de fato, foi um componente crucial dela - de uma massiva expansão da exportação global de armas desde 2011, quando os Estados Unidos e seus parceiros regionais lançaram a guerra. Em fevereiro deste ano, o jornal israelita Ha’aretz citou o think tank Stockholm International Peace Research Institute vendo que “a exportação global de armas aumentou 14% nos últimos cinco anos até 2015”[29]. O artigo acrescentava que “Os EUA manteve a posição de liderança após suas vendas crescerem 27% em relação ao período anterior de cinco anos”.

A guerra síria em particular forneceu a ocasião para os Estados Unidos expandir a venda de armas para seus capangas regionais. De acordo com o Reuters, a Administração Obama ofereceu ao Reino da Arábia Saudita “mais de $115 bilhões em armas, outros equipamentos militares e treinamento, o maior de qualquer administração dos EUA na aliança de 71 anos entre os EUA e sauditas”[30]. Obama também deu para Israel um “pacote recorde” de armas no valor de no mínimo $38 bilhões em um acordo de 10 anos[31]. Aviões de guerra de Israel, devemos lembrar, continuam a bombardear zonas do Exército Sírio e do governo, incluindo um ataque aéreo em Janeiro de 2017 do aeroporto militar de Mezza nos arredores de Damasco[32]. Sem falar que Israel continua a ocupar ilegalmente as Colinas de Golã, oferecer assistência médica para combatentes antigoverno (que antes lutavam como o braço sírio da al Qaeda em 2012)[33] e até conspira abertamente para usar a guerra com fins de estender assentamentos para lá[34].

Os ataques dos satélites dos imperialistas foram lançados em meio a diversos protestos em um contexto nacional de crescente pobreza e desigualdade[35]. As condições econômicas da Síria antes da guerra revelam muito sobre a natureza do imperialismo contemporâneo como um sistema global, e como ele funciona dentro de Estados pós-coloniais em períodos de “paz”, ou seja, quando o bloco dos EUA não recorreu à agressão militar por não conquistar seus objetivos por outros meios. Após a Síria ter perdido um importante parceiro comercial com o colapso da União Soviética, o FMI e outras poderosas instituições financeiras buscaram tutelar a criação de novos mercados financeiros no país (não deve ser esquecido que, conforme a pobreza crescia na Síria, o FMI se maravilhou com enorme satisfação com o processo de privatizações[36]). Dentro desse processo, elementos do Estado sírio se beneficiaram e foram cúmplices desse processo. Um alvo de alguns dos protestos de 2011, o bilionário Rami Makhlouf, de diversas maneiras personifica esse giro. Makhlouf acumulou uma fortuna pessoal em vários mercados, incluindo investimentos nos Estados Unidos[37]. Um exemplo de corrupção pessoal no aparato de Estado sírio, uma figura como Makhlouf também submeteu a Síria com o embrião do que poderia se tornar neocolonialismo, que Sam Moyo e Paris Yeros determinam ser caracterizado “em primeira instância, pela transferência do aparato de Estado para uma pequena-burguesia nativa conservadora, e, em seguida, pelo processo dual da formação de uma classe capitalista nativa e compradordização”[38].

A Síria não está sozinha ao enfrentar esse problema entre esses Estados que conquistaram a independência através de movimentos anticoloniais, e a luta acerca da natureza do capital privado na sociedade síria e o partido Ba’ath irá perdurar após o fim da guerra. Para nós que vivem dentro de Estados imperialistas, nossa relação com essa luta vai principalmente ser determinada pela nossa relação com nossos próprios governos. Talvez não haja ilustração mais clara dessa realidade do que o fato de que Makhlouf foi sancionado pelos EUA[39], e portanto, no fim forçado a abandonar seus investimentos dos EUA - uma consequência da fundamental desigualdade entre nações e um gritante lembrete de que o mais alto poderio financeiro reside nas sociedades financeiras dos Estados Unidos.

De volta para a guerra na Síria, então há o corolário banhado de sangue de ter uma “economia” construída sob a guerra - o impacto social. Em um caso de outrora como o Vietnã, os Estados Unidos jogou grande volume de bombas e desfolhantes químicos contra comunidades camponesas e envolveu aldeias em chamas de napalm. A Síria de hoje é, em contraste, um Estado pós-colonial há muito tempo, comparativamente urbanizado. Isso significa que a guerra dos EUA mirou e explodiu instituições do Estado, que operam como zonas de reprodução social, de prédios do governo até escolas, onde a vida síria foi forçada a estar perto ou dos morteiros [40] ou do ataque suicida[41].

Estas atrocidades constituem nada menos que uma ofensiva generalizada contra o investimento social, a riqueza do povo sírio, dado que, como nota a OCDE, recentemente em 2013, “[empresas estatais] operam em todos os setores na Síria, inspirados pelo modelo soviético de propriedade do Estado, até mesmo em atividades como na distribuição de comida que em outros países da região são controlados por agentes privados”[42]. Esses setores também incluem manutenção da luz, linha de telecomunicações, bancos públicos, e mais. Enquanto isso, junto da expansão do mercado de armas, o capital estadunidense continua a crescer. O mais recente Global Wealth Report do Credit Suisse Research Institute identifica 2017 apresentado como “o ritmo mais rápido de criação de riqueza desde 2012”[43], os EUA como “um líder inquestionável” em ganhos de riqueza global em uma época que os três mais ricos dos Estados Unidos detém mais do que a metade inferior da população dos Estados Unidos[44].

O significado desses detalhes não podem ser subestimados, porque eles indicam que setores do capital norte-americano não apenas dependem de minar a soberania síria, mas da destruição do Estado sírio e da evaporação de sua riqueza, no que remete a um indescritível violento episódio de pilhagem. Este aspecto vil do imperialismo norte-americano na verdade foi teorizado antes por revolucionários na própria região em questão.

Em 2005, quando buscava desenvolver uma teoria para explicar a destruição do Iraque pelos EUA, Soula Avramidis evocou o conceito de “novo imperialismo”, onde se postula que “a economia americana precisa de mais instabilidade no mundo para manter a saúde de seu capital em seu território”[45]. Avramidis reconhece que “muito antes do discurso sobre ‘novo imperialismo’ se tornar popular no Ocidente, intelectuais Palestinos em campos de refugiados chegaram a essa mesma conclusão simplesmente ao refletir sobre as condições miseráveis de sua própria existência”. Porque “a teoria implícita em quase toda edição da Al-Hadaf [revista oficial da FPLP] era que a luta contra o Sionismo era mais que uma luta de recuperar terra - era uma luta contra a hegemonia capitalista estadunidense que usa Israel como um agente”. Esses revolucionários árabes e palestinos prestaram uma atenção muito particular ao fato de como era necessário fomentar a guerra regional de Israel para o reciclo de dólares.

Isso é a teoria que nasce da prática e aplicada à prática, dedicada dentro da realidade e testada por ela, pelas adversidades que qualquer teoria útil deve enfrentar. É o comunismo dos campos de refugiados, produzindo teoria “criada pelo cruzamento de esgotos a céu aberto e tetos de latão com a capacidade das pessoas de investigar suas próprias vidas”. Como a FPLP coloca em suas próprias palavras, “que Israel é um satélite imperialista e colonialista em nossa terra e está sendo usada para conter a onda da revolução...é um fato auto-evidente que não precisa de discussão”. Por que? Para eles isso não era “meramente uma conclusão teórica mas representa [sua] experiência concreta durante a Agressão Tripartite de 1956, durante a guerra de Junho de 1967 e através da existência de Israel em [sua] terra”.

Nós que vivemos dentro da besta temos uma obrigação internacionalista de aglutinar quais forças forem possíveis para antagonizar, obstruir e em última análise destruir essas redes da guerra. Ao fazer de tal modo, devemos reconhecer que enfrentamos um inimigo que seus compromissos parciais equivalem a compromissos totais. Para ter um exemplo do que isso significa, podemos ver a questão dos prestadores privados. Em 2016, uma empresa de nome Six3 Intelligence Solutions Inc., de McLean, Virginia, foi concedida um contrato pelo Estado de $9.578.964 para realizar um trabalho não especificado na Síria[46]. De acordo com relatório de 2015 da Operação de Imprensa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, a mesma empresa já havia recebido uma “alteração de $13.967.720 (P00003) para contratar W560MY-15-C para financiar totalmente o período-base e para apoio logístico às Forças dos EUA no Afeganistão”[47]. No sentido mais prático, não podemos nos opor ao Imperialismo norte-americano em qualquer lugar se o aceitamos ativa ou passivamente na Síria. Se opor ao imperialismo norte-americano é se opor ao próprio capitalismo. Em contrapartida, os sucessos do imperialismo ianque fortalecem seus lucros e consequentemente suas capacidades de expansão em todo o mundo, da Honduras[48] e Colômbia[49] para Niger[50] e Filipinas[51], e por aí vai.

“Aqui é Jerusalém”

Em setembro de 2017, Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah, declarou vitória para o Exército Sírio e seus aliados. “Ganhamos a guerra”, ele disse, “o ‘projeto’ Saudi-Israelita-Ianque para a Síria fracassou”. Como pouco se vê, a imprensa dominante dos EUA concordou com Nasrallah. “Como os EUA perderam a guerra na Síria para a Rússia e o Irã”, uma manchete do Newsweek diria um mês depois[52]. Esse era o consenso: os Estados Unidos perdeu a guerra na Síria por fracassar em derrubar o governo sírio. Mas embora possa ser verdadeiro que o Estado Unidos fracassou em conquistar seus objetivos totais, até 4000 tropas americanas continuam na Síria, estacionadas em bases espalhadas por todo o Norte do país[53]. Em setembro de 2017, a Embaixadora das Nações Unidas nomeada por Donald Trump, Nikki Haley reiterou na arena internacional que os Estados Unidos não ficarão “satisfeitos” enquanto o Presidente Sírio Bashar al Assad continuar no poder[54]. Era evidente que Trump tinha planos de continuar a guerra - e, como se provou, ampliar seus horizontes.

Quando Trump fez seu pronunciamento que os Estados Unidos transferiria sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalem, que ele ao mesmo tempo declarou a capital integral de Israel, veio junto de extensas manobras regionais, tentativas de re-consolidar os laços regionais dos Estados Unidos com Israel e Arábia Saudita, as fontes das ideologias exclusivistas do Sionismo e do Wahabismo, respectivamente. Ambos Estados seriam recrutados para um esforço de reconduzir a atenção regional para uma guerra contra seu inimigo comum, a República Islâmica do Irã. Sob o arbítrio de Trump, a relação de longa data de Israel e Arábia Saudita surge ao público da forma mais deplorável possível aos olhos das massas árabes, com o Príncipe Saudita Mohammed bin Salman abertamente se aliando com uma figura dos EUA que está na verdade defendendo a colonização total e desarabização final da profundamente árabe e solidamente palestina cidade de Jerusalém.

Trump, o impetuoso reacionário, nesse único lance, tirou a máscara da respeitabilidade que seu antecessor Barack Obama habilmente vestia. De um só golpe, Trump ofereceu aos povos revolucionários do mundo um presente potencialmente precioso, de uma só vez jogando fora a quimera do dito “Processo de Paz” onde o povo Palestino foi roubado sistematicamente; expondo a colaboração Saudi-Israelita que ocorreu de maneira velada na Síria; e - essa é a mais importante - redirecionou os olhos das classes populares árabes para a Palestina ocupada, restaurando o lugar prestigiado por direito da causa Palestina nos corações dos deserdados do mundo, e proporcionando um ponto de convergência antissectário por todo o mundo árabe, no processo que minava anos de trabalho de propaganda que usava o sectarismo para frustrar a unidade em torno da Palestina. Conforme os protestos entram em cena no mundo árabe, com os Estados Unidos sendo a fonte de sua ira, para nós na América do Norte ainda devemos descobrir como iremos dar o impulso para assumir nosso papel para contribuir com a derrota do Imperialismo norte-americano no mundo árabe.

Identificar e fortalecer as alianças necessárias contra a máquina de guerra dos EUA pode parecer difícil em uma época de ascensão da reação dentro do centro imperialista. Contudo, é cada vez mais evidente que o governo de Trump é mais instável do que a sua roupagem agressiva indicaria, e na verdade está repleto de fraquezas internas e contradições, certamente no tema da guerra. Afinal de contas, quando Obama e o então secretário de Estado John Kerry ameaçaram uma possível invasão militar da Síria em Setembro de 2013, uma pesquisa da Gallup revelou que o apoio dos “americanos para uma ação militar dos Estados Unidos contra o governo sírio… está em vias de estar entre o mais baixo de qualquer intervenção que a Gallup já perguntou nos últimos 20 anos”[55]. A pesquisa mostrou que a maioria dos americanos, 51%, se opunham à ação militar contra o governo sírio, enquanto 13% não tinha certeza. Apenas 36% dos perguntados eram a favor.

Podemos ampliar esse sentimento diretamente para o próprio Trump. Durante a campanha, Trump surpreendeu com uma postura contra o apoio total da Hillary Clinton ao imperialismo liberal. Foi Clinton que prometeu, em seu site da campanha, empregar No-Fly Zones com o poder dos bombardeios dos EUA para “fornecer o ímpeto e impulso para uma solução diplomática que remova Assad”[56]. Douglas L. Kriner da Universidade de Boston e Francis X. Shen da Universidade da Escola de Direito de Minnesota recentemente produziram um estudo que sugeria “que há uma relação significativa e substancial entre uma taxa de sacrifício militar de uma comunidade e seu apoio a Trump”[57]. O estudo apresentou que “sua capacidade de inverter três Estados fiéis aos Democratas: Pennsylvania, Michigan e Wisconsin, foi central para a vitória de Trump”. Em termos de mortes militares, esses Estados “vivenciaram taxas de acidentes no Iraque e no Afeganistão que os colocaram no meio da distribuição, em todo o país.”. Para complementar, o estudo de Kriner e Shen esquece de levar em conta aqueles americanos cansados da guerra que se abstiveram da votação. Impulsionar o belicismo militar enquanto lança uma grande ofensiva de guerra de classes em prol dos ricos coloca o Trump e o imperialismo norte-americano potencialmente em uma faca de dois gumes[58]. Ele pode comprometer as tropas para combater e potencialmente enfraquecer o apoio doméstico, ou ele pode continuar a fazer o que Obama fez e tirar a possível culpa pelas vítimas de tropas dos EUA através da terceirização da guerra para rebeldes satélites capazes de entregar sucessos de guerra apenas parciais e não completos como na Síria.

Ainda assim, a questão permanece em saber quais setores podem ser mobilizados em um momento como esse. Nesse front, já existe uma solidariedade séria e crescente entre os movimentos de libertação palestina e negro, construído nas relações e nas bases assentadas nos anos 60 e 70[59]. Qualquer esforço antiguerra renascido teria que relacionar esses movimentos em uma interssecção e se articular de maneira que correspondesse à suas necessidades estratégicas enquanto auxilia a ampliar suas análises do inimigo imperialista diante de nós. Se isso conseguir ser eficazmente executado, teríamos uma força viável capaz de empregar um amplo escopo de táticas de confronto contra os quartéis generais corporativos da guerra global, assim como o movimento de libertação negra fez com o movimento pela paz contra a guerra no Vietnã gerações atrás, dando a nós uma preciosa tradição antiimperialista revolucionária que expressou a importância de ter dentro dos Estados Unidos uma força fundamentalmente contra os Estados Unidos. Outro Vietnã, de fato.

Notas:

1. Atif A. Kabur­si and Sal­im Mansur, “From Sykes-Picot Through Ban­dung to Oslo: Whith­er the Arab World?”, Arab Stud­ies Quar­ter­ly 18, no. 4 (1996), 11.

2. This endorse­ment, a psy­cho­path­ic death wish for and bla­tant threat to mil­lions of peo­ple deliv­ered by suit-and-tie mold­ers of polit­i­cal respectabil­i­ty, should be seen as symp­to­matic of the cul­ture of U.S. impe­ri­al­ism at the moment.

Nenhum comentário:

Postar um comentário