15 de março de 2018

Clima de medo

John Davis*

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

No The Atlantic, de 1° de novembro de 2007, Cornell West escreveu que “a niggerization é a tentativa global de impedir a democratização – transformar potenciais cidadãos em sujeitos intimidados, medrosos e indefesos”. Sugeriu que, após o 11/09, existiu um processo idêntico infligido à generalidade da população americana. “Como a míope ganância, medo e ódio brancos que alimentaram a niggerization do povo negro, o medo e o ódio da direita intimidaram-nos a todos, medrosos e indefesos perante os ataques terroristas”. À medida que o medo de iminentes ataques terroristas se desvaneceu, encontramos novas maneiras de viver com medo.

Agora, somos o povo do golfo e das ilhas que receia qualquer ondulação da água, sopro de vento ou gota de chuva. Somos o povo da seca, que receia por dias sem humidade. Somos o povo de terras temperadas que receia os extremos do calor e do frio. Somos o povo dos trópicos que receia o frio, as paisagens polares e o degelo. Somos o povo de terras queimadas que receia cada coluna de fumo. Somos o povo de correntes de resíduos que receia qualquer ribeiro e regato. Somos o povo de terras alagadiças que receia qualquer subida da água; somos o povo de marés que receia a sua chegada e o povo da tempestade que receia o seu avanço.

Mas estes novos medos não são necessariamente debilitantes – também podem criar solidariedade e resistência. O que é claro é que os impactos de um clima em aquecimento não respeitam fronteiras nacionais. Apresentam sociedades, nas suas angústias partilhadas, com oportunidades de causas comuns para além das fronteiras. Mas existem divisões profundas que correm ao longo das linhas nacionais e das hemisféricas. Mesmo que o Sul, na globalidade, se industrialize, permanecem questões de responsabilidade pelo aquecimento global. Tendo historicamente o Norte, na globalidade, produzido a maior parte do lesivo dióxido de carbono, está agora a consumir a parte de leão dos produtos fabricados no Sul global. A produção mais ecológica no Norte continua a ser contrariada por uma produção fora de controlo no Sul, usando geralmente fontes de energia mais intensas em carbono. Além disso, ideologias políticas como o neoliberalismo cortam as tentativas de resolver ou melhorar os problemas climáticos, através de um ambientalismo partilhado.

De forma mais insidiosa, enquanto o combate ao terrorismo islâmico alimenta diretamente as propensões imperiais dos complexos militares e industriais do Norte e o seu engrandecimento político e enriquecimento económico, tem-se desenvolvido uma análise de soma zero que junta os alargados recursos vertidos na Guerra ao Terror com a negação do aquecimento global. Mesmo quando esta ligação não é explícita, como sob a administração Obama, ela torna-se implícita com a afetação de recursos federais.

O neoliberalismo permanece em ascensão em grande parte do Norte, na sua globalidade, e o modelo de crescimento económico sobre o qual esta ideologia se baseia iria necessariamente soçobrar se a condução do calamitoso aquecimento global fosse assumida com seriedade. A contínua obscenidade do orçamento militar dos EUA ficaria certamente vulnerável se a mudança climática se tornasse uma preocupação do governo federal dos EUA. Enquanto a recusa de Trump de que este país participe no acordo COP23 é um sintoma extremo, o seu cálculo está incluído nos compromissos e concessões intrínsecos ao acordo.

Não esperemos qualquer salvação neoliberal das nossas almas escurecidas pelo clima. Nós somos os filhos do capital fóssil. Somos os queimadores do combustível roubado. Somos os consumidores vorazes do planeta, agora deserdados pelos nossos obstinados atos de predação e sacrilégio. Somos as pessoas do Antropoceno.

Poderemos nós aceitar agora as condições da sua época mais significativa e, com uma solidariedade ambiental consciente, acomodar o aquecimento global e, mesmo neste último estádio, alterar a subida mais extrema da sua temperatura? Nós, as pessoas do Antropoceno, transportamos o medo do Terrorismo do Clima. Este medo não é criação da oligarquia ou dos governos que ela controla – que de facto, estão empenhados em negar as ameaças do aquecimento global porque são completamente cúmplices daquilo que a causou e porque qualquer tentativa razoável e não inventada para a conter os despojaria do seu poder.

Já não é, como mostra o ocidente na fabricada Guerra do Terror, apenas um medo da odiosa direita que nos levou a ficar intimidados, medrosos e desamparados, uma condição que ultimamente desfigura a democracia. É o clima e os seus extremos que também nos deixaram, para já, paralisados e amedrontados. Contudo, se aceitarmos completamente a nossa vulnerabilidade, então podemos, talvez, pular de alegria – não por causa da opressão que os fenómenos extremos do clima provocam, mas por causa das oportunidades que representam de criar comunidades de resistência. Essa resistência pode simplesmente ter o objetivo de adaptação às novas realidades do clima e à melhoria da nossa relação com o mundo natural envolvente, mas a sua materialização envolverá inevitavelmente o derrube dos modelos políticos e económicos anquilosados.

Adrian Parr, por exemplo, está exultante. No seu livro Birth of a New Earth [O Nascimento de uma nova Terra] ela defende o conceito de comunitarismo, que considera como a estratégia para criar “situações de alteridade radical brotando do interior da paisagem privatizada do urbanismo neoliberal planetário”. Os modelos que ela cita estão fora da esfera do neoliberalismo, mas argumenta que poderiam constituir disrruptores do sistema. Ela relata a experiência de Cuba depois do colapso da União Soviética que provocou escassez de fertilizantes, pesticidas e maquinaria agrícola (e o bloqueio parcial pelo regime instituído após a sua queda) forçando Cuba a estabelecer “formas criativas combinadas de autonomia alimentar, de uso da terra e de políticas económicas com pequenas comunidades praticando atividades agrícolas” num sistema de agricultura orgânica urbana conhecida como Organopónicos. Também na Venezuela, o movimento Agro Ciudad se desenvolveu como resposta às crises do petróleo de 2002 e 2003 e à crise global de alimentos em 2009, em que a comida era produzida em escolas, colégios e fábricas por cooperativas, bairros e famílias. São programas que constroem a solidariedade das comunidades e um controlo local do direito humano fundamental à alimentação. É nestas buscas práticas de um empreendimento comum que a verdadeira democracia pode nascer.

Neste país, a rede da Comunidade Negra de Detroit para a Segurança Alimentar foi criada para combater a ruína, a diminuição da população e a falta de alimentos nessa cidade-protótipo da “cintura da ferrugem”[2] e chamou a atenção para o papel da comunidade na criação do comunitarismo. Depois alargou o âmbito da sua atuação para assuntos importantes como o uso das drogas, o desemprego e a falta de habitação.

Os acontecimentos económicos e políticos que levaram a estas soluções para responder a crises existenciais são seguramente comparáveis com o tipo de impactos com que nos defrontremos nos EUA como o aquecimento global, e continuam a manifestar-se por todo o país. As respostas das comunidades à devastação de Porto Rico, Cuba e outras ilhas do Caribe, do Texas, Florida e Luisiana atingidas pelos furacões devastadores no ano passado sugerem que, como Parr escreve, “a singularidade das experiências locais, dos recursos e capacidades” podem juntar-se a “uma atitude universal para alcançar a dignidade e o florescimento de todas as formas de vida na terra, hoje e no futuro”.

São comunidades nas margens de alguns dos locais mais ecologicamente vulneráveis do país em que esperamos ver soluções de sustentabilidade local (evidenciadas muito simplesmente pela sobrevivência em circunstâncias geofísicas em mudança radical) que começam a desafiar a hegemonia dos serviços de emergência militarizados e da Agência Federal para as Emergências (FEMA [acrónimo em inglês]) cujo objetivo implícito é a restauração do “business as usual” [“os negócios do costume”] apesar da evidência clara das circunstâncias anormais.

As comunidades espalhadas pelas margens costeiras de Nova Orleães estão a resistir à deslocalização para sítios mais altos (onde podem continuar a contribuir para a criação de mais-valia e depois serem tragados pela voracidade do 1%) e estão a preparar-se para resistir naquilo que se está a transformar rapidamente em bairros de barracas lamacentos, mas que sobrevivem em condições económicas e sociais de “alteridade radical”, tal como as favelas. A apressada restauração de Breezy Point[3], na cidade de Nova Iorque, que se incendiou durante o furacão Sandy, foi uma bênção para o comércio local, mas serve mal a comunidade que vive nas mesmas casas (agora mais recentes), que tão mal resistiram aos ímpetos da tempestade. O destino dos residentes é suportar mais ciclos de destruição ao mesmo tempo que a City, o Estado e as agências federais, com as seguradoras privadas, continuam a asfixiar com o pagamento das dívidas esta povoação-Potemkine à beira da praia ,até esgotar as suas reservas ou os residentes tomarem o controlo dos seus próprios destinos. A urbanização em massa da Praia de Rockaway (“Onde as férias nunca acabam”) depois do furacão Sandy, construída para resistir a 100 anos a inundações, está destinada a constatar que essas férias acabam rapidamente enquanto se desencadeiam tempestades como as que surgem “uma vez a cada cinco milhares de anos” .

Mesmo as terras queimadas da Califórnia, atingida pelo recente incêndio Thomas e os fogos de Napa e Sonoma[4] dos últimos anos, a maioria das reconstruções de habitação propostas são à moda do “mais do mesmo”, semelhantes às casas que arderam recentemente com tanta facilidade – largamente financiadas pelas políticas reacionárias das companhias de seguros, bancos, autarquias locais e agências federais e do Estado, determinados a restaurar os “negócios do costume” tão depressa quanto possível, ignorando as realidades alteradas do aquecimento global.

As preocupações com as mudanças das condições meteorológicas levaram a um legítimo clima de medo. É um medo primário semelhante ao do pavor dos animais selvagens predadores. É um medo que nasceu na nossa atual situação numa ecologia global que ao mesmo tempo se caracteriza por ameaças extremas e confortos extraordinários. A ironia da situação, em que a nossa espécie iniciou esta mudança radical na composição da atmosfera e nas suas propriedades isolantes, é que não se alteram as nossas reações primárias aos seus efeitos. Este medo, até agora, não tem sido atingido pela “miopia branca da ganância, medo e ódio”. É um medo do qual pode brotar, como Parr sugere, “uma promessa extraordinária de emancipação e igualitarismo”.

*John Davis é arquiteto e vive na Califórnia do sul. O seu blog é o Urban Wildland.

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