16 de março de 2018

De um tipo desenvolvido por mentirosos

Craig Murray

Craig Murray

Recebi agora a confirmação, de uma fonte bem colocada no FCO [Foreign and Commonwealth Office], de que os cientistas do [laboratório de] Porton Down não são capazes de identificar o agente de nervos como sendo de manufatura russa e ficaram ressentidos com a pressão que lhes foi imposta. Porton Down subscreveria apenas a formulação "de um tipo desenvolvido pela Rússia" após uma reunião especialmente difícil onde isto foi acordado como uma formulação de compromisso. Os russos estavam alegadamente investigando, no programa "Novichok", uma geração de agentes de nervos que pudesse ser produzida a partir de precursores comercialmente disponíveis tais como inseticidas e fertilizantes. Esta substância é um "novichok" nesse sentido. É desse tipo. Assim como eu ao teclar um computador portátil de um tipo desenvolvido pelos Estados Unidos, embora este fosse fabricado na China.

Para alguém com experiência em Whitehall [governo britânico] isto tem sido óbvio desde há vários dias. O governo nunca disse que o agente de nervos fora fabricado na Rússia, ou que só pudesse ser fabricado na Rússia. A formulação exata, "de um tipo desenvolvido pela Rússia" foi utilizada por Theresa May no parlamento, utilizada pelo Reino Unido no Conselho de Segurança da ONU, utilizada ontem por Boris Johnson na BBC e, o mais revelador de tudo, "de um tipo desenvolvido pela Rússia" é a frase precisa utilizada no comunicado conjunta ontem emitido pelo Reino Unido, EUA, França e Alemanha:

"Esta utilização de agente de nervos de grau militar, de um tipo desenvolvido pela Rússia, constitui a primeira utilização ofensiva de um agente de nervos na Europa desde a Segunda Guerra Mundial."

Quando nunca há desvio do mesmo fraseamento extremamente cuidadoso, você sabe que este é o resultado de um compromisso muito delicado de Whitehall. Minha fonte no FCO recorda, tal como eu, a pressão extrema aplicada sobre a equipe do FCO e sobre outros funcionários públicos para aprovarem o dossier sujo sobre Armas de Destruição em Massa iraquianas. Algumas dessas pressões eu relato na minha memória Murder in Samarkand. Ela apresentou voluntariamente essa comparação com o que está acontecendo agora, particularmente em Porton Down, sem qualquer sugestão da minha parte.

Separadamente escrevi ao gabinete dos meios de comunicação da OPCW [Organização para a Proibição de Armas Químicas] pedindo-lhes para confirmarem que nunca houve qualquer evidência física da existência de Novichoks russos e de que o programa de inspeção e destruição de armas químicas russos fora completado no ano passado.

Será que conhecia estes fatos interessantes?

Inspectores da OPCW tiveram acesso pleno a todas as instalações russas de armas químicas durante mais de uma década – incluindo aquela identificada pelo alegado denunciante do "Novichok", Mirzayanov – e no ano passado inspectores da OPCV completaram a destruição das últimas 40 mil toneladas de armas químicas russas.

Em contraste, o programa de destruição dos stocks de armas químicas dos EUA ainda tem cinco anos pela frente.

Israel tem stocks extensos de armas químicas mas sempre se recusou a declarar qualquer delas à OPCW. Israel não é um estado parte da Convenção das Armas Químicas nem membro da OPCW. Israel assinou-o em 1993 mas recusou-se a ratificá-lo pois isto significaria inspeção e destruição das suas armas químicas. Israel indubitavelmente tem tanta capacidade técnica quanto qualquer outro estado para sintetizar "Novichoks".

Até esta semana, a crença quase universal entre peritos em armamento químico, e a posição oficial da OPCW, era que "Novichoks" eram no máximo um programa de investigação teórica o qual os russos nunca haviam tido êxito em realmente sintetizar e fabricar. Essa é a razão porque eles não estão na lista da OPCW de armas químicas proibidas.

Porton Down ainda não tem certeza de que foram os russos que aparentemente sintetizaram um "Novichok". Portanto, "de um tipo desenvolvido pela Rússia". Notem bem: desenvolvido, não fabricado, produzido ou manufaturado.

É propaganda cuidadosamente fraseada. De um tipo desenvolvido por mentirosos.

Atualização 

Esta mensagem levou outro antigo colega a contactar-me. Do lado positivo, o FCO persuadiu Boris de que ele tinha de deixar a OPCW investigar uma amostra. Mas não ainda. A expectativa é de que o comitê de inquérito será presidido por um delegado chinês. O plano de Boris é fazer com que a OPCW também subscreva a fórmula do "desenvolvido pela Rússia" e diplomacia para este objetivo está a sendo empreendida em Pequim exatamente agora.

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