27 de março de 2018

Tecnologia e capitalismo 150 anos depois de O Capital

Hoje, cento e cinquenta anos após a publicação do primeiro volume de O capital, Marx mantém-se como nosso contemporâneo.

Tony Smith

Logos: A Journal of Modern Society and Culture


Tradução / O imperativo da produção de mercadoria (bens e serviços devem assumir a forma de mercadorias), o imperativo monetário (é necessário dinheiro para obter as pré-condições objetivas da vida humana, isto é, os meios de subsistência e os meios de produção), o imperativo da valorização (o capital tem de ser acumulado, os retornos monetários (M') devem exceder o investimento monetário inicial (M)) etc., tudo isso continua formando hoje o conjunto dos principais princípios organizadores da vida social. As relações sociais continuam a assumir a forma de relações entre coisas; continua certo que cada indivíduo tem de “levar o seu poder social, como também a sua conexão com a sociedade, no bolso”.[1] O desenvolvimento humano, em suma, continua a ser sistematicamente subordinado ao desenvolvimento do capital. Os fins humanos essenciais continuam a ser sacrificados sistematicamente à meta da acumulação de capital.[2] A teoria de Marx ajuda, em consequência, a compreender as principais características de qualquer forma de existência do capitalismo, incluindo a variante contemporânea. Ela permanece, por isso, indispensável.

Naturalmente, seria uma tolice pensar que um pensador do século XIX pudesse ter antecipado o que seria o capitalismo no século XXI. Os níveis das dívidas agora não têm precedentes.[3] É necessária uma quantidade cada vez maior de crédito para produzir o mesmo incremento no crescimento do PIB. Os preços dos ativos financeiros estão em níveis estratosféricos; as crises financeiras não se afiguram mais do que estouros momentâneos numa subida implacável. A correlação entre os avanços da produtividade e o crescimento dos salários reais – que fora tomada anteriormente como um fato estilizado nos livros didáticos – foi interrompida. O desemprego diminui, mas os salários reais (e a inflação) não respondem, para a grande surpresa dos economistas. Os balanços dos bancos centrais entraram em metástase de uma forma pouco antes imaginável, e muito menos antecipável, apenas há alguns anos atrás. A manutenção de taxas de juros negativas por longos períodos de tempo é atualmente considerada razoável; entretanto, não há muito tempo atrás comentaristas “responsáveis” descartavam essa ideia como loucura. As publicações dedicadas aos negócios muito respeitadas, tais como o Financial Times e The Economist, estão publicando artigos que antecipam um futuro não muito distante em que “chuvas de dinheiro”, jogadas por helicópteros, terão de cair sem custos na cabeça das famílias. O "novo normal" do capitalismo parece decididamente anormal, mesmo sem levar em conta as preocupações com o meio ambiente e os desarranjos políticos (tópicos fora de nossa preocupação aqui). 

Argumento neste artigo que o quadro teórico de Marx ajuda a entender os traços importantes e peculiares do capitalismo contemporâneo, assim como as características que ele compartilha com outras modalidades de capitalismo. Em particular, vou me preocupar aqui com o padrão de desenvolvimento capitalista que Marx esboçou em O capital.[4]

É preciso tomar os investimentos necessários para produzir e comercializar um conjunto de inovações radicais como ponto de partida do que pode ser denominado "ciclo sistêmico de acumulação". [5] Assumindo que uma força de trabalho adequada esteja disponível e mobilizada e que suficiente demanda efetiva esteja presente, os investimentos iniciais podem ser valorizados (M '> M), incentivando, assim, novos investimentos, os quais permitem produzir e comercializar a próxima geração de inovações. À medida que o capital é investido, decola a fase de aceleração do ciclo sistêmico de acumulação. A expansão do crédito desempenha um papel importante aqui já que financia as novas empresas antes que possam pôr efetivamente as inovações no mercado; permite, assim, que os investimentos aumentem mais do que seria possível sem ela; impede, ademais, que a produção e a distribuição fiquem paralisadas quando os pagamentos vencem antes que as receitas tenham sido recebidas, e assim por diante.[6]

Em algum momento, uma superacumulação de capital virá para acabar com a fase de aceleração. Quando esta ocorrer, haverá “um excedente de capital industrial que se apresentará como disfuncional. Haverá uma grande quantidade de capital-mercadoria que se mostrará invendável. Haverá uma grande quantidade de capital fixo que permanecerá sem uso devido à estagnação na reprodução”.[7] Os teóricos marxistas contemporâneos explicaram em detalhes porque surgem os problemas de superacumulação.[8] Quando produtores mais eficientes entram em um setor armados com inovações de produtos e de processos, isso força tipicamente as unidades de capital menos produtivas a cair fora dos negócios. Mas algumas unidades de produção estabelecidas têm fortes incentivos para continuarem operando sempre que possível. Elas investiram em capital fixo (máquinas, edifícios, etc.). Se a produção for imediatamente descontinuada, não será possível recuperar nada dos investimentos passados; se continuam em operação, podem ganhar pelo menos a taxa média de lucro sobre o capital circulante (isto é, sobre os investimentos em matérias-primas, salários, custos de transporte, força de trabalho etc.). Também poder ocorrer que o aparelho de gestão e a força de trabalho dessas empresas tenham especificidades próprias, os quais não poderiam, num período de tempo razoável, ser facilmente adaptados para operar num outro setor. Além disso, essas unidades de capital provavelmente estabeleceram relações com fornecedores e distribuidores, relações estas que provavelmente seriam difíceis e onerosas de estabelecer em outros setores, dentro de um prazo razoável. Os governos e as universidades locais podem estar fornecendo um apoio importante, o que seria perdido se cessassem as suas operações. Há sempre, finalmente, a esperança de que, se aguardam um tempo suficiente, elas podem ser capazes de introduzir inovações que lhes permitam saltar sobre seus concorrentes em algum ponto futuro.

Todas essas considerações são racionais da perspectiva dos produtores individuais. Porém, de um ponto de vista coletivo, delas resulta algo irracional: setores inteiros e mesmo a economia como um todo tendem, assim, a ficar afligidos por excesso de capacidade produtiva em relação ao que os mercados podem absorver. Enquanto os mercados se expandem em sincronia com o aumento da capacidade produtiva, essa tendência é mantida sob controle. Eventualmente, no entanto, os mercados deixam de crescer de modo suficientemente rápido de tal modo que um excesso de capacidade produtiva passa a se elevar.

O aumento do excesso de capacidade não leva imediatamente a uma crise econômica, uma vez que os empréstimos não são interrompidos automaticamente à medida que cessa a expansão rápida. Os empréstimos continuam a ser feitos sob a crença de que a desaceleração venha a se mostrar como meramente temporária. Os credores continuam emprestando porque não desejam cancelar os empréstimos anteriores; esperam que os mutuários de outros credores faltem eventualmente com os pagamentos, mas que os mutuários a eles vinculados não o façam. Além disso, quando se exaurem os caminhos anteriores da acumulação, a promessa de que surjam novas possibilidades é especialmente atraente tanto para os mutuários quanto para os credores. À medida que os investidores cada vez mais desesperados começam a emprestar montantes crescentes esperando por algum “grande evento salvador”, o frenesi especulativo mais e mais cumpre o seu papel, impulsionando ainda o sistema econômico. Em meio às bolhas especulativas que daí resultam, a fraude financeira prospera como bactérias em uma piscina coalhada de crianças. Marx denominou esse período, quando o crédito facilmente disponível permite a continuidade do crescimento, apesar da elevação do excesso de capacidade produtiva, como a fase de “sobre-esforço”[9] do ciclo.

Na visão de Marx, o fim da fase de sobre-esforço está predeterminando, mesmo que o seu momento preciso de ocorrência seja indeterminado. Em geral, os empréstimos feitos aos mutuários em determinado momento apenas podem ser reembolsados se outros emprestadores rolam ou expandem os empréstimos anteriores. Quando é questionada (muitas vezes devido a um evento em si mesmo trivial) a crença de que os emprestadores possam manter, no futuro, os níveis exigidos de empréstimos, o volume do endividamento pretérito deixa imediatamente de se expandir. Os empréstimos cessam então de ser automaticamente rolados e se passa a exigir que as dívidas sejam saldadas. Um crescimento acentuado da demanda dos mutuários, que agora precisam de dinheiro vivo para cumprir as obrigações de dívida mais urgentes, empurra as taxas de juros para cima, tornando ainda mais difícil para alguns reembolsar as suas dívidas. Uma corrida pânica para vender ativos financeiros força, correspondentemente, um declínio acentuado em seus preços. Os balanços daqueles que ainda mantêm esses ativos rapidamente se deterioram, condenando muitos deles à insolvência. Em resumo, uma crise de crédito generalizada desencadeia um declínio econômico prolongado.

Se a recessão ou depressão for suficientemente severa, a superacumulação pode ser superada por meio de uma combinação de destruição física de parte dos investimentos de capital feitos no passado, assim como por meio de desvalorização (queda do valor de mercado) da parte restante. Os custos sociais podem ser horríveis. Mas, do ponto de vista do capital, a destruição e a desvalorização do excesso de capacidade produtiva em grande escala preparam o cenário para um novo ciclo sistêmico de acumulação.

Para atualizar esta descrição, duas ampliações precisam acrescentadas: 1. A tendência à superacumulação, assim como o volume das dificuldades criadas por ela, intensificou-se muito desde o tempo de Marx. 2. A fase de sobre-esforço pode persistir por muito mais tempo do que Marx previu.

1. No século XIX, a inovação era muito menos institucionalizada do que é hoje. A unidade social básica da inovação é agora o sistema nacional de inovação, o qual inclui laboratórios federais com financiamento público, laboratórios de universidades, uma variedade de parcerias público-privadas de P & D, apoio do Estado para empresas iniciantes, financiamento de capital de risco após a “prova de conceito” ter sido feita, financiamento privado de R & D realizados em laboratórios corporativos, o sistema de educação pública e privada que produz novos trabalhadores do conhecimento, a infraestrutura para armazenar e distribuir conhecimento científico, as empresas legais e de marketing que ajudam a comercializar inovações, políticas fiscais e subsídios fornecidos pelo Estado, assim como incentivos para a inovação, e assim por diante.[10]

Note-se, porém, que apenas um número relativamente pequeno de regiões se mostraram suficientemente ricas para estabelecer sistemas nacionais de inovação.[11] No entanto, é certo que existem agora mais sistemas eficazes de inovação do que em qualquer outro período da história mundial. Os EUA continuam a ser o maior investidor em pesquisa e desenvolvimento, financiando um pouco mais de um quarto do total global. Os países asiáticos (isto é, Japão, Coréia do Sul, China e Índia) financiam atualmente mais de 40% das despesas globais de pesquisa e desenvolvimento. A participação europeia é superior a 20%. Atualmente, 18 países dedicam dois por cento ou mais do PIB às atividades de P & D.[12] Este desenvolvimento, à medida que faz crescer a taxa de inovação, tem tido um efeito positivo na acumulação de capital.[13] Porém, não é a inovação por si mesma que importa no capitalismo já que a criação de valores de uso está aí subordinada ao imperativo da valorização do valor. O que importa para unidades de capital em atividade é o período de tempo em que podem obter lucros elevados mediante a vantagem competitiva propiciada pelas inovações.

Sempre que uma inovação é comercializada de forma bem-sucedida em algum lugar, mostrando-se altamente rentável, os sistemas nacionais de inovação de outras regiões do mundo passarão rapidamente a buscar esse mesmo caminho. Como resultado, outros capitais, em um período relativamente breve, estarão ao encalço dos mercados das empresas inicialmente inovadoras. A louca corrida desses outros capitais para capturar parte dos lucros apropriados pelos inovadores iniciais fará necessariamente com que capacidade produtiva do setor produtor da nova mercadoria passe a crescer. E ela crescerá provavelmente em um ritmo mais rápido do que o mercado dessa inovação. Em consequência, dito de outro modo, os setores mais inovadores do mercado mundial tenderão a ficar logo super-abastecidos devido ao excesso de capacidade produtiva. Ora, isto tende a ocorrer agora de modo mais rápido do que em períodos anteriores. Com a disseminação de sistemas de inovação nacionais mais efetivos, o período inicial durante o qual os inovadores gozam de vantagem competitiva tende necessariamente a encolher. Como resultado, o intervalo de tempo no qual poderão obter lucros elevados mediante inovações tende a ser significativamente comprimido.

2. Se a disseminação dos sistemas nacionais de inovação cria uma capacidade produtiva excessiva no mercado mundial, dificultando assim que o investimento possa se valorizar mediante uma criação “normal” de crédito, a acumulação ainda pode ocorrer se o crédito monetário for criado além desse nível “normal”. Assim, a capacidade produtiva que, de outra forma, tenderia a ser socialmente desperdiçada, pode ser absorvida. E isto vem ocorrer graças à expansão artificial dos mercados alimentada pela expansão do crédito. Enquanto a criação de crédito continuar em uma escala suficiente, o “declínio severo” – isto é, a “opção padrão” do capitalismo em períodos de superacumulação global – pode ser diferido. Assim, pelo menos em princípio, o que Marx chamou de fase de “sobre-esforço” pode ir sendo prorrogado indefinidamente.

Com esses dois ajustes, o padrão geral de desenvolvimento capitalista esboçado por Marx no Livro III permite ainda desenvolver uma compreensão da situação contemporânea. Nas décadas imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, houve uma fase de aceleração da acumulação liderada pelos EUA. Ela ficou conhecida como “era de ouro”. Aconteceu devido em boa medida a uma vantagem competitiva significativa das empresas norte-americanas nas tecnologias de produção em massa. No final da década de 1960 e no início da década de 1970, o Japão e a Europa haviam já reconstruído a sua base industrial. Eles desenvolveram ao mesmo tempo sistemas nacionais de inovação eficazes. Muitos capitais japoneses e europeus tornaram-se, por isso, produtores mais eficientes de mercadorias, muitos das quais passaram a ter melhor qualidade do que aquelas produzidos pelas empresas estabelecidas nos Estados Unidos. Passaram, por isso, a dominar setores cruciais (eletrônicos de consumo, automóveis, motocicletas, produtos químicos, máquinas de negócios, aço etc.). Os produtores dos EUA, no entanto, mesmo diante de concorrentes mais eficientes, não se retiraram desses mercados. Ora, isto gerou um significativo excesso de capacidade produtiva nos principais setores do mercado mundial. Uma superacumulação de capitais investidos nesses setores encerrou a fase de aceleração da expansão global da II Guerra Mundial. Com ela ocorreu uma redução da taxa de lucro. [14]

Dado o padrão cíclico descrito na seção V do Livro III, espera-se que um período de crédito excessivo permita uma breve fase de “sobre-esforço”, seguida de uma desvalorização maciça ou de uma destruição física do excesso de capacidade. Dado o nível de superacumulação no mercado mundial, a escala de desvalorização e destruição necessárias para removê-la era realmente enorme. Os círculos governantes nos EUA, por isso, foram impelidos a evitar os danos maciços que teriam sido infligidos aos capitais norte-americanos, dada a sua posição competitiva relativamente frágil em setores-chave. A decisão unilateral de Nixon de cortar a conexão entre o ouro e o dólar, em 1971, ofereceu um caminho alternativo para o capital, pois permitiu que uma quantidade de crédito historicamente sem precedentes fosse criada. A explosão do crédito permitiu a absorção da capacidade produtiva que, de outra forma, não teria sido utilizada (de modo ainda mais importante para o capital, permitiu que os lucros se recuperassem da queda global ocorrida na década de 1970).[15]

A recuperação dos lucros justificou uma atualização da capacidade produtiva à medida que esta se tornava desgastada ou desatualizada. Também justificou a entrada em rotas criadas por inovações promissoras. Justificou, ademais, que algumas regiões (como a China) expandissem o investimento segundo taxas sem precedentes. O que, entretanto, não pode gerar foi um aumento suficiente na taxa de investimento, a qual se fazia necessária para desencadear uma nova fase de “aceleração”. Os setores que participavam do mercado mundial continuaram a sofrer de excesso de capacidade produtiva ou ele apareceu assim que a taxa de investimento começou a aumentar. De qualquer modo, as dificuldades com os excessos de capacidade produtiva nos principais setores do mercado mundial se intensificaram com a rápida industrialização da China e de outras regiões do Leste Asiático. Os novos setores emergentes dinâmicos enfrentaram logo grandes dificuldades, pois a superacumulação veio mais célere do que nunca antes. Os sistemas nacionais de inovação em todo o mundo estavam agora mobilizados para acolher rapidamente as inovações que se afigurem lucrativas. À medida que os investimentos fluíam para um novo setor, a capacidade produtiva crescia aí com muita rapidez; ora, isto levava as taxas de investimento a caírem.

As recentes características “normais” do capitalismo, as quais se mostram profundamente anormais em relação aos períodos anteriores de sua história, começam agora, à luz das categorias de “superacumulação” e de “sobre-esforço” de Marx, a ganhar sentido.

  • A explosão sem precedentes de dinheiro do crédito foi necessária para evitar uma grave depressão global, pois a sua escala seria tão grande que faria a Grande Depressão da década de 1930 parecer um evento menor. A expansão do crédito, entretanto, passou a gerar “menos efeito por cada dólar” ao longo do tempo. Pois, conforme a capacidade produtiva se expandia ao longo do tempo, tornava-se necessário mais e mais crédito apenas para ainda manter os capitais zumbis vagando pelo planeta.
  • Para que a fase de sobre-esforço pudesse ser continuamente estendida não era suficiente que os mercados se expandissem mediante os esteroides do crédito, mesmo se eles ajudavam a absorver uma capacidade produtiva crescente. Pois, ela precisava ser absorvida de forma rentável. O aumento acentuado do crédito não conseguiu isso inicialmente. O capital e o estado capitalista declararam, então, uma guerra ao trabalho; fuga de capitais de regiões de salários altos, automação e políticas públicas anti-trabalhador foram as suas principais armas. A forte correlação que existia até então entre os avanços da produtividade e os aumentos dos salários reais (assim como, a relativa estabilidade da participação da mão-de-obra na renda nacional) foi rompida. À medida que a expansão maciça do crédito pode continuar sem que sobreviesse inflação nos mercados de trabalho ou de consumo, os comentaristas passaram a elogiar os bancos centrais por terem engendrado uma “Grande Moderação”, a qual era intencionalmente cega às mudanças subjacentes nas relações sociais. Em um raro momento de lucidez, Alan Greenspan, então chefe da Reserva Federal dos EUA, confessou que a moderação da inflação se baseava no “trabalhador traumatizado”, incapaz de ganhar aumentos salariais devido à ameaça do encolhimento das empresas e da fuga de capitais.[16]

A inflação insana dos ativos financeiros então ocorrida também faz sentido na perspectiva antes delineada. Se a criação de dinheiro de crédito explode e lucros estão sendo apropriados, mas apenas uma parcela do dinheiro de crédito e dos lucros retidos estão sendo investidos em expansões industriais e comerciais, então, ao longo do tempo, um montante cada vez maior de capital-dinheiro ocioso será acumulado. E ele passará a buscar alguma outra forma de investimento lucrativo. Em períodos de excesso de capacidade produtiva nos principais setores não financeiros, os fluxos de crédito rumam para os investimentos especulativos. Eis que os ativos financeiros fornecem uma saída alternativa, bem atrativa, para valorização do capital que estava ocioso. À medida que os investimentos nesses ativos aumentam, seus preços são inflacionados. A inflação dos ativos financeiros é reforçada quando os lucros retidos das empresas não financeiras e os fluxos de crédito a elas destinados são utilizados para recompra de ações, assim como para as fusões e aquisições. A expansão do crédito, que permitira ao capital evitar uma grande depressão global, gerou simultaneamente um setor financeiro inchado, cada vez mais desacoplado do resto da economia.

O crescimento desmedido dos balanços dos bancos centrais se seguiu mais ou menos automaticamente. Quando o dinheiro de crédito criado pelo setor financeiro permanece no interior do próprio setor financeiro, formam-se invariavelmente as bolhas especulativas e elas, também invariavelmente, explodem. Quando isso acontece, os bancos centrais passam a enfrentar um forte dilema: resgatar o setor financeiro por meio da injeção de mais liquidez, a qual irá impulsionar ainda mais a inflação de ativos financeiros, ou permitir que ocorra logo uma crise financeira, a qual pode se transformar em uma grave depressão global. O primeiro caminho foi escolhido: os bancos centrais expandiram os seus balanços em magnitudes que antes eram quase impossíveis de imaginar. As taxas de juros negativas se mostram, então, simplesmente, como um meio de encorajar ainda mais o crescimento do crédito; o fim colimado consiste em estender um pouco mais a “fase de sobre-esforço”. Mesmo a “chuva de dinheiro lançada por helicópteros” surge como uma possível opção de política econômica, dando assim um sinal do desespero dos intelectuais orgânicos do capital que tem uma visão mais ampla do problema. Eis que eles perceberam já que, na recessão vindoura – e ela virá certamente –, os bancos centrais não poderão estimular a economia por meio de taxas de juros mais baixas já que elas estão agora em mínimos históricos.

Compreender o momento presente da história mundial exige que se compreenda tanto a tendência sistemática à superacumulação do capital quanto a expansão do crédito que é gerada em decorrência dela. Em combinação com uma guerra contra o trabalho, a financeirização permite o deferimento da destruição e da desvalorização dos capitais superacumulados.

Junto com muitas outros igualmente essenciais não considerados neste artigo, encontram-se em O Capital conceitos que fazem Marx continuar como nosso contemporâneo. E de uma maneira que simplesmente não é o caso quando se pensa nos outros teóricos sociais dos últimos 150 anos.

Ninguém pode dizer por quanto tempo os bancos centrais poderão prolongar a “fase de sobre-esforço”. Se puderem continuar um pouco mais, esse pouco terá como custo uma série de patologias sociais, as quais incluem:

  • Desigualdade cada vez mais grave;
  • Um fosso crescente entre o nível de necessidades sociais que, em princípio, poderiam ser atendidas com as tecnologias existentes e o nível real que tem sido alcançado;
  • O poder crescente dos oligopólios detentores de direitos de propriedade intelectual.
  • Fortes restrições estruturais continuarão a ser impostas pelo sistema de direitos de propriedade intelectual sobre as inovações ditas de “código aberto”;
  • Crises financeiras recorrentes já que o dinheiro de crédito alimenta e inflaciona bolhas especulativas em várias classes de ativos financeiros. Estas crises serão reforçadas pelas políticas monetárias extremas necessárias para evitar o colapso das bolhas especulativas que ameaçam uma depressão global;
  • A erosão contínua do “capitalismo democrático” mesmo se este é de fato bem limitado; e
  • Uma continuada incapacidade para responder adequadamente aos horríveis custos ambientais já que o capitalismo se move pelo imperativo de “crescer ou morrer”.

Se a erradicação há muito adiada do excesso de capacidade produtiva no mercado mundial não pode ser adiada, todas essas patologias serão combinadas com uma depressão global de brutalidade inimaginável. Ambas as alternativas são bárbaras.

“Socialismo ou barbárie” é a nossa verdadeira escolha, como Marx claramente viu 150 anos atrás.

Notas:

1. Karl Marx, Outlines of the critique of Political Economy. Marx and Engels Collected Works, vol. 28. New York: International Publishers, 1986 [1939], p. 94. 

2. Estas teses estão elaboradas e extensivamente defendidas em Tony Smith, Beyond Liberal Egalitarianism, Leiden: Brill, 2017. 

3. Em 1945, a dívida total na economia dos EUA era de US$ 355 bilhões. Em 2007, esse número subiu rapidamente para um surpreendente US$ 50 trilhões. Richard Duncan, The New Depression, Hoboken: Wiley, 2012.

4. Ver especialmente Karl Marx, Capital, vol. 3. New York: Penguin, 1981 [1894], capítulo 30.

5. O termo “ciclo sistêmico de acumulação” foi empregado por Giovanni Arrighi em The long twentieth century. New York: Verso, 1994.

6. “O crédito é, portanto, indispensável aqui, um crédito que cresce em volume com o valor crescente da produção e que cresce em duração com a crescente distância dos mercados. Um efeito recíproco ocorre aqui. O desenvolvimento do processo de produção expande o crédito, enquanto o crédito, por sua vez, leva a uma expansão das operações industriais e comerciais” (Marx, Capital, Volume 3, 612).

7. Ibid., 614.

8. Ver Geert Reuten, Accumulation of Capital and the foundation of the tendency of the rate of profit to fall. Cambridge Journal of Economics, vol. 15, nº 1, p. 79-93.

9. Karl Marx, Capital, Volume 3, p. 619. “A aparência de negócios muito sólidos com retornos seguros pode felizmente perseguir mesmo quando, há muito tempo, os retornos, na verdade, passaram a depender de emprestadores de dinheiro e de produtores fraudulentos. É por isso que os negócios sempre parecem exageradamente saudáveis imediatamente antes de um colapso” (Ibid., 615-16).

10. Francesco Ramella, Sociology of economic innovation. New York: Routledge Press, 2016.

11. Esta é uma das principais causas do desenvolvimento desigual no mercado mundial, em que as regiões ricas, capazes de estabelecer sistemas de inovação nacionais eficazes, gozam de vantagens cumulativas, enquanto as regiões mais pobres sofrem desvantagens cumulativas. Ver Tony Smith, Piketty on the world market and inequality within nations, Critical Sociology, vol. 41 (2), 2015, p. 401-10.

12. Global R&D Funding Forecast, R&D Magazine, Inverno de 2016, p. 3-4.

13. Quando, no entanto, são considerados os custos ambientais da mudança tecnológica no capitalismo, a coisa não se afigura tão positiva.

14. Robert Brenner, The Economics of Global Turbulence, New York, Verso, 2006.

15. Não se pode minimizar a desvalorização do capital que ocorreu em resposta à desaceleração global na década de 1970. Mas não houve uma “destruição maciça de valor-capital” em uma escala suficiente para acabar com o excesso de capacidade e com a superprodução. Radhika Desai, Geopolitical economy: after US hegemony, globalization and empire. Londres: Plutão, 2013, p. 24-5.

16. Bob Woodward, Maestro: Greenspan's Fed and the American Boom, New York: Simon e Schuster Woodward, 2000, p. 168.

17. O surgimento de um novo regime de direitos de propriedade intelectual em resposta à recessão global da década de 1970 é perfeitamente inteligível deste ponto de vista. Se o período de tempo durante o qual uma unidade qualquer de capital pode desfrutar de uma vantagem competitiva, provinda de uma determinada inovação, tende necessariamente a ser comprimido, pode acontecer que a extensão do sistema de direitos de propriedade intelectual, em escopo e em grau de obrigatoriedade, venha anular essa tendência. Mas o novo sistema de direitos de propriedade intelectual não eliminou a implacável ameaça de superacumulação. Simplesmente fez com que mais recursos fossem dedicados à duplicação das inovações como forma de evitar a violação das patentes (assim como, aos esforços legais para defender ou atacar as reivindicações empresariais em geral). Ele, de fato, consolidou o poder oligopolístico.

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