15 de abril de 2018

A economia política da grande depressão

Joseph Choonara

Tradução / Estamos agora há uma década completa daquele momento em que a turbulência financeira deu a partida e, assim, iniciou a “longa depressão”.[1] Em escala global, a onda recessiva que se desenvolveu com o colapso do banco Lehman Brothers de Wall Street, em outono de 2008, terminou logo após um ano.[2] No entanto, embora tenha tecnicamente logo se encerrado, desde então, ela trancou o mundo numa fase de desenvolvimento marcadamente diferente em relação àquela do período precedente. Uma análise recente da economia dos Estados Unidos, ainda a maior do mundo, estimou que ocorreu um déficit médio anual de 20% no investimento em capital fixo devido aos efeitos da crise, no período de 2008-2015. Ademais, o impacto negativo no PIB chegou a ser de 10% em média nesse mesmo período.[3]

Fazendo referência a este contexto, Larry Summers, Secretário do Tesouro de Bill Clinton, começou a falar de uma “era de estagnação secular”; Christine Lagarde, chefe do Fundo Monetário Internacional, por sua vez, referiu-se à existência de um “novo período medíocre” no curso do sistema capitalista.[4] Agora, apesar disso, diversos comentaristas começaram a enxergar 2018 como aquele ano em que esse sistema irá finalmente superar a sua fraqueza. Martin Wolf, do Financial Times, tem dito mesmo que o crescimento da economia mundial se anuncia agora como “vibrante”; Gavyn Davies, por sua vez, tem visto “sinais alentadores de que a estagnação secular estaria começando a desaparecer”.[5]

O argumento a ser desenvolvido aqui diz que esse otimismo está provavelmente mal posto. Em 2010, escrevi que a recuperação, após os seus estágios iniciais, seria “fraca, frágil e incerta”.[6] A fraqueza observada resultava da falha da recessão de 2008-9 em destruir ou desvalorizar de modo suficiente o capital não-rentável, algo sempre necessário para uma recuperação suficiente da lucratividade. A fragilidade se devia, acima de tudo, ao inchaço do sistema financeiro; este, agora, ameaçava expandir qualquer novo episódio de crise. A incerteza era um produto das intervenções estatais que, ao colocar um piso para a queda da economia, deixava assim sem solução os problemas fundamentais que haviam causado a crise.

Aqui se supõe que esse prognóstico anterior continua sendo útil como um guia para entender o desenvolvimento da economia mundial. As três dificuldades antes mencionadas que cercaram a recuperação irão também balizar a análise a ser desenvolvida no presente artigo. 

Lucratividade e recuperação fraca

Considere primeiro a fraqueza da recuperação. Nenhuma região do mundo está experimentando um crescimento de acordo com as taxas observadas antes de 2008. Mesmo as grandes economias mais bem-sucedidas do Sul Global, algumas das quais experimentaram rápido crescimento antes da crise, tiveram de reduzir as suas expectativas.[7] Já as economias do Norte Global, que no período de 1960-80 experimentaram taxas médias de crescimento acima de três por cento, agora veem essa meta como um sonho. As estimativas de crescimento médio para além de 2016 se afiguram assim: 1,6 por cento para os EUA, 1,8 por cento para a área do euro e 1,1 por cento para o Japão.[8]

O fundamento dessa fraqueza na recuperação encontra-se num problema subjacente: a baixa taxa de lucro no centro do sistema capitalista. Um longo declínio da rentabilidade ocorreu no período de 1950 a 1982 e, desde o início dos anos 80, o capitalismo permaneceu preso numa rentabilidade relativamente baixa. Segundo uma das estimativas do economista marxista Andrew Kliman, a taxa de lucro do setor corporativo americano caiu de 20%, em 1950, para menos de 7%, em 1982, e oscilou em torno desse nível desde então (Figura 1).[9] Este declínio se refletiu também no movimento da taxa de lucro média global de lucro (Figura 2).

Figura 1: Taxa de lucro no setor corporativo dos EUA (percentual ajustado pela inflação)

Fonte: Adaptado de Kliman, 2011.

Ocasionalmente, esse declínio na lucratividade chega ao pensamento dos economistas ditos do “mainstream”. Assim, uma coluna do Financial Times, em 2010, lamentou a queda no “retorno do investimento” de estimados 15% no período do pós-guerra para 10% no final da década de 1980. No final da década de 1990, o autor da coluna sugere que esse retorno estava em “apenas 5%”, mencionando então que “poucos poriam dinheiro em risco para obter essa modesta recompensa”. [10]

Figura 2: Estimativas da taxa de lucro global (Em porcentagem) 

Fonte: Maito, 2014. 

No entanto, a compreensão das razões pelas quais esse comportamento foi observado requer um retorno à explicação da crise fornecida por Karl Marx em O capital, especialmente no Livro III. O argumento de Marx baseia-se na premissa de que a fonte de novo valor no capitalismo é sempre o “trabalho vivo” fornecido pelos trabalhadores ativados no processo da produção de mercadorias. De fato, segundo a sua análise, o total do mais-valor, a fonte do lucro, disponível para o capital é a diferença entre o valor criado pelo trabalho vivo durante o tempo de trabalho e a remuneração que ele próprio recebe. Não há uma relação necessária entre essas duas partes: o capitalista que emprega um trabalhador precisa pagar para ele, na forma de salário, uma parte do valor criado durante toda uma jornada de trabalho. É preciso apenas que essa parte seja menor que o valor criado ao longo dessa jornada. Só assim surge um mais-valor que pode ser apropriado pelo capitalista.[11]

Marx prossegue argumentando que o capitalista investe não apenas em trabalho vivo, mas também, cada vez mais, em “trabalho morto”, ou seja, em instalações e equipamentos, os quais são usados no processo de produção. A manutenção do trabalho morto não representa nem uma perda nem um ganho para o capitalista. Em si mesmo é produto do trabalho vivo passado e, portanto, tem um valor, mas, como é usado na produção, seu valor passa para o produto acabado e pode ser assim recuperado pelo capitalista.[12] Se o investimento em trabalho morto supera o investimento em trabalho vivo, sobrevém uma tendência para que diminua a taxa de lucro do sistema como um todo, porque uma parte maior do investimento está sendo imobilizado com a finalidade de capturar, mais devagar agora, uma massa crescente de mais-valor. 

Figura 3: Estimativas da taxa de acumulação nos EUA (Investimento não residencial líquido/ Ativos fixos não residenciais ao custo histórico), 1967=1 

Fonte: Bureau of Economic Analysis (BEA) data.

Além disso, embora o investimento em trabalho morto reduza a lucratividade no longo prazo, ainda assim é feito porque é uma consequência inevitável da competição capitalista. Os capitalistas são impelidos a acumular capital e, em particular, como trabalho morto, porque se não o fazem perdem a batalha da concorrência. Para entender porque isso acontece, basta imaginar por um momento um fabricante de automóveis que usa as técnicas e as máquinas dos anos 60 do século passado e, mesmo assim, procura concorrer com rivais no mercado global que empregam técnicas e máquinas do século XXI.

Como o processo de acumulação é ele próprio fundado nos lucros passados (ou no crédito que será pago por meio de lucros futuros), a taxa de lucro põe um limite para a taxa de acumulação. A queda de longo prazo da lucratividade ajuda a explicar a desaceleração da acumulação e do crescimento da produtividade nos últimos anos (ver Figura 3).[13]

Quando a taxa de lucro é alta, a acumulação progride mais rapidamente, tal como ocorreu nas décadas de 1950 e 1960; porém, este mesmo processo acelerado provoca um declínio igualmente célere da lucratividade; em outras palavras, desse modo, o próprio dinamismo do capitalismo na fase de ascensão mina o dinamismo da acumulação futura. Sobre isso, diz Marx:

A acumulação acelerada e queda da taxa de lucro são simplesmente diferentes expressões do mesmo processo, na medida em que ambas expressam o desenvolvimento da produtividade do trabalho. A acumulação, por sua vez, acelera a queda na taxa de lucro... Tendo em vista do fato de que a taxa de lucro... é o aguilhão da produção capitalista... uma queda nessa taxa... aparece como uma ameaça ao desenvolvimento do processo de produção capitalista; eis que ela promove superprodução, especulação e crise... O horror suscitado nos pensadores burgueses pela queda da taxa de lucro vem da apreensão de que o modo de produção capitalista encontra assim uma barreira ao seu desenvolvimento... atestando a limitação, a transitoriedade, isto é, o caráter histórico, do próprio modo de produção capitalista.[14]

O declínio da lucratividade, tal como foi observado por Marx, costuma ser contrabalançado por vários fatores. O mais importante deles é o aumento da taxa de exploração do trabalho vivo; mas há também o preço declinante do trabalho morto, algo que compensa em parte os custos crescentes do investimento vis-à- vis dos custos do trabalho. Vários autores argumentam que o primeiro fator teve um papel importante no período neoliberal já que contribuiu senão para restaurar parcialmente a lucratividade, pelo menos para retardar ou interromper o seu declínio.[15] No entanto, há limites para a intensificação do trabalho e para a redução dos salários – há limites matemáticos, mas antes que estes sejam atingidos, aparecem os limites físicos e sociais pois os trabalhadores se rebelam contra as condições de trabalho.

O declínio no custo do trabalho morto afigura-se como uma compensação mais viável em relação a uma trajetória descendente da taxa de lucro. No entanto, a queda do preço do trabalho morto durante o funcionamento normal do capitalismo não costuma ser benéfica para os capitalistas individuais. Um capitalista que já investiu em maquinário pago ao preço antigo, e que espera recuperar o seu valor durante um ano ou mesmo décadas, sofrerá uma perda de lucro se os seus rivais obtêm esse mesmo maquinário a um preço menor, pois isto tende a reduzir o preço da mercadoria produzida. Além disso, mesmo se a queda no preço do maquinário ocorrer de tal modo a elevar o preço médio da mercadoria, a presença de lucros maiores pode incentivar uma nova onda de investimento em trabalho morto. Conquanto muitos capitalistas possam obter vantagem dos investimentos “poupadores de capital”, os maiores e os mais bem-sucedidos poderão fazer isso mais intensamente, de um modo que nem sempre está ao alcance de seus concorrentes. Ao estimular assim uma onda de investimentos, o processo acabará levando a uma queda da lucratividade no sistema como um todo.[16] Na prática, quaisquer que sejam as disputas sobre a existência dessa tendência ao nível da teoria, empiricamente, o valor do investimento em trabalho morto, especialmente em capital fixo (ou seja, em máquinas e em instalações) tendeu a subir – e não a cair – no último século (conforme mostra a Figura 4).

Figura 4: Estoque de capital ao custo histórico Setor privado dos EUA (Bilhões de dólares)

Fonte: BEA data.

Somente nos momentos de crise é que o valor do trabalho morto é reduzido de um modo repentino e catastrófico no sistema como um todo. E isso ocorre por meio da falha das unidades de produção, do abastecimento excessivo dos mercados, da destruição das empresas não rentáveis e da desalavancagem das dívidas que pesam sobre o sistema – ora, é por meio dessa queda que se cria uma situação em que a lucratividade se recupera. Foi o que aconteceu entre 1930 e 1945, por meio da crise econômica e depois da guerra, o que abriu o caminho para o longo boom iniciado após o fim da II Guerra Mundial.[17]

No entanto, como muitos autores marxistas e não marxistas têm apontado, a crise capitalista não pode ser pensada simplesmente como decorrência do movimento da taxa de lucro. Alguns sugerem mesmo que a crise pode ter múltiplas causas.[18] No entanto, Alex Callinicos, a partir de recente releitura de O capital sugeriu que os diferentes fatores da crise capitalista podem ser divididos e classificados em três categorias: “possibilistas”, “condicionantes” e “causais”. A primeira categoria inclui a possibilidade formal de ruptura do ciclo da compra e venda de mercadorias; eis que a venda de uma mercadoria por dinheiro não implica que este seja necessariamente gasto na aquisição de outra. Inclui, assim, a possibilidade de que sobrevenham desequilíbrios entre os diferentes “departamentos” da economia, em especial, entre os que produzem bens de consumo e os que produzem meios de produção. Os fatores condicionantes incluem os movimentos dos salários e as mudanças no nível do emprego, assim como no padrão de rotatividade dos grandes investimentos em capital fixo. No entanto, argumenta Callinicos, apenas os movimentos da taxa de lucro e os ciclos financeiros relacionados, os quais foram identificados por Marx no Livro III de O capital, podem ser considerados fatores causais. Discute-se isso em sequência.21 Note-se já que essa abordagem fornece uma explicação geral das causas da emergência das crises que não negligencia os outros fatores eventualmente intervenientes.

Figure 5: Crescimento do PIB dos EUA – 1900-2007 (Porcentagem)

Fonte: Tymoigne, 2008.

Nessa perspectiva, a crise é o processo por meio do qual, como diz Marx, a “paralisação momentânea de todo o trabalho e a aniquilação violenta de uma grande parte do capital leva [o capitalismo] de volta ao ponto em que ele pode empregar os seus poderes produtivos, sem cometer suicídio”.[20] Ora, as crises que o sistema capitalista experimenta ao longo de sua história não são idênticas entre si. Considere-se dois outros processos de longo prazo, os quais foram também identificados por Marx: a concentração e a centralização do capital. Eles levam à criação de um mundo de gigantescas empresas capitalistas e isto muda o modo como as tendências se manifestam.[21] Em particular, conforme as unidades de capital se tornam enormes, passando a interligar-se com o Estado e o sistema financeiro, surge o problema agora conhecido como “too big to fail”.[22] Os Estados, que passaram a ter um papel central na economia capitalista do século XX são forçados agora a decidir se permitem a continuidade do doloroso processo da crise, na esperança de que a “destruição criativa” venha restaurar a saúde do sistema capitalista[24] ou se financiam e dão suporte às empresas fracassadas a fim de evitar uma queda catastrófica desse sistema à medida que alguns desses gigantes corporativos sucumbem. A tendência das grandes empresas de se engajarem intensiva e diretamente nos mercados financeiros tem exacerbado o problema. Pois, o fracasso de uma pode facilmente afetar outras, mesmo que elas não estejam aparentemente conectadas. Diante desses dilemas, as crises do capitalismo no pós-guerra não se mostraram suficientemente fortes para produzir uma grande limpeza das unidades não lucrativas de tal modo a restaurar as taxas de lucro aos níveis observados nas duas décadas que se seguiram à II Guerra Mundial.[25] Em consequência, o padrão “sobe e desce” inerente aos ciclos foi amenizado de algum modo, mas isto teve um preço: as contradições do capital passaram a atuar e a se manifestar no longo prazo. Desde o início da década de 1980, isto é, no período que antecedeu a última crise, tornou-se lugar-comum falar em uma “grande moderação”. Pois, os indicadores econômicos tais como o crescimento do PIB tornaram-se menos voláteis em países como os EUA (ainda que em muitos países do Sul Global as coisas tenham se mostrado diferentes). Contudo, quando visto de uma perspectiva histórica mais longa, fica claro que a “grande moderação” foi apenas uma intensificação da moderação anterior observada já desde o fim da II Guerra Mundial (ver Figura 5).

Figura 6: Gastos do Estado como porcentagem do PIB

Fonte: Mauro, Romeu, Binder and Zaman, 2013

O mundo do grande capital e do Estado grande que emergiu após a II Guerra Mundial experimentou contrações econômicas menos bruscas, mas também um padrão de crescimento menos intenso nas fases de booms. Nas décadas que se seguiram ao fim da guerra, ocorreram altos níveis de gastos com armas e outras formas de desperdício o que parece ter amortecido o grau de oscilação dos sucessivos ciclos de acumulação. Eles funcionaram também como um “vazamento” que ajudou a prolongar os momentos de boom por retardarem o aumento da composição orgânica do capital.[25] Quando esse período deu lugar a uma crise na década de 1970, o resultado foi uma reorganização do capitalismo, com alguma destruição das indústrias não rentáveis, combinada com medidas para conter as aspirações dos trabalhadores, em linha com a nova realidade de baixa rentabilidade. O período então iniciado ficou marcado por uma mudança no regime de política nas economias avançadas do Norte Global que passou de keynesiano para neoliberal.[26] Entretanto, ocorreu apenas um pequeno declínio na escala de envolvimento do Estado na economia (Figura 6). Isso se combinou com uma contínua centralização do capital, a saber, por meio de ondas de fusões e aquisições no final dos anos 90 e novamente no período que antecedeu a crise. Foi nesse contexto que as tendências de crise do capitalismo, após 1947, manifestaram-se cada vez mais como um declínio longo, secular, da lucratividade. As taxas de lucro caíram continuadamente durante os vários ciclos econômicos até se estabilizarem em níveis baixos. A tendência de longo prazo sobrepôs-se assim às flutuações cíclicas, de curto prazo, da rentabilidade. Uma crise em larga escala foi repetidamente adiada, em grande parte por causa da intervenção do Estado, mas apenas para assomar sob novas formas (as mudanças nas formas históricas da intervenção são discutidas em mais detalhes abaixo).

Ao impedir que o sistema lidasse com os seus excessos de acumulação, as transformações do capitalismo ocorridas na segunda metade do século XX não deixaram de criar tendências fortes para que ocorresse uma estagnação de longo prazo. No entanto, isso não implicou numa paralisia do sistema. A tendência à estagnação coexiste com um certo dinamismo, o qual é produzido à medida que aqueles que tomam decisões reorganizam competitivamente o próprio sistema do capital, buscando inclusive novas áreas do globo para expansão. Ora, o boom chinês é o exemplo mais claro desse processo. No entanto, sem entender as tendências à estagnação geradas pela baixa lucratividade é impossível entender por que a crise atual se afigura tão profunda e prolongada.

Fraqueza no Sul Global

No rescaldo da crise, acreditava-se amplamente que a fraqueza das economias avançadas poderia ser, em parte, neutralizada pela força das grandes economias do Sul Global. Como disse John McFarlane, presidente do Banco Barclays: “Os últimos anos evidenciaram um mundo dividido em dois níveis, um deles bem queridinho agora, aquele dos mercados emergentes e dos países ricos em petróleo, sendo o outro o mundo desenvolvido ainda em recuperação da crise financeira global”[27]. A esperança concentrou-se, então, em particular, na China, agora a segunda maior economia do mundo.

De fato, não só a China falhou totalmente em escapar da crise, mas também se tornou uma fonte de instabilidade. O crescimento pré-crise da China baseou-se na exploração intensa, em níveis extraordinários de investimento – às vezes atingindo mais de 45% do PIB[29] – e na produção voltada para os mercados de exportação. À medida que esses mercados começaram a secar durante a recessão global, o Estado chinês respondeu usando crédito para manter o frenesi do investimento. A dívida total subiu de 160% do PIB em 2008 para atingir cerca de 260% em 2017. Isso foi acompanhado pelo crescimento das instituições financeiras: hoje, a China tem o maior sistema bancário do mundo – maior até do que o sistema da zona do euro –, com empréstimos substanciais que também estão ocorrendo fora do setor bancário tradicional. A resposta chinesa à crise foi bem captada por Martin Wolf no Financial Times:

Em resposta à crise financeira de 2008, a China promoveu um enorme aumento no investimento impulsionado pela dívida para compensar o enfraquecimento da demanda externa. No entanto, o crescimento subjacente da economia estava desacelerando. Como resultado, a “razão incremental capital-produto” – o montante de capital necessário para gerar rendimento adicional – praticamente duplicou desde o início dos anos 2000... Na margem, muito deste investimento será provavelmente deficitário. Se assim for, a dívida associada a ele também se mostrará impagável.[29]
Figura 7: Preços das commodities Dólar corrente (2016 = 1)

Fonte: World Bank.

Ora, tem-se assim, simplesmente, uma descrição do que Marx chamaria de crise de “superacumulação”. Em outras palavras, a rentabilidade se reduziu porque há muito capital caçando um montante limitado de lucros.[30] A resposta dada, que consiste em permitir que o crescimento do crédito impulsione a economia, não se restringiu à China. O crédito cresceu em muitas economias no Sul Global. Ao tornar isso possível, os governos e banqueiros centrais desses países estavam simplesmente aprendendo as lições das potências capitalistas estabelecidas, pois foi exatamente esse o caminho tomado pelo governo dos EUA e pelo Federal Reserve dos Estados Unidos na esteira da recessão do início dos anos 2000 e dos ataques de 11 de setembro. Eles reduziram as taxas de juros e permitiram o desenvolvimento de uma bolha imobiliária, uma bolha que levou à crise do crédito em 2007, centrada em hipotecas “subprime”.[31] No entanto, como esse mesmo exemplo demonstra, há limites para a expansão do crédito. Recentemente, o FMI alertou que a economia chinesa precisa agora de três vezes mais crédito do que na época da crise para alcançar a mesma quantidade de crescimento. E concluiu: “a experiência internacional sugere que o crescimento do crédito na China está em uma trajetória perigosa, com riscos crescentes de um ajuste por ruptura e/ou uma desaceleração acentuada do crescimento”.[32]

A desaceleração na China aumentou a pressão sobre outras economias. Eis que certos países como o Brasil reorientaram, nos últimos anos, suas economias para suprir com matérias-primas o boom da economia chinesa. Para o Brasil, isso significou um aumento de cinco vezes na exportação de bens primários de 1999 a 2009, pois as exportações de ferro e soja para a China foram centrais para o seu crescimento.[33] De modo mais geral, a desaceleração chinesa acompanhada pelo lento crescimento global encerrou o que ficou conhecido como o “superciclo de commodities” – um aumento generalizado nos preços das “commodities” que ajudou a impulsionar o crescimento dos grandes exportadores do Sul Global (ver Figura 7). O choque súbito na economia brasileira produzido pela queda da demanda e pela queda dos preços ajudou a precipitar a pior recessão na história do país – com dois anos inteiros de contração. As economias argentina, russa e nigeriana também encolheram em 2016, enquanto que o crescimento da Turquia desacelerou de 6,1 para 2,9 por cento e o da África do Sul caiu de 1,3 para 0,3 por cento.[34]

Fragilidade financeira

A segunda característica da recuperação fraca acima identificada é a sua fragilidade. E esta é um produto da expansão do sistema financeiro global nos últimos 40 anos. Este crescimento é também, em grande medida, uma resposta aos baixos níveis de rentabilidade na produção de mercadorias. A finança não vem a ser simplesmente um crescimento parasitário do capital. Em vez disso, à medida que o capital se desenvolve, o dinheiro que não consegue encontrar aplicação nas mãos de determinados capitalistas, passa a ser mobilizado na forma de capital portador de juros, ajudando assim a impulsionar o sistema no rumo da acumulação. No entanto, além de um certo limite, as finanças passam a contribuir para a desestabilidade inerente do capitalismo.37 Marx captou bem os elementos dinâmicos e indutores de crise no Livro III de O capital:

Através do sistema bancário, a distribuição de capital é removida das mãos dos capitalistas e usurários privados e se torna um negócio especial, uma função social. A banca e o crédito, no entanto, também se tornaram o meio mais poderoso para impulsionar a produção capitalista além de seus próprios limites (barreiras) e um dos veículos mais eficazes para fomentar as fraudes e as crises.[36]

A finança leva o capitalismo além de seus limites, pois utiliza as reservas ociosas em dinheiro e as coloca em movimento. Na forma de capital portador de juros, o valor pode se mover entre os setores da economia ou pelas fronteiras nacionais com maior fluidez do que nas formas de capital industrial ou comercial. Mas, em última análise, o crédito concedido tem que ser pago um dia – e não há garantia de que haverá produção ou lucro em grau suficiente para cobrir as dívidas contraídas no passado. Com o frenesi da acumulação, pilhas de crédito e de dívidas podem se formar à medida que bancos e outras instituições financeiras tomam empréstimos de uns para emprestar a outros. Nas últimas décadas, muitas empresas não-financeiras também se envolveram em atividades financeiras – por exemplo, a General Electric conseguiu, em meio à crise, ganhar cerca de metade de seu lucro com operações dessa espécie.[37] O crescimento das finanças baseia-se no pressuposto de que a acumulação e a lucratividade continuarão para sempre, que não haverá uma crise geral na qual as dívidas serão enfim cobradas de fato (e não roladas). Marx escreve:

A cadeia de obrigações de pagamento em datas específicas é quebrada em cem lugares e essa cadeia de quebras é ainda intensificada por uma paralisação do sistema de crédito.... Tudo isso, portanto, leva a crises violentas e agudas, desvalorizações súbitas e forçadas, uma verdadeira estagnação e ruptura no processo de reprodução e, mesmo, um declínio efetivo da reprodução.[38]

Uma outra dimensão da expansão das finanças precisa ser mencionada. Marx comenta que o capital portador de juros é “a mãe de toda forma insana” de acumulação.[39] O capital portador de juros parece se expandir magicamente por receber pagamentos de juros; do ponto de vista do emprestador de dinheiro, é como se não fosse necessário mobilizar trabalho vivo. Possuir capital parece dar ao capitalista o direito automático de obter uma parte do mais-valor socialmente produzido. À medida que isto passa a ocorrer, qualquer fluxo de renda pode ser tratado de maneira semelhante. É o caso, por exemplo, dos títulos emitidos pelos bancos centrais ou pelas empresas, que pagam ao detentor uma quantia fixa em intervalos regulares. As ações negociadas no mercado de ações diferem dos títulos por representarem a propriedade de uma empresa e por pagarem dividendos aos detentores. De qualquer modo, podem ser tratadas como ativos que dão ao detentor um direito a um fluxo de renda. Esses direitos de papel sobre a riqueza social são exemplos do que Marx chama de “capital fictício”.

O capital fictício tem, segundo Marx, três características. Primeiro, como já foi dito, representa uma reivindicação sobre um fluxo de renda que pode ser tomado como juros. Em segundo lugar, quando essas reivindicações são emitidas contra o capital real, o capital parece ter sido duplicado. Por exemplo, se alguém compra ação de uma empresa e se essa empresa usa o dinheiro para investir, o dinheiro investido em maquinário e em força de trabalho é um capital “real”. O pedaço de papel que esse alguém tem lhe dá direito a uma reivindicação sobre parte dos lucros resultantes. Em si mesmo, no entanto, ele é apenas capital fictício. A capital não existe duas vezes. Terceiro, o capital fictício é negociado de acordo com suas próprias leis.[40] Por causa disso, torna-se um veículo ideal para especulação. Cria-se, assim, a possibilidade de que surjam bolhas à medida que os investidores elevam o preço de tais ativos com base em expectativas de renda futura ou simplesmente que apostem na subida adicional dos preços. Como o capitalismo, na realidade, ainda depende do aumento do mais-valor produzido pelos trabalhadores, os mercados de capital fictício podem perder contato com o processo subjacente de produção de valor.

Isso é ainda mais provável em períodos em que prevalece rentabilidade baixa na economia “real”. Marx escreve:

“Se a taxa de lucro cair... fraudes ocorrem, promovem-se então falcatruas por meio de tentativas desesperadas de encontrar novos métodos de produção, novos investimentos de capital – novas aventuras que visam garantir algum tipo de lucro extra”.43

Os mercados de capital fictício cresceram e se diversificaram enormemente nas últimas décadas. Tornaram-se, assim, cada vez mais dissociados da produção; as relações com as empresas que se dedicam à produção de mercadorias reais se tornaram tênues, mesmo quando existem. Três aspectos desses mercados precisam ser agora ressaltados: a “securitização”, o crescimento nos mercados de “derivativos” e a ascensão do “sistema bancário paralelo”.

Um exemplo de securitização é a emissão pelos bancos das “obrigações de dívida garantidas por colaterais” (CDOs)44, algo que começou a crescer no final dos anos 80 e se tornou cada vez mais predominante no período que antecedeu a crise. As CDOs são criadas pelos bancos consolidando uma carteira de dívidas com o fim de repassar a sua propriedade para uma empresa temporária formada para esse fim, qual seja, um “veículo para fins especiais” (SPV)45. A empresa SPV emite, então, títulos que são vendidos aos investidores. O processo é chamado de securitização porque os títulos são considerados ativos financeiros negociáveis. Para os investidores finais, esses títulos, porque figuram como reembolsáveis, são tomados como uma fonte que gera um fluxo de renda. Para os bancos que os vendem como instrumentos financeiros, são um meio que lhes permitem recuperar o caixa, o que possibilita que venham a emitir mais empréstimos.

Há, além disso, taxas lucrativas que são ganhas por aqueles que supervisionam o processo. Antes de 2007, as “parcelas” mais arriscadas dos títulos emitidos pelas empresas SPVs e, portanto, mais atraentes para os especuladores, incluíam frequentemente um grande número de hipotecas “subprime”. A quantidade de CDOs emitidos globalmente subiu de US$ 68 bilhões em 2000 para US$ 521 bilhões em 2006.46 Um recente relatório do Parlamento Europeu mostrou que “a securitização ampliou a crise pois contribuiu para o alongamento da cadeia de intermediação, criou condições para o desalinhamento dos incentivos e dos interesses dos participantes da cadeia de securitização, elevou a confiança nos modelos matemáticos e na avaliação dos riscos externos e, finalmente, aumentou os riscos bancários individuais e sistêmicos”.47

Embora os mercados de CDOs não tenham se recuperado aos níveis anteriores à crise, houve recentemente um notável aumento na emissão de “obrigações garantidas por empréstimos” (CLOs)48, particularmente aquelas associadas aos empréstimos comerciais. No ano passado, foram emitidos US$ 100 bilhões desses títulos. Este crescimento recente não decorreu simplesmente de impulso que veio dos bancos – mas refletiu também a “busca por rendimento” por parte dos investidores que enfrentam taxas de juros artificialmente baixas (ponto desenvolvido abaixo).49

Acompanhando a securitização, houve também um crescimento explosivo dos derivativos, os quais são ativos que mudam de valor dependendo do que acontece com algum ativo subjacente. Por exemplo, um CDS50 compensa o seu detentor no caso de uma inadimplência específica da dívida, em troca do pagamento de uma pequena taxa regular à contraparte. Esta pode ser uma forma útil de seguro, de “cobertura” contra um risco. No entanto, os derivativos podem ser comprados e vendidos por razões puramente especulativas – por pessoas que não estão expostas ao risco subjacente e simplesmente desejam apostar se algo vai acontecer ou não.51 No período que antecedeu a crise, o mercado de derivativos foi dominado por contratos de taxas de juros (que são pagos à medida que as taxas se movem), seguidos pelos CDSs.52 Tal como no caso anterior, o mercado de derivativos não se recuperou aos níveis máximos observados imediatamente antes do colapso do Lehman Brothers, em 2008, mas o crescimento também não foi totalmente revertido. No primeiro semestre de 2017, o valor de mercado bruto dos derivativos de balcão (o dinheiro necessário para substituí-los a preços de mercado) ainda era de US$ 12,690 bilhões, algo próximo do montante observado no início de 2007.53

Figura 8: Bancos sombra

Estimativa do montante de ativos

(Com base em 21 jurisdições da área do Euro)

Fonte: FSB, 2017.

Junto com essas tendências, as últimas décadas assistiram à ascensão do sistema bancário paralelo – isto é, instituições financeiras que fornecem e tomam empréstimos sem serem bancos tradicionais e que, por isso mesmo, não são regulamentadas como tais. Entre os participantes importantes nesse setor estão os fundos de hedge, os fundos do mercado monetário, os fundos de investimento imobiliário, as corretoras do tipo “broker dealers” e os veículos de financiamento estruturado. Na época da crise, o sistema bancário paralelo, medido por ativos financeiros, era provavelmente maior do que o setor bancário tradicional nas economias avançadas do Norte Global. Mesmo se o setor bancário paralelo foi bem atingido pela crise, retomou a sua expansão segundo taxas de crescimento que já em 2011 chegaram perto daquelas observadas durante o período pré-crise. Em 2016, o volume de ativos já era consideravelmente maior do que quando a crise irrompeu (Figura 8).

O crescimento do sistema financeiro desde a década de 1980 produziu em parte alguma acumulação real, mas grande parte dele gerou simplesmente uma série de bolhas. Dentre elas, têm-se as seguintes: a bolha ponto.com das empresas de alta tecnologia no mercado de ações da década de 1990; as bolhas imobiliárias observadas no Reino Unido, na Espanha e na Irlanda e, atualmente, na China; o superciclo das commodities acima mencionado. Subjacente a todos estes episódios encontra-se uma “mega-bolha” de crédito. Wolf chegou a descrever esse sistema de desenvolvimento, que ele classificou como o “maior e o mais arriscado” da história do capitalismo, como uma “máquina do apocalipse financeiro”.54

A expansão do crédito geralmente ajudou tanto a esconder quanto a adiar os problemas do capitalismo que surgiram no período que se iniciara nos anos 80. Este modo de crescimento foi às vezes apelidado de “keynesianismo privatizado”.55 Produziu esse resultado, é certo, mas apenas à custa de criar um sistema financeiro grotescamente superdimensionado que acabaria gerando crises financeiras sucessivas. O fato de ter a longa depressão começado no campo das finanças levou muitos comentaristas a identificá-la simplesmente como uma crise financeira. Essa visão toma o gatilho imediato da crise como se ele fosse a sua causa principal. A situação prevalecente de baixa lucratividade, porém, é crucial para entender o que aconteceu.56

Figura 9

Montante da dívida global desde a crise

Fonte: BIS, 2017. Note-se: AEs = “economias avançadas”,

EMEs = “economia dos mercados emergentes”.

Alguns acreditavam que a crise de 2008-9 permitiria que a economia fosse reequilibrada escapando da dependência financeira, mas isso não ocorreu. Em vez disso, na melhor das hipóteses, a expansão do crédito se estabilizou nas economias avançadas. No entanto, houve um crescimento significativo do crédito no Sul Global (ver Figura 9). A dimensão mantida do sistema financeiro garante agora que cada nova onda de pânico seja transmitida globalmente e, assim, amplificada. Por exemplo, houve uma grande queda nos mercados de ações no início de 2016 em resposta à decisão de dezembro de 2015 de elevar as taxas de juros dos EUA; na primavera de 2016, ocorreu uma grande troca de ações dos bancos europeus porque eles estavam prisioneiros entre o impacto das taxas de juros negativas e a preocupação com a qualidade dos empréstimos concedidos. Do verão de 2015 até a primavera de 2016 houve turbulência nos mercados de ações chineses. E estes, agora, são vistos como suficientemente centrais no capitalismo global já que são capazes de provocar quedas enormes nas bolsas dos EUA.57 Uma rodada de turbulência ocorreu em fevereiro de 2018 e ela refletiu o medo do aperto na política monetária nos EUA e em outros lugares.

Fragilidade política

A esse quadro de fragilidade deve ser adicionada uma crescente fonte de instabilidade, nomeadamente a turbulência política desencadeada pela própria recessão iniciada em 2008. Mesmo antes da crise, o consenso entre os partidos de centro-esquerda e de centro-direita em torno das políticas neoliberais começou a ser abalado. Sobreveio um questionamento da política dominante como um todo, pois os eleitores passaram a se polarizar em alternativas radicais seja de esquerda seja direita, algumas extremadas. Agora, está claro que a resposta da classe dominante à crise – qual seja ela, proteger o sistema à custa das classes trabalhadoras, socializar os custos da crise por meio das políticas de austeridade – está acelerando esse processo.

Uma consequência tem sido a relutância dos eleitores em seguir como ovelhas cordatas os rumos da sociedade advogados pelo establishment. Eventos como o Brexit – o qual foi combatido por todos os principais partidos do parlamento britânico, por quase todos os grandes bancos e corporações, assim como pela maioria das instituições do capitalismo europeu e mesmo global – representam, sim, um grande desafio para a classe dominante. A volatilidade é aparente até mesmo na Alemanha que figura como o centro supostamente estável do capitalismo europeu. Nas eleições de 2017 na Alemanha, o Partido Social Democrata (SPD) e a União Democrata Cristã (CDU), os dois principais partidos, viram a sua votação cair para pouco mais de metade do total, bem abaixo dos três quartos que atingira em 1990. O partido de ultradireita Alternative Für Deutschland, ao contrário, avançou decisivamente.

Ainda mais preocupante em termos de estabilidade global foi a ascensão de Donald Trump à presidência da nação que continua a ser a maior potência econômica e política da Terra. A ameaça representada por Trump é tripla. Primeiro, tem o potencial de tornar ainda mais tóxica a geopolítica global – as intervenções na Síria e as crescentes tensões com a Coréia do Norte são prova disso. “Uma guerra”, argumentou Martin Wolf em sua avaliação otimista da economia global em janeiro de 2018, “é o maior risco político para o sistema econômico global”.58 Em segundo lugar, Trump prejudica significativamente a possibilidade de cooperação global entre as principais potências ocidentais. Mais uma vez, foi o Wolf quem captou com precisão as preocupações das elites políticas das classes dominantes no centro do capitalismo:

O que... aconteceu com a cooperação global? Nessa questão… enxergamos desenvolvimentos significativos [em 2017]. Um deles foi a decisão do Sr. Trump de sair da Parceria Transpacífica, na qual os aliados dos EUA, especialmente o Japão, haviam investido tanto tendo em vista renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Outro foi a decisão do governo norte-americano de se retirar do Acordo climático de Paris... Tais desenvolvimentos políticos fracionaram o Ocidente que deixa de ser, assim, uma entidade ideologicamente coerente. A estreita cooperação entre os países de alta renda foi em grande parte uma criação da vontade e do poder dos EUA. O centro desse poder atualmente está repudiando os valores e a percepção dos interesses que sustentaram essa ideia. Isso muda quase tudo.59

Isso não significa necessariamente o fim do período de globalização, pois este é um processo multidimensional que se espraia por meio de cadeias de valor complexas em que a produção de empresas multinacionais se estende além das fronteiras, assim como por meio de fluxos de financiamento que – tal como acima foi observado – não parecem ter recuado. No entanto, o compromisso histórico dos governos dos Estados Unidos do pós-guerra de estender o livre comércio global por meio de instituições como a Organização Mundial do Comércio e, mais recentemente, por meio de acordos comerciais regionais, parece estar vacilando.60

A decisão do governo Trump de impor tarifas sobre as importações de painéis solares e de máquinas de lavar em janeiro foi um sinal da nova orientação predominante na Casa Branca. As tarifas impostas, notavelmente, não atingem apenas a China – os maiores exportadores de máquinas de lavar roupa para os EUA, em 2017, foram o Vietnã, a Tailândia e a Coréia do Sul; os maiores exportadores de painéis solares foram a Malásia, a Coréia do Sul e o Vietnã. Seguiu-se o anúncio de Trump de que seriam impostas tarifas de 25% sobre as importações de aço feitas pelos EUA e 10% sobre o alumínio, o que suscitou ameaças de retaliação por parte das outras grandes economias, União Europeia e China, assim como a renúncia de seu principal conselheiro econômico, Gary Cohn.

Há, também, a questão dos enormes cortes de impostos introduzidos pelo governo Trump. O efeito imediato dessa política foi mandar os mercados acionários para a estratosfera. Cristiane Lagarde, chefe do FMI, alertou: “Embora as reformas fiscais dos EUA tenham certamente efeitos positivos no curto prazo, tanto para os EUA quanto para os outros países ao seu redor, devem também trazer sérios riscos… Elas têm impactos na vulnerabilidade financeira, em particular porque facilitam em demasia o financiamento e, assim, tal como já se vê em todo o mundo, promovem altas nos preços dos ativos”.61

Incerteza

O terceiro aspecto é a incerteza que envolve a recuperação pós-recessão devido à sua dependência do apoio do Estado. Quando a crise estourou, pareceu que se estava diante de um evento da escala da Grande Depressão dos anos 1930. E, de fato, no primeiro ano após o colapso do Lehman Brothers, a trajetória do sistema econômico parecia inquietantemente semelhante. No entanto, intervenções estatais sem precedentes vieram para tirar a economia global de tal caminho desastroso (Figura 10).

Os sinais mais visíveis da intervenção estatal foram os resgates bancários orquestrados em vários países. Contudo, embora essas ações tenham se mostrado enormes em escala, o montante efetivamente gasto e, em particular, o custo líquido para o Estado, foi relativamente pequeno.62 Mais significativos foram os pacotes de estímulo efetivados por vários governos (Figura 11). Uma consequência importante dessa dramática intervenção do Estado – juntamente com a queda da arrecadação de impostos e o aumento das pressões sobre os gastos sociais – foi colocar uma pressão insuportável sobre as economias mais fracas que ficaram expostas à implosão financeira, especialmente na Europa do Sul e Leste.63 Isso levou a crise recessiva e financeira a se transformar, a partir do final de 2009, em uma crise da dívida soberana europeia, crise esta cujos efeitos continuam a ser sentidos. O setor bancário italiano pareceu especialmente frágil nos últimos tempos; segundo os dados do BCE, guarda 224,2 mil milhões de euros em empréstimos vencidos e não pagos.64

De certa forma, as medidas mais importantes para mitigar os impactos deletérios da crise foram tomadas pelos bancos centrais.65 As taxas de juros foram reduzidas para níveis ultrabaixos – ou mesmo para níveis negativos – nas economias avançadas (ver Figura 12). Além disso, muitos bancos centrais – incluindo o Fed, o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu – lançaram programas de flexibilização quantitativa ou, como no caso do Banco do Japão, expandiram um programa já existente.

Figura 10

Produção industrial mundial em duas crises

(Pico antes da crise = 1)

Fonte: Dados do CPB, 2018; Wall, 1936

Figura 11

Estímulo econômico

Porcentagem do PIB

Fonte: EC-IILS, 2011

A flexibilização quantitativa feita pelos bancos centrais consiste em criar dinheiro eletronicamente e em empregá-lo para comprar ativos de bancos e de outras instituições financeiras, em particular por meio da aquisição de títulos do governo de posse do setor privado. Tem dois efeitos. Primeiro, inunda o sistema bancário de liquidez, supostamente para incentivar os empréstimos. Em segundo lugar, eleva o preço dos títulos. Como os títulos rendem montantes fixos em intervalos regulares de tempo, se os seus preços aumentam, seus "rendimentos", isto é, os retornos do investimento em relação ao preço, tendem a cair.

Rendimentos menores significam menores custos de empréstimos. Em última análise, a flexibilização quantitativa deve ser “revertida” à medida que os títulos forem vendidos e haja esterilização do dinheiro que fora eletronicamente gerado.

Figura 12

Taxas de juros oficiais

Fonte: BIS.

Por meio desses mecanismos, o capitalismo foi mantido vivo. Entretanto, é preciso que ver que, assim, a intervenção assumiu uma forma financeiramente singular (ver Figura 13, que indica até que ponto os bancos centrais adquiriram títulos durante seus programas de flexibilização quantitativa). As medidas visavam, de forma ostensiva, garantir um fluxo de crédito às empresas com a finalidade de impulsionar a produção. No entanto, devido à rentabilidade moderada prevalecente, isso não aconteceu. Acumulação rápida ocorre apenas quando os investidores acreditam que a produção vai ser bem rentável – e este não era o caso. Em vez de incrementar a capacidade de produção, o dinheiro foi então depositado pelos bancos nos bancos centrais ou transformado em investimentos financeiros, muitas vezes arriscados e de alto rendimento. Um relatório no Financial Times captou bem como o resgate financeiro ajudou a alimentar bolhas adicionais, agora por meio da “busca por rendimento”:

A facilitação quantitativa... deixou os investidores com dinheiro e eles não tiveram quase outra escolha senão colocá-lo em ativos de risco... Um dos refúgios encontrados foram as reservas de valor tradicionais que são conhecidas pelo acrônimo SWAG66: prata, vinho, arte e ouro. Em 2012, os ativos rotulados como SWAG haviam formado uma bolha. No entanto, ela diminuiu à medida que os temores da inflação recuaram e a confiança nos governos retornou. Tijolos e argamassa eram outro refúgio possível – particularmente para aqueles investidores nervosos que temiam por suas riquezas nos países de origem. Os mercados imobiliários, então, animaram-se apesar do fraco crescimento econômico: o de Londres em particular, pois sempre foi um refúgio clássico para proprietários estrangeiros, assim como, também, o de Vancouver, conhecido como um refúgio favorito da comunidade chinesa; em todos eles observaram-se ganhos dramáticos… Uma bolha clássica, entretanto, parece ter se formado em criptomoedas, sob a liderança dos bitcoins. A tecnologia é nova, excitante e potencialmente revolucionária. No entanto, a expansão de moedas que não têm nem valor intrínseco nem reconhecimento governamental é algo de tirar o fôlego.67

Figura 13

Evolução dos balanços dos bancos centrais

(Janeiro de 2007 = 100)

Fonte: Credit Suisse, 2017

Temores cercam a recuperação em 2018 e eles dizem respeito à questão de saber o que acontecerá quando as políticas que estão mantendo o sistema à tona forem desativadas. O Fed dos EUA, sob o comando de Janet Yellen, agora de saída, adotou uma abordagem cautelosa. Ela diminuiu gradualmente a flexibilização quantitativa e elevou as taxas de juros por meio de pequenos passos incrementais, procurando acompanhar os mercados em cada etapa. As coisas provavelmente serão muito mais difíceis para seu sucessor, Jerome Powell, à medida que aumentam os temores sobre o nível de exuberância dos mercados financeiros dos Estados Unidos e o perigo de que a inflação comece a crescer. Eis o que Larry Elliott, do The Guardian, escreveu: “há agora uma preocupação de que o Fed possa estar um pouco atrasado e seja forçado a tomar medidas mais duras do que aquelas que os mercados até então esperavam”. E acrescentou: as ações tomadas em 2008-9 indicam que os bancos centrais “criaram um enorme problema de risco moral para si mesmos”, pois “os investidores imprudentes passaram a assumir que qualquer grande crise será enfrentada com mais cortes nas taxas de juros e mais flexibilização quantitativa”.68

Não apenas o socorro financeiro alimentou a especulação – inflando, por isso, os preços dos ativos dos ricos – como também adiou qualquer resolução da crise subjacente. Elliott aponta para o nível de dependência da dívida, para o aumento da desigualdade e para os baixos níveis de investimento – mas tudo isso está enraizado num problema mais fundamental, a saber, a baixa rentabilidade do investimento na esfera da produção mercantil capitalista. Uma forma pela qual essa situação de fundo vem se manifestando é pela proliferação de “empresas zumbis”, empresas que não deveriam sobreviver em um mercado competitivo, mas que têm sido capazes de continuar aí mesmo sem obter lucros significativos ou serem capazes de investir. Eis como argumentaram os autores de um recente documento de trabalho da OCDE m:

Em uma economia de mercado que está funcionando bem, o processo de destruição criativa obriga empresas com desempenho insatisfatório a melhorar a sua eficiência ou a sair do mercado. No entanto, há sinais de que esse processo não está atuando; vários fatores em operação, ademais, parecem sugerir que há um problema político por trás desse comportamento. Estes fatores incluem: fraqueza das políticas estruturais (por exemplo, regime de insolvência ineficiente), tolerância dos bancos, política monetária frouxa, sistemas bancários com balanços no vermelho, bem como a persistência do apoio às PME [pequenas e médias empresas].69

Ele acrescenta que as empresas mais antigas e maiores são provavelmente aquelas que se tornaram zumbis. Sugere, assim, que isso vem ocorrendo porque essas empresas são aquelas que provavelmente se beneficiarão do apoio do Estado. O artigo do jornal estima que 7,5% do capital do Reino Unido encontra-se investido em empresas zumbis; a estimativa para a Itália ronda 19%.70

Um relatório do Bank for International Settlements aponta para a mesma situação:

O investimento mais fraco nos últimos anos coincidiu com uma desaceleração no crescimento da produtividade. Desde 2007, o crescimento da produtividade diminuiu… Um fator pode estar por trás desse declínio, qual seja ele, uma persistente má alocação do capital e do trabalho. E isto se reflete na crescente existência de empresas não lucrativas que continuam vivas. De fato, a parcela das empresas zumbis – ou seja, aquelas cujos gastos em juros excedem os lucros antes dos juros e dos impostos – aumentou significativamente nos últimos anos, apesar dos níveis excepcionalmente baixos de taxas de juros.71

Um gráfico que acompanha o estudo mostra que a participação das empresas zumbis nas principais economias subiu de 6%, em 2007, para mais de 10%, em 2015.72

Uma purga das empresas zumbis poderá, no longo prazo, levar a um aumento da lucratividade, do investimento, da produtividade e, em última análise, do crescimento. Entretanto, o perigo é que, no curto prazo, essa limpeza leve a economia de volta a um estado depressivo. De acordo com um analista importante do Bank of America:

O apoio monetário na Europa, mantido nos últimos cinco anos, permitiu que as empresas com rentabilidade fraca continuassem a refinanciar suas dívidas, evitando assim inadimplências.... Isso dá apoio à previsão de alguns economistas segundo a qual o BCE provavelmente será muito lento e paciente na remoção de seus estímulos extraordinário no próximo ano e meio.73

Figure 14

“Defaults” comparativos globais

(Dívidas abertas em bilhões de dólares).

Fonte: S&P, 2017

Já existem evidências de que o modesto aumento nas taxas de juros e a suspensão da flexibilização quantitativa estão tendo já impacto. Globalmente, a inadimplência das empresas atingiu, em 2016, níveis não observados desde 2008. E esses níveis estão dominados pela inadimplência de empresas norte-americanas – especialmente aquelas dos setores de energia, atingidas pela queda dos preços do petróleo (ver Figura 14).74 A longo prazo, esse tipo de processo pode, sim, abrir caminho para um novo ciclo de rápida acumulação e crescimento frenético. No entanto, haverá ainda muitos transtornos e turbulências antes de que as economias avançadas possam chegar a esse ponto. É evidente, isso será acompanhado por mais sofrimento para aqueles que vivem e trabalham enredados nas malhas do sistema.

Conclusão

A recessão de 2008-9 afigurou-se como uma crise diferida de longo curso do sistema capitalista. Ela foi gestada por um período de rentabilidade moderada, por padrões disfuncionais de financeirização e pelas ações salvadoras dos estados nacionais. Como não se permitiu que ocorresse um afundamento na escala daquele observado nos anos 1930, ela se transformou numa longa depressão – ou seja, num período prolongado de crescimento relativamente lento e hesitante.

O momento atual abre uma nova etapa nesse processo. Para muitos comentaristas, trata-se – depois de muitos falsos términos – do começo do fim da crise. No entanto, outras vozes divergem desse otimismo. Larry Summers, que revitalizou a noção de estagnação secular tal como acima se mencionou, foi mais longe no pessimismo. Eis que, em fevereiro de 2018, alertou: “Nos próximos anos, virá uma nova recessão e nós, de certo modo, já não poderemos usar os canhões da política monetária e fiscal. Em consequência, sabemos já que a próxima recessão pode ser ainda mais demorada”.[68]

À medida que os governantes começarem a retirar seu suporte às empresas capitalistas à beira da falência, descobrirão provavelmente que as fraquezas subjacentes do sistema econômico ainda não foram resolvidas. E que elas, então, reaparecem de novo. Este, então, será um momento perigoso para o capitalismo global e para aqueles que estão em seu comando. Será, igualmente, um momento em que aqueles que são hostis ao sistema devem redobrar os esforços para desafiá-lo.

Notas

1 Este termo, que considero correto, foi usado por Michael Robert em seu livro recente (2016) para se referir ao período corrente de crise prolongada e de lento crescimento.

2 Não há uma definição universalmente aceita de recessão global. Antes de 2009, os economistas, frequentemente e de modo informal, chamavam de recessão global um período em que as taxas anuais de crescimento caiam abaixo de 2,5% ou 3%. Após 2009, o Fundo Monetário Internacional passou a definir como recessão global um período em que o crescimento se mantém negativo na economia do mundo como um todo – algo que ocorreu em 1975, 1982, 1991 e, em um grau muito mais devastador, em 2009 – ver FMI, 2009.

3 Ver Bullard, Silvia and Iqbal, 2017

4 Summers, 2016; Lagarde, 2014.

5 Wolf, 2018a; Davies, 2018.

6 Choonara, 2010

7 Sharma, 2017.

8 Bhalla, 2002, p. 16, table 2.1; World Bank, 2017, p. 4, table 1.1.

9 Uso aqui as estimativas do setor corporativo ajustadas pela inflação em que o capital fixo está medido ao custo histórico – ver Kliman, 2011, p. 84. Uma outra estimativa pode ser encontrada em Shaikh, 2016, p. 66.

10 Wien, 2010.

11 Aqueles que não estão familiarizados com a teoria econômica marxista podem consultar: Choonara, 2017; Callinicos, 1996, p. 122-159; Harman, 1995; Choonara, 2013; Fine e Saad-Filho, 2016.

12 De fato, as coisas são um pouco mais complicadas, pois o valor do capital fixo em particular cai frequentemente no processo de competição capitalista tal como se mostra logo mais. Um argumento sobre o comportamento da taxa de lucro no capitalismo ver Choonara, 2017, p. 64-72.

13 Sobre a conexão entre lucratividade e investimento ver também Roberts, 2017.

14 Marx, 1991, p. 349-350.

15 Ver, por exemplo, Carchedi, 2011; Roberts, 2016, p. 21-22; assim como Shaikh, 2016, p. 59-61 e p. 730-732. Uma visão alternativa foi fornecida por Kliman, 2011, p. 124.

16 Choonara, 2017, p. 70; Harman, 2007.

17 Kliman, 2011, p. 22-27.

18 Ver, por exemplo, Harvey, 2010, p. 116-118.

19 Callinicos, 2014, capítulo 6. Ver também Callinicos e Choonara, 2016.

20 Marx, 1993, p. 750.

21 Concentração é a formação de grandes capitais por meio do processo de acumulação durante um dado período de tempo, enquanto que centralização ocorre por meio da fusão e da aquisição de empresas capitalistas umas pelas outras – ver Marx, 1990, capítulo 25.

22 Para dar uma ideia desse processo, veja-se o que sugerem os dados do censo de negócios dos EUA de 2007: as oito maiores empresas do setor de fabricação de produtos químicos são agora responsáveis por mais de um quarto do valor agregado total; as do setor produtor de computadores e produtos eletrônicos respondem por dois terços. As oito maiores empresas recebem cerca de dois terços da receita no setor de merchandising em geral, assim como no setor de telecomunicações; no setor de bancos comerciais, o número é pouco inferior à metade e no setor de transmissão de informações pouco mais da metade. De acordo com a UNCTAD, em 2010, as corporações multinacionais geraram um valor igual a mais de um quarto do PIB global – UNCTAD, 2011.

23 O termo “destruição criativa” aqui usado não pertence apenas à economia política marxista. De fato, foi cunhado por Joseph Schumpeter: “a destruição criativa é o fato essencial do capitalismo. É nisso que consiste o capitalismo; toda lógica capitalista consiste apenas nisso” – Schumpeter, 2003, p. 83.

24 Naturalmente, houve alguma reestruturação da economia dos EUA diante da competição global o que pode também ter amenizado a queda da rentabilidade naquele país – ver Harman, 2007, p. 151-152; Harman, 2001.

25 Ver Harman, 2009, capítulo 7. A composição orgânica do capital é a razão entre o valor adiantado na forma de capital constante (máquinas, matérias primas e outros equipamentos) e o capital variável (salários). Em Choonara, 2017, p. 61-63, discute-se esse tópico.

26 Sobre o regime político do neoliberalismo, ver Callinicos, 2012.

27 Citado em Jenkins, 2016.

28 Para possibilitar uma comparação, veja-se que a razão da formação de capital fixo e o PIB era 13%, em 1875, na Grã-Bretanha. Ver as tabelas em Mitchell, 1971, p. 367, 373.

29 Wolf, 2016.

30 Uma das tendências importantes no crescimento explosivo da China foi o aumento da composição orgânica do capital. Em 1990, o montante de capital por trabalhador era inferior a um vigésimo daquele dos EUA; em 2014, era cerca de um quarto e subia rapidamente (ver Zhang, 2016). Inicialmente, os países que ingressam com sucesso nos mercados capitalistas globais podem experimentar alta rentabilidade, com base em altas taxas de exploração e produtividade crescente, o que lhes permite aumentar seu butim de mais-valor em relação ao resto do mundo, à medida que capturam mercados de exportação específicos. Com o tempo, a crescente composição orgânica do capital, combinada com a crescente integração ao sistema mundial e, em alguns casos, a perda da “vantagem” de salários baixos para rivais com salários ainda mais baixos, começa a exercer uma pressão descendente sobre as taxas de lucro. Minqi Li argumenta que o Japão, após seu avanço inicial, sofreu um declínio na rentabilidade e que a China pode enfrentar o mesmo destino – Li, 2007 (cito Li embora discorde de seu método de avaliação da rentabilidade).

31 Kliman, 2011, capítulo 3. Shaikh, 2016, p. 466 observa uma mudança mais geral nos anos durante os quais Alan Greenspan dirigiu o banco central norte-americano (1987-2006). Greenspan e seus sucessores tenderam a baixar as taxas de juros, independentemente do nível geral de preços – em uma ruptura com o padrão em todo o período desde meados do século XIX.

32 Citado em Elliott, 2017; as estimativas de intensidade de capital estão em Zhang, 2016, p. 7.

33 Cooney, 2016.

34 Word Bank, 2017, p. 4, tabela 1.1.

35 Ver Fine, 2013.

36 Marx, 1991, p. 742.

37 Lohr, 2015.

38 Marx, 1991, p. 363.

39 Marx, 1991, p. 596.

40 Marx, 1991, p. 595-596.

41 Marx, 1991, p. 367.

42 Norfield, 2016, p. 140. Os CDOs foram frequente e erroneamente tomados como investimentos “seguros”, mesmo quando estavam fundados em hipotecas “subprime”. Ora, isso em parte ocorreu porque, quando os preços dos imóveis estão subindo, é possível recuperar o investimento em caso da falta de pagamento simplesmente tomando esses imóveis de volta. Os problemas se desenvolveram em 2007 quando um grande número de defaults coincidiu como uma queda dos preços dos imóveis. Ver também Duménil and Lévy, 2011, p. 185-194.

43 Delivorias, 2016, p. 14.

44 Rennison and Smith, 2017.

45 Uma apresentação interessante desse problema encontra-se no livro de Norfield, 2012.

46 Duménil and Lévy, 2011, p. 112.

47 Ver relatório do BIS: www.bis.org/publ/otc_hy1711.pdf. Além disso, parte da redução pode ser devida à “compressão comercial”, operação por meio da qual contratos de derivativos múltiplos que compensam um ao outro são substituídos por um único contrato com a mesma exposição, reduzindo, assim, o valor de reposição; ver Rennison, 2016. A maioria dos contratos de derivativos é descrita como “over-the-counter”. Isso significa simplesmente que eles são concluídos pelas duas partes sem usar um intermediário, como uma troca, a qual imporia maiores restrições regulatórias – Duménil e Lévy, 2011, p. 110.

48 Wolf, 2010.

49 De acordo com Riccardo Bellofiore: “A ‘grande moderação neoliberal’ não passou de um tipo paradoxal de 'keynesianismo financeiro' e 'privatizado'. No cerne de tal modelo anglo-saxão estava a tentativa de superar as tendências estagnacionistas que emergiram por causa dos ‘trabalhadores traumatizados’, os quais, por sua vez, resultaram da transformação de ‘poupadores maníacos’ em ‘consumidores endividados’. Esse consumo ‘autônomo’, alimentado de fato por financiamento e por dívidas bancárias, foi a força motriz de um ‘novo capitalismo’ dinâmico, no fundo insustentável. Pois ele resultara da manipulação econômica e social produzida por um tipo inovador de política monetária” – Bellofiore, 2014, p. 7.

50 Kliman, 2011, p. 14; Roberts, 2016, p. 25-29. Ver também, Choonara, 2009; 2014.

51 Popper and Gough, 2015.

52 Wolf, 2018a.

53 Wolf, 2018b.

54 Upchurch, 2018.

55 Citado em Wearden and Elliott, 2018.

56 Ver Grossman and Woll, 2014.

57 Ver Lapavitsas e outros, 2012.

58 Comfort, Salzano e Sirletti, 2018.

59 Os bancos centrais, embora formalmente independentes do governo na maioria dos países, são mais bem vistos como instituições quase estatais. Como Randall Wray já apontou, o Federal Reserve, o banco central dos EUA, que está sujeito à vontade do Congresso, com a maioria dos altos funcionários selecionados pelos políticos eleitos, atua como o banco do governo federal. É difícil sustentar a ideia de que existe uma independência genuína. Além disso, os bancos centrais se encontram incorporados nas tramas do Estado, as quais abrangem os altos escalões do serviço civil e outros centros do poder estatal. Embora os bancos centrais formalmente independentes estejam menos sujeitos aos caprichos e manipulações diretas dos governos, compartilham com o Estado de forma mais geral uma interdependência sistêmica em prol do capital – Wray, 2014.

60 Authers and Manibog, 2017.

61 Elliott, 2018.

62 McGowan, Andrews e Millot, 2017.

63 Gowan, Andrews and Millot, 2017.

64 BIS, 2017, p. 41-58.

65 BIS, 2017, p52.

66 Cited in Verma, 2017.

67 S&P, 2017.

68 Cited in Spross, 2018.

Referências

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Joseph Choonara ensina no King’s College London. Ele é autor de A Reader’s Guide to Marx’s Capital (Bookmarks, 2017) e de Unravelling Capitalism: A Guide to Marxist Political Economy (2ª edição: Bookmarks, 2017).

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