4 de abril de 2018

Trump, comércio e guerra tecnológica

Michael Roberts 


Tradução / O presidente Trump passou agora do duelo das tarifas sobre o aço e o alumínio (com isenções para alguns aliados) para a verdadeira batalha global: impedir que a China ganhe participação de mercado nos principais setores de atuação comercial dos EUA: tecnologia, indústria farmacêutica e outras atividades baseadas em conhecimento. A China poderá ainda expandir o seu comércio em todo o mundo ou será ela impedida pelas políticas de Trump?

A primeira coisa a analisar são certos dados da situação atual. Os economistas do Goldman Sachs, importante banco de investimentos dos EUA, analisaram as informações disponíveis. Chegaram à conclusão que “a posição dos EUA como líder tecnológico global continua forte. A produtividade da economia norte-americana como um todo continua elevada em comparação com as das outras economias avançadas. As suas participações globais em P & D, patentes e royalties, todas elas derivadas de propriedade intelectual continuam impressionantes”. A China está alcançando os EUA em setores de bens de valor agregado médio, mas ainda está muito longe em setores intensivos em tecnologia fundada em conhecimento. Assim, embora a participação em geral dos EUA nas exportações globais de bens de alta tecnologia tenha diminuído à medida que a participação da China vem crescendo, os déficits comerciais dos EUA se concentraram em bens de média e alta tecnologia e não nas categorias mais avançadas. De fato, a participação dos EUA nas exportações globais de serviços intensivos em conhecimento se manteve firme, de tal modo que o superávit comercial se elevou nesses setores, assim como emprego.

Considere-se a produtividade do sistema econômico como um todo, medida pelo volume da produção por hora trabalhada. Segundo este indicador de eficiência, os EUA continuam fortes mesmo em comparação com outras economias avançadas da Europa e do Japão. O nível da produtividade do trabalho na China é agora apenas 20% do nível alcançado pela economia norte-americana, embora tenha quadruplicado desde 2000.


Ademais, os EUA continuam a investir uma parcela relativamente grande do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento. Embora a participação desse país no volume global de P & D tenha diminuído nos últimos anos, em parte devido a um rápido aumento na participação da China, continua sendo ele o líder mundial, pois responde por quase 30% do total. Em termos de participação no PIB, os EUA estão ainda bem na frente da China. 


O total de patentes concedidas para novas invenções mostra que a participação dos EUA tem permanecido praticamente estável e em torno de 20%. A participação da China no total de patentes concedidas aumentou muito rapidamente na última década; chegou à 20%, mas a maioria das patentes concedidas a inovadores chineses veio por meio de seu próprio registro nacional de patentes; note-se que muito menos foram concedidas no exterior. A participação dos EUA no total mundial de royalties sobre propriedade intelectual diminuiu um pouco, à medida que a participação da União Europeia cresceu, mas ainda assim ela continua muito grande. A participação da China continua insignificante. Isso significa que o capital dos EUA ainda está recebendo a maior parte dos lucros globais associados às invenções tecnológicas. 

A moderna economia dos EUA do século XXI depende cada vez mais de setores tecnologicamente avançados e dependentes de conhecimento para o seu crescimento. A parcela desses setores no PIB norte-americano é agora de 38%, a mais alta dentre todas as grandes economias. Mas a China não está muito atrás, pois eles também respondem por 35% do seu PIB, uma porcentagem surpreendentemente alta para uma economia “em desenvolvimento”. 

A ira de Trump está agora concentrada na participação da China nas vendas de produtos de alta tecnologia nos mercados mundiais. Enquanto os EUA são ainda o maior produtor de bens de alta tecnologia, sua participação nas exportações mundiais vem diminuindo consideravelmente, ao mesmo tempo em que a participação da China tem crescido. Esta crescente competição chinesa fez com que as empresas manufatureiras dos EUA reduzissem sua produção de bens de alta tecnologia, o que foi acompanhado pela redução das vendas, dos lucros e dos empregos.

No setor serviços, tem-se que os EUA são o maior produtor mundial de serviços intensivos em conhecimento; as suas exportações nesse item, ademais, perdem apenas para a União Europeia. A participação da China nesse item continua muito pequena. Se a China ganhar participação de mercado nessa esfera do comércio mundial, os capitais norte-americanos serão realmente prejudicados. 


Eis a razão: embora os EUA tenham um déficit no comércio de bens produzidos por indústrias baseadas em tecnologia e conhecimento, esse déficit tem encolhido desde o início dos anos 2000. Os EUA, portanto, estão se mantendo ou mesmo melhorando nesse aspecto mesmo após a China ter ingressado na Organização Mundial do Comércio. Na verdade, os EUA têm um superávit em serviços intensivos em conhecimento e ele cresceu na última década. É essa vantagem que Trump procura proteger.

Enquanto empregos foram perdidos na indústria de transformação devido as tecnologias poupadoras de trabalho (ou seja, intensivas em capital) e a mudança das plantas manufatureiras dos EUA para a China, a participação dos setores de alta tecnologia e intensivos em conhecimento no volume do emprego subiu; chegou de fato a cerca de um terço de todos os empregos nos EUA. Trump alega estar recuperando os setores industriais tradicionais ou "chaminés" em regiões em que ganhou alguns votos; porém, como se sabe, essa batalha pela volta dos empregos desaparecidos já está realmente perdida devidos as transformações na indústria norte-americana. A verdadeira batalha agora se dá na obtenção de lucros e empregos nos setores baseados no conhecimento, nos quais os EUA ainda dominam. 

A concentração nesses setores, entretanto, é muito alta; na verdade, apenas algumas empresas líderes em tecnologia aí dominam. Há vastos subsetores da indústria norte-americana, mesmo no interior do amplo setor dependente de tecnologia, que pouco se beneficiam dessa superioridade norteamericana. Apenas cinco empresas têm mais de 60% das vendas de produtos nas 4 áreas de biotecnologia, farmacêutica, semicondutores, softwares, internet e comunicação. As cinco principais empresas de cada um desses setores recebem também a parte do leão dos lucros. 


O que isso mostra é que, contrariamente ao que postula a teoria econômica predominante, o "livre comércio" internacional não beneficia a todos, pois os ganhos estão concentrados apenas nas empresas líderes. Eis que estas se aproveitam das redes, da escala e da experiência para obter maior participação nos mercados. A crescente concentração da indústria, por sua vez, tem aumentado as margens de lucro corporativas. Como diz o relatório do Goldman Sachs: “o comércio global encontra-se particularmente concentrado, há poucas “superestrelas” e elas respondem por uma grande parte das exportações em muitos setores e países”. 

Ao contrário do que diz a teoria ricardiana das vantagens comparativas, o comércio internacional é transacionado por empresas e não por países. Nele, os valores (lucros) são transferidos para aquelas empresas que têm vantagens tecnológicas, de tal modo que assim umas ganham às custas das outras. O comércio é, sim, uma forma de desenvolvimento combinado, mas no capitalismo ele sempre ocorre de forma desigual. 

Como argumentei em um post anterior, nos últimos 30 anos, as economias capitalistas mundiais aproximaram-se do “livre comércio”. Houve reduções acentuadas das tarifas, cotas e outras restrições; muitos acordos comerciais internacionais foram implementados. Porém, desde a Grande Recessão e na atual Longa Depressão, a globalização esmoreceu ou mesmo foi paralisada. O grau de “abertura” do comércio mundial (isto é, a participação do comércio mundial no PIB mundial) vem declinando desde o final da Grande Recessão.


À medida que o crescimento econômico mundial permanece baixo e a lucratividade do capital permanece espremida, é esse declínio na globalização que está por trás dessa nova guerra comercial. As investidas de Trump que afetam o comércio mundial têm uma razão objetiva: preservar os lucros e os capitais dos EUA nos principais setores tecnológicos da economia mundial diante da força crescente da indústria chinesa. Os EUA ainda mantêm uma forte liderança nos setores de alta tecnologia e dependentes de propriedade intelectual; o crescimento da China, por enquanto, tem se dado por meio da obtenção de participação no seu próprio mercado e em detrimento das empresas americanas, mas esse avanço ainda não ocorreu globalmente. Mas a China está se expandido...

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