10 de maio de 2018

Ingerência dos EUA na Nicarágua?

Edward Hunt*

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Na última década, os Estados Unidos têm apoiado silenciosamente grupos de oposição na Nicarágua, ajudando-os a organizar a resistência ao popular presidente esquerdista do país, Daniel Ortega.

As autoridades dos EUA esperam que os grupos de oposição no país criem um novo movimento político que possa derrotar Ortega nas eleições ou pressioná-lo para renunciar ao poder. Temem que, sem o seu apoio, a oposição a Ortega permaneça fraca e dividida, tornando impossível que alguém desenvolva uma campanha política bem-sucedida contra o presidente da Nicarágua.

“Os nossos programas de assistência são principalmente direcionados à sociedade civil, a fim de limitar o envolvimento com o governo central”, disse o representante do Departamento de Estado, Juan Gonzalez, ao Congresso, em setembro de 2016.

Os programas de assistência parecem estar a produzir algum efeito, especialmente agora, que grupos da oposição estão a liderar grandes protestos contra o governo nicaraguense. Depois de o governo da Nicarágua ter aprovado uma série de reformas moderadas no programa de segurança social do país, em abril, os opositores de Ortega organizaram uma série de protestos que, rapidamente, se tornaram violentos.

Alguns observadores estimam que morreram nos protestos cerca de 45 pessoas.

Desde que os protestos começaram, as autoridades dos EUA declararam seu apoio à oposição, responsabilizando o governo nicaraguense pela violência. Mas não disseram se algum dos manifestantes beneficiou da sua assistência.

Embora haja dúvidas sobre a extensão do envolvimento dos EUA, não é segredo que os Estados Unidos têm, historicamente, desempenhado um papel de mão de ferro na Nicarágua. No início do século XX, os marines dos EUA ocuparam o país por duas décadas. Quando os fuzileiros navais saíram, na década de 1930, entregaram tudo à família Somoza, que governou a Nicarágua, com o apoio dos EUA, dos anos de 1930 a 1970.

No final dos anos 1970, os Sandinistas derrubaram a ditadura de Somoza, apoiada pelos EUA, numa revolução popular. Após a revolução, Ortega liderou um novo governo, que começou a atribuir mais recursos à educação e aos cuidados de saúde, ajudando a aumentar a alfabetização e a reduzir a mortalidade infantil.

Para evitar o sucesso da revolução, as autoridades dos EUA dirigiram duas grandes campanhas contra os Sandinistas. Em meados da década de 1980, a administração Reagan organizou uma guerra terrorista contra a Nicarágua, apoiando as forças contrarrevolucionárias (“contras”), que tentaram derrubar o novo governo da Nicarágua. Enquanto os contras desenvolviam a sua campanha de terror, as autoridades americanas começaram a apoiar os opositores políticos de Ortega, ajudando-os a ganhar o poder político nas eleições presidenciais do país, em 1990.

Nos anos seguintes, as autoridades dos EUA permaneceram intimamente envolvidas com os seus aliados políticos. Telegramas diplomáticos dos EUA, publicados pela WikiLeaks, revelam que as autoridades americanas continuaram a trabalhar para manter os seus aliados políticos no poder, ao mesmo tempo que impediam que os sandinistas recuperassem o poder político. Antes das eleições presidenciais de 2006, os diplomatas dos EUA encabeçaram uma multifacetada campanha para direcionar fundos para os seus aliados políticos, enquanto desencorajavam os eleitores de votar em Ortega.

Apesar desses esforços, a intromissão dos EUA não foi suficiente para inclinar a eleição presidencial em favor dos candidatos apoiados pelos EUA. Ortega venceu, regressando ao poder e proporcionando aos Sandinistas a oportunidade de reviver a sua revolução.

Diplomatas dos EUA na Nicarágua ficaram espantados com o resultado. Apelaram a uma intensificação dos programas para enfrentar Ortega. “Precisamos tomar medidas decisivas e bem financiadas para fortalecer os membros da sociedade nicaraguense que melhor possam pará-lo, antes que ele acalme e leve à complacência a maioria do povo nicaraguense, ou os ameace para os levar ao silêncio”, relataram.

Em setembro de 2016, a funcionária dos EUA, Marcela Escobari, disse a um comité do congresso que a USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – NT] estava a trabalhar com mais de 2.000 “jovens” e mais de 60 organizações da sociedade civil para os ajudar a desempenhar um papel mais ativo na política e na sociedade da Nicarágua. “Esses esforços estão a permitir que eles exercitem o seu músculo político e vejam os resultados”, disse ela.

Contudo, nem sempre tem sido fácil para as autoridades dos EUA mobilizarem a oposição. Desde que voltou ao poder, Ortega criou uma série de programas populares de bem-estar social, dando aos nicaraguenses educação gratuita, assistência médica gratuita e vários programas de melhoramento da habitação. Os programas têm sido bastante eficazes, aumentando os rendimentos e reduzindo significativamente a pobreza.

Os programas também respaldaram a popularidade de Ortega, especialmente entre os pobres.

Em setembro de 2016, um relatório do Serviço de Investigação do Congresso descreveu Ortega como “a figura política mais popular na Nicarágua”.

No mesmo mês, o funcionário do Departamento de Estado, Juan González, reconheceu que Ortega era apoiado pela maioria da população, atribuindo este apoio a “muitos dos investimentos sociais que fez no país”.

Independentemente disso, as autoridades dos EUA não abandonaram os seus esforços para remover Ortega do poder. Apesar de muitos funcionários reconhecerem que Ortega manteve políticas económicas favoráveis ​​aos investidores e aos negócios das empresas dos EUA, insistem que ele não está a fazer o suficiente.

No início deste ano, a embaixadora dos EUA na Nicarágua, Laura Dogu, queixou-se de que os investidores internacionais enfrentam demasiados riscos no país. Disse ela que a mão-de-obra barata do país, a que chamou a sua “principal vantagem competitiva”, estava a perder o seu apelo. “À medida que mais atividades são feitas por robôs, o custo do trabalho torna-se irrelevante”, disse.

Dogu insistiu que o povo nicaraguense deve aceitar reformas económicas radicais se quiser que o seu país continue relevante na economia global. Apelou a mais treino vocacional para jovens e à introdução de culturas geneticamente modificadas no país. “A Nicarágua pode optar por capturar mercados emergentes e indústrias em crescimento ... ou por ficar para trás, enquanto outros países aproveitam essas oportunidades”, disse.

Mas o maior problema, segundo os funcionários dos EUA, é que Ortega continua o líder da Nicarágua. Enquanto permanecer como presidente, eles temem nunca ser capazes de levar o país para o caminho que preferem.

Eles veem Ortega como uma “relíquia” da Guerra Fria, como o senador Marco Rubio uma vez lhe chamou. O tempo das revoluções esquerdistas na América Latina acabou, acreditam eles. E com os líderes esquerdistas a serem expulsos de cargos políticos na região, as autoridades dos EUA esperam que Ortega seja o próximo.

* Edward Hunt escreve sobre a guerra e o império. Tem um PhD [Doutor de Filosofia – NT] em Estudos Americanos, no College of William & Mary.

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