1 de maio de 2018

Onde tudo começou: o despertar das Fake News

David Macaray

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Há tempos sugerem que o primeiro exemplo completo de uma “fake news” – no qual falsas informações são intencionalmente apresentadas em um “veículo de mídia” falso mas creditável de forma a moldar a opinião pública – ocorreu durante as eleições para governador da Califórnia em 1934.

Os dois protagonistas eram o encarregado Republicano, Frank Merriman, e seu oponente Democrata, Upton Sinclair. Merriman, um peso leve político sem perfil nacional, era visto pelo Comitê Nacional Republicano (RNC) como um macaco de circo do partido da região da costa oeste. Como vice-governador ele foi lançado para o cargo quando o governador James “Sunny Jim” Rolph morreu de um ataque cardíaco em junho de 1934, meses antes da eleição.

Seu oponente principal, Upton Sinclair, era um socialista, jornalista e reformista, autor do celebrado “The Jungle”, o best-seller que expôs a indústria de empacotamento de carne de Chicago. Porque o país ainda estava se recuperando da pior depressão econômica da história, Sinclair escolheu basear sua campanha no projeto EPIC (Acabar com a Fome na Califórnia).

Basicamente, EPIC era um programa socialista ambicioso cujo objetivo era trabalho para todos. Dentre outras coisas, EPIC prometeu grandes programas públicos de emprego, a reorganização da indústria da agricultura em cooperativas, e controle estatal virtual das fábricas da Califórnia.

Dada a popularidade geral do New Deal de Roosevelt, e o fato de que a esquerda norte-americana ainda estava se alimentando de migalhas da Revolução Russa de 1917, a noção de “eliminar pobreza” era considerada não somente como necessária mas também como algo viável.

Além de Merriman e Sinclair, haviam dois jogadores notáveis: Louis B. Mayer, o poderoso da MGM, cujo domínio sobre a indústria cinematográfica permitia que se comportasse como o deus sol (pense em um Harvey Weinstein ampliado 100x), e a firma de publicidade e relações públicas, Whitaker & Baker.

Em relação às fake news, acontecia assim: Louis B. Mayer abraçou a missão de garantir que a Califórnia, mesmo estando atada economicamente, não sofresse com os objetivos socialistas doutrinários de Upton Sinclair. Ele fez isso com a mágica e músculo de Hollywood.

Mayer contratou Whitaker & Baker para produzir uma série de noticiários falsos que iriam, por certo, não somente influenciar pessoas, como também assustá-las. Disfarçados para lembrarem noticiários verdadeiros, Mayer garantiu que esses instrumentos de propaganda fossem mostrados nos cinemas da Califórnia – tão reais quanto os noticiários. O público não tinha a menor ideia que estava sendo enganado. As pessoas ou ficavam confusas com o que viam, ou morriam de medo.

Um exemplo desses noticiários de fake news contou com hordas de pedintes desesperados emergindo dos vagões de um trem. Um jornalista falso estava lá para entrevistá-los. Um dos pedintes explicou que sua presença na Califórnia era por causa de Sinclair, declarando “ele vai tirar a propriedade dos trabalhadores e vai dar para nós”. O público não precisa de decodificadores bolcheviques para entender a mensagem.

Em um outro exemplo, um homem barbudo, mal arrumado, (o oposto de um homem de Iowa, bem apessoado) com um sotaque russo falso, explica porquê iria votar em Sinclair. “Seu sistema funcionou bem na Rússia, então porque não funcionaria aqui?”

É claro, até as agências de publicidade mais famosas nunca sabem ao certo se esses pontos incendiários vão funcionar, e isso aconteceu com a Whitaker & Baker. O jeito que as agências (e seus clientes) consideram sua potência é pelos resultados. Como costumam dizer, tudo o que você pode fazer é botar no chão e ver se o gato lambe.

Mas no geral a campanha de fake news de Mayer foi um sucesso. Merriman ganhou com quase 48% dos votos, Upton ficou em segundo com quase 37% e Raymond Haight, concorrendo como Progressista, ficou com 13%. Samuel Darcey estava na disputa como candidato do Partido Comunista, e Milen Dempster como candidato do Partido Socialista. Nenhum dos dois chegou perto de metade de 1%.

Enquanto as campanhas políticas e as propagandas de hoje se tornaram mais sofisticadas e sutis, a ética se mantém cheia de vermes. Considere o “push poll” como primo de primeiro grau das fake news de Mayer.

Nesse caso, os sondadores fingem estar fazendo uma pesquisa, mas estão na realidade empurrando uma agenda. Aconteceu na Carolina do Norte, em 2000, durante as primárias Republicanas entre George Bush e John McCain. Os sondadores fizeram essa pergunta aos eleitores: você estaria mais ou menos inclinado a votar em um candidato que gerou uma criança negra fora do casamento?

Não acusaram diretamente McCain de gerar uma criança mestiça porque isso exigiria provas. Ao invés, disseminaram rumores ao fingir que eram perguntas inocentes. As pessoas ainda insistem que esse push poll funcionou. Que foi responsável pela vitória de Bush. E porque não funcionaria aqui?

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