26 de junho de 2018

Este momento vai ficar para a história: os EUA desistiram da derrubada de Assad na Síria

Quando Washington "entende as condições difíceis" que seus aliados da milícia estão enfrentando e diz que "aconselha" os russos e sírios a não violar um cessar-fogo - que foi ideia de Moscou, em primeiro luga - você sabe que os americanos estão puxando o tapete de outro conjunto de aliados

Robert Fisk

The Independent

Fonte: Associated Press

Tradução / Ficará conhecida como a grande traição, e acontece há muito tempo. A sombria mensagem de Washington aos combatentes opositores de Bashar al-Assad no sul da Síria, que não podiam mais esperar a ajuda do Ocidente em sua luta posterior contra o regime ou contra os russos, figurará algum dia nos livros de história. É um ponto de inflexão na guerra da Síria, uma vergonhosa traição para o que restou do Exército Sírio Livre (FSA, por sua sigla em inglês) e seus apóstolos ao redor da cidade de Daraa, e uma vitória mais para as forças de Assad em sua ambição de retomar todo o território sírio das mãos dos rebeldes.

Os mísseis russos e as bombas sírias já estão apontando ao sul e ao leste de Daraa, e nos arredores de Quneitra e As-Suwayda, depois que os combatentes opositores rejeitaram uma paz negociada na semana passada. Os refugiados fogem novamente das cidades. Mas as palavras da carta estadunidense aos combatentes, publicadas pela Reuters e até agora não negadas pelos Estados Unidos, são sombrias e sem esperança: “não deveriam basear suas decisões na presunção ou na expectativa de uma intervenção militar nossa. O governo dos Estados Unidos compreende as difíceis condições que enfrentam, e ainda tenta aconselhar os russos e o regime sírio a não empreender uma medida militar que viole a zona”.

Quando Washington “entende as difíceis condições” enfrentadas por seus milicianos aliados e diz que “tenta aconselhar” os russos e os sírios a não violar um cessar fogo - que foi ideia de Moscou, em primeiro lugar -, significa que os estadunidenses estão retirando seu apoio a outro grupo de aliados. Mas os Estados Unidos também perceberam que seus milhões de dólares gastos em treinamento e armas foram parar nas mãos da al-Nusra (também conhecida como Al-Qaeda) e que a frente al-Nusra tem aldeias e posições dominadas nos arredores de Daraa, território nominalmente nas mãos dos conhecidos “moderados” do FSA – cuja força mítica seria de 70 mil homens, segundo disse David Cameron alguma vez.

Nem o Hezbollah nem a relativamente menor Guarda Revolucionária iraniana parecem estar envolvidas na batalha pelo sul da Síria, e tenham a certeza de que os estadunidenses e os russos - e, portanto, o governo sírio - decidiram que isso deveria ser uma ofensiva russo-síria. Tanto Vladimir Putin como quem quer que fale em nome de Donald Trump asseguraram aos israelenses que esta será uma batalha interna, e que não colocará em perigo o lado sírio das Colinas de Golã, ocupado por Israel. Se supõe que o chamado Centro de Operações Militares em Amã (ou MOC, segundo sua sigla em inglês) deve armar e financiar o grupo de milícias que ainda lutam no norte da fronteira jordaniana. Mas não é mais assim.

Os israelenses até agora só atacaram objetivos sírios e iranianos na Síria, mas nunca o culto islamista do Estado Islâmico nem o al-Nusra/al-Qaeda. Os Estados Unidos, desesperado por não poder derrubar Assad, agora parece ter abandonado a oposição armada ao governo de Damasco, presumivelmente aconselhando Israel a regressar ao status quo em Golã que existia antes da guerra síria, quando as forças israelenses e sírias estavam separadas por uma zona de defesa da ONU. É preferível isso do que se arriscar a um tiroteio com o Irã, ou com o exército sírio.

O MOC, segundo um ex-combatente da oposição em Damasco, escolheu controlar todas as atividades rebeldes - ou seja, o FSA -, mais especificamente as que se negou a ajudar há quatro anos, quando os combatentes na capital buscaram morteiros e artilharia para atacar o palácio presidencial. Segundo a fonte, os oficiais do MOC - um comandante britânico e um oficial saudita - ofereceram somente um reabastecimento de armas pequenas. Mas isso foi apenas uma advertência sobre o que viria. Desde então, os curdos aprenderam o que isso significa no norte da Síria.

Eles com certeza beberam duas vezes do vil cálice da traição. Kissinger o serviu quando fez a paz entre Saddam Hussein e o Xá do Irã em 1975, cortando uma operação da CIA de 16 milhões de dólares para ajudar os curdos a atacar o ditador iraquiano. Logo, os estadunidenses viram como Saddam destruiu os curdos em 1991, após a liberação do Kuwait.

A Síria teme que os israelenses criem sua própria “zona de defesa” agora, debaixo do Golã, similar em estilo, armamento e crueldade à antiga zona de ocupação de Israel no sul do Líbano. Isso durou 22 anos, mas se desmoronou quando a milícia libanesa local de Israel, o Exército do sul do Líbano, tão ineficiente, indigno de confiança e ocasionalmente tão fictício quanto o FSA, se retirou junto com os israelenses, em 2000.

Do outro lado do mapa da Síria, entretanto, está o poder do Ocidente, que agora parece estar em retirada. Se está disposto a dar as costas aos seus antigos aliados na Síria, então a Rússia é a vencedora (assim como al-Assad) e todas as frágeis milícias que restam em Idlib, ao longo da fronteira turca e certamente no sul do país, estão condenadas. As instruções dos Estados Unidos aos seus aliados nos arredores de Daraa - “a rendição” poderia ser um termo melhor para resumir - podem ser vistas como uma pequena vitória: Washington pode afirmar que manteve o Irã distante de Israel. Mas também significará que os Estados Unidos e a OTAN abandonaram o objetivo de acabar com a família Assad.

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