2 de setembro de 2018

Escrevendo o "Capítulo de Sobrevivência Lute-ou-Pereça" dos sindicados

A crescente militância sindical que aparece nas manchetes tem raízes nos esforços lentos e constantes dos trabalhadores em todo o país.

Sarah Jaffe

The New York Times

Riot police trying to prevent protesters from blocking an entrance to the mall at 1st and D Streets in Washington, D.C. Créditos: Victor J. Blue, do The New York Times

No ano passado, o movimento sindical americano foi dominado por duas questões. Primeiro, a decisão do caso Janus, em que a Suprema Corte determinou que os trabalhadores do setor público cobertos por contratos sindicais não precisavam mais pagar os custos de sua representação. E segundo, o movimento "Red for Ed" [Vermelho pela Educação], a onda de greves de professores, principalmente em estados conservadores com poucas proteções sindicais.

As revoltas dos professores, desde a Virgínia Ocidental alcançando todo o país, produziram semanas de notícias de primeira página e, sem dúvida, estão ajudando a alimentar as greves que já acontecem ou estão pendentes neste outono: milhares de professores do estado de Washington estão nos piquetes e os professores de Seattle e Los Angeles votaram a favor de indicativos de greve.

Essa crescente militância trabalhista têm suas raízes nos esforços lentos e duros feitos, nos últimos anos, por camadas dos trabalhadores que são constantemente atacadas por ambos os principais partidos políticos e até mesmo menosprezadas por grande parte do próprio movimento sindical organizado. Os trabalhadores estão se esforçando ao longo de semanas, meses e anos para construir novos sindicatos, fortalecer e reivindicar os moribundos, e até mesmo começar a desbravar o muro das novas leis contra as contribuições sindicais compulsórias, aprovadas desde 2012. Seu trabalho significou um ligeiro aumento no número de membros de sindicatos, e um aumento na aprovação pública dos sindicatos – sugerindo que quanto mais os americanos vêm os sindicatos lutarem, em greve, pelo que eles acreditam, mais queremos nos unir a eles.

No Missouri, um movimento obteve a convocação de um plebiscito estadual sobre a lei contra a contribuição sindical compulsória. Não só os eleitores derrubaram a lei esmagadoramente, mas o referendo atraiu mais votos do que os elencados nas primárias do partido, que ocorrem no mesmo dia. Os sindicatos do Missouri e organizações trabalhistas como "Trabalhos com Justiça" lideraram a luta, mas em um estado onde apenas cerca de 9% da força de trabalho é representada por um sindicato, a classe trabalhadora teve que mobilizar muitos trabalhadores não-sindicalizados para rejeitar esta lei. A coalizão dependia fortemente dos eleitores negros e latinos, quase certamente se beneficiando das forças emergidas da revolta de 2014 em Ferguson.

É cedo demais para dizer se a votação no Missouri é um ponto de virada para o movimento dos trabalhadores. Mas talvez seja hora de relembrar os protestos dos trabalhadores em 2011, em Wisconsin, como tal. Apesar da onda de ataques aos sindicatos públicos e privados, um estado após o outro, ter seguido na toada da "bem-sucedida" lei antissindical do governador Scott Walker [o Ato Número 10], os sindicatos de Wisconsin já começaram a mostrar seu poder novamente. Os protestos do "Red for Ed" lembraram o Capitólio ocupado de Wisconsin, no inverno de 2011, e se o setor público de Wisconsin tem sido o parâmetro para o movimento operário sob a vigência do julgamento do caso Janus, há motivos para otimismo, mas também para um indicativo do quão duro será nosso trabalho daqui em diante.

Amy Mizialko, presidente da Associação de Professores de Milwaukee, disse que o sindicato teve que vencer as lutas – apesar de ser legalmente impedido de barganhar qualquer outra coisa além de aumentos de custo de vida – organizando-se ao lado dos pais e mães, e conquistando a comunidade para seu lado através de bandeiras como a defesa de turmas menores e até mesmo de mais recesso para os alunos.

"Mesmo que o Ato Número 10 tenha sido sentido e, de muitas maneiras, tenha realmente sido um encerramento", disse Mizialko, "é um capítulo do livro, e há muitos outros capítulos que vêm depois dele. Isso é o que os membros vêm dizendo e sentindo há sete anos e meio – estamos escrevendo o capítulo de sobrevivência, de luta ou morte, mas não estamos interessados apenas em sobreviver. Nós queremos tudo de volta."

Barbara Madeloni, ex-presidente da Associação de Professores de Massachusetts, e que agora trabalha para o "Labor Notes", um projeto de mídia e organização para ativistas sindicais, disse que a organização de professores sob regimes legais hostis inspirou a organização em vários setores: "Os trabalhadores estão mostrando uns aos outros como obter e fazer uso do seu poder – e espero ver mais greves e lutas dos trabalhadores quando eles ensinam uns aos outros."

Esses trabalhadores estão mudando a forma como os líderes sindicais pensam sobre poder político. "É um verdadeiro desafio para os líderes sindicais reconhecer que nossa força está no povo trabalhador – em nos recursamos a trabalhar – e não nas casas legislativas e governo", disse Madeloni.

Sarah Jaffe é autora de “Necessary Trouble: Americans in Revolt.”

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