30 de setembro de 2018

Munique e os muniquenses, 80 anos mais tarde

Annie Lacroix-Riz

La Presse Nouvelle

Tradução / "O Ocidente", recentemente rebatizado "comunidade internacional", trata como "muniquenses" todos os que criticaram a cruzada que Washington levou a cabo contra a URSS, acusada de "expansão mortífera", mal tinha secado a tinta dos compromissos forçados firmados com ela em Ialta e Potsdam, e a ininterrupta política da canhoneira, depois de 1950 (e da "guerra da Coreia"), intensificada depois dos anos de 1990.

O tema floriu em Paris contra «Nasser-Hitler» depois do anúncio pelo líder egípcio, em julho de 1956, da sua nacionalização do canal do Suez. Não conheceu tréguas depois da primeira guerra, com o Iraque, no Próximo Oriente, ou, na Europa, contra «Milosevic-Hitler» como diziam os cartazes colados nas paredes da União Europeia para denunciar a expansão da «Grande Sérvia» ou a sua «Operação Ferradura»[a] .

A verdadeira história da execução da Checoslováquia...


Os mesmos cruzados, porém, nunca explicam aos povos, assim dissuadidos de entrar em pactos com as forças dos novos Hitler que ameaçam «o Ocidente», o que foi a conferência de Munique. Realizada na noite de 29 para 30 de setembro de 1938 entre Hitler, ladeado por Mussolini, casamenteiro oficial, Chamberlain (Londres) e Daladier (Paris), a conferência foi o resultado do velho abandono francês da Checoslováquia e o momento-chave do «Apaziguamento» franco-inglês face ao imperialismo alemão abertamente belicoso.

A Checoslováquia tinha sido o símbolo por excelência da vitória do imperialismo francês sobre os impérios centrais, único «Estado sucessor», stricto sensu, do império austro-húngaro – os outros dois eram a Roménia e a Sérvia, que se tornou Jugoslávia (oficialmente «Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos» até 1929), não sendo mais do que acrescentos dos despojos dos austro-húngaros. As fronteiras deste Estado, criado pela França e que continuou fiel até à sua morte ao imperialismo francês, foram fixadas conforme os interesses metalúrgicos e mineiros do grupo Schneider du Creusot (Eugène Schneider em pessoa). Este tinha convencido o Quai d’Orsay[b] a integrar o território de Teschen, rico em carvão, neste Estado recém-nascido, em vez de o entregar à Polónia, porque os trabalhadores checos eram menos combativos que os mineiros polacos. Schneider recebeu também a propriedade ou, mais tarde, o controloecompleto, à custa dos retoques cosméticos do capital, do fabricante de armamentos Skoda, equivalente austríaco da Krupp. A norma francesa de preservação do aliado principal tinha em grande medida motivado a proibição do Anschluss[c], de que o Reich foi devidamente notificado, quer pelo tratado de Versalhes, quer pelo de Saint Germain: os «meios bem informados» clamavam que, em 1918-1919, a anexação da Áustria arrastaria fatalmente, e a breve trecho, a da Checoslováquia.

Foi também Schneider que ditou a sua morte, num contexto que esclarecia bem as relações entre o imperialismo francês e os imperialismos dominantes. O «Diktat» de Versalhes não tinha sido respeitado desde logo em diversos domínios, dada a inclinação do capital financeiro francês para lidar com o seu homólogo alemão, parceiro essencial, no Sarre e em outras zonas, e protegido do grande aliado americano, credor imperioso. Desde os anos de 1920 da «reconciliação» franco-alemã oficial e, mais ainda, no decênio de 1930, que os cartéis metalúrgicos consagraram a superioridade esmagadora da indústria alemã, com o aval do grande capital francês, incluindo o feudo colonial do leste da Europa que lhe tinha proporcionado a vitória de 1918 («Estados sucessores» e a Polônia).

Durante a crise, que fez afundar as exportações, e quando "os mercadores de canhões" franceses se recusavam a rearmar a França contra o Reich, Schneider rejeitava a concorrência da Skoda. A casa mãe violou os acordos anteriores, designadamente sobre o monopólio "checoslovaco" sobre o mercado romeno, tão próspero, assim como sobre o mercado polaco, cujos Estados se armavam até aos dentes contra... a URSS; depois, considerou mais rentável vender a Skoda ao Reich que, ele sim, se rearmava e tinha necessidade do notável potencial militar-econômico da Praga.

Paris nada tinha a recear do alto pessoal político da «democracia» checoslovaca, único apresentável dos Estados aliados antissoviéticos, estando a Romênia, a Jugoslávia e a Polônia nas mãos de ferozes ditaduras consolidadas pelas armas e pelos auxiliares franceses: cumulada de prebendas, entre as quais os lugares dos conselhos de administração na Skoda-Schneider e outros, a Checoslováquia vinha comer à mão dos seus benfeitores franceses.

Tão sensível às sirenes alemãs como o seu tutor francês, resignou-se, a partir de 1928 ao... Anschluss, Benès[d] e os seus incluídos. A segurança nacional do país dependia do domínio dos Sudetos montanhosos, pilar geográfico e econômico da sua resistência militar, onde se concentrava o material Schneider, com uma réplica da linha Maginot[e] e da sua aliança «do avesso» antialemã.

A aliança militar defensiva Benès-Herriot de 1924-1925 não valia nada. Joseph Barthélémy, o impedido do Comité das Forjas[f], fascista eminente e futuro ministro da Justiça de Pétain, foi encarregado de comunicá-lo aos iminentes crucificados, em 11 de abril de 1938, num artigo retumbante do sobredito Comité, Le Temps [O Tempo], voz do Quai d’Orsay e predecessor do Monde [Mundo]. Esta aliança era tão oca que Paris quis suprimir o seu adido militar em Praga desde o fim dos anos 1920, depois renunciou a esta confissão prematura, deixando no seu posto até ao grito final o tchecófilo e impotente general Faucher, privado de «missão militar».

A única aliança que teria podido salvar Praga era com a URSS, assinada em 16 de maio de 1935 e ligada à aliança franco-soviética de 2 de maio. A outra estava neutralizada porque Laval, os seus sucessores, o secretário-geral do Quai d’Orsay, Alexis Léger (1933-maio de 1940)[1] e o ministério da Guerra, furioso contra os bárbaros do leste, se barricaram com eficácia, mesmo até ao início de agosto de 1939, contra a assinatura de acordos militares e aeronáuticos, os únicos que lhe podiam dar vida. Proibiram também aos seus fiéis, entre os quais Benès, de aplicar a aliança checo-soviética que Moscovo tinha proposto, em Praga, tornar-se bilateral, de 1936 até à capitulação checoslovaca perante o diktat franco-inglês.

Entre as benfeitorias que, em 1938, os Apaziguadores contavam proporcionar ao Reich, completamente incapaz de se lançar na guerra mas tão bom cliente, devedor compreensivo e tão resoluto a livrar dos Sovietes o mundo inteiro (mas também obcecado pela «Vingança» contra o ocidente), estava o Anschluss. Este aconteceu, tranquilamente, em março de 1938, como tinha sido previsto na reunião franco-inglesa realizada em Londres, a 29 de novembro de 1937, onde os radicais Chautemps, presidente do Conselho, e Yvon Delbos, Ministro dos Negócios Estrangeiros, fingiram ceder à “governação inglesa” – Chamberlain, Primeiro Ministro e Eden, secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros –, que os intimava a satisfazer também as «legítimas» reivindicações nacionais dos Sudetas emitidas pelo fantoche de Berlim, Henlein. Paris e Londres recolheram os aplausos calorosos de Washington, que então parecia indiferente à tutela alemã sobre a Europa, e do Vaticano, instrumento incondicional da expansão do Reich, desde que Bento XV se envolveu, no início de 1919, a ajudá-lo a conquistar o «Altreich»[g] (nas suas fronteiras de novembro de 1918) e a conquistar a totalidade do império austro-húngaro, cujos povos eram guiados pela Igreja romana desde o nascimento até à morte.

A esta penúltima etapa da invasão, levada a cabo em 1 de outubro de 1938, juntamente com a dos Sudetas, seguiu-se facilmente a última: o assalto alemão contra o coto checoslovaco, a 15 de março de 1939. Entretanto, em dezembro de 1938, Schneider, sob a máscara «checa», vendeu a Skoda ao conglomerado Dresdner Bank-Krupp, através do futuro primeiro-ministro das Finanças de De Gaulle, Aimé Lepercq, chefe da União Europeia Industrial e financeira (Schneider) e, durante a ocupação, «diretor responsável» do comité de organização das hulheiras (ditas «combustíveis fósseis»). O «Sedan diplomático»[2] [h], com o compromisso da invasão da França, tinha sido ratificado em 4 de outubro na Câmara de Deputados por 535 votos – da SFIO [Secção Francesa da Internacional Operária] a toda a direita reunida – contra 75: os 73 dos deputados comunistas, do direitista mas antinazi Henri de Kerillis e do deputado da SFIO Jean Bohey.

O «sobressalto» oficial dos «pacifistas», depois de 15 de março de 1939, puro engodo, não é defendido a não ser pelos historiadores indiferentes às fontes originais, e por todos os que, em 10 de julho de 1940, votaram os plenos poderes a Pétain, ratificaram Munique e concordaram com tudo o que se lhe seguiu.

A eterna defesa dos "Muniquenses": o pacto germano-soviético


Como descrever publicamente o que foi "Munique", onde, intencionalmente, os Apaziguadores permitiram ao Reich, não apenas liquidar um aliado apresentado aos franceses durante tanto tempo como pivô da "aliança no reverso", mas também apagar a sua vitória de 1918?

Para quê falar daquilo que incomoda, agora que se pode continuar a atacar a «traição» dos Sovietes, o pacto de não-agressão germano-soviético e a esconder a dupla realidade para que os embaixadores e os adidos militares franceses e britânicos tinham alertado incansavelmente, no virar de 1932 (momento em que foi claramente compreendido, em Londres e Paris, a viragem antialemã da política externa soviética), até ao próprio dia da assinatura do pacto, em 23 de agosto de 1939: 1.º, perante o perigo militar alemão, «os Russos» queriam regressar à aliança tripartida de 1914; 2.º, se eles rejeitavam vivamente o veto de Paris e Londres deveriam negociar um compromisso provisório com Berlim.

O obstinado ódio antissoviético realizou todas as previsões de setembro de 1938, e não apenas as dos comunistas, sobre as funestas consequências do «Sedan diplomático» assinado em Munique: a invasão iminente, que a aliança e as divisões russas (não «os taxis de la Marne») tinham evitado à França em 1914-1915. É o assassinato franco-inglês da Checoslováquia, seguido pela rejeição das ofertas de alianças soviéticas, formais e renovadas, o que define os «Muniquenses». Aqueles cujos herdeiros contemporâneos se deixam espezinhar, tão alegremente como outrora, pelos seus poderosos «aliados» ou tutores, espadeirando contra os «Muniquenses» imaginários.

Notas


[1] NDLR Marie-René Auguste Alexis Leger, dito Saint-John Perse, foi também poeta, escritor e laureado com o prémio Nobel de literatura em 1960.

[2] Gabriel Péri, L’Humanité, 01/10/1938.

Referências


Michel Collon, especialista da «propaganda de guerra», Poker menteur. Les grandes puissances, la Yougoslavie et les prochaines guerres [Poker Mentiroso. As grandes potências, a Jugoslávia e as próximas guerras], EPO, Bruxelas, 1997, esgotado mas indicado nos sítios da FNAC e da Amazon e Libye, OTAN et médiamensonges: Manuel de contrepropagande [Líbia, NATO e Mentiras mediáticas: Manual de contrapropaganda]. Investig’action, 2011.

Géraud André (Pertinax), Les fossoyeurs: défaite militaire de la France, armistice, contrerévolution [Os coveiros: derrota militar francesa, armistício, contrarrevolução], New-York, Ed. de la Maison française, 1943, 2 vol., 284 p.

Annie Lacroix-Riz, Le Vatican, l’Europe et le Reich de la Première Guerre mondiale à la Guerre froide (1914-1955), [O Vaticano, a Europa e o Reich da Primeira Guerra mundial à Guerra fria (1914-1955)], Armand Colin, Paris, 2010, 710 p., 21,10 € ; Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930 [A escolha da derrota: as elites francesas nos anos de 1930], Armand Colin, Paris, 2010, 688 p., 40,60 € ; De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3e République, 1938-1940, [De Munique a Vichy, o assassinato da III República, 1938-1940], Armand Colin, Paris, 2008, 416 p., 32 € ; Aux origines du carcan européen, 1900-1960 [Nas origens do jugo europeu, 1900-1960]. La France sous influence allemande et américaine, [A França sob influência alemã e americana] Delga-Le temps des cerises, Paris, 2016, 197 p., 10,81 €.

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