23 de setembro de 2018

Não "em farrapos": Porque o Ocidente não conseguiu destruir a economia da Rússia

Eric Zuesse

Strategic Culture Foundation


Tradução / Apesar das sanções econômicas de Barack Obama contra a Rússia, e da redução nos preços do petróleo que o rei Saud acertou com o secretário de Estado de Obama John Kerry no dia 11 de setembro de 2014, os danos econômicos que EUA e sauditas miraram e dispararam contra um específico gigante de petróleo e gás, a Rússia, já aparecerem em vários lugares muito mais graves que na Rússia – pelo menos, até agora.

Aconteciam ao mesmo tempo que o violento golpe de Obama, em fevereiro de 2014 para derrubar o governo da Ucrânia, democraticamente eleito e pró-Rússia, do presidente Viktor Yanukovych (e que o diretor de Stratfor, instituto conhecido como ‘a CIA privada’ chama de “o mais escandaloso golpe em toda a história”) levava a economia da Ucrânia para poço ainda mais fundo que o poço russo. O mesmo golpe de Obama também fez disparar rumo à estratosfera a corrupção na Ucrânia, tornando o país ainda mais corrupto do que antes de os EUA porem fim a um governo que, afinal, os ucranianos haviam conseguido eleger livremente. Tudo isso somado, vê-se que a economia da Ucrânia foi muito mais agredida que a economia da Rússia pelo golpe de Obama na Ucrânia e, depois pelas sanções econômicas de Obama contra a Rússia (sanções baseadas em mentiras patentes e demonstráveis que Obama mentiu aos norte-americanos e ao mundo, e que continuam, superficialmente pioradas, a ser mentidas por Trump).

Bloomberg News publicou em manchete dia 4/2/2016: “Conheça as economias mais miseráveis do mundo” e um “índice da miséria”, em que aparecem as 63 economias nacionais com previsões para 2016 e 60 como estavam em 2015 — um sistema de ranking que calcula “miséria” como a soma da taxa de desemprego e da taxa de inflação. Também comparavam os rankings projetados para 2016 e os rankings reais para 2015.

Top rank, #1 nos dois anos – a economia mais miserável do mundo durante 2015 e 2016 —, Venezuela, porque o país tem 95% de dependência do petróleo que exporte (e a economia desabou quando os preços do petróleo foram derrubados). O acordo de EUA e sauditas para inundar de petróleo o mercado global destruiu a economia da Venezuela.

O país #2, segundo mais miserável do mundo em 2015 era a Ucrânia, com “índice de miséria” de 57,8. Mas a Ucrânia começou a se movimentar na direção do 5º lugar previsto em 2016, com “índice de miséria” de 26,3. A Rússia em 2015 era a 7ª nação mais miserável do mundo, com “índice de miséria” de 21,1, mas recuperou-se e voltou à projeção feita em 2016, no 14º lugar, com “índice de miséria” de 14.5.

Bloomberg não publicou rankings de “índices de miséria” para 2014, com resultados do desempenho econômico em 2013, mas o economistaSteve H. Hanke da Johns Hopkins University, sim, em seu “Measuring Misery Around the World, May 2014,” no ranking de maio de 2014 em GlobeAsia, de 90 países. Assim se viu que, durante 2013 (último ano de Yanukovych como presidente da Ucrânia antes de ser deposto pelo golpe de Obama), a Ucrânia estava em 23º lugar, com “índice de miséria” de 24,4. A Rússia aparecia como #36, com “índice” de miséria de 19,9. Esses podem ser considerados os números de base, a partir dos quais se podem calcular quaisquer subsequentes progressos ou declínios (depois do golpe de Obama, em 2014 na Ucrânia). Os números de Hanke durante o ano seguinte, 2014, foram publicados por ele no Huffington Post, "The World Misery Index: 108 Countries", e pelo Khaleej Times dos Emirados Árabes Unidos, “List of Most Miserable Countries” (esses falsamente atribuídos ao Cato Institute, que apenas republicara o artigo de Hanke). Em 2014, o “índice de miséria” da Ucrânia, calculado por Hanke, era #4, com 51,8. Naquele ano, oito países tinham índice superior a 40 na escala de Hanke. A Rússia era número 42, com “índice de miséria” de 21,42. Quer dizer: a Rússia melhorou seus números, mas, porque toda a economia mundial piorou, o número absoluto da Rússia aparecia ligeiramente mais alto (maior miséria) do que antes do golpe de Obama na Ucrânia e das sanções subsequentes contra a Rússia. Diferente disso, a classificação da Ucrânia piorara muito: era #4, com “índice de miséria” de 51,80 em 2014, depois de ter estado em 24º lugar, com “índice de miséria” consideravelmente mais baixo, de 24,4, em 2013.

Os números em Bloomberg para a Rússia foram: durante 2015, #7 e “índice de miséria” de 21,1; e projetado durante 2016, #14 e “índice de miséria” de 14.5; significa que Bloomberg também mostrou melhora na Rússia, em 2015-2016, não só para a Ucrânia (que na projeção de 2016 fora #5 e “índice de miséria” de 26,3, significativa melhoria, depois dos horríveis números constatados de 2015).

O “Hanke’s Annual Misery Index — 2017” em Forbes, mostrou 98 países, e a Venezuela continuava a ser o pior de todos; a Ucrânia passara para #9, com 36,9; e a Rússia para #36, com “índice de miséria” de 18,1.

Assim se vê que a Rússia manteve-se firmemente estável na 36ª posição, do início ao fim dos cinco anos, de 2013-2017, tendo iniciado num “índice de miséria” de 19,9 em 2013, e chegado ao final do quinquênio, em 2017, com 18,1. Mas a Ucrânia piorou muito, no mesmo período: foi de um “índice de miséria” de 24,4 em 2013 para 36,9 em 2017 —, do 23º para o 9º lugar dos países mais miseráveis do mundo. Durante esses cinco anos, o “índice de miséria” da Ucrânia chegou ao pior nível no ano do golpe de Obama: 57,8. Pode-se dizer, no máximo que a miséria da Ucrânia estivesse entrando em queda depois do golpe, embora ainda fosse consideravelmente pior do que antes do golpe. Mas no mesmo período, a Rússia foi de 19,9 para 18,1 — e em nenhum momento esteve tão mal quanto a Ucrânia em seu melhor ano. E sem esquecer que o golpe e as sanções econômicas resultantes da negociata entre EUA e sauditas para baixar o preço do petróleo visavam a prejudicar a Rússia — não a Ucrânia. Se os EUA estivessem querendo castigar o povo ucraniano, o golpe dos EUA teria sido estrondoso sucesso; mas na verdade Obama não deu qualquer atenção ao povo da Ucrânia. Só lhe interessava o futuro dos empresários proprietários das empresas fabricantes de armas e das grandes financeiras norte-americanas. E o mesmo vale para Trump.

Durante o mesmo período (também usando os números de Hanke), os EUA foram do 71º lugar e “índice de miséria” de 11.0 em 2013, para o 69º lugar, com “índice de miséria” de 8,2 em 2017. Os EUA mantiveram-se estáveis.

A Arábia Saudita começou em 40º lugar, em 2013, com “índice de miséria” de 18,9 e em 2017 era #30, com 20,2. É melhora, porque o Reino saiu-se melhor que a economia global.

Nesse ínterim, e também nos anos antes de 2014, a Rússia esteve (como ainda está) redirecionando a própria economia, procurando afastar-se dos recursos naturais, rumo a um setor mais amplo de alta tecnologia: pesquisa e desenvolvimento militar e para a produção em geral.

No dia 13 de dezembro de 2014, o Stockholm International Peace Research Institute publicou matéria sob o título “Sales by Largest Arms Companies Fell Again in 2013, but Russian Firms’ Sales Continued Rising” [Vendas da Maiores Empresas de Armas Caíram Novamente em 2013, mas Vendas das Empresas Russas não Pararam de Crescer], em que se lê que "as vendas de empresas com sede nos EUA e Canadá mantiveram-se em trajetória moderada de queda, enquanto empresas com sede na Rússia aumentaram 20% em 2013.”

Para o ano seguinte, SIPRI divulgou, dia 14/12/2015, que “Global Arms Industry: West Still Dominant Despite Decline,” [Indústria Global de Armas: o Ocidente ainda Domina, apesar do Declínio], com notícias de que “Apesar das difíceis condições econômicas nacionais, as vendas da indústria russa de armas continuaram a subir em 2014. (...) ‘Empresas russas continuam surfando a onda do crescente gasto com militares e com exportações. Agora há 11 empresas russas entre as Top 100 e o crescimento combinado de suas vendas entre 2013-14 foi de 48,4%, diz Siemon Wezeman, pesquisador sênior do SIPRI. Na direção oposta, empresas ucranianas viram suas vendas cair substancialmente (...) As vendas de empresas norte-americanas fabricantes de armas caíram 4,1% entre 2013 e 2014, decréscimo semelhante ao que se viu em 2012-13. (...) As vendas de armas por empresas da Europa Ocidental caíram 7,4% em 2014.”

Trata-se de um redirecionamento da economia russa, que Vladimir Putin estava preparando desde antes da guerra de Obama contra a Rússia. A ambivalência ‘oficial’ de Obama em relação à Rússia jamais convenceu Putin de que os EUA estariam afinal superando a Guerra Fria e poriam fim à OTAN, como a Rússia pôs fim ao seu Pacto de Varsóvia em 1991. Obama realmente continuou a apoiar a expansão da OTAN para bem próximo das fronteiras da Rússia (agora, de fato, até para dentro da Ucrânia) — ato de extrema hostilidade.

Ao formar e reunir os designers e fabricantes de armamento mais custo-efetivos, a Rússia não só respondia à crescente hostilidade dos EUA, ou, no mínimo, não respondia só à obsessão da aristocracia norte-americana com ‘tomar a Rússia’, que é a maior reserva de recursos naturais do planeta – mas, além disso, a Rússia também expandia seus ganhos com exportações; e aumentava a própria influência, ao vender a outros países armamentos menos carregados com custos extras da mais terrível corrupção, saídos do mais corrupto complexo industrial militar que o mundo jamais conheceu: os EUA. Fato é que, embora Putin tenha tolerado a corrupção em outras áreas da produção econômica da Rússia (por compreender que aquelas áreas são menos crucialmente decisivas para o futuro da Rússia), a corrupção foi efetivamente controlada e excluída dos setores de pesquisa e desenvolvimento, e de produção e venda de armamentos. Desde que governou a Rússia pela primeira vez, em 2000, Putin realmente transformou a Rússia pós-soviéticos, de satélite ilimitadamente corrompido dos EUA sob Boris Yeltsin, em nação realmente independente. Nada jamais enfureceria mais os aristocratas norte-americanos (que conseguiram destruir Yeltsin).

A estatal russa monopolista para venda e produção de armamentos, Rosoboronexport, se autoapresenta aos países em todo o mundo, com o seguinte discurso: “Hoje, armas e equipamentos militares que levem o selo Made in Russia protegem a independência, a soberania e a integridade territorial de dúzias de países. Graças à sua eficiência e confiabilidade, os produtos russos de defesa [nacional] têm sido alvo de demanda forte no mercado global e preservam a posição de destaque de nossa nação entre as empresas mundiais de exportação de armas. Nos últimos vários anos, a Rússia ascendeu firmemente à posição de vice-líder mundial, atrás só dos EUA, na exportação de armamentos.” Vice em ascensão, contra líder em decadência.

A guerra sempre crescente que a aristocracia dos EUA fez e faz contra a Rússia impôs dois desafios simultâneos ao presidente Putin: ao mesmo tempo reorientar a economia nacional para que se afastasse da extração de recursos naturais – que a aristocracia dos EUA quer ‘preservar’ para usufruto dela), e também reorientar o país na direção da alta tecnologia – campo em que os soviéticos construíram uma base a partir da qual a Rússia conseguiu tornar-se realmente custo-efetiva no comércio internacional, e, simultaneamente aumentar a capacidade defensiva da Rússia contra uma OTAN em expansão.

Em outras palavras: Putin teve de conceber um plano para enfrentar simultaneamente dois desafios: um no campo militar, outro no campo econômico. O objetivo primário da Rússia hoje é impedir que aristocratas norte-americanos e sauditas tomem o país mediante a OTAN dos EUA, e o Conselho de Cooperação do Golfo e outras alianças dos sauditas (que hoje tentam apossar-se da Síria, aliado da Rússia. A Síria élocação crucialmente importante para oleogasodutos dos reis árabes rumo à Europa – o maior mercado de energia do mundo).

Além disso, as sanções e a negociata de Obama para derrubar os preços do petróleo não foram o golpe mortal contra a Rússia que os autores esperavam que fosse. Em abril de 2015, o “Russia Economic Report" do Banco Mundial previa: “Os índices de crescimento previstos para 2015-2016 são negativos. É provável que quando se fizer sentir o efeito pleno dos dois choques, em 2015, empurrará a economia russa para a recessão. O cenário básico previsto pelo Banco Mundial vê contração de 3,8% em 2015 e modesto declínio de 0,3% em 2016. O espectro do crescimento apresentado mostra dois cenários alternativos que refletem em grande parte diferenças no efeito que se espera que diferenças no preço do petróleo tenham sobre as principais macrovariáveis.”

Em 15 de fevereiro de 2016, lê-se no “Russia GDP Annual Growth Rate” em Trading Economics: “A economia russa encolheu 3,8%, no quarto trimestre de 2015, depois de contração de 4,1% no período anterior, conforme estimativas do ministro de Desenvolvimento Econômico Alexey Ulyukayev. É o pior desempenho desde 2009 [ano do crash global de George W. Bush], com sanções do ocidente e baixos preços do petróleo pesando sobre ganhos do comércio exterior e a arrecadação.” Hoje, 17 de setembro de 2018, o crescimento real é de 1,9%, depois de ter caído de 2,2% para 0,9% no final de 2017; significa que está em recuperação. O “Russia Economic Report” do Banco Mundial de abril de 2015 comentava o “Plano anticrise do Governo”:

"No dia 27 de janeiro de 2014, o governo adotou um plano anticrise, com o objetivo de garantir desenvolvimento econômico e estabilidade social sustentáveis, em ambiente econômico e político desfavorável. 
Anunciou que em 2015-2016 tomará medidas para fazer mudanças na economia russa, garantir apoio a entidades sistêmicas e ao mercado de trabalho, reduzir a inflação e ajudar famílias vulneráveis a ajustar-se aos aumentos de preços. Para alcançar objetivos de crescimento positivo e desenvolvimento macroeconômico sustentável de médio prazo, estão planejadas as seguintes medidas: 
  • Garantir apoio à substituição de importações e a exportações não minerais;
  • Apoiar as pequenas e médias empresas, com redução dos custos de financiamento e administrativos;
  • Criar oportunidades para aumentar recursos financeiros a custo razoável em setores chaves da economia;
  • Compensar famílias vulneráveis (por exemplo, aposentados) pelos custos da inflação;
  • Aliviar o impacto sobre o mercado de trabalho (por exemplo, aumentando o treinamento e as oportunidades de trabalho em obras públicas);
  • Otimizar os gastos de orçamento; e
  • Reforçar a estabilidade do setor de banking e criar um mecanismo para reorganizar companhias sistêmicas."

Quer dizer: o plano anticrise da Rússia foi traçado e anunciado dia 27/1/2014, antes de o golpe de Obama derrubar Yanukovych; antes, até, de Victoria Nuland, agente de Obama, instruir, dia 2/2/2014, o embaixador dos EUA na Ucrânia sobre quem indicar para comandar o governo depois de o golpe está completado (“Yats” – que foi realmente apontado). É possível que, ao traçar esse plano, Putin estivesse reagindo a cenas como essa, da Ucrânia. Deve ter visto claramente que o que se passava na Ucrânia era operação financiada pela CIA-EUA. E percebeu o que Obama ‘planejava’ para a Rússia.

O “Russia Economic Report, May 2018: Modest Growth Ahead” [Rússia. Relatório Econômico, maio 2018: previsto crescimento modesto] diz:

"O crescimento global continuou, no início de 2018, o momentum em que vinha em 2017. O crescimento foi mais forte que os esperados 3% em 2017 – recuperação notável de um ponto mínimo de 2,4% pós-crise em 2016. Espera-se que atinja 3.1% em 2018. Recuperação em investimento, manufatura e comércio continua, com as economias exportadoras de commodities beneficiando-se dos preços estáveis (Figura 1a). A melhoria reflete recuperação de base ampla nas economias avançadas, crescimento robusto nas Economias de Mercados Emergentes e em Desenvolvimento [ing. Emerging Markets and Developing Economies (EMDEs)] importadoras de mercadorias e rebound nos exportadores de mercadorias. O crescimento na China – importante parceira comercial da Rússia – deve continuar a se reduzir gradualmente em 2018, depois dos 6,9%, crescimento mais forte que o esperado, em 2017."

O plano econômico de Putin conseguiu aliviar o impacto econômico sobre as massas, ao mesmo tempo em que reorientava a economia na direção de áreas de crescimento futuro.

O país que Putin recebeu em 2000, herdado de Yeltsin, o beberrão (tão amado pelos aristocratas ocidentais, porque foi tão fácil arrancar tanta coisa dele!) estava em estado de pior ruína, até, do que a União Soviética no último dia. Putin pôs-se a trabalhar para inverter esse quadro, desde o primeiro dia de seu governo, de modo que tornasse possível atender aquelas duas exigências imperiosas.

Ao que tudo indica, Putin está sendo bem-sucedido – apesar do muito empenho dos aristocratas norte-americanos, para enfraquecer a Rússia. E o povo russo sabe disso.

PS: Esse repórter que aqui escreve é norte-americano e sempre foi Democrata, sem qualquer tendência a condenar políticos do Partido Democrata. Mas o que Obama fez contra a Rússia não foi só temerário e extraordinariamente perigoso para todo o mundo: foi também extraordinariamente injusto, erguido sobre mentiras ditas por Obama e, também, por muitos neoconservadores Republicanos. Assim sendo, retiro completamente o apoio que sempre dei a Obama e ao Partido Democrata de Obama e dos Clintons. Claro que não estou dizendo que passarei a apoiar o Partido Republicano, que, tipicamente, é ainda pior, nesse e em outros assuntos, que o partido dos políticos Democratas. Apoio Bernie Sanders em quase todas as questões, mas não trabalharei, de nenhum modo, para nenhuma campanha eleitoral.

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