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17 de setembro de 2018

Tempos tempestuosos

Adam Tooze


Verso Books

Verso Books, 2017, 432 páginas

Tradução / “Se não fizermos isto, talvez não tenhamos uma economia na segunda-feira” – disse Ben Bernanke, então presidente do Federal Reserve dos EUA, em 18 de setembro de 2008, quando demandava uma ação do Congresso para apoiar o sistema bancário. Dez anos depois, ainda temos uma economia. Mas vale a pena perguntar se o pânico então observado levou à exclusão de outros caminhos. No terrível outono de uma década atrás, a primeira prioridade era a sobrevivência. Acomodar-se, deixar a coisa seguir o seu curso era cortejar o desastre, como provou o colapso do Lehman Brothers. Os resgates eram desagradáveis, mas era preciso ser bem fanático para dissociar-se do esforço de salvar os bancos, aceitando o risco de uma catástrofe. No entanto, daí também não decorreram consequências políticas como Trump e Brexit, assim como a ascensão do nacionalismo em grande parte da Europa Ocidental? A crise foi uma oportunidade perdida? Se há uma figura em particular cujas ideias eram pertinentes àquele momento profundamente ambíguo, esta é a de John Maynard Keynes. A implosão do sistema financeiro lhe deu razão contra os seus críticos, os quais haviam dito que os mercados se estabilizam por si mesmo e que a intervenção governamental era contraproducente. Com o colapso do investimento, do consumo e do comércio, com milhões de pessoas desempregadas, o mundo desesperou-se por estímulos fiscais; havia demanda generalizada por maiores controles dos mercados bancários e financeiros. E Keynes, como se sabe, é o padrinho do ativismo em política econômica. Tal como argumenta Geoff Mann em seu brilhante livro, para ele, “no longo prazo, todos estaremos mortos”. Assim, Keynes se mostra como uma grande esperança para todos aqueles que querem mobilizar os meios necessários para manter a coisa andando. Ele prometeu tanto evitar o desastre quanto a preservação do status quo.

A biografia de Keynes é emblemática. Ele nasceu em 1883. O seu pai era economista de Cambridge e sua mãe atuava como reformadora social; ele próprio cresceu como um brâmane numa era dourada, mas sua vida adulta foi marcada pela guerra total e pela revolução. Embora simpatizasse com a inquietação e com a insatisfação que dominava o mundo, ele sabia que, se a crise chegasse, ela o encontraria do outro lado das barricadas. Em resposta, tornou-se um intelectual reformista em política econômica. Após ter cursado a Universidade de Cambridge e depois de ter sido funcionário público na Embaixada da Índia por dois anos, ele começou sua carreira como economista profissional. Tratou, então, da questão altamente controversa da política monetária no Raj. Ele se manteve conscientemente contrário à Primeira Grande Guerra, mas trabalhou no Tesouro gerenciando créditos para os Aliados. Em 1919, ficou famoso por seu ataque ao Tratado de Versalhes; Lênin colocou seu livro As Consequências Econômicas da Paz na lista de leitura do Comintern. Na década de 1920, Keynes criticou a atuação de Winston Churchill como chanceler e denunciou o retorno ao padrão-ouro porque isto causaria um choque deflacionário prejudicial às indústrias exportadoras da Grã-Bretanha. Em 1936, publicou a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro que transformou o debate sobre a política econômica em todo o mundo; Keynes apresentou o desemprego não como sintoma de uma falha do mercado de trabalho, mas como decorrência da falta de demanda na economia como um todo. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele serviu como diretor do Banco da Inglaterra e, em 1944, representou o Reino Unido e a Comissão do Banco Mundial na conferência de Bretton Woods, na qual se forjou o grande projeto do sistema monetário do pós-guerra. Em uma época dominada pelo confronto entre o trabalho organizado e os inflexíveis políticos do Partido Conservador, Keynes permaneceu como membro do Partido Liberal até sua morte em 1946. Tal como via, era papel das classes profissionais fazer com que a sociedade fosse além do impasse trazido pela guerra de classes.

Existem muitas biografias de Keynes e muitos relatos sobre a “revolução keynesiana na forma de governar”. O livro de Mann não pertence a nenhuma dessas categorias. Não é também uma introdução à economia keynesiana (para os curiosos, Mann criou na web um guia para a leitura da Teoria Geral). Ao invés, o seu tema é a política implementada pela tecnocracia liberal à qual o nome de Keynes está ligado. Desde o início, o keynesianismo definiu-se em oposição a um liberalismo “antigo” ou “paleo”, o qual se ancorava na manutenção dos direitos individuais e se caracterizava primariamente pela defesa da propriedade. Com base nisso, mantinha uma insistência dogmática na liberdade de transacionar nos mercados, os quais, por sua vez, deveriam ser protegidos contra as políticas e as regulamentações. A liberdade de comércio era defendida como se fosse uma religião, de tal modo que Adam Smith e os economistas clássicos eram considerados como seus profetas. Na opinião de Keynes, tal dogmatismo e a consequente rigidez que fomentava eram o oposto do que era necessário para assegurar uma ordem liberal progressista.

Do ponto de vista atual, o keynesianismo também deve ser contrastado com a política e a economia da revolução pró mercado das décadas de 1970 e 1980, a qual é conhecida como neoliberalismo. Em termos terminológicos, não ajuda saber que o próprio Keynes teria ficado feliz em ser descrito como um “novo liberal”. Nos anos 1930 e 1940, ele se envolveu em discussões, muitas vezes amistosas, com os futuros luminares do neoliberalismo, incluindo Walter Lippmann e Friedrich Hayek. Mesmo na melhor das interpretações, o esforço para dar novas fundações à ordem do mercado figuraria, na percepção de Keynes, como uma espécie de nostalgia, fadada a fracassar na prática. Na realidade, o neoliberalismo costuma ser frequentemente desonesto, proclamando sua absoluta adesão ao governo do mercado, apenas para recorrer à massiva intervenção estatal. Foi isso que os salvamentos bancários de 2008 demonstraram. Nas condições atuais, o neoliberalismo é, de fato, uma política antidemocrática que procura resolver a tensão entre capitalismo e democracia seja limitando o alcance da opção democrática seja interferindo diretamente no processo democrático.

O propósito de Keynes, ao contrário, era desenvolver um liberalismo que não fosse retrógrado, baseado em má-fé ou antidemocrático, mas que enfrentasse diretamente o problema de juntar capitalismo e democracia para que funcionassem em consonância. Um caminho consistia em ampliar o escopo da política. Keynes, uma figura chave no Grupo de Bloomsbury, era um modernista cultural liberal. Ele achava que um liberalismo próprio para o século XX deveria abranger a questão das drogas, o controle de natalidade e a liberação sexual. Mas, no rescaldo da I Guerra Mundial e da Revolução Russa, em meio a um intenso conflito de classes nunca antes visto, ficou claro para ele que o liberalismo cultural tinha que ser acompanhado por um novo pensamento econômico. O liberalismo tinha que ser repensado não mais como uma esfera sacrossanta dos direitos privados, mas como uma questão de governo nacional.

Keynes e o keynesianismo são usualmente identificados com a ideia de Estado grande, mas é preciso enfatizar que o keynesianismo, em geral, não é uma política contra o mercado. Para o desgosto da esquerda, não se afigura como uma política baseada em nacionalização ou em planejamento central. Admite claramente que os mercados, sob circunstâncias adequadas, podem realizar coisas notáveis. Contudo, nem sempre os mercados funcionam bem. Quando afetam a economia como um todo, como ocorre com o mercado de capitais ou com o mercado de trabalho, ao funcionarem mal, geram consequências amplificadas, as quais assumem a forma de efeitos sistêmicos e macroeconômicos. O desemprego involuntário em massa, no período entre as duas grandes guerras, era uma realidade inegável na Grã-Bretanha. O que frustrava Keynes era que a teoria econômica de seus professores em Cambridge, na virada do século, pouco dizia sobre ele. “Os economistas” – considerou – “põem para si mesmo uma tarefa fácil demais, inútil demais”; “em tempos tempestuosos, eles só podem dizer que o mar se tornará plano de novo depois que a tempestade passar”. A teoria econômica deve enfrentar a tempestade assim como a calmaria: deve considerar tanto o pleno emprego quanto o desemprego crônico e persistente, a norma e a exceção. Foi isso que fez da Teoria Geral uma teoria geral. Ele não tomou como entendidas as condições que permitiam atingir o pleno emprego. Ao contrário, mostrou a necessidade de explicitá-las.

Em termos econômicos, isso implicou em mudar o foco de análise dos mercados individuais para o fluxo circular da demanda agregada, da produção e da renda nacional. Em termos políticos, isso envolveu desfazer certas suposições consolidadas durante o século XIX sobre as fronteiras apropriadas entre a sociedade política e a sociedade civil, entre o governo e a economia. Para Keynes, essas separações não eram razoáveis. Na verdade, havia boas razões para que se questionasse a separação entre a política e a economia em condições democráticas já que a economia de mercado tinha uma tendência inata para gerar desemprego em massa. Pior ainda, o esforço para manter as antigas fronteiras diante das pressões econômicas distorcia o discurso público e, como este estava fadado ao fracasso, poderiam ser criadas as condições para a revolução. Keynes, como Mann insiste, tinha alguma simpatia pelos defensores da mudança radical – ele chegou a se referir a si mesmo como um bolchevique em certa ocasião –, mas também havia absorvido a crítica de Edmund Burke à Revolução Francesa. Esta considerava que, por mais atraente que parecesse, a revolução produziria sempre um desastre. O desafio era seguir um curso intermediário entre uma regressão conservadora e um esforço empenhado em fazer revolução.

O que assusta tanto os paleoliberais quanto os neoliberais no keynesianismo é a situação para a qual ele pode deslizar. Uma vez que a necessidade da intervenção foi posta, onde esta vai parar? Keynes, como um verdadeiro liberal, entendeu esse medo. Uma solução tentadora era transferir a tomada de decisões para uma elite tecnocrática; a teoria econômica teria alcançado sua verdadeira vocação, brincou ele, se alcançasse o status da odontologia. Contudo, seria errado identificar o keynesianismo com a defesa, pura e simples, da tecnocracia. Como Mann diz, o seu ponto não era, “tal como se pensa, estabelecer um sistema burocrático ou o chamado capitalismo gerencial... com a finalidade de neutralizar a política, no interesse de uma sociedade apolítica despojada de debate e de vida pública”. Os keynesianos, de fato, têm uma visão mais ensolarada. O seu ideal é que o capitalismo e a democracia funcionem juntos sem se molestarem. Uma maneira de apresentar a questão keynesiana é perguntando até que ponto a intervenção política na economia é necessária para construir uma base de prosperidade estável o suficiente capaz de apoiar uma política democrática. A resposta se encontra no que Mann chama de táticas “maquiavélicas”, as quais tratam as fronteiras do político como maleáveis. A arte do governo moderno não consiste em elaborar constituições perpétuas que demarquem permanentemente uma linha entre o político e o não-político, mas que continuamente definam e redefinam o que precisa e o que não precisa ser administrado. Um exemplo clássico advém da consideração de Keynes de que, como os salários não são perfeitamente flexíveis devido ao poder dos sindicatos, querer quebrar os sindicatos equivale a abrir uma guerra de classes. Nesse caso, o meio mais conveniente para ajustar os salários reais tendo em vista alcançar um emprego mais elevado, sem pôr em perigo a democracia, vem a ser agir indiretamente por meio de um aumento modesto da inflação, o que reduz o custo real para os empregadores de contratar mais mão-de-obra. Por outro lado, fixar uma taxa de câmbio em um nível não competitivo é perigoso não apenas porque dificulta as exportações, mas também porque coloca uma pressão enorme no sistema político para forçar cortes de salários.

A consciência situacional e tática do keynesianismo se expressa em uma abordagem pragmática do tempo, a qual aparece no título do livro de Mann. O keynesianismo não abandona a visão de mundo progressista do liberalismo “ Whig”3 ; não nega que muitas das previsões da economia clássica, sob condições ideais, podem advir no longo prazo, assim que as várias forças tiverem tempo de atuar. Mas nega que tais presciências possam ser traduzidas em regras simples para agir no presente. A longo prazo, as tendências básicas do equilíbrio de mercado podem muito bem se manifestarem, mas, “no longo prazo, estaremos todos mortos”. Como Mann bem coloca, não se encontram no “longo prazo” ou mesmo no “médio prazo”, mas no “curto prazo”, aqueles “infinitos momentos de transição em que o problema de manter a ‘civilização’ precisa ser resolvido”. É aí que as pressões da necessidade se fazem sentir. E não é por acaso que qualquer “governo liberal, ao se defrontar com a necessidade, “comporta-se sempre como keynesiano”; em outras palavras, “reconhece a incerteza e a desarticulação do momento, reconhece a imperfeição e a indeterminação desse momento e se afasta da perspectiva do longo prazo para se concentrar em seu imediatismo”. A crise de 2008 demonstrou isso de modo patente. Aquilo que os banqueiros centrais, tais como Ben Bernanke, em setembro e outubro de 2008, pediram aos políticos que fizessem era impensável apenas algumas semanas antes.

Ao final, é claro, os momentos do tempo se somam para formar o longo prazo. Contudo, aceitar plenamente o keynesianismo significaria abandonar-se ao fluxo, sem qualquer objetivo de longo prazo. Ora, isso tornaria a política altamente imprevisível. A busca por “credibilidade” na política econômica tem sido uma preocupação primordial na era neoliberal; há, pois, uma batalha incessante contra a ação discricionária do governo. É preciso travar essa batalha, diz o argumento, porque tentar governar a economia sem ter estabelecido uma crença geral de que o governo segue alguma regra fixa, estimula comportamentos oportunistas na própria economia. A deterioração econômica na década de 1970 poderia ser entendida nesses termos, já que, então, os sindicatos e os empregadores buscavam proteção contra a inflação, pressionavam o governo a aumentar os gastos, o que aumentava ainda mais a inflação.

Assim, a atitude ad hoc característica do keynesianismo tem sido sempre questionada pelos modelos mais conservadores e mais restritivos de governo. Um dos contemporâneos de Keynes, o marxista polonês Michał Kalecki, percebeu a origem de certas flutuações nos interesses contraditórios que movem o próprio capitalismo. Em uma crise, os interesses das empresas não se oporão às intervenções massivas desde que elas atuem para manter a atividade econômica. Entretanto, de modo mais fundamental, elas não têm interesse em ver os salários e os custos aumentarem; então, quando a crise termina, elas tendem a recobrar o compromisso do governo com a disciplina e o rigor. Em consequência, o keynesianismo está condenado a existir para sempre no modo “vai-e-para”. Ora, isso está também assentado em sua história intelectual. Nunca há continuidade ininterrupta do pensamento keynesiano, tal como o próprio Mann mostra em uma brilhante série de observações. Apesar de distarem intelectualmente do próprio Keynes, os economistas modernos de feição reformista, tais como Thomas Piketty e Joseph Stiglitz, também reprimem a atitude típica do keynesianismo.

***

Keynes figura como um paradigma, mas foi ele o primeiro keynesiano? A resposta de Mann é ousada. Se o keynesianismo é uma resposta liberal construtiva à revolução, uma resposta que procura reorganizar a ordem social, política e econômica de modo a atenuar as tensões reveladas, mas não resolvidas, pela sublevação violenta possível, então os primeiros pensadores desse tipo emergiram na esteira da revolução – isto é, da Revolução Francesa – e seu padrinho é Hegel.

Tanto Hegel quanto Keynes viveram na esteira de revoluções. Ambos, entusiasticamente imersos no drama da história mundial, rejeitaram a suposição de que a ordem política e econômica possa ser derivada de fundações naturais. Hegel não acreditava que a ordem pudesse emergir espontaneamente da sociedade. Uma observação que fez aos seus alunos, na década de 1820, a qual não recomendava supor que “as coisas se ajustam por si mesmas, que elas cuidam de si mesmas”, poderia ser subscrita por Keynes. Como devotos de Hobbes, tanto Hegel quanto Keynes concordaram que providenciar ordem era uma “função política do Estado enquanto única... instituição universal legítima”. Para eles, cabe aos funcionários públicos fazer esse trabalho. Que ferramentas eles poderiam empregar? A lei, certamente, mas também as novas ciências sociais, sobretudo a Economia Política. A Economia, como 6 Hegel reconheceu, era “uma das ciências que surgira das condições do mundo moderno”. Ela tinha, por isso, “a tarefa de explicar as relações da massa humana e os movimentos dessa massa em sua complexidade, qualitativa e quantitativamente”. Para Hegel – Mann explica –, “a Economia Política é expressão do modo como o Estado Moderno pensa”.

A afirmação histórica sobre um alinhamento entre Keynes e Hegel não destaca apenas certos paralelismos. A linha que Mann traça de Hegel à Keynes e daí aos keynesianos dos dias atuais, demarca uma fronteira no interior da modernidade liberal. O pensamento político keynesiano, tal como o de Hegel, é impulsionado pela apreensão das profundas tensões existentes no interior da modernidade: eis que esta põe a existir um sistema socioeconômico altamente dinâmico, o qual produz perpetuamente pobrezas e crises, as quais não pode superar, mas que podem ser contidas por meio do ordenamento e do reordenamento político. Mann argumenta que se deveria ler Keynes hoje tal como Marx leu Hegel, isto é, como alguém que estava empenhado em manter a ordem sócio-política existente, mas cujo pensamento penetrou fundo nas articulações dessa ordem. Mas ele dá um passo adiante. Hegel foi “o primeiro a elaborar completamente uma razão keynesiana, ou seja, uma crítica relutantemente radical, mas imanente, do liberalismo, a qual, em última análise, chegou à plenitude… como poderosa realização histórica na Teoria Geral”. Hegel, em outras palavras, era um keynesiano. “Um esforço para colocar Keynes (ou Hegel) em seu próprio ‘lugar’ histórico – o que obviamente excluiria a ideia de que Hegel pudesse ser um keynesiano – seria apenas, para ele, resquício de uma época comandada pelo progresso”. De fato, a similaridade essencial problema político abordado pelos dois sugere que se ater à perspectiva do progresso é ilusório. Nenhum dos dois conseguiu encontrar uma saída para o impasse de um reformismo radical que recusasse a possibilidade de uma verdadeira revolução. É um impasse em que se está preso, de acordo com Mann, desde a reação conservadora contra a Revolução Francesa, no Termidor de 1794.

Uma característica que torna o livro de Mann tão convincente é que ele resiste ao gesto fácil de clamar por uma superação radical desse impasse. A mentalidade ativista, racionalista e combativa do keynesianismo, argumenta ele, “não é algo que a esquerda possa simplesmente renegar segundo a própria vontade no capitalismo liberal do Norte”, mesmo se disso resulta um certo conservadorismo. Quando a sobrevivência do sistema capitalista entra em questão, tal como em 2008, a grande maioria tem muito a perder: ela precisa, então, de bombeiros da crise. Além disso, como a experiência recente mostrou, há boas razões para defender um governo tecnocrático contra as paixões irracionais da democracia de massa. Atualmente, é bem óbvio que é importante ser capaz de identificar, para além da política, as questões com potencial técnico de acordo: seja, por exemplo, o tamanho do multiplicador fiscal, a eficácia da vacinação contra o sarampo ou a ameaça global da mudança climática. Sempre que isto é feito, volta-se ao terreno do keynesianismo. Passa a existir um engajamento não em um choque totalizador de valores – denunciando, assim, as “razões” deles, as “suas” verdades porque são “deles” –, mas um esforço razoável para encontrar os limites apropriados das decisões políticas.

Mann completou o seu livro em 2016. Sem dúvida, ele esperava que os EUA votassem em Hillary Clinton e em uma administração tecnocrática. E essa é a razão pela 7 qual ele se concentra em apresentar uma política verdadeiramente radical do ambiente, a qual poderia ir além da administração do clima keynesiana, a qual inclui apenas o gerenciamento de mudanças climáticas, a precificação de carbono e os subsídios ao uso da energia solar. Dois anos depois, o mundo enfrenta uma realidade diferente, ou seja, uma reafirmação grosseira do nacionalismo. Trump, os partidários do “brexit” e seus companheiros europeus são vistos agora como parte de um ataque geral à competência técnica. É certo que Trump profere um discurso bem abaixo daquele que poderia ser considerado como democrático. Mas até que ponto poder-se-ia considerar tal desvio, que resvala para a palhaçada, aquém da norma tecnocrática? Trump, é possível pensar, representa o triunfo daquela turba que os keynesianos apontam como perigosa. Porém, se se ignora a fealdade de seu comportamento e se se concentra na substância das políticas de sua administração, a situação se afigura como muito mais ambígua. Keynes não era nacionalista, mas, na década de 1930, ele defendeu abertamente o protecionismo. O que se vê hoje é uma divisão significativa dentro do campo keynesiano. A maioria dos economistas defende o status quo contra o ataque “populista”, ao passo que os oponentes da globalização, populistas de esquerda e membros do campo “lexit”, podem invocar o Keynes de 1933: “que as mercadorias sejam feitas domesticamente sempre que isto for possível, conveniente e razoável; acima de tudo, que a finança seja essencialmente nacional”.

O que toda essa confusão revela é que o relato altamente genérico de Mann sobre o “caráter do keynesianismo” que atravessa os tempos não nos permite distinguir as variedades dessa razão tecnocrática. Mas este não é apenas um problema de Mann: Keynes estava ciente da ambiguidade de sua própria posição. Eis o que disse no prefácio da edição alemã da Teoria Geral, publicada em setembro de 1936, exatamente quando Hitler e Goering anunciavam seu Plano Quadrienal: “a teoria da produção como um todo, aquilo que este livro pretende fornecer, é muito mais facilmente adaptável às condições de um estado totalitário, do que vem a ser a teoria da produção e da distribuição de uma dada produção, a qual está sendo gerada sob condições de livre concorrência e em larga medida de laissez-faire”. Keynes não tinha simpatia pelo nazismo. Contudo, ele entendeu claramente que a convergência da macroeconomia keynesiana com a democracia política havia sido um efeito da vitória dos Aliados – e não o resultado intrínseco de uma afinidade intelectual ou política. Os próprios especialistas, para ele, é que tem de escolher o lado que querem ficar.

Caso se procure um exemplo de governo keynesiano hoje, não se deve olhar primeiro para o Ocidente, mas para a China, onde um Partido Comunista que não tolera oposição preside a um regime tecnocrático por excelência. Os gestores econômicos da China não são apenas pragmáticos no modo como favorecem uma política de mercado, pois, o mais profundo que move os formuladores de políticas em Pequim é, no sentido que lhe deu Mann, um ímpeto verdadeiramente keynesiano. O que vigora na China hoje é o compromisso alcançado após Tiananmen: aceitar e apoiar o regime em troca de crescimento e transformação social. Muito tem sido dito sobre o papel de pensadores neoliberais no lançamento da revolução do mercado de Deng, nos anos 1980. Mas quando as coisas ficam difíceis, os chineses atuam mesmo como keynesianos. A resposta de Pequim à crise de 2008 produziu o estímulo mais dramático já visto para a criação de trabalho na história do mundo. Quando, em 2009, o governador do Banco Popular da China propôs um novo sistema monetário, ele invocou explicitamente as propostas de 8 Keynes, em Bretton Woods. A administração feita por Pequim do crescimento da China, que tem sido bem-sucedida, envolve controles de câmbio, condução da taxa de câmbio e regulamentação direta dos empréstimos bancários – isto é, ela busca empregar adequadamente as técnicas de ajuste fino keynesiano dos anos 50. E a atual prioridade pessoal do Presidente Xi é a eliminação do resíduo final da pobreza absoluta por meio de reassentamento e investimento em grande escala.

A justificação final do keynesianismo não tem sido, simplesmente, a preservação do status quo, mas a promessa de progresso. Keynes tornou-se lírico quando tratou das oportunidades econômicas para os nossos netos; as únicas coisas que poderiam impedir de realizá-las seriam as guerras e as crises econômicas. A política radical fez a mesma aposta. Como Mann mostra, a promessa marxista está “baseada na garantia de que, não importa quanto tempo seja necessário, uma luta implacável pelo progresso será eventualmente recompensada. Em outras palavras, quando Marx exortou o proletariado a fazer história, ele o fez postulando – por meio de análise, não de profecia – que havia uma luz no fim do túnel”. Mas se o crescimento é o denominador comum das filosofias políticas que herdamos do século XIX, seriam elas capazes de captar os desafios existenciais que são apresentados agora pelas mudanças climáticas? Enquanto o mundo derrete diante de nossos olhos, o que o gerencialismo keynesiano tem a oferecer aos nossos filhos e netos? Precisamos ainda de uma revolução? Mas então, em que consiste hoje a promessa da revolução? “Quaisquer que sejam as apostas radicais que possamos escolher” – escreve Mann – “subsiste a possibilidade muito real de que elas sejam feitas em vão. Não há vitória certa, mesmo no longo prazo e em última instância – ou, se ela existe, afigura-se atualmente inimaginável. Não importa quão longo e difícil seja o caminho, tudo pode acabar ainda em desastre”.

A leitura se torna, então, sombria. Mas ao se expandir o horizonte para além do modelo exaurido do keynesianismo ocidental – é assim que Mann claramente o considera –, talvez não seja ela ainda suficientemente sombria. Diante dos desafios ambientais fundamentais, se o keynesianismo está agora atingindo mesmo os seus limites, terminará ele com um gemido ou com um estrondo? Pequim enfrenta agora os dilemas keynesianos clássicos, os quais elevou já a novos extremos. O “sonho chinês” de Xi é a promessa keynesiana mais espetacular já feita. É palpável um medo subjacente da inquietação popular, a escala da repressão é espantosa, assim como, também, é a aposta no crescimento. Não há contrapartida na experiência ocidental de uma transformação tão grande nos destinos de uma população de mais de um bilhão de pessoas, em trinta anos. Mas, como qualquer outro exemplo de rápido crescimento capitalista, o boom da China está repleto de perigos. As finanças do país são altamente instáveis. O boom gerou profunda desigualdade doméstica, ao mesmo tempo em que produziu inveja no exterior, especialmente por parte dos Estados Unidos. Este último país, por outro lado, mantém-se por meio de uma hegemonia decadente, uma política externa errática e um histórico de agressões externas. Adicione-se, agora, que poucos lugares na terra experimentam os custos ambientais de crescimento mais agudamente do que na China. Grande parte do país corre o risco de se tornar simplesmente inabitável. A promessa de crescimento é real e ela está mudando a vida das pessoas de forma nunca antes vista. Mas também está chamando a possibilidade de uma catástrofe jamais observada. Os keynesianos insistem para que 9 se resista à calma suave do futuro para que se enfoque o tumulto do presente. Mas num planeta em rápido aquecimento, as perspectivas estão mais calmas hoje do que estarão amanhã. Apenas daqui a algumas décadas, uma grande parte da humanidade pode se considerar sortuda se apenas a longo prazo é que todos estarão mortos.

28 de abril de 2017

The H-Word de Perry Anderson - siga o líder

Uma história da hegemonia mostra que há limites rígidos para o poder suave

Adam Tooze

Financial Times

Um relevo em mármore do século 5º a.C. do Parthenon, Atenas, localizado agora no museu britânico. Bridgeman Images.

Para afastar os poderosos persas no século V a.C., os estados da cidade grega formaram a Liga de Delos. A líder da Liga era Atenas. Mas qual era a natureza da preeminência ateniense? Era uma superioridade imposta pelo poder, comandando apenas aquiescência forçada, ou a liga acabou por ser fundada no apego e no consentimento? Os contemporâneos não chegaram a um consenso, nem os historiadores. Mas o termo-chave cunhado no decorrer desse argumento ecoou nos próximos milênios. O que primeiro Atenas e depois Esparta exerciam, Aristóteles nos diz, era hegemonia.

O termo ficou fora de uso com os romanos - para eles, a República e o Império bastaram. Mas como Perry Anderson mostra em sua fascinante história, The H-Word, a discussão sobre hegemonia foi revivida em meados do século XIX por aqueles que achavam que na Alemanha fraturada e pós-napoleônica, a Prússia poderia desempenhar o papel que Atenas já teve na Grécia. Desde então, falar de hegemonia nunca mais foi abandonado. O termo foi usado pelos marxistas revolucionários, teóricos das relações internacionais, cientistas políticos e economistas. Hoje, a hegemonia é o pão com manteiga das páginas de opinião. Com a ascensão de Trump acabou a hegemonia do liberalismo estilo Davos? A Alemanha de Angela Merkel surgirá como a nova hegemonia liberal, ou o manto da liderança global passou para Pequim? Para Anderson, desde a década de 1960 uma das principais vozes na esquerda acadêmica, questões semelhantes estão presentes no seu trabalho que vai desde as Linhagens do Estado Absolutista (1974) até a história intelectual da política externa americana moderna de 2015.

Dos gregos em diante, a questão foi: a hegemonia simplesmente colocou o brilho do consentimento sobre formas de dominação mais nuas? Em retrospectiva, parece óbvio que a hegemonia do século 19 foi a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha era um império. Na Índia, o coração desse império, governou principalmente pela força. Como Ranajit Guha, pai da Escola de Estudos Subalternos da história de baixo e um dos heróis de Anderson, descreveu, o Raj assegurou o domínio, mas sem hegemonia. Apoiou-se na força e não na persuasão. Mas isso não era típico do papel mais amplo da Grã-Bretanha, que combinava o poder de fogo e o alcance da Royal Navy com formas de influência mais sutis. O império informal da Grã-Bretanha apoiou-se menos na diplomacia da canhoneira do que na tecnologia, dinheiro e idéias. A rede global de cabos, o "sistema de Westminster", o direito comum, a religião do livre comércio, a visão da modernidade oferecida pelo Palácio de Cristal e a Grande Exposição de 1851: todas estas coias juntas definiram sua hegemonia.

Uma das coisas impressionantes reveladas pela pesquisa de Anderson é que a discussão aberta sobre o papel da persuasão no exercício do poder tende a ser um sinal de seu comprometimento fraco. Como Anderson mostra, foi precisamente quando a preeminência da Grã-Bretanha vitoriana desapareceu no final do século 19 que proliferou o uso do termo hegemonia. Quando estados desafiadores, como Japão, Alemanha e Itália, apareceram em cena, a hegemonia tornou-se um termo não de aprovação, mas de crítica. A Alemanha do Kaiser ameaçou a hegemonia no continente. Os marxistas russos adotaram o termo para descrever como a classe trabalhadora levaria as massas camponesas à revolução. De uma cela da prisão na Itália fascista, Antonio Gramsci, líder do comunismo italiano, invocou a hegemonia para conceituar como o burguês manteve o controle sobre o poder.

Para Gramsci, ficou claro que a hegemonia no século 20 ainda falaria inglês, mas com um sotaque americano. Ele foi um dos primeiros a descrever uma nova era de riqueza produzida em massa, o que ele chamou de Fordismo. A América também deu ao mundo Woodrow Wilson e sua promessa de autodeterminação. Hollywood era a fábrica de sonhos do mundo.

Nas décadas de 1920 e 1930, a influência americana estava em todo lugar. O mundo estava à espera do poder americano. Mas, como observou um contemporâneo perspicaz, a guerra entre os dois países manteve-se como "presença ausente". Ela exerceu uma enorme influência, mas fez isso indiretamente. À medida que surgiu uma nova onda de insurgentes - Alemanha nazista, Japão imperial - o que foi revelado foi os dolorosos défices de hegemonia sem dominância, influência e persuasão sem o respaldo do compromisso político ou os meios de dissuasão ou coerção.

Seria preciso uma segunda guerra mundial para que os EUA emergissem como um poder disposto e capaz de impor uma ordem na Europa e na Ásia Oriental. A Europa testemunharia no Plano Marshall o que o historiador econômico Charles Kindleberger chamaria a era da hegemonia americana de pleno direito. No Massachusetts Institute of Technology na década de 1970, Kindleberger deu a pesquisa da história que deu forma a uma geração inteira de cientistas políticos e economistas americanos. A economia mundial, argumentou Kindleberger, funcionou bem quando tinha uma âncora. Gemeu e deslizou quando não.

Mais uma vez, no momento em que foi teorizada, a hegemonia estava em crise. À medida que o sistema monetário de Bretton Woods entrou em colapso, a estagnação se estabeleceu. Esse foi um efeito colateral inevitável da perda de liderança dos Estados Unidos? A economia mundial realmente precisa de um centro dominante? Com a Europa recuperada da destruição da guerra e com o crescimento do Japão, a cooperação e a coordenação não podem ser suficientes? É precisamente o que Ronald Reagan e Margaret Thatcher e seus seguidores na Europa - Helmut Kohl, Bettino Craxi e, eventualmente, François Mitterrand também - entregariam. À medida que a posição da América era relativizada, o que surgiu não foi o caos, mas algo mais abrangente: a hegemonia liberal renasceu sob a forma de revolução do mercado ou, como aprendemos a chamá-la, neoliberalismo.

Em 1989, a nova hegemonia parecia estar pronta para declarar a vitória final, nada menos do que o fim da história. Como sabemos agora, isso era prematuro. Lemos Anderson porque nenhum comentador histórico tomou mais a sério a estrutura intelectual do poder liberal e ninguém a criticou de forma mais eficaz. Nós lemos Anderson hoje com uma atenção ainda maior, porque os 10 anos desde o início da crise financeira global em 2007 deram uma esmagadora reivindicação da predição básica do marxismo acadêmico: a hegemonia liberal não é auto-sustentável. É ameaçado por crise, assombrada pela incerteza radical e infinitamente produtiva de inimigos dentro e fora.

Na verdade, dado os eventos de 2016, podemos ter chegado ao ponto em que, para citarr uma frase de Donald Trump, a esquerda intelectual "está cansada de ganhar". The H-Word terminou em outubro de 2016 e podemos perceber que Anderson estava afiando suas armas críticas para lidar com a coroação de Hillary Clinton. Em vez disso, como todos os outros, enfrenta o desafio de dar sentido a uma presidência muito diferente. Como o principal crítico da hegemonia liberal responderá ao deslumbrante deslocamento do melífluo Barack Obama pelo poderoso ataque de Trump e sua comitiva? Como é comum observado, Trump está deixando a comédia fora do negócio. Ele fará o mesmo com o sofisticado esquerdismo intelectual? Dada a evidente ameaça da direita e sua própria fraqueza política, a esquerda deveria convir como s apelos centristas para a unidade, formando uma espécie de Frente Popular do século XXI? Pode-se imaginar que Anderson concorda. No seu pico, a hegemonia liberal estava muito feliz em declarar, "não há alternativa". Seria dolorosamente irônico se essa declaração hegemônica exigisse uma força prática ainda maior em meio à decomposição simbólica do liberalismo.

18 de agosto de 2016

Quando nós amávamos Mussolini

Adam Tooze

Os Estados Unidos e a Itália fascista: A ascensão da finança americana na Europa por Gian Giacomo Migone, traduzido do italiano e com um prefácio de Molly Tambor

Cambridge University Press, 405 págs., $ 110,00

Benito Mussolini e o secretário de Estado americano Henry Stimson, Roma, julho 1931

New York Review of Books

Tradução / No início dos anos 1960, em pleno refluxo do atlantismo do pós-guerra, Gian Giacomo Migone, descendente de uma família cosmopolita de diplomatas italianos, chegou a Harvard para estudar história. Como um católico liberal, seguidor de John F. Kennedy e admirador do Papa João XXIII, Migone escapava do conservadorismo e do neofascismo das universidades italianas do pós-guerra. Ele veio para os Estados Unidos em busca da promessa de democracia e novos desenvolvimentos em sua bolsa de estudos. O que ele encontrou foi algo mais complicado. Era o auge da luta pelos direitos civis e ele e outros estudantes estrangeiros aventuraram-se para o Sul para testemunhar os últimos dias de Jim Crow. No entanto, não era o presente da América que iria desestabilizar-lo, mas o passado e, em particular, a história recente da América em relação ao seu próprio país.

Em 1965, o tema do legendário seminário de Ernest May em Harvard, sobre relações exteriores da América, eram os anos 1920, e Migone recebeu o encargo de explorar a política da América para a Itália. Era missão delicada num duplo sentido. Os anos 1920 foram uma década comumente identificada com o isolacionismo americano, período durante o qual se dava por decidido que os América não tinham qualquer real política externa. E Itália, nos anos 1920, era o regime de Mussolini. A questão era como as administrações republicanas de Harding, Coolidge e Hoover, comprometidos com seu programa nacionalista de "normalidade" e modernização, haviam se envolvido com o primeiro esforço para construir uma ditadura fascista na Europa. Com a guerra do Vietnã em escalada no pano de fundo, foi encargo que abalaria as crenças ingênuas que o jovem Migone acalentava sobre o alinhamento da potência ocidental com/pela democracia.

Publicado em italiano em 1980, após muitos anos de pesquisa pioneira nos arquivos americanos e italianos, o livro de Migone estabeleceu-o na Itália como uma autoridade entre os estudiosos da esquerda-liberal da era fascista e lançou uma carreira que o levaria por meio da Universidade de Turim a um assento no Senado italiano. Mesmo assim, em tempos ainda antes da Internet e de Google Translate, a tese doutoral de Migone permaneceu praticamente desconhecida para leitores do mundo anglófono. Como outros trabalhos clássicos da historiografia internacional europeia dos anos 1960 e 1970, muitos dos quais centrados na América – em alemão, pensa-se logo em Hitler's Strategie, de Andreas Hillgruber; Aufrüstung oder Sicherheit, de Michael Geyer; e Die amerikanische Stabilisierungspolitik in Deutschland de Werner Link –, essa interpretação europeia do poder da América permaneceu praticamente ignorada na própria historiografia americana. E devemos agradecimentos à Cambridge University Press e a Molly Tambor, ela também historiadora da Itália do pós-guerra, por termos afinal essa excelente tradução.

O antifascismo é o mito fundador da república italiana depois de 1945. Mas não só uma ressentida minoria de italianos permanecia ligada à memória de Mussolini, como também, como Migone descobriu nos National Archives em Washington, a América só surpreendentemente tarde decidiram declarar Il Duce inimigo, no final da década dos 1930. No período entre guerras, diferente do que se viu depois de 1945, os americanos não assumiam que a democracia fosse destino natural de todos os estados da Europa Ocidental. Admiradores americanos de Mussolini iam das empresas de mídia de Hearst ao presidente da Universidade de Columbia, Nicholas Murray Butler, que deu uma plataforma à propaganda fascista na "Casa Italiana" no Upper West Side. Dois presidentes, Hoover e Roosevelt manifestaram aprovação e apoio ao regime de Mussolini. O fascismo prometia levar ordem e progresso à Itália, ao mesmo tempo em que mantinha ao largo qualquer ameaça vinda da esquerda.

Já em 1972, John Patrick Diggins, em seu Mussolini and Fascism: The View from America, revelara o entusiasmo que Mussolini gerava entre intelectuais americanos do campo progressista. O que o livro de Migone expõe a nu é que aquelas afinidades eram fundadas em mais do que só ideias e política. Por trás do palco, havia interesses financeiros que orquestravam o conúbio entre os EUA e o fascismo italiano. Como ele diz em seu prefácio, Migone pode não ter começado como um marxista, mas através da "leitura de documentos produzidos pelos bancos centrais e os bancos de investimento" às vezes ele se sentia como se pudesse "tornar-se um".


Um dos obstáculos que muito dificultaram que se reconhecesse mais amplamente as relações amistosas entre Wall Street e o fascismo italiano foi a visão generalizada sobre o período entre guerras como era de nacionalismo econômico. Mussolini é famoso pela defesa empenhada da autarquia e por triunfos como a drenagem dos pântanos de Pontine e a "batalha pelo grão" na agricultura. A Itália, por sua vez, foi severamente afetada pelas quotas impostas pela América no início dos anos 1920, que limitavam o número de imigrantes.

Mas políticas de desenvolvimento nacional absolutamente não eram incompatíveis com incentivar as interconexões comerciais e financeiras internacionais. Aqui se tem de tomar seriamente os adjetivos "nacional" e "internacional". As elites empresariais italianas jamais cogitaram admitir que o desenvolvimento econômico nacional fosse amputado da economia mundial. O efeito imediato da Primeira Guerra Mundial nem foi tanto desencadear uma desglobalização, quanto promover um rearranjo das interações econômicas internacionais. Se, antes de 1914, empresários visionários como Giuseppe Volpi procuravam a Alemanha em busca de assistência para desenvolver indústrias modernas na Itália, como usinas hidrelétricas, a partir de 1917 a economia italiana passou a depender de empréstimos da Grã-Bretanha e da América, os quais, em 1919 já chegavam a $2 bilhões e $1,65 bilhão respectivamente. Depois da Conferência de Paz de Paris, apesar do confronto que houve com Woodrow Wilson, por os italianos exigirem o controle sobre Fiume, os liberais italianos continuaram de olhos postos em Wall Street.

Tragicamente, após o fracasso de Wilson para convencer o Senado a ratificar o Tratado de Versalhes, a mente de América estava em outro luga. Por mais que o Senado e o Departamento de Estado estivessem interessados na estabilização europeia, o que realmente os preocupava era o destino da Alemanha. Foi o desastroso conflito franco-alemão no Ruhr que levou a América a se reengajar nos negócios europeus, no outono de 1923. Naquela altura, para a primeira geração dos liberais atlantistas da Itália, já era tarde demais. Mussolini tinha tomado o poder em outubro 1922.

Migone mostra como, com a Alemanha como prioridade de Washington, Mussolini posicionou seu governo como muito mais maleável que a França republicana, com vistas à nova hegemonia da América. Por mais que Mussolini rugisse seus resultados de guerra, não teve política agressiva contra a Alemanha. Deixou bem claro desde o início que compreendia o poder da América, e disse ao rei Vittorio Emanuele III em 1923, para empurrá-lo a fazer uma visita oficial à América:

"A volta do fluxo migratório para os EUA e a cooperação com o capital americano são dois elementos de importância vital para nós. Além das vantagens econômicas... seria imenso benefício para a Itália... por causa da indiscutível influência que podem ter sobre nossas relações com outros estados, dentre os quais, sobretudo, a Inglaterra."

Ao contrário dos políticos eleitos democraticamente que governavam em Paris, na ditadura de Mussolini na Itália a política financeira foi delegada a uma sucessão de empresários e tecnocratas. Ao contrário do francês, eles aceitaram os termos econômicos básicos estabelecidos pelo Congresso e articulados pelo secretário de Comércio, Herbert Hoover e Andrew Mellon no Tesouro. Circulando entre eles, como facilitadores onipresentes de conversas em ambos os lados, estavam banqueiros proeminentes e, acima de tudo, J. P. Morgan.

Em seu prefácio, Molly Tambor observa que uma das decisões mais difíceis que ela e Migone tiveram que fazer na versão de seu livro para o Inglês era como traduzir classe dirigente. Em atenção a sensibilidades modernas, rejeitaram a tradução mais óbvia "classe dominante," em favor de expressões como "elites" e "líderes de negócios". Mas mesmo através do filtro dessa tradução que aspira a ser despolitizada, o quadro que Migone pinta é muito claro. O novo poder da América nos anos 1920 baseava-se em sua economia e na projeção de uma visão americana de ordem internacional que ultrapassava a Liga das Nações: e no comando, estavam banqueiros norte-americanos. As questões cruciais da diplomacia italiana-americana não eram questões de democracia, mas de finanças. Tinham a ver com a quitação das dívidas de guerra da Itália e com a restauração do padrão ouro. E com a orientação fraterna de J.P. Morgan, o regime de Mussolini rapidamente aceitou os termos de acertos financeiros com a América. O acordo sobre dívida de guerra negociado em 1925 foi o mais generoso que a América firmou com qualquer de seus associados de tempos de guerra. E desencadeou um fluxo de investimento americano para a Itália que ainda acelerou depois de 1927, tão logo a Itália estabilizou-se sobre o padrão ouro.

O investimento total dos EUA na Itália fascista rapidamente ultrapassaram os $400 milhões. A destacar que, à altura de 1930, quando o presidente Hoover iniciou o movimento para restaurar a ordem mundial (começando com a conferência de Londres sobre controle de armas navais), a Itália fascista, depois do governo trabalhista de Ramsay MacDonald na Grã-Bretanha, era a parceira preferida de Washington na Europa. Quando o ministro de Relações Exteriores de Mussolini, o carismático ex-squadistra Dino Grandi, encontrou Hoover em 1931, o presidente disse ao seu hóspede italiano que a minoria expressiva de antifascistas na América devia ser ignorada: "Eles não existem para nós americanos, e nem devem existir para vocês."


O que destruiu a harmonia dos anos 1920 não foram as tendências crescentemente ditatoriais do regime de Mussolini, mas a Grande Depressão. O colapso do padrão ouro e o fim do empréstimo internacional romperam os laços de "soft power" que haviam contido o regime de Mussolini. Mussolini sempre falara de guerra e conquista, mas desde o incidente de Corfu em 1923, quando a Itália fora arrastada para uma crise diplomática e militar com a Grécia, em que disputavam aquela ilha, ele moderara suas ações de agressão a outros países. Em 1935 o expansionismo explodiu à plena luz. Com o ataque não provocado contra a Abissínia, Mussolini quebrou a ordem do entre guerras. Em seguida vieram a militarização da Rhineland por Hitler; o golpe de Franco na Espanha e a Anschluss da Áustria. Se ainda houvesse qualquer esperança de conter essa escalada, estaria em sanções rápidas e agressivas contra Mussolini por causa da Abissínia. Mas, em vez disso, as potências liberais vacilaram. Por quê?

Hitler disse a famosa frase que tinha visto os estadistas do Ocidente em Munique e eles eram "vermes". Nisso, pelo menos, Churchill concordava. Para Migone, a lógica de apaziguamento não era uma questão de fraqueza moral. Foi sistemática. A ação de não impor sanções aos fascistas foi uma espécie de eco abafado de uma estratégia de hegemonia financeira antes poderosa. Consideradas as políticas dos anos 1920, a recusa da América, que se posicionou contra até as mínimas sanções impostas pela Liga das Nações, era totalmente previsível. Em vez de sanções, as importações crescentes de veículos motorizados e petróleo deram forte impulso à agressão assassina da Itália, contra o único membro africano da Liga das Nações, que era u, estado independente. A principal preocupação do Departamento de Estado não era punir a violação da lei internacional, mas o medo de que se Mussolini viesse a ser humilhado o governo fascista entrasse em colapso e a Itália se tornasse palco de uma revolução.

Examinar os movimentos pró-paz (ou a ausência deles) contra o pano de fundo das relações financeiras e políticas nos anos 1920 é certamente muito esclarecedor. Mas também revela uma unilateralidade na história da Migone. Ele não leva suficientemente a sério a confusão e a surpresa em Washington e Londres, ao responderem à repentina agressão de Mussolini. Mas, e o que Mussolini quereria na Abissínia? Era uma questão real. Conforme o modelo aceito de hegemonia capitalista, à qual os americanos acreditavam que eles mesmos estivessem visando com seus amigos fascistas, não havia resposta óbvia. Nem Migone cuida de nos oferecer alguma. Em seu esforço para refutar as leituras excessivamente ideológicos do fascismo como uma religião política violenta, ele deixa de nos dar um relato sistemático de agressão fascista.

A violência que explodiu em 1935 teve várias fontes. Mas conforme o próprio argumento de Migone ela pode ser mais bem interpretada como o verso da cumplicidade que o próprio autor descreve tão poderosamente nos anos 1920. A insurgência "ou faz ou morre" foi um tipo diferente de reação à nova ordem mundial criada em 1919. É impossível dar conta da singularidade do regime de Mussolini – ou do regime de Hitler – se não se reconhece essa dualidade. Il Duce não apenas não se curvou ante o poder do Império Britânico e da América: ele também conspirou contra as duas potências.

O modo como responder a essa violenta insurgência foi um verdadeiro desafio para a estratégia dos governos liberais depois da Primeira Guerra Mundial. A preferência deles pela paz tinha fundamentos sólidos. Interesses sociais e econômicos e um não-gostar de guerra também participaram. O potencial militar de uma aliança Alemanha-Itália-Japão não seria ameaça que se pudesse tratar com desdém. Mas o que levou realmente a amolecer contra os fascistas nem foi tanto o medo da derrota; foi, mais, o custo ruinoso de vencer novamente. A vitória das potências da Entente em 1918 custou preço tão alto que, fundamentalmente, pôs em questão o valor da guerra como ferramenta de poder político. Desde a conferência naval em Washington em 1921, a estratégia de ambos, americanos e britânicos consistira em solidificar a dominação estratégica nos oceanos. Em 1935, se quisessem afirmar essa dominação, a superioridade da frota britânica sobre a frota italiana teria sido enorme. Mas impor bloqueio total requereria mobilização política em casa e alianças estratégicas com França e América, que esses países não haviam oferecido e que os britânicos não desejavam assumir.

O que faltava era um sistema confiável de contenção, uma força tão formidável e tão clara em sua missão política e estratégica que tornaria implausível qualquer esforço para derrubar o status quo. Desde a Conferência de Paz de Paris, o governo francês clamava exatamente por tal sistema – mediante alguma combinação de exército da Liga das Nações, mecanismos automáticos de sanções e garantias de segurança com garras reais. Mas foi precisamente essa insistência que tornou a República Francesa tão intolerável para Washington.

O desastre subsequente revelaria as limitações de uma hegemonia financeira unidimensional. Para dar segurança a uma ordem liberal assim tão conveniente, seria necessária uma mistura muitíssimo mais densa de política, ideologia e poder militar. Depois de 1945, a promoção, pelos EUA, da integração europeia e do papel de âncora que teria na OTAN foram dois elementos vitais da nova ordem. O anticomunismo solidificou o apoio político doméstico. O New Look nuclear de Eisenhower, por mais horrendo pensamento que fosse, tornou a contenção financeiramente possível. Como o revisionismo de Migone energeticamente nos faz lembrar, outro elemento da ordem do pós-guerra foi um serviço de reescrever a história dos anos 1930s que fez descer um véu de silêncio sobre o fato de que bem recentemente, logo ali, em 1935, instituições tão crucialmente importantes como J.P. Morgan trabalhavam em relação muito próxima com homens que hoje são tratados como bandidos fascistas.

O trabalho de "acertar as contas com o passado" iniciado por Migone e sua geração, assim, iluminou, tanto o período entre guerras quanto as fundações políticas da ordem pós-guerra. E embora o fascismo tenha saído de cena, é o fio cortante da auto-reflexão crítica que dá ao livro de Migone sua relevância para os desenvolvimentos recentes. Qual é a relação entre democracia e capitalismo financeiro internacionalizado? Até que ponto podemos enfrentar as tensões entre um e outro? Na era do Vietnã e Pinochet, Migone colocou essas perguntas sobre o relacionamento dos Estados Unidos com a Itália de Mussolini. Elas ainda permanecem conosco até hoje. E ao enfrentá-las precisamos de toda a ajuda que pudermos obter. Embora o retorno das humanidades à "história do capitalismo" seja um efeito colateral bem-vindo da crise financeira, décadas de abandono cobraram seu preço em nossas faculdades críticas e analíticas. Vai nos fazer muito bem aguçar nossa inteligência sobre os esforços de uma geração anterior para compreender a economia política do capitalismo internacional. O lúcido e poderoso livro de Migone é um excelente ponto de partida.

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