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31 de maio de 2016

Você está assistindo à morte do neoliberalismo - a partir de dentro

Economistas do FMI publicaram um artigo notável admitindo que a ideologia foi sobrevalorizada

Aditya Chakrabortty


Foto: Dylan Martinez/AFP/Getty Images

Tradução / Com o que se parece quando uma ideologia morre? Tal como acontece com a maioria das coisas, a ficção pode ser o melhor guia. Em Red Plenty, seu magnífico e prazeroso romance histórico da União Soviética, Francis Spufford desenha como o sonho comunista de construção de uma sociedade melhor, mais justa, se desfez.

Mesmo enquanto censuravam os próprios pensamentos dos seus cidadãos, os comunistas sonharam grande. O herói de Spufford é Leonid Kantorovich, o único Soviético a ganhar um prêmio Nobel de Economia. Chacoalhando no metrô de Moscou, ele fantasia sobre quanta abundância trará para seus empobrecidos companheiros de jornada: "As roupas das mulheres todas se tornando de seda acolchoada, os uniformes militares tornando-se, sob medida, em cinza e prata; e rostos, olha a extensão do vagão, relaxando, perdendo as linhas de preocupação e os olhares famintos e todas as variadas marcas de dentes da necessidade".

Mas a realidade faz um trabalho rápido em tais castelos de areia. Os números são cada vez mais desobedientes. Os belos planos só podem ser realizados através da trapaça, e os planejadores o sabem melhor do que quaisquer dissidentes. Esta é uma das ideias fundamentais de Spufford: que muito antes de quaisquer protestos públicos, os insiders abrem o caminho murmurando sua inquietação. Sussurro por sussurro, nota por nota, o regime está constantemente sendo minado por dentro. Sua derrubada final ocorre décadas além do final do romance, mas já pode ser notada.

Quando o Red Plenty foi publicado em 2010, estava claro que a ideologia subjacente ao capitalismo contemporâneo estava falhando, mas não que ela estava morrendo. No entanto, um processo semelhante ao descrito no romance parece estar acontecendo agora, em nosso capitalismo em constante crise. E são os tecnocratas responsáveis pelo sistema que estão lentamente, relutantemente, admitindo que ele está fracassando.

"Você o ouve quando Mark Carney, do Banco da Inglaterra, soa o alarme sobre um equilíbrio com 'baixo crescimento', 'baixa inflação', 'baixas taxas de juro'". Ou quando o Bank of International Settlements, o banco central dos bancos centrais, adverte que "a economia global parece incapaz de retornar ao crescimento sustentável e equilibrado". E você o viu mais claramente na última quinta-feira, do próprio FMI.

O que torna a intervenção do fundo tão notável não é o que está sendo dito - mas quem está dizendo isso e quão abruptamente. Na principal publicação do FMI, três dos seus principais economistas escreveram um ensaio intitulado "Neoliberalismo: Sobrevalorizado?".

O próprio título provoca uma sacudida. Por tanto tempo economistas de prestígio e os responsáveis políticos têm negado a existência de uma tal coisa como o neoliberalismo, descartando-o como um insulto inventado por descontentes banguelas que não entendem nem a economia, nem o capitalismo. Agora, aqui vem o FMI, descrevendo como uma "agenda neoliberal" se espalhou por todo o mundo nos últimos 30 anos. O que eles querem dizer é que mais e mais estados têm refeito suas instituições sociais e políticas em cópias pálidas do mercado. Dois exemplos britânicos, sugere Will Davies - autor de Limites do Neoliberalismo - seriam o NHS e as universidades, "onde as salas de aula estão sendo transformadas em supermercados". Desta forma, o setor público é substituído por empresas privadas, e a democracia é suplantada por mera competição.

Os resultados, os pesquisadores do FMI admitem, tem sido terríveis. O neoliberalismo não entregou o crescimento econômico - ele só fez algumas pessoas muito mais ricas. Ele provoca falhas épicas que deixam para trás destroços humanos e custam bilhões de dólares para limpar, uma descoberta com a qual a maioria dos moradores do banco de alimentos, na Grã-Bretanha, concordariam. E enquanto George Osborne poderia justificar a austeridade como "consertar o telhado, enquanto o sol está brilhando", a equipe do Fundo a define como "reduzir o tamanho do estado... um outro aspecto da agenda neoliberal". E, dizem, os seus custos "podem ser grandes - muito maiores do que os benefícios".

Duas coisas precisam estar em mente aqui. Em primeiro lugar, este estudo vem da divisão de pesquisa do FMI - não daqueles funcionários que voam por países falidos, regateando os termos do empréstimo com os governos que precisam de dinheiro e administram o transbordamento fiscal. Desde 2008, uma grande lacuna se abriu entre o que o FMI pensa e o que ele faz. Em segundo lugar, enquanto os pesquisadores vão muito mais longe do que os observadores do fundo poderiam ter acreditado, eles deixam opções de saída em algumas cláusulas muito importantes. Os autores ainda defendem a privatização como levando a "prestação mais eficiente de serviços" e menos gastos do governo - para a qual a única resposta deve ser a de oferecer-lhes um passeio de trem através de Hinkley Point C.

Mesmo assim, esta é uma violação extraordinária do consenso neoliberal pelo FMI. A desigualdade e a inutilidade de muito das finanças modernas: esses temas tornaram-se "brinquedos regulares de mastigar" para economistas e políticos, que preferem tratá-los como aberrações da norma. Finalmente uma grande instituição está indo atrás não só dos sintomas, mas da causa - e está nomeando essa causa como política. Não é de admirar que o principal autor do estudo diga que esta investigação não teria sequer sido publicada pelo fundo, cinco anos atrás.

Desde a década de 1980 a elite política tem refutado a noção de que eles estavam agindo ideologicamente - apenas estavam fazendo "o que funciona". Mas você só pode seguir com essa reivindicação se o que você está fazendo está realmente funcionando. Desde o crash, os banqueiros centrais, políticos e correspondentes de televisão têm tentado tranquilizar o público que este chiado ou esses bilhões fariam o truque e colocariam a economia novamente em ordem. Eles têm folheado cada página do manual e além - salvamentos bancários, cortes de gastos, congelamento de salários, injeção de bilhões nos mercados financeiros - e o crescimento ainda permanece anêmico.

E quanto mais a crise segue, mais o público cai em si de que não só o crescimento tem sido mais fraco, mas os trabalhadores comuns têm desfrutado muito menos de seus benefícios. No ano passado o centro de ideias dos países ricos, a OCDE, fez uma concessão notável. Ela reconheceu que a parcela do crescimento econômico do Reino Unido que beneficia os trabalhadores está agora em seu nível mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial. Ainda mais notável, ela disse que o mesmo ou pior aplica-se aos trabalhadores em todo o Ocidente capitalista.

Red Plenty termina com Nikita Khrushchev andando fora de sua dacha, para onde ele foi violentamente aposentado. "Paradise," ele exclama, "é um lugar onde as pessoas querem acabar, não é um lugar de onde querem fugir. Que tipo de socialismo é esse? Que tipo de merda é essa, quando você tem que manter as pessoas em correntes? Que tipo de ordem social? Que tipo de paraíso?"

Os economistas não falam como os romancistas, o que é uma pena, mas o que você está testemunhando em meio a todos os gráficos e linguagem técnica é o início de uma longa morte de uma ideologia.

28 de outubro de 2013

O pensamento econômico dominante está em estado de negação: o mundo mudou

Apesar do crash, os sumo-sacerdotes da economia recusam-se a olhar para a óbvia realidade que têm em frente dos olhos – e continuam a dar respaldo às elites mundiais.

Aditya Chakrabortty

The Guardian

Tradução / Não é suposto que as rebeliões sejam desencadeadas em auditórios escolares – mas vimos uma na última quinta-feira à noite. Era pequena e bem apresentada e com boas maneiras, e acho que a vou recordar por muito tempo.

Tínhamo-nos reunido no Downing College, em Cambridge, para discutir a crise econômica, embora a miséria quotidiana deste tópico parecesse a léguas dos doces dormitórios e da opulência aveludada deste lugar.

Igualmente incongruentes eram os oradores. A economista de Cambridge Victoria Bateman embora aparentando um ar inocente, veio, no entanto, arrasar os seus colegas. Estes tinham sido estupidamente arrogantes antes do crash – lembram-se da jactância do premiado Nobel Robert Lucas, em 2003, propalando que o “problema central da depressão-prevenção já estava resolvido”? – e, depois do crash, os mesmos economistas não aprenderam nada. Apesar disso, continuaram a ser os profetas preferidos de primeiros-ministros e presidentes. Victoria Bateman terminou a intervenção assim: “Se querem enforcar alguém pela crise, enforquem-me a mim... e também aos meus colegas economistas.”

O que se seguiu foi concordância mas a ranger os dentes. Na noite anterior aos números mais recentes sobre o crescimento, ninguém nesta sala monumental usou a palavra “recuperação”, a não ser com sarcasmo. Em vez disso, os participantes no auditório – de meia-idade, bem vestidos e certamente com generosas hipotecas – viraram-se a atacar os banqueiros, os políticos e, sim, os economistas. Os economistas tinham criado o caos pelo qual toda a gente estava a pagar, sem que, no entanto, tenham sido penalizados por isso.

Em uma das instituições de elite do mundo, as elites estavam a levar uma grande tareia – tanto os gestores financeiros, como os empresários e os acadêmicos. Também sabiam bem o que tinham feito. Chegada a sua vez de falar ao microfone, um biólogo disse: ” Só acreditarei que os economistas fizeram as devidas reformas quando os homens que estão por detrás dos modelos de Black e Scholes [a teoria que ajuda os traders na determinação do valor dos instrumentos financeiros derivados] tenham sido despojados dos seus prêmios Nobel.”

Um dos fatos centrais do pós-crash britânico é que as elites ainda detêm o poder, mas já não controlam a credibilidade necessária para o exercerem. Vê-se isso por exemplo quando Russell Brand fala nos noticiários da noite sobre o corrupto mundo liliputiano de Westminster, e também nos vários videoclips do YouTube que totalizam mais de 3 milhões de visualizações. E foi a isso que eu certamente assisti em Cambridge.

Tal como qualquer pessoa comum na Grã- Bretanha – quer os que ganham o salário mínimo, quer os que têm um salário de cinco dígitos– as pessoas naquele auditório acadêmico tinham sido convencidas durante décadas a confiar nos políticos, nos decisores governamentais e nos empregadores para lhes assegurarem os empregos, as casas e as pensões, assim como perspectivas de futuro para os seus filhos. Após a eclosão da maior e mais longa ruptura econômica desde os anos 30, já não estão, evidentemente, dispostas a renovar essa confiança.

Mas, ao mesmo tempo, as elites – quer em Whitehall, quer na City – mantêm-se na liderança. Olhando para os economistas da corrente dominante ficamos com uma muito boa ideia de como as reformas têm sido impedidas.

Como sublinhou Victoria Bateman, estes paladinos armados de diplomas de doutoramento em prol da “The Great Moderation” (A Grande Moderação) deveriam, por uma questão de justiça, ter sido completamente desacreditados após o crash. Afinal, a coisa mais significativa que emergiu a nível acadêmico da economia nos últimos cinco anos não foi nenhuma obra de pesquisa, mas sim o excelente documentário “Inside Job”, no qual o cineasta Charles Ferguson mostrou como algumas das melhores mentes das universidades americanas tinham sido pagas pela Alta Finança para produzirem trabalhos de investigação em prol da mesma Alta Finança.

Mais ainda, se olharmos em volta para os mais importantes cursos de economia, verificamos que a teoria econômica neoclássica – essa teoria que trata os seres humanos como calculadoras que andam, de maneira omnisciente, só a pensar nos seus próprios interesses, e que considera também que os mercados retornam sempre inevitavelmente à estabilidade – se mantém na liderança. Porquê? Numa palavra: negação. Os sumo-sacerdotes da economia recusam-se a reconhecer que o mundo mudou.

No seu novo livro “Never Let a Serious Crisis Go to Waste”, o economista americano Philip Mirowski narra como um colega na sua universidade foi instado pelos alunos, na primavera de 2009, a falar sobre a crise. Aparentemente, o mundo estava a desabar em torno deles e que melhor fórum haveria para discutir isso senão uma aula de macroeconomia. A resposta? “Os alunos foram informados abruptamente que não era matéria do programa do curso e não havia nada sobre isso no manual do curso e, por isso, o professor não queria desviar-se do plano estabelecido para as aulas. E não falou sobre a crise.”

Algo semelhante está a acontecer na Universidade de Manchester, onde, tal como o meu colega Phillip Inman afirmou na semana passada, os alunos da licenciatura em economia estão a solicitar aos seus professores um programa de estudos que reconheça que há outras maneiras de ver o mundo sem ser apenas uma série de problemas algébricos. Fiquei intrigado com isso: significava que Smith, Marx e Malthus não eram ensinados? Sim, disse-me o finalista da licenciatura de desenvolvimento econômico, Cahal Moran. E o que se ensina de Joseph Schumpeter e da sua teoria da destruição criativa? Ah, ele é mencionado, mas literalmente somente uma menção.

Isso não é tudo culpa dos professores: quando se tem de dar aulas para cerca de 400 alunos ao mesmo tempo, é difícil encontrar tempo e espaço para sair fora do programa. Mas o resultado é que os estudantes de economia saem das salas de exame e vão para os departamentos do governo ou para a City com exatamente o mesmo conjunto de ferramentas que há cinco anos levou ao enorme crash na economia.

A Economia deveria ser uma disciplina abrangente, abarcando filosofia, história e política. Mas as abordagens heterodoxas foram desde há muito tempo banidas da maioria das faculdades, afirma Tony Lawson. Na década de 1970, quando ele começou a ensinar na Universidade de Cambridge, a Faculdade de Economia ainda ostentava verdadeiras lendas como Nicky Kaldor e Joan Robinson. “Havia grandes debates, e os alunos estudavam política assim como história do pensamento econômico.” E agora? “Nada. Nem debates, nem política, nem história do pensamento econômico e os cursos são quase tudo apenas matemática.”

Como é que as elites se mantém na liderança? Se o conto de fadas dos economistas serve para o elucidar, as elites mantém-se na liderança por afastarem a oposição e depois taparem os ouvidos à realidade. O resultado é aquilo que todos nós estamos a pagar.

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