Aidan O'Brien*
counterpunch: Tells the Facts and Names the Names
Uma outra coisa estranha aconteceu na semana passada. O presidente dos EUA ordenou oficialmente que a CIA interrompa sua guerra contra a Síria. Portanto, não era aquecimento global, nem "Assad" nem neoliberalismo, nem sequer era uma guerra civil. O líder da guerra na Síria era a CIA. É claro que a CIA continuará oficiosamente a guerra contra a Síria. Mas podemos saborear um momento a verdade. E uma "derrota oficial da CIA".
E por que só saborear? Por que não se alegrar? Porque esta "vitória" importante pode ser o ponto de virada no assalto ocidental do século anterior ao povo muçulmano. O que muitos chamam de "arco da resistência" (xiita e secular) já se solidificou, enquanto a ofensiva imperial ocidental vacilou.
O general dos EUA, Wesley Clark, cantou a bola anos atrás, quando revelou as intenções dos EUA no Oriente Médio após o 11 de setembro: sete países foram invadidos (Iraque, Líbia, Síria, Líbano, Somália, Sudão e Irã). O ex-ministro das Relações Exteriores da França, Roland Dumas, também cantou a bola quando revelou que o Estado britânico (um ativo definitivo da CIA) estava se preparando para uma guerra contra a Síria dois anos antes do início do Holocausto sírio em 2011. E o jornalista investigativo Seymour Hersh também cantou a bola em seu artigo na New Yorker de 2007: "The Redirection". Neste texto, ele revelou como os EUA estavam se unindo mais uma vez com os fundamentalistas sauditas/sunitas em e ao redor da Síria.
E se toda essa revelação não fosse suficiente - Wikileaks expôs as maquinações da embaixada dos EUA em Damasco na primeira década deste século. A desestabilização era a agenda. A "diplomacia" da CIA era a regra. Em suma, a Síria estava na mira da cruzada do Império. Na verdade, foi assim nos últimos sessenta anos. Os planos para o caos na Síria estão na mesa imperial desde a década de 1950 (Operação Straggle).
Todo essa conspiração se fundiu como uma bomba atômica sobre a Síria em 2011. No entanto, a resistência síria a ela e a eventual "vitória" sobre ela não está recebendo o enorme crédito e respeito que merece. A Síria deu um golpe pela humanidade. E marcou uma vitória para a humanidade. E a humanidade - ou pelo menos a parte ocidental - escolhe olhar para o outro lado.
Os "humanitários" ocidentais culpam a Síria pelo Holocausto sírio. Os relatórios de Amnesty International e Human Rights Watch (ambos em termos íntimos com o Departamento de Estado dos EUA) não derramam nada além do desprezo sobre a República Árabe da Síria. E mesmo alguns radicais ocidentais culpam a Síria. Desde o início, Noam Chomsky queria uma mudança de regime. E "mil e um" outros esquerdistas honraram os curdos no norte da Síria e outras ilusões revolucionárias, em vez de dizer qualquer coisa boa sobre a República síria.
Na história ocidental grotescamente distorcida da guerra contra a Síria: as muitas formas do imperialismo ocidental foram omitidas e ainda estão sendo omitidas. A CIA e o modus operandi foram omitidos e ainda não estão sendo responsabilizados: a compra de informantes, traidores, jornalistas, mercenários, filmes, oscars, etc.
Em um caso clássico de liberalismo sem vergonha - quando se tratava da Síria, as ações secretas e abertas do Ocidente foram marginalizadas e um indivíduo "estrangeiro" foi destacado: o presidente sírio.
E em uma demonstração decepcionante de pensamento crítico, uma grande proporção da esquerda ocidental acabou apontando para um "estrangeiro" também: o presidente sírio.
Enquanto o hábito da ala direita ocidental sempre foi culpar estrangeiros ou estranhos. A esquerda ocidental pós-moderna (pós-revolucionária) caiu no mesmo hábito. Por que essa crítica contundente? Por que a relutância em reconhecer a maior vitoria antiimperialista nos tempos pós-modernos?
Porque um "ditador" é responsável por isso? Assim? A vida da República estava na alça de mira! Esse ponto existencial não se registra nas cabeças ocidentais? Nós somos cegos aos resultados genocidas de nossas políticas ocidentais quando são impostas a países vulneráveis do Terceiro Mundo? Somos tão puros que não podemos reconhecer um modelo político alternativo? O presidente da Síria poderia ter abandonado o barco. Mas ele realmente atuou como um presidente. Ele ficou quando teria sido mais fácil correr.
No Ocidente, nossos Presidentes desistem de resistir à injustiça no primeiro sinal de problemas. Na Europa, por exemplo, não se atreve a lutar contra os inimigos do povo (o Banco Central Europeu e a OTAN). Portanto, não estamos acostumados a ver um líder com espinha dorsal. Quando vemos um, pensamos que é inacreditável. Eles devem estar algo errado. Ele deve ser um "ditador". Quando, na verdade, é o contrário: a "democracia capitalista" ocidental é a ditadura - especialmente quando é exportada para o não-Ocidente.
Nos tempos pós-modernos, a preocupação ou o apoio ocidental à "revolução árabe" são falsos. Não tem base. Portanto, para que os ocidentais fiquem à margem e ensinem a Síria sobre "revolução" é grosseiro. Para dizer sem rodeios: hoje no Ocidente não temos credenciais revolucionárias. Então, o que nos torna especialistas em "revolução" em qualquer lugar? Na verdade, por que nós a percebemos onde não é? Por que nosso julgamento da Síria é baseado nos mais altos padrões revolucionários quando uma força imperial voraz está claramente para destruí-la? Por que projetamos nossos próprios desejos de mudança em pessoas que querem apenas sobreviver ao Holocausto. A crítica ocidental da Síria é para dizer o mínimo equivocada. Para dizer o máximo: foi uma vítima involuntária de um blitzkrieg da mídia da CIA.
E a natureza neoliberal da Síria? Todos os países do mundo de hoje são mais ou menos neoliberais. Mas, além da Líbia, nenhum outro país foi despedaçado como a Síria. Algo mais foi a causa do Holocausto sírio. Explicar a "Síria", apontando para o colapso neoliberal da sociedade, portanto, é um policiamento grosseiro. E a relutância em apontar a CIA como causa nos últimos seis anos foi covarde.
Conhecemos a história da CIA. Cuba, Chile, Nicarágua, Congo, Angola, Vietnã, Indonésia, Laos, etc. As guerras secretas e as campanhas secretas de desestabilização não são mais segredos. Então, por que a inocência quando se trata da Síria? Em três palavras: a Primavera Árabe.
No entanto, após seis anos de horror, a narrativa "Primavera" não faz sentido. No caso da Síria é uma venda nos olhos. Desde quando as atividades da CIA já representaram uma "Primavera"? Tem sido uma distração bem trabalhada. A grande ironia é que, hoje, após a "vitória" da República síria, é provável que vejamos um verdadeiro renascimento sírio - uma verdadeira primavera do povo sírio.
E antes que alguém diga "Imperialismo Russo", deixe essa ideia de lado. O fato é que a economia russa é menor do que a da Califórnia. Simplesmente não tem a capacidade econômica de ser um império. E sugerir o contrário é farsesco. Para repetir o nosso ponto principal: a vida da República síria estava na alça de mira nos últimos anos. Portanto, a República tinha todo o direito de usar qualquer vantagem que tivesse. Nas guerras, os "aliados" são um fato da vida.
No que diz respeito à "corrida" da Rússia para ajudar a Síria - a melhor analogia é a corrida cubana para ajudar Angola na década de 1970. A entrada de Cuba naquela guerra da CIA não era "imperialismo cubano", mas um ato de solidariedade internacional. E mudou a história da África moderna para melhor. Foi o início do fim do apartheid da África do Sul.
E esse é precisamente o significado da vitória da Síria. Ao combater patriotas e ao derrotar a máquina de matar do Ocidente, os sírios não apenas salvaram seu país, mas salvaram sua região de novas destruições. E se este for o caso, é o início do fim do apartheid de Israel.
* Aidan O'Brien é um funcionário hospitalar em Dublin, Irlanda.
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31 de agosto de 2017
3 de julho de 2017
Para onde foram os racistas britânicos?
Aidan O'Brien*
counterpunch: Tells the Facts and Names the Names
Portanto, os progressistas erraram ao criticar ferozmente o voto no Brexit, no ano passado. Foram enganados por uns meios de comunicação dominantes, que minimizaram as políticas de austeridade da UE – com as quais eles (os meios de comunicação) concordavam – enquanto exageravam o medo dos imigrantes. Os progressistas perderam completamente o significado positivo de esquerda do voto no Brexit (John Pilger e Tariq Ali são as exceções) – algo que pode ser hoje claramente percebido.
E o que dizer da juventude britânica – aqueles que adoram Corbyn e, ao mesmo tempo, supostamente, amam a UE? Após a votação do Brexit, argumentou-se que os britânicos mais velhos e obsoletos traíram os britânicos jovens e europeístas. No entanto, nas eleições gerais, os jovens votaram esmagadoramente pelo fim da austeridade. Mais uma vez: como se pode afirmar que um jovem que se opõe à austeridade no Reino Unido quer – ao mesmo tempo – pertencer a uma organização europeia que festeja a austeridade permanente? Ou os jovens estão loucos, ou o seu querer político tem sido constantemente sub-representado nos meios de comunicação dominantes (como tudo o mais) e só agora se está a afirmar claramente.
O descarrilamento do comboio conservador não significa o descarrilamento do Brexit, mas sim o descarrilamento da austeridade na Grã-Bretanha. Isto encoraja os progressistas em todo o lado – e com razão –, ainda que alguns deles continuem paradoxalmente a apoiar uma União Europeia que se trancou num colete de forças de austeridade neoliberal. Esta contradição na consciência progressista é encoberta pela crença de que a UE é uma barreira ao racismo, ou ao que alguns chamam “nacionalismo”. E, por isso, qualquer pessoa que se oponha à UE é vista como um racista ou um “nacionalista” com uma estreita mentalidade de direita, mesmo que a própria UE esteja a aprofundar a desigualdade e, consequentemente, o ódio social e nacional em todo o continente.
Cegos por esta falsa luta (falsa porque não é efetuada) contra o “ódio racial nazista”, os progressistas não conseguem ver o amplo ódio de classe que enforma o núcleo essencial da UE e que – entre outras coisas infernais – gera efetivamente o racismo. A ironia é que aqueles que amam a UE por causa das suas credenciais “antirracistas” (“antinazistas” ou “antinacionalistas”) acabaram a apoiar um regime fanaticamente austero que promove as divisões sociais (assim como as divisões internacionais), que são a pedra fundamental do racismo. E da guerra.
Os votos no Brexit e em Jeremy Corbyn foram positivamente antissistémicos. Os progressistas compreenderam o significado do segundo voto, mas interpretaram mal o primeiro. Em geral, esse mal-entendido resultou de o povo ou as classes trabalhadoras estarem muito à frente da classe política. Não há maior sinal deste fato do que a diferença entre o povo os meios de comunicação dominantes. Depois de ridicularizarem o Brexit e Corbyn, os meios de comunicação – à luz dos resultados do último ano – agora, não têm qualquer base para se sustentar. Isto, porque os meios de comunicação representam a “classe neoliberal politicamente correta” e nada mais. Contudo, as linhas de batalha do povo estão claras e sólidas. E o povo está no terreno da classe e não da raça.
No entanto, os racistas britânicos existem.
E, neste momento, estão a apoiar o governo minoritário de Teresa May. O Partido Democrático Unionista (DUP) do nordeste da Irlanda representa “os israelenses da Irlanda”. E, agora, são os fazedores de reis da Grã-Bretanha. Por um longo tempo, o hábito britânico foi o de exportar os seus racistas arruaceiros. Os seus homens armados e colonizadores viajaram e estabeleceram-se em todo o mundo – e muitos não foram além da Irlanda. Agora – ironia de ironias – estão a instalar-se no n.º 10 da Downing Street, no que aparece como uma última estadia.
O DUP votou de fato no Brexit por razões racistas (eles odeiam os irlandeses). É com isto que a Irlanda tem de viver. A questão agora é: viverão também com isto Corbyn e a juventude britânica? Se ambos são sérios sobre o combate à austeridade, Corbyn e o seu exército juvenil irão também combater o racista DUP. O Brexit facilitará a luta de Corbyn, porque este não terá de fingir uma unidade com os racistas coloniais. Os progressistas ambíguos, porém, são outra questão.
* Aidan O'Brien é um trabalhador hospitalar em Dublin, na Irlanda.
Tradução / Há um ano, a Grã-Bretanha votou pela saída da União Europeia. E muitos progressistas não conseguiram entender isso. Culparam os britânicos – em particular, as classes trabalhadoras inglesas e galesas. Os progressistas vilipendiaram aqueles que tiveram a temeridade de rejeitar Bruxelas. Alguém que quisesse deixar a UE era considerado um racista, um homem das cavernas, um nacionalista irracional e, até, um bêbado louco.
No entanto, hoje – exatamente um ano depois –, após o desempenho de Jeremy Corbyn nas recentes eleições britânicas, progressistas de todo o lado estão entusiasmados e otimistas com os eleitores britânicos. Alguns falam mesmo num Brexit “suave” ou, até, num não Brexit. Mas fará sentido esta variação de humor entre os progressistas, que num ano veem Hitler e no próximo veem Jesus? Mudou assim tanto a Grã-Bretanha num ano? Ou estão os progressistas a fazer uma leitura completamente errada do voto do eleitorado britânico? Será que desapareceram subitamente todos aqueles “odiosos imigrantes”, ou estavam mesmo lá anteriormente?
A Grã-Bretanha não se mudou a si própria no último ano. A recente eleição – que, inesperadamente, deteve a marcha dos Tories – complementou (e, ao invés, não contrariou) o voto para sair da União Europeia. O sucesso de Corbyn baseou-se num argumento antiausteridade. Ele deu aos britânicos uma alternativa, não só à visão conservadora da sociedade, mas também à visão da Europa da UE. Ele tentou acabar, explicitamente, com o absurdo neoliberal que traumatizou a maioria e enriqueceu a minoria. E, ao fazê-lo, estava a afastar a Grã-Bretanha da UE – e não a aproximá-la.
Se, este ano, os britânicos compreenderam o horror da austeridade, não é possível que também o tivessem compreendido no ano passado, quando votaram pelo Brexit? Considerando que “a UE” defende a “austeridade fanática”, é razoável assumir que a rejeição britânica da UE, no ano passado, foi baseada no medo da austeridade e não no medo dos imigrantes.
Se o ódio à imigração fosse a força motriz do voto no Brexit, no ano passado, então deveria ter-se manifestado novamente nas eleições gerais deste ano. Mas não. Pelo contrário, desapareceu da vista. O único partido político que, nos últimos anos, fez da imigração uma grande questão – o UKIP (o Partido da Independência do Reino Unido) - foi destruído nas recentes eleições. Isto sugere que a imigração foi e é uma questão superficial entre o eleitorado britânico.
Em retrospetiva, é justo concluir que a verdadeira questão, no ano passado, não era a dos imigrantes, mas a da própria UE – em particular, as suas brutais políticas de austeridade –, políticas que os conservadores britânicos, desde há muitos anos, abraçaram incondicionalmente. Os eleitores britânicos responderam negativamente a essas políticas, não só este ano, mas também no ano passado. Esta é a única verdadeira lição que podemos retirar desses dois dramáticos votos britânicos. O fio comum é a rejeição racional da austeridade praticada na UE e no Reino Unido.
No entanto, hoje – exatamente um ano depois –, após o desempenho de Jeremy Corbyn nas recentes eleições britânicas, progressistas de todo o lado estão entusiasmados e otimistas com os eleitores britânicos. Alguns falam mesmo num Brexit “suave” ou, até, num não Brexit. Mas fará sentido esta variação de humor entre os progressistas, que num ano veem Hitler e no próximo veem Jesus? Mudou assim tanto a Grã-Bretanha num ano? Ou estão os progressistas a fazer uma leitura completamente errada do voto do eleitorado britânico? Será que desapareceram subitamente todos aqueles “odiosos imigrantes”, ou estavam mesmo lá anteriormente?
A Grã-Bretanha não se mudou a si própria no último ano. A recente eleição – que, inesperadamente, deteve a marcha dos Tories – complementou (e, ao invés, não contrariou) o voto para sair da União Europeia. O sucesso de Corbyn baseou-se num argumento antiausteridade. Ele deu aos britânicos uma alternativa, não só à visão conservadora da sociedade, mas também à visão da Europa da UE. Ele tentou acabar, explicitamente, com o absurdo neoliberal que traumatizou a maioria e enriqueceu a minoria. E, ao fazê-lo, estava a afastar a Grã-Bretanha da UE – e não a aproximá-la.
Se, este ano, os britânicos compreenderam o horror da austeridade, não é possível que também o tivessem compreendido no ano passado, quando votaram pelo Brexit? Considerando que “a UE” defende a “austeridade fanática”, é razoável assumir que a rejeição britânica da UE, no ano passado, foi baseada no medo da austeridade e não no medo dos imigrantes.
Se o ódio à imigração fosse a força motriz do voto no Brexit, no ano passado, então deveria ter-se manifestado novamente nas eleições gerais deste ano. Mas não. Pelo contrário, desapareceu da vista. O único partido político que, nos últimos anos, fez da imigração uma grande questão – o UKIP (o Partido da Independência do Reino Unido) - foi destruído nas recentes eleições. Isto sugere que a imigração foi e é uma questão superficial entre o eleitorado britânico.
Em retrospetiva, é justo concluir que a verdadeira questão, no ano passado, não era a dos imigrantes, mas a da própria UE – em particular, as suas brutais políticas de austeridade –, políticas que os conservadores britânicos, desde há muitos anos, abraçaram incondicionalmente. Os eleitores britânicos responderam negativamente a essas políticas, não só este ano, mas também no ano passado. Esta é a única verdadeira lição que podemos retirar desses dois dramáticos votos britânicos. O fio comum é a rejeição racional da austeridade praticada na UE e no Reino Unido.
Portanto, os progressistas erraram ao criticar ferozmente o voto no Brexit, no ano passado. Foram enganados por uns meios de comunicação dominantes, que minimizaram as políticas de austeridade da UE – com as quais eles (os meios de comunicação) concordavam – enquanto exageravam o medo dos imigrantes. Os progressistas perderam completamente o significado positivo de esquerda do voto no Brexit (John Pilger e Tariq Ali são as exceções) – algo que pode ser hoje claramente percebido.
E o que dizer da juventude britânica – aqueles que adoram Corbyn e, ao mesmo tempo, supostamente, amam a UE? Após a votação do Brexit, argumentou-se que os britânicos mais velhos e obsoletos traíram os britânicos jovens e europeístas. No entanto, nas eleições gerais, os jovens votaram esmagadoramente pelo fim da austeridade. Mais uma vez: como se pode afirmar que um jovem que se opõe à austeridade no Reino Unido quer – ao mesmo tempo – pertencer a uma organização europeia que festeja a austeridade permanente? Ou os jovens estão loucos, ou o seu querer político tem sido constantemente sub-representado nos meios de comunicação dominantes (como tudo o mais) e só agora se está a afirmar claramente.
O descarrilamento do comboio conservador não significa o descarrilamento do Brexit, mas sim o descarrilamento da austeridade na Grã-Bretanha. Isto encoraja os progressistas em todo o lado – e com razão –, ainda que alguns deles continuem paradoxalmente a apoiar uma União Europeia que se trancou num colete de forças de austeridade neoliberal. Esta contradição na consciência progressista é encoberta pela crença de que a UE é uma barreira ao racismo, ou ao que alguns chamam “nacionalismo”. E, por isso, qualquer pessoa que se oponha à UE é vista como um racista ou um “nacionalista” com uma estreita mentalidade de direita, mesmo que a própria UE esteja a aprofundar a desigualdade e, consequentemente, o ódio social e nacional em todo o continente.
Cegos por esta falsa luta (falsa porque não é efetuada) contra o “ódio racial nazista”, os progressistas não conseguem ver o amplo ódio de classe que enforma o núcleo essencial da UE e que – entre outras coisas infernais – gera efetivamente o racismo. A ironia é que aqueles que amam a UE por causa das suas credenciais “antirracistas” (“antinazistas” ou “antinacionalistas”) acabaram a apoiar um regime fanaticamente austero que promove as divisões sociais (assim como as divisões internacionais), que são a pedra fundamental do racismo. E da guerra.
Os votos no Brexit e em Jeremy Corbyn foram positivamente antissistémicos. Os progressistas compreenderam o significado do segundo voto, mas interpretaram mal o primeiro. Em geral, esse mal-entendido resultou de o povo ou as classes trabalhadoras estarem muito à frente da classe política. Não há maior sinal deste fato do que a diferença entre o povo os meios de comunicação dominantes. Depois de ridicularizarem o Brexit e Corbyn, os meios de comunicação – à luz dos resultados do último ano – agora, não têm qualquer base para se sustentar. Isto, porque os meios de comunicação representam a “classe neoliberal politicamente correta” e nada mais. Contudo, as linhas de batalha do povo estão claras e sólidas. E o povo está no terreno da classe e não da raça.
No entanto, os racistas britânicos existem.
E, neste momento, estão a apoiar o governo minoritário de Teresa May. O Partido Democrático Unionista (DUP) do nordeste da Irlanda representa “os israelenses da Irlanda”. E, agora, são os fazedores de reis da Grã-Bretanha. Por um longo tempo, o hábito britânico foi o de exportar os seus racistas arruaceiros. Os seus homens armados e colonizadores viajaram e estabeleceram-se em todo o mundo – e muitos não foram além da Irlanda. Agora – ironia de ironias – estão a instalar-se no n.º 10 da Downing Street, no que aparece como uma última estadia.
O DUP votou de fato no Brexit por razões racistas (eles odeiam os irlandeses). É com isto que a Irlanda tem de viver. A questão agora é: viverão também com isto Corbyn e a juventude britânica? Se ambos são sérios sobre o combate à austeridade, Corbyn e o seu exército juvenil irão também combater o racista DUP. O Brexit facilitará a luta de Corbyn, porque este não terá de fingir uma unidade com os racistas coloniais. Os progressistas ambíguos, porém, são outra questão.
* Aidan O'Brien é um trabalhador hospitalar em Dublin, na Irlanda.
2 de dezembro de 2016
Fidel e Espanha: um conto de certo e errado
por Aidan O'brien
counterpunch: Tells the Facts and Names the Names
Os jornais espanhóis no domingo passado mal podiam conter-se. Os grandes, El País, ABC, El Mundo, La Razon e La Vanguardia estavam esperando muito tempo por este momento. E na ocasião liberaram o que quer que tinham reprimido dentro de suas mentes medíocres. As manchetes dos jornais são: "Morte da Revolução", "Morte do Tirano Cubano", "Ícone e Ditador", "História Negra do Mito Vermelho" e "Símbolo do Sonho Revolucionário, Morto". Eles estavam ideologicamente excitados, na verdade felizes. Como os de Miami, os de Madrid ficaram aliviados. O principal testemunho de sua culpa tinha desaparecido.
Sabemos por que Miami o faz, mas por que Madrid dança no túmulo de Fidel?
Por quê? Porque a ambição de Fidel era desfazer tudo o que a Espanha fez no mundo. Era por isso que seu projeto era grande. Não era apenas sobre o século XX. Ele incluiu os últimos cinco séculos. E se for para dizer a verdade que inclua os próximos cinco séculos também. Isso é o quão grande ele era. Seu campo de batalha é medido não em décadas, mas séculos. E nesse sentido a Espanha era tanto seu inimigo quanto os EUA.
Fidel era a antítese dos conquistadores. E a monarquia espanhola e a igreja espanhola eram anátema para ele. Quanto a Franco, o que quer que fosse, Fidel se opôs. Fidel não só se recusou a seguir a liderança dos EUA, mas também a liderança da Espanha. Na batalha pela alma da América Latina, Miami e Madri são parceiros. Mas ambos foram eclipsados por Fidel. Os descendentes dos conquistadores - aqueles que ainda dominam a América Latina e a Espanha - nunca o perdoarão.
Fidel rejeitou seu direito de primogenitura: privilégio espanhol. E, ao fazê-lo, minou toda a estrutura de poder do mundo de língua espanhola. Ele se rebelou contra o seu sangue e, como resultado, o fascismo "espanhol" o teve em sua mira. Não importa a raiva que Fidel causa nos EUA. A amargura sentida para com ele na Espanha é palpável. Pois o fato é que Fidel encarnou o espírito republicano espanhol. Seu abraço da igualdade não só ofendeu Miami, mas também Madrid. Enquanto Franco podia silenciar a República, não pôde silenciar Fidel. O que Franco moldou, Fidel quebrou. A revolução de Fidel foi a resposta à contra-revolução de Franco.
Fidel foi o filho que fugiu. Seu pai veio da pequena aldeia de Lancara, na Galiza, no norte da Espanha - a mesma parte da Espanha de onde veio Franco. Contudo foi de Cuba que o jovem Fidel assistiu a ascensão Franco e à ressurreição da Espanha medieval. Cabia a Fidel reviver a vida moderna "espanhola". Em 1959 ele fez. A partir de então, a honra "espanhola" foi encontrada em Cuba e não na Espanha. Á medida a Espanha regrediu em termos humanos, Cuba progrediu. No cenário global, a antiga colônia superou o antigo império. A Espanha tornou-se um anão moral, enquanto Cuba sob Fidel tornou-se uma montanha moral.
A Espanha pós-Franco tem sido uma história de oportunismo. Sem confiança em si mesmo, saltou para todos os carros de propaganda política que já passaram: a União Européia, o Euro, a Guerra no Oriente Médio e os Bank Bailouts - para citar os óbvios. Em contraste, Cuba de Fidel sabe para onde está indo. E tem confiança em sua própria capacidade de chegar lá. Ele não saiu fora o curso apesar do bloqueio e os fortes ventos da história. Independência, integridade e realismo foram os blocos de construção de Fidel. Como resultado, as fundações de Cuba não estão agora em dúvida. As fundações da Espanha, por outro lado, são constantemente questionadas. Ameaçada pela fragmentação regional e social - a Espanha esconde a sua insegurança na OTAN e nas organizações da UE que são inseguras. O resultado final e grande ironia no século 21 é que a Espanha é outra colônia, enquanto Cuba é o Estado soberano.
A "aposta" sábia de Fidel não só na década de 1950, mas também na década de 1990 valeu a pena. A segunda "aposta" pouco conhecida foi o momento em que Fidel se recusou ainda mais a seguir o caminho espanhol. Desta vez tratava-se da virada neoliberal no caminho. E o conselho espanhol para fazâ-la. Conforme relatado na autobiografia de Fidel, o Partido Socialista Espanhol (PSOE) no final da década de 1980 e no início da década de 1990 estava se esforçando para vender o neoliberalismo à Rússia e Cuba. A esquerda espanhola sob a liderança de Felipe González foi infectada pelo vírus liberal e estava desesperado para espalhá-lo usando suas conexões com Moscou e Havana. No entanto, Fidel viu através da Espanha. E descartou a noção de neoliberalismo. A Rússia não descartou e pagou caro por isso. Fidel tratava a Espanha como se fosse uma vigarista. Ele não a levou a sério. E ele estava certo.
O fascismo espanhol e a democracia espanhola não eram para Fidel. Ele viu por trás do decrépito império espanhol. Nesse sentido, a Espanha era e é como em qualquer outro lugar no Ocidente: uma força desacreditada no mundo. O futuro pertence ao Terceiro Mundo. Esse é, finalmente, o significado de Fidel. E a Espanha, como em qualquer outro lugar no Ocidente, se recusa a reconhecer ou trabalhar com essa realidade. El País, portanto, está errado: os sonhadores reais são aqueles no Ocidente que pensam que seu capitalismo e imperialismo são sustentáveis.
A morte de Fidel é uma oportunidade para zombar do seu significado. E o Ocidente faz isso. No entanto, está evidentemente errado. Porque Fidel estava e está certo. A história o absolveu há muito tempo.
counterpunch: Tells the Facts and Names the Names
Os jornais espanhóis no domingo passado mal podiam conter-se. Os grandes, El País, ABC, El Mundo, La Razon e La Vanguardia estavam esperando muito tempo por este momento. E na ocasião liberaram o que quer que tinham reprimido dentro de suas mentes medíocres. As manchetes dos jornais são: "Morte da Revolução", "Morte do Tirano Cubano", "Ícone e Ditador", "História Negra do Mito Vermelho" e "Símbolo do Sonho Revolucionário, Morto". Eles estavam ideologicamente excitados, na verdade felizes. Como os de Miami, os de Madrid ficaram aliviados. O principal testemunho de sua culpa tinha desaparecido.
Sabemos por que Miami o faz, mas por que Madrid dança no túmulo de Fidel?
Por quê? Porque a ambição de Fidel era desfazer tudo o que a Espanha fez no mundo. Era por isso que seu projeto era grande. Não era apenas sobre o século XX. Ele incluiu os últimos cinco séculos. E se for para dizer a verdade que inclua os próximos cinco séculos também. Isso é o quão grande ele era. Seu campo de batalha é medido não em décadas, mas séculos. E nesse sentido a Espanha era tanto seu inimigo quanto os EUA.
Fidel era a antítese dos conquistadores. E a monarquia espanhola e a igreja espanhola eram anátema para ele. Quanto a Franco, o que quer que fosse, Fidel se opôs. Fidel não só se recusou a seguir a liderança dos EUA, mas também a liderança da Espanha. Na batalha pela alma da América Latina, Miami e Madri são parceiros. Mas ambos foram eclipsados por Fidel. Os descendentes dos conquistadores - aqueles que ainda dominam a América Latina e a Espanha - nunca o perdoarão.
Fidel rejeitou seu direito de primogenitura: privilégio espanhol. E, ao fazê-lo, minou toda a estrutura de poder do mundo de língua espanhola. Ele se rebelou contra o seu sangue e, como resultado, o fascismo "espanhol" o teve em sua mira. Não importa a raiva que Fidel causa nos EUA. A amargura sentida para com ele na Espanha é palpável. Pois o fato é que Fidel encarnou o espírito republicano espanhol. Seu abraço da igualdade não só ofendeu Miami, mas também Madrid. Enquanto Franco podia silenciar a República, não pôde silenciar Fidel. O que Franco moldou, Fidel quebrou. A revolução de Fidel foi a resposta à contra-revolução de Franco.
Fidel foi o filho que fugiu. Seu pai veio da pequena aldeia de Lancara, na Galiza, no norte da Espanha - a mesma parte da Espanha de onde veio Franco. Contudo foi de Cuba que o jovem Fidel assistiu a ascensão Franco e à ressurreição da Espanha medieval. Cabia a Fidel reviver a vida moderna "espanhola". Em 1959 ele fez. A partir de então, a honra "espanhola" foi encontrada em Cuba e não na Espanha. Á medida a Espanha regrediu em termos humanos, Cuba progrediu. No cenário global, a antiga colônia superou o antigo império. A Espanha tornou-se um anão moral, enquanto Cuba sob Fidel tornou-se uma montanha moral.
A Espanha pós-Franco tem sido uma história de oportunismo. Sem confiança em si mesmo, saltou para todos os carros de propaganda política que já passaram: a União Européia, o Euro, a Guerra no Oriente Médio e os Bank Bailouts - para citar os óbvios. Em contraste, Cuba de Fidel sabe para onde está indo. E tem confiança em sua própria capacidade de chegar lá. Ele não saiu fora o curso apesar do bloqueio e os fortes ventos da história. Independência, integridade e realismo foram os blocos de construção de Fidel. Como resultado, as fundações de Cuba não estão agora em dúvida. As fundações da Espanha, por outro lado, são constantemente questionadas. Ameaçada pela fragmentação regional e social - a Espanha esconde a sua insegurança na OTAN e nas organizações da UE que são inseguras. O resultado final e grande ironia no século 21 é que a Espanha é outra colônia, enquanto Cuba é o Estado soberano.
A "aposta" sábia de Fidel não só na década de 1950, mas também na década de 1990 valeu a pena. A segunda "aposta" pouco conhecida foi o momento em que Fidel se recusou ainda mais a seguir o caminho espanhol. Desta vez tratava-se da virada neoliberal no caminho. E o conselho espanhol para fazâ-la. Conforme relatado na autobiografia de Fidel, o Partido Socialista Espanhol (PSOE) no final da década de 1980 e no início da década de 1990 estava se esforçando para vender o neoliberalismo à Rússia e Cuba. A esquerda espanhola sob a liderança de Felipe González foi infectada pelo vírus liberal e estava desesperado para espalhá-lo usando suas conexões com Moscou e Havana. No entanto, Fidel viu através da Espanha. E descartou a noção de neoliberalismo. A Rússia não descartou e pagou caro por isso. Fidel tratava a Espanha como se fosse uma vigarista. Ele não a levou a sério. E ele estava certo.
O fascismo espanhol e a democracia espanhola não eram para Fidel. Ele viu por trás do decrépito império espanhol. Nesse sentido, a Espanha era e é como em qualquer outro lugar no Ocidente: uma força desacreditada no mundo. O futuro pertence ao Terceiro Mundo. Esse é, finalmente, o significado de Fidel. E a Espanha, como em qualquer outro lugar no Ocidente, se recusa a reconhecer ou trabalhar com essa realidade. El País, portanto, está errado: os sonhadores reais são aqueles no Ocidente que pensam que seu capitalismo e imperialismo são sustentáveis.
A morte de Fidel é uma oportunidade para zombar do seu significado. E o Ocidente faz isso. No entanto, está evidentemente errado. Porque Fidel estava e está certo. A história o absolveu há muito tempo.
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