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1 de agosto de 2018

Trump e as políticas de destruição neoliberal

Ajamu Baraka

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Com a ultrajante decisão da Casa Branca, de Trump, de proibir um ativista da CNN de se apresentar como repórter, mais pessoas estão agora a começar a fazer a ligação entre liberdade de imprensa e a questão do “direito a saber” e da informação livre. Mas temos de perguntar mais uma vez onde estava essa preocupação quando os democratas, sob a administração Obama, usavam o ato de espionagem para prender os que denunciavam e processar jornalistas? Por que não há indignação na proximidade de o governo equatoriano entregar Julian Assange para ser processado pela inteligência ocidental, pelo crime de ter publicado relatos das suas nefandas ações? Onde estavam estes defensores objetivos do direito à informação quando o Estado esteve a colaborar com corporações privadas, como a Google, o Twitter e o Facebook para alterar e limitar o discurso político e a informação?

Para alguns – que, dentro do contexto da atual e intensa luta ideológica, tentam afastar o foco e a análise de um quadro oportunista e simplista, que se centra sobre personalidades e psicologias individualizadas, para interesses materiais e estruturas e interesses de classe – pode abrir-se caminho para acusações de não serem suficientemente contra Trump, ou de serem, estranhamente, “pró-Trump”. Mas foram Obama e ambos os partidos capitalistas, e não Trump, que introduziram o “Ato Contra a Propaganda e Desinformação Estrangeiras” na Lei de Autorização da Defesa Nacional, em 2017, nos últimos dias da sua administração. Um ato que estabelece um centro de propaganda no Departamento de Estado, que, objetivamente, tem estado a coordenar operações psicológicas (psyops) nos EUA, em conjugação com corporações privadas e serviços de inteligência.

A oposição silenciosa ou o apoio total a esses esforços dos democratas liberais não é exatamente um caso de hipocrisia. É uma obstinada posição ideológica que afirma que certos discursos e informações são aceitáveis ​​e outros não. Numa época em que a concentração capitalista resultou em seis corporações, que agora controlam mais de 90% do dominante conteúdo noticioso, a restrita faixa de conteúdos de reportagem e “dignos de notícia” não deveria ser uma surpresa para alguém ainda capaz de pensar criticamente. Esses democratas liberais são cúmplices em sustentar a mentira de que a imprensa capitalista representa uma visão do mundo objetiva e não partidária.

A orientação editorial e o preconceito das agências de notícias da Televisão Russa (RT) e do New York Times para com a BBC e a Fox News são bastante óbvias, e ninguém deveria ser autorizado a reivindicar uma posição universal sobre a “verdade”. Todavia, devemos exigir o livre fluxo da informação, especialmente informação de setores não corporativos e não estatais. Defender este direito humano e democrático não é uma capitulação às sensibilidades burguesas. Reconhece-se que defender este direito “democrático” é uma necessidade objetiva das forças radicais no atual contexto, em que os setores estatal e corporativo estão a colaborar para restringir os discursos e a informação.

O aberto autoritarismo da administração Trump e das forças que representa é uma oportunidade para os progressistas mudarem o discurso político. A ofuscação da unilateral guerra de classes contra a classe operária, os pobres e as pessoas de cor nos EUA, durante as últimas quatro décadas, desarmou e confundiu a oposição radical. Mas o impacto da crise de 2007-8 expôs à frente de todos as contradições sistémicas e irreconciliáveis ​​do projeto capitalista neoliberal, mesmo que a maioria não tivesse as ferramentas teóricas para entender corretamente a realidade que viveu. A agenda da oligarquia e os ataques sistemáticos aos direitos humanos individuais e coletivos para realizar essa agenda não podiam mais ser disfarçados.

No entanto, acreditava-se que, com a correta gestão dessa perceção, as duras arestas do ataque podiam ser suavizadas, mesmo se o Estado continuasse a fortalecer as suas capacidades repressivas. O capital financeiro transnacional dos EUA atribuiu essa função a Barack Obama.

A administração Obama colaborou com os tribunais e o Congresso para desmantelar os direitos democráticos e fortalecer o aparato repressivo do Estado, incluindo o assassinato de cidadãos dos EUA. O jornalista James Risen só escapou da prisão porque trabalhava para o New York Times. Entretanto, autores de denúncias como John Kiriakou, que expôs o programa de tortura de Bush, foram enviados para a prisão, juntamente com Chelsea Manning, que foi condenado a 35 anos de prisão por expor a evidência dos crimes de guerra das forças dos EUA no Iraque. Mesmo perante estes claros ataques à liberdade de imprensa, os jornalistas burgueses apenas conseguem resmungar o ódio irracional a Julian Assange e à WikiLeaks.

A expansão da vigilância da NSA e a espionagem e incriminação de jornalistas que fazem denúncias são ataques sistemáticos à liberdade de imprensa, de pálida expressão quando comparados à teatralidade dos discursos inflamados de Trump contra a imprensa. Mas, de acordo com James Risen, se Trump decidir “atirar um denunciante para a cadeia por tentar falar com um repórter, ou mandar o F.B.I. espiar um jornalista, tem de agradecer a um homem por lhe ter legado um tão amplo poder: Barack Obama”.

Esta é a realidade objetiva que enfrentamos. Requer um pensamento claro, livre de emoções, de moralismos elitistas pequeno-burgueses e de distrações da propaganda liberal, que minam a nossa capacidade de ver e entender que o Estado nacional da inteligência militarista é um inimigo de todos nós, porque serve os interesses da classe dominante como um todo.

Trump, Sanders, Obama, Mueller e a CNN são meras distrações ideológicas destinadas a entorpecer as nossas perceções e a impedir-nos de chegar a uma conclusão sobre a impressionante realidade da nossa dominação sistémica. O fascismo representa uma forma específica de decadência capitalista. É por isso que – apesar de o protofascismo de Trump representar uma perigosa tendência –, evitar o beco sem saída político e ideológico do antitrumpismo exige que mantenhamos o foco da nossa análise e agitação nas atuais estruturas da supremacia branca, do patriarcado colonial-capitalista, e não nas individualidades e personalidades; isto, se quisermos evitar fazer o sujo trabalho ideológico da classe dominante.

17 de agosto de 2017

A história de Charlottesville foi escrita em sangue na Ucrânia

Ajamu Baraka

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Qual é o caráter da política de direita racista hoje? É o supremacista branco enlouquecido que arrasa uma manifestação antifascista em Charlottesville, VA ou também pode ser a garantia de Lindsay Graham de que um ataque contra a Coréia do Norte resultaria em milhares de vidas perdidas...? Mas essas vidas são do lada de "lá"? E sobre a recente resolução unânime das duas casas do Congresso em apoio a Israel e críticas às Nações Unidas pelo seu suposto viés anti-israelense? Seria qualificado como racista e de direita, uma vez que parece que o sofrimento contínuo dos palestinos não é preocupante? E o que diz respeito ao voto da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos para ir além da proposta obscena da administração Trump de aumentar o orçamento militar em US $ 54 bilhões e, em vez disso, adicionar um enorme US $ 74 bilhões ao orçamento do Pentágono?

Acho curioso, na discussão em curso, sobre o que muitos têm chamado de "reforçar a direita radical suprematista branca", é a facilidade com que se mobiliza a oposição aparente contra os suprematistas cruéis e declarados que todos vimos em Charlottesville. É tão fácil essa oposição, que opera, de fato, como modo de esconder o trabalho muito mais difícil e perigoso que tem de ser feito para efetivamente confrontar os agentes ativos do real poder da direita nos EUA.

A supremacia branca que alguns veem como mais insidiosa, não se reflete nessas imagens simplórias, estereotipadas, de pessoas com ar ensandecido, erguendo a mão na saudação nazista tão prezada pela "alt-right" nem, sequer, em Donald Trump. Em vez disso, a supremacia branca está já normalizada e portanto já se tornou completamente invisível na ideologia do suprematismo branco inculcada nas instituições culturais e de ensino e nas correspondentes políticas que surgem dessas ideias. Esse processo não produz só os militantes armados e enlouquecidos da direita radical, mas também os verdadeiros crentes clandestinos dessa mesma ideologia, como Robert Ruben do Goldman Sachs, Hillary Clinton, Barack Obama, Tony Blair e Nancy Pelosi – indivíduos "decentes" que jamais, nem por um instante, algum dia questionaram a superioridade da civilização ocidental, que creem cegamente na responsabilidade e no direito do Ocidente Branco, ao qual caberia determinar quais nações devem ser soberanas e quem deve reinar sobre as nações "inferiores". Esses mesmos também creem cegamente que não há alternativa possível às maravilhas do capitalismo global, mesmo que signifique que bilhões de seres humanos estejam condenados permanentemente ao que [Franz] Fanon chamou de "zona do não ser".

Essa, sim, é a supremacia – e o correspondente suprematismo – que realmente me preocupam. E por mais que reconheça o grave perigo que advém do movimento da direita violenta, ainda assim me preocupo mais com as políticas de direita que estão sendo consagradas em lei – e igualmente por Democratas e Republicanos em todos os níveis de governo.

Há mais de dois anos, escrevi que:

"A repressão e a desumanização brutais que se viram por toda a Europa nos anos 1930 não encontrou expressão generalizada nos EUA e na Europa, pelo menos até agora. Ainda assim, grandes setores da esquerda nos EUA e na Europa parecem incapazes de identificar o eixo EUA/OTAN/União Europeia que se dedica a manter a hegemonia do capital ocidental, resultando em perigosa cooperação com forças da direita, tanto dentro como fora dos governos."

O ímpeto desse artigo foi criticar o perigo inerente à manipulação cínica da administração Obama de elementos de direita na Ucrânia para derrubar o governo democraticamente eleito de Viktor Yanukovych. Não só era perigoso e previsivelmente desastroso para o povo ucraniano, mas porque o apoio dos EUA a um movimento neofascista na Ucrânia ocorreu dentro de um contexto em que a direita político ganhava legitimidade e força em toda a Europa, o impacto político da direita ganhando o poder na Ucrânia não poderia ser isolado do poder crescente da direita em outros lugares. O que significava que o objetivo egoísta e de curto prazo do governo Obama de minar a Rússia na Ucrânia teve o efeito de capacitar a direita e mudar o equilíbrio de forças para a direita em toda a Europa.

Mas, porque Obama era visto, erradamente, como liberal, ele conseguiu safar-se de quase todas as críticas contra suas políticas na Ucrânia, na Europa e domesticamente. De fato, ambos – os liberais e a esquerda nos EUA e na Europa – apoiaram, de modo geral, as políticas de Obama para a Ucrânia.

Mesmo assim, jogar levianamente com elementos da direita na Ucrânia e subestimar o poder crescente da direita resultou na formação de movimentos fortes e perigosos da mesma direita, e dos dois lados do Atlântico, os quais efetivamente exploraram o racismo branco que é endêmico e, simultaneamente, as contradições da globalização capitalista neoliberal. A ascensão de Donald Trump não pode ser separada das políticas raciais, de classe e das chamadas "políticas de gênero" nesse momento, nos EUA e em todo o mundo.

A "alt-right" que se mostrou em Charlottesville no fim de semana passado imitava as táticas da linha de frente de soldados neofascistas que orquestraram o golpe na Ucrânia. Em vez de denunciarem essa verdade, todos repetem que seria resultado do governo Trump. O fato objetivo é que os EUA já estão convertidos numa perigosa sociedade de direita, culminância de um processo ininterrupto rumo à direita, que se arrasta há quatro décadas. A ideia de que a eleição de Trump teria de algum modo "inventado" essa direita não pode ser levada a sério, nem pode ser reduzida às manifestações brutais da "alt-right".

O alvo da oposição radical tem de ser as estruturas do poder banco, vale dizer, as estruturas e instituições que provêm a base material para a supremacia e o suprematismo branco euro-norte-americano e sua reprodução ideológica. Apesar disso, a ordem capitalista e suas instituições – Organização Mundial do Comércio, FMI, Banco Mundial e o sistema ocidentalizado de formação/educação universitária que servem de base material para o poder suprematista branco hegemônico – sempre escapam de qualquer exame crítico, porque a atenção popular foi desviada cona algum David Duke ou algum Donald Trump.

Trump e a "alt-right" tornaram-se úteis como questões para desviar as atenções para bem longe dos liberais suprematistas racistas brancos. A esquerda muito mais rapidamente se deixará arrastar para a luta contra essas caricaturas superficiais do racismo, do que saberá abraçar o trabalho ideológico muito mais difícil, que envolve real autodoação e autossacrifício – livrar-se de todo o sentimentalismo associado à mitologia do lugar dos brancos, da civilização branca e da branquitude do universo, e adotar uma trilha de justiça que resultará no fim do privilégio material hoje assegurado só aos brancos.

Considerando a supremacia branca a partir desse ponto de vista mais amplo, é claro que apoiar o estado de Israel, a guerra contra a Coreia no Norte, o encarceramento em massa (de brancos e de negros pobres), um orçamento militar protesto, a gentrificação das cidades, a subversão na Venezuela, a guerra do Estado nos EUA contra a população negra e mulata de todos os gêneros, e a guerra contra direitos de reprodução estão entre as muitas manifestações de uma ideologia de direita profundamente enraizada que não pode ser convenientemente e oportunisticamente reduzida a Trump e os Republicanos.

E quando entendemos que a supremacia branca não é apenas o que está na cabeça de alguém, mas também é uma estrutura global com impactos contínuos e devastadores sobre os povos do mundo, entenderemos melhor por que alguns de nós disseram isso para que o mundo ao vivo, o supremacista branca de 525 anos, o patriarcado pan-europeu, colonial/capitalista, deve morrer

Sua escolha será clara: ou você se junta a nós como covardes ou se entrega aos privilégios de classe e racial e junta-se à frente unida branca inter-classe. A alt-right está esperando, e eles estão levando recrutas da esquerda que estão cansados da "política de identidade".

2 de dezembro de 2015

O ataque neoliberal à vida dos negros de Baltimore à Buenaventura, Colômbia

Ajamu Baraka

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Danelly Estupiñan, uma grande ativista de direitos humanos afro-colombiana e minha amiga pessoal, hoje enfrenta uma ameaça mortal de criminosos fanáticos alinhados com os interesses econômicos dos poderosos, que se empenham em manter a subjugação da população negra na cidade portuária de Buenaventura e em toda a Colômbia.

Ativista e membro do Processo das Comunidades Negras (PCN), Danelly faz parte de uma longa lista de mulheres, trabalhadores e jovens ativistas que estão enfrentando a morte ou foram assassinados por se atrever a organizar afro-colombianos em defesa de sua dignidade.

Às 17:30 de 23 de novembro, Danelly recebeu uma ameaça de morte que dizia: "Danelly, você está perto do seu fim". Menos de cinco horas depois, ela recebeu um telefonema de um amigo, que foi interposto por uma voz distorcida dizendo "nós sabemos onde você está, nós sabemos onde você está".

O escritório do Processo das Comunidades Negras (PCN) em Buenaventura atua há décadas em defesa dos direitos e da dignidade da população negra que vive na área de Bajamar da Ilha de Cascajal, em Buenaventura. Os afrodescendentes que vivem nesta área, muitos dos quais foram deslocados juntamente com seus filhos, fugiram de conflitos e de abusos nas comunidades ribeirinhas próximas. Eles agora vivem em condições sub-humanas decorrentes do abandono por parte do Estado. Não só têm de enfrentar uma extrema marginalização, pobreza, falta de serviços básicos e pouco acesso a oportunidades de emprego, mas agora a área em que vivem teve seu valor aumentado como resultado do "acordo de livre comércio" entre a Colômbia e os EUA, o que os tornou alvo de grupos armados que procuram forçá-los a abandonar suas terras.

Eu conheço esta comunidade. Eu andei por suas ruas e comi do mesmo pão que seus habitantes. O governo quer que essa e outras comunidades negras simplesmente desapareçam, porque pretende expandir o porto e construir um novo calçadão na cidade, de modo a atrair investimentos privados e dólares de turistas. Seu único obstáculo são as pessoas que vivem naquela terra valiosa. Danelly e o PCN representam uma resistência organizada a esses planos e, portanto, tornaram-se alvo dos grupos paramilitares que protegem e fazem valer os interesses da elite colombiana.

A pobreza, a repressão e a luta de vida e morte das comunidades negras em Buenaventura, Colômbia, não pode ser compreendida se ignorarmos a estrutura e a lógica da globalização capitalista neoliberal - uma perspectiva que relaciona as condições de Buenaventura com as condições de outra cidade portuária - Baltimore.

Em ambos os casos, os efeitos da globalização capitalista resultaram no deslocamento maciço de populações negras; aumento da pobreza; marginalização econômica do trabalho negro e violência estatal ou privada. A erupção da resistência popular em uma das comunidades mais pobres de Baltimore durante anos de negligência estatal e policiamento militarizado é consequência direta das condições sócio-econômicas devastadoras geradas pelos milhares de empregos perdidos quando os EUA transnacionalizaram grande parte das atividades industriais e portuárias da cidade, resultado de uma globalização neoliberal. Em contexto de pauperização da classe trabalhadora negra em Baltimore, os administradores negros de classe média que ocupavam as instituições governamentais locais apoiaram planos de desenvolvimento, como o complexo Inner Harbor, que deslocou milhares de famílias da classe trabalhadora negra.

Em Baltimore, a relativa fraqueza da resistência negra ao significativo deslocamento em massa fez com que não fossem necessários esquadrões da morte para exterminar líderes comunitários, diferente do que vemos na Colômbia. O domínio eminente e um policiamento militarizado neofascista, com impunidade de crimes cometidos contra os negros e pobres concentrados nas comunidades arruinadas, tem sido arma eficaz para controle e contenção das pessoas. E quando houve erupções de oposição, como durante a última rebelião em Baltimore em resposta ao assassinato policial de Freddie Gray, vimos como o Estado, a nível local e nacional, não hesitou em trazer todo o peso de sua jurisprudência opressora sobre quem se atrevia a resistir.

O que deve ser claramente entendido e articulado em linguagem inequívoca é que essa guerra travada contra corpos negros não significa contenção de "maçãs podres" pelas forças policiais, não é uma falta de revisão eficaz das práticas policiais ou, no caso da Colômbia, não é simplesmente a ausência de um governo que intervenha de forma mais agressiva para desmantelar os grupos paramilitares. A guerra que está sendo travada contra negros pobres e contra a classe trabalhadora é precisamente a manifestação de uma guerra mais ampla, engendrada por uma supremacia branca assassina e voraz, uma classe dominante global, colonial, capitalista e patriarcal que visa manter e expandir a sua hegemonia mundial.

Esta é a base e o objetivo da Parceria TransPacífico (PTP), do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial (BM), da OTAN, da guerra na Síria e do apoio contínuo ao forte do imperialismo ocidental no Oriente Médio, conhecido como Israel.

Não se confunda com o papel dos estados vassalos, como Turquia, Arábia Saudita, França, Reino Unido ou mesmo com os estados que parecem independentes dessa dominação, como China e Rússia - as fundações da dominação capitalista global, através de força, ainda se situam no Ocidente e representam uma continuação do velho projeto colonial e capitalista pan-europeu, agora com 523 anos. Esta é principal contradição que os diferentes povos do mundo enfrentam.

Em 9 de novembro, os paramilitares assassinaram o jovem ativista Jhon Jairo Ramirez Olaya em Buenaventura. Hoje, Danelly Estupiñan, cuja vida e luta são símbolo para todos aqueles que lutam contra opressões, está enfrentando a morte pela audácia de se organizar e resistir a globalização capitalista.

Nós devemos nos juntar ao povo da Colômbia. Temos de nos certificar de que as vidas dos negros de Buenaventura importam e de que a nossa querida irmã estará protegida. Mas também devemos reconhecer que, para que a vida negra realmente importe, a vida de todos aqueles que sofrem e são explorados pelo capitalismo neoliberal e pela ideologia desumanizadora da supremacia branca devem também importar. A valorização de nossas vidas só pode acontecer quando nós, os oprimidos, lutarmos pelo poder de transformar nossas condições e de imaginar e lutar por um novo mundo.

10 de outubro de 2014

Enquanto os curdos são massacrados pelo EI em Kobane, os EUA bombardeiam silos de trigo na Síria

Quando liberais vão à guerra

Ajamu Baraka

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Os EUA lançaram uma curiosa guerra humanitária contra o Estado Islâmico (EI) na Síria. Enquanto Kobane, o distrito de maioria curda, que fica na fronteira com a Turquia está sendo atacado por forças EI e diante da possibilidade muito real de mortes em massa de civis se chegar a cair, porta-vozes militares dos EUA dizem que estão monitorando a situação e fizeram missões ocasionais de bombardeios, mas que concentram seus esforços contra o Estado Islâmico (EI) em outras partes da Síria. Estes esforços parecem estar bombardeando prédios vazios, escolas, pequenas instalações de bombeamento de óleo, um veículo ocasional e silos de trigo em que os alimentos são armazenados. A Turquia também parece estar observando enquanto os curdos de Kobane lutam até a morte contra o Estado Islâmico (EI).

A preocupaçõe humanitária de funcionários nos EUA com o destino dos curdos no Kobane não poderia ser mais diferente do que ocorreu no Iraque, quando as forças do Estado Islâmico (EI) atacaram território curdo. Enquanto a cidade curda de Erbil foi atacada pelo Estado Islâmico (EI), as forças americanas desencadearam todo o poder da sua força aérea, em coordenação com as forças curdas para expulsá-lo de volta.

Então, qual é a diferença entre as duas situações?

A diferença e o motivo pelo qual os curdos de Kobane são sacrificados se deve a que são o tipo inapropriado de curdos. Massoud Barzani e a burguesia curda do Partido Democrático Curdo (KDP) são os “bons” e os curdos da força dominante entre os curdos do Iraque. Seu controle de cerca de 45% das reservas iraquianas de petróleo e o negócio em expansão em que estiveram envolvidos com as empresas de petróleo dos EUA e Israel desde a sua “libertação” pela invasão americana torna essa população em um ativo valioso para EUA. O mesmo se aplica à Turquia, onde, apesar da opressão histórica dos curdos na Turquia, o governo tem um sólido negócio com os curdos no Iraque.

A situação é completamente diferente nas áreas de auto-governo curdo na Síria. Em Kobane, as principais forças que resistem ao ataque de EI são das Unidades Kurdas de Proteção Popular, ou YPG, que estão ligados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização para a independência curda baseada na Turquia, que EUA e Turquia têm rotulado como “terrorista”. Além disso, o ataque do EI ao território curdo converge claramente com os interesses estratégicos da Turquia. Ambos EUA e Turquia veem o controle do território por militantes curdos como uma ameaça. Turquia, em particular, quer enfraquecer o processo de auto-governo entre curdos, árabes sunitas e cristãos nas áreas de auto-governo e transformar o país em um campo de batalha para roubar território sírio, isolar e atacar os “maus” curdos do PKK.

A Turquia pressionou para conseguir e aparentemente obteve um acordo dos Estados Unidos de não se opor a que se apodere de partes do território da Síria. Para consolidar essa apropriação de terras a Turquia também quer estabelecer uma “zona tampão” ao longo da fronteira sírio-turca. Assim, os porta-vozes do governo dos EUA foram propagando a ideia de uma zona de exclusão aérea no nordeste da Síria nos meios de comunicação estatais e corporativos em seu país. A área está sendo apresentada como necessária para proteger os civis dos ataques das forças sírias, usando novamente o engano humanitário.

No entanto, não haverá intervenção humanitária em favor dos curdos “maus” da Síria como não houve para os palestinos “mau” do Hamas e Gaza.

Para aplacar o governo turco, em troca do aumento de sua cooperação no que se prepara como um esforço final contra Damasco, a população de Kobane será entregue ao EI.

A transparência do plano da Turquia e a colaboração dos EUA no massacre planejado dos combatentes do YPG em Kobane poderia ser facilmente esclarecido nos EUA. Se os leitores das noticias da imprensa corporativa pudessem realmente “ver” o mundo de uma forma mais crítica e, se lhes fosse permitido questionar as narrativa oficialmente aprovados sem correr riscos de perderem seus “cargos”. Por exemplo, a pergunta óbvia a respeito de uma zona de exclusão aérea no nordeste da Síria é se é de fato necessária , já que apenas os civis curdos são atacados nessa área e são atacados pelas forças de Estado Islâmico (EI) que não possuem uma força aérea, pelo menos não ainda.

Mas essas perguntas não são formuladas, muitas vezes, porque elas não se encaixam na narrativa oficial dos EUA que é forçada a agir mais uma vez para salvar o mundo de um inimigo intransigente e que só pode ser derrotado pelo poder militar americano. Isso tudo faz parte do engano imperialista que chegou a convencer grandes segmentos da “esquerda” nos EUA.

No entanto, o não bombardeio do Estado Islâmico (EI) em Kobane e o teatro do bombardeio de determinados edifícios, vazios, confirmam o que deveria ser óbvio a partir do histórico de intervenções americanas, o real propósito da intervenção dos EUA no Iraque e na Síria é a reintrodução do seu poder militar direto na região para garantir o controle permanente dos recursos de petróleo e gás natural da região, enfraquecer o Irã, bloquear a Federação Russa e romper acordos de cooperação econômica e comercial entre os países da Ásia Central e China. Em outras palavras, o objetivo é garantir a hegemônia capitalista/colonial ocidental. Os EUA e seus aliados só precisavam de um pretexto para voltar a se impor sem alienar grande parte da população do interior. O Estado Islâmico (EI) ofereceu o que ataques com gás sarin não puderam conseguir, a aceitação em massa de uma nova guerra do Ocidente, não importa o quão limitada se apresente em sua primeira fase.

Os militaristas do establishment político americano nunca quiseram abandonar os planos de uma presença militar permanente no Iraque, mesmo antes do fato de que, manter esta presença, estava custando ao país um preço enorme em sangue, dinheiro e legitimidade interna. Eles concluíram que o caminho de volta para Bagdá e depois a Teerã passava pela Síria. Uma posição que Obama adotou no início de sua administração, apesar dos informes em contrário. Tudo o que Obama queria era uma negação plausível, durante a primeira fase do plano para desestabilizar a Síria.

A situação atual em Kobane forma parte da farsa cínica que é a luta contra o Estado Islâmico (EI). A Turquia não tem interesse em impedir que Kobane caia nas mãos de Estado Islâmico (EI), se nega aos curdos qualquer coisa parecida com auto determinação, o que corresponde a seus interesses estratégicos. E os EUA não estão interessados em alterar o equilíbrio de forças no terreno na Síria degradando seriamente ao Estado Islâmico (EI) militarmente e enfraquecendo seu principal objetivo a curto prazo de uma mudança de regime na Síria.

Com a criação do Estado Islâmico (EI), os neoconservadores e intervencionistas liberais têm agora a sua guerra e uma parte significativa do público americano dando o seu apoio, pelo menos por agora. Mas esse apoio irá mudar à medida que se torna claro que a elite política voltou a lançar os EUA num atoleiro. A verdadeira vergonha e expressão da contradição da supremacia global, branca, capitalista/ colonial e que até que esta percepção se imponha entre as pessoas que estão no centro do império e se mobilizem para alterar as políticas bélicas dos EUA, milhares de pessoas vão morrer em Kobane e por toda a Síria, Iraque e em todo o mundo.

23 de agosto de 2013

Réquiem para uma revolução que nunca existiu

With the collusion of some radicals and liberals, the term "revolution" in the context of Egypt has been de-radicalised. Não ocorreu qualquer processo revolucionário no Egito, no sentido de uma transferência do poder concentrado nas classes dominantes da sociedade egípcia.

Ajamu Baraka


"Por vezes, as pessoas detêm uma crença basilar muito forte. Perante provas que colocam em causa esse princípio, essas novas provas não podem ser aceitas. Tal criaria um sentimento extremamente desconfortável, designado de dissonância cognitiva. E, uma vez que a proteção desse princípio assume uma enorme relevância, eles irão racionalizar, ignorar e até negar qualquer coisa que não caiba nessa crença." 
Frantz Fanon, Os Condenados da Terra (1961)

À medida que as forças armadas egípcias consolidam o seu golpe de estado contra os dirigentes e a estrutura política da Irmandade Muçulmana, torna-se evidente o quão o argumento inicial a legitimar a intervenção militar, racionalizando-a como a solução necessária a um «processo revolucionário», perdeu toda a credibilidade. Porém, muitos liberais e radicais parecem partilhar uma leitura fantasiosa dos acontecimentos no Egito, a qual não só legitima o golpe militar, como define o pequeno e mesquinho grupo de capitalistas de estado à cabeça das forças armadas como sendo parte do povo e do processo revolucionário.

De intelectuais burgueses, como Isabel Coleman, a respeitáveis marxistas como Samir Amin, o qual insinuou uma neutralidade de classe por parte das forças armadas egípcias, a resposta emocional à imagem de centenas de milhares de pessoas nas ruas pareceu ter criado um estado de insanidade temporária ou, como refere Frantz Fanon, uma dissonância cognitiva. Esta é a única explicação para a acrobacia teórica e retórica que muitos utilizam na reconciliação das crenças nos direitos democráticos e na transformação revolucionária com os acontecimentos que, nos dias de hoje, se atravessam sob os seus olhares.

Uma revolução apenas de nome

O uso e a aceitação popular do termo revolução na descrição dos acontecimentos ocorridos ao longo dos últimos dois anos demonstram a eficácia do discurso global liberal, em conluio com alguns radicais, no processo de «desradicalização», até do termo revolução.

Evitando o romantismo associado à revolução e ao sentimentalismo provocado pelas imagens das «massas em movimento», devemos concluir que entre fevereiro de 2011, altura do derrube de Mubarak, e 3 de Julho de 2012, data do regresso dos militares ao poder, não ocorreu qualquer processo revolucionário, uma vez que não se verificou qualquer transferência do poder concentrado nas classes dominantes da sociedade egípcia. Não se constatou qualquer reestruturação do Estado, quaisquer novas instituições e estruturas democráticas criadas com o objetivo de representar a vontade e os interesses dos novos blocos sociais progressivos (os estudantes, trabalhadores, agricultores, as organizações femininas, etc), qualquer transformação social profunda. Na verdade, as violações e os ataques sexuais ocorridos durante as recentes mobilizações não deixaram de transparecer o domínio efetivo do ideário sexista e patriarcal, intangível pelo suposto processo revolucionário.

A revolução é um processo no qual as estruturas de poder são criadas por uma ampla massa de pessoas, as quais se permitem, eventualmente, transformar o mais ínfimo aspecto da sociedade – da estrutura e do papel do estado e da organização económica às relações interpessoais – com vista à eliminação de todas as formas de opressão. Não é que não tenham ocorrido alguns importantes avanços organizacionais, efetuados por alguns elementos do movimento operário no Egito (inclusive a criação de sindicatos independentes). No entanto, o imperativo organizacional para a mudança revolucionária – a construção de estruturas populares necessárias à sustentação da luta de massas e à representação do poder dual – não foi tão forte quanto teria que ser.

No início de 2011, o Egito assistiu a uma rebelião em massa contra uma ditadura e a favor de uma mudança social, que galvanizou classes e forças sociais dispares: liberais seculares ocidentais, ativistas pelos direitos sindicais, estudantes radicalizados, ativistas pelos direitos das mulheres e fundamentalistas islâmicos – todos num bloco social de oposição. A reivindicação inicial foi a do fim da ditadura de Mubarak e a criação de um sistema democrático que respeitasse os direitos democráticos – a componente essencial de um autêntico processo revolucionário democrático e nacional. Contudo, a maturação deste processo foi impedida por três fatores: (i) a tomada do poder pelo Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) a 11 de fevereiro; (ii) a primordial canalização da dissidência em massa para o processo eleitoral; e (iii) a incapacidade de organização de estruturas de massas sustentáveis, essenciais à salvaguarda e consolidação da situação revolucionária, por parte das forças de oposição.

A preocupação com a análise do cariz das lutas de massas no Egito e na Tunísia, rotuladas de «Primavera Árabe», não é motivada pelo desejo de uma espécie de categorização pura, que abstrai fenómenos sociais complexos dos seus contextos históricos. Ao invés, a preocupação reside na necessidade de uma distinção em termos quer políticos, quer programáticos, dos desafios políticos específicos e das tarefas a empreender entre uma fase insurrecional da luta e uma fase pré-revolucionária ou mesmo revolucionária.

Tal assume uma enorme importância perante a apropriação do termo «revolução» na descrição de todo e qualquer evento, dos acontecimentos na Líbia e na Síria ao Movimento Verde no Irão. Tal adequação não só distorce a realidade social, como também dinamiza uma narrativa perigosa. Esta sugere que a mudança revolucionária surge como o resultado de um espetáculo, desvalorizando-se a organização e a construção de estruturas desde baixo. O importante é o teatro, o show episódico, a exibição que refuta o aviso de Gil Scott Heron: «A revolução não será televisionada!».

A lógica perversa desta aproximação reflete-se tanto na incapacidade de auto-organização da oposição, para lá das mobilizações espontâneas de 2011, como na crença por parte da oposição a Morsi, a Tamarod (incentivada por sinais dados pelos seus patronos norte-americanos), de que as manifestações de rua contra o Presidente Morsi conduziriam ao apoio norte-americano à intervenção militar.

O ataque preventivo dos militares contra a revolução
De forma a obter-se uma visão mais clara da atual situação no Egito, há que desmascarar os disparates a-históricos e sem sentido que identificam nos militares um imponente mediador neutral de forças sociais e políticas em conflito. Na sua entrada em cena em Janeiro de 2011 e, mais uma vez, em 2 de Julho, assume-se como uma força patriótica, alinhada com os interesses do «povo».

Na realidade, aquilo a que assistimos foi a uma transferência lateral de poder, em termos de classe, das forças civis presentes no governo de Mubarak, representantes de interesses capitalistas ligados ao estado, para os militares, com interesses económicos um tanto ou quanto semelhantes (com as suas empresas e com os seus reformados a encher as empresas ligadas ao setor público). Durante a presidência de Morsi, os militares nunca se retiraram de cena, mantendo o seu espaço no Estado e na economia egípcia. Posições governativas importantes, como o de ministro do interior e da defesa ou a Autoridade do Canal de Suez, foram concedidas a indivíduos associados ao regime de Mubarak, aliados dos militares. O Supremo Tribunal Constitucional, povoado por nomeados da era Mubarak, foi o principal instrumento usado pelos militares na limitação e controlo dos esforços na restruturação do Estado ou na expansão do poder de Morsi.

Os Estados Unidos nunca encararam a Irmandade Muçulmana e o governo Morsi como uma alternativa a Hosni Mubarak. Apesar da repressão dispensada aos membros da Irmandade Muçulmana, estes eram reconhecidos como parte da elite económica egípcia, aberta à possibilidade de negócios com o Ocidente. Por conseguinte, Morsi era encarado como a substituição segura e aceitável de Mubarak, enquanto os Estados Unidos perpetuavam a sua influência nos bastidores através dos militares.

Tanto o governo norte-americano como as Forças Armadas egípcias partilhavam interesses objetivos ao garantirem a manutenção do poder de Morsi numa base mais simbólica do que real. Os militares, juntamente com o Tribunal Constitucional e a burocracia estatal, asseguraram o controlo meramente nominal do estado por parte da presidência e da Irmandade Muçulmana. Morsi não controlava as secretas, o aparelho de segurança, a polícia, o corpo diplomático ou a burocracia, ainda composta por remanescentes do regime anterior.

De fato, uma das maiores fontes de tensão entre os militares e a Irmandade Muçulmana era a ameaça – e jogadas reais – da parte do governo de Morsi do uso dos seus poderes nominais na limitação da atividade económica exercida pelos militares (cerca de 15 a 40% da economia nacional) a favor dos interesses da Irmandade Muçulmana, a qual por sua vez representa alguns setores competitivos da classe capitalista.

Um dos modos de se encarar o ataque à Irmandade Muçulmana é analisá-lo, nada mais, nada menos, como a solução militarizada para um conflito interno à classe burguesa no contexto da sociedade egípcia, ou seja, pouco relacionada com os interesses da fragmentada e institucionalmente débil oposição.

Como tal, a ideia que os militares, essa força neutral, se aliaram ao «povo» e apenas entraram em cena para resolver a crise política não é nada mais que uma fantasia pequeno-burguesa.

Os interesses socioeconómicos de classe dos militares colocam-nos na oposição a qualquer transformação fundamental da economia e da sociedade egípcias, o objetivo ostensivo da «revolução». Tal significa, de forma expressiva, que o poder dos militares será quebrado perante a perspectiva de mudança revolucionária no país.

Uma revolução democrática nacional: um passo em frente, três passos atrás

Esta análise não deve, contudo, ser interpretada como sugerindo que as pessoas se limitaram a constituir o papel de figurante num teatro encenado por poderes sob os quais não detinham qualquer controlo. A rebelião em massa originou a crise de governação da elite corrupta no poder e do seu patrono norte-americano. A exigência do fim da ditadura correspondeu a uma extraordinária demonstração de poder popular e, com ela, de potencialidade revolucionária. O problema residiu na incapacidade das forças populares alternativas no desenvolvimento e aquisição da experiência política e das fundações institucionais, um legado da ditadura. Tal colocá-las-ia numa posição de vantagem, permitindo-lhes esforços mais eficazes na luta por mudanças progressistas e na limitação do poder dos militares. Infelizmente, a força que possuía a maior experiência no desenvolvimento da organização e na oposição política era a Irmandade Muçulmana.

O apelo à demissão de Morsi constituiu uma reivindicação legítima, exprimindo a posição de parte da população, insatisfeita com as políticas e a administração do Egito. Porém, quando os militares ameaçaram entrar em cena – um setor que não demonstrou qualquer propensão de apoio a reformas democráticas – a posição geral deveria ter sido a de «recusa da intervenção militar, mudança apenas por meios democráticos», uma posição que um movimento mais maduro e realmente independente poderia ter assumido, caso não estivesse sob manipulação de poderosas elites internas e externas.

Só o otimismo explica a crença das psicóticas forças liberais e radicais do Egito e dos seus aliados de fora na possibilidade de desenvolvimento de um processo democrático que refletisse os interesses de largas camadas da sociedade egípcia, ao mesmo tempo que se retiravam os direitos Irmandade Muçulmana, uma força social que muitos, de forma conservadora, admitem contar com o apoio de um terço da população, e que constitui a maior organização política do Egito. Os liberais e alguns dos radicais que apoiaram o golpe não compreenderam que a construção de um «povo» resulta de um processo histórico e social que requer luta e empenho. A incompreensão deste princípio básico provocou a morte da revolução democrática nacional, ainda em gestação.

As poderosas elites nacionais que financiaram a campanha contra Morsi e os seus aliados, grupo no qual se inclui a Arábia Saudita e os Estados Unidos, conseguiram avançar com o processo contrarrevolucionário que irá fragmentar a oposição e marginalizar quaisquer elementos radicais. A elite egípcia compreendeu de forma mais clara que a Tamarod ou a Frente de Salvação Nacional que um processo revolucionário implicaria o desenvolvimento de um programa político destinado à subordinação dos militares ao povo, à apropriação pública do setor capitalista estatal e à rejeição do desenvolvimento capitalista neoliberal. Tal reconhecimento levou-os a agir com extrema precisão na proteção dos seus interesses ao longo do último ano e meio.

Infelizmente, a coligação de liberais e radicais com as forças antidemocráticas da elite militar e econômica veio conceder legitimidade às mesmas forças retrógradas que dominaram a sociedade egípcia sob Mubarak para perpetuar esse domínio: desta vez, em nome da "revolução".

Ajamu Baraka é um ativista de direitos humanos e um veterano do Movimento para a Libertação Negra. Atualmente, é pesquisador do Institute for Policy Studies.

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