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27 de outubro de 2018

Jeito fascista

Um diálogo com Stefan Zweig sobre Jair Bolsonaro

André Singer


Apoiador do candidato Jair Bolsonaro (PSL) usa camiseta durante manifestação em Copacabana, Rio de Janeiro. Carl de Souza/AFP

O escritor Stefan Zweig (1881-1942) me ligou ontem de manhã (ele não usa WhatsApp).

— Bom dia, Stefan, como vai?

— Estou preocupado com a eleição de domingo aí no Brasil.

— Eu também.

— Mas acho que você ainda não percebeu direito o que está acontecendo. Leia “Autobiografia: O Mundo de Ontem”, que escrevi antes de me suicidar em Petrópolis (RJ).

— Deixa passar o pleito.

— O método da extrema direita brasileira é o mesmo do nacional-socialismo: uma dose de cada vez, e, depois de cada dose, uma pequena pausa. Sempre só um comprimido e depois esperar um pouco para verificar se não era forte demais, se a consciência do mundo tolerava essa dose.

— Do que está falando?

— Veja, por exemplo, a reação de Jair Bolsonaro (PSL), esta semana, diante da má repercussão do vídeo em que o seu filho, Eduardo, ameaçava fechar o Supremo Tribunal Federal com “um soldado e um cabo”.

— Sim, o que há com essa reação?

— O candidato, com ar compungido na TV, pediu “desculpas ao Poder Judiciário”, dizendo não ter sido a intenção de Eduardo atacar “quem quer que seja”. A técnica é ir experimentando devagar, para descobrir até onde se pode ir a cada momento.

— Não serão apenas bravatas?

— Nós na Alemanha e na Áustria não acreditávamos nem um centésimo ou milésimo ser possível o que poucas semanas mais tarde haveria de eclodir. Monstruosidades como queimas de livros, que poucos meses depois seriam um fato, ainda estavam longe de qualquer compreensibilidade mesmo para pessoas de larga visão.

— O pessoal aqui pensa que as instituições estão funcionando e que elas impedirão o arbítrio.

— Engano. O clima de ameaça à liberdade de expressão tomou conta de parte das instituições. Repare nas ações policiais que ocorreram em 12 universidades nos últimos dias. Durante três décadas de democracia o território universitário foi inviolável e, de repente, aulas sobre fascismo são interrompidas à força. Isso se chama Estado policial.

— Você exagera, Stefan, eles possuíam mandados judiciais.

— Você fica lendo em casa e não ouviu o que Bolsonaro disse para os seus apoiadores na Paulista domingo passado. Ele afirmou que os “marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. A sociedade já foi intimidada. Temendo as “brigadas conservadoras”, Fernanda Torres suspendeu a encenação de uma peça prevista para novembro.

Desliguei apreensivo. Talvez Zweig estivesse apavorado. Por via das dúvidas, saí para virar mais uns votos. Não vale a pena pagar para ver se ele tem razão.

PS - Grato a Elio Gaspari pela inspiração. O texto utiliza trechos, em adaptação livre, do livro citado.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

20 de outubro de 2018

O que está em jogo no próximo dia 28

Candidatura de Bolsonaro não faz parte da rotineira alternância que caracteriza a democracia

André Singer


O candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) usa chapéu de cangaceiro durante coletiva de imprensa no Rio de Janeiro Mauro Pimentel. AFP

De modo geral, procuro utilizar o espaço que me foi facultado pela Folha para analisar o quadro político de maneira objetiva. Tenho posições, que não escondo, porém entendo ser meu papel mais o de procurar compreender e explicar.

Hoje, porém, dada a excepcionalidade das circunstâncias, peço licença para mudar de tom e tomar uma posição clara e incontornável.

O levantamento do Datafolha publicado nesta sexta (19) aponta para a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno.

A fulgurante onda que, em cerca de uma semana antes do primeiro escrutínio, deu ao candidato da extrema direita a inesperada condição de chegar ao poder, parece ter, por ora, se estabilizado.

Note-se, contudo, que bastaria, levando-se em conta o total de votos, mudar o sufrágio daqueles que decidiram digitar 17 na última hora, isto é, no dia da eleição, para reverter o resultado.

Conforme procurei mostrar na última coluna, a julgar pelos dados de pesquisa, cerca de 6,5 milhões de eleitores optaram pelo capitão reformado no próprio momento de votar. Até o sábado (6), ele tinha 40% dos votos válidos. Na noite seguinte, apareceu com 46%.

A análise do que levou tantos brasileiros à estranha decisão de arriscar um radical de direita levará tempo.

Qual foi a influência dos ilegais pacotes de WhatsApp comprados por empresas para favorecer o deputado (18/10)? O quanto possíveis mudanças sociológicas profundas, como um eventual “aburguesamento de valores”, assinalado por Mauro Paulino e Alessandro Janoni (19/10), estariam em curso?

Perguntas difíceis, cujas respostas devem ser imbricadas e complementares, implicam longa elaboração. No curto prazo, deve-se esclarecer o eleitorado sobre o risco que corre.

É mister mostrar que a candidatura de Bolsonaro não faz parte da rotineira alternância que caracteriza a democracia moderna. Conforme Steven Levitsky, coautor do recente livro “Como as Democracias Morrem”, um postulante que elogia a ditadura, aprova a tortura, encoraja execuções extrajudiciais, nega a legitimidade dos seus oponentes e promete tratar movimentos sociais como terroristas é “autoritário” (31/8).

Em outras palavras, Levitsky, da Universidade Harvard e palestrante na Fundação Fernando Henrique Cardoso, diz que Bolsonaro ameaça a continuidade da democracia.

Não acredito que a maioria dos brasileiros seja a favor da ditadura. Segundo o Datafolha (5/10), apenas 12% concordam que uma ditadura seria, em certas circunstâncias, melhor do que a democracia. Trata-se, portanto, de uma obrigação de quem opina avisar os outros 88% sobre o que estará em jogo no domingo 28 de outubro de 2018.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

13 de outubro de 2018

Acordar a tempo

Voto em Bolsonaro resulta de mistura explosiva que tem precedentes na história do país

André Singer

Folha de S.Paulo

Apoiadores do candidato Jair Bolsonaro (PSL) fazem ato em frente ao condomínio onde ele mora na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Eduardo Anizelli/Folhapress

O que aconteceu nos últimos dias no Brasil precisa ser bem explicado. O postulante presidencial Jair Bolsonaro (PSL) ganhou seis pontos percentuais no próprio momento da eleição. Vale dizer que cerca de 6,5 milhões de eleitores tomaram posição na última hora, quase levando o extremista de direita ao Planalto já no primeiro turno.

O tsunami radical se refletiu de maneira expressiva nos pleitos para a Câmara e Executivos de estados. O partido de Bolsonaro saiu de 8 para 52 deputados federais, a segunda maior bancada da Casa. Candidatos a governador quase desconhecidos, como Wilson Witzel (RJ) e Romeu Zema(Novo), dispararam, obtendo mais de 40% dos sufrágios válidos.

Para completar, a primeira pesquisa Datafolha, publicada na quinta passada (11) indicou que o capitão reformado teria 58% das intenções de voto no segundo turno, marcado para 28/10. A sociedade brasileira, em geral pouco afeita a posições de conflito, inclinou-se de repente para um dos polos. O que aconteceu?

Desconfio que uma resposta abrangente, a qual sem dúvida envolve múltiplos aspectos, tarde a aparecer. Mas, para efeito de raciocínio, deixo aqui uma percepção.

Tratou-se, a meu ver, da mistura explosiva, que tem precedentes na história nacional, entre a persistência das dificuldades econômicas e as denúncias de corrupção.

Sem a rapidez estonteante das mensagens trocadas por WhatsApp, Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello representaram fenômenos similares.

A inflação dos períodos Juscelino e Sarney, que os antecederam, bem como estrondosas denúncias de malversação do dinheiro público pelos políticos fluíram para o coquetel explosivo que colocou no Palácio do Alvorada dois presidentes eleitos instáveis, os quais não lograram terminar o mandato.

Trata-se de uma espécie de protesto antissistema, mas à direita, que denota a esperança posta em uma autoridade firme, que “bote ordem na casa”.

O programa econômico de Bolsonaro registrado no TSE tem o “objetivo de equilibrar as contas públicas no menor prazo possível”. Para tanto, a sua proposta mais original é reduzir 20% da dívida pública por meio de privatizações.

Em suma, haverá menos gasto público, com a provável estagnação do PIB e a deterioração de serviços essenciais à população de baixa renda.

Pode-se prever, em consequência, uma queda na aprovação do eventual presidente. Um governo sem compromisso institucional reagirá à rejeição popular com repressão e força.

Se parte dos que foram carregados pela fronda bolsonarista do último domingo (7) não acordarem do sonho autoritário nas próximas duas semanas, pode-se esperar pelo pior.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

2 de julho de 2016

O que vai restar?

André Singer

Folha de S.Paulo

A decisão de Michel Temer, anunciada na quarta-feira, de aumentar em 12,5% o valor repassado aos beneficiários do Bolsa Família mantém vivo, por ora, um dos principais avanços sociais do período lulista. Mesmo um governo neoliberal como o presente precisa sustentar a renda mínima conquistada pelos mais pobres para ter algum apoio popular. A questão é saber o quanto isso vai conter a marcha batida rumo ao aumento da desigualdade em que estamos metidos.

De acordo com o economista Rodolfo Hoffman, a desigualdade voltou a crescer ainda no segundo mandato de Dilma Rousseff. Dados prévios elaborados pelo professor da USP e publicados pela Folha (20/6) mostram que o coeficiente de Gini, principal indicador a respeito, começou a subir em 2015, depois de mais de uma década (2002-2014) em recuo.

Apenas em setembro próximo, quando o IBGE deve divulgar a informação consolidada, poderemos ter certeza, mas as primeiras evidências endossam a previsão de que o ajuste recessivo adotado por Dilma depois de reeleita começaria a desfazer a obra que ela própria ajudou a construir. Pudera: a política escolhida desatou o terror do desemprego e derrubou a renda dos empregados.

Tem mais. Com a estagnação da economia, o salário mínimo, principal instrumento de melhora do padrão de consumo dos pobres, parou de ser valorizado. O próprio Bolsa Família deixou de ser reajustado em 2015, completando-se agora dois anos de congelamento. Assim, é inescapável constatar que o desmonte do lulismo começou dentro do lulismo.

Mas a tarefa autoatribuída pelo presidente interino é radicalizar o "acerto das contas públicas" iniciado por Joaquim Levy. No contexto, elevar o pagamento aos que recebem o Bolsa Família constitui gasto pequeno visto o conjunto do orçamento, mesmo considerando-se que Temer resolveu dar 3,5 pontos percentuais a mais do que Dilma propusera às vésperas do afastamento. O objetivo estratégico é aprovar a PEC do teto de gastos públicos, encaminhada pelo ministro Henrique Meirelles.

As consequências, caso a PEC passe no Congresso, parecem drásticas. Para dar apenas exemplo ilustrativo, um renomado economista da área tucana afirmou recentemente que, caso o atual titular da Fazenda tenha êxito, o corte na educação será de tal monta que tornará quase inevitável a cobrança de anuidade nas universidades públicas.

Se mudanças estruturais dessa magnitude vierem a ocorrer, em que pese a relevância do Bolsa Família para os brasileiros da base da pirâmide, a herança do lulismo talvez fique reduzida apenas aos nichos de extrema necessidade. O sonho rooseveltiano, que embalou corações e mentes por volta de 2010, será adiado sine die.

18 de junho de 2016

O sistema

André Singer

Folha de S.Paulo

A delação completa de Sérgio Machado, além de detonar a cúpula peemedebista, mostra a longevidade das práticas desbaratadas pela Lava Jato. O Estado não foi tomado em 2003 por uma organização criminosa especializada em propinas: esse é o modo tradicional de financiamento político no Brasil. Para não deixar dúvidas, o delator retroage ao longínquo ano de 1946, ou seja, quando se inaugurou a democracia de massa no país e as campanhas ficaram mais caras, o ponto em que situa o início da maracutaia generalizada.

O ex-presidente da Transpetro sabe do que fala. Consta no "Dicionário Histórico-Biográfico" do CPDOC, a fonte mais confiável sobre os políticos brasileiros, que seu pai ingressou no antigo PSD (Partido Social Democrático) em 1946, e foi, sucessivamente, deputado estadual, federal e ministro de Viação e Obras Públicas. Ficou na Câmara até ser sucedido pelo filho, em 1991, numa típica passagem das aristocracias que compõem o Parlamento.

Que o regime 1946-1964 fosse tocado a expressivas doses de corrupção não surpreende qualquer leitor medianamente informado. Embora as denúncias recaíssem, de maneira desequilibrada, sobretudo em cima da coalizão popular getulista, atingiam todo o espectro. Basta lembrar o dístico que celebrizou o ex-governador paulista Adhemar de Barros (longe de ser um contestatário): rouba, mas faz.

Quanto ao período militar (1964-1985), se faltassem dados antigos, aí está o depoimento recente do empresário Ricardo Semler, segundo o qual, nos anos 1970, era impossível vender equipamentos para a Petrobras sem pagamento de propina. Na mesma direção, Pedro Corrêa, ex-deputado e ex-presidente do PP, herdeiro da antiga Arena, afirmou, na sua colaboração premiada, saber dos desvios na estatal desde a ditadura. O próprio depoente reconheceu receber propinas desde aquela época, só que por contratos no velho Inamps.

Restabelecidos os civis no poder, pouco parece ter mudado. O pessedebista Semler relata que a sua empresa voltou a tentar vender para a Petrobras nos anos 1980 e 1990, encontrando a mesma situação anterior. "Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso", escreveu. Senador pelo PSDB durante o mandato de FHC, Machado, ele mesmo, realizou operações de desvio para os tucanos (que haviam deixado o PMDB em 1988 por causa da corrupção!).

Nada disso exime o PT, principal acusado antes de Machado escancarar a abrangência do método. Ao contrário, também criado para combater tais práticas, o partido precisa explicar por que, onde e quando mudou de direção. Mas descarregar toda a indignação sobre o petismo não só é injusto, como não contribuirá para que o sistema no Brasil de fato mude.

Sobre a autora

É cientista político e professor da USP, onde se formou em ciências sociais e jornalismo. Foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula.

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