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23 de novembro de 2015

Stalin e Hitler: Irmãos gêmeos ou inimigos mortais?

Domenico Losurdo

Crisis and Critique

1. Eventos históricos e categorias teóricas

Tradução / Quando os filósofos investigam eventos históricos, eles tentam discutir ao mesmo tempo as categorias com as quais os acontecimentos históricos são reconstruídos e descritos. Hoje se compreende a partir da categoria de “totalitarismo” (a ditadura terrorista de apenas um partido político e o culto à personalidade) Stalin e Hitler como duas personificações extremas desta praga, como dois monstros que possuem características tão semelhantes que se pensa neles como dois irmãos gêmeos. Não por menos - como argumentam - ambos se uniram por quase dois anos através de um pacto vergonhoso. De fato, após este pacto, seguiu uma guerra impiedosa, mas dois gêmeos a travaram, mesmo que eles fossem bastante controversos.

É uma conclusão obrigatória? Vamos voltar nossos olhares para a Europa brevemente. Gandhi também se convencia de que Hitler tinha algum tipo de irmão gêmeo. Mas este não era Stalin, que ainda em setembro de 1946, era considerado pelo líder indiano como um “grande homem” à frente de “um grande povo”. Não, o irmão gêmeo de Hitler era na verdade Churchill, ao menos a julgar por duas entrevistas dadas em abril de 1941 e abril de 1946 respectivamente: “Asseguro que na Índia também temos um governo Hitleriano, no entanto um disfarçado que possa ser mais moderado”. E depois: “Hitler foi o pecado da Grã-Bretanha. Hitler foi apenas uma resposta ao imperialismo Britânico”.

Talvez a primeira das duas explicações seja a mais sugestiva. Ela ocorreu em um momento, onde o tratado de não-agressão entre a Alemanha e a União Soviética ainda estava em vigor: O líder Indiano do movimento independentista não parece se ofender com isso. No movimento anticolonial as políticas de frente popular encontraram as maiores dificuldades. A razão para isso é explicada por um importante historiador afro-americano de Trinidad, admirador entusiasta de Trotsky, nomeadamente C.L.R. James, que mesmo em 1962 descreve o desenvolvimento de outro militante da causa da emancipação negra, também de Trinidad, dessa forma: “Quando esteve nos Estados Unidos, ele se tornou um comunista atuante. Se mudou para Moscou para liderar o Departamento de Propaganda e Organização dos negros. Neste cargo, ele se tornou o mais conhecido e mais confiável dos agitadores pela Independência Africana. Em 1935, buscando alianças, o Kremlin separou a Inglaterra e a França como ‘imperialismos democráticos’ da Alemanha e a França, os ‘imperialismos fascistas’, o principal alvo da propaganda russa e comunista. Isto reduziu a atividade pela emancipação africana: Alemanha e Japão não tinham colônias na África. Padmore rompeu instantaneamente com o Kremlin”.

Stalin não foi criticado e condenado como irmão gêmeo de Hitler, mas porque ele se recusou a reconhecer neste último o irmão gêmeo dos líderes do imperialismo britânico e francês. Para importantes personalidades do movimento anticolonial, não foi fácil entender que, entretanto, o Terceiro Reich assumiu a liderança da contrarrevolução colonial (e escravista): O debate habitual sobre o tratado de não-agressão sofre claramente de eurocentrismo.

O quão duvidoso possa ser colocar Churchill como próximo a Hitler, como Gandhi faz (e outros proponentes do movimento anticolonial fizeram mais indiretamente), não deixa de ser compreensível: Hitler não declarou várias vezes que iria construir uma Índia Alemã no Leste Europeu? E Churchill também não prometeu defender a Índia britânica a qualquer custo? Na verdade, em 1942 o Primeiro-Ministro Britânico teve que reprimir o movimento por independência, “usou de medidas extremas, como o uso da força aérea, para atirar com metralhadoras à massa dos protestos”. A ideologia que reside na raiz desta repressão é particularmente sugestiva. Vamos ouvir do próprio Churchill: “Eu odeio indianos. Eles são um povo bestial com uma religião bestial”; com sorte um número sem precedentes de “soldados brancos” garante a manutenção da ordem. A tarefa é enfrentar uma raça “protegida por sua mera pululação [reprodução muito rápida] da ruína que é”; Marechal Arthur Harris, protagonista dos bombardeios na Alemanha, foi bem aconselhado a “enviar algumas das bombas que sobraram para destruí-los”.

Vamos voltar da Ásia para a Europa. Em 23 de Julho de 1944, Alcide de Gasperi, o líder católico que estava para se tornar o primeiro-ministro da Itália libertada do fascismo, deu um discurso onde enfaticamente ele proclamou:

“Quando eu vejo como Hitler e Mussolini perseguiram seres humanos por conta de sua raça e inventaram esta assustadora legislação anti-judaica que conhecemos, e quando ao mesmo tempo eu vejo como os russos compostos de 160 etnias buscam uma união delas, quando vejo os esforços para unificar a sociedade humana, deixe-me dizer: isto é cristão, isto é eminentemente universalista no sentido do Catolicismo.”

O ponto de partida formado neste caso é a categoria de racismo, uma praga, que encontrou sua maior expressão na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. Bom, o que foi a contrapartida a tudo isso? Devido a um motivo já mencionado não poderia ser a Grã-Bretanha. Mas também não poderia ser os Estados Unidos, onde - ao menos onde se concentra o Sul - reinava a supremacia branca. No que tange este regime, um importante historiador estadunidense (George M. Fredrickson) recentemente escreveu: “O esforço de garantir a ‘pureza racial’ no Sul americano antecipou aspectos da perseguição oficial nazista dos judeus nos anos 30”; quando também se considera de acordo com a lei de que no Sul dos Estados Unidos uma gota de sangue impuro era suficiente para ser excluído da comunidade branca, se tem que concluir: “a definição nazista de judeu nunca foi tão estreita quanto a da ‘regra de uma gota’ que dominava na categorização de negros nas leis de pureza racial do Sul dos Estados Unidos”. Portanto, não pode ser surpreendente que De Gasperi visse na União Soviética a grande antagonista real da Alemanha de Hitler. Os irmãos gêmeos, de quem a categoria de totalitarismo fala, aparecem de acordo com as categorias de racismo e colonialismo como inimigos mortais.

2. A maior guerra colonial da história

Então que categoria deveríamos usar? Vamos dar as palavras para as personalidades em questão. Quando Hitler se dirigiu aos industriais de Dusseldorf (e da Alemanha) em 27 de janeiro de 1932 e ganhou o apoio deles para chegar ao poder, ele explicou sua concepção de história e política da seguinte maneira. Em toda a história do século XIX, os “povos brancos” conquistaram um domínio incontestável, e isto como conclusão de um processo que começou com a conquista da América e se desenvolveu sob o signo do “sentimento absoluto, inato do domínio da raça branca”. O Bolchevismo, ao colocar o sistema colonial em cheque e levando a e piorando a “confusão do pensamento branco europeu”, traz um perigo mortal à civilização. Se quiserem confrontar essa ameaça, se deve reforçar a “convicção da supremacia e com isso o direito da raça branca” e se tem que incondicionalmente defender a “posição de tutelagem da raça branca sobre o resto do mundo”, mesmo com a “crueldade mais brutal”: Um “direito de tutelagem extraordinariamente brutal” é necessário. Está além da dúvida: Hitler apresenta sua candidatura à liderança em um dos países mais importantes da Europa se comportando como pioneiro da Supremacia Branca, a qual ele queria defender mundialmente.

O apelo de defender e mobilizar a raça branca encontrou grande eco na Alemanha na I Guerra Mundial e especialmente depois dela. O recurso da entente e, particularmente, das tropas miscigenadas da França causou escândalo e indignação. Ademais, estes soldados não-brancos eram representados nas tropas de ocupação em Renânia e estupraram mulheres alemãs: Isto era a vingança inexorável dos vencedores, que tentaram de alguma forma humilhar o inimigo derrotado e ainda tentaram “contaminar” seu sangue para atingir sua “mulatização”. De qualquer forma a “ameaça negra” não apenas reside no Sul dos Estados Unidos, onde a Ku-Klux Klan é muito vigilante, mas também na Alemanha (e Europa): Neste sentido, na época, argumentava o público em geral na Alemanha. E este clima ideológico influenciou fortemente a formação dos principais líderes nazistas.

Em 14 de Junho de 1922, Heinrich Himmler participou de um protesto de massas em Munique organizado pela “Deutsche Notbund gegen die Schwarze Schmach”(Vergonha Negra), que - como um jornal local informou a “ocupação da Renânia por pessoas de cor como um crime bestialmente concebido que visa esmagar-nos como uma raça e, finalmente, destruir-nos". Em seu diário, Himmler notou: “Muitas pessoas. Todas gritaram: ‘Vingança’, me impressionou muito”. Mas eu já havia participado em eventos mais aprazíveis e mais emocionantes deste tipo”. Com sorte, a Inglaterra não tinha familiaridade com a irresponsabilidade racial da França. Isto é o que pensava Alfred Rosenberg, que defendia a “Federação dos dois povos brancos” ou melhor dos três povos brancos, se formos investigar a luta contra a “negrotização” em nível global e também, além da Alemanha e Grã-Bretanha, dos Estados Unidos. Mesmo no fim de 1942 - o Terceiro Reich e Japão estão do mesmo lado na guerra - Hitler, ao invés de ser agradecido pelos sucessos de seus aliados amarelos, lamenta as “perdas pesadas que os brancos tiveram que sofrer no Leste asiático”: Isto é registrado em um diário do Joseph Goebbels, que por sua vez denuncia Churchill como o “verdadeiro coveiro do Império Inglês”.

A raça branca já devia ser defendida na Europa. Seu principal inimigo era a União Soviética, que incitava as raças “menores” a se rebelarem e que ela mesma pertencia ao mundo colonial. Esta concepção era bastante divulgada na Alemanha na época: Após a tomada do poder pelos Bolcheviques - Osvald Spengler escreveu em 1933 - a Rússia havia tirado a “máscara branca para se tornar novamente uma superpotência mongol”, agora uma parte integral de “toda a população de cor da terra” e cheia de ódio contra a “humanidade branca”. A grande ameaça era ao mesmo tempo uma grande oportunidade: À frente da raça branca e da Alemanha um imenso espaço colonial havia se aberto. Era uma espécie de Faroeste. O “Mein Kampf” já havia exaltado a “incrível força” do modelo americano de expansão colonial, um modelo que deve se imitar para construir um Reich territorialmente compacto na Europa Central e Oriental. Em seguida, após o lançamento do projeto Barbarossa, Hitler comparou várias vezes sua guerra contra os “Povos indígenas” do Leste Europeu com a “Guerra Indiana”, com as “batalhas indígenas na América do Norte”: Em ambos os casos a “raça mais forte” será “vitoriosa”. Em seus discursos secretos que não eram feitos para o público, Himmler também declarou de forma especialmente explícita um aspecto adicional do programa colonial do Terceiro Reich: É necessário incondicionalmente “raças escravas estrangeiras”, da qual a “raça superior” nunca perderia sua “tutelagem” e jamais deveriam se misturar. “Se não enchermos nossos campos com escravos - nesta sala eu afirmo as coisas muito explicitamente e claramente - com escravos a trabalhar, que independentemente de quaisquer perdas, construirão nossas cidades, nossas vilas, nossas fazendas”, o programa de colonização e germanização da terra conquistada no Leste Europeu não pode ser realizado.

No final: Os “indígenas” do leste europeu eram por um lado os pele-vermelhas, que precisavam ser privados de sua terra, deportados e dizimados; do outro lado eles eram os negros que eram destinados a trabalhar como escravos a serviço de sua raça superior, enquanto os judeus, que eram postos lado a lado dos bolcheviques como responsáveis pelo incitamento das raças inferiores, deveriam ser aniquilados.

Claro, a União Soviética não poderia compartilhar desta concepção de vítimas predestinadas que estava em primeira ordem. É interessante notar que Stalin já entre fevereiro e outubro de 1917 chamava a atenção para o fato de que a Rússia, cansada da guerra sem fim estava correndo risco de se transformar em “uma colônia da Inglaterra, América e França”. A entente ao tentar de qualquer forma levar a cabo a continuação da Guerra na Rússia como se fosse a “África Central”. A Revolução Bolchevique também foi necessária para afastar esse perigo. Após Outubro, Stalin via no Poder Soviético o pioneiro da “conversão da Rússia de uma colônia em um país livre e independente”.

Hitler havia desde o começo planejado assumir novamente a tradição colonial e a implementar no leste europeu, especialmente na Rússia, “barbarizada” pela vitória do Bolchevismo; do outro lado, desde o começo Stalin chamou seu país para enfrentar o perigo da subjugação colonial e interpretada precisamente deste ponto de vista a Revolução Bolchevique.

Mesmo sem qualquer ideia simples, Stalin começou a reconhecer as características essenciais do milênio, que havia acabado de começar. Na onda da Revolução de Outubro, Lenin esperava que o principal ou exclusivo objeto do Século XX seria a batalha entre o capitalismo de um lado e o socialismo/comunismo do outro: O mundo colonial neste meio tempo estava completamente ocupado pelas potências capitalistas e cada nova partilha seguia a iniciativa dos países derrotados ou “em desvantagem” levaria à nova Guerra Mundial e representaria um avanço maior na direção da definitiva destruição do sistema capitalista: A conquista da nova ordem socialista está imediatamente na ordem do dia. Mas Hitler deu um passo inesperado: Ele reconheceu no Leste Europeu e especialmente na Rússia Soviética o espaço livre colonial que estava à disposição do Reich Alemão ainda a ser erguido. De forma similar se comportou o Império Japonês que invadiu a China e a Itália Fascista que (com exceção da Etiópia) mirou os Balcões e a Grécia. Stalin começou a perceber que o século XX seria marcado, contra todas as expectativas, por uma disputa entre o colonialismo e o anticolonialismo (apoiado e promovido pelo movimento comunista) na Europa.

Atualmente foi enfatizado corretamente: “A guerra de Hitler por Lebensraum foi a maior guerra colonial da história”. A Guerra Colonial que foi lançada primeira contra a Polônia. As instruções do Fuhrer na tarde anterior à agressão diziam: A “eliminação das forças vitais” do povo polonês é necessária. Se chama pela “ação brutal”, sem serem inibidos por “empatia”; “o mais forte tem o direito”. Semelhantes são as diretivas que mais tarde a Operação Barbarossa dá: Após o encarceramento dos comissários políticos, os quadros do Exército Vermelho, do Estado Soviético e do Partido Comunista deve ser imediatamente exterminado; no Leste deve se tomar medidas extremas e “duras” e os oficiais alemães e os soldados devem superar suas ressalvas e escrúpulos morais. Por conduzirem de volta os povos de uma velha cultura à situação dos pele-vermelhas (para serem expropriados e dizimados) e dos negros (para serem escravizados) “todos os representantes da intelligentsia polonesa devem ser mortos;” o mesmo tratamento, é claro, a que os russos e a inteligência soviética devem ser submetidos; “isto parece pesado, mas esta é a lei da vida.” É assim que se explica o destino do clérigo católico, dos quadros comunistas na URSS e em ambas as situações, dos judeus, que eram bem representados nas camadas intelectuais e eram suspeitos de inspirarem e apoiarem o Bolchevismo. Hitler foi bem-sucedido em jogar a Polônia contra a União Soviética, mas ele previa o mesmo destino para ambos; mesmo que sob um caminho tortuoso e trágico, a guerra de resistência nacional do povo polonês e a Grande Guerra Patriótica são finalmente relacionadas uma com a outra. O ponto de viragem da "maior guerra colonial da história" é Stalingrado. Se Hitler foi o instigador da contrarrevolução colonial, Stalin foi o instigador da revolução anticolonial que de maneira inesperada encontrou seu centro na Europa.

3. Stalin, Hitler e as minorias nacionais

A definição de Stalin que eu apresentei se contrasta com as políticas que ele levou a cabo no que tange às minorias nacionais? Está além da dúvida que não existe espaço para o direito de retrocesso na concepção de Stalin. Como se confirma na conversa com Dimitrov em 7 de novembro de 1937: “Qualquer um que lance um ataque ao Estado Socialista com seus feitos ou pensamentos será aniquilado sem misericórdia”. Ainda assim são punidos: É uma definição extraordinariamente efetiva mas completamente involuntária de totalitarismo!

Do outro lado, Stalin dá boas vindas e apoia o renascimento cultural das minorias nacionais do Leste Europeu que foram reprimidas por muito tempo. São esclarecedoras as observações feitas por ele no X Congresso do Partido Comunista Russo em 1921: “Cerca de cinquenta anos atrás todas as cidades húngaras tinham um caráter alemão”. Agora se ‘magiarizaram’; os Bielorrussos também tiveram uma experiência de um ‘despertar’. É um fenômeno que se supõe capturar toda a Europa: Da ‘cidade alemã’ que era Riga agora se tornará uma ‘cidade letona’; as cidades da Ucrânia serão ‘ucranizadas’ e farão o elemento russo que anteriormente era dominante, como secundário. E constantemente Stalin polemiza contra os ‘assimilacionistas’, sejam os ‘assimilacionistas turcos’, os ‘prusso-alemães germanizantes’, ou os ‘russificadores czaristas-russos’. Esta posição é portanto particularmente importante porque é ligada à uma elaboração teórica de caráter universal. Em suas polêmicas contra o Kautsky, Stalin enfatiza que o socialismo de nenhuma maneira significa o desaparecimento das línguas nacionais e demais particularidades mas leva a seu maior desenvolvimento e evolução. Qualquer “política assimilacionista” portanto deveria ser condenada como “antipopular” e “contrarrevolucionária”: É particularmente “fatal”, por não compreender o “poder colossal de estabilidade que detém as nações”, “declarar guerra” à cultura nacional” é uma “defesa da colonização.” Quão dramática possa ser a discrepância entre as declarações políticas e as políticas concretamente praticadas, estas declarações nunca são nada e não podem ser nada em um regime político o qual a educação e mobilização ideológica de funcionários e militantes do Partido e doutrinação de massas desempenhou um papel muito relevante.

E novamente o contraste com Hitler se torna aparente. Ele também começa a assumir a Eslavização e a “degermanização” no leste europeu. Mas para ele, isto é um processo que deve ser revertido de qualquer forma. Não é suficiente conter a assimilação linguística e cultural que na verdade representam o “começo da bastardização” e, portanto, de uma “aniquilação dos elementos germânicos”, a “aniquilação de precisamente das propriedades que permitiram aos povos conquistadores de serem vitoriosos”. É preciso germanizar a terra sem nunca germanizar as pessoas. Isso só é possível se a pessoa segue um modelo muito preciso: Para além do Atlântico, a raça branca deve se disseminar pelo Oeste americanizando a terra, mas certamente não os pele-vermelhas: neste sentido os Estados Unidos permaneceram um “estado nórdico-germânico” sem o perigo de caírem em uma “salada de povos internacionais”. O mesmo modelo deve ser seguido pela Alemanha no leste europeu.

4. O papel da Geografia e da Geopolítica

No que tange a atitude em relação à questão nacional, o contraste entre a Rússia Soviética e o Terceiro Reich se confirma. Chegamos a conclusões inteiramente diferentes, no entanto, se nos concentrarmos nas práticas de governo dos dois regimes, que certamente podemos comparar na base da categoria de totalitarismo. E ainda seria enganoso interpretar o terror, a brutalidade, e até a exigência de controlar pensamentos de uma forma psicopatológica.

Não devemos esquecer da doutrina de método que foi desdobrada por um clássico do Liberalismo. No ano de 1787 Alexander Hamilton declarou, às vésperas da passagem a uma nova constituição federal, que a limitação de poder e a introdução do Estado de Direito em dois Estados com caracteres insulares (Grã-Bretanha e Estados Unidos), que são protegidos pelo mar contra qualquer ameaça de potências inimigas, tem sido bem-sucedida. Se o projeto de uma federação tivesse falhado e se sobre suas ruínas tivesse que se destacar os contornos de um sistema de Estados, que se assemelha a aquele, que podemos encontrar no continente Europeu, então mesmo na América haveria fenômenos como de um exército permanente, de um forte poder central e mesmo de absolutismo. “Assim, deveríamos, em escasso tempo, ver estabelecido em cada parte deste país os mesmos mecanismos de despotismo que foram o flagelo do Velho Mundo”. De acordo com Hamilton, se deveria primeiramente possuir campos geográficos e geopolíticos em mente para explicar a permanência ou o desaparecimento das instituições liberais.

Se formos investigar as grandes crises históricas, veremos que todas elas - mesmo se em diferentes medidas - levaram a uma concentração de poder nas mãos de uma personalidade mais ou menos autocrática: A primeira Revolução Inglesa terminou com o poder pessoal de Cromwell, a Revolução Francesa primeiro levou ao poder de Robespierre e em seguida de Napoleão, o resultado da revolução dos escravos negros de São Domingo foi primeiro a ditadura militar de Toussaint Loverture e depois de Dessalines; a Revolução Francesa de 1848 levou ao poder pessoal de Louis Napoleão, ou de Napoleão o Terceiro. A categoria de totalitarismo é de uso em uma comparação analítico das práticas de governo aplicadas em situação mais ou menos aguda de crise. Mas se formos esquecer o caráter formal desta categoria e se a absolutizarmos-na, os irmãos gêmeos correm o risco de se tornarem muito grandes e uma família muito heterogênea.

No que concerne o século XX, houveram inúmeras crises no período de entre a primeira e a Segunda Guerra Mundial que levaram a erigir ditaduras de um homem só. Em um olhar mais atento, este é ainda o destino de quase todos os países da Europa Continental. Com exceção dos países “Ilha-Estado” que Hamilton mencionou. No entanto, embora estes tivessem uma tradição liberal no fundo e desfrutassem de uma situação geográfica e geopolítica particularmente favorável, eles também tinham uma tendência de concentração de poder, de reforçar o poder executivo sobre o poder legislativo, de limitar o Estado de Direito: Nos EUA, um mandado de execução por Franklin Delano Roosevelt foi o suficiente para encarcerar os cidadãos norte-americanos de origem japonesa. Isto significa que a investigação sobre no que a categoria de totalitarismo é fundamentada toca mesmo os países mais discretos

5. "Totalitarismo" e "Autocracia racial global"

Vamos mudar nossa atenção da prática de governo para os objetivos políticos. Mesmo sobre as políticas domésticas, Hitler olhou para os EUA. “Mein Kampf” e ”Hitler’s Zweites Buch” repetidamente alertaram: Na Europa, não é apenas a Rússia Soviética que incita todas as raças de cor à lutarem contra a supremacia branca que é inimigo jurado da civilização e da dominação branca; não devemos perder de vista a França, que subjugou um país branco como a Alemanha à ocupação por tropas de cor. Também devemos olhar diretamente para a “bastardização”, da “negrotização”, da “pretização universal” que está sendo realizada na França, ou mais precisamente no “Estado Mulato afro-europeu” que se expandiu “do Reno para o Congo”. Esta desgraça é positivamente contida no exemplo da “América do Norte” onde os “germânicos” evitaram a “mistura sanguínea de arianos com povos inferiores” e a “desgraça sanguínea” e permaneceram “racialmente puros e não mistos”, razão a qual torna eles capaz de dominarem todo o continente.

O regime de “Supremacia Branca” dominante no Sul dos Estados Unidos é um modelo, já carrega a cultura reacionária que posteriormente levou ao Nazismo. Em uma visita aos EUA no final do século XIX, Friedrich Ratzel, um grande teórico da geopolítica, esboça uma imagem característica: Quando as nuvens de fumaça da ideologia, com sua fidelidade aos princípios de “justiça”, desaparecem o que aparece é a realidade da “aristocracia racial”, tais como a lei de linchamentos contra os negros, “a repressão e a destruição dos indígenas” e a perseguição que os imigrantes do Leste enfrentam. Nos EUA, surge uma situação que “evita a forma da escravidão, mas adere à essência da subordinação, da estratificação social das raças”. Houve uma “regressão” no que tange as ilusões aprazíveis dos abolicionistas e defensores da democracia multirracial dos anos da “Reconstrução”. Tudo isto, que Ratzel compreende com uma visão perspicaz, terá consequências que vão além da república norte-americana: “Apenas vemos o nascimento das repercussões que esta regressão terá na Europa e até mais na Ásia”.

Posteriormente, o vice-cônsul da Áustria-Hungria em Chicago também aponta para a contrarrevolução em curso nos EUA e ao seu caráter caritativo e instrutivo. A Europa aqui tem um atraso, porque aqui os negros das colônias são bem-vindos como uma “iguaria”: Que diferença do comportamento do “orgulho americano da pureza de sua raça”, que evita o contato com não-brancos usando critério para estes como aqueles que em cujas veias passem apenas “uma gota de sangue negro”! Bem, “se a América pode em alguma coisa ensinar a Europa, é na questão negra e racial”.

Como ambos dos autores citados aqui previram, a contrarrevolução racista que pôs um fim à democracia multirracial dos anos da “Reconstrução” nos EUA, na verdade atravessa o Atlântico. Alfred Rosenberg por exemplo saudou os Estados Unidos como o “maravilhoso país do futuro”: Ao limitarem os direitos civis aos brancos e fortalecendo em todos os níveis e de todas as formas a “Supremacia Branca”, merecem o mérito de terem formulado a feliz “nova ideia de Estado-racial”: Sim, “a questão negra está na vanguarda de todas as outras questões nos EUA;” e se for abandonado o princípio absurdo de igualdade para os negros, então se desenharia no cenário “as consequências necessárias disso para os amarelos e judeus”.

Apenas à primeira vista, está é uma explicação surpreendente. No começo do século XX, nos anos de formação do movimento Nazi na Alemanha, a ideologia dominante nos Estados Sulistas dos EUA encontrou sua expressão nos “Jubileus da Supremacia Branca”, onde pessoas armadas de uniforme marchavam, inspirados pelo “credo racial do povo sulista”. Aqui está a formulação deles: “1. O sangue dará a resposta. 2. A raça branca deve dominar. 3. Os povos Teutônicos defendem a pureza racial. 4. O negro é inferior e permanecerá assi,. 5. Este é um país do homem branco. 6. Sem igualdade social. 7. Sem igualdade política. 8. Sobre os direitos civis, dar ao homem branco, diferente do homem de cor, o benefício da dúvida; e sob nenhuma circunstância interferir no prestígio da raça branca. 9. Em política educacional, deixar o negro ter as migalhas que caem da mesa do homem branco. 10. Deixar ter uma educação industrial para os negros de forma que faça ele servir melhor ao homem branco. [...]14. Deixar o homem branco na menor posição social contar por mais do que o negro na mais alta posição. 15. As declarações acima indicam a direção da Providência."

Sem dúvida aqui isso nos leva a uma proximidade com o Nazismo. Principalmente porque no Sul dos EUA comprometido com este catecismo, que expressivamente exigem “para o Inferno com a Constituição”, apenas para levar a cabo na teoria e prática a absoluta “superioridade os Arianos” e para fugir da “HEDIONDA, ALARMANTE, AMEÇA NACIONAL” dos negros. Aterrorizado como está, “o negro não fará nenhum mal”, algumas vozes críticas ocasionais e ainda assim, as gangues racistas estão prontas “para mata-lo e fazê-lo desaparecer da face da terra; estão decididas a fazer erigir uma “autocracia racial global”, com a “identificação absoluta da raça mais forte com a própria existência do Estado”.

O que nomeia mais adequadamente o Terceiro Reich: a categoria de “totalitarismo” (que aproxima Hitler de Stalin) ou a categoria de “autocracia racial global” (que se refere ao regime de “Supremacia Branca” que reinava nos Estados do Sul dos EUA mesmo na época da tomada do poder de Hitler na Alemanha)? Uma coisa é clara: não se pode entender o vocabulário nazista adequadamente se olharmos apenas para a Alemanha. O que é a “desgraça sanguínea” da qual o ‘Mein Kampf’ alerta - como vimos - se não a “miscigenação” que é condenada também pelos instigadores da “Supremacia Branca”? Mesmo o termo-chave da ideologia nazista “subhumano” [Untermensch] é uma tradução do termo dos Estados Unidos “Under Man”!

Isto é enfatizado em 1930 por Alfred Rosenberg que expressa sua admiração pelo autor estadunidense Lothrop Stoddard: Este último teve o mérito de ser o primeiro a cunhar a noção em questão que surge como um subtítulo ("A Ameaça do sub-humano”) de seu livro que apareceu em Nova York em 1922 e três anos mais tarde, em uma tradução alemã em Munique (“The Drohung des Untermenschen”). O “Subhumano”, respectivamente o Untermensch é o que ameaça a civilização e para evitar este perigo precisamos de uma “autocracia racial global”! Se partirmos daqui ao invés da categoria de totalitarismo, é auto sugestivo que se considera não Stalin e Hitler, mas ao invés deles, os supremacistas brancos dos Estados Sulistas dos EUA e os nazistas alemães como irmãos gêmeos. E Stalin se opõem a ambos, que não por menos foi algumas vezes foi saudado por militantes afro-americanos como o “novo Lincoln”.

6. Duas guerras para restaurar a dominação colonialista e escravista

Certamente o Pacto Ribbentrop-Molotov ainda deve ser explicado. A URSS se esforça não como a primeira, mas como a última a fazer um acordo com o Terceiro Reich. Mas aqui, eu, como um filósofo que é conduzido da análise das categorias políticas para a comparação histórica, gostaria de fazer uma consideração diferente. Quase um século e meio antes da guerra lançada por Hitler para subjugar e escravizar os povos do leste europeu, certamente havia outra grande guerra em outro contexto histórico cujo objetivo era a restauração da dominação colonial e da escravidão. Foi a campanha comandada por Napoleão e confiada a seu irmão-de-lei, Charles Leclerc, contra San Domingo, a ilha governada pelo líder da revolução vitoriosa dos escravos negros, Toussaint Louverture. Mesmo após 29 de agosto de 1793, o dia em que L.F. Sonthonax, o representante da França revolucionária proclamou a abolição da escravidão na ilha, Loverture continuou a lutar ao lado da Espanha; porque ele era suspeito na França, o líder negro que colaborou por muito tempo com um país detentor de escravos do Ancien Régime, que levou uma guerra contra a República Jacobina e o poder abolicionista, que ao mesmo tempo havia se estabelecido em São Domingo. Mesmo em 1799, ele teve que, para salvar o país do colapso econômico, começar a fazer relações comerciais com a Grã-Bretanha que se jogou em uma guerra contra a França e uma possível vitória da Inglaterra acabaria por ter efeitos bastante negativos no projeto abolicionista. E ainda assim, Toussaint Loverture sempre permaneceu o grande protagonista das revoluções anticolonial e abolicionista e o antagonista de Leclerc (e de Napoleão). Apesar da situação histórica completamente transformada, um século e meio depois, não há nenhuma razão para se abordar Stalin de forma diferente: a tortuosidade dos processos históricos não deve nos fazer perder de vista o essencial.

Mesmo antes da invasão francesa e prevendo-a, Toussaint Loverture impôs uma ditadura produtivista implacável e reprimiu com mão de ferro todos os desafios e ataques a seu poder; depois, a chegada das tropas francesas lideradas por Leclerc foi o começo de uma guerra que no final se tornou uma guerra de extermínio em ambos lados. O que deveríamos dizer sobre uma interpretação desta guerra que categoriza Louverture e Leclerc sob a categoria de “totalitarismo” para contrapor ambos aos liberais e à liderança democrática dos EUA? Por um lado, esta caracterização seria banal: O terror é óbvio em um conflito que no final se torna uma guerra racial; do outro lado seria extremamente distorcido: seria colocar os inimigos da escravidão e os donos de escravos no mesmo nível e omitir que os donos de escravos encontraram inspiração e apoio nos EUA onde a escravidão negra vivia e muito bem. A categoria de totalitarismo não se torna mais convincente se for empregada como único critério de interpretação para um conflito gigantesco entre a revolução anticolonial e a contrarrevolução colonial, defendendo a escravidão, que se desencadeou na primeira metade do século XX. É evidente que este é um capítulo da história que necessita investigação profunda de todos os tipos e torna inevitável interpretações controversas; mas não há nenhuma razão para ainda transformar dois inimigos mortais em irmãos gêmeos.

Notas:

1 Tendulkar 1990, p.210

2 Gandhi 1969-2001, Vol. 80, p. 200 (Answers to Questions, 25. April 1941) and vol. 86, p. 223 (Interview with Ralph Coniston in April 1945).

3 James 1963, p. 310 (Addition of 1963 to the original edition of 1938).

4 Torri 2000, p. 598.

5 In Mukerjee 2010, p. 78 and pp. 246-47).

6 De Gasperi 1956, p. 15-16.

7 Fredrickson 2002, p. 2 and p. 124.

8 Trans. German Emergency League against the Disgrace of the Blacks.

9 Longerich 2008, p. 66/Longerich 2012, p. 51

10 Ibid.

11 Goebbels 1992, pp. 1747-48.

12 Spengler 1933, p. 150.

13 Hitler 1939, pp. 153-54.

14 Hitler 1980, p. 377 and p. 334 (Conversations of the 30th August of 1942 and of 8th August of 1942).

15 Trans. Herrentum,

16 Himmler 1974, p. 156 and p. 159.

17 Stalin 1917.

18 Stalin 1917a.

19 Stalin 1920.

20 Olusoga, Erichsen 2011, p. 327

21 Hitler 1965, see the speeches from the 22th of August 1939, from the 28th of September 1940 and from the 30the March and 8th November 1941.

22 Dimitroff 2000, p. 162

23 Stalin 1921.

24 Stalin 1927.

25 Hitler, 1939, p. 82 and pp. 428-29.

26 Hitler, 1961, p. 131-32.

27 Hamilton 1987.

28 Hitler 1961, p. 52; Hitler 1939, p. 730.

29 Hitler 1939, pp. 313-14.

30 Rosenberg 1937, p. 673 and pp. 668-69.

31 In Woodward 2013, p. 350 and pp. 355-56.

32 In Woodward 2013, p. 352-53.

33 What concerns Ratzel, the vice consul in Chicago and Stoddard, see Losurdo 2007b, p. 164-65 and pp. 159.

34 Losurdo 2012, chapter 6, § 8.

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8 de fevereiro de 2013

Comunismo: Um enorme processo de emancipação ainda longe de concluído

Domenico Losurdo

L'Humanité

Tradução / Continuo a julgar correta a visão da ideologia alemã, segundo a qual o comunismo é sobretudo "o movimento real que abole o atual estado de coisas". Observemos as mutações que se verificaram no mundo a partir da primeira revolução que se reclamou de Marx e Engels. Antes de outubro de 1917 não havia democracia, mesmo no Ocidente: era o reino das três grandes discriminações para com as mulheres, as classes subalternas, os povos coloniais e de origem colonial.

Com fevereiro e outubro de 1917, a Rússia revolucionária reconheceu às mulheres direitos políticos ativos e passivos. A República de Weimar (nascida da revolução que explodiu na Alemanha um ano após a revolução de Outubro) tomou o mesmo caminho, seguido pelos Estados Unidos. É certo que na Itália, Alemanha, Áustria e Inglaterra o sufrágio universal (masculino) estava mais ou menos afirmado, mas ficava neutralizado por uma Câmara alta que permanecia o apanágio da nobreza e da grande burguesia.

A discriminação racial apresentava-se sob uma forma dupla: considerados como indignos de se constituírem como Estado nacional independente, os povos coloniais eram submetidos à dominação absoluta das grandes potências. Num país como os EUA, os afro-americanos eram excluídos dos direitos políticos (e por vezes mesmo dos direitos cívicos). A ultrapassagem da discriminação racial sob estes dois aspectos não pode ser pensada sem o capítulo da história aberto por outubro de 1917. O papel desempenhado pelos Partidos Comunistas nas revoluções anti-coloniais é notável. E no que se refere aos Estados Unidos? Em dezembro de 1952, o ministro da Justiça enviava ao Tribunal Supremo, ocupada a discutir a questão da integração nas escolas públicas, uma carta eloquente: "A discriminação racial leva a água ao moinho da propaganda comunista". O desafio comunista desempenhou um papel essencial igualmente na ultrapassagem do regime da supremacia branca.

Os direitos sociais e econômicos fazem parte da democracia tal como a esquerda a entende. E foi este patriarca do neoliberalismo, Hayek, que denunciou o fato de que a teorização e a presença no Ocidente destes direitos remetiam à influência, por ele considerada nefasta, da "revolução marxista russa".

Compreende-se portanto que, à atenuação do desafio comunista, corresponda no Ocidente uma restauração. Não se trata só do desmantelamento do Estado social. O peso da riqueza é tão forte que, mesmo nas colunas do New York Times, podem-se ler denúncias considerando que o regime em vigor nos Estados Unidos assemelha-se mais a uma "plutocracia" do que à democracia. A contra-revolução é evidente igualmente nos caso do colonialismo, reavaliada pelo teórico da "sociedade aberta", Karl Popper: "Nós libertamos estes Estados (as antigas colónias) muito apressadamente e de modo demasiado simplista".

Vejamos, em sentido contrário, o que se passa num país continente que ficou sob a direção do Partido Comunista. Pondo fim à catástrofe provocada pelas guerras do ópio e a agressão colonialista, a China devolveu a centenas de milhões de pessoas o primeiro dos direitos do homem, a saber, o direito à vida. O Estado social começa aqui a dar os seus primeiros passos, ao passo que doravante ele é renegado no Ocidente, inclusive no plano teórico.

Mas isto não é tudo: ao reduzir rapidamente seu atraso tecnológico em relação aos países capitalistas mais avançados, a China põe fim à "era de Colombo", que havia começado com a descoberta-conquista da América e que viu o Ocidente sujeitar o planeta inteiro. Vêem-se criar as condições para frustrar as tentações colonialistas e democratizar as relações internacionais. O declínio da doutrina Monroe, à qual a revolução cubana infligiu pela primeira vez um golpe severo, está lá para confirmar.

Como acontece muitas vezes com revoluções, aquela principiada há aproximadamente um século seguiu um percurso completamente imprevisto. Estamos em todo caso na presença de um gigantesco processo de emancipação que está bem longe de ter chegado à sua conclusão.

Domenico Losurdo é filósofo e professor de história da filosofia na Universidade de Urbino (Itália).

14 de março de 2012

Sem memória histórica

O filósofo e publicista italiano Domenico Losurdo comenta em seu blog na Internet sobre "a indústria da indignação e os preparativos para a guerra" no caso da Síria

Domenico Losurdo

Junge Welt

Lá vamos nós outra vez. Hoje toda a imprensa dita de informação abunda em detalhes truculentos sobre civis, sobre as mulheres e os bebês feitos em pedaços na Síria ― assim no-lo asseguram ― pelo regime de Bashar al Assad. Nenhuma dúvida permitida, procede-se à dissolução da memória histórica. Alguém se recorda de Timisoara? Alguém se lembra da “revolução da Cinecittà” (segundo a definição de François Fejtö) que tem lugar na Roménia a seguir à difusão da “notícia” sobre o “genocídio” verificado por encomenda naquela cidade? Um filósofo prestigiado (Giorgio Agamben) sintetizou assim os acontecimentos:

Pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres recém-sepultados ou alinhados nas mesas das morgues foram desenterrados à pressa de forma a simular frente às câmaras televisivas o genocídio que era suposto legitimar o novo regime. Aquilo que toda a gente via em direto como a verdade verdadeira nos monitores de televisão era a absoluta não-verdade; e, se bem que a falsificação fosse por vezes evidente, era todavia autenticada como verdadeira pelo sistema mundial dos meios de comunicação, para que ficasse claro que o verdadeiro já não era mais do que um momento do necessário movimento do falso (acerca disto, cf. D. Losurdo, La non-violenza: Una storia fuori dal mito, Laterza, pp. 237-38).

E alguém se lembra do que acontece em Racak, no início da guerra que viria a culminar com a desmembramento da Iugoslávia e a instalação nessa região duma poderosa base militar norte-americana? Eis como Roberto Morozzo Della Rocca reconstrói os eventos numa revista prestigiosa como é a "Limes" (Suplemento ao nº 1, Cadernos Especiais, 1999):

O massacre de Racak é horrível, com mutilações e cabeças cortadas. É uma cena ideal para suscitar a indignação da opinião pública internacional. Há qualquer coisa estranha nesta modalidade de massacre. O sérvios normalmente matam sem proceder a mutilações (...). Como a guerra da Bósnia ensina, as denúncias de maus tratos infligidos a corpos, os sinais de tortura, as decapitações, são uma arma difusa de propaganda (...). Talvez não tenham sido os sérvios que mutilaram os corpos, mas os guerrilheiros albaneses.

O esbatimento da memória histórica é função da preparação da guerra. Obama e os seus aliados têm pressa em desencadear os bombardeamentos e impor ao presidente sírio o destino de linchamento, tortura e morte já infligido a Khadaffi.

E os quotidianos de “informação”? No “Corriere della Sera” de 13 de março pode ler-se na primeira página: “Horror, presidente Bashar al Assad! Horror!”. Ao autor do artigo (Antonio Ferrari) faria bem ler o artigo de um colega seu (Alex de Waal), publicado no “International Herald Tribune” de 10-11 de março. Quais as consequências dos contínuos apelos à intervenção militar? “Nos rebeldes provoca um perverso incentivo à escalada da violência étnica, de modo a provocar uma resposta militar internacional”.

Como é óbvio, este é precisamente o objetivo visado pelas chancelarias ocidentais, inquilino da Casa Branca à frente, embalado no seu cinismo pela obtenção do Prêmio Nobel da Paz. Mas os outros, jornalistas ou não, que estão realmente interessados em evitar o derramamento de sangue, fariam bem em refletir: os gritos histéricos a favor da guerra humanitária contribuem para provocar os mesmíssimos massacres que todavia aqueles declaram pretender condenar.

30 de junho de 2008

Entrevista com Domenico Losurdo

Uma entrevista com
Domenico Losurdo

Entrevistado por
Laurent Etre


Tradução / O liberalismo impõe-se à esquerda? O historiador e filósofo Domenico Losurdo nega a pretensão dos liberais de ontem e de hoje a serem reconhecidos como depositários de um projeto de emancipação humana.

Para pensar a liberdade e o indivíduo, a esquerda deve recorrer ao seu próprio corpo teórico. Entrevista com o autor de uma "Contra-história do liberalismo".

A relação com o liberalismo é ou deveria ser efetivamente a clivagem estruturante da esquerda francesa e europeia?

Domenico Losurdo: Em 1948, a Declaração dos Direitos do Homem estabelecida pela Organização das Nações Unidas reconhecia direitos econômicos e sociais (direito à educação, direito à livre escolha do seu trabalho e à proteção contra o desemprego, etc...)

Isto a que assistimos atualmente, especificamente na Europa, é precisamente o desmantelamento das realizações concretas correspondentes a estes direitos (Segurança Social, sistema de aposentadoria, etc...)

Este desmantelamento é acompanhado pela própria negação, no plano teórico, do valor destes direitos. É este duplo fenômeno que se pode caracterizar como contra-revolução neoliberal. Para responder com eficácia, parece-me necessário colocarmo-nos em uma perspectiva histórica.

Esta permite compreender que os direitos humanos jamais se desenvolveram em virtude de uma dinâmica interna do liberalismo, que teria sido impedido, por razões conjunturais, de instalar na esfera econômica uma lógica de direita que teria em contrapartida conseguido impor na esfera política contra os diversos conservadorismos, nomeadamente religiosos.

Esta visão linear da história é absolutamente falsa. Na verdade, o liberalismo, para além da diversidade das suas sensibilidades, tem tido tendência a recuperar para seu crédito direitos que as burguesias simplesmente tiveram de reconhecer na guerra de classe, no século passado, no contexto da guerra fria.

Nos anos 70, Friedrich A. Hayek, então inspirador da política econômica da administração Reagan, falava dos direitos econômicos e sociais como uma invenção ruinosa da revolução bolchevique russa. Ele não raciocinava em termos de compatibilidade ou não destes direitos com os meios financeiros do Estado. Ele, ao contrário, atacava os direitos em causa nas suas raízes, sobre a sua própria legitimidade. Hoje, vê-se triunfar a posição de Hayek, mas num contexto onde não há mais o desafio do mundo socialista. Isto não significa que seja preciso rever em baixa as ambições sociais. Ao contrário.

O liberalismo defende a liberdade?
Domenico Losurdo. Os pais fundadores desta corrente de ideias justificavam a escravidão. O filósofo inglês Locke estava mesmo implicado pessoalmente como acionista da sociedade que geria o tráfico de escravos.

Se tomarmos os dois países mais representativos da tradição liberal, a saber, a Inglaterra e os Estados Unidos, vemos que estes são igualmente os países mais implicados no plano histórico na tragédia da escravidão dos negros. Os Estados Unidos não aboliram a escravidão dos negros senão em 1865. E mesmo depois, os negros ali não desfrutaram da liberdade. Foi só em meados do século XX que eles adquiriram direitos políticos.

A ultrapassagem da discriminação racial, da discriminação contra as mulheres, ou da discriminação censitária não são portanto os frutos do liberalismo, são ao contrário as aquisições, ainda que precárias e incompletas, das grandes lutas populares do movimento socialista e comunista.

O liberalismo não pode reivindicar nenhuma contribuição própria para a democracia política?

Pode-se reconhecer ao liberalismo, nomeadamente àquele de Montesquieu, o mérito de ter colocado a questão da limitação e da separação dos poderes. O marxismo histórico frequentemente escamoteou o problema, preferindo evocar directamente a desaparecimento total do Estado.

O encerramento nesta perspectiva utópica veio agravar as dificuldades para a construção de um Estado socialista democrático. Mas não é a partir de um liberalismo qualquer que se pode verdadeiramente criticar o marxismo sobre este ponto. Pois o liberalismo é na realidade muito ambíguo.

Por um lado, ele reivindica efectivamente a limitação dos poderes; mas por outro celebra o poder absoluto sobre os escravos e os povos coloniais. John Stuart Mill, considerado como um dos liberais mais progressistas, considerava no seu tempo que certas "raças menores" – é a expressão que ele emprega – são obrigadas a uma "obediência absoluta" aos mestres do Ocidente. Não é pois a proclamar-se liberal que a esquerda em crise pode recomprar uma consciência anti-totalitária, se é que ela a procura. Ao contrário, isso não faz senão aumentar a confusão.

Um verdadeiro debate deve ao contrário iniciar-se sobre a questão do Estado e da democracia. Considerando o peso crescente do dinheiro e da riqueza nas eleições nos Estados Unidos, Arthur Schlesinger Jr., um ilustre historiador americano, considerava que se assistia de facto à reintrodução da discriminação censitária.

Como evitar esta regressão e a perda dos direitos políticos já adquiridos? A questão decisiva é saber qual conteúdo se pretende dar à democracia: é apenas a consagração das relações arbitrárias na sociedade e nomeadamente na empresa, mas igualmente entre as nações? Ou antes trata-se do processo de reconhecimento político dos direitos conquistados e do seu desenvolvimento em e por lutas sociais?

Os tenores da esquerda que se reclamam do liberalismo de facto insistem frequentemente no que parece sobretudo um liberalismo dos costumes, que se pode com efeito defender em nome do progresso humano...

A vontade de defender as liberdades individuais é evidentemente legítima. O que apresenta problema é o modo de encarar a questão. Tem-se a impressão de que a esquerda teria de escavar alhures e não no seu próprio corpus ideológico para pensar os direitos do indivíduo, sua emancipação.

Penso ao contrário que se trata de desenvolver ainda mais este corpus, aprofundá-lo. Quando em geral se fala de Marx e do marxismo, considera-se, mais ou menos explicitamente, que eles teriam insistido na igualdade, não na liberdade. Trata-se de um preconceito. O Manifesto do Partido Comunista, de que festejamos este ano o 160º aniversário, fala da luta para suprimir "o despotismo na fábrica". A luta das classes encarada por Marx não é suposta limitar-se a objectivos materiais. É uma luta pela liberdade.

Dissociar as questões societais das questões sociais, o plano político e cultural do plano económico, equivale mesmo a negar o pensamento burguês mais avançado. Antes de Marx, Hegel explicava num texto célebre de "A filosofia do direito" que um homem que se arrisca a morrer de fome encontra-se numa condição de ausência absoluta de direito, ou seja, na condição de um escravo. Quando a desigualdade material atinge um certo grau, ela se torna então uma condição de ausência de liberdade. Retorna-se à questão democrática.

Mas quando a esquerda coloca a questão democrática em termos de democracia social, ela muitas vezes é acusada de proteccionismo. Daí a acusá-la de nacionalismo não há senão um passo, por vezes dado alegremente no debate sobre a Europa...

Uma coisa é a afirmação, a defesa da identidade ou da dignidade nacional, uma outra é o chauvinismo. Tem-se tendência a fazer confusão entre as duas. A distinção parece-me entretanto muito simples: de um lado temos uma atitude universalizável; do outro, uma posição exclusivista.

A afirmação da dignidade da nação francesa, americana ou italiana é perfeitamente compatível com a afirmação da dignidade de qualquer outra nação, de todos os povos. Em contrapartida, quando o presidente Bush afirma que os Estados Unidos são a "nação eleita por Deus" para governar o mundo, esta atitude não é universalizável. Basta que um outro país tenha a mesma pretensão para que haja afrontamento.

Hoje, o chauvinismo por excelência é o dos Estados Unidos, país que posa como herói do liberalismo. E a União Europeia, servil em relação aos Estados Unidos, reproduz a sua atitude de "nação eleita por Deus" nas suas relações com os países do Terceiro Mundo. Lénine havia explicado muito bem a ligação entre o imperialismo, o nacionalismo e o racismo.

Uma das suas definições do imperialismo é a seguinte: "o imperialismo é a pretensão de um pequeno grupo de nações que se dizem eleitas" de monopolizar para si só o direito de constituir um Estado nacional e soberano, o que e equivale a dizer de excluir deste direito os povos considerados como inferiores.

A luta pela igualdade das nações é sempre atual. E é uma luta progressista, em nome das liberdades e da democracia, que se conduz contra o sistema capitalista e sua ideologia liberal.

Sobre o entrevistado

Domenico Losurdo est l'auteur d'une « Contre-histoire du libéralisme », non encore traduite en français ; a notamment publié « Gramsci, du libéralisme au communisme critique », éditions Syllepse, 2006.

1 de janeiro de 2004

Para uma crítica da categoria de totalitarismo

Domenico Losurdo



Uma categoria polissêmica

Tradução / Em 1951, no momento que Hanna Arendt publicou The Origins of Totalitarianism, o debate sobre o totalitarismo vinha se travando havia uma década. Entretanto, o significado do termo ainda não estava bem definido. Como orientar-se naquilo que, à primeira vista, aparecia como um labirinto? Aqui, faço abstração das ocorrências em que o adjetivo “totalitário”, mais ainda do que o substantivo, tem uma conotação positiva, concernente à capacidade atribuída a uma religião ou a qualquer ideologia ou visão do mundo de dar resposta a todos os múltiplos problemas resultantes de uma dramática situação de crise e às próprias indagações sobre o sentido da vida, que empenham o homem em sua totalidade. Ainda em 1958, embora rejeitando o “totalitarismo legal”, isto é, imposto pela lei, Barth celebrava nos seguintes termos a dinâmica universalista e a eficácia onisciente da “mensagem” cristã: “Totalitária, na medida em que visa ao todo,em que exige cada homem e o exige totalmente para si, também é a livre graça do evangelho”. [1]

Concentremo-nos sobre o debate mais propriamente político. Podemos distinguir dois filões principais. Na Dialética do iluminismo, Horkheimer e Adorno se ocupam bem pouco da URSS. Além do Terceiro Reich, o discurso versa sobre o “capitalismo totalitário”: “Primeiro, só os pobres e selvagens estavam expostos às forças capitalistas. Mas a ordem totalitária estabelece completamente, em seus direitos, o pensamento calculista e atém-se à ciência enquanto tal. Seu cânone é sua própria eficiência cruel” [2]. Aqui, as etapas preparatórias do nazismo são identificadas na violência perpetrada pelas grandes potências ocidentais contra os povos coloniais e aquela consumada, no próprio coração das metrópoles capitalistas, contra os pobres e os marginalizados reclusos nos abrigos de desempregados. Não é distinta a orientação de uma autora também influenciada pelo marxismo. Se, por vezes, aproxima a Alemanha hitleriana e a União Soviética staliniana, Simone Weill denuncia o horror do poder total, do totalitarismo, com o olhar, sobretudo, fixado na dominação colonial e imperial: “A analogia entre o sistema hitleriano e a antiga Roma é surpreendente a ponto de levar a acreditar que, após dois mil anos, só Hitler teria sabido copiar corretamente os romanos” [3]. Entre o Império romano e o Terceiro Reich coloca o expansionismo desenfreado e sem peias de Luís XIV: “O regime estabelecido por ele já merecia, pela primeira vez na Europa depois de Roma, a designação moderna de totalitário”; “a atroz devastação do Palatinato (da qual são culpadas as tropas conquistadoras francesas) sequer teve a desculpa das necessidades da guerra” [4]. Procedendo retrospectivamente em relação à antiga Roma, Weill efetua uma leitura em registro proto-totalitário do episódio do Antigo Testamento da conquista de Canaã e do aniquilamento de seus habitantes.

É hora de olhar um pouco os autores de orientação liberal. Na reconstrução da gênese da “democracia totalitária”, Talmon chega à seguinte conclusão:

Se [...] o empirismo é aliado da liberdade e o espírito doutrinário é, ao contrário, aliado do totalitarismo, é provável que o conceito de homem como abstração, independentemente das classes históricas [os diversos agrupamentos] a que pertence, se torne um poderoso meio de propagação do totalitarismo. [5]

Claramente, estão postas em acusação a Declaração dos Direitos do Homem e a tradição revolucionária francesa em seu conjunto (não somente Rousseau, mas também Sieyès).

Passemos, agora, a Hayek: “As tendências que culminaram na criação do sistema totalitário não estavam confinadas nos países que, depois, sucumbiram a ele” e elas não põem em causa somente os movimentos comunista e nazi-fascista. Em particular, no que diz respeito à Áustria:

Não foram os nazistas, mas os socialistas que iniciaram o agrupamento das crianças, desde a mais tenra idade, em organizações políticas, de modo a estarem seguros de que elas cresceriam como bons proletários. Não foram os fascistas, mas os socialistas que pensaram, em primeiro lugar, em organizar esportes, jogos, partidas de futebol e excursões em clubes do partido cujos membros não teriam sido infectados por pontos de vista distintos. Foram os socialistas que primeiro insistiram no fato de que estes membros deveriam distinguir-se dos demais pelo modo de se saudarem e de se dirigirem uns aos outros.

Assim, Hayek pode concluir que “a idéia de um partido político que abarca todas as atividades de um indivíduo do berço ao túmulo” e que difunde uma Weltanschatuung [a] de conjunto é uma idéia que remete, em primeiro lugar, ao movimento socialista. Sobre esse movimento age uma tradição de mais longa data, que se reconhece – como observará, mais tarde, o patriarca do neoliberalismo – na “democracia social ou totalitária”. [6] De todo modo, “controle econômico e totalitarismo” aparecem estreitamente entrelaçados. [7]

Portanto, se de um lado os acusados são principalmente (ainda que não exclusivamente) o colonialismo e o imperialismo, do outro o réu principal (embora não exclusivo) da polêmica é constituído pela tradição revolucionária que de 1789 conduz a 1917, passando pela reivindicação de 1848 do direito ao trabalho e da “democracia social ou totalitária”.

Nesse ponto, podemos fazer intervir uma distinção ulterior. O totalitarismo, por assim dizer, de “esquerda”, pode ser criticado a partir de dois pontos de vista sensivelmente diferentes. Ele pode ser deduzido da infeliz ideologia organicista atribuída a Marx ou a Rousseau, ademais de Sieyès (esta é a abordagem de Talmon e Hayek). Ou então, pode ser referido às características materiais dos países em que o totalitarismo comunista afirmou-se. É desse modo que argumenta Wittfogel: “O estudo comparativo dos poderes totais” – como o diz o subtítulo de seu livro – demonstra que esse fenômeno manifesta-se, sobretudo no Oriente, no âmbito de uma “sociedade hidráulica”, caracterizada pela tendência em direção do controle total dos recursos hídricos necessários para o desenvolvimento da agricultura e a própria sobrevivência dos habitantes. Nesse contexto, bem longe de ser o progenitor do totalitarismo comunista, Marx é seu crítico ante litteram [b], como o mostram sua análise e suas denúncias do “despotismo oriental”, em que emprega uma categoria evocada por Wittfogel já no título de seu livro. [8]

Destes pressupostos decorre, pois, que o “poder total” não remete exclusivamente ao século XIX. Pode-se então pôr em relevo uma distinção ulterior. Se Arendt insiste na novidade do fenômeno totalitário, Popper chega a uma conclusão oposta, segundo a qual o conflito entre a “sociedade aberta e seus inimigos” parece ser eterno: “Aquilo que, hoje, chamamos totalitarismo pertence a uma tradição que é tão velha ou tão jovem quanto nossa própria civilização”. [9]

Finalmente, vimos que o totalitarismo pode ser denunciado olhando-se principalmente para a direita ou para a esquerda, mas não faltam casos em que a denúncia provém de ambientes e de personalidades ligadas ao nazi-fascismo e dirigese exclusivamente a seus inimigos. Em agosto de 1941, no decorrer da campanha, ou melhor, da guerra de extermínio contra a União Soviética, e diante da encarniçada e imprevista resistência que ela provocou, o general alemão Halder a explica pelo fato de que o inimigo preparou-se acuradamente para a guerra “com a completa falta de escrúpulos própria de um Estado totalitário” [10]. No mesmo sentido, Goebbels, mesmo sem lançar mão do termo “totalitarismo”, explica essa inesperada e inaudita resistência encontrada pelo exército invasor no Leste pelo fato de que o bolchevismo, cancelando qualquer resquício de livre personalidade, “transforma os homens em robôs” e em “robôs de guerra”, em “robôs mecanizados” [11]. Por fim, a acusação de totalitarismo pode golpear até os inimigos ocidentais do Eixo. Em 1937, a aspiração da Itália fascista a desenvolver também um império colonial confronta-se com a hostilidade, em primeiro lugar, da Inglaterra, que passa a ser acusada por sua “gélida e totalitária discriminação contra tudo aquilo que não seja simplesmente inglês”. [12]

A virada da guerra fria e a intervenção de Hannah Arendt

A partir da publicação das Origens do totalitarismo, as polissemias do debate aqui delineado em grandes linhas tenderam a diluir-se. Ainda em maio de 1948, Arendt denunciava o “desenvolvimento de métodos totalitários” em Israel, referindose ao “terrorismo” e à expulsão e deportação da população árabe [13]. Três anos depois, não havia mais espaço para críticas dirigidas contra o Ocidente atual. Em nossos dias, mais do que nunca, a única tese politically correct [c] é aquela que tem por alvo sempre e somente a Alemanha hitleriana e a União Soviética.

É a tese que triunfou a partir e no decorrer da guerra fria. Em 12 de março de 1947, Truman proclama a “doutrina” que toma seu nome: depois da vitória alcançada na guerra contra a Alemanha e o Japão, abre-se uma nova fase na luta pela causa da liberdade. Agora, a ameaça provém da União Soviética, “regime totalitário imposto aos povos livres, mediante agressão direta ou indireta, minando os fundamentos da paz internacional e, portanto, a segurança dos Estados Unidos”. [14]

Aqui, o alvo é delimitado com clareza: não se trata de virar as costas em relação ao século XX; de outro lado, não faz sentido golpear também os socialistas, junto com os comunistas: por mais graves que possam ter sido suas responsabilidades no passado, eles passaram a ser, no mais das vezes, aliados do Ocidente. Mas uma abordagem similar à assumida por Wittfogel seria um desvio por duas razões. A categoria de “despotismo oriental” dificilmente poderia legitimar a intervenção dos EUA, por exemplo, na guerra civil desencadeada na China onde, logo após a proclamação de sua doutrina, Truman se empenha em sustentar Chiang Kai-shek [15]. Por outro lado, a insistência sobre as condições objetivas, que explicariam a afirmação do “poder total”, tornaria mais difícil e menos agressiva a acusação feita aos comunistas. É por essa razão que termina por prevalecer a abordagem dedutivista. A guerra fria se configura como uma guerra civil internacional que dilacera transversalmente todos os países: para o Ocidente, o melhor meio de enfrentá-la é apresentar-se como o campeão da luta contra o novo totalitarismo, caracterizado como a conseqüência necessária e inevitável da ideologia e do programa comunista.

Nesse contexto, como colocar a intervenção de Arendt? Logo após sua publicação, Origens do totalitarismo foi submetido a dura crítica por parte de Golo Mann:

As duas primeiras partes da obra tratam da pré-história do Estado total. Mas aqui o leitor não encontrará aquilo que está acostumado a encontrar em trabalhos semelhantes, isto é, pesquisas sobre as peculiaridades históricas da Alemanha ou da Itália ou da Rússia [..] Pelo contrário, Hannah Arendt dedica dois terços de seu esforço ao anti-semitismo e ao imperialismo e, sobretudo, ao imperialismo de matriz inglesa. Não consigo segui-la [..] Somente na terceira parte, em vista da qual todo o resto foi escrito, Hannah Arendt parece abordar realmente o tema. [16]

Portanto, estariam substancialmente fora do tema as páginas dedicadas ao anti-semitismo e ao imperialismo, embora se trate de explicar a gênese de um regime como o hitleriano, que declaradamente ambicionava construir na Europa central e oriental um grande império colonial fundado sobre o domínio de uma pura raça branca e ariana, após ter liquidado de uma vez por todas o bacilo judeu da subversão, que alimentava as revoltas dos Untermenschen [d] e das raças inferiores.

Todavia, Golo Mann aponta um problema real. Como se harmoniza a última parte do livro de Arendt que tem por foco exclusivo a URSS staliniana e o Terceiro Reich, com as duas primeiras, que desenvolvem um requisitório contra a França (pelo anti-semitismo) e, em particular, contra a Inglaterra (pelo imperialismo)? Este último é o país que teve um papel central e funesto no decurso da luta contra a Revolução Francesa: Burke não se limitou a defender a nobreza feudal no plano interno, mas apontou “o princípio de tais privilégios até incluir neles todo o povo britânico, elevado assim ao estatuto de aristocracia entre as nações”. É aí que se deve buscar a gênese do racismo, “a arma ideológica do imperialismo”. [17] Entende-se agora que estas torpezas ideológicas se afirmaram em particular na Inglaterra, obcecada “pelas teorias sobre a hereditariedade e seu equivalente moderno, a eugenia”. Se a atitude de Disraeli não difere da de Gobineau, é porque temos que lidar com “dois devotos defensores da ‘raça’” [18], mas somente o primeiro conseguiu ascender a posições de tal poder e de tal prestígio. Ademais, é sobretudo nas colônias inglesas que começa a ser teorizado e imposto às “raças submetidas” um poder sem os limites que ele conhece nas metrópoles capitalistas; já no âmbito do Império britânico emerge a tentação dos “massacres administrativos” como instrumento de manutenção da dominação [19]. Esse é o ponto de partida necessário para se compreender a ideologia e a prática do Terceiro Reich. De Lord Cromer vem traçado um retrato que não está isento de analogias com aqueles sucessivamente dedicados a Eichmann: a banalidade do mal parece encontrar uma primeira encarnação, mais débil, no “burocrata imperialista” britânico, que “na fria indiferença, na genuína falta de interesse pelos povos administrados”, desenvolve uma “filosofia de burocrata” e uma “nova forma de governo […] mais perigosa que o despotismo e a arbitrariedade” [20]. Este requisitório é impiedoso, mas eis que se dissolve como por encanto na terceira parte das Origens do totalitarismo. O fato é que o livro de Arendt resulta, na realidade, de dois níveis distintos que remetem a dois períodos de composições diversas e separadas uma da outra pelo corte temporal do desencadeamento da guerra fria. Ainda na França, a autora via o trabalho que estava escrevendo “como uma obra exaustiva sobre o anti-semitismo e sobre o imperialismo e uma pesquisa histórica sobre aquele fenômeno que, então, chamava de ‘imperialismo racial’, isto é, sobre a forma mais extrema de opressão das minorias nacionais por parte das nações dominantes de um Estado soberano” [21]. Naquele momento, bem longe de ser um alvo, a URSS era, sobretudo, um modelo. Vinha lhe sendo atribuído o mérito, observa Arendt no outono de 1942 (no meio tempo, tinha desembarcado nos EUA e dali seguia o desenvolvimento da operação Barbarossa desencadeada por Hitler), de ter “simplesmente liquidado o antisemitismo” no âmbito de uma “solução justa e muito moderna da questão nacional” [22]. Ainda mais significativo é um texto de outubro de 1945:

Com respeito à Rússia, aquilo em que todos os movimentos políticos e as nações deveriam prestar atenção – o seu modo, completamente novo e bem-sucedido de enfrentar e compor os conflitos de nacionalidades, de organizar populações diferentes sobre a base da igualdade nacional – tem sido negligenciado tanto por seus amigos quanto por seus inimigos. [23]

Recorri às citações para evidenciar a reviravolta das posições que ocorrerá alguns anos depois, quando ela critica Stalin pela desarticulação calculada das organizações já existentes de forma a produzir artificialmente aquela massa amorfa que é o pressuposto do advento do totalitarismo.

A julgar pela terceira parte das Origens do totalitarismo, o que caracteriza o totalitarismo comunista é o sacrifício, inspirado e estimulado por Marx, da moral sobre o altar da filosofia da História e de suas leis “necessárias”. Arendt tinha, porém, se expressado de modo bem diverso em janeiro de 1946:

No país que nomeou Disraeli primeiro-ministro, o judeu Karl Marx escreveu O Capital, um livro que em seu zelo fanático pela justiça alimentou a tradição judaica de forma muito mais eficaz do que o festejado conceito de “homem eleito da raça eleita”. [24]

Aqui, enquanto teórico da justiça, Marx é contraposto, nítida e positivamente, a um primeiro ministro inglês que enuncia teorias posteriormente herdadas e radicalizadas pelo Terceiro Reich.

Na passagem das duas primeiras partes, escritas ainda sob a emoção da luta contra o nazismo, para a terceira parte, que remete ao desencadeamento da guerra fria, a categoria de imperialismo (que inclui, em primeiro lugar, a Grã-Bretanha e o Terceiro Reich, esse tipo de estágio supremo do imperialismo) cede o posto à categoria de totalitarismo (que inclui a URSS staliniana e o Terceiro Reich).

As species do genus [e] imperialista não coincidem com as species do genus totalitarismo; embora as species permaneçam aparentemente imutáveis, no primeiro caso, a Alemanha é posta em causa pelo menos desde Guilherme II, no segundo caso, somente a partir de 1933. Ao menos no que diz respeito à coerência formal, apresenta-se mais rigoroso o esquema inicial que, depois de ter aclarado o genus “imperialismo”, ao investigar as diferenças específicas desse fenômeno, enfrenta a análise da species “imperialismo racial”. Mas então de que forma as categorias de totalitarismo e de imperialismo podem entrelaçar-se num todo coerente? E qual é a relação que conecta ambas à de anti-semitismo? A resposta que Arendt fornece a essas interrogações dá a impressão de uma harmonização artificial entre dois níveis que continuam a ser dificilmente compatíveis entre si.

Mais do que um livro, Origens do totalitarismo constitui, na realidade, dois livros sobrepostos, para os quais, não obstante sucessivos ajustes, a autora não consegue conferir uma unidade substancial. Ao resenhar a obra, eminentes historiadores e historiadores das idéias (Carr e Stuart Hugues), mesmo exprimindo-se com respeito e por vezes com admiração, não mostram dificuldade em se dar conta da desproporção, na autora, entre o conhecimento real e aprofundado do Terceiro Reich e as informações aproximativas sobre a União Soviética; sublinham, sobretudo, quanto é cansativa a tentativa de adaptar a análise da União Soviética (que remete ao desencadeamento da guerra fria) à do Terceiro Reich (que reenvia aos anos da grande coalizão contra o fascismo e o nazismo). [25]

A guerra fria e as sucessivas adaptações da categoria de totalitarismo

Dos campos de concentração, Origens do totalitarismo falam, sempre e somente, em relação à URSS e ao Terceiro Reich. Chama a atenção, sobretudo, o silêncio sobre uma experiência direta que Arendt teve dessa instituição total: junto com tantos outros alemães, fugitivos da Alemanha nazista e tornados suspeitos, com a eclosão da guerra, por serem cidadãos de um Estado inimigo, ela foi internada, por algum tempo, em Gurs. As condições aí devem ter sido bastante duras: tinha-se a impressão – lembrava Arendt em 1943 – que “tínhamos sido levados para lá pour crever [f] de algum jeito”, tanto que em alguns dos internados surge a tentação do “suicídio” como “ação coletiva” de protesto. [26]

No momento em que Origens do totalitarismo vem à luz, o campo de concentração é um instrumento sinistramente vital até na Iugoslávia, onde, porém, estavam reclusos os comunistas fiéis a Stalin. Mais geralmente, nos países balcânicos a ditadura decerto não é menos férrea que na Europa Oriental. Entretanto, no caso da Iugoslávia que, tendo rompido com a URSS, estava de fato ligada ao Ocidente, podem ser constatados – como observará, em 1953, o secretário de Estado Dulles – “certos aspectos de despotismo”, mas nada mais. [27] É um juízo que, de qualquer forma, desaparece no silêncio observado por Arendt a esse propósito.

Para consolidar, posteriormente, o peso da guerra fria, outros fatores particulares intervieram: “Mussolini, que tanto amava o termo totalitário, não tentou instaurar um regime totalitário propriamente dito, contentando-se com a ditadura do partido único”. À Itália fascista, são assemelhados a Espanha de Franco e o Portugal de Salazar. [28] Deste modo, são poupados da acusação de totalitarismo os dois países que tinham aderido à OTAN. Nesse ponto, a luta entre antitotalitarismo e totalitarismo coincide perfeitamente com a luta entre os dois blocos.

Se poupa a Espanha, Portugal e até a própria Iugoslávia, a acusação de totalitarismo é lançada ou sugerida até para países inesperados:

Uma forma semelhante de governo (o totalitário, DL) parece encontrar condições favoráveis nos países do tradicional despotismo oriental, na Índia e na China, onde há uma reserva humana praticamente inexaurível, capaz de alimentar a máquina totalitária acumuladora de poder e devoradora de indivíduos, e onde, ademais, o sentido da superfluidade dos homens, típico das massas (e absolutamente novo na Europa, um fenômeno associado ao desemprego generalizado e ao crescimento demográfico dos últimos 150 anos) dominou durante séculos sem contestação no desprezo pela vida humana. [29]

Vale a pena observar que, embora gozando de um regime parlamentar, a Índia era, naquele momento, aliada da URSS!

Segundo Arendt, caracterizava o totalitarismo comunista o sacrifício, inspirado e estimulado por Marx, da moral sobre o altar da filosofia da história e de suas leis “necessárias”. O argumento apresentado nas Origens do totalitarismo pode ser lido numa intervenção, em março de 1949, de Dean Acheson, secretário de Estado americano durante a administração Truman: a OTAN é expressão da comunidade atlântica e ocidental, unida “por comuns instituições e sentimentos morais e éticos” e em luta contra um mundo surdo às razões da moral e, assim, inspirado do “sentimento comunista segundo o qual a coerção mediante a força constitui o método apropriado para apressar o inevitável”. [30]

Apesar disso, com as substanciais concessões ao clima ideológico da guerra fria, alguma coisa do projeto original das Origens do totalitarismo continua a se fazer presente mesmo na terceira parte do livro. Salta aqui aos olhos a distinção feita entre a ditadura revolucionária de Lenin e o regime propriamente totalitário de Stalin. Rompendo com a política czarista de opressão das minorias nacionais, Lenin organiza o maior número possível de nacionalidades, favorecendo o surgimento de uma consciência nacional e cultural até entre os grupos étnicos mais atrasados que, por sua vez, conseguem organizar-se como entidades culturais e nacionais autônomas. Algo de análogo se verifica também para as outras formas de organização social e política: os sindicatos, por exemplo, conquistam uma autonomia organizativa desconhecida na Rússia czarista. Tudo isso representa um antídoto em relação ao regime totalitário, que pressupõe uma relação direta e imediata com o líder carismático, de um lado, e a massa amorfa e atomizada, de outro. A estrutura articulada criada por Lenin é sistematicamente desmantelada por Stalin, que, para impor o regime totalitário que almeja, precisa desorganizar a massa de modo que possa tornar-se objeto do poder carismático e inconteste do chefe infalível. [31]

Como explicar a passagem de Lenin a Stalin? E por que a sociedade articulada e organizada que veio à luz na vaga da revolução não consegue contestar eficazmente a obra sistemática de desarticulação e desorganização que abre caminho para a imposição do regime totalitário? Leiamos a resposta: “Sem dúvida, Lenin sofre sua maior derrota quando, com o advento da guerra civil, o poder supremo que ele tinha, originariamente, projetado concentrar nos Sovietes passou definitivamente para as mãos da burocracia” [32]. Mas, então, a passagem ao regime totalitário não é o resultado inevitável de um pecado original ideológico (a filosofia da história de Marx), mas, em primeiro lugar, o produto de circunstâncias históricas bem determinadas e, ademais, de circunstâncias históricas que põem diretamente em causa as potências ocidentais de consolidada tradição liberal, empenhadas em alimentar de todas as formas a guerra civil antibolchevique. Por outro lado, não se entende bem como possa ainda sustentar-se a assimilação do bolchevismo e do nazismo sobre a qual insiste a terceira parte das Origens do totalitarismo: foi Lenin e não Stalin que edificou o partido bolchevique. Sobretudo, justifica-se pouco a acusação lançada contra Marx. Mas, segundo Arendt, na condução de sua política, Lenin teria sido guiado mais por seu instinto de grande estadista do que pelo programa marxista propriamente dito. Na realidade, as medidas de emancipação das minorias nacionais tinham sido precedidas por um longo e complexo debate sobre a questão nacional vista à luz do marxismo.

A defasagem entre o projeto inicial e as sucessivas composições das Origens do totalitarismo comporta também uma oscilação de caráter metodológico. Por um lado, Arendt se permite recorrer a uma interpretação dedutivista do fenômeno totalitário, claramente vizinha à dos autores liberais freqüentemente citados: o totalitarismo staliniano era, então, lido como a conseqüência lógica e inevitável da ideologia marxiana. Por outro lado, ela se vê constrangida a remeter às condições históricas particulares que explicam o advento do regime totalitário staliniano: guerra civil, agressões internacionais das potências vitoriosas na I Guerra Mundial (mas nossa autora apenas sobrevoa esse ponto), desagregação das estruturas organizativas etc. A distinção entre o leninismo e o stalinismo, entre ditadura revolucionária e o regime totalitário que a segue, interrompe aquela linha de continuidade férrea e meramente ideológica de Marx ao totalitarismo, instituída desde Hayek e Talmon.

Não por acaso, esta distinção é um dos alvos da polêmica de Golo Mann. Outro, ainda mais relevante, é constituído pelas duas primeiras partes das Origens do totalitarismo em seu conjunto. Além das reservas expressas na resenha, é, sobretudo, eloquente a conversa que o historiador refere ter tido com Jaspers. É um convite a tomar distância das posições heréticas tomadas por sua discípula:

Você acredita que o imperialismo inglês, em particular Lord Cromer no Egito, teve algo a ver com o Estado totalitário? Ou o anti-semitismo francês no caso Dreyfus? “Você escreveria isto?”. “Mas é claro, ela dedica a isso três capítulos”. Acreditando cegamente na amiga amada, ele tinha aconselhado a leitura do livro que ele, no entanto, tinha lido apenas de relance. [33]

Golo Mann tem razão. No tema do totalitarismo, Jaspers é decididamente mais ortodoxo que Arendt. Essa última acaba por ser influenciada pelas críticas dirigida a ela. Isso emerge, em particular, no ensaio Sobre a revolução. Aqui, Marx é o autor da “doutrina politicamente mais danosa da idade moderna, ou seja, que a vida é o bem supremo e que o processo vital da sociedade é o próprio centro de todo o esforço humano”. O resultado é catastrófico:

Este caminho leva Marx a uma verdadeira e própria capitulação da liberdade diante da necessidade. Assim, ele faz o que seu mestre de revolução, Robespierre, tinha feito antes dele e aquilo que seu maior discípulo, Lenin, fará depois dele na mais grandiosa e terrível revolução que seus ensinamentos tenham, até agora, inspirado. [34]

Ora, não é somente em Marx que se dissipa o “zelo fanático pela justiça” do qual Arendt fala em 1946 e do qual já se tinham largamente perdido os rastros apenas cinco anos mais tarde. O elemento mais relevante de novidade é outro: plano e sem obstáculos passa a ser o percurso que conduz de Marx ao totalitarismo passando por Lenin. Sobre os ombros de Marx, age a Revolução Francesa e esta também está plenamente envolvida no juízo de condenação, que marca uma ulterior reviravolta em relação às Origens do totalitarismo.

Agora, fica clara a adesão à abordagem dedutivista de Talmon e Hayek, como fica claro também o triunfo obtido por Golo Mann. Mais além das concessões que lhe faz Arendt, prevalece, em nossos dias, uma leitura das Origens do totalitarismo que parece levar em conta as preocupações ideológicas expressas por ele. Com efeito, quem hoje, no âmbito do debate sobre totalitarismo, se lembra de Lord Cromer e da sua “nova forma de governo”, ainda “mais perigosa que o despotismo”? E quem aponta para os “massacres administrativos” cuja tentação acompanha como uma sombra a história do imperialismo? Quem ainda faz intervir a categoria de imperialismo? Das duas seções das quais resulta o livro de Arendt, só a menos válida, aquela que evita principalmente o peso das preocupações ideológicas e políticas imediatas, continua sendo empregada e interrogada. Ao resenhar Origens do totalitarismo, Golo Mann sintetizava assim o sentido de suas críticas: “Tudo é demasiadamente sutil, demasiadamente inteligente, demasiadamente artificial […] Em breve, teríamos preferido um tom mais rigoroso, mais positivo no conjunto” [35]. Com efeito, a teoria do totalitarismo tornou-se, em seguida, menos “sutil” e mais “robusta” e “positiva”. Adaptou-se em cheio às exigências da guerra fria. Emergindo do organicismo e do holismo de direita e de esquerda e dedutível de algum modo apriorístico desta frutífera fonte ideológica, o totalitarismo, em suas duas distintas configurações, explica todo o horror do século XX: essa é, hoje, a vulgata dominante.

Teoria do totalitarismo e seleção dos horrores do século XIX

É uma vulgata que nem mesmo tenta interrogar-se sobre alguma catástrofe central do século o qual, assim mesmo, pretende explicar. Procedamos como se estivéssemos no passado em relação à Revolução de Outubro, que constituiria o ponto de partida da vicissitude totalitária. Como interpretar a I Guerra Mundial, com seu séquito de mobilizações totais, de arregimentação total, de execuções e dizimações no interior do próprio campo, de impiedosas punições coletivas que comportam, por exemplo, a deportação e o extermínio dos armênios? E, em qual contexto colocar ainda as guerras balcânicas, com os massacres que as caracterizam? Sempre procedendo em retrospectiva, como ler a tragédia dos Hereros [g], considerados inaptos como força de trabalho servil e que foram, conseqüentemente, no início do século XIX, condenados ao aniquilamento por uma ordem explícita?

Agora não mais no passado, procedamos como se estivéssemos no futuro em relação à I Guerra Mundial e à Revolução de Outubro. Pouco mais de duas décadas depois, o campo de concentração faz sua aparição também nos Estados Unidos onde, com base em uma ordem de Franklin Delano Roosevelt, são reclusos em campos de concentração todos os cidadãos americanos de origem japonesa, inclusive mulheres e crianças.

Naquele mesmo momento, na Ásia, a guerra conduzida pelo Império do Sol Nascente assumia formas particularmente repugnantes. Com a tomada de Nanquim, o massacre torna-se uma espécie de disciplina esportiva e, ao mesmo tempo, de divertimento: quem conseguirá ser mais rápido ou mais eficiente ao decapitar os prisioneiros? A desumanização do inimigo alcança então uma inteireza bastante rara e, de fato, com caráter de “unicidade”: em vez de utilizar animais, as vivisseções são praticadas nos chineses, os quais, por outro lado, constituem o alvo vivo dos soldados japoneses que se exercitam à prática de assalto com baionetas. A desumanização também investe em cheio contra as mulheres que, nos países invadidos pelo Japão, são submetidas a uma brutal escravidão sexual: são as comfort women [h] , obrigadas a “trabalhar” a um ritmo infernal a fim de restaurar dos cansaços da guerra o exército de ocupação e logo eliminadas assim que se tornam inúteis pelo desgaste ou por quaisquer doenças. [36]

A guerra no Extremo-Oriente, que vê o Japão tratar cruelmente os prisioneiros ingleses e americanos e lançar mão contra a China até de armas biológicas, termina com o bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki, em um país que já se encontra no extremo de suas forças e se prepara à rendição: é por isso que estudiosos americanos compararam o aniquilamento da população civil das duas cidades japonesas, já indefesas, ao massacre dos judeus pelo Terceiro Reich consumado na Europa.

De tudo isso, não há traços no livro de Arendt. O Japão apenas aparece no índice analítico: à guerra na Ásia se faz um fugaz aceno para denunciar o totalitarismo da China e não somente o do Partido Comunista, mas do país inteiro sobre os ombros do qual age, como já vimos, o “despotismo oriental”. Além do peso da guerra fria (entrementes, o Japão passou a participar da aliança antitotalitária), emergem aqui todos os limites da categoria de totalitarismo.

Ela não consegue explicar adequadamente nem mesmo as tragédias das quais se ocupa de forma específica. A “solução final” tem atrás de si duas etapas que a precederam imediatamente. No decurso da I Guerra Mundial, foi a Rússia czarista (com os países ocidentais aliados a ela) que promoveram a maciça deportação dos judeus das zonas fronteiriças, suspeitos de pouca lealdade relativamente a um regime que os oprimia. Após a derrubada do czarismo e o desencadeamento da guerra civil, são as tropas brancas (apoiadas pelas mesmas potências ocidentais) que lançam a caça ao judeu, apontado como o inspirador oculto da revolução “judaico-bolchevista”: daí decorrem os massacres que, como sublinham os historiadores, parecem antecipar o advento da “solução final”. [37]

Um dedutivismo arbitrário e inconcludente

Se são clamorosamente enviezados os deslocamentos de enfoque da teoria do totalitarismo hoje dominante, é claramente insustentável a abordagem dedutivista sobre a qual ela se alavanca. No comunismo que Marx defendia, diluem o Estado, as nações, as religiões, as classes sociais, todos os elementos constitutivos de uma identidade meta-individual: não há nenhum sentido em falar de organicismo e fazer jorrar desse presumido pecado original o aniquilamento do indivíduo no âmbito do sistema totalitário. No que diz respeito ao sacrifício da moral sobre o altar da filosofia da história, esse motivo é antecipadamente confundido ou drasticamente problematizado pela Arendt de janeiro de 1946, que descreve Marx como uma espécie de profeta hebraico sedento de justiça

A abordagem dedutivista se revela arbitrária e inconclusiva também em relação ao Terceiro Reich. Folheemos a árvore genealógica do nazismo, da forma como tem sido comumente reconstruída pelos mais notórios historiadores. É obrigatório o encontro com Chamberlain: segundo Nolte, trata-se de um “bom liberal” que “levanta a bandeira da liberdade individual” [38]. Com efeito, estamos aqui lidando com um autor para quem o germanismo (sinônimo em última análise do Ocidente) é caracterizado pela recusa do “absolutismo monárquico” e de todas as visões do mundo que sacrificam o “singular” sobre o altar da coletividade. Não por acaso Locke é o “novo elaborador da nova visão do mundo germânico; e se quisermos encontrar precedentes, é necessário buscá-los em Ockam e, antes disso, em Duns Scoto, para quem é “o indivíduo” que constitui “a única realidade”.

Uma reconstrução histórica das “origens culturais do Terceiro Reich” tampouco pode ignorar Gobineau: o autor do Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas celebra as “tradições liberais dos Arianos”, os quais, por muito tempo, resistem a essa “monstruosidade cananeia” que é a ideia de “pátria”. Se, nesse contexto, inserimos também Langbehn, como sugere, entre outros, Mosse [39], veremos que é ainda mais nítida a profissão de fé individualista, bem como a celebração do “espírito santo do individualismo”, do “princípio alemão do individualismo”, esta “estimulante força fundamental e originária de todo o germanismo”. Os países designados como modelo são, quando muito, os países clássicos da tradição liberal. Se Gobineau dedica seu livro “a Sua Majestade George V”, Langbehn celebra o povo inglês como o “mais aristocrático entre todos os povos” e “o mais individualista entre todos os povos”, bem como Le Bon (um autor bastante caro a Goebbels) contrapõe, constante e positivamente, o mundo anglo-saxão ao resto do planeta. [40]

Mas, por que ir mais longe? Abramos Mein Kampf. Dura é a polêmica contra uma visão do mundo que, ao pretender atribuir ao Estado uma “força criativa e produtora de cultura”, desconhece não somente o valor da raça, mas ainda se torna culpada de “subestimar a pessoa” ou, ainda, a “pessoa singular” [41]. A “civilização de amanhã” repousa, em primeiro lugar, “sobre a genialidade e a energia da personalidade” [42]; portanto, não se pode nunca perder de vista o “homem singular”, o “ente singular” (Einzelwesen) em sua irredutível peculiaridade [43], o “homem singular” em suas “múltiplas e sutilíssimas diferenciações” [44]. Hitler aspira apresentar-se se como o autêntico e coerente defensor dos valores da “personalidade”, do “sujeito”, da “força criativa e da capacidade da pessoa singular, do significado superior da personalidade”, do “princípio da personalidade” contra o “princípio democrático da massa”, que encontra no marxismo a sua expressão mais conseqüente e mais repugnante [45]. Se o marxismo nega “o valor da pessoa”, o movimento nazista “deve promover, por todos os meios, o respeito da pessoa, não deve nunca esquecer que nos valores pessoais reside o valor de tudo que é humano e que cada ação é o produto da força criativa de um homem singular”. [46]

Naturalmente, é fácil ler no nazismo até apelos à unidade em coro na luta contra o inimigo, mas este é um motivo que, por razões óbvias, torna-se um recurso, de tempos em tempos, da ideologia da guerra de todos os países empenhados na segunda Guerra dos 30 Anos [i]. Certo, seria necessário perguntar-se através de que processos a celebração do “indivíduo”, da “personalidade” e do “singular” se transforma, de modo consciente ou sub-reptício, na celebração da cultura e dos povos realmente em posição de colher esses valores, com a conseqüente hierarquização dos povos e a condenação das “raças” consideradas, intrínseca e irremediavelmente, coletivistas [47]. Mas essa é uma dialética que também se manifesta no âmbito da tradição liberal e que, entretanto, não pode ser descrita através da categoria de organicismo ou de holismo.

Na melhor das hipóteses, querer explicar o totalitarismo com o organicismo ou com o sacrifício da moral sobre o altar da filosofia da história é como explicar a virtude soporífica do ópio reenviando a sua vis dormitiva [j].

Totalitarismo e partido único

Agora, façamos pura abstração da origem cultural do totalitarismo e concentremo-nos em suas características. Essas podem ser descritas como “uma ideologia (de Estado), um partido único, geralmente dirigido por um só indivíduo, uma conduta terrorista, o monopólio dos meios de comunicação, o monopólio da violência e uma economia diretamente governada pelo poder central” [48]. Das duas últimas caraterísticas – admitem os autores desta definição – a primeira certamente remete à natureza do Estado enquanto tal e a segunda podia ser encontrada até na Grã-Bretanha, profundamente marcada naquele momento (1956) pelas nacionalizações e pelas reformas sociais trabalhistas. Convém, então, concentrar-se nas outras características. Será que remeter de forma exclusiva ao totalitarismo é o monopólio dos meios de comunicação? Como deve ser conhecido, no curso da I Guerra Mundial, Wilson criou um Comitê para a Informação Pública que fornecia aos jornais, toda semana, 22 000 colunas de notícias, tratando de tudo que era considerado suscetível de poder vir a favorecer o inimigo. Será então a “conduta terrorista” que define, de forma específica, o totalitarismo? Tem-se a impressão que os dois autores aqui citados ignoram a história dos países que abordam e nos quais vivem. Com base na Espionage Act de 16 de maio de 1918, é possível ser condenado a 20 anos de cárcere por ter exprimido opiniões “de forma desleal, irreverente, vulgar ou abusiva sobre a forma de governo dos Estados Unidos, ou sobre a Constituição dos Estados Unidos, ou sobre as forças militares ou navais dos Estados Unidos, ou sobre sua bandeira [..] ou sobre o uniforme do Exército ou da Marinha dos Estados Unidos”. São notórios historiadores americanos que sublinham que as medidas lançadas no decurso do primeiro conflito mundial visavam “a cancelar até os mínimos traços de oposição”. E, à violência de cima se acresce a violência de baixo, tolerada e encorajada pelas autoridades que se exprime numa impiedosa caça a qualquer um que seja suspeito de escasso fervor patriótico. [49]

No que concerne ao “partido único, geralmente dirigido por um só indivíduo”, assistimos aqui à aproximação e à confusão de dois problemas sensivelmente distintos entre si. Sobre o papel do líder, pode ser interessante fazer um confronto. Ao estourar, em 1950, a guerra na Coréia, Truman não teve nenhuma dificuldade em decidir a intervenção independentemente do Congresso [50], ao passo que Mao foi obrigado a enfrentar e a derrotar a dura oposição que encontrou no âmbito do Bureau Político, no qual, inicialmente, foi posto em minoria [51]. Permanecem afirmando que, contrariamente aos USA, na China vigora o partido único e que essa característica é comum aos regimes totalitários. Além de deter o monopólio da ação política, esse é um partido-Exército e ao mesmo tempo, sobretudo no caso dos comunistas, um partido-Igreja. Será essa a confirmação da validade da teoria do totalitarismo?

Ao contrário, se essa teoria tem por alvo, de forma exclusiva, o comunismo e o nazismo, ela já é refutada por Hayek, que, justamente, faz intervir no confronto também os partidos socialistas. Com efeito, ao denunciar a incapacidade da imprensa de influir sobre as “largas massas” e ao declarar que é necessário saber aprender com as campanhas de agitação lançadas pelo “marxismo”, Hitler faz referência, em primeiro lugar, à “imprensa social-democrata” e aos “agitadores” (oradores e jornalistas) da social-democracia. [52]

Mas por sua vez, Hayek volta a se fixar nas observações empíricas, sem ao menos interrogar-se sobre as razões do fenômeno (o partido-Exército e o partido-Igreja) constatado e criticado por ele. Os partidos socialistas aspiram a romper o monopólio burguês dos meios de comunicação, e para isso promovem a publicação de jornais do partido, a organização de escolas para a formação de quadros etc. É um problema que não se coloca para a burguesia: essa pode contar com o controle do aparelho escolar e da grande imprensa de informação, bem como o apoio, de forma direta ou indiretamente, da Igreja e de outras associações e articulações da sociedade civil. A legislação anti-socialista aprovada por iniciativa de Bismarck impõe ao partido a necessidade de adaptar-se às condições da ilegalidade e faz, por outro lado, emergir a aspiração de romper também o monopólio burguês da violência. Essa é uma dialética que já tinha se desenvolvido no decorrer da Revolução Francesa. A burguesia se esforça para manter o monopólio da violência, impondo cláusulas censitárias até para o alistamento nas Guardas Nacionais e eis que, na vertente oposta, organizam-se partidos que são, também, organizações de luta.

Essa dialética alcança seu auge na Rússia czarista. Ao desenvolver a teoria do partido, Lenin tem em mente o modelo constituído pela social-democracia alemã. Mas sua estrutura centralizada foi, posteriormente, reforçada de modo a poder enfrentar o desafio representado pela autocracia czarista e por um regime policialesco de mil olhos e nenhum escrúpulo. Entende-se, então, que o partido bolchevique se revele mais de qualquer outro à altura do estado de exceção permanente que, a partir da I Guerra Mundial, caracteriza a Rússia e a Europa; a tal ponto que se torna um modelo não só para os comunistas mas, também, para seus oponentes. Bukharin observa, no VII Congresso do PCR (b), em abril de 1923:

Os fascistas, mais que qualquer outro partido, apropriaram-se e passaram a pôr em prática a experiência da revolução russa. Se os considerarmos do ponto de vista formal, isto é, do ponto de vista da técnica de seus procedimentos políticos, verificase uma perfeita aplicação da tática bolchevique e especificamente do bolchevismo russo: no sentido de uma rápida concentração de forças e de uma ação enérgica por parte de uma organização militar unida e compacta. [53]

A contiguidade, que, em Hayek, é sinônimo de vizinhança ideológica e política, é aqui sinônimo de antagonismo. Às tentativas dos partidos operários de romper o monopólio burguês da violência, a burguesia responde rompendo o monopólio socialista e comunista dos partidos de luta: essa é a leitura de Bukharin.

De resto, a seqüência temporal fixada por Hayek é esquemática e aproximativa. Em situações diversas, são os socialistas que devem aprender com seus oponentes. Na Itália, enquanto as organizações sindicais e políticas das classes populares são sistematicamente destruídas pelo assalto fascista (estamos às vésperas da marcha sobre Roma, isto é, do golpe de Estado monárquico-mussoliniano), na tentativa de organizar uma defesa, Guido Pacelli (naquele momento, socialista) prega a necessidade de romper com a tradição legalista:

Hoje, há novos métodos. Frente à força armada há a força armada. Donde a necessidade da formação na Itália “do exército vermelho proletário”. Ademais, os fatos demonstraram, claramente, e poucos de nós sustentamos isso desde o início, que o fascismo deve ser abatido no terreno da violência sobre o qual ele foi o primeiro a se instalar. A resignação cristã aconselhada pelos mestres do método reformista fez com que o inimigo se encorajasse e conduziu ao esfacelamento de nossas organizações [..] O proletariado dispõe de um novo órgão de defesa e de batalha: “O seu exército”. Nossas forças devem enquadrar-se e disciplinar-se voluntariamente. O operário deve transformar-se em soldado, soldado proletário, mas “soldado” [..] A burguesia, para nos atacar, não criou um partido que teria sido insuficiente, mas um organismo armado, o seu exército: o fascismo. Nós devemos fazer outro tanto. [54]

Sobretudo, é arbitrário o ponto de partida indicado por Hayek. Pode-se, tranquilamente, proceder da frente para trás em relação ao ponto de partida indicado por ele (a formação dos partidos socialistas). Mais uma vez, estamos em presença de uma dialética que já se manifesta no decurso da Revolução Francesa: se as seções populares jacobinas são a resposta ao monopólio de burgueses e demais proprietários sobre a Guarda Nacional, a jeunesse dorée [k] é a réplica dos burgueses e demais proprietários ao monopólio popular do partido organizado para a luta. Desse confronto, a classe dominante que professa o liberalismo está ausente só em aparência: as organizações proto-fascistas que se constituem na França no início do século XX funcionam como “polícia auxiliar” do poder e da classe dominante. [55]

Uma dialética análoga também se desenvolve no que diz respeito ao sindicato. Obviamente, os capitalistas – como já o notava Adam Smith – não têm necessidade deles [56]; entretanto, aos sindicatos inspirados do marxismo ou aos movimentos de oposição mais ou menos radical opõem-se sindicatos inspirados da Igreja e, mais tarde, outros ainda inspirados do movimento fascista e nazista; enfim, vêm à luz os “sindicatos” do capital.

Aproximando e assimilando dois “fatos” (a insistência no partido-Exército e no partido-Igreja por parte dos socialistas e comunistas, de um lado, e por parte dos fascistas e nazistas do outro), a leitura de Hayek se revela afetada por uma superstição positivista. Mas é nessa superstição que se fundamenta, em última análise, a teoria corrente do totalitarismo. Com a mesma lógica de Hayek, poder-se-ia aproximar Roosevelt de Hitler: partilham entre si o “fato” do recurso aos blindados, aos aviões e navios de guerra!

Por outro lado, ao forjar seus instrumentos de luta, Hitler não se limita a mirar em direção aos partidos socialistas e comunistas. Ao afirmar a incapacidade dos partidos burgueses tradicionais de influir nas classes populares, o autor de Mein Kampf propõe-se a tirar lições, não só da social-democracia, mas também da Igreja católica da qual, apesar de tudo, aprecia a influência sobre as largas massas e a conhecida capacidade de recrutar quadros até nos extratos populares mais modestos [57]. Sobretudo, é uma ordem religiosa que suscita a admiração de Hitler: “Foi com Himmler que a SS tornou-se essa milícia extraordinária, devotada a uma ideia, fiel até a morte. Em Himmler, vejo o nosso Inácio de Loyola” [58]. Já designada e celebrada por De Maistre como a única organização apta a fazer frente à maçonaria revolucionária [59], sucessivamente assumida como modelo por Rhodes para a realização de sua ideia imperialista de “domínio baseado no segredo” – é Arendt que o nota [60] – a ordem dos jesuítas passa, enfim, a ser interpretada como a organização de quadros capazes, disciplinados e devotados à causa, dos quais necessita a guerra civil contra-revolucionária do século XIX. Deveríamos então aproximar e assimilar as lojas maçônicas, Societas Jesus e Schutz Staffeln [l]?

Estado racial e eugenia: Os EUA e o Terceiro Reich

Seria bastante pobre uma definição do Terceiro Reich que se limitasse a pôr em evidência seu caráter totalitário, remetendo em particular ao fenômeno da ditadura do partido único. Enquanto líderes de uma ditadura com partido único, não é difícil relacionar juntos Hitler e Stalin, Mao, Deng, Ho Chi Minh, Nasser, Ataturk, Tito, Franco etc., mas esse exercício escolástico está bem aquém de uma análise histórica. Mesmo se houver a preocupação de distinguir os “totalitários”, Stalin e Hitler, do “autoritário” Mussolini, cujo poder é limitado pela presença do Vaticano e da Igreja, não se terá trilhado um caminho muito maior. Nesse caso, mais do que um percurso real, assistiríamos a um deslizamento: da ideologia teríamos passado, inadvertidamente, a um âmbito completamente distinto, a uma realidade, dados e fatos independentes e preexistentes em relação às escolhas ideológicas e políticas do fascismo.

No que concerne ao Terceiro Reich, é bem difícil dizer alguma coisa determinada e concreta a seu respeito sem referir-se a seus programas raciais e eugenísticos. E estes nos conduzem a uma direção muito diferente daquela sugerida pela categoria de totalitarismo. Logo após a conquista do poder, Hitler se preocupa em distinguir nitidamente, inclusive no plano jurídico, as posições dos arianos em relação aos judeus bem como aos dos poucos mulatos que viviam na Alemanha (ao final da I Guerra Mundial, tropas de cor que participavam do Exército francês tinham tomado parte da ocupação do país). Assim, fica claro que o elemento central do programa nazista era a construção de um Estado racial. Bem, quais eram naquele momento os modelos possíveis de Estado racial? Mais ainda do que a África do Sul, o pensamento corre, em primeiro lugar, ao Sul dos EUA. Ademais, de forma explícita já em 1937, Rosenberg decerto se refere à África do Sul: é bom que permaneça solidamente “em mãos nórdicas” e brancas (graças a oportunas “leis” que distinguem, além dos “indianos”, os “negros, mulatos e judeus”), e que constitua um “bastião sólido” contra o perigo representado pelo “despertar negro”. Mas o ponto de referência principal é constituído pelos Estados Unidos, esse “esplêndido país do futuro” que teve o mérito de formular a feliz “nova ideia de um Estado racial”, ideia que então se tratava de pôr em prática, “com força juvenil”, mediante expulsão e deportação de “negros e amarelos” [61]. Basta dar uma olhada à legislação de Nuremberg para se dar conta da analogia com a situação que reinava do outro lado do Atlântico: obviamente, na Alemanha eram, primeiro, os judeus de origem alemã que ocupavam o lugar dos afro-americanos. “A questão negra” – escrevia Rosenberg em 1937 – “está, nos EUA, no vértice de todas as questões decisivas”; e uma vez que o absurdo princípio de igualdade seja cancelado para os negros, não se vê por que não se devam tirar “as conseqüências necessárias para os amarelos e os judeus” [62]. Por conseguinte, no que diz respeito ao projeto bastante caro para ele de um império continental alemão, Hitler tinha bem presente o modelo dos EUA, dos quais celebra “a inaudita força interior” [63]: a Alemanha era chamada a seguir esse exemplo, expandindo-se pela Europa Oriental como se fosse uma espécie de Faroeste e tratando os “indígenas” à mesma maneira dos peles-vermelhas. [64]

Às mesmas conclusões chegaríamos se fixássemos o olhar na eugenia. É hoje conhecido o débito que a Alemanha contraiu em relação aos EUA, onde a nova “ciência”, inventada na segunda metade do século XIX por Francis Galton (um primo de Darwin), conhece ampla fortuna. Bem antes do advento de Hitler ao poder, às vésperas do desencadeamento da I Guerra Mundial, vem à luz, em Mônaco, um livro que, já em seu título, aponta os Estados Unidos como modelo de “higiene racial”. Seu autor, vice-cônsul do Império Austro-húngaro em Chicago, celebra os EUA pela “lucidez” e pela “pura razão prática” das quais dão prova ao enfrentar, com a devida energia, um problema tão importante e, também, tão freqüentemente relegado a segundo plano: violar as leis que vetam as relações sexuais e matrimoniais mistas pode comportar até 10 anos de reclusão e, em caso de condenação, atingir não só os protagonistas mas igualmente seus cúmplices [65]. Mesmo após a conquista do poder pelo nazismo, os ideólogos e “cientistas” da raça continuam a martelar: “Também a Alemanha tem muito que aprender com as medidas dos norte-americanos: estes sabem o que fazem” [66]. Vale acrescentar que não estamos diante de uma relação de mão única. Com o advento de Hitler ao poder, são os mais radicais seguidores do movimento eugenista americano que erigem o Terceiro Reich em modelo, visitando-o não poucas vezes em viagens de estudo ou de peregrinação ideológica. [67]

Uma questão se impõe: por que, para definir o regime nazista, o recurso à ditadura do partido único deveria ser mais caracterizante do que a ideologia e a prática racista e eugênica? É exatamente desta fonte que derivam as categorias centrais e as palavras-chave do discurso nazista, como vimos a propósito da Rassenygiene, que no fundo é a tradução alemã de eugenics, a nova ciência inventada na Inglaterra e triunfante do outro lado do Atlântico. Mas há exemplos ainda mais clamorosos. Rosenberg manifesta sua admiração pelo autor americano Lothrop Stoddard, a quem pertence o mérito de ter sido o primeiro a cunhar a expressão Untermensch, que já em 1925 se exibe como subtítulo da tradução alemã de um livro publicado em Nova Iorque três anos antes [68]. No que concerne ao significado do termo que ele tinha cunhado, Stoddard esclarece que ele indica a massa dos “selvagens e semi-selvagens”, no interior ou no interior das metrópoles capitalistas, de qualquer modo “inaptos à civilização e inimigos incorrigíveis dela”, com os quais é preciso proceder a um acerto de contas [69]. Nos EUA como no mundo inteiro, é necessário defender a “supremacia branca” contra a “maré montante dos povos de cor”, excitados pelo bolchevismo, “o renegado, o traidor no interior de nosso campo”, o qual, com sua insidiosa propaganda, atinge não somente as colônias, mas as próprias regiões negras dos Estados Unidos” [70]. Bem se compreende a extraordinária fortuna destas teses. O autor americano, que, antes mesmo de receber os elogios de Rosenberg, já os tinha recebido de dois presidentes estadunidenses (Harding e Hoover), foi seguidamente acolhido em Berlim com todas as honras. Lá encontrou-se não somente com os mais ilustres expoentes da eugenia nazista, mas também com a cúpula do regime, inclusive com Adolf Hitler [71], desde então lançado em sua campanha para dizimar e submeter os Untermenschen.

Convém também concentrar a atenção em outro termo. Vimos que Hitler encarava como um modelo a expansão branca no Faroeste. Logo depois de tê-la invadido, Hitler procedeu ao desmembramento da Polônia. Uma parte, da qual os polacos foram expulsos, foi diretamente incorporada ao Grande Reich; o resto constituiu a “Governadoria Geral”, em cujo âmbito, como declarou o governador geral, os polacos vivem numa “espécie de reserva”, submetidos à jurisdição alemã sem serem cidadãos alemães [72]. O modelo americano é aplicado de modo quase escolar.

Ao menos em sua fase inicial, o Terceiro Reich propõe-se instituir também uma Judensreservat, uma “reserva para os judeus”, também semelhante às que serviram para confinar os peles-vermelhas. Até mesmo no concernente à expressão “solução final”, vêmo-la emergir primeiro nos USA, referida à “questão negra” antes que à “questão judaica” e, só depois, na Alemanha. [73]

Assim como não é espantoso que o “totalitarismo” tenha encontrado sua expressão mais concentrada nos países de posição central na Segunda Guerra dos 30 Anos, tampouco surpreende que a tentativa nazista de construir um Estado racial tenha extraído motivos de inspiração, categorias e palavras-chave da experiência histórica mais rica que, sobre este assunto, tinha diante de si, aquela acumulada pelos brancos norte-americanos em suas relações com os peles-vermelhas e o negros. Obviamente, não devemos perder de vista todas as outras diferenças, no que diz respeito ao governo das leis, à limitação do poder estatal (relativamente à comunidade branca) etc. Resta o fato de que o Terceiro Reich se apresenta como a tentativa, levada a efeito nas condições da guerra total e da guerra civil internacional, de realizar um regime de white supremacy em escala planetária e sob hegemonia alemã, recorrendo a medidas eugenéticas, político-sociais e militares.

O coração do nazismo é constituído pela ideia de Herrenvolk, que remete à teoria e à prática racista do sul dos Estados Unidos e, mais geralmente, à tradição colonial do Ocidente; esta ideia é o alvo principal da Revolução de Outubro, que não por acaso conclama os “escravos das colônias” a romper suas cadeias. A teoria corrente do totalitarismo concentra a atenção exclusivamente sobre a semelhança dos métodos atribuídos aos dois antagonistas, fazendo-os até descender de uma pretensa afinidade ideológica, sem fazer nenhuma referência à situação objetiva e ao contexto geopolítico.
Por uma redefinição da categoria de totalitarismo

O defeito fundamental da categoria de totalitarismo é transformar uma descrição empírica, relativa a certas categorias determinadas, numa dedução lógica de caráter geral. Não há dificuldades em constatar as analogias entre URSS staliniana e Alemanha nazista; a partir delas, é possível construir uma categoria geral (totalitarismo) e sublinhar a presença nos dois países do fenômeno assim definido; mas transformar esta categoria na chave de explicação dos processos políticos verificados nos dois países é um salto assustador. Sua arbitrariedade deveria ser evidente, por duas razões fundamentais. Já vimos a primeira: de modo sub-reptício as analogias que subsistem entre URSS e Terceiro Reich quanto à ditadura do partido único são consideradas decisivas, ao passo que são ignoradas e removidas as analogias no plano da política eugênica e racial, que permitiriam instituir conexões bem diferentes.

Quanto à segunda razão, mesmo se concentrarmos a atenção sobre a ditadura do partido único nos dois países geralmente postos em confronto, por que remeter à afinidade de suas ideologias antes que à semelhança das situações políticas (o estado de exceção permanente) ou ao contexto geopolítico (a particular vulnerabilidade) que os dois países tinham de enfrentar? Parece-me evidente, em vez disso, que como fundamento do fenômeno totalitário, juntamente com as ideologias e as tradições políticas, age poderosamente a situação objetiva.

A tal respeito pode ser instrutiva uma reflexão sobre a origem do termo “totalitarismo”. Dois anos após a explosão da Revolução de Outubro, quando ainda perduram os ecos do primeiro conflito mundial, eis que emerge a crítica do “totalismo revolucionário” (revolutionärer Totalismus) [74]. O uso do adjetivo parece supor que haveria um “totalismo” distinto daquele caracterizado como revolucionário. Enquanto indica diretamente uma species (o “totalismo revolucionário”), o genus (totalismo) remete, ainda que de modo indireto, a uma species distinta, a do totalismo bélico. Com efeito, este substantivo, que era utilizado naquele momento (antes, pois, de ser substituído por totalitarismo) tinha imediatamente a seu lado um adjetivo que, a partir de 1914, começa a ressoar de modo obsessivo. Fala-se de “mobilização total” e, alguns anos depois, de “guerra total” e até mesmo de “política total” [75]. A “política total” é a política adequada à “guerra total”. Mas não é esse também o significado real que convém atribuir à categoria de “totalitarismo”? Tanto Mussolini quanto Hitler declaram explicitamente que os movimentos e regimes por eles dirigidos são filhos da guerra e à guerra também remetem inevitavelmente a revolução que contra ela se desencadeou e o regime político que dela se originou.

Sendo assim, pôr lado a lado União Soviética e Alemanha hitleriana, enquanto expressões eminentes do totalitarismo, é, enfim, uma banalidade: onde o regime correspondente à guerra total deveria evidenciar sua característica de fundo senão nos dois países situados no centro da Segunda Guerra de 30 Anos? Não é nada espantoso que o universo concentracionário tenha assumido nestes países uma configuração nitidamente mais brutal do que, por exemplo, nos Estados Unidos, protegidos pelo oceano do perigo de invasões e que, durante o gigantesco confronto, sofreram perdas e devastações largamente inferiores àquelas sofridas pelos principais contendores. Cerca de um século e meio antes, às vésperas da mudança da constituição federal, Hamilton tinha explicado que a limitação dos poderes e a instauração do governo das leis tinham tido sucesso em dois países de tipo insular, protegidos pelo mar das ameaças das potências rivais. Em caso de falência do projeto de União e de formação, sobre suas ruínas, de um sistema de Estados análogo ao existente no continente europeu, advertiu o estadista americano, também teriam surgido na América os fenômenos do exército permanente, de um forte poder central e, enfim, do absolutismo. No século XX, ainda que continue a ser um elemento de proteção, a posição insular não mais é um obstáculo insuperável: na seqüência da guerra total com as grandes potências europeias e asiáticas, o totalitarismo irrompe também nos Estados Unidos, como o demonstra a legislação terrorista visando a quebrar qualquer oposição e, de modo particularmente clamoroso, o surgimento da instituição mais típica do totalitarismo, a saber, o campo de concentração.

Pode-se dizer que, relativamente à União Soviética e ao Terceiro Reich, os campos de concentração na França e nos Estados Unidos assumiram uma configuração mais branda (mas seria superficial e irresponsável sugerir uma banalização); mas permanece o fato de que, para tornar-se adequada, uma teoria deve estar em condição de explicar o surgimento desta instituição em todos os quatro países, incluídos aqueles que gozavam de um ordenamento liberal, e deve esclarecer em que medida as diferenças remetem à diversidade das ideologias ou à diversidade das situações objetivas e do contexto geopolítico. E uma teoria realmente adequada deve, além disso, explicar os campos de concentração nos quais o Ocidente liberal em seu conjunto enclausurou as populações coloniais (há muitos séculos alvos da guerra total). Assim como, em termos mais gerais, deve explicar o fato por meio do qual, com o desencadeamento da I Guerra Mundial, atribuiu-se ao Estado, também nos países de ordenamento liberal, segundo a observação de Weber, um “poder legítimo sobre a vida, a morte e a liberdade” dos cidadãos. Longe de oferecer uma resposta, a teoria corrente do totalitarismo nem sequer chega a formular o problema.

Contradição performativa e ideologia da guerra na teoria corrente do totalitarismo

Marx lançou a semente do totalitarismo comunista que nele reivindicou inspirar-se: uma tese que está presente em Arendt a partir da guerra fria e que, desde então, é parte integrante da teoria corrente do totalitarismo. Mas, para parafrasear uma célebre frase de Weber a propósito do materialismo histórico, também a tese da não-inocência da teoria não é um táxi no qual se possa entrar e do qual se possa descer a gosto do freguês. Assim, pois: que papel desempenharam a teoria costumeira do totalitarismo e a palavra de ordem de luta contra o totalitarismo no massacre que, na Indonésia de 1965, custou a vida de centenas de milhares de comunistas? No que concerne à história contemporânea da América Latina, suas páginas mais sombrias não remetem ao “totalitarismo”, mas à luta contra ele. Para dar um só exemplo, há alguns anos, na Guatemala, a “comissão para a verdade” acusou a CIA de ter fortemente ajudado a ditadura militar a cometer “atos de genocídio” contra os maias, culpados de ter simpatizado com os opositores ao regime caro a Washington. [76]

Em outras palavras: com seus silêncios e suas obliterações, a teoria costumeira do totalitarismo não terá se transformado ela própria numa ideologia da guerra, e da guerra total, contribuindo a alimentar ulteriormente os horrores que pretende, no entanto, denunciar e caindo assim numa trágica contradição performativa?

Em nossos dias chovem as denúncias, com o olhar voltado para o Islã, de “totalitarismo religioso” [77] ou então do “novo inimigo totalitário que é o terrorismo” [78]. Irrompe com renovada vitalidade a linguagem da guerra fria. Confirma-o a advertência dirigida por um eminente senador americano (Joseph Lieberman) à Arábia Saudita: ela deve ficar bem atenta para rejeitar a sedução do totalitarismo islâmico e para não se deixar isolar do Ocidente por uma “cortina de ferro teológica” [79]. Se o alvo polêmico foi assim mudado, a denúncia do totalitarismo continua a funcionar eminentemente como ideologia da guerra contra os inimigos do Ocidente. E em nome desta ideologia são justificadas as violações da Convenção de Genebra e o tratamento desumano reservado aos detentos na baía de Guantanamo, o embargo e a punição coletiva impostos ao povo iraquiano [m] e a outros povos, bem como o ulterior martírio infligido ao povo palestino. A luta contra o totalitarismo serve para legitimar e transfigurar a guerra total contra os “bárbaros” estrangeiros ao Ocidente.

Notas:

1 In Pombeni 1977, pp. 324–5. Italics are mine.
2 Horkheimer and Adorno 2002, pp. 43, 67–8. 
3 Weil 1990, pp. 218–19. 
4 Weil 1990, pp. 204, 206.
5 Talmon 1960, p. 4. 
6 Hayek 1986, pp. 8–9. 
7 Hayek 1986, p. 85. 
8 Hayek 1960, p. 55. 
9 Hayek 1986, Ch. VII.
10 Wittfogel 1959. 
11 Popper 1966, Vol. 1, p. 1. 
12 In Ruge-Schumann 1977, p. 82. 
13 Goebbels 1991, Vol. 2, pp. 163, 183.
14 Scarfoglio 1999, p. 22. 
15 Arendt 1989, p. 87. 
16 In Commager 1963, Vol. 2, p. 525. 
17 See Mao’s argument against the American Secretary of State, Dean Acheson (the speech is dated 28 August 1949).
18 Mann 1951. 
19 Arendt 1958, pp. 176, 160
20 Arendt 1958, pp. 176, 183. 
21 Arendt 1958, pp. 131, 133–4, 216. 
22 Arendt 1958, pp. 211, 212, 213. 
23 Young-Bruehl 1984, p. 158. 
24 Arendt, 1989, p. 193.
25 Arendt 1978c, p. 149. 
26 Arendt 1978a, p. 110.
27 Gleason 1995, pp. 112–3, 257, note 30. 
28 Arendt 1978b, p. 59.
29 In Hofstadter 1982, Vol. II, p. 439. 
30 Arendt 1958, pp. 308–9. 
31 Arendt 1958, p. 311.
32 In Hofstadter 1982, Vol. II, p. 428. 
33 Arendt 1958, pp. 318–9. 
34 Arendt 1958, p. 319.
35 Mann 1991, pp. 232–3.
36 Arendt 1963, pp. 58–9.
37 Mann 1951.
38 See Chang 1997; Katsuichi 1999; Hicks 1995. 
39 For the general overview of the twentieth century, see Losurdo 1996, and 1998.
40 Nolte 1978, p. 351. 
41 Mosse 1964, passim. 
42 For the analysis of Gobineau, Langbehn, Chamberlain, and Le Bon, see Losurdo 2002, Chapter 25, § 1.
43 Hitler 1971, pp. 382–3. 
44 Hitler 1971, p. 345. 
45 Hitler 1971, p. 421. 
46 Hitler 1971, p. 442. 
47 Hitler 1971, pp. 443–5 and passim. 
48 Hitler 1971, pp. 65, 352. 
49 See Losurdo 2002, Ch. 33, § 2.
50 Friedrich-Brzezinski 1968, p. 21. 
51 See Losurdo 1993, Chapter 5, § 4. 
52 Chace 1998, p. 288.
53 Chen 1994, pp. 181–6. 
54 Hitler, 1971, pp. 528–9.
55 In Strada-Kulesov 1998, p. 53.
56 In Del Carria 1970, Vol. 2, p. 224. 
57 Nolte 1978, pp. 119, 146–8. 
58 Smith 1981, p. 67 (Book I, Chapter VII). 
59 Hitler 1971, pp. 481–2.
60 Hitler 1952–4, Vol. I, p. 164. 
61 Maistre 1984, p. 205. 
62 Arendt 1958, p. 214.
63 Rosenberg 1937, pp. 666, 673. 
64 Rosenberg 1937, pp. 668–9. 
65 Hitler 1971, pp. 153–4. 
66 See Losurdo 1996, Chapter 5, p. 6.
67 Hoffmann 1913, pp. ix, 67–8. 
68 Günther 1934, p. 465. 
69 See Kühl 1994, pp. 53–63. 
70 Rosenberg 1937, p. 214. 
71 Stoddard 1925a, pp. 23–4.
72 Stoddard 1925b, pp. 220–1. 
73 On all of this, see Kühl 1994, p. 61. President Harding’s flattering comment is quoted at the beginning of the French translation of Stoddard 1925b. 
74 In Ruge-Schumann 1977, p. 36. 
75 See Losurdo 1998, pp. 8–10.
76 Paquet 1919, p. 111. Nolte 1987, p. 563 has drawn attention to this. 
77 Ludendorff 1935, p. 35 and passim. Clearly, the motif of total mobilisation is particularly tied to Ernst Jünger.
78 Navarro 1999.
79 Friedman 2001. 
80 Spinelli 2001. 
81 In Dao 2002, p. 4.

Referências: 

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