30 de maio de 1974

Calvino fabuloso

Gore Vidal

The New York Review of Books


The Path to the Nest of Spiders
by Italo Calvino, translated by Archibald Colquhoun
Beacon

The Baron in the Trees
by Italo Calvino, translated by Archibald Colquhoun
Random House

The Nonexistent Knight and the Cloven Viscount
by Italo Calvino, translated by Archibald Colquhoun
Random House

Cosmicomics
by Italo Calvino, translated by William Weaver
Harcourt, Brace and World

t zero
by Italo Calvino, translated by William Weaver
Harcourt, Brace and World (published in England as Time and the Hunter)

The Watcher and Other Stories
by Italo Calvino, translated by William Weaver, Archibald Colquhoun, and Peggy Wright
Harcourt Brace Jovanovich

Invisible Cities
by Italo Calvino, translated by William Weaver
Harcourt Brace Jovanovich

Tradução / Entre o final da Segunda Guerra, em 1945, e o início da Guerra da Coréia, em 1950, houve uma explosão de atividade criativa por todo o império norte-americano, bem como nos Estados clientes da Europa Ocidental. De A Era da Ansiedade [Age of Anxiety] de Auden a Reflexos em um Olho Dourado [Reflections in a Golden Eye], de Carson McCullers; de O Céu que nos Protege [The Sheltering Sky], de Paul Bowles, a Um Bonde Chamado Desejo [A Streetcar Named Desire], de Tennessee Williams; dos balés de Tudor aos ardorosos arrebatamentos de Bernstein, foi um período empolgante e excitante. Os ventos da Guerra Fria ainda eram só uma brisinha gelada, e o então jovem senador de Wisconsin era apenas mais um político genial com uma quedinha por bebida e um olho gordo para rapazes. Naquela época feliz, um jovem escritor norte-americano podia zanzar, triunfante, pelas velhas cidades europeias – as taxas de câmbio eram inteiramente favoráveis.

Nesta primavera, completam-se vinte e seis anos desde que desembarquei em Roma. Primeiras impressões: forsítia amarelo-ácido no Monte Gianicolo. Glicínia violeta no Fórum. Nacos de carne de cabra no prato da trattoria. Samuel Barber na Academia Americana, falando em italiano impecável. Harold Acton deplorando, com extrema polidez, nossa presença bárbara na Europa dele. Frederic Prokosch no café Doney’s, comendo bolos. Ruas sem carros. Se lá existisse tráfego de qualquer espécie, Tennessee Williams já devia estar havia muito tempo morto e enterrado no Cemitério Protestante, porque, apesar de gabar-se de ser “praticamente cego de um olho”, o que alardeava com orgulho, dirigia um jipe, furando sinais vermelhos e tratando ruas e calçadas como se fossem uma coisa só.

Visitei George Santayana em sua cela-quarto de hospital no Convento das Freiras Azuis. Ele estava vestindo um robe, a gola à Lord Byron aberta no pescoço mirrado, e um colete cor-de-malva desbotado. O homem era genial, a ponto de transformar a própria surdez em virtude: “Eu falo. Você só escuta”. Um sorriso maroto; olhos pretos brilhantes – ele parecia exatamente igual à minha avó, tivesse ela, dramaticamente, ficado careca.

“Você conhece meu jovem e novo amigo, Robert Lowell?” Respondi que não. “A vida dele vai ser difícil. Ser um Lowell. De Boston. Convertido ao Catolicismo”. Os olhos pretos dele brilharam com adorável malícia. “E é poeta, também! Minha nossa! Agora, me diga uma coisa, quem é esse tal de Sr. Edmund Wilson? Ele veio aqui me ver. Acho que ele deve ser muito importante. Na verdade, creio que ele disse ser muito importante”. “Você me mandou um livro”, Santayana comentou. Respondi que não tinha mandado livro algum. Ele insistiu: “Mandou, sim”, e aí ficou bastante irritado. Tentei explicar a ele que não envio livros. Mas depois me lembrei que, na ocasião em que fomos resgatados pelo exército dos Estados Unidos – “e como ficamos alegres de ver você!” – uma olhadela carinhosa para mim – (ainda havia quem usasse uniforme cáqui e o cinturão puído do Exército) –, “um major, um sujeito bastante forte e impetuoso, veio me ver, carregado de livros meus. Ele se pôs de pé à minha frente e me obrigou a autografar todos... este para fulano, este outro para beltrano. Fiquei apavorado e fiz o que ele me pediu. Talvez um daqueles livros tenha sido para o Sr. Wilson”.

Na cela de Santayana os únicos livros existentes eram os seus próprios – além de uma série de volumes da História de Toynbee, publicada havia pouco, e que estava lendo à sua maneira característica, ou seja, primeiro quebrava (ou descolava) a lombada do livro e separava as seções; então, à medida que ia acabando de ler os capítulos, ia jogando no cesto de lixo. “Parece uma espécie de pregador, creio”, afirmou a respeito de Toynbee. “Mas as notas de rodapé não são de todo irrelevantes”.

Santayana autografou para mim um exemplar de The Middle Span; antes de seu nome, escreveu “de”. “Quase nunca faço isso”, me disse. Um olhar de apreciação. “Você aparenta ser mais jovem do que é de fato, porque sua cabeça é um tanto quanto pequena em relação ao seu corpo”. Isso foi em 1948, quando os conquistadores norte-americanos viviam em Roma e Paris, flanando pelas ruas ainda vazias de automóveis e dos bilhões de seres humanos que desde então se juntaram a nós.

Naquele tempo longínquo, as pessoas se encontravam e conversavam sobre romances e romancistas, do mesmo jeito que agora falam sobre filmes e diretores de cinema. Os jovens de hoje em dia pensam que estou exagerando. Mas, de fato, naquela época os romancistas eram realmente importantes, e o romance italiano, em particular, florescia a olhos vistos, numa espécie de apogeu. Em contrapartida, os escritores norte-americanos em Roma e Paris não recebiam o mesmo entusiasmo. Em primeiro lugar, porque os italianos estavam apenas engatinhando na leitura de Dos Passos e Steinbeck – a geração que permanecera sem tradução durante a era fascista. No mais, naquele tempo (e hoje também) poucos autores italianos falavam ou liam em inglês com facilidade, enquanto que por sua vez os escritores norte-americanos (ainda que atualmente isso não ocorra com tanta freqüência) orgulhosamente se limitavam a falar somente inglês.

Lembro-me do dia em que, em 1948, caiu-me às mãos um livro de Italo Calvino. “Um Calvino italiano”, repeti para mim mesmo, fixando para sempre na memória aquele nome. À-toa, fiquei imaginando e me perguntando que tipo de livro e sobre que assunto um homem chamado Calvino poderia escrever. Passei os olhos pelo primeiro romance dele, A trilha dos ninhos de aranha. Alguma coisa a ver com os partigiani na Ligúria. Um colega romancista de guerra. “Não”, pensei, e deixei para lá, pondo o livro de lado. Apenas notei que o autor era dois anos mais velho que eu, trabalhava na Editora Einaudi e vivia em Turim.

Ano passado li Calvino de cabo a rabo, começando pelo mesmo livro que, em 1978, merecera de mim apenas uma rápida folheada. Traduzido para o inglês como The Path to the Nest of Spiders, o primeiro romance de Calvino é exuberante, e traz uma história contada de modo franco e direto. Ainda que a escrita seja convencional, há uma estranha intensidade na maneira com que Calvino vê as coisas, uma precisão de escrutínio e uma minúcia de exame muito próximas ao estilo de William Golding. Assim como Golding, Calvino sabe como e quando preencher inteiramente, fazendo uso pleno de todos os sentidos, paisagem, estado de espírito, ato. No romance The Spire, o retrato que Golding pinta da malfadada igreja é tão real que o leitor sente o cheiro da argamassa, vê as nuvens de poeira, teme pelas pedras fora do lugar. Calvino faz o mesmo ao narrar a história de Pin, menino que vive no litoral da Ligúria, perto de San Remo (embora tenha crescido em San Remo, Calvino nasceu em Cuba, detalhe biográfico a que absolutamente nenhuma editora norte-americana de seus livros faz menção, sem dúvida em deferência à nossa recente e malograda tentativa de conquistar aquela desafortunada ilha).

Pin mora com a irmã, que é prostituta. Passa os dias numa taberna de má-fama, onde diverte com canções, insulta e provoca os adultos, raça de monstros no que lhe diz respeito e até onde ele saiba, mas é que não tem outra companhia, pois “é um menino que não sabe brincar, e que não consegue tomar parte das brincadeiras nem dos garotos nem dos adultos”. Pin sonha, contudo, em encontrar “um amigo, um verdadeiro amigo, que o compreenda e que ele possa compreender, e então, só para ele, Pin mostrará o lugar das tocas das aranhas”:

É um atalho pedregoso que desce para a torrente entre duas paredes de terra e grama. Ali, em meio à grama, as aranhas fazem suas tocas, uns túneis forrados de cimento de grama seca; mas o mais maravilhoso é que as tocas têm uma portinha, também feita daquela massa seca de grama, uma portinha redonda que pode ser aberta e fechada.

É este tipo de observação precisa, quase científica, que distancia Calvino da qualidade sentimentalista que prevalecia na década de 1940, período em que mães negras ensinavam a seus sábios filhos lições de compaixão, ao mesmo tempo em que fritavam miúdos de porco e Jesus em partes iguais ao sul da linha Mason-Dixon.

Pin junta-se aos guerrilheiros nas colinas acima da costa da Ligúria. Desconfio que Calvino esteja sonhando isso tudo, porque escreve feito um rato de biblioteca livresco e míope usando as lentes erradas: objetos absolutamente próximos são descritos de maneira vívida, mas as distâncias intermediárias e mais afastadas da guerra e da paisagem tendem ao borrão indistinto. O que, entretanto, não faz a menor diferença, pois os sonhos de um jovem míope dando os primeiros passos na carreira literária podem muito bem ser mais reais ao leitor do que as robustas e tumultuosas reportagens de alguns jornalistas-romancistas que, a despeito de sua presença efetiva e ostensiva lá, vendo tudo, nada viram.

Embora Calvino consiga fazer-se evidente na pele da criança ultrajada e ultrajante, insultada e insultuosa, ofendida e ofensiva, provocada e provocadora, os homens e mulheres que cria são quase sempre sombrios. Mais tarde, ao longo da carreira, Calvino acabará eliminando tanto homens quanto mulheres, à medida que vai recriando o cosmos. Enquanto isso, de início é um escritor ardente, intenso, expressivo, se não é aqui e ali algo canhestro. Ao longo de dois terços da narrativa ele desloca o ponto de vista de Pin para um par de comissários, personagens que teriam sido mais eficazes tivesse o autor observado ambos pelo lado de fora. Depois, confusamente, mais uma breve mudança de foco narrativo, agora para a mente de um traidor prestes a ser fuzilado. Por fim, a voz narrativa retoma o ponto de vista de Pin, bem na hora em que o garoto encontra o tão aguardado amigo, um jovem guerrilheiro chamado Primo, que o leva pela mão não apenas literalmente, mas, ao que se presume, pelo resto do tempo de que Pin ainda precisa para virar adulto. Os últimos parágrafos de Calvino são sempre exultantes – aquele tipo de coda alegre e agradável que somente um profundo pessimista acerca das coisas humanas poderia escrever. Mas então, assim como um dos companheiros de Pin, Lobo Vermelho, Calvino “pertence àquela geração que se formou olhando os álbuns coloridos de aventuras; só que ele levou tudo a sério, e a vida até agora não o desmentiu”.

Em 1952 Calvino publicou O visconde partido ao meio, um dos três romances curtos depois reunidos sob o título Os Nossos Antepassados. São obras engajadas, escritas num estilo levemente semelhante ao ciclo dos romances arturianos de T. H. White. O narrador de O Visconde Partido ao Meio é, mais uma vez, um menino órfão. Durante uma Guerra entre a Áustria e a Turquia (1716), o tio do garoto, o Visconde Medardo di Terralba, leva uma bala de canhão no peito e tem o corpo rachado ao meio, de cima abaixo, em sentido longitudinal. Salvo pelos médicos ainda no campo de batalha, o mutilado Visconde é mandado de volta para casa, com uma perna, um braço, uma bochecha, um olho, meio nariz, meia boca etc. No caminho, Calvino presta (irônica?) homenagem a Malaparte: “A faixa de planície que atravessavam achava-se de fato cheia de carcaças eqüinas, algumas para cima, com os cascos voltados para o céu, outras de bruços, com o focinho enfiado na terra”. – Bela reprise dos cavalos mortos em A Pele.

A história é contada de modo alegre, divertido, esperto, bem-humorado. O meio Visconde é um completo mau-caráter, um vilão cruel que obtém enorme prazer matando, incendiando, torturando. Chega a atear fogo ao próprio castelo, na esperança de reduzir a cinzas sua velha ama Sebastiana – por fim, manda a criada para uma colônia de leprosos. Tenta envenenar o sobrinho. E nunca cessa de talhar em duas partes, a golpes de espada, todas as criaturas que encontra. Tem obsessão pela idéia da metade, da divisão, da incompletude:

– Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira – disse meu tio, de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo –, que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e só havia a casca. Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa.

Noto que a sinopse da contracapa quer fazer crer que se trata de “uma alegoria do homem moderno – alienado e mutilado; este romance tem profundas implicações e nuances. Como paródia das parábolas cristãs a respeito do Bem e do Mal, a obra é a um só tempo espirituosa, atual e agradável”. Bem, pelo menos o livro é mesmo espirituoso, atual e agradável. A bem da verdade, a história é menos cristã do que uma sátira das idéias de Platão como um todo.

No devido tempo, eis que ressurge na cidade a outra metade do Visconde, esta insuportavelmente bondosa e profundamente chata. A metade boa também renega a inteireza e faz o elogio da não-inteireza, porque “isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletitude. Eu era inteiro e não entendia”. Uma bela e encantadora pastora de cabras chamada Pamela (homenagem a Richardson) torna-se o objeto do amor das duas metades laceradas do Visconde, mas tem sérias reservas em relação a ambas. “Fazer boas ações juntos é a única maneira de nos amarmos”, entoa a metade bondosa. Ao que a irritadiça moça responde, “Pena. Pensei que houvesse outras maneiras”. Quando, por fim, as duas metades são novamente unidas, o Visconde volta a ser um homem inteiro, mas o resultado é a costumeira mistura humana, não muito interessante. Num final feliz, ele se casa com Pamela. Mas o menino-narrador não fica contente. “Em meio a tantos fervores de integridade, eu me sentia cada vez mais triste e carente. Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem”.

O visconde partido ao meio é recheado de imagens naturais derivadas de observação cerrada e minuciosa, como “O subsolo estava tão abarrotado de formigas que era só enfiar a mão em qualquer lugar e sair com ela toda preta e fervilhando”. Não sei o que foi escrito primeiro, O visconde, que é de 1952, ou “A formiga-argentina”, conto incluído em Botteghe Oscure, revista de literatura publicada no mesmo ano, mas o fato é que o pesadelo calviniano de um mundo infestado por formigas, tema mencionado apenas de passagem no romance do visconde dilacerado, vem a ser o mote principal do conto, e desconfio que agora devo repisar naquela palavra quase sempre tão castigada e mal empregada: “obra-prima”. Ou, usando outros termos, se “A formiga-argentina” não é uma obra-prima da prosa do século XX, não sei o que é, pois não consigo pensar em nada melhor. Certamente é tão ameaçador e estranho como qualquer coisa escrita por Kafka. E é também terrivelmente engraçado. Em cerca de quarenta páginas, Calvino nos apresenta “a condição humana”, segundo anotariam, exagerando, todos os escrevinhadores de sinopses, resumos, orelhas e resenhas. Ou seja, a condição humana atual. Ou o dilema do homem moderno. Ou o meio ambiente corrompido. Ou a vingança da natureza. Ou uma alegoria da graça divina. Sei lá, qualquer coisa... Mas, no fim das contas, a história é o que é, nada mais.

A primeira frase de Calvino é bem melhor até do que a primeira sentença de Deus, “No princípio, era o Verbo”. Deus (conforme foi revelado a São João) sempre teve propensão para abstrações nebulosas e confusas, do mesmo tipo dos devaneios estimados e praticados pelos novelistas norte-americanos da categoria peso-pesado – ao contrário de Calvino, que, preciso, leve, simplesmente nos conta o que acontece: “Nós não sabíamos dessa coisa das formigas quando viemos nos estabelecer aqui”. Nada há de absurdo em “aqui” e “nós”. Aqui é um lugar infestado de formigas, e nós é a família nuclear: pai, mãe, filho. Sem nomes.

A família aluga uma casa numa cidadezinha “onde nosso tio Augusto costumava se sentir bem. O tio até que gostava bastante do lugar, embora tivesse dito, ‘Lá, vocês tinham que ver, as formigas... não como aqui, as formigas...’ Mas na época não prestamos muita atenção”. Enquanto mostra a casa para o jovem casal que acabou de alugar a propriedade, a senhora Mauro, a senhoria local, distrai a atenção dos incautos com uma longa dissertação sobre o relógio do gás, evitando que prestem muita atenção às paredes. Quando a mulher vai embora, marido e mulher põem o filhinho para dormir e saem para dar um passeio pelo terreno da casa. Encontram o vizinho espargindo as plantas do jardim com um vaporizador. “É... as formigas... essas formigas...”, ele explica, e ri, “como se não quisesse dar importância”.

O jovem casal volta para casa e encontra tudo assolado por filas cerradas de formigas. As formigas-argentinas. De súbito, ocorre ao marido-narrador que já tinha ouvido falar naquelas formigas e naquele país. “Fica na América do Sul”, informa, professoral, querendo ser útil e benévolo para a furiosa esposa. Por fim, vão dormir pela primeira vez na casa nova, sem “a sensação de alívio por iniciar uma nova vida, mas apenas com o sentimento de que éramos arrastados rumo a um futuro repleto de novas dificuldades”.

O resto da história narra os recursos e estratégias utilizados pelos vários moradores do vale para enfrentar as formigas. Alguns apelam para venenos e inseticidas; outros criam geringonças e dispositivos fantásticos para tentar confundir ou matar os insetos; sabe-se que, havia vinte anos, ostensivamente um representante da Corporação de Controle da Formiga-Argentina espalhava melado pela cidade de modo a controlar (matar) as formigas, o que muitos acreditavam que era feito apenas para alimentar e fortalecer os insetos. O furioso casal faz uma visita a senhora Mauro e exige explicações. Na sala sombria de seu casarão palaciano, a senhoria se mantém firme: não existem formigas em casas que são bem limpas e cuidadas; mas, pela maneira com que ela se contorce na poltrona, fica claro que os insetos estão formigando, picando e passeando por debaixo de suas roupas.

Metodicamente, Calvino descreve as várias reações humanas diante da Condição. Há o Cientista Cristão, que ignora toda e qualquer evidência; há a aceitação maniqueísta do Mal; há a inabalável crença darwiniana de que a superioridade genética vai prevalecer. Mas as formigas revelam-se figuras inquietantes e indestrutíveis, e a história termina com a fuga da família para o litoral, onde não há formigas, e onde

A água estava calma, quase só com uma leve e contínua troca de cores, preto e azul, cada vez mais escuros conforme aumentava a distância. Eu pensava nas vastidões de água como aquela, nos infinitos grãozinhos de areia fina lá no fundo do mar, onde as correntes depositam cascas brancas de conchas polidas pelas ondas.

Não sei ao certo o que significa este final. E também não vejo razão para que tenha que significar alguma coisa. É estabelecido um contraste entre o vale fervilhante de formigas e a fresca serenidade dos minerais e conchas escondidos sob as águas, aquele outro ar que não respiramos mais desde que nossos antepassados escolheram viver na superfície da terra.

Em 1956 Calvino editou um volume de Fábulas Italianas, e os críticos locais decidiriam que ele era um verdadeiro herdeiro dos Grimm. É certo que o mundo encantando e fatal dos contos de fadas atrai Calvino, que volta ao gênero com O barão nas árvores. Assim como nas duas outras partes da trilogia, a história é narrada na primeira pessoa, no caso pelo irmão do barão epônimo. O ano é 1767. O lugar, a Ligúria. O barão do título é Cosimo [Cosme] Piovasco di Rondó, que, depois de uma discussão à mesa do jantar, no dia 15 de Junho, decide ir viver nas árvores. A família e os amigos reagem de maneira diversa à atitude do jovem barão. Mas Cosme está feliz. Mais tarde entra na política, trava relações como o próprio Napoleão em pessoa; torna-se uma lenda.

A essa altura Calvino já desenvolveu dois modos de escrita. Um é literariamente fabuloso-fabular-fabulista. O outro tem por base um estilo seco, didático até, em que o detalhe é observado de maneira absolutamente precisa, como se o autor estivesse escrevendo um manual para a construção de painéis solares. Contudo, as premissas das histórias “secas” são quase sempre tão fantásticas quanto às das fábulas.*

O conto “A nuvem de smog” foi publicado em 1958, muito tempo antes da hoje tão em voga preocupação com a destruição sistemática do meio ambiente. O narrador chega a uma cidade grande para assumir o cargo de redator de um jornal de pequena circulação chamado A Purificação. O dono do periódico, o Comendador Cordà, é engenheiro e um importante industrial, responsável pela produção do tipo de poluição do ar que sua própria publicação gostaria de ver eliminada. A posição de Cordà é ambígua, e o novo editor acaba se encaixando muito bem na função. Predomina no conto a imagem do smog: um finíssimo véu de poeira cinzenta cobre tudo; nada jamais pára limpo. A cidade se parece muito com o vale em que vivem as formigas-argentinas, mas numa escala maior, porque agora toda a vasta população da cidade vai lentamente sendo sufocada pela neblina fumacenta e carregada de produtos químicos da indústria e de seus motores a explosão.

O humor de Calvino é fino e ferino no episódio em que o dono do jornal dá instruções ao redator sobre como encontrar o tom mais adequado para o artigo de fundo: “Nós não somos utópicos, que isso fique bem claro, somos pessoas práticas...”, ou “É uma batalha por motivos ideais”, ou “Não haverá (nem, aliás, com efeito nunca houve) contradição entre uma economia em livre expansão natural e a higiene necessária ao organismo humano… entre a fumaça de nossas operosas chaminés e o azul e o verde de nossas incomparáveis belezas naturais”. Por fim, os dois chegam a um entendimento sobre o teor ambivalente do editorial: “Somos uma das cidades onde a situação atmosférica é mais grave, mas ao mesmo tempo onde mais se faz para estar à altura da situação! As duas coisas, entende?”. Com uns bons quinze anos de antecedência, Calvino pressagiou os anúncios de duplo sentido da Exxon na televisão norte-americana.

Esta é a primeira vez em que numa história de Calvino há um caso amoroso realista entre homem e mulher – bem, mais ou menos realista. Nunca chegamos a saber como a belíssima, rica e elegante Claudia conhecera o narrador ou que ela via nele; ainda assim, periodicamente ela investe sobre ele, deixando-o confuso (“para abraçá-la, eu tinha tirado meus óculos”). Um dia os dois tomam um táxi e vão passear fora da cidade. O narrador faz comentários a respeito da feiúra da cidade e da presença ubíqua das névoas e brumas do smog. Mais tarde, Claudia dirá que “os homens perderam o senso da beleza”, ao que o jornalista responde, “A beleza é inventada continuamente”. Os dois começam uma discussão cerrada; ele conclui que tudo é cruel. O narrador trava amizade com um proletário sindicalizado, contrário a Cordà. O narrador admira o operário Omar, admira “os obstinados, os duros”. Mas Calvino não chega nunca a se engajar de verdade, no sentido sartreano. Porque suspeita que a cilada em que todos estamos metidos é complicada demais para ser resolvida pelo mero debate político.

O narrador começa a escrever sobre radiação atômica na atmosfera; sobre como o clima está mudando mundo afora. Será que existe relação entre uma coisa e outra? Por um momento, até mesmo Cordà fica alarmado. Mas aí a vida continua, pois o próprio industrial é “o dono do smog, era ele que o soprava ininterruptamente sobre a cidade”, e seu periódico era uma criatura “nascida da necessidade de dar a quem trabalhava pelo smog a esperança de uma vida que não fosse só do smog, mas ao mesmo tempo para celebrar a potência do smog”.

O final da história se assemelha ao final de “A formiga-argentina”. O narrador vai até os arrabaldes da cidade, seguindo as carroças dos lavadeiros. Em meio aos campos branquejantes de roupa estendida, a visão é alegre e animadora. “Não era muito, mas para mim, que não procurava nada mais do que ter imagens sob os olhos, talvez bastasse”.

No ano seguinte, 1959, Calvino troca de estilo. O cavaleiro inexistente é a última parte da trilogia Os Nossos Antepassados, embora cronologicamente venha em primeiro – na era carolíngia. Mais uma vez há uma guerra em curso. O leitor só vem a conhecer o narrador lá pela página 36: irmã Teodora, religiosa da ordem de são Columbano, incumbida de escrever a história como penitência, “pela saúde da alma”, como um modo de ganhar a salvação eterna. Desafortunadamente, a trama dá muito trabalho para a freira; nem tudo na história está claro para ela, porque “Nós, freiras, temos poucas ocasiões de conversar com soldados (...) Vocês vão me desculpar: somos moças do interior, ainda que nobres, tendo vivido sempre em retiro, em castelos perdidos e depois em conventos; excetuando-se as funções religiosas, tríduos, novenas, trabalhos de lavoura, debulha de cereais, vindimas, açoitamento de servos, incestos, incêndios, enforcamentos, invasões de exércitos, saque, estupros, pestilências, não vimos nada. O que pode saber do mundo uma pobre freira?”.

A irmã Teodora faz o melhor que pode para narrar a história de Agilulfo [Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez], cavaleiro que não existe. O que existe é uma armadura toda branca, “bem conservada, sem um risco, bem-acabada em todas as juntas, encimada no elmo por um penacho”, de onde emerge a voz metálica de Agilulfo, cavaleiro totalmente devotado à santa causa e ao serviço do imperador Carlos Magno. Passando em revista os paladinos, Magno chega à frente do cavaleiro-que-não-há; diante da explicação de Agilulfo, e diante da constatação de que há em sua tropa até mesmo um cavaleiro que não existe, graciosamente o sire se permite concluir, “Bom, para alguém que não existe está em excelente forma!”. Uma vez que não existe, Agilulfo não tem fraquezas nem apetites; é o cavaleiro perfeito, um modelo de soldado, e antipático a todos. Para Agilulfo, “o corpo das pessoas que tinham um corpo de verdade dava-lhe um mal-estar semelhante à inveja, mas também uma sensação que era de orgulho, de desdenhosa superioridade”. Para vingar a morte do pai, um jovem chamado Rambaldo (uma versão mais velha de Pin e do sobrinho do visconde partido ao meio) junta-se ao exército de Carlos Magno. Agilulfo dá ao novato conselhos insípidos. Sucedem-se batalhas. A narradora faz observações genéricas: “E o que é a guerra além desse passar de mão em mão coisas cada vez mais amassadas?”. As tropas deparam com um homem chamado Gurdulu, que se confunde com as coisas do mundo exterior. Quando toma sopa, torna-se a sopa, pensa que ele próprio é a sopa a ser tomada: “’Tudo é sopa’!, e numa das mãos brandia a colher como se quisesse puxar para si colheradas de tudo aquilo que havia ao redor: ‘Tudo é sopa!’. Aquela visão provocou em Rambaldo uma perturbação capaz de fazer-lhe rodar a cabeça: mas era mais uma dúvida que um arrepio – que aquele homem que girava ali na frente sem enxergar tivesse razão e o mundo não fosse nada mais que uma imensa sopa sem forma em que tudo se desfazia e tingia com sua substância todo o existente”.

Aqui Calvino anuncia temas que serão mais bem desenvolvidos em obras posteriores: a confusão entre “eu” e “coisa” e entre “eu” e “você”; a arbitrariedade do nome e da nomeação das coisas, da categorização e da exclusão, particularmente porque “Ainda era confuso o estado das coisas do mundo, no tempo remoto em que esta história se passa. Não era raro defrontar-se com nomes, pensamentos, formas e instituições a que não correspondia nada de existente. E, por outro lado, o mundo pululava de objetos e faculdades e pessoas que não possuíam nome nem distinção do restante. Era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atrito com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso – por miséria ou ignorância ou porque tudo dava certo para eles do mesmo jeito – e assim uma certa quantidade andava perdida no vazio”.

Há na trama um triângulo amoroso. Rambaldo cai de amores por um colega cavaleiro que se revela uma formosa jovem, chamada Bradamante. Infelizmente, ela está apaixonada por Agilulfo, o cavaleiro que não existe. A essa altura a história fica complicada demais para a irmã Teodora, que lança ao papel a mais triste das notas que um escritor profissional poderia escrever: “Começa-se a escrever com gana. Porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre nem uma gota de vida, e a vida está toda fora, além da janela, fora de você, e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo, dar um salto”.

Por fim, a narradora consegue levar a cabo a dura tarefa de terminar a história, e apara as arestas, e fecha as lacunas. Chegam ao fim as viagens aventurosas dos cavaleiros. Agilulfo entrega sua armadura, “dissolve-se como uma gota no mar”, e deixa de fato de existir; Rambaldo é autorizado a ocupar a vestidura. Bradamante desapareceu, mas, com um elegante coup de theatre, a irmã Teodora revela, aos leitores e ao próprio livro, que a narradora da história e a guerreira Bradamante são a mesma pessoa. Agora ela precipita a narração de modo a terminar logo e tomar nos braços a armadura branca, que, ela sabe, passou a conter o jovem e apaixonado Rambaldo, seu verdadeiro amado, por quem queima de desejo: “Por isso, a certa altura, minha pena se pôs a correr. Corria ao encontro dele. Sabia que não tardaria a chegar. A página tem o seu bem só quando é virada e há a vida por trás que impulsiona e desordena todas as folhas do livro. A pena corre empurrada pelo mesmo prazer que nos faz correr pelas estradas”.

Completada a trilogia, Calvino dá uma virada e publica O dia de um escrutinador, a mais realista de suas histórias, e a mais ostensiva e abertamente política. O protagonista tem nome, Amerigo Ormea, cidadão responsável, eleitor consciente, participante do poder democrático, filiado ao Partido Comunista e escrutinador em Turim, durante as eleições nacionais de 1953. A seção eleitoral de Amerigo ficava dentro de um grande instituto religioso e hospitalar, o Cottolengo, também denominado Pequena Casa da Divina Providência, enorme hospício que dava asilo aos incuráveis, “infelizes, aos prejudicados, aos deficientes, aos deformados”. Desde que ao final da Segunda Guerra o voto se tornara obrigatório, aparentemente todos eram levados a votar: loucos, velhos moribundos, idiotas, pacientes em coma ou até mesmo os paralisados pela arteriosclerose, “gente privada da capacidade de entendimento” (“hospitais, hospícios e conventos serviam de grande reserva de sufrágios para o Partido Democrata Cristão”). Amerigo é um sereno observador das confusões e enganos da democracia, tendo afinal aprendido que “na política, as mudanças se dão por caminhos longos e complicados”; o narrador também confessa que para Amerigo, “como para tantos outros, ganhar experiência havia significado tornar-se um pouco pessimista”.

Ao decorrer do dia, naquele ambiente de desolação, Amerigo observa, com fina impassibilidade, sem curiosidade nem espanto, os bandos de padres e as “revoadas de freirinhas, às centenas”, cumprindo com sobressalto sua obrigação cívica, avançando sobre os biombos de madeira bruta e aplainada que funcionavam como cabines de votação montadas dentro do hospital-asilo. A despeito do grotesco e do burlesco de algumas situações, Amerigo está contente e sente algum prazer na trivialidade da votação, aquela “desolação rica, rica de sinais”. A ele por vezes aquilo parecia sublime, pois “na Itália, desde sempre obsequiosa com tudo o que é pompa, fausto, exterioridade, ornamento, [aquilo] parecia-lhe finalmente a lição de uma moral honesta e austera; e uma perpétua e silenciosa desforra contra os fascistas, contra os que haviam acreditado poder desprezar a democracia justamente por causa desta sua desolação exterior, por causa de sua humilde contabilidade, e haviam sido aniquilados com todas as suas franjas e seus laços, ao passo que ela, com seu descarnado cerimonial de pedaços de papel dobrados como telegramas, de lápis confiados a dedos calosos ou trêmulos, continuava o seu caminho”.

Contudo, o dia é longo, e por fim o tédio das operações sonolentas e burocráticas dá as caras e se abate sobre o escrutinador, que começa a pensar que, em vez de estar ali, poderia ter passado o domingo nos braços de Lia: “Conformado a passar o dia todo entre aquelas criaturas opacas, Amerigo sentia uma necessidade tocante de beleza, que se concentrava em pensar em sua amiga Lia”. Em devaneio, pensa em Lia, que teima em surgir em sua lembrança: “O que é esta nossa necessidade de beleza?, perguntava-se Amerigo”. Pelo visto, Calvino não avançou muito além daquele ultimo diálogo de “A nuvem de smog”. O escrutinador contempla a perfeição da Grécia clássica, mas lembra-se de que os gregos eliminavam mulheres “em excesso” e as crianças deformadas. Obviamente, colocar a beleza demasiado no alto da escala de valores “é um primeiro passo rumo a uma civilização desumana, que condenará os deformados a serem lançados do penhasco”.

Quando um dos outros escrutinadores [“o escrutinador magrela”] comenta que todos os loucos vivem juntos no Cottolengo, se vêem todos os dias, e que por isso hão de se conhecer, Amerigo descamba para o devaneio: “De uma possibilidade diferente de ser da humanidade nos lembraríamos, como nos contos de fadas, de um mundo de gigantes, de um Olimpo... Como nos acontece a nós, que talvez sejamos, sem o percebermos, deformes, deficientes, em relação a uma possibilidade diferente de ser, esquecida...”). O que é humano, o que é real?

Via de regra, a visão de Calvino é apresentada em termos fantásticos, mas aqui ele torna-se inusualmente e surpreendentemente concreto. Uma vez que elegeu iluminar uma época e um lugar reais (a Itália entre 1945 e a eleição de 1953), o autor tem condições de falar tudo, nos mínimos detalhes: “Na Itália daqueles anos o Partido Comunista assumira, entre as tantas outras tarefas, também a de um ideal, jamais existido, Partido Liberal. E assim o peito de um único comunista podia abrigar duas pessoas ao mesmo tempo: um revolucionário intransigente e um liberal olímpico”. O pessimismo de Amerigo deriva do óbvio fato de que estas duas instâncias não dão muito certo, não combinam muito bem. Sou forçado a me lembrar do comentário de Alexander Herzen acerca dos latinos: eles não querem liberdade, querem implorar pela liberdade.

Na metade do dia, Amerigo aproveita a diminuição do fluxo de votantes e vai para casa almoçar (morava sozinho, num pequeno apartamento; uma diarista fazia faxina, cozinhava para ele e o servia à mesa! Escrito em 1963 e retratando acontecimentos de 1953, é claramente um romance histórico). Procura um livro para ler. Sua biblioteca é restrita. Havia tempo procurava afastar de si a “literatura pura”: “A literatura das pessoas parecia-lhe uma extensão de lápides de cemitério: a dos vivos e a dos mortos. Agora nos livros procurava outra coisa: a sabedoria das épocas ou simplesmente alguma coisa que fosse útil para compreender alguma coisa”. Buscando uma leitura que acompanhasse e canalizasse suas reflexões, faz uma tentativa com os Manuscritos juvenis de Marx. “A universalidade do homem aparece prática e exatamente naquela universalidade que faz da natureza toda o corpo inorgânico do homem (...) A natureza é o corpo inorgânico do homem, precisamente na medida em que ela própria não é o corpo humano”. Portanto, o gênio transforma tudo em si próprio. Assim como Marx inventou O Capital a partir do capitalismo, Calvino transfigura uma passagem de Marx no próprio Calvino: o homem que toma sopa é a sopa que o toma. Completitude é tudo.

Fortalecido e confiante pela leitura do texto tranqüilizador, Amerigo fala com Lia, ao telefone. É mais uma das conversas costumeiras entre os dois, permeadas de insignificâncias e discussões banais. Ela liga de novo e diz que está grávida: “Para ele, a procriação, antes de tudo, era uma derrota de duas idéias. Amerigo era um partidário ferrenho do controle da natalidade, apesar de que seu partido naquele ponto se mostrava entre agnóstico e contrário. Nada o escandalizava mais do que a tola leviandade com que os povos se multiplicam, e quanto mais famintos e atrasados são, menos param de fazer filhos, nem tanto porque querem mais porque estão acostumados a deixar nas mãos da natureza, da desatenção, do abandono”. Na terra de Margaret Sanger, este não é um ponto de vista exatamente assustador ou alarmante, mas para um comunista italiano dos anos 60, a percepção de um mundo inteiro morrendo de crianças em excesso, de smog em excesso, era uma revelação monstruosa. Aqui Amerigo denuncia tanto a Bíblia quanto Marx como celebrantes entusiastas e insensatos da fecundidade humana.

Amerigo volta para hospital; na enfermaria, vê doentes presos à cama e crianças disformes, sem braços, cujos corpos se pareciam com peixes, e se pergunta até onde um ser humano pode se dizer humano. Por fim, o dia termina, a eleição chega ao fim. Amerigo aproxima-se da janela e contempla os edifícios tristes do complexo hospitalar. Nota que um pouco de pôr-do-sol avermelhava entre os prédios: “O sol já se tinha ido, mas restava um clarão atrás do perfil dos telhados e das quinas, abrindo nos pátios as perspectivas de uma cidade nunca vista”. E assim, o final de Calvino ressoa os primeiros acordes familiares: “Mulheres anãs passavam no pátio empurrando um carrinho com um feixe de lenha. A carga pesava. Chegou outra, do tamanho de uma giganta, e o empurrou, quase correndo, e riu, e todas riram. Outra, também grandona, chegou varrendo, com uma vassoura de piaçava. Uma bem gorda empurrava pelas varas mais altas um recipiente-carrinho, sobre rodas de bicicleta, talvez para o transporte da sopa. Até a última cidade da imperfeição tem sua hora perfeita, pensou o escrutinador, a hora, o instante, em que em toda cidade há a Cidade”.

A mais realista e específica das obras de Calvino, O dia de um escrutinador confirmou-se (até agora) como a última das narrativas “secas” do autor. Em 1965, Calvino publica As cosmicômicas: doze histórias breves de humor cósmico que tratam, sob o manto do fantástico, da criação do universo, do homem, da sociedade. Assim como o jovem amigo de Pin que achava que a vida de fato se assemelha aos álbuns coloridos de aventuras, aqui Calvino organiza sua complexa prosa de modo a compor em palavras um superálbum colorido, narrado por Qfwfq, herói-sigla cuja evolução – da vida no interior do primeiro átomo à condição de molusco no fundo do mar, a anfíbio em escalada social, a último dinossauro vivo a colhedor de leite lunar – é descrita e narrada em doze episódios estranhos e singulares, em nada parecidos com qualquer coisa que ninguém tenha escrito desde, digamos, Luciano.

“Ao nascer do dia” é a história da criação do universo conforme o testemunho e a visão de Qfwfq e sua misteriosa família, que consiste de pai, mãe, irmã, irmão, vovó, bem como uma série de tios e conhecidos – sensibilidades informes que habitam a poeira universal prestes a se tornar a nebulosa que irá conter nosso sistema solar. Quem são e onde de fato estão estas entidades cósmicas pré-humanas e pré-temporais são informações, literalmente, obscuras, uma vez que a luz ainda não foi inventada. Assim, “Não nos restava senão esperar, mantermo-nos cobertos o maior tempo que pudéssemos, cochilar, trocar umas palavras de vez em quando para estarmos certos de que continuávamos ali; e – naturalmente – coçar-nos, porque, a bem dizer, todo aquele turbilhonar de partículas só nos fazia provocar um fastidioso prurido”. E é essa coceira que começa a modificar as coisas. A matéria fluida da nebulosa começa a condensar-se. E começa também a confusão: a vovó perde sua rosca, “pequeno elipsóide de matéria galáctica”. Coisas se coagulam; forma-se o níquel; membros do grupo começam a se dispersar, flutuando e dando cambalhotas para longe, em várias direções. De súbito, a condensação está completa, e a luz irrompe. O núcleo da nébula, contraindo-se, havia gerado luz e calor, e agora havia o Sol, posto em seu lugar, e então os planetas começam a entrar em órbita. E, acima de tudo, “fazia um calor de matar”.

À medida que a Terra adquire aspecto gelatinoso, a irmã de Qfwfq, G’d(w)n, apavorada talvez pelo incêndio do Sol, desaparece na matéria em condensação, abrindo passagem nas profundezas do planeta. Não se soube mais dela, até que um dia, muito mais tarde, “fui encontrá-la em Camberra, em 1912, casada com um certo Sullivan, ferroviário aposentado, tão mudada que quase não a reconheci”.

O primeiro Calvino escrevia de modo muito próximo a seus pares, [Cesare] Pavese e [Elio] Vittorini – autores cuja tendência era refletir a narratividade de [Ernest] Hemingway e Dos Passos. Então Calvino mudou-se para Paris, onde encontrou sua própria voz (ou suas próprias vozes) e, a seu modo, foi infectado pelos franceses. Desde Os Nossos Antepassados e das três histórias que compõem O dia de um escrutinador, Calvino foi influenciado, de maneira diversa, por [Roland] Barthes e os semiólogos, por [Jorge Luis] Borges e pelo agora velho nouveau roman. N’As cosmicômicas tais influências aparecem, em geral, de modo benigno, visto que Calvino é um artista por demais formidável e original para se deixar seduzir ou desviar por teóricos ou se diluir e se perder por seguir o exemplo de outro criador. Contudo, a história “Um sinal no espaço” chega, perigosamente, quase que a ser uma homenagem reverente demais aos ideais da semiologia.

Uma vez que Sol leva cerca de duzentos milhões de anos para realizar uma revolução completa da galáxia, Qfwfq fica obcecado pela idéia fixa de fazer um sinal no espaço, algo que fosse peculiar, distinto e inconfundível o bastante tanto para marcar sua passagem, de modo a ser reencontrado, bem como para impressionar quem eventualmente pudesse estar observando. Sua ambição é o resultado do desejo de pensar, pois “pensar em algo jamais havia sido possível, primeiro porque faltavam coisas em que se pudesse pensar e segundo porque faltavam os sinais para pensá-las, mas, do momento em que havia o sinal, decorria a possibilidade de que ao pensar pensava-se num sinal, e portanto naquele, no sentido de que o sinal era a coisa em que se podia pensar e também o sinal da coisa pensada, ou seja, de si mesmo”. E então o narrador imprime no universo seu sinal, atira-o no contínuo movimento da Via Láctea, certo de que “parecia avançar para a conquista da única coisa que contava para mim, sinal e reino e nome...”.

Lamentavelmente, um contemporâneo chamado Kgwgk, despeitado e roído pela inveja, prega uma peça: apaga o sinal de Qfwfq e, tentando imitá-lo, tenta grosseiramente fazer outro no lugar. Desalentado e enfurecido, Qfwfq quer logo “traçar um novo sinal no espaço que representasse um verdadeiro sinal e fizesse Kgwgk morrer de inveja”. Portanto, é do afã de competitividade e do desejo de não admitir a vitória do rival que nasce a arte. Porém, a tarefa de fazer sinais já havia se tornado bem mais difícil, cerca de setecentos milhões de anos depois da primeira tentativa, porque as coisas eram já diversas, “o mundo estava começando a dar uma imagem de si, e em cada coisa uma forma começava a corresponder a uma função” (um dos temas de O cavaleiro inexistente) e “naquele meu novo sinal estavam sensíveis as influências de como eram vistas as coisas então, chamemo-lo o estilo, aquela maneira especial que cada coisa tinha de estar ali a seu modo”.

Qfwfq fica muito satisfeito com seu novo sinal, original e “muito mais belo”; quanto mais o tempo passa, no entanto, gosta cada vez menos de sua marca, que considera pretensiosa e despropositada e antiquada. Envergonhado do sinal, conclui que deve apagá-lo antes que o rival o veja e o ridicularize (por isso é que os escritores revisam as velhas obras ou produzem novos livros, de modo a obliterar os anteriores – sim, pode chamar isso de estilo, se quiser). Por fim, Qfwfq elimina, com o máximo cuidado, seu sinal. Durante certo tempo, fica contente com a idéia de que nada mais há no espaço que possa fazê-lo parecer idiota diante do rival – nesse aspecto, lembra bastante um sem-número de escritores de meia pataca e poetastros que dão um jeito de se refugiar nos meandros de alguma universidade e, ano após ano, valendo-se do expediente de não publicar o romance prometido ou aquele poema anunciado, só fazem crescer sua reputação.

Para o verdadeiro artista, porém, o ócio torna-se abominável. E Qfwfq começa a se divertir fazendo falsos sinais: “querendo de qualquer forma escarnecer de Kgwgk, pus-me a fazer falsos sinais, marcas no espaço, buracos, manchas, ardis que só um incompetente como Kgwgk poderia tomar como sinais”. Assim, masoquistamente, o artista zomba e ri da própria arte, destrói a própria forma (o próprio signo), brinca e faz piadas de modo a confundir e explorar as galerias da Rua 57. Mas aí as coisas começam a sair do controle. Para o horror de Qwfq, toda vez que volta a passar por aquele que acredita ser um de seus falsos sinais, encontra dúzias de outros sinais, rasuras e garatujas rabiscados sobre o sinal original, agora irreconhecível.

No fim das contas, tudo está tão obscuro por uma mixórdia de sinais sem significado que “o mundo e o espaço pareciam ser o espelho um do outro, um e outro minuciosamente historiados de hieróglifos e ideogramas, cada qual podendo ser um sinal ou não ser (...) a perna mal estampada de um R que num exemplar de um jornal da tarde se encontrava com uma escória filamentosa do papel, uma entre as oitocentas mil escoriações de um paredão alcatroado num interstício das docas de Melbourne (...) No universo já não havia um continente e um conteúdo, mas apenas a espessura geral de sinais sobrepostos e aglutinados que ocupava todo o volume do espaço”.

Qfwfq entrega os pontos. Não existe mais ponto de referência, “tão claro estava que independentemente dos sinais o espaço não existia e talvez nunca tivesse existido”. Assim a história chega ao fim; o resto é o solipsismo da arte. Ao velho debate entre ser e não-ser, Calvino acrescenta sua própria visão da multiplicidade dos signos, o que oblitera todo o significado e toda a possibilidade de significação. Se há nomes demais para uma coisa, é o mesmo que haver nome nenhum; portanto, coisa alguma, nada.

“Apostamos quanto?” dá continuidade ao mesmo tema. No início da história, Qfwfq afirma que desde sempre apostara “que o universo havia de existir, e não deu outra”. É a primeira das apostas que faz com o decano (k)yK. Ao longo das eras cósmicas, os dois vivem apostando, porque não havia mesmo mais nada para fazer, e porque era a única prova de que estavam vivos; em geral Qfwfq ganha sempre, pois “jogava na possibilidade de que um dado acontecimento pudesse ocorrer, ao passo que o decano apostava quase sempre o contrário”.

Qfwfq continua vencendo até que começam a fazer prognósticos com grandes saltos temporais, especulando sobre o futuro. “No dia 8 de fevereiro de 1926, em Santhià, província de Vercelli, correto?, na rua Garibaldi, número 18, está me acompanhando?, a senhorita Giuseppina Pensotti, de vinte e dois anos, sai de casa às cinco e quarenta e cinco da tarde: e segue para a esquerda ou para a direita?”. Aí Qfwfq começa a perder. Então começam a fazer apostas sobre personagens de romances ainda não escritos… Balzac faz Lucien Rubempré se suicidar ao final de As Ilusões Perdidas? Essa o decano ganha. A vantagem de Qfwfq diminui.

Os dois apostadores acabam tendo à disposição uma vasta fundação de pesquisa, a que recorrem para subvencioar seus estudos, com inúmeras bibliotecas de obras de consulta, revistas especializadas, calculadoras potentes. Por fim, assim como ocorre com o próprio universo, começam a se afogar em signos e símbolos. Nostalgicamente, Qfwfq rememora os primeiros tempos: “E penso como era belo então, através daquele vácuo, traçar retas e parábolas, individuar o ponto exato, a interseção entre espaço e tempo em que deveria espoucar o acontecimento, incontestável no relevo do seu fulgor; enquanto agora os acontecimentos fluem ininterruptos, como uma corrida de cimento, uns por cima dos outros, uns incrustados nos outros, separados por títulos negros e incongruentes, legíveis à vontade mas intrinsecamente ilegíveis, uma pasta de acontecimentos sem forma nem direção, que circunda submerge tritura qualquer raciocínio”.

Em outra história, “Os Dinossauros”, Qfwfq é o último dinossauro vivo do planeta, e passa a conviver com a raça que o sucederá na linha evolutiva, o ser humano. Os Novos, que havia várias gerações não tinham visto mais dinossauros, e já não sabiam reconhecê-los, não suspeitam nem percebem que se trata de um dos seus temíveis inimigos do passado. Acham que é um forasteiro extremamente feio, mas não de todo estrangeiro. A atitude de Qfwfq é a mesma do protagonista de Os Herdeiros, de William Golding, exceto pelo fato de que na versão de Calvino o último dos Velhos se mistura a seus herdeiros, é absorvido por eles. Distraído e entretido, Qfwfq ouve as lendas monstruosas e contraditórias que contam sobre sua raça, atributo do poder da imaginação humana, presta atenção às palavras que usa, aos sinais que reconhece. Por fim, conclui: “agora sabia que os dinossauros, quanto mais desaparecem, tanto mais estendem seu domínio, e sobre as florestas bem mais ilimitadas que as que cobrem os continentes: no intrincado do pensamento de quem resta”. Mas Qfwfq não se mostra sentimental por ser o último remanescente dos dinossauros; ao final da história, ele vai embora, deixando para trás os Novos: “percorri vales e planícies. Cheguei a uma estação, tomei o trem, perdi-me na multidão”.

Em “A Espiral”, a última das cosmicômicas, Qfwfq é um molusco agarrado a um rochedo do mar primevo. Mais uma vez, o tema é in ovo omnes. Calvino descreve, com minúcia, as sensações do molusco na pedra, “polpa de molusco achatada, úmida e feliz (...) Claro, vivia um pouco concentrado em mim mesmo, isso é verdade, não existe comparação com a vida de relacionamentos que se leva agora; e admito até ter sido – um pouco por causa da idade, um pouco por influência do ambiente –, como se diz, levemente narcisista; em suma, estava ali a me observar o tempo todo, vendo em mim todas as qualidades e todos os defeitos, e me comprazia, tanto com uns quanto os outros; não havia termos de comparação, é preciso que se leve em conta também isso”. Era o Éden. Mas então o calor do Sol começa a alterar as coisas; aparecem traços e vibrações do outro sexo; surgem ovos a serem fertilizados: o amor.

Em resposta desconfiada, ansiosa e aflita às novidades, Qfwfq se expressa fazendo a primeira coisa que lhe ocorre: uma concha, que acaba adquirindo o formato de espiral; a concha espiralada se revela um lugar necessário e indispensável de defesa para a sobrevivência do narrador, bem como lhe parece inusitadamente bela. Ainda assim, Qfwfq não se gaba de tanta beleza: “Posso dizer, portanto, que minha concha se fazia por si mesma, sem que eu aplicasse uma tenção especial em fazê-la acabar sendo mais de uma forma que de outra”. Porém, ao mesmo tempo o artista intuitivo também se auto-afirma: “Mas isso não quer dizer que entrementes eu ficasse distraído, de espírito livre; ao contrário, aplicava-me naquele ato de secretar sem me distrair um segundo, sem jamais pensar em outra coisa (...)”. Enquanto isso, por seu turno, ela, a amada, ia construindo sua própria concha, em tudo idêntica à dele.

Passam-se eras, quinhentos milhões de anos. A concha-Qfwfq olha à sua volta, e vê acima do rochedo a ferrovia escarpada, e o trem que passa por ela, com uma comitiva de jovens holandesas debruçadas nas janelas. Qfwfq vê tudo e não acha nada de extraordinário, porque “ao fazer a concha me parece haver feito igualmente o resto”. Mas eis que um elemento novo passou a integrar a equação. “Eu só não tinha previsto uma coisa: os olhos que finalmente se abriram para nos ver não eram nossos mas de outros”. É assim que morre Narciso. “Em suma, os olhos foram feitos à nossa custa. Assim, a vista, a nossa vista, que obscuramente esperávamos, foi a vista que em realidade os outros tiveram de nós”.

Mas o artista que construiu a concha em forma de espiral não se deixa vencer por um erro de cálculo ou pelo destino. Orgulhoso, conclui: “Todos esses olhos eram meus. Eu os havia tornado possíveis, eu tivera a parte ativa; eu lhes fornecera a matéria-prima, a imagem”. Novamente um final elegante e espirituoso, porque, fixado no olho do observador está não apenas o fato concreto da bela concha que ele construiu mas também “a mais bela imagem dela”, que havia inspirado a concha e que era a concha: assim, macho e fêmea são, finalmente, unidos na retina do olho de um estranho.

Em 1967, Calvino publicou mais aventuras de Qfwfq em Ti con zero, em grande parte uma série de cartuns engajados, mas, como leitor, vi-me desconcertado ao encontrar tantos pedacinhos de Sarraute, de Robbe-Grillet, de Borges (e Borges demais, além da conta), incorporados à prosa de um autor que cheguei a ter na conta de um verdadeiro mestre da modernidade. À página 6 encontrei “viscoso”; à pagina 11, “mucosa ácida”. Comecei a ficar preocupado e um tanto enjoado: estas são palavras de Sarraute. Mas pensei que era só uma questão de mera coincidência. Porém, quando, à página 29, vi a terrível palavra “magma”, concluí que Calvino havia passado tempo demais em Paris, porque apenas os sarrautistas usam “magma”, termo que o grande teórico do velho nouveau roman, a seu modo tão arbitrário e singular, surrupiou às ciências. Em outros momentos, ao longo das histórias, o uso da técnica de Robbe-Grillet de registrar obsessivamente as minúcias de situações banais equivale a um balde de água fria que o próprio Calvino despeja sobre seus melhores efeitos.

A bem da verdade, “A Perseguição” poderia ter sido escrito por Robbe-Grillet. E isso não é um elogio. Peguemos o início:

Aquele carro me perseguindo é mais veloz que o meu; dentro dele há um homem, sozinho, armado de pistola, uma bela arma. Paramos num semáforo, numa fila comprida. O sinal está regulado de maneira tal que do nosso lado a luz vermelha dura cento e oitenta segundos e a luz verde cento e vinte, sem dúvida com base na premissa de que o tráfego perpendicular é mais pesado e mais vagaroso.

E assim por diante, ao longo de dezesseis páginas, como se fosse um filme em câmera lenta.

A teoria subjacente a este tipo de prosa enervante é a seguinte: uma vez que escrever é descrever, com palavras, por que então não descrever as próprias palavras (com outras palavras)? Ou, louvado seja Deus!, palavras descrevendo palavras descrevendo uma ação sem importância – o cantinho do quarto em O Ciúme (1957), de Robbe-Grillet. Tal tipo de “experimentação” sempre me pareceu mais útil para alunos de cursos de Letras e Lingüística do que para leitores de literatura. Seguindo o próprio caminho e em sua melhor forma, Calvino sabe fazer o que poucos escritores conseguem: descreve mundos imaginários com a mais extraordinárias precisão e beleza (palavra que ele, sozinho, retirou da esfera de suspeição que os adeptos do nouveau roman mantêm ao redor de todas palavras e qualquer narrativa).

N’As cosmicômicas Calvino torna possível ao leitor habitar um molusco, um méson, um dinossauro; pela primeira vez, permite ao leitor ver a luz dando fim a um universo mergulhado na treva. Uma vez que se trata de um dom ímpar, penso ser absolutamente alarmante a “literariedade” de Ti con zero. Fiquei particularmente desnorteado diante da história central, “Ti con zero”, que poderia muito bem ter sido escrita por Borges (deveria ter sido, aliás, porque seria melhor).

Munido de arco e flecha, Qfwfq enfrenta um leão rampante. Mentalmente, o herói faz uma equação: o tempo-zero é onde está Qfwfq; onde o leão-0 está. Pela cabeça de Qo passam todas as combinações de series finitas ou infinitas, exatamente como acontece com o homem diante do pelotão de fuzilamento na famosa história de Borges. Ora, é possível que estas histórias tenham maior apelo para mentes mais convergentes que a minha (supõe-se que estudantes de matemática, engenheiros e jovens Republicanos pensem de maneira convergente, ao passo que romancistas, gourmets e humanistas não-cristãos pensem de modo divergente), mas a meu ver esta apresentação pseudocientífica de séries de possibilidades é profundamente chata.

Entretanto, há no livro momentos deliciosos. Especialmente “A Origem dos Pássaros”. “Agora estas histórias podem ser mais bem contadas com desenhos em quadrinhos do que com uma narração composta de frases uma seguida da outra”. Assim, colocando uma frase seguida de outra, o engenhoso Calvino descreve um álbum colorido de aventuras, e o efeito é no mínimo encantador, ainda que a peripécia de Qfwfq entre os pássaros não seja de fato um álbum colorido, e sim a descrição de um álbum colorido em palavras.

A técnica do narrador é a mesma de O cavaleiro inexistente. Primeiro esboça a cena para depois apagá-la, assim como fazia a irmã Teodora, que ia eliminando oceanos e florestas à medida que impelia os amantes rumo ao inevitável encontro amoroso. Como qualquer outro escritor, Calvino também chega a ponto de dizer que aquilo que se sente sobre a criação talvez não possa ser expresso por palavras ou sequer esboçado em desenhos e imagens.

“Consegui envolver num único pensamento o mundo das coisas como eram e das coisas como poderiam ter sido, e percebi que um único sistema incluía todas elas”. Nos braços de Or, a rainha dos pássaros, Qfwfq começa a ver que “o mundo é único e tudo o que existe não pode ser explicado sem ele...”. Mas foi longe demais. Quando já está prestes a dizer o indizível, Or tenta impedi-lo. Mas ele ainda consegue deixar escapar. “Não existe diferença alguma. Monstros e não monstros sempre estiveram próximos uns dos outros! Aquilo que nunca existiu continua a existir… aquilo que nunca foi continua a ser...”. A essa altura, os pássaros o expulsam de seu paraíso; qual um sonhador que acorda de supetão, ele esquece sua visão de unidade: “Os últimos quadrinhos são todos de fotografias: um pássaro, o mesmo pássaro em close, a cabeça do pássaro, um detalhe ampliado da cabeça, o olho…”). É o mesmo olho que aparece ao final d’As cosmicômicas – o olho da consciência cósmica, para todos aqueles que se lembram do guru de uma geração atrás, o Dr. Richard M. Bucke.

Calvino encerra o livro com sua própria versão de O Conde Monte Cristo. O problema que propõe para si mesmo é como escapar do Chateau d’If. O abade Faria faz planos e escava túneis, mas erra continuamente o caminho e acaba por encontrar-se sempre em locais mais profundos da fortaleza sem fim e sem saída. Por outro lado, Edmond Dantès medita acerca da natureza da fortaleza, bem como sobre os vários esboços do romance que Dumas está escrevendo. Em algumas versões, Dantès vai conseguir escapar e encontrar o tesouro e se vingar dos inimigos. Em outros, sua sorte é diferente. O narrador contempla as possibilidades de fuga considerando a maneira com que a fortaleza (ou a obra de arte) é construída. “Para planejar um livro – ou uma fuga –, a primeira coisa que se deve saber é o que excluir”. Esta história em particular é Borges em estado puro; e, levando-se em conta a unidade essencial da multiplicidade de todas as coisas, não se pode descartar a idéia de que a versão de Calvino para O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas seja de fato a mais fina façanha de Jorge Luis Borges, segundo imaginada por Italo Calvino.

O sétimo e mais recente romance (ou tratado de filosofia, ou meditação ou poema) de Calvino, As cidades invisíveis talvez seja sua mais bela obra. Sentados num jardim de magnólias estão o já envelhecido Kublai Khan e o jovem Marco Polo – imperador tártaro e viajante veneziano. O ambiente é de ocaso, de declínio. Próspero ergue pela última vez sua varinha mágica: o grande Khan sente que se avizinha o fim de seu império, de duas cidades, de si próprio.

Marco Polo, entretanto, distrai o imperador com relatos e descrições das cidades que viu e visitou em suas andanças pelo vasto império do conquistador mongol. Kublai Khan ouve atentamente, absorto, e medita, busca estabelecer um padrão, um paradigma para o conjunto de cidades apresentadas pelo aventureiro, que acabam formando uma geografia fantástica: As cidades e a memória, As cidades e o desejo, As cidades e os símbolos, As cidades delgadas [ou sutis], As cidades e as trocas, As cidades e os olhos, As cidades e os nomes, As cidades e os mortos, As cidades e o céu, As cidades contínuas, As cidades ocultas. O imperador logo conclui que todos esses lugares fantásticos são na verdade um mesmo e único lugar.

Marco Polo concorda: “– As margens da memória, uma vez fixadas com palavras, cancelam-se – disse Polo (E o mesmo disse Borges, tantas vezes!). – Pode ser que eu tenha medo de repentinamente perder Veneza, se falar a respeito dela. Ou pode ser que, falando de outras cidades, já a atenha perdido pouco a pouco”. Mais uma vez o tema da multiplicidade e da completitude, “quando toda cidade”, como Calvino escreveu ao final d’O dia de um escrutinador, “é a Cidade”.

Descrever o conteúdo de um livro é a mais árdua das tarefas; e diante da maravilhosa criação que é As cidades invisíveis, é também completamente irrelevante. Pouparei-me do ingrato trabalho. Anoto, porém, que algo de novo e sábio passou a fazer parte do cânone de Calvino. O artista parece ter feito as pazes e chegado a termos com a tensão entre a idéia humana acerca dos muitos e do uno, do coletivo e do individual. E agora poderia, se quisesse, parar de escrever.

Ainda assim, Calvino se vê obrigado a seguir escrevendo, assim como seu Marco Polo é impelido a continuar viajando, porque

não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
“Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: Você viaja para reencontrar o seu futuro? E a resposta de Marco: – Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”.

Adiante, depois de mais descrições de suas cidades, Kublai Khan pensa que “o império talvez não passe de um zodíaco de fantasmas da mente”.

“Quando conhecer todos os emblemas – perguntou a Marco –, conseguirei possuir o meu império, finalmente? E o veneziano: – Não creio: nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas”.

Por fim, o Khan reconhece que todas as cidades caminham na direção dos círculos concêntricos do Inferno de Dante.

“Disse: - É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito. 
E Polo: - O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui. O inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”.

Ao longo do último quarto de século, Italo Calvino esteve muito à frente de seus contemporâneos norte-americanos e ingleses. Enquanto que os anglófonos continuam procurando o lugar em que as aranhas fazem os ninhos, Calvino não apenas encontrou aquele lugar especial como também aprendeu a construir fantásticas teias de prosa nas quais tudo gruda. De fato, lendo Calvino, tenho a desconcertante sensação de que também estou escrevendo o que ele escreveu; assim, sua arte prova que escritor e leitor tornam-se apenas um, ou Um.

* Ainda não li La speculazione edilizia (A especulação imobiliária, 1957). Pela descrição do romance que consta do Dizionario della letteratura italiana contemporanea, trata-se de uma denúncia generalizada do surto imobiliário da Itália do pós-guerra, e da impotência do intelectual Quinto Anfossi para chegar a termos com a “febre do cimento e do concreto”.

1 de agosto de 1971

György Lukács

Vida e obra

Uma entrevista com
György Lukács

Entrevistado por
Perry Anderson

New Left Review


Tradução / Georg Lukács was born in 1885 in Budapest, into a wealthy Jewish banking family. He studied at universities in Budapest, Berlin and Heidelberg (where he was befriended by Max Weber), and in 1916 published his first major work in the literary field from which his name was to become inseparable, The Theory of the Novel.

Won to Marxism through the inspiration of the October Revolution, Lukács joined the new Hungarian Communist Party in 1918 and in the following year became Commissar for Education and Culture in the short-lived Hungarian Soviet Republic. In exile in Vienna, then Berlin, in the years that followed, he wrote History and Class Consciousness, the single most influential work in what came to be known as the Western Marxist tradition. There followed the short study Lenin and then the so-called Blum Theses, in which Lukács tried unavailingly to wean his party from its ingrained leftism. After that defeat, he withdrew from direct politics into philosophical and critical activity, from 1933 onwards in Moscow, where he wrote, among other works, The Historical Novel. He remained there until his return to Hungary in the last months of the Second World War.

Lukács now resumed an active role in the Communist Party, leaving a record that has remained controversial ever since. In the defining crisis of 1956, however, he sided with the popular movement against the flailing Stalinist regime, and accepted office in Imry Nagy’s coalition government. After the Soviet invasion at the end of that year, Lukács was deported to Romania and held under house arrest. Spared execution and allowed back to Budapest the next year, he continued to write and publish for the rest of his active life.

The interview published here was given in Budapest in late 1968, soon after the Warsaw Pact invasion of Czechoslovakia, to which the closing exchange tacitly refers. It was first published after Lukács’s death in 1971.

Como você julga seus escritos filosóficos dos anos vinte hoje? Qual é a relação deles com o seu trabalho atual?

Nos anos vinte, Korsch, Gramsci e eu tentamos, cada um à sua maneira, lidar com o problema da necessidade social e sua interpretação mecanicista, o legado da Segunda Internacional. Nós legamos o problema, mas nenhum de nós – nem mesmo Gramsci, que era, talvez, o melhor entre nós, conseguiu resolvê-la. Nós estávamos errados e seria um erro hoje nos alçar a reviver os trabalhos daquela época como se fossem válidos hoje. No ocidente existe uma tendência a erigir uma “heresia clássica”, mas nós não precisamos hoje. Os anos vinte são uma era pretérita; o que nos concerne são os problemas dos anos sessenta. Eu estou trabalhando em uma ontologia do ser social que, eu espero, resolverá o problema que eu enfrentei de maneira errada no meu trabalho preliminar, especialmente em História e Consciência de Classe. Meu novo trabalho foca na relação entre liberdade e necessidade, ou, como eu me expresso, entre casualidade e teleologia. Tradicionalmente, filósofos tem sempre baseado seus sistemas em um ou outro dos dois polos; ou tem negado a necessidade ou a liberdade humana, Minha intenção é de apresentar a inter-relação ontológica dos dois termos, e rejeitar o ultimato – ao qual filósofos tem recorrido para representar o homem. O conceito de trabalho é a pedra angular da minha análise, porque o trabalho não é biologicamente determinado. Se um leão ataca um antílope, seu comportamento é determinado por uma necessidade biológica e apenas por isso. Mas o homem primitivo está em frente a uma pilha de pedras, ele precisa escolher entre uma delas, tendo como critério qual será mais adequada para ser usada como ferramenta; ele escolhe entre alternativas. O termo alternativas é fundamental para o conceito de trabalho humano, o qual é, então, sempre teleológico – ele emprega propósito, o qual é resultado de uma escolha. Desta maneira expressa-se a liberdade humana. Mas a liberdade existe apensas objetiva e fisicamente, nas forças motrizes que obedecem as leis da causalidade do universo material. A teleologia do trabalho é então sempre coordenada com a causalidade física, e de fato, o resultado de qualquer outro trabalho individual é um tempo da causalidade física para a posição teleológica (Setzung) do que qualquer outra individual. Fé na teleologia da natureza é teologia, e fé em uma teleologia na história é infundada. Mas existe uma teleologia em cada trabalho humano, intrinsecamente inserida na causalidade do mundo físico. Esta posição, que é o núcleo do qual se desenvolve meu trabalho atual, excede a oposição clássica entre necessidade e liberdade. Mas eu quero enfatizar que não estou tentando construir um sistema compreensivo. O título do meu trabalho – que já está pronto, apesar de eu estar revisando o primeiro capítulo – é para uma ontologia do ser social e não A ontologia do ser social. Perceba a diferença. A tarefa na qual estou envolvido vai requerer um esforço coletivo de muitos pensadores para seu real desenvolvimento. Mas eu espero que isto mostre os fundações ontológicas do socialismo da vida cotidiana que eu mencionei antes.

A Inglaterra é o único grande país europeu sem uma tradição filosófica marxista nativa. Você tem escrito extensivamente sobre um dos momentos da sua história cultural, o trabalho de Walter Scott; mas como você vê o desenvolvimento amplo da história política e intelectual britânica e suas relações com a cultura europeia do Iluminismo?

A história britânica tem sido vítima do que Marx chamou de desenvolvimento desigual. O radicalismo da revolução de Cromwell e então a revolução de 1688, e seu sucesso em assegurar relações capitalistas entre cidade e país, tornou-se uma razão de atraso na Inglaterra. Eu penso que a sua revista tem sublinhado bastante a importância histórica da agricultura capitalista na Inglaterra e seus consequências paradoxais para o desenvolvimento inglês subsequente. Isto pode ser visto claramente em um desenvolvimento cultural inglês. O domínio do empirismo como uma ideologia da burguesia nasceu depois de 1688, mas alcançou extraordinário poder posteriormente, mudando a história da filosofia e da arte anteriores. Peque Bacon, por exemplo, ele foi um grande balizador, muito mais que Locke, que mais tarde deu à burguesia o que importa. Mas sua importância foi completamente apagada do empirismo inglês, e hoje se você quer estudar o que Bacon foi para o empirismo, você deve antes estudar o que o empirismo incluiu de Bacon, o que é sensivelmente diferente. Marx foi um grande admirador de Bacon, como é sabido. A mesma coisa aconteceu com outro grande pensador inglês, Mandeville. Ele foi o sucessor de Hobber, mas a burguesia inglesa negligenciou isto totalmente. Ao invés disso descobriu que Marx o cita em Teorias do Mais-Valor. Esta cultura inglesa radical do passado foi obscurecida e ignorada. No seu lugar, Eliot e outros preferiram e exageraram a importância atribuída aos poetas metafísicos – Women, etc. – os quais são muito menos importantes para o desenvolvimento e a história da cultura humana. Outro episódio detector é o destino de Scott. Eu escrevi sobre a importância de Scott no meu livro O romance histórico, você notará que é o primeiro novelista que entendeu que o homem é modificado pela história. Esta foi uma descoberta extraordinária e foi imediatamente perseguida por grandes escritores europeus tais como Pushkin na Russia, Manzoni na Itália e Balzac na França. Todos perceberam a importância de Scott e aprenderam com ele. O curioso, contudo, é que na Inglaterra Scott não tem seguidores. Foi muito pouco entendido e foi esquecido. Esta tem, portanto, sido uma fratura em todo o desenvolvimento da cultura inglesa, a qual é muito visível nos escritores radicais subsequentes como Shaw. Shaw não tem raízes na cultura inglesa do passado, porque a cultura inglesa do século dezenove foi amputada da sua história radical precedente. Esta é a grande fraqueza de Shaw.

Hoje, intelectuais britânicos não apenas tem de importar do marxismo exterior, mas eles tem de construir uma nova história da sua cultura: esta é uma tarefa essencial que apenas eles podem realizar. Eu escrevi sobre Scott, e Ágnes Heller sobre Shakespeare, mas são os britânicos que essencialmente tem de descobrir a Inglaterra. Até mesmo na Hungria tem circulados vários boatos sobre nosso “caráter nacional”, como vocês na Inglaterra. A verdadeira história sobre a sua cultura destruirá estas interpretações enganosas. O que talvez seja ajudado pela profundidade da crise econômica e financeira inglesa, produzida por um desenvolvimento desigual que eu mencionei antes. Wilson é indubitavelmente um dos mais astutos políticos oportunistas burgueses, ainda assim seu governo tem sido um total e desastroso fracasso. Este também é um sinal da profundidade da crise e inextricabilidade inglesa.

Como você vê hoje seus primeiros trabalhos e critica literária, especialmente Teoria do romance? Qual foi sua relevância histórica?

Teoria do romance foi a expressão do meu desespero durante a primeira guerra mundial. Quando a guerra estourou, eu disse que Alemanha e Austria-Hungria teriam provavelmente derrotado a Rússia e destruído o czarismo, o que seria bom. França e Inglaterra teriam provavelmente derrotado Alemanha e Áustria-Hungria e derrotado os Hohenzollern e os Habsburg, o que seria bom. Mas quem defenderia a cultura inglesa e francesa? Meu desespero não encontrou resposta para esta questão, e este era o pano de fundo da Teoria do Romance. Naturalmente outubro deu uma resposta. A revolução russa foi a resposta mundial-histórica para o dilema: prevenir o triunfo da burguesia francesa e inglesa, o que eu temia. Mas eu devo dizer que Teoria do romance, com todas suas falhas, ele previu o colapso de uma cultura que analisou. Ele entendeu a necessidade de uma mudança revolucionária.

Na época você era você era amigo de Max Weber. Como julgá-lo agora? O colega dele, Sombart, eventualmente virou um nazista; as crenças de Weber, caso ele tivesse vivido, teriam feito ele se reconciliar com o Nacional Socialismo?

Não, nunca. Deve-se entender que Weber foi uma pessoa absolutamente honesta. Ele tinha grande desprezo pelo imperador, por exemplo. Nós frequentemente dizíamos, em particular, que o grande azar da Alemanha era que, diferentemente dos Stuart ou os Bourbons, nenhum dos Hohenzollern foi decapitado. Pode imaginar o quão incomum era um professor alemão dizer coisas assim em 1912. Weber foi bastante diferente de Sombart; ele não fez concessões ao antissemitismo, por exemplo. Deixe-me lhe contar uma história típica do Weber. Uma Universidade alemã pediu para ele que enviasse recomendações para contratação de professores naquela Universidade – estávamos com um outro compromisso próximo. Weber disse, dando três nomes em ordem de mérito. Então ele acrescentou, cada uma das três indicações seria uma excelente escolha – são todos excelentes; mas vocês não escolherão nenhum deles, porque eles são todos judeus. Então eu acrescento uma lista de outros três nomes, nenhum sendo tão bom quanto os outros que mencionei e não há dúvida que você escolherá um deles, porque eles não são judeus. Mas apesar disso, você deve lembrar que Weber foi um firme imperialista, cujo imperialismo era baseado somente na sua crença de acordo com a qual um imperialismo eficiente era necessário e que somente o liberalismo poderia assegurar tal eficiência. Ele era inimigo jurado da revolução de outubro e novembro. Era um acadêmico extraordinário assim como um profundo reacionário. O irracionalismo que começa com Schelling e Schopenhauer tem nele uma das suas maiores expressões.

Como ele reagiu à sua conversão para a Revolução de Outubro?

Acho que ele falou que “para Lukács a mudança deveria ter sido uma profunda transformação de crenças e ideias, enquanto Toller apenas confunde sentimentos”. Mas eu não tive mais contato com ele desde então. 

Depois da guerra, você tomou parte na municipalidade húngara como comissário para a educação. Qual é a possível avaliação da experiência da cidade hoje, cinquenta anos depois?

A causa essencial da comuna foi a “Nota Vyx” e a política da Entente dirigida à Hungria. Nesse sentido, a municipalidade é comparável Revolução Russa, onde a questão da guerra foi um peso decisivo no estouro da Revolução de Outubro. Uma vez entrega a Nota Vyx, sua consequência foi a municipalidade. Os social democratas mais tarde nos atacaram pela criação da municipalidade, mas no momento, depois da guerra, não havia chance de manter-se dentro do confinamento do esquema da política burguesa; aquela explosão foi necessária.

Depois da derrota da Comuna, você foi delegado do Terceiro Congresso do Comintern em Moscou. Você encontrou líderes bolcheviques? Que impressão teve?

Veja, você tem que entender que eu era um pequeno membro de uma pequena delegação; eu não era nenhuma figura importante naquele momento, e claro que tive longas conversas com líderes do partido russo. Mesmo assim, eu fui apresentado a Lenin por Lunacharsky. Fascinou-me completamente. Eu também pude vê-lo trabalhando na comissão do congresso, claro. Eu devo dizer que achei obnóxios outros líderes bolcheviques. Trotsky de começo eu não gostei; eu achei ele um poseur. Existe uma passagem nas memórias de Gorky sobre Lenin, encontrando-o após a revolução, reconheceu resultados organizacionais durante a Guerra Civil, diz que Trotsky tem algo de Lassalle. Zinoviev, cujo papel no Comintern eu fui conhecer mais tarde, foi apenas um manipulador político. Minha opinião sobre Bukharin pode ser lida no meu artigo de 1925, acerca do seu marxismo crítico – naquela época era, depois de Stalin, as perguntas teóricas das autoridades russas. Nem mesmo Stalin pode lembrar – como muitos outros comunistas estrangeiros eu não tinha ideia da sua importância para o partido russo. Eu conversei com Radek por um tempo. Ele me contou que o que eu havia escrito sobre as ações de março foi a melhor coisa que havia sido escrita sobre e aprovava totalmente. Depois, claro, mudou de ideia quando o partido condenou a ação de março e então me condenou em público. Diferentemente dos todos os outros, Lenin me causou um forte impressão.

Qual foi sua reação quando Lenin atacou seu artigo sobre a questão do parlamentarismo?

Meu artigo estava completamente errado e eu desisti da minha tese sem hesitação. Mas eu devo acrescentar que eu li Esquerdismo: a doença infantil do comunismo de Lenin antes da crítica dele ao meu artigo e eu me tornei convicto das suas posições sobre o problema da participação parlamentar já lá: tanto que a minha critica ao meu artigo não mudou com o tempo. Eu sabia que estava errado. Lembro o que Lenin disse naquele trabalho, nomeadamente que a burguesia parlamentar era completamente desmantelada no sentido da história do mundo com o nascimento dos órgãos revolucionários do poder proletário, sovietes, mas que isso não significava de maneira alguma que houve um consenso político imediato, porque as massas do ocidente ainda não confiavam nos sovietes. Então os comunistas tiveram de trabalhar tanto dentro como fora dos parlamentos.

Em 1928-29 você propôs o conceito de ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses como um objetivo estratégico do Partido Húngaro daquele momento, a famosa “Teses de Blum” para o terceiro congresso do PCU. As teses foram rejeitadas como oportunistas e você foi expulso do comitê central. Como vocês as julga agora?

As Teses de Blum foram minha retaguarda contra o sectarismo do “Terceiro Período”, que alega serem gêmeos democracia e fascismo. Esta linha foi um completo desastre, como você sabe o slogan “classe contra classe” e a expectativa do imediato estabelecimento da ditadura do proletariado. Restaurando e adaptando o slogan de Lenin de 1905 – ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses – eu tentei achar um ponto de apoio na linha do Sexto Congresso do Comintern, através do qual eu pudesse trazer o partido Húngaro para uma política realista. Eu não tive sucesso. As Teses de Blum foram condenadas pelo partido, e Béla Kun e sua facção arranjaram minha expulsão do Comitê Central. Eu estava completamente sozinho no partido; deve imaginar que não consegui convencer nem mesmo aqueles dentro do partido que compartilhavam minha posição na batalha contra o sectarismo de Kun. Então eu fiz uma autocrítica das teses. Isto foi absolutamente cínico: eu fui forçado pelas circunstâncias do momento. Eu não mudei de opinião e em verdade eu ainda acho que eu estava certo lá. O período de 1945-48 na Hungria foi a realização concreta da ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses que apoiaram em 1929. Depois de 1948, é evidente, o stalinismo criou algo bastante diferente, mas esta é outra história.

Quais eram suas relações com Brecht nos anos trinta e depois da guerra? Como você classificaria a figura dele?

Brecth era um verdadeiro grande poeta, e suas últimas peças – Mãe Coragem, A Boa Pessoa de Szechwan e outras – são excelentes. Evidente, a teoria estética e dramática dele eram bastante confusas e erradas. Eu expliquei isto em O significado corrente do realismo crítico. Mas elas não mudam a qualidade dos seus trabalhos posteriores. Em 1930-31 eu estava em Berlim e trabalhei na União dos Escritores. Na época – metade dos anos trinta, para ser mais exato – Brecht escreveu um artigo contra mim, em defesa do expressionismo. Mas mais tarde, quando eu estava em Moscou, Brecht veio me visitar na sua jornada da Escandinávia para os Estados Unidos – viajou pela União Soviética naquela viagem – e disse: Existem algumas pessoas que estão tentando me colocar contra você, e algumas que estão tentando colocar você contra mim. Vamos fazer um acordo de não nos imiscuir na querela de outros. Por essa razão nós sempre tivemos boas relações, e depois da guerra eu ia para Berlim – frequentemente – e sempre encontrava Brecht, nós tínhamos longas conversas juntos. Eventualmente nossas posições eram bastante próximas. Você sabe, eu fui convidado pela esposa dele para falar no funeral dele. Uma coisa que eu me arrependo é de não ter escrito um ensaio sobre Brecht nos anos quarenta. Eu sempre tive grande respeito por Brecht. Ele era bastante inteligente e tinha uma grande senso de realidade. No que era realmente bastante diferente de Korsh, que sabia bem, é claro. Quando Korsh saiu do partido alemão, cortou todos os laços com o socialismo. Eu sei porque nunca foi possível colaborar no trabalho da União de Escritores na luta antifascista em Berlim no momento – o partido não permitiria isso. Brecht era bastante diferente. Ele sabia que nada poderia ser feito sem a União Soviética, a qual ele permaneceu leal por toda a vida.

Você conheceu Walter Benjamin? Acredita que, se ele tivesse sobrevivido, ele teria tendido a um comprometimento revolucionário com o marxismo?

Não, por um motivo ou outro eu nunca conheci Benjamin. Adorno, contudo eu conheci em Frankfurt em 1930 quando eu estava indo para a União Soviética. Benjamin era extremamente dotado, e penetrou fundo em muitos problemas novos. Ele os explorou de muitos jeitos, mas nunca os encerrava. Eu acredito que seu desenvolvimento, caso ele tivesse sobrevivido, teria sido bastante incerto, apesar da sua amizade com Brecht. Você tem de lembrar que aqueles eram tempo difíceis – os expurgos dos anos trinta e depois a Guerra Fria. Adorno naquele clima se tornou o expoente do “conformismo inconformado”.

Depois da vitória do fascismo na Alemanha, você trabalhou no instituto Marx-Lenin na Rússia com Ryazanov. O que você fez lá?

Quando eu estava em Moscou em 1930 Ryazanov me mostrou os manuscritos que Marx escreveu em 1844 em Paris. Você pode imaginar minha empolgação: ler aqueles manuscritos mudou totalmente minha relação com o marxismo e transformou minhas perspectivas filosóficas. Um acadêmico alemão da União Soviética estava trabalhando nos manuscritos, arranjando para sua publicação. Os ratos haviam atacado os manuscritos e haviam várias partes nas quais letras e até palavras estavam faltando. Graças ao meu conhecimento filosófico, trabalhando com ele, estabelecendo quais eram as letras e as palavras que estavam faltando: frequentemente haviam palavras que começavam, digamos, com “g” e terminavam com “s” e ninguém sabia o que havia no meio. Acho que a elaboração que eventualmente saiu era bastante boa – posso dizer isso porque eu colaborei com a edição. Ryazanov era responsável por esse trabalho e era um ótimo filólogo, não um teórico, mas um grande filólogo. Após a sua remoção, o trabalho no instituto também desapareceu. Eu lembro de ele ter me dito que haviam dez volumes dos manuscritos de Marx para O Capital que nuca haviam sido publicados; Engels, com certeza na sua introdução ao segundo e terceiro volumes disse que eram apenas uma seleção de manuscritos sobre os quais Marx estava trabalhando. Ryazanov organizou a publicação deste material. Mas até agora ainda não apareceu nada.

No início dos anos trinta, é evidente que haviam debates filosóficos na URSS, mas eu compareci neles. Houve um debate no qual o trabalho de Deborin foi criticado, então eu pensei, corretamente, que o propósito daquele criticismo eram apenas para impor a preeminência de Stalin como um filósofo.

Contudo, você participou de debates literários dos anos trinta na União Soviética.

Eu colaborei com a revista Literaturnyj Kritik por seis ou sete anos e trouxe para frente uma luta consistente contra o dogmatismo daqueles anos. Fadeeyev e outros lutaram e ganharam a RAPP na Rússia, mas só porque Averbakh e outros na RAPP eram trotskistas. Depois da vitória deles, eles começaram de desenvolver a forma deles de “rappismo”. Literaturnyj Kritik tem sempre resistido a esta tendência. Eu escrevi muitos artigos para a revista, cada um dos quais tem duas ou três citações de Stalin – o que era uma necessidade intransponível na Rússia no momento – e cada uma das quais era direcionada contra a concepção stalinista de literatura. Seus conteúdos eram sempre dirigidos contra o dogmatismo de Stalin.

Por dez anos você foi bastante ativo politicamente, de 1919 a 1929 , então abandonou toda atividade política direta. Esta é uma enorme mudança para qualquer marxista convicto. Foi limitado (ou talvez liberto) pela súbita mudança na sua carreira em 1930? Como se liga essa parte da sua vida com a sua juventude? Quais eram suas influências então?

Eu não tenho arrependimentos sobre o fim da minha carreira política. Veja você, eu estava completamente convencido de estar certo nas discussões do partido em 1928-29, nada me fazia mudar de ideia; contudo, eu falhava em convencer o partido da qualidade das minhas ideias. Então eu pensei, apesar de estar com a razão, eu havia sido totalmente derrotado, isso significa que eu não tenho nenhuma habilidade política. Então eu facilmente desisti da prática política, eu decidi que não estava absolutamente preparado. Minha expulsão do Comitê Central do partido húngaro alterou minha crença de que mesmo com a desastrosa e sectarista política do terceiro período, você poderia lutar contra o fascismo dentro das fileiras do movimento comunista. Eu nunca mudei de ideia quanto a isso. Eu sempre pensei que a pior forma de socialismo era melhor do que a melhor forma de capitalismo.

Mais tarde, minha participação no governo Nagy de 1956 não contradisse minha resignação com a atividade política. Não compartilhei a abordagem política geral de Nagy, e quando as pessoas jovens tentaram nos reconciliar assim como antes de outubro, eu respondia: “A distância entre mim e Imre Nagy não é maior do que a distância entre Imre Nagy e mim”. Quando eu fui convidado para ser o Ministro da Cultura em outubro de 1956, isso foi uma questão moral pra mim, não uma questão política, e eu não podia recusar. Quando fomos presos e trancafiados na Romênia, os companheiros dos partidos húngaro e romeno vieram e pediram para que eu expressasse minha opinião sobre as políticas de Nagy, já sabendo dos meus desacordos com elas. Eu falei pra eles: “Quando eu for um homem livre nas ruas de Budapeste e ele também, então eu ficarei feliz em dar minha opinião para vocês sobre ele de uma maneira franca e relaxada. Mas enquanto estivermos aprisionados, minha única relação com ele é de solidariedade”.

Você me perguntou onde estavam meus sentimentos quando eu abandonei a minha carreira política. Eu devi dizer que talvez eu não seja um homem verdadeiramente contemporâneo. Eu posso dizer que nunca experimentei nenhum tipo de complexo ou frustração na minha vida. Então o que isso quer dizer? Eu conheço a literatura do século vinte, e eu li Freud. Mas eu nunca experimentei pessoalmente. Sempre quando eu costumava cometer erros ou tomar direções falsas, eu sempre estive disposto a reconhecer isto, não me custou muito, então pego outros caminhos. Quando eu tinha 15 ou 16 anos eu escrevi romances à maneira de Ibsen e Hauptmann. Quando eu tinha 18 eu os li e os achei desesperançosamente feios. Eu decidi então que jamais seria um escritor e queimei aquelas peças. Não tenho arrependimentos. Aquelas primeiras experiências foram uteis para mim mais tarde, como um crítico; sempre que dizia de um texto que eu queria escrever, então eu percebia que essa era a prova conclusiva da sua feiura, era um critério bastante confiável. Esta foi minha primeira experiência literária. Minhas primeiras influências políticas foram lendo Marx enquanto estudante, e então, a mais importante de todas, a leitura do grande poeta húngaro: Ady. Eu era um menino bastante isolado entre meus contemporâneos, e ler Ady teve um grande impacto em mim. Ele era um revolucionário animado por Hegel, apesar de ele nunca ter aceitado aquele aspecto de Hegel que eu também, desde o começo, sempre recusei: sua Versöhnung mit der Wirklichkeit – que é a reconciliação coma realidade dada. É uma grande fraqueza da cultura inglesa o fato de não haver qualquer familiaridade com Hegel. Até agora tenho mantido minha admiração por ele, e acho que o trabalho que Marx começou – a “materialização” da filosofia de Hegel – deve ser perseguida até mesmo além de Marx. Eu tentei em algumas passagens da minha iminente ontologia. Quando tudo estiver dito e feito, haverão apenas três grandes pensadores no ocidente, incomparáveis com todos os outros: Aristóteles, Hegel e Marx.

Os eventos recentes na Europa colocaram novamente o problema da relação entre socialismo e democracia. Quais são, em sua opinião, as diferenças fundamentais entre democracia burguesa e a democracia socialista revolucionária?

A democracia burguesa foi estabelecida com a Constituição Francesa de 1793, sua maior e mais radical expressão. Seu ativo constituinte é a divisão do homem no cytoain da vida pública e no bourgeois da vida privada, o primeiro com direitos políticos universais, de acordo com a expressão de diferentes interesses econômicos particulares. A divisão é fundamental para a democracia burguesa que historicamente determinou o fenômeno. Sua reflexão filosófica é encontrada em Sade. É interessante que escritores como Adorno tenham lidado com Sade como um reflexo da Constituição de 1793. A ideia chave, tanto para uma reflexão como para outra, é que o homem é objeto para o homem e a racionalidade egoísta é a essência da sociedade humana. Agora, e óbvio que qualquer tentativa de recriar no socialismo que historicamente excedeu esta forma de democracia é uma regressão e um anacronismo. Isto não quer dizer, contudo, que as aspirações a uma democracia socialista devem ser endereçadas em uma ótica administrativa. O problema da democracia socialista é um problema real que ainda não foi resolvido, como deve ser: material e idealmente. Deixe-me dar um exemplo. Guevara foi um homem como uma representação heroica dos ideais Jacobinos. Seus ideais impregnaram sua vida e a modelaram totalmente. Ele não foi o primeiro caso dentro do movimento revolucionário. Levine na Alemanha ou Otto Korvin aqui na Hungria viveram e agiram da mesma maneira. Nós devemos ter um grande respeito por nobreza humana deste tipo. Mas o idealismo deles não é socialismo do dia a dia, o qual deve ter uma base material e baseado na construção de uma nova economia. Mas eu devo adiantar que o desenvolvimento econômico por si só nunca produzirá socialismo. A doutrina de Khrushchev, para a qual o socialismo triunfaria globalmente quando os padrões de vida da URRS ultrapassassem aqueles dos EU, estava completamente enganada. O problema deveria ser colocado em um lugar radicalmente oposto. Você pode formular-se assim: O socialismo é o primeiro treinamento na história econômica que não produz espontaneamente o seu “homem econômico” correspondente. Isto é porque é um treinamento de transição, um interlúdio de transição do capitalismo para o comunismo. Agora, como uma economia socialista não produz e reproduz espontaneamente o homem correspondente a ela, como a sociedade capitalista gera seu homo economicus, que é a divisão citoyen/bourgeois de 1793 e de Sade, a principal função da democracia socialista é a educação dos seus membros para o socialismo. Esta função não tem precedente similar na democracia burguesa. Claramente, o que hoje seria necessário é reviver os sovietes, o sistema de democracia socialista que surge sempre que você tem uma revolução proletária: a Comuna de Paris em 1871, a Revolução Russa de 1905 e assim como a Revolução de Outubro. Mas pode acontecer do dia pra noite… O problema é que os trabalhadores aqui são indiferentes: inicialmente eles não acreditam em nada.

Um problema a esse respeito concerne à emergência histórica de mudanças necessárias. No debate filosófico recente aqui temos tido muita discussão sobre a continuidade e descontinuidade na história. E tenho definitivamente me expressado pela descontinuidade. Você já conhece a tese conservadora de De Toqcqueville e Taine segundo os quais a Revolução Francesa de maneira alguma foi uma mudança na história francesa, porque deu continuidade à tradição de Estados franceses centralizados, a qual foi dominante sob o “antigo regime” com Luis XIV e foi acentuado por Napoleão e em seguida pelo Segundo Império. Esta visão da história, dentro do movimento revolucionário, foi decisivamente rejeitada por Lenin. Ele nunca apresentou qualquer mudança fundamental e novos inícios como uma simples continuação de tendências e antigos progressos. Por exemplo, quando ele anunciou a nova política econômica, nunca alegou que este era o desenvolvimento ou a coroação da guerra comunista. Lenin deixou claro que a economia de guerra comunista era um erro, contudo, compreensível, dadas as circunstâncias do momento e que a NEP era uma correção daquele erro e uma nova correção de curso. Este método leninista foi abandonado pelo stalinismo, o qual sempre tentou apresentar mudanças políticas – até mesmo as mais importantes – como a consequência lógica de melhoramentos da linha precedente. Stalinismo é toda a história do socialismo como um contínuo e ordenado desenvolvimento; nunca admitindo descontinuidade. Hoje, este problema é vital como nunca, especialmente para endereçar a sobrevivência do stalinismo. A continuidade com o passado deve ser enfatizada dentro da perspectiva de melhoramentos ou, do contrário, o caminho do progresso deve consistir em um ruptura profunda com o stalinismo? Eu acredito que a ruptura completa é necessária. Para o problema da descontinuidade na história, para mim, parece importante.

Postagem em destaque

Sobre a situação epidêmica

Alain Badiou sobre a pandemia de COVID-19 Alain Badiou Verso Books Tradução  / Desde o início, pensei que a situação atual, caract...