1 de agosto de 1979

Por que a burocracia soviética não é uma nova classe dominante?

Ernest Mandel


I


Tradução / Paul Sweezy finalmente começou a discutir a tradição marxista – que, ele reconhece, é amplamente representada pelo trotskismo – no que diz respeito à Revolução Russa e seu destino subsequente. É verdade, ele ainda rejeita essa interpretação. No entanto, Sweezy está pelo menos disposto a discutir isso, e seus primeiros comentários feitos na Monthly Review (out. de 1978) são de natureza provisória. Ao responder a eles e aos principais desafios que levantam, nós esperamos ser capazes de contribuir para um debate construtivo – tanto com Paul Sweezy, quanto com os editores da Monthly Review e os leitores dessa revista – sobre o que continua a ser a questão-chave para o futuro do movimento internacional dos trabalhadores.

Sweezy nos leva a repetir – após quarenta anos da análise de Trotski de 1939 – as teses segundo as quais o destino da União Soviética e, portanto, a questão da natureza da burocracia, ainda não foram resolvidas. A análise de Trotski, Sweezy argumenta, fez sentido porque ele colocou essa questão em uma perspectiva de curto prazo. Mandel, prossegue Sweezy, apenas repete Trotski sem perceber que a própria escala de tempo em que ele está falando prejudica a credibilidade da teoria.

O que Sweezy parece perder de vista é que o que estava envolvido nas questões colocadas por Trotski não era um problema de escala temporal, mas as tendências básicas de desenvolvimento do mundo contemporâneo. Isso fica claro, se nós reproduzirmos novamente as duas passagens do artigo de Trotski A URSS na Guerra, citado por Sweezy:

“Se, não obstante, se concede que a guerra atual provocará não uma revolução, mas um declínio do proletariado, então permanece outra alternativa: o aprofundamento da decadência do capitalismo monopolista, a sua fusão posterior com o Estado e a substituição da democracia, onde quer que ela ainda permaneça, por um regime totalitário. A inabilidade do proletariado em tomar em suas mãos a liderança da sociedade poderia realmente levar, nessas condições, ao desenvolvimento de uma nova classe exploradora a partir da burocracia fascista bonapartista.”

E, novamente:

“Se, ao contrário de todas as probabilidades, a Revolução de Outubro falhar no curso da presente guerra, ou imediatamente depois dela, em encontrar a sua continuação em qualquer um dos países avançados; e se o proletariado for jogado para trás em todos os lugares e em todas as frentes, então nós deveremos, sem dúvida, rever as nossas concepções sobre a presente época e suas forças motrizes. Nesse caso, não seria uma questão de colar uma etiqueta na URSS ou na gangue estalinista, mas de reavaliar a perspectiva histórica do mundo para as próximas décadas, senão séculos: nós entramos na época da revolução social e da sociedade socialista, ou, pelo contrário, na época da sociedade em declínio da burocracia totalitária?”

Agora, ressalta Sweezy, não houve nenhuma nova vitória da revolução proletária em um país avançado, seja no decorrer da Segunda Guerra, ou imediatamente depois. Isso é, sem dúvida, verdade. Mas Sweezy se esquece da segunda questão levantada por Trotski: Houve um “declínio do proletariado”? Em números? Em habilidade? Em níveis de organização ou de combatividade? Como lançar mão de tal argumento depois do Maio de 1968, que se deparou com três vezes mais grevistas ocupando fábricas na França do que no nível recorde anterior, de junho de 1936? Após o outono de 1969, na Itália, que viu um número oito vezes maior de trabalhadores ocupando fábricas do que na famosa onda de greves de novembro de 1920? Depois dos primeiros seis meses de 1976, na Espanha, com três vezes mais grevistas do que o auge da revolução de 1936? Além disso, as lutas da classe trabalhadora na Grã-Bretanha, no Japão, nos países europeus menores, em Portugal e em outros lugares, ultrapassaram, na última década, os seus níveis mais altos em comparação ao pré-guerra.

Foi o proletariado “jogado para trás em todos os lugares e em todas as frentes”? Foi a democracia (burguesa), onde quer que ela ainda tenha permanecido em 1939-40, substituída por um regime totalitário? Novamente, é óbvio que não. Não é, portanto, por hábito ou por um exagerado respeito pelo “mestre” que nós ainda seguimos os termos da análise de Trotsky de 1939. Nós chegamos a essa conclusão porque nos baseamos em uma análise sóbria do que aconteceu nos últimos quarenta anos.

De fato, a questão da tendência secular é e continua a ser aquela colocada por Trotski em sua tese de 1939. No entanto, a escala temporal estava obviamente errada. E, por causa disso, uma variante “intermediária” foi deixada de fora, o que explica precisamente por que a questão ainda não foi decida pela história. Houve a expansão da revolução mundial durante e após a Segunda Guerra Mundial. Houve um aumento e não um declínio da luta de classes. Entretanto, devido aos efeitos de vinte anos de derrotas da revolução sobre a consciência média da classe trabalhadora, essa expansão foi apenas parcial, e por conta disso pôde ser canalizada por forças políticas das, ou originadas nas, burocracias do movimento tradicional dos trabalhadores (Partido Trabalhista Inglês, Partidos Comunistas francês, italiano, grego, titoísmo, maoísmo, etc.).

Em alguns países semicoloniais, isso não impediu novas revoluções socialistas vitoriosas, mesmo que fossem burocraticamente deformadas desde o começo (Iugoslava, China, Vietnã). Nos países imperialistas, por outro lado, onde a burguesia é muito mais poderosa, e, portanto, um nível muito maior de consciência e liderança do proletariado é necessário para uma vitória revolucionária, isso levou à castração do potencial anticapitalista das lutas das massas, mas não sem que a classe trabalhadora tenha adquirido novas e importantes reformas dentro da sociedade burguesa e impedido a burguesia de recorrer às ditaduras abertas.

Por razões que não serão tratadas aqui, um novo período de acelerado crescimento econômico se seguiu nos países imperialistas, conduzindo a um novo crescimento do proletariado. Esse processo, por sua vez, estabeleceu as bases para um novo potencial revolucionário no Ocidente – cuja primeira expressão foi o estrondo do Maio de 1968. Em outras palavras, não houve um “recuo do proletariado de todas as frentes”, mas um aumento, que, embora insuficiente para derrubar o capitalismo, foi capaz de prevenir o desmoronamento na “sociedade em declínio da burocracia totalitária.”. No entanto, após a “longa onda de expansão” do capitalismo do pós-guerra, a virada do final dos anos 1960 inaugurou implacavelmente um novo período de uma profunda e prolongada crise que reafirma o problema nos termos de Trotski.

Acrescentemos que o artigo de 1939 de Trotski era somente um primeiro esboço da perspectiva histórica em relação à Segunda Guerra Mundial. Em um documento mais programático – seu verdadeiro testamento político –, o Manifesto da Conferência de Emergência da Quarta Internacional (maio de 1940), Trotski coloca o problema da escala de tempo de forma muito mais realista:

“A revolução não será traída desta vez também, na medida em que há duas Internacionais a serviço do imperialismo, enquanto os genuínos elementos revolucionários constituem uma pequena minoria? (...) Para responder esta questão corretamente, é necessário posicioná-la corretamente. Naturalmente, esta ou aquela revolta pode terminar e certamente acabará derrotada devido à imaturidade da liderança revolucionária. Mas a questão não é sobre uma única revolta, mas de toda uma época revolucionária. 
É necessário se preparar para longos anos, senão décadas, de guerra, revoltas, breves intervalos de trégua, novas guerras e novas revoltas. Um jovem partido revolucionário deve se basear nesta perspectiva. A história fornecerá oportunidades e possibilidades suficientes para se testar, acumular experiência e amadurecer.”

Nesse sentido, a questão da escala de tempo do pós-guerra, que Sweezy opõe à análise de Trotski, é justamente a mesma em que este revela uma formulação mais programática e menos propagandista acerca dessa questão. Mas, pode-se perguntar: o que tudo isso tem a ver com a natureza de classe as burocracia soviética? Ao responder a essa questão, estamos no coração histórico do “trotskismo”, isto é, do marxismo revolucionário contemporâneo. O trotskismo sustenta que os trabalhadores e os camponeses pobres devem tomar o poder sempre que surgir a oportunidade. Na época do imperialismo, ela pode se apresentar em um país menos desenvolvido antes de ocorrer nos mais avançados. Mas a tomada do poder (e a supressão da propriedade privada dos meios de produção) é uma pré-condição necessária, mas por si só insuficiente, para a construção do socialismo. Esse processo só pode ser realizado de forma bem-sucedida em uma escala internacional. (Ele deve, é claro, ser iniciado onde quer que o poder seja tomado das mãos dos capitalistas).

O estalinismo, que representa a vitória da burocracia na União Soviética, é resultado de derrotas parciais da revolução mundial. Esta não se espalhou para os países avançados, mas tampouco foi derrotada até o ponto em que o capitalismo pudesse ser restaurado na União Soviética (os imperialistas tentaram muito atingir esse ponto, em 1918-21, em 1941-44, e novamente, embora menos diretamente, em 1948-51). O destino final da URSS depende do resultado da luta mundial entre capital e trabalho. Se o proletariado mundial for decisivamente derrotado, então a burocracia se tornará uma classe dominante (se será uma nova classe ou uma capitalista, é outra questão). Se, por outro lado, a revolução socialista triunfar no Ocidente ou a revolução política triunfar na Europa Oriental, então não demorará muito para que o proletariado soviético derrube o governo burocrático na URSS antes que a burocracia tenha tido a chance de se tornar uma classe dominante.

Nós enfatizamos: “ou a revolução política triunfar na Europa Oriental”. Pois o outro argumento de Sweezy, de que a classe trabalhadora dos países estalinistas aceita o regime, embora a contragosto, é contrariado pelos acontecimentos espetaculares aos quais ele não se refere: o levante dos trabalhadores na República Democrática Alemã de 1953, a Revolução Húngara de 1956, a Primavera de Praga de 1968, e as repetidas rebeliões em massa dos trabalhadores poloneses. Não é verdade que a ideia “abstrata” da revolução política, apresentada por Trotski e a Quarta Internacional há cerca de 45 anos, recebeu um verdadeiro conteúdo “concreto” por esses eventos históricos?

II

A hipótese de que a burocracia soviética é uma nova classe dominante não corresponde a uma análise séria do real desenvolvimento e das reais contradições da sociedade e da economia soviética nos últimos cinquenta anos. Tal hipótese deve implicar, do ponto de vista do materialismo histórico, que um novo modo de produção explorador surgiu nesse país. Se assim fosse, seríamos confrontados, pela primeira vez na história, com uma “classe dominante” cujo comportamento geral e interesses privados (que, obviamente, determinam esse comportamento) são contrários às necessidades e à lógica interna do sistema socioeconômico existente. Realmente, uma das principais características do sistema econômico soviético é a impossibilidade de conciliar as necessidades de planejamento, de otimização do crescimento econômico (não de um ponto de vista “absoluto”, mas dentro de uma lógica do próprio sistema) com o interesse material próprio da burocracia.

Todas as sucessivas reformas econômicas introduzidas na URSS sob a burocracia – desde a reintrodução nas empresas da contabilidade de custos (khozrazhot), sob Stálin, ao sovnarkhoz [conselho de economia regional] experimental de Khrushchev, ao projeto de uso de lucros como indicador do desempenho econômico geral, de Liberman, até a introdução dos “indicadores mistos” para medir esse desempenho, de Kosygin – foram projetadas para superar essa contradição, mas não obtiveram sucesso duradouro. Pode-se facilmente explicar esse aparente paradoxo enfatizando a natureza parasitária da burocracia, que age de forma contrária à lógica do sistema. Pode-se também acrescentar que o planejamento social pode funcionar sem problemas somente sob a gestão de produtores associados, interessados materialmente no “dividendo social” e não na separação dos ganhos distintos, que colocam fábricas contra fábricas, cidade contra cidade, ramo contra ramo e região contra região. No entanto, tudo isso implica precisamente que a burocracia – que procura tais ganhos particulares – não é uma nova classe dominante, gerindo um novo modo de produção capaz de auto reprodução, mas um câncer em uma sociedade de transição entre capitalismo e socialismo. A direção burocrática não somente é um desperdício cada vez maior, como ela também impede que o sistema de economia planejada, com base em propriedades socializadas, funcione efetivamente. Esse fato inegável é, por si só, incompatível com a caracterização da burocracia como uma classe dominante e da URSS como um novo “modo de produção exploratório”, cujas “leis de movimento” nunca foram especificadas.

Em segundo lugar, estaríamos diante, também pela primeira vez na história, de uma classe dominante sem capacidade de se perpetuar através da operação do funcionamento do próprio sistema socioeconômico. Não há garantia para um burocrata de que ele ou ela continuará sendo um burocrata. Nós concordamos que a mobilidade vertical na sociedade soviética – uma das muitas válvulas de segurança social sob Stálin – diminuiu significativamente durante as últimas décadas. A “gerontocracia” do Presidium é um emblema do que está acontecendo em toda a sociedade soviética. A “segurança de posse do cargo” dos burocratas aumentou, sem dúvida. Mas isso só leva a aumentar a tensão social (por exemplo, pressão para o acesso ao ensino superior), e não a uma real solução para o problema da inabilidade dos burocratas de garantir a permanência de sua posição de poder e privilégio. Além disso, essas posições continuam essencialmente amarradas a funções particulares e dependem de decisões políticas (a famosa nomenklatura, por exemplo) e não a um papel específico no processo de produção social. Daí a pressão dos burocratas em obter laços permanentes com fábricas específicas, empresas, trustes (ou seja, para restaurar, no sentido econômico do termo, a propriedade privada, antes de restaurá-la no sentido jurídico). Daí a consistente pressão das largas camadas da burocracia para obter um posto qualitativo mais elevado de autonomia no nível da fábrica ou da filial (ou seja, para escapar da estrutura de ferro de um plano centralizado). Daí a tendência em direção à acumulação privada de capital através de subornos, corrupção, operações em mercado negro e “cinza”, acúmulo de moeda estrangeira e de ouro, etc. Daí também a tendência em direção a uma crescente “simbiose” com seus suas contrapartes no Ocidente, incluindo o estabelecimento de contas bancárias em bancos ocidentais (especialmente visível nas “Democracias Populares”).

Tudo isso aponta em direção à potencial emergência de uma “nova classe dominante” – não uma “nova”, mas a boa e velha classe capitalista, baseada na propriedade privada. No entanto, antes que este processo possa se concretizar, dois obstáculos formidáveis devem ser superados: a resistência da classe trabalhadora, que tenderia a perder, no decorrer de tal restauração, aquilo que mais valoriza na atual configuração (na verdade, provavelmente a única coisa que valoriza): a garantia de segurança no emprego. Ou seja, o direito ao trabalho, o pleno emprego e, decorrente disso, um ritmo de trabalho muito menos febril do que no Ocidente; e a resistência de setores-chave do aparato do Estado (observe a maneira como Tito reprimiu os “bilionários” iugoslavos no início dos anos setenta, quando o perigo de “restauração” se tornou real). Portanto, dizer que uma nova classe dominante existe e governa é interpretar mal as verdadeiras lutas sociais que ocorrem nesses países. Pensar assim é assumir como já decidida no passado uma luta cujo resultado ainda está em aberto.

Em terceiro lugar, seríamos confrontados, também pela primeira vez na história, com um representante da “classe dominante” de um “modo de produção” cujo “derrube” deixaria intacta a estrutura econômica básica. Em uma passagem bem conhecida do terceiro volume de O Capital, Marx escreve que cada modo de produção é caracterizado por uma forma específica de apropriação do excedente social. Agora, na URSS, o excedente é apropriado de forma dupla: na forma de valores de uso, na medida em que é composto, em grande parte, por equipamentos e matérias-primas adicionais; e sob a forma de mercadorias, na medida em que é composto, em menor parte, de bens de luxo (e de serviços especiais), comprados pela burocracia com sua renda privilegiada. Entretanto, após a derrubada da ditadura burocrática, essa forma dupla de apropriação do excedente social não mudaria, porque os trabalhadores soviéticos certamente não transformariam os meios de produção em mercadorias (o que significaria restaurar o capitalismo!); mas eles também seriam incapazes de suprimir rapidamente o aspecto da mercadoria da natureza dos bens de consumo (uma nova revolução na URSS não permitiria a construção do socialismo em um país). Do mesmo modo, nem a supressão da propriedade privada dos meios de produção, nem o planejamento centralizado, nem o monopólio estatal do comércio exterior seriam alterados por tal revolução (que preferimos chamar de política). Se alguém reunir todos esses fatores, obviamente obterá uma estrutura econômica que permanece basicamente inalterada.

É verdade, haverá uma mudança radical no modus operandi do sistema. A massa de produtores terá a palavra decisiva sobre o que é produzido e como deve ser produzido. A desigualdade social será radicalmente reduzida. O enorme desperdício causado pela má gestão burocrática cessará. Haverá uma reformulação radical na organização do trabalho e em sua estrutura hierárquica. Mas a estrutura acima esboçada – a forma específica de apropriação do excedente social – permanecerá basicamente a mesma.

Em quarto lugar, a hipótese de que a burocracia seja uma nova classe dominante leva à conclusão de que, pela primeira vez na história, somos confrontados com uma “classe dominante” que não existe como uma classe antes que ela realmente governe. De onde isso vem? Sweezy responde: “A nova classe exploradora se desenvolve a partir das condições criadas pela própria revolução”. Isso realmente gera uma dúvida. As classes sociais são grupos de seres humanos envolvidos em relações específicas que emanam do processo de produção (“relações de produção”). As transformações sociais podem mudá-las, mas não podem criá-las a partir do nada (ex nihilo). Na realidade, só faz sentido uma teoria consistente de uma “nova classe exploradora” na União Soviética, se assumirmos que os setores da classe trabalhadora (a aristocracia e a burocracia proletárias) e da intelligentsia (a pequena burguesia e os funcionários de alto escalão do Estado) foram potencialmente uma nova classe dominante mesmo antes de “assumirem o poder”, ou seja, antes da “revolução”. [1] Há, todavia, consequências formidáveis envolvendo praticamente todos os aspectos da luta de classes contemporânea em todo o mundo, além de uma revisão de todos os elementos constituintes da teoria marxista, da qual decorre tal pressuposto. Sem essa suposição, a noção de uma “nova classe dominante”, surgida “fora do processo histórico”, torna-se totalmente absurda. Afinal, a burocracia tomou o poder; como pode uma camada social “inexistente” assumir o poder?

III

A ideia de que a burocracia soviética (assim como a burocracia sindical no Ocidente) não cortou seu cordão umbilical com a classe trabalhadora, e que seus interesses específicos e decisões políticas podem ser vistos no âmbito dessa relação parasitária especial com o proletariado, leva à conclusão de que a luta de classes nos países capitalistas continua a ser um processo bipolar: capital versustrabalho (com a burocracia operando essencialmente como “lugar-tenente do capital entre os trabalhadores”).

A ideia de que a burocracia soviética é uma nova classe dominante e a conclusão inevitável de que os partidos comunistas que não estão no poder podem ser vistos – ao menos no que diz respeito aos seus aparatos centrais – como núcleos de uma nova classe exploradora em potencial, implica a necessidade de uma revisão completa da maneira de olhar para toda a história do século vinte. A luta de classes agora se torna uma disputa tripolar: “capital versus trabalho versusnova classe exploradora em potencial”.

Esta não é simplesmente uma questão de modificar a análise histórica (que, por si só, já seria de arrepiar os cabelos e, pelas evidências, uma tarefa impossível). Tal ideia tem implicações políticas da maior e mais grave magnitude. Somos então deixados apenas com a escolha entre dois males, que levam a conclusões que poderiam levar defensores consistentes da teoria de uma “nova classe exploradora” a se posicionarem contra a luta da classe trabalhadora internacional pela emancipação. Existem, de fato, somente duas maneiras possíveis de se ver a alegada nova “classe exploradora”. Ou ela é global e essencialmente progressista em relação à classe capitalista, isto é, está na mesma relação com a burguesia como esta estava com a aristocracia semifeudal antes e durante as revoluções burguesas. Tal hipótese seria perfeitamente consistente com uma aguda crítica do seu caráter explorador. No entanto, isso significaria que em todos os conflitos diretos entre a burguesia e a “nova classe em potencial”, seria preciso dar à “nova classe” o mesmo tipo de “apoio crítico” que o Manifesto Comunista prevê para a burguesia revolucionária. E seria necessário então restringir – pelo menos parcialmente, senão completamente – as lutas antiburocráticas da classe trabalhadora, a fim de não prejudicar a vitória da burocracia “progressista” sobre a burguesia reacionária.

A própria ideia de uma revolução socialista e uma conquista do poder pela classe trabalhadora se tornaria pelo menos questionável. É reconhecido: pode-se dizer que o capitalismo decadente poderia levar ao socialismo ou ao estabelecimento de um novo sistema de classes, progressista, se comparado ao capitalismo. Nesse caso, porém, todas as revoluções vitoriosas que ocorreram até o presente momento teriam de ser recaracterizadas como “revoluções burocráticas”, e não proletárias. Nesse sentido, se tornaria bastante plausível, para dizer o mínimo, que a ideia de uma transição direta do capitalismo para o socialismo seria um erro conceitual utópico de Marx e dos marxistas.

Se a “nova classe dominante” é progressista em relação ao capitalismo, isso implicaria que a sociedade de classes, ao contrário do que Marx pensava, não esgotou seu potencial progressista com a ascensão do capitalismo; que esse desenvolvimento novo e importante das forças produtivas – que a longo prazo conduziu a um desenvolvimento mais amplo do “indivíduo social”, ou seja, da liberdade humana – ainda era possível sem a abolição da sociedade de classes. O socialismo se tornaria uma mera preferência moral, e não uma necessidade histórica para evitar a barbárie e o declínio da civilização humana.

Assim, apesar de condenar a burocracia como novos exploradores, sanguessugas, inimigos mortais da classe trabalhadora e da liberdade humana, etc., etc., – e, sem dúvida, noventa e nove por cento da real motivação de qualquer autoproclamado marxista que chame a burocracia de uma nova classe dominante decorre dessas compreensíveis indignações morais, em vez de uma calma análise científica – se acabaria, paradoxalmente, por justificar historicamente essa mesma burocracia, ou até se tornar um apologista direto de todos os seus crimes.

Isso não é acidental. Dentro do quadro conceitual do marxismo clássico, as classes – incluindo as classes dominantes – são, pelo menos em algum momento de sua existência, historicamente inevitáveis, isto é, instrumentos necessários de organização social. Se a burocracia soviética é uma nova classe dominante e progressista em comparação à burguesia, a conclusão é incontestável: a burocracia desempenhou, pelo menos temporariamente, um papel necessário e progressista na sociedade soviética. Então, depois de um longo desvio, se acabaria de volta ao começo. É certo: o Gulag não é tão bom, o código trabalhista mais severo do mundo era bastante desagradável, mas realmente havia alguma escolha? Afinal, a Rússia teve de ser industrializada e modernizada, e não se pode fazer uma omelete sem quebrar ovos, somente se poderia superar o atraso por meios bárbaros. Ontem, “nós” chamávamos isso de construção do socialismo “por meios bárbaros”. Hoje, “nós” chamamos de construir uma nova sociedade de classe mais avançada do que o capitalismo “por meios bárbaros”. Hoje, entretanto, assim como ontem, “nós” temos que “objetivamente” aprovar a burocracia – não obstante todos os seus crimes despóticos – como “historicamente necessária”. E assim por diante, ad nauseam.

Essa armadilha é facilmente evitada pela interpretação marxista, ou seja, trotskista, da história soviética e do papel da burocracia. Tudo o que é progressista sobre o desenvolvimento da Rússia, China, etc., é produto de uma revolução socialista. Tudo o que é reacionário é produto do domínio da burocracia. Não há interseção lógica, mas uma contradição flagrante entre ambos. Isso implica que a burocracia não é uma classe, mas um câncer parasitário no corpo do proletariado: a sociedade soviética não é um novo modo despótico de produção, mas uma sociedade em transição entre capitalismo e socialismo, presa em seu desenvolvimento progressista – atolada, congelada – por uma ditadura burocrática, que deve ser derrubada para reabrir o caminho para o socialismo.

No entanto, se a suposição de que a burocracia, como uma nova classe dominante exploradora, é progressista em comparação com a burguesia leva a conclusões graves, a suposição de que ela é reacionária em relação aos capitalistas tem implicações dez vezes piores. Isso significaria que, em um conflito entre a “nova classe”, ou a “nova classe” em potencial, e a burguesia, seria necessário dar um apoio crítico a esta última contra a primeira.

IV

Se a sociedade burguesa não liderou e não conduziu – pelo menos no futuro previsível – a revoluções proletárias, mas “burocráticas”, e se em uma dúzia de países não há um Estado operário (seja ele fortemente burocratizado), mas uma nova sociedade de classe despótica que substituiu o capitalismo, conclui-se que havia, obviamente, algo errado com as projeções e perspectivas históricas de Marx e dos marxistas clássicos. Além disso, havia também, obviamente, algo de básico errado com a sua análise social, econômica e política da sociedade burguesa em si, da natureza de suas contradições internas e, especialmente, da natureza do proletariado moderno.

O conceito de socialismo de Marx – que foi compartilhado por quase todos os socialistas até o final da década de 1920 – era o de uma sociedade livre de produtores associados, desenvolvida a partir das características econômicas, sociais, políticas, culturais e mesmo psicológicas específicas da classe trabalhadora (a classe assalariada), esboçada no Manifesto Comunista e refinada nos escritos subsequentes de Marx e Engels sobre o assunto.

Se alguém acredita que o capitalismo poderia levar a uma nova sociedade de classes tanto como ao – ou, no lugar do – socialismo, que a classe trabalhadora poderia dar lugar a uma nova “classe dominante exploradora” ao invés de liderar o processo de emancipação humana em geral, então surge a questão: essa análise do potencial revolucionário e libertador da classe trabalhadora moderna não estava completamente errada desde o início? Não foram poucos os teóricos que se lançaram nessa direção, sendo o último capítulo de Capital Monopolista, de Baran e Sweezy, um dos primeiros e mais notáveis ​​esforços nesse caminho. Recentemente, o comunista oposicionista da Alemanha Oriental, Rudolf Bahro, manchou o seu livro A Alternativa – no geral um livro impressionante, de longe a crítica marxista mais completa que saiu de um país dominado pela burocracia estalinista desde A Revolução Traída, de Trotski – por um julgamento ainda mais franco e sintético deste tipo: “O proletariado luta espontaneamente apenas para adotar o modo de vida da burguesia, pelo menos da pequena burguesia, que é mais próxima dele”. É claro que Herbert Marcuse, como se poderia esperar, expressou entusiasmado acordo com esse julgamento.

Não vamos nos debruçar sobre a questão de saber se tal rejeição da análise marxista clássica da classe trabalhadora – a ocidental assim como a soviética – implica ou não que o socialismo e uma sociedade sem classes se tornaram impossíveis. As várias tentativas de encontrar um “sujeito revolucionário” substituto do proletariado moderno – camponeses do Terceiro Mundo, estudantes revolucionários, a intelligentsia, ou mesmo pobres marginalizados – não levam em consideração o que foi o principal avanço alcançado por Marx para o movimento socialista: que a natureza da sociedade a ser criada está pelo menos correlacionada com a natureza social, o poder econômico, o potencial sociopolítico e os interesses materiais do “sujeito revolucionário”, e não ao grau de indignação moral e rebelião individual contra a ordem existente desse ou aquele grupo de pessoas. Não se pode demonstrar como nenhum dos estratos sociais acima mencionados poderia desenvolver quaisquer condições materiais e sociais necessárias para criar uma sociedade verdadeiramente sem classes em um grau mais elevado do que a classe trabalhadora moderna. É verdade, no entanto, que 150 anos de luta de classes do proletariado moderno (deixando de lado as revoltas de fome dos estágios iniciais, que Bahro exclui corretamente de sua análise e caracterização) podem ser subsumidos na fórmula de “espontaneamente… apenas para adotar o modo burguês – ou pequeno burguês – de vida”?

O quão cego é necessário ser à rica, variada e apaixonada história das lutas da classe trabalhadora, na qual capítulos de “conformismo” monótono se colocam lado a lado com capítulos de capacidade de tirar o fôlego de imaginação, de inovação, de heroísmo inigualável, para se fazer tal generalização tão injustificada! Estavam os trabalhadores da Comuna de Paris, os trabalhadores revolucionários da Rússia em 1917-21, da Alemanha em 1918-23, da Espanha em 1936-37, da Iugoslávia em 1941-1945, da Hungria em outubro-novembro de 1956, de Cuba em 1959-65, da França em maio de 1968, de Praga em 1968-1969, da Itália no outono de 1969, de Portugal em 1975, do Irã em 1979, apenas “tendendo espontaneamente adotar o estilo de vida da burguesia”? E, novamente: estavam os trabalhadores da Espanha em 1975-76 – onde nós testemunhamos, pela primeira vez na história, diante de um intacto aparelho repressivo fascista, várias greves gerais regionais de caráter político em prol daquela típica “demanda de estilo de vida burguês”, a defesa e a libertação de prisioneiros políticos – se comportando de acordo com os preceitos de Bahro? E estes são apenas os exemplos mais destacados que vêm à mente. Podem-se acrescentar dezenas de outros exemplos a esta lista – alguns poucos da história da classe trabalhadora americana também.

Diante dessa imagem real da luta da classe trabalhadora ao longo do último século ou mais, diante da evidência histórica esmagadora, a pergunta “por que não houve uma revolução socialista vitoriosa no Ocidente?” deve ser reformulada em sua maneira historicamente correta, assim: “por que ainda não houve tal vitória, apesar das tentativas espontâneas e periódicas do proletariado de reconstruir a sociedade ao longo de linhas socialistas – tentativas que, obviamente, confirmam a possibilidade de tal vitória?”. Dessa forma, a resposta deve ser procurada em termos da dificuldade de empreendimento, do papel do fator subjetivo, da necessidade de uma liderança revolucionária, do desenvolvimento desigual da consciência da classe proletária, do papel de freio deliberado, primeiramente desempenhado pela social-democracia (Alemanha 1918-19), e, posteriormente, pelos partidos estalinistas (Espanha 1936-37). Ou seja, a verdadeira dialética histórica das pré-condições objetivas e subjetivas para o socialismo mundial, que só podem surgir como um empreendimento consciente e por uma sociedade objetiva e materialmente capaz de realizá-las. Não há força desse tipo na sociedade burguesa que não seja o proletariado moderno.

Os marxistas não são pessoas religiosas. Nossa convicção sobre o potencial revolucionário do proletariado baseia-se em análises científicas e verificação cuidadosa do registro histórico – não em uma fé irracional ou silogismos escolásticos. Se a esmagadora evidência histórica demonstrasse que os pressupostos de Marx provaram-se errados, então não haveria escolha senão declarar a verdade – no verdadeiro espírito do próprio Marx, que, não apenas como um gracejo, afirmou que seu lema favorito era omnibus dubitandum [deve-se duvidar de todas as coisas].

No entanto, nós argumentamos que as evidências fornecidas pela história não justificam qualquer generalização tão precipitada. É o capitalismo ocidental e a ditadura da burocracia que estão hoje em profunda e insolúvel crise social, e não o marxismo. Se alguém quiser evitar recuar em uma simples racionalização ou decepção própria com a relativa lentidão do processo histórico, da revolta contra os políticos enganadores, da fadiga e da desmoralização, então se deve manter uma sensação de proporção e dizer: vamos esperar e ver como os trabalhadores vão lutar nas próximas décadas, nem meio século. E não aguardemos passivamente, mas façamos o que pudermos para garantir que essas lutas dos trabalhadores terminem na revolução socialista vitoriosa, antes de desenhar balanços prematuros e antes da barbárie assumir.

Estamos de volta ao ponto em que começamos, mas com uma vingança. Sim, a questão de saber se a burocracia soviética é uma nova classe dominante está diretamente ligada à questão do futuro da revolução mundial e, portanto, do futuro da humanidade, além de estar também diretamente relacionada à questão do potencial socialista revolucionário da classe trabalhadora e à própria possibilidade do socialismo, isto é, ao socialismo científico como tal. Essas questões estão no centro da análise de Marx e do “sistema marxista”. E não há evidências de que esse sistema já não seja tão sólido e firmemente baseado como sempre foi.

Nota:

[1] A tomada do poder pela burocracia não “se desenvolve a partir das condições criadas pela própria revolução” – declaração que evita tomar posição sobre as lutas políticas concretas que ocorreram durante os anos vinte na URSS! Desenvolve-se a partir de uma contrarrevolução política vitoriosa (uma “contrarrevolução dentro da revolução”, se se desejar, o precedente clássico é o Termidor durante a Revolução Francesa). À luz desse fato, Sweezy faz à Oposição de Esquerda uma séria injustiça ao não mencionar que ela começou, em 1923 – possivelmente alguns anos mais tarde –, uma luta consistente pela democracia soviética e pelo aumento dos direitos políticos para a classe trabalhadora.

Agradeço a atenciosa revisão feita pelo meu companheiro, amigo e camarada Marcio Lauria Monteiro.

30 de maio de 1974

Calvino fabuloso

Gore Vidal

The New York Review of Books


The Path to the Nest of Spiders
by Italo Calvino, translated by Archibald Colquhoun
Beacon

The Baron in the Trees
by Italo Calvino, translated by Archibald Colquhoun
Random House

The Nonexistent Knight and the Cloven Viscount
by Italo Calvino, translated by Archibald Colquhoun
Random House

Cosmicomics
by Italo Calvino, translated by William Weaver
Harcourt, Brace and World

t zero
by Italo Calvino, translated by William Weaver
Harcourt, Brace and World (published in England as Time and the Hunter)

The Watcher and Other Stories
by Italo Calvino, translated by William Weaver, Archibald Colquhoun, and Peggy Wright
Harcourt Brace Jovanovich

Invisible Cities
by Italo Calvino, translated by William Weaver
Harcourt Brace Jovanovich

Tradução / Entre o final da Segunda Guerra, em 1945, e o início da Guerra da Coréia, em 1950, houve uma explosão de atividade criativa por todo o império norte-americano, bem como nos Estados clientes da Europa Ocidental. De A Era da Ansiedade [Age of Anxiety] de Auden a Reflexos em um Olho Dourado [Reflections in a Golden Eye], de Carson McCullers; de O Céu que nos Protege [The Sheltering Sky], de Paul Bowles, a Um Bonde Chamado Desejo [A Streetcar Named Desire], de Tennessee Williams; dos balés de Tudor aos ardorosos arrebatamentos de Bernstein, foi um período empolgante e excitante. Os ventos da Guerra Fria ainda eram só uma brisinha gelada, e o então jovem senador de Wisconsin era apenas mais um político genial com uma quedinha por bebida e um olho gordo para rapazes. Naquela época feliz, um jovem escritor norte-americano podia zanzar, triunfante, pelas velhas cidades europeias – as taxas de câmbio eram inteiramente favoráveis.

Nesta primavera, completam-se vinte e seis anos desde que desembarquei em Roma. Primeiras impressões: forsítia amarelo-ácido no Monte Gianicolo. Glicínia violeta no Fórum. Nacos de carne de cabra no prato da trattoria. Samuel Barber na Academia Americana, falando em italiano impecável. Harold Acton deplorando, com extrema polidez, nossa presença bárbara na Europa dele. Frederic Prokosch no café Doney’s, comendo bolos. Ruas sem carros. Se lá existisse tráfego de qualquer espécie, Tennessee Williams já devia estar havia muito tempo morto e enterrado no Cemitério Protestante, porque, apesar de gabar-se de ser “praticamente cego de um olho”, o que alardeava com orgulho, dirigia um jipe, furando sinais vermelhos e tratando ruas e calçadas como se fossem uma coisa só.

Visitei George Santayana em sua cela-quarto de hospital no Convento das Freiras Azuis. Ele estava vestindo um robe, a gola à Lord Byron aberta no pescoço mirrado, e um colete cor-de-malva desbotado. O homem era genial, a ponto de transformar a própria surdez em virtude: “Eu falo. Você só escuta”. Um sorriso maroto; olhos pretos brilhantes – ele parecia exatamente igual à minha avó, tivesse ela, dramaticamente, ficado careca.

“Você conhece meu jovem e novo amigo, Robert Lowell?” Respondi que não. “A vida dele vai ser difícil. Ser um Lowell. De Boston. Convertido ao Catolicismo”. Os olhos pretos dele brilharam com adorável malícia. “E é poeta, também! Minha nossa! Agora, me diga uma coisa, quem é esse tal de Sr. Edmund Wilson? Ele veio aqui me ver. Acho que ele deve ser muito importante. Na verdade, creio que ele disse ser muito importante”. “Você me mandou um livro”, Santayana comentou. Respondi que não tinha mandado livro algum. Ele insistiu: “Mandou, sim”, e aí ficou bastante irritado. Tentei explicar a ele que não envio livros. Mas depois me lembrei que, na ocasião em que fomos resgatados pelo exército dos Estados Unidos – “e como ficamos alegres de ver você!” – uma olhadela carinhosa para mim – (ainda havia quem usasse uniforme cáqui e o cinturão puído do Exército) –, “um major, um sujeito bastante forte e impetuoso, veio me ver, carregado de livros meus. Ele se pôs de pé à minha frente e me obrigou a autografar todos... este para fulano, este outro para beltrano. Fiquei apavorado e fiz o que ele me pediu. Talvez um daqueles livros tenha sido para o Sr. Wilson”.

Na cela de Santayana os únicos livros existentes eram os seus próprios – além de uma série de volumes da História de Toynbee, publicada havia pouco, e que estava lendo à sua maneira característica, ou seja, primeiro quebrava (ou descolava) a lombada do livro e separava as seções; então, à medida que ia acabando de ler os capítulos, ia jogando no cesto de lixo. “Parece uma espécie de pregador, creio”, afirmou a respeito de Toynbee. “Mas as notas de rodapé não são de todo irrelevantes”.

Santayana autografou para mim um exemplar de The Middle Span; antes de seu nome, escreveu “de”. “Quase nunca faço isso”, me disse. Um olhar de apreciação. “Você aparenta ser mais jovem do que é de fato, porque sua cabeça é um tanto quanto pequena em relação ao seu corpo”. Isso foi em 1948, quando os conquistadores norte-americanos viviam em Roma e Paris, flanando pelas ruas ainda vazias de automóveis e dos bilhões de seres humanos que desde então se juntaram a nós.

Naquele tempo longínquo, as pessoas se encontravam e conversavam sobre romances e romancistas, do mesmo jeito que agora falam sobre filmes e diretores de cinema. Os jovens de hoje em dia pensam que estou exagerando. Mas, de fato, naquela época os romancistas eram realmente importantes, e o romance italiano, em particular, florescia a olhos vistos, numa espécie de apogeu. Em contrapartida, os escritores norte-americanos em Roma e Paris não recebiam o mesmo entusiasmo. Em primeiro lugar, porque os italianos estavam apenas engatinhando na leitura de Dos Passos e Steinbeck – a geração que permanecera sem tradução durante a era fascista. No mais, naquele tempo (e hoje também) poucos autores italianos falavam ou liam em inglês com facilidade, enquanto que por sua vez os escritores norte-americanos (ainda que atualmente isso não ocorra com tanta freqüência) orgulhosamente se limitavam a falar somente inglês.

Lembro-me do dia em que, em 1948, caiu-me às mãos um livro de Italo Calvino. “Um Calvino italiano”, repeti para mim mesmo, fixando para sempre na memória aquele nome. À-toa, fiquei imaginando e me perguntando que tipo de livro e sobre que assunto um homem chamado Calvino poderia escrever. Passei os olhos pelo primeiro romance dele, A trilha dos ninhos de aranha. Alguma coisa a ver com os partigiani na Ligúria. Um colega romancista de guerra. “Não”, pensei, e deixei para lá, pondo o livro de lado. Apenas notei que o autor era dois anos mais velho que eu, trabalhava na Editora Einaudi e vivia em Turim.

Ano passado li Calvino de cabo a rabo, começando pelo mesmo livro que, em 1978, merecera de mim apenas uma rápida folheada. Traduzido para o inglês como The Path to the Nest of Spiders, o primeiro romance de Calvino é exuberante, e traz uma história contada de modo franco e direto. Ainda que a escrita seja convencional, há uma estranha intensidade na maneira com que Calvino vê as coisas, uma precisão de escrutínio e uma minúcia de exame muito próximas ao estilo de William Golding. Assim como Golding, Calvino sabe como e quando preencher inteiramente, fazendo uso pleno de todos os sentidos, paisagem, estado de espírito, ato. No romance The Spire, o retrato que Golding pinta da malfadada igreja é tão real que o leitor sente o cheiro da argamassa, vê as nuvens de poeira, teme pelas pedras fora do lugar. Calvino faz o mesmo ao narrar a história de Pin, menino que vive no litoral da Ligúria, perto de San Remo (embora tenha crescido em San Remo, Calvino nasceu em Cuba, detalhe biográfico a que absolutamente nenhuma editora norte-americana de seus livros faz menção, sem dúvida em deferência à nossa recente e malograda tentativa de conquistar aquela desafortunada ilha).

Pin mora com a irmã, que é prostituta. Passa os dias numa taberna de má-fama, onde diverte com canções, insulta e provoca os adultos, raça de monstros no que lhe diz respeito e até onde ele saiba, mas é que não tem outra companhia, pois “é um menino que não sabe brincar, e que não consegue tomar parte das brincadeiras nem dos garotos nem dos adultos”. Pin sonha, contudo, em encontrar “um amigo, um verdadeiro amigo, que o compreenda e que ele possa compreender, e então, só para ele, Pin mostrará o lugar das tocas das aranhas”:

É um atalho pedregoso que desce para a torrente entre duas paredes de terra e grama. Ali, em meio à grama, as aranhas fazem suas tocas, uns túneis forrados de cimento de grama seca; mas o mais maravilhoso é que as tocas têm uma portinha, também feita daquela massa seca de grama, uma portinha redonda que pode ser aberta e fechada.

É este tipo de observação precisa, quase científica, que distancia Calvino da qualidade sentimentalista que prevalecia na década de 1940, período em que mães negras ensinavam a seus sábios filhos lições de compaixão, ao mesmo tempo em que fritavam miúdos de porco e Jesus em partes iguais ao sul da linha Mason-Dixon.

Pin junta-se aos guerrilheiros nas colinas acima da costa da Ligúria. Desconfio que Calvino esteja sonhando isso tudo, porque escreve feito um rato de biblioteca livresco e míope usando as lentes erradas: objetos absolutamente próximos são descritos de maneira vívida, mas as distâncias intermediárias e mais afastadas da guerra e da paisagem tendem ao borrão indistinto. O que, entretanto, não faz a menor diferença, pois os sonhos de um jovem míope dando os primeiros passos na carreira literária podem muito bem ser mais reais ao leitor do que as robustas e tumultuosas reportagens de alguns jornalistas-romancistas que, a despeito de sua presença efetiva e ostensiva lá, vendo tudo, nada viram.

Embora Calvino consiga fazer-se evidente na pele da criança ultrajada e ultrajante, insultada e insultuosa, ofendida e ofensiva, provocada e provocadora, os homens e mulheres que cria são quase sempre sombrios. Mais tarde, ao longo da carreira, Calvino acabará eliminando tanto homens quanto mulheres, à medida que vai recriando o cosmos. Enquanto isso, de início é um escritor ardente, intenso, expressivo, se não é aqui e ali algo canhestro. Ao longo de dois terços da narrativa ele desloca o ponto de vista de Pin para um par de comissários, personagens que teriam sido mais eficazes tivesse o autor observado ambos pelo lado de fora. Depois, confusamente, mais uma breve mudança de foco narrativo, agora para a mente de um traidor prestes a ser fuzilado. Por fim, a voz narrativa retoma o ponto de vista de Pin, bem na hora em que o garoto encontra o tão aguardado amigo, um jovem guerrilheiro chamado Primo, que o leva pela mão não apenas literalmente, mas, ao que se presume, pelo resto do tempo de que Pin ainda precisa para virar adulto. Os últimos parágrafos de Calvino são sempre exultantes – aquele tipo de coda alegre e agradável que somente um profundo pessimista acerca das coisas humanas poderia escrever. Mas então, assim como um dos companheiros de Pin, Lobo Vermelho, Calvino “pertence àquela geração que se formou olhando os álbuns coloridos de aventuras; só que ele levou tudo a sério, e a vida até agora não o desmentiu”.

Em 1952 Calvino publicou O visconde partido ao meio, um dos três romances curtos depois reunidos sob o título Os Nossos Antepassados. São obras engajadas, escritas num estilo levemente semelhante ao ciclo dos romances arturianos de T. H. White. O narrador de O Visconde Partido ao Meio é, mais uma vez, um menino órfão. Durante uma Guerra entre a Áustria e a Turquia (1716), o tio do garoto, o Visconde Medardo di Terralba, leva uma bala de canhão no peito e tem o corpo rachado ao meio, de cima abaixo, em sentido longitudinal. Salvo pelos médicos ainda no campo de batalha, o mutilado Visconde é mandado de volta para casa, com uma perna, um braço, uma bochecha, um olho, meio nariz, meia boca etc. No caminho, Calvino presta (irônica?) homenagem a Malaparte: “A faixa de planície que atravessavam achava-se de fato cheia de carcaças eqüinas, algumas para cima, com os cascos voltados para o céu, outras de bruços, com o focinho enfiado na terra”. – Bela reprise dos cavalos mortos em A Pele.

A história é contada de modo alegre, divertido, esperto, bem-humorado. O meio Visconde é um completo mau-caráter, um vilão cruel que obtém enorme prazer matando, incendiando, torturando. Chega a atear fogo ao próprio castelo, na esperança de reduzir a cinzas sua velha ama Sebastiana – por fim, manda a criada para uma colônia de leprosos. Tenta envenenar o sobrinho. E nunca cessa de talhar em duas partes, a golpes de espada, todas as criaturas que encontra. Tem obsessão pela idéia da metade, da divisão, da incompletude:

– Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira – disse meu tio, de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo –, que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e só havia a casca. Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa.

Noto que a sinopse da contracapa quer fazer crer que se trata de “uma alegoria do homem moderno – alienado e mutilado; este romance tem profundas implicações e nuances. Como paródia das parábolas cristãs a respeito do Bem e do Mal, a obra é a um só tempo espirituosa, atual e agradável”. Bem, pelo menos o livro é mesmo espirituoso, atual e agradável. A bem da verdade, a história é menos cristã do que uma sátira das idéias de Platão como um todo.

No devido tempo, eis que ressurge na cidade a outra metade do Visconde, esta insuportavelmente bondosa e profundamente chata. A metade boa também renega a inteireza e faz o elogio da não-inteireza, porque “isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletitude. Eu era inteiro e não entendia”. Uma bela e encantadora pastora de cabras chamada Pamela (homenagem a Richardson) torna-se o objeto do amor das duas metades laceradas do Visconde, mas tem sérias reservas em relação a ambas. “Fazer boas ações juntos é a única maneira de nos amarmos”, entoa a metade bondosa. Ao que a irritadiça moça responde, “Pena. Pensei que houvesse outras maneiras”. Quando, por fim, as duas metades são novamente unidas, o Visconde volta a ser um homem inteiro, mas o resultado é a costumeira mistura humana, não muito interessante. Num final feliz, ele se casa com Pamela. Mas o menino-narrador não fica contente. “Em meio a tantos fervores de integridade, eu me sentia cada vez mais triste e carente. Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem”.

O visconde partido ao meio é recheado de imagens naturais derivadas de observação cerrada e minuciosa, como “O subsolo estava tão abarrotado de formigas que era só enfiar a mão em qualquer lugar e sair com ela toda preta e fervilhando”. Não sei o que foi escrito primeiro, O visconde, que é de 1952, ou “A formiga-argentina”, conto incluído em Botteghe Oscure, revista de literatura publicada no mesmo ano, mas o fato é que o pesadelo calviniano de um mundo infestado por formigas, tema mencionado apenas de passagem no romance do visconde dilacerado, vem a ser o mote principal do conto, e desconfio que agora devo repisar naquela palavra quase sempre tão castigada e mal empregada: “obra-prima”. Ou, usando outros termos, se “A formiga-argentina” não é uma obra-prima da prosa do século XX, não sei o que é, pois não consigo pensar em nada melhor. Certamente é tão ameaçador e estranho como qualquer coisa escrita por Kafka. E é também terrivelmente engraçado. Em cerca de quarenta páginas, Calvino nos apresenta “a condição humana”, segundo anotariam, exagerando, todos os escrevinhadores de sinopses, resumos, orelhas e resenhas. Ou seja, a condição humana atual. Ou o dilema do homem moderno. Ou o meio ambiente corrompido. Ou a vingança da natureza. Ou uma alegoria da graça divina. Sei lá, qualquer coisa... Mas, no fim das contas, a história é o que é, nada mais.

A primeira frase de Calvino é bem melhor até do que a primeira sentença de Deus, “No princípio, era o Verbo”. Deus (conforme foi revelado a São João) sempre teve propensão para abstrações nebulosas e confusas, do mesmo tipo dos devaneios estimados e praticados pelos novelistas norte-americanos da categoria peso-pesado – ao contrário de Calvino, que, preciso, leve, simplesmente nos conta o que acontece: “Nós não sabíamos dessa coisa das formigas quando viemos nos estabelecer aqui”. Nada há de absurdo em “aqui” e “nós”. Aqui é um lugar infestado de formigas, e nós é a família nuclear: pai, mãe, filho. Sem nomes.

A família aluga uma casa numa cidadezinha “onde nosso tio Augusto costumava se sentir bem. O tio até que gostava bastante do lugar, embora tivesse dito, ‘Lá, vocês tinham que ver, as formigas... não como aqui, as formigas...’ Mas na época não prestamos muita atenção”. Enquanto mostra a casa para o jovem casal que acabou de alugar a propriedade, a senhora Mauro, a senhoria local, distrai a atenção dos incautos com uma longa dissertação sobre o relógio do gás, evitando que prestem muita atenção às paredes. Quando a mulher vai embora, marido e mulher põem o filhinho para dormir e saem para dar um passeio pelo terreno da casa. Encontram o vizinho espargindo as plantas do jardim com um vaporizador. “É... as formigas... essas formigas...”, ele explica, e ri, “como se não quisesse dar importância”.

O jovem casal volta para casa e encontra tudo assolado por filas cerradas de formigas. As formigas-argentinas. De súbito, ocorre ao marido-narrador que já tinha ouvido falar naquelas formigas e naquele país. “Fica na América do Sul”, informa, professoral, querendo ser útil e benévolo para a furiosa esposa. Por fim, vão dormir pela primeira vez na casa nova, sem “a sensação de alívio por iniciar uma nova vida, mas apenas com o sentimento de que éramos arrastados rumo a um futuro repleto de novas dificuldades”.

O resto da história narra os recursos e estratégias utilizados pelos vários moradores do vale para enfrentar as formigas. Alguns apelam para venenos e inseticidas; outros criam geringonças e dispositivos fantásticos para tentar confundir ou matar os insetos; sabe-se que, havia vinte anos, ostensivamente um representante da Corporação de Controle da Formiga-Argentina espalhava melado pela cidade de modo a controlar (matar) as formigas, o que muitos acreditavam que era feito apenas para alimentar e fortalecer os insetos. O furioso casal faz uma visita a senhora Mauro e exige explicações. Na sala sombria de seu casarão palaciano, a senhoria se mantém firme: não existem formigas em casas que são bem limpas e cuidadas; mas, pela maneira com que ela se contorce na poltrona, fica claro que os insetos estão formigando, picando e passeando por debaixo de suas roupas.

Metodicamente, Calvino descreve as várias reações humanas diante da Condição. Há o Cientista Cristão, que ignora toda e qualquer evidência; há a aceitação maniqueísta do Mal; há a inabalável crença darwiniana de que a superioridade genética vai prevalecer. Mas as formigas revelam-se figuras inquietantes e indestrutíveis, e a história termina com a fuga da família para o litoral, onde não há formigas, e onde

A água estava calma, quase só com uma leve e contínua troca de cores, preto e azul, cada vez mais escuros conforme aumentava a distância. Eu pensava nas vastidões de água como aquela, nos infinitos grãozinhos de areia fina lá no fundo do mar, onde as correntes depositam cascas brancas de conchas polidas pelas ondas.

Não sei ao certo o que significa este final. E também não vejo razão para que tenha que significar alguma coisa. É estabelecido um contraste entre o vale fervilhante de formigas e a fresca serenidade dos minerais e conchas escondidos sob as águas, aquele outro ar que não respiramos mais desde que nossos antepassados escolheram viver na superfície da terra.

Em 1956 Calvino editou um volume de Fábulas Italianas, e os críticos locais decidiriam que ele era um verdadeiro herdeiro dos Grimm. É certo que o mundo encantando e fatal dos contos de fadas atrai Calvino, que volta ao gênero com O barão nas árvores. Assim como nas duas outras partes da trilogia, a história é narrada na primeira pessoa, no caso pelo irmão do barão epônimo. O ano é 1767. O lugar, a Ligúria. O barão do título é Cosimo [Cosme] Piovasco di Rondó, que, depois de uma discussão à mesa do jantar, no dia 15 de Junho, decide ir viver nas árvores. A família e os amigos reagem de maneira diversa à atitude do jovem barão. Mas Cosme está feliz. Mais tarde entra na política, trava relações como o próprio Napoleão em pessoa; torna-se uma lenda.

A essa altura Calvino já desenvolveu dois modos de escrita. Um é literariamente fabuloso-fabular-fabulista. O outro tem por base um estilo seco, didático até, em que o detalhe é observado de maneira absolutamente precisa, como se o autor estivesse escrevendo um manual para a construção de painéis solares. Contudo, as premissas das histórias “secas” são quase sempre tão fantásticas quanto às das fábulas.*

O conto “A nuvem de smog” foi publicado em 1958, muito tempo antes da hoje tão em voga preocupação com a destruição sistemática do meio ambiente. O narrador chega a uma cidade grande para assumir o cargo de redator de um jornal de pequena circulação chamado A Purificação. O dono do periódico, o Comendador Cordà, é engenheiro e um importante industrial, responsável pela produção do tipo de poluição do ar que sua própria publicação gostaria de ver eliminada. A posição de Cordà é ambígua, e o novo editor acaba se encaixando muito bem na função. Predomina no conto a imagem do smog: um finíssimo véu de poeira cinzenta cobre tudo; nada jamais pára limpo. A cidade se parece muito com o vale em que vivem as formigas-argentinas, mas numa escala maior, porque agora toda a vasta população da cidade vai lentamente sendo sufocada pela neblina fumacenta e carregada de produtos químicos da indústria e de seus motores a explosão.

O humor de Calvino é fino e ferino no episódio em que o dono do jornal dá instruções ao redator sobre como encontrar o tom mais adequado para o artigo de fundo: “Nós não somos utópicos, que isso fique bem claro, somos pessoas práticas...”, ou “É uma batalha por motivos ideais”, ou “Não haverá (nem, aliás, com efeito nunca houve) contradição entre uma economia em livre expansão natural e a higiene necessária ao organismo humano… entre a fumaça de nossas operosas chaminés e o azul e o verde de nossas incomparáveis belezas naturais”. Por fim, os dois chegam a um entendimento sobre o teor ambivalente do editorial: “Somos uma das cidades onde a situação atmosférica é mais grave, mas ao mesmo tempo onde mais se faz para estar à altura da situação! As duas coisas, entende?”. Com uns bons quinze anos de antecedência, Calvino pressagiou os anúncios de duplo sentido da Exxon na televisão norte-americana.

Esta é a primeira vez em que numa história de Calvino há um caso amoroso realista entre homem e mulher – bem, mais ou menos realista. Nunca chegamos a saber como a belíssima, rica e elegante Claudia conhecera o narrador ou que ela via nele; ainda assim, periodicamente ela investe sobre ele, deixando-o confuso (“para abraçá-la, eu tinha tirado meus óculos”). Um dia os dois tomam um táxi e vão passear fora da cidade. O narrador faz comentários a respeito da feiúra da cidade e da presença ubíqua das névoas e brumas do smog. Mais tarde, Claudia dirá que “os homens perderam o senso da beleza”, ao que o jornalista responde, “A beleza é inventada continuamente”. Os dois começam uma discussão cerrada; ele conclui que tudo é cruel. O narrador trava amizade com um proletário sindicalizado, contrário a Cordà. O narrador admira o operário Omar, admira “os obstinados, os duros”. Mas Calvino não chega nunca a se engajar de verdade, no sentido sartreano. Porque suspeita que a cilada em que todos estamos metidos é complicada demais para ser resolvida pelo mero debate político.

O narrador começa a escrever sobre radiação atômica na atmosfera; sobre como o clima está mudando mundo afora. Será que existe relação entre uma coisa e outra? Por um momento, até mesmo Cordà fica alarmado. Mas aí a vida continua, pois o próprio industrial é “o dono do smog, era ele que o soprava ininterruptamente sobre a cidade”, e seu periódico era uma criatura “nascida da necessidade de dar a quem trabalhava pelo smog a esperança de uma vida que não fosse só do smog, mas ao mesmo tempo para celebrar a potência do smog”.

O final da história se assemelha ao final de “A formiga-argentina”. O narrador vai até os arrabaldes da cidade, seguindo as carroças dos lavadeiros. Em meio aos campos branquejantes de roupa estendida, a visão é alegre e animadora. “Não era muito, mas para mim, que não procurava nada mais do que ter imagens sob os olhos, talvez bastasse”.

No ano seguinte, 1959, Calvino troca de estilo. O cavaleiro inexistente é a última parte da trilogia Os Nossos Antepassados, embora cronologicamente venha em primeiro – na era carolíngia. Mais uma vez há uma guerra em curso. O leitor só vem a conhecer o narrador lá pela página 36: irmã Teodora, religiosa da ordem de são Columbano, incumbida de escrever a história como penitência, “pela saúde da alma”, como um modo de ganhar a salvação eterna. Desafortunadamente, a trama dá muito trabalho para a freira; nem tudo na história está claro para ela, porque “Nós, freiras, temos poucas ocasiões de conversar com soldados (...) Vocês vão me desculpar: somos moças do interior, ainda que nobres, tendo vivido sempre em retiro, em castelos perdidos e depois em conventos; excetuando-se as funções religiosas, tríduos, novenas, trabalhos de lavoura, debulha de cereais, vindimas, açoitamento de servos, incestos, incêndios, enforcamentos, invasões de exércitos, saque, estupros, pestilências, não vimos nada. O que pode saber do mundo uma pobre freira?”.

A irmã Teodora faz o melhor que pode para narrar a história de Agilulfo [Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez], cavaleiro que não existe. O que existe é uma armadura toda branca, “bem conservada, sem um risco, bem-acabada em todas as juntas, encimada no elmo por um penacho”, de onde emerge a voz metálica de Agilulfo, cavaleiro totalmente devotado à santa causa e ao serviço do imperador Carlos Magno. Passando em revista os paladinos, Magno chega à frente do cavaleiro-que-não-há; diante da explicação de Agilulfo, e diante da constatação de que há em sua tropa até mesmo um cavaleiro que não existe, graciosamente o sire se permite concluir, “Bom, para alguém que não existe está em excelente forma!”. Uma vez que não existe, Agilulfo não tem fraquezas nem apetites; é o cavaleiro perfeito, um modelo de soldado, e antipático a todos. Para Agilulfo, “o corpo das pessoas que tinham um corpo de verdade dava-lhe um mal-estar semelhante à inveja, mas também uma sensação que era de orgulho, de desdenhosa superioridade”. Para vingar a morte do pai, um jovem chamado Rambaldo (uma versão mais velha de Pin e do sobrinho do visconde partido ao meio) junta-se ao exército de Carlos Magno. Agilulfo dá ao novato conselhos insípidos. Sucedem-se batalhas. A narradora faz observações genéricas: “E o que é a guerra além desse passar de mão em mão coisas cada vez mais amassadas?”. As tropas deparam com um homem chamado Gurdulu, que se confunde com as coisas do mundo exterior. Quando toma sopa, torna-se a sopa, pensa que ele próprio é a sopa a ser tomada: “’Tudo é sopa’!, e numa das mãos brandia a colher como se quisesse puxar para si colheradas de tudo aquilo que havia ao redor: ‘Tudo é sopa!’. Aquela visão provocou em Rambaldo uma perturbação capaz de fazer-lhe rodar a cabeça: mas era mais uma dúvida que um arrepio – que aquele homem que girava ali na frente sem enxergar tivesse razão e o mundo não fosse nada mais que uma imensa sopa sem forma em que tudo se desfazia e tingia com sua substância todo o existente”.

Aqui Calvino anuncia temas que serão mais bem desenvolvidos em obras posteriores: a confusão entre “eu” e “coisa” e entre “eu” e “você”; a arbitrariedade do nome e da nomeação das coisas, da categorização e da exclusão, particularmente porque “Ainda era confuso o estado das coisas do mundo, no tempo remoto em que esta história se passa. Não era raro defrontar-se com nomes, pensamentos, formas e instituições a que não correspondia nada de existente. E, por outro lado, o mundo pululava de objetos e faculdades e pessoas que não possuíam nome nem distinção do restante. Era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atrito com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso – por miséria ou ignorância ou porque tudo dava certo para eles do mesmo jeito – e assim uma certa quantidade andava perdida no vazio”.

Há na trama um triângulo amoroso. Rambaldo cai de amores por um colega cavaleiro que se revela uma formosa jovem, chamada Bradamante. Infelizmente, ela está apaixonada por Agilulfo, o cavaleiro que não existe. A essa altura a história fica complicada demais para a irmã Teodora, que lança ao papel a mais triste das notas que um escritor profissional poderia escrever: “Começa-se a escrever com gana. Porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre nem uma gota de vida, e a vida está toda fora, além da janela, fora de você, e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo, dar um salto”.

Por fim, a narradora consegue levar a cabo a dura tarefa de terminar a história, e apara as arestas, e fecha as lacunas. Chegam ao fim as viagens aventurosas dos cavaleiros. Agilulfo entrega sua armadura, “dissolve-se como uma gota no mar”, e deixa de fato de existir; Rambaldo é autorizado a ocupar a vestidura. Bradamante desapareceu, mas, com um elegante coup de theatre, a irmã Teodora revela, aos leitores e ao próprio livro, que a narradora da história e a guerreira Bradamante são a mesma pessoa. Agora ela precipita a narração de modo a terminar logo e tomar nos braços a armadura branca, que, ela sabe, passou a conter o jovem e apaixonado Rambaldo, seu verdadeiro amado, por quem queima de desejo: “Por isso, a certa altura, minha pena se pôs a correr. Corria ao encontro dele. Sabia que não tardaria a chegar. A página tem o seu bem só quando é virada e há a vida por trás que impulsiona e desordena todas as folhas do livro. A pena corre empurrada pelo mesmo prazer que nos faz correr pelas estradas”.

Completada a trilogia, Calvino dá uma virada e publica O dia de um escrutinador, a mais realista de suas histórias, e a mais ostensiva e abertamente política. O protagonista tem nome, Amerigo Ormea, cidadão responsável, eleitor consciente, participante do poder democrático, filiado ao Partido Comunista e escrutinador em Turim, durante as eleições nacionais de 1953. A seção eleitoral de Amerigo ficava dentro de um grande instituto religioso e hospitalar, o Cottolengo, também denominado Pequena Casa da Divina Providência, enorme hospício que dava asilo aos incuráveis, “infelizes, aos prejudicados, aos deficientes, aos deformados”. Desde que ao final da Segunda Guerra o voto se tornara obrigatório, aparentemente todos eram levados a votar: loucos, velhos moribundos, idiotas, pacientes em coma ou até mesmo os paralisados pela arteriosclerose, “gente privada da capacidade de entendimento” (“hospitais, hospícios e conventos serviam de grande reserva de sufrágios para o Partido Democrata Cristão”). Amerigo é um sereno observador das confusões e enganos da democracia, tendo afinal aprendido que “na política, as mudanças se dão por caminhos longos e complicados”; o narrador também confessa que para Amerigo, “como para tantos outros, ganhar experiência havia significado tornar-se um pouco pessimista”.

Ao decorrer do dia, naquele ambiente de desolação, Amerigo observa, com fina impassibilidade, sem curiosidade nem espanto, os bandos de padres e as “revoadas de freirinhas, às centenas”, cumprindo com sobressalto sua obrigação cívica, avançando sobre os biombos de madeira bruta e aplainada que funcionavam como cabines de votação montadas dentro do hospital-asilo. A despeito do grotesco e do burlesco de algumas situações, Amerigo está contente e sente algum prazer na trivialidade da votação, aquela “desolação rica, rica de sinais”. A ele por vezes aquilo parecia sublime, pois “na Itália, desde sempre obsequiosa com tudo o que é pompa, fausto, exterioridade, ornamento, [aquilo] parecia-lhe finalmente a lição de uma moral honesta e austera; e uma perpétua e silenciosa desforra contra os fascistas, contra os que haviam acreditado poder desprezar a democracia justamente por causa desta sua desolação exterior, por causa de sua humilde contabilidade, e haviam sido aniquilados com todas as suas franjas e seus laços, ao passo que ela, com seu descarnado cerimonial de pedaços de papel dobrados como telegramas, de lápis confiados a dedos calosos ou trêmulos, continuava o seu caminho”.

Contudo, o dia é longo, e por fim o tédio das operações sonolentas e burocráticas dá as caras e se abate sobre o escrutinador, que começa a pensar que, em vez de estar ali, poderia ter passado o domingo nos braços de Lia: “Conformado a passar o dia todo entre aquelas criaturas opacas, Amerigo sentia uma necessidade tocante de beleza, que se concentrava em pensar em sua amiga Lia”. Em devaneio, pensa em Lia, que teima em surgir em sua lembrança: “O que é esta nossa necessidade de beleza?, perguntava-se Amerigo”. Pelo visto, Calvino não avançou muito além daquele ultimo diálogo de “A nuvem de smog”. O escrutinador contempla a perfeição da Grécia clássica, mas lembra-se de que os gregos eliminavam mulheres “em excesso” e as crianças deformadas. Obviamente, colocar a beleza demasiado no alto da escala de valores “é um primeiro passo rumo a uma civilização desumana, que condenará os deformados a serem lançados do penhasco”.

Quando um dos outros escrutinadores [“o escrutinador magrela”] comenta que todos os loucos vivem juntos no Cottolengo, se vêem todos os dias, e que por isso hão de se conhecer, Amerigo descamba para o devaneio: “De uma possibilidade diferente de ser da humanidade nos lembraríamos, como nos contos de fadas, de um mundo de gigantes, de um Olimpo... Como nos acontece a nós, que talvez sejamos, sem o percebermos, deformes, deficientes, em relação a uma possibilidade diferente de ser, esquecida...”). O que é humano, o que é real?

Via de regra, a visão de Calvino é apresentada em termos fantásticos, mas aqui ele torna-se inusualmente e surpreendentemente concreto. Uma vez que elegeu iluminar uma época e um lugar reais (a Itália entre 1945 e a eleição de 1953), o autor tem condições de falar tudo, nos mínimos detalhes: “Na Itália daqueles anos o Partido Comunista assumira, entre as tantas outras tarefas, também a de um ideal, jamais existido, Partido Liberal. E assim o peito de um único comunista podia abrigar duas pessoas ao mesmo tempo: um revolucionário intransigente e um liberal olímpico”. O pessimismo de Amerigo deriva do óbvio fato de que estas duas instâncias não dão muito certo, não combinam muito bem. Sou forçado a me lembrar do comentário de Alexander Herzen acerca dos latinos: eles não querem liberdade, querem implorar pela liberdade.

Na metade do dia, Amerigo aproveita a diminuição do fluxo de votantes e vai para casa almoçar (morava sozinho, num pequeno apartamento; uma diarista fazia faxina, cozinhava para ele e o servia à mesa! Escrito em 1963 e retratando acontecimentos de 1953, é claramente um romance histórico). Procura um livro para ler. Sua biblioteca é restrita. Havia tempo procurava afastar de si a “literatura pura”: “A literatura das pessoas parecia-lhe uma extensão de lápides de cemitério: a dos vivos e a dos mortos. Agora nos livros procurava outra coisa: a sabedoria das épocas ou simplesmente alguma coisa que fosse útil para compreender alguma coisa”. Buscando uma leitura que acompanhasse e canalizasse suas reflexões, faz uma tentativa com os Manuscritos juvenis de Marx. “A universalidade do homem aparece prática e exatamente naquela universalidade que faz da natureza toda o corpo inorgânico do homem (...) A natureza é o corpo inorgânico do homem, precisamente na medida em que ela própria não é o corpo humano”. Portanto, o gênio transforma tudo em si próprio. Assim como Marx inventou O Capital a partir do capitalismo, Calvino transfigura uma passagem de Marx no próprio Calvino: o homem que toma sopa é a sopa que o toma. Completitude é tudo.

Fortalecido e confiante pela leitura do texto tranqüilizador, Amerigo fala com Lia, ao telefone. É mais uma das conversas costumeiras entre os dois, permeadas de insignificâncias e discussões banais. Ela liga de novo e diz que está grávida: “Para ele, a procriação, antes de tudo, era uma derrota de duas idéias. Amerigo era um partidário ferrenho do controle da natalidade, apesar de que seu partido naquele ponto se mostrava entre agnóstico e contrário. Nada o escandalizava mais do que a tola leviandade com que os povos se multiplicam, e quanto mais famintos e atrasados são, menos param de fazer filhos, nem tanto porque querem mais porque estão acostumados a deixar nas mãos da natureza, da desatenção, do abandono”. Na terra de Margaret Sanger, este não é um ponto de vista exatamente assustador ou alarmante, mas para um comunista italiano dos anos 60, a percepção de um mundo inteiro morrendo de crianças em excesso, de smog em excesso, era uma revelação monstruosa. Aqui Amerigo denuncia tanto a Bíblia quanto Marx como celebrantes entusiastas e insensatos da fecundidade humana.

Amerigo volta para hospital; na enfermaria, vê doentes presos à cama e crianças disformes, sem braços, cujos corpos se pareciam com peixes, e se pergunta até onde um ser humano pode se dizer humano. Por fim, o dia termina, a eleição chega ao fim. Amerigo aproxima-se da janela e contempla os edifícios tristes do complexo hospitalar. Nota que um pouco de pôr-do-sol avermelhava entre os prédios: “O sol já se tinha ido, mas restava um clarão atrás do perfil dos telhados e das quinas, abrindo nos pátios as perspectivas de uma cidade nunca vista”. E assim, o final de Calvino ressoa os primeiros acordes familiares: “Mulheres anãs passavam no pátio empurrando um carrinho com um feixe de lenha. A carga pesava. Chegou outra, do tamanho de uma giganta, e o empurrou, quase correndo, e riu, e todas riram. Outra, também grandona, chegou varrendo, com uma vassoura de piaçava. Uma bem gorda empurrava pelas varas mais altas um recipiente-carrinho, sobre rodas de bicicleta, talvez para o transporte da sopa. Até a última cidade da imperfeição tem sua hora perfeita, pensou o escrutinador, a hora, o instante, em que em toda cidade há a Cidade”.

A mais realista e específica das obras de Calvino, O dia de um escrutinador confirmou-se (até agora) como a última das narrativas “secas” do autor. Em 1965, Calvino publica As cosmicômicas: doze histórias breves de humor cósmico que tratam, sob o manto do fantástico, da criação do universo, do homem, da sociedade. Assim como o jovem amigo de Pin que achava que a vida de fato se assemelha aos álbuns coloridos de aventuras, aqui Calvino organiza sua complexa prosa de modo a compor em palavras um superálbum colorido, narrado por Qfwfq, herói-sigla cuja evolução – da vida no interior do primeiro átomo à condição de molusco no fundo do mar, a anfíbio em escalada social, a último dinossauro vivo a colhedor de leite lunar – é descrita e narrada em doze episódios estranhos e singulares, em nada parecidos com qualquer coisa que ninguém tenha escrito desde, digamos, Luciano.

“Ao nascer do dia” é a história da criação do universo conforme o testemunho e a visão de Qfwfq e sua misteriosa família, que consiste de pai, mãe, irmã, irmão, vovó, bem como uma série de tios e conhecidos – sensibilidades informes que habitam a poeira universal prestes a se tornar a nebulosa que irá conter nosso sistema solar. Quem são e onde de fato estão estas entidades cósmicas pré-humanas e pré-temporais são informações, literalmente, obscuras, uma vez que a luz ainda não foi inventada. Assim, “Não nos restava senão esperar, mantermo-nos cobertos o maior tempo que pudéssemos, cochilar, trocar umas palavras de vez em quando para estarmos certos de que continuávamos ali; e – naturalmente – coçar-nos, porque, a bem dizer, todo aquele turbilhonar de partículas só nos fazia provocar um fastidioso prurido”. E é essa coceira que começa a modificar as coisas. A matéria fluida da nebulosa começa a condensar-se. E começa também a confusão: a vovó perde sua rosca, “pequeno elipsóide de matéria galáctica”. Coisas se coagulam; forma-se o níquel; membros do grupo começam a se dispersar, flutuando e dando cambalhotas para longe, em várias direções. De súbito, a condensação está completa, e a luz irrompe. O núcleo da nébula, contraindo-se, havia gerado luz e calor, e agora havia o Sol, posto em seu lugar, e então os planetas começam a entrar em órbita. E, acima de tudo, “fazia um calor de matar”.

À medida que a Terra adquire aspecto gelatinoso, a irmã de Qfwfq, G’d(w)n, apavorada talvez pelo incêndio do Sol, desaparece na matéria em condensação, abrindo passagem nas profundezas do planeta. Não se soube mais dela, até que um dia, muito mais tarde, “fui encontrá-la em Camberra, em 1912, casada com um certo Sullivan, ferroviário aposentado, tão mudada que quase não a reconheci”.

O primeiro Calvino escrevia de modo muito próximo a seus pares, [Cesare] Pavese e [Elio] Vittorini – autores cuja tendência era refletir a narratividade de [Ernest] Hemingway e Dos Passos. Então Calvino mudou-se para Paris, onde encontrou sua própria voz (ou suas próprias vozes) e, a seu modo, foi infectado pelos franceses. Desde Os Nossos Antepassados e das três histórias que compõem O dia de um escrutinador, Calvino foi influenciado, de maneira diversa, por [Roland] Barthes e os semiólogos, por [Jorge Luis] Borges e pelo agora velho nouveau roman. N’As cosmicômicas tais influências aparecem, em geral, de modo benigno, visto que Calvino é um artista por demais formidável e original para se deixar seduzir ou desviar por teóricos ou se diluir e se perder por seguir o exemplo de outro criador. Contudo, a história “Um sinal no espaço” chega, perigosamente, quase que a ser uma homenagem reverente demais aos ideais da semiologia.

Uma vez que Sol leva cerca de duzentos milhões de anos para realizar uma revolução completa da galáxia, Qfwfq fica obcecado pela idéia fixa de fazer um sinal no espaço, algo que fosse peculiar, distinto e inconfundível o bastante tanto para marcar sua passagem, de modo a ser reencontrado, bem como para impressionar quem eventualmente pudesse estar observando. Sua ambição é o resultado do desejo de pensar, pois “pensar em algo jamais havia sido possível, primeiro porque faltavam coisas em que se pudesse pensar e segundo porque faltavam os sinais para pensá-las, mas, do momento em que havia o sinal, decorria a possibilidade de que ao pensar pensava-se num sinal, e portanto naquele, no sentido de que o sinal era a coisa em que se podia pensar e também o sinal da coisa pensada, ou seja, de si mesmo”. E então o narrador imprime no universo seu sinal, atira-o no contínuo movimento da Via Láctea, certo de que “parecia avançar para a conquista da única coisa que contava para mim, sinal e reino e nome...”.

Lamentavelmente, um contemporâneo chamado Kgwgk, despeitado e roído pela inveja, prega uma peça: apaga o sinal de Qfwfq e, tentando imitá-lo, tenta grosseiramente fazer outro no lugar. Desalentado e enfurecido, Qfwfq quer logo “traçar um novo sinal no espaço que representasse um verdadeiro sinal e fizesse Kgwgk morrer de inveja”. Portanto, é do afã de competitividade e do desejo de não admitir a vitória do rival que nasce a arte. Porém, a tarefa de fazer sinais já havia se tornado bem mais difícil, cerca de setecentos milhões de anos depois da primeira tentativa, porque as coisas eram já diversas, “o mundo estava começando a dar uma imagem de si, e em cada coisa uma forma começava a corresponder a uma função” (um dos temas de O cavaleiro inexistente) e “naquele meu novo sinal estavam sensíveis as influências de como eram vistas as coisas então, chamemo-lo o estilo, aquela maneira especial que cada coisa tinha de estar ali a seu modo”.

Qfwfq fica muito satisfeito com seu novo sinal, original e “muito mais belo”; quanto mais o tempo passa, no entanto, gosta cada vez menos de sua marca, que considera pretensiosa e despropositada e antiquada. Envergonhado do sinal, conclui que deve apagá-lo antes que o rival o veja e o ridicularize (por isso é que os escritores revisam as velhas obras ou produzem novos livros, de modo a obliterar os anteriores – sim, pode chamar isso de estilo, se quiser). Por fim, Qfwfq elimina, com o máximo cuidado, seu sinal. Durante certo tempo, fica contente com a idéia de que nada mais há no espaço que possa fazê-lo parecer idiota diante do rival – nesse aspecto, lembra bastante um sem-número de escritores de meia pataca e poetastros que dão um jeito de se refugiar nos meandros de alguma universidade e, ano após ano, valendo-se do expediente de não publicar o romance prometido ou aquele poema anunciado, só fazem crescer sua reputação.

Para o verdadeiro artista, porém, o ócio torna-se abominável. E Qfwfq começa a se divertir fazendo falsos sinais: “querendo de qualquer forma escarnecer de Kgwgk, pus-me a fazer falsos sinais, marcas no espaço, buracos, manchas, ardis que só um incompetente como Kgwgk poderia tomar como sinais”. Assim, masoquistamente, o artista zomba e ri da própria arte, destrói a própria forma (o próprio signo), brinca e faz piadas de modo a confundir e explorar as galerias da Rua 57. Mas aí as coisas começam a sair do controle. Para o horror de Qwfq, toda vez que volta a passar por aquele que acredita ser um de seus falsos sinais, encontra dúzias de outros sinais, rasuras e garatujas rabiscados sobre o sinal original, agora irreconhecível.

No fim das contas, tudo está tão obscuro por uma mixórdia de sinais sem significado que “o mundo e o espaço pareciam ser o espelho um do outro, um e outro minuciosamente historiados de hieróglifos e ideogramas, cada qual podendo ser um sinal ou não ser (...) a perna mal estampada de um R que num exemplar de um jornal da tarde se encontrava com uma escória filamentosa do papel, uma entre as oitocentas mil escoriações de um paredão alcatroado num interstício das docas de Melbourne (...) No universo já não havia um continente e um conteúdo, mas apenas a espessura geral de sinais sobrepostos e aglutinados que ocupava todo o volume do espaço”.

Qfwfq entrega os pontos. Não existe mais ponto de referência, “tão claro estava que independentemente dos sinais o espaço não existia e talvez nunca tivesse existido”. Assim a história chega ao fim; o resto é o solipsismo da arte. Ao velho debate entre ser e não-ser, Calvino acrescenta sua própria visão da multiplicidade dos signos, o que oblitera todo o significado e toda a possibilidade de significação. Se há nomes demais para uma coisa, é o mesmo que haver nome nenhum; portanto, coisa alguma, nada.

“Apostamos quanto?” dá continuidade ao mesmo tema. No início da história, Qfwfq afirma que desde sempre apostara “que o universo havia de existir, e não deu outra”. É a primeira das apostas que faz com o decano (k)yK. Ao longo das eras cósmicas, os dois vivem apostando, porque não havia mesmo mais nada para fazer, e porque era a única prova de que estavam vivos; em geral Qfwfq ganha sempre, pois “jogava na possibilidade de que um dado acontecimento pudesse ocorrer, ao passo que o decano apostava quase sempre o contrário”.

Qfwfq continua vencendo até que começam a fazer prognósticos com grandes saltos temporais, especulando sobre o futuro. “No dia 8 de fevereiro de 1926, em Santhià, província de Vercelli, correto?, na rua Garibaldi, número 18, está me acompanhando?, a senhorita Giuseppina Pensotti, de vinte e dois anos, sai de casa às cinco e quarenta e cinco da tarde: e segue para a esquerda ou para a direita?”. Aí Qfwfq começa a perder. Então começam a fazer apostas sobre personagens de romances ainda não escritos… Balzac faz Lucien Rubempré se suicidar ao final de As Ilusões Perdidas? Essa o decano ganha. A vantagem de Qfwfq diminui.

Os dois apostadores acabam tendo à disposição uma vasta fundação de pesquisa, a que recorrem para subvencioar seus estudos, com inúmeras bibliotecas de obras de consulta, revistas especializadas, calculadoras potentes. Por fim, assim como ocorre com o próprio universo, começam a se afogar em signos e símbolos. Nostalgicamente, Qfwfq rememora os primeiros tempos: “E penso como era belo então, através daquele vácuo, traçar retas e parábolas, individuar o ponto exato, a interseção entre espaço e tempo em que deveria espoucar o acontecimento, incontestável no relevo do seu fulgor; enquanto agora os acontecimentos fluem ininterruptos, como uma corrida de cimento, uns por cima dos outros, uns incrustados nos outros, separados por títulos negros e incongruentes, legíveis à vontade mas intrinsecamente ilegíveis, uma pasta de acontecimentos sem forma nem direção, que circunda submerge tritura qualquer raciocínio”.

Em outra história, “Os Dinossauros”, Qfwfq é o último dinossauro vivo do planeta, e passa a conviver com a raça que o sucederá na linha evolutiva, o ser humano. Os Novos, que havia várias gerações não tinham visto mais dinossauros, e já não sabiam reconhecê-los, não suspeitam nem percebem que se trata de um dos seus temíveis inimigos do passado. Acham que é um forasteiro extremamente feio, mas não de todo estrangeiro. A atitude de Qfwfq é a mesma do protagonista de Os Herdeiros, de William Golding, exceto pelo fato de que na versão de Calvino o último dos Velhos se mistura a seus herdeiros, é absorvido por eles. Distraído e entretido, Qfwfq ouve as lendas monstruosas e contraditórias que contam sobre sua raça, atributo do poder da imaginação humana, presta atenção às palavras que usa, aos sinais que reconhece. Por fim, conclui: “agora sabia que os dinossauros, quanto mais desaparecem, tanto mais estendem seu domínio, e sobre as florestas bem mais ilimitadas que as que cobrem os continentes: no intrincado do pensamento de quem resta”. Mas Qfwfq não se mostra sentimental por ser o último remanescente dos dinossauros; ao final da história, ele vai embora, deixando para trás os Novos: “percorri vales e planícies. Cheguei a uma estação, tomei o trem, perdi-me na multidão”.

Em “A Espiral”, a última das cosmicômicas, Qfwfq é um molusco agarrado a um rochedo do mar primevo. Mais uma vez, o tema é in ovo omnes. Calvino descreve, com minúcia, as sensações do molusco na pedra, “polpa de molusco achatada, úmida e feliz (...) Claro, vivia um pouco concentrado em mim mesmo, isso é verdade, não existe comparação com a vida de relacionamentos que se leva agora; e admito até ter sido – um pouco por causa da idade, um pouco por influência do ambiente –, como se diz, levemente narcisista; em suma, estava ali a me observar o tempo todo, vendo em mim todas as qualidades e todos os defeitos, e me comprazia, tanto com uns quanto os outros; não havia termos de comparação, é preciso que se leve em conta também isso”. Era o Éden. Mas então o calor do Sol começa a alterar as coisas; aparecem traços e vibrações do outro sexo; surgem ovos a serem fertilizados: o amor.

Em resposta desconfiada, ansiosa e aflita às novidades, Qfwfq se expressa fazendo a primeira coisa que lhe ocorre: uma concha, que acaba adquirindo o formato de espiral; a concha espiralada se revela um lugar necessário e indispensável de defesa para a sobrevivência do narrador, bem como lhe parece inusitadamente bela. Ainda assim, Qfwfq não se gaba de tanta beleza: “Posso dizer, portanto, que minha concha se fazia por si mesma, sem que eu aplicasse uma tenção especial em fazê-la acabar sendo mais de uma forma que de outra”. Porém, ao mesmo tempo o artista intuitivo também se auto-afirma: “Mas isso não quer dizer que entrementes eu ficasse distraído, de espírito livre; ao contrário, aplicava-me naquele ato de secretar sem me distrair um segundo, sem jamais pensar em outra coisa (...)”. Enquanto isso, por seu turno, ela, a amada, ia construindo sua própria concha, em tudo idêntica à dele.

Passam-se eras, quinhentos milhões de anos. A concha-Qfwfq olha à sua volta, e vê acima do rochedo a ferrovia escarpada, e o trem que passa por ela, com uma comitiva de jovens holandesas debruçadas nas janelas. Qfwfq vê tudo e não acha nada de extraordinário, porque “ao fazer a concha me parece haver feito igualmente o resto”. Mas eis que um elemento novo passou a integrar a equação. “Eu só não tinha previsto uma coisa: os olhos que finalmente se abriram para nos ver não eram nossos mas de outros”. É assim que morre Narciso. “Em suma, os olhos foram feitos à nossa custa. Assim, a vista, a nossa vista, que obscuramente esperávamos, foi a vista que em realidade os outros tiveram de nós”.

Mas o artista que construiu a concha em forma de espiral não se deixa vencer por um erro de cálculo ou pelo destino. Orgulhoso, conclui: “Todos esses olhos eram meus. Eu os havia tornado possíveis, eu tivera a parte ativa; eu lhes fornecera a matéria-prima, a imagem”. Novamente um final elegante e espirituoso, porque, fixado no olho do observador está não apenas o fato concreto da bela concha que ele construiu mas também “a mais bela imagem dela”, que havia inspirado a concha e que era a concha: assim, macho e fêmea são, finalmente, unidos na retina do olho de um estranho.

Em 1967, Calvino publicou mais aventuras de Qfwfq em Ti con zero, em grande parte uma série de cartuns engajados, mas, como leitor, vi-me desconcertado ao encontrar tantos pedacinhos de Sarraute, de Robbe-Grillet, de Borges (e Borges demais, além da conta), incorporados à prosa de um autor que cheguei a ter na conta de um verdadeiro mestre da modernidade. À página 6 encontrei “viscoso”; à pagina 11, “mucosa ácida”. Comecei a ficar preocupado e um tanto enjoado: estas são palavras de Sarraute. Mas pensei que era só uma questão de mera coincidência. Porém, quando, à página 29, vi a terrível palavra “magma”, concluí que Calvino havia passado tempo demais em Paris, porque apenas os sarrautistas usam “magma”, termo que o grande teórico do velho nouveau roman, a seu modo tão arbitrário e singular, surrupiou às ciências. Em outros momentos, ao longo das histórias, o uso da técnica de Robbe-Grillet de registrar obsessivamente as minúcias de situações banais equivale a um balde de água fria que o próprio Calvino despeja sobre seus melhores efeitos.

A bem da verdade, “A Perseguição” poderia ter sido escrito por Robbe-Grillet. E isso não é um elogio. Peguemos o início:

Aquele carro me perseguindo é mais veloz que o meu; dentro dele há um homem, sozinho, armado de pistola, uma bela arma. Paramos num semáforo, numa fila comprida. O sinal está regulado de maneira tal que do nosso lado a luz vermelha dura cento e oitenta segundos e a luz verde cento e vinte, sem dúvida com base na premissa de que o tráfego perpendicular é mais pesado e mais vagaroso.

E assim por diante, ao longo de dezesseis páginas, como se fosse um filme em câmera lenta.

A teoria subjacente a este tipo de prosa enervante é a seguinte: uma vez que escrever é descrever, com palavras, por que então não descrever as próprias palavras (com outras palavras)? Ou, louvado seja Deus!, palavras descrevendo palavras descrevendo uma ação sem importância – o cantinho do quarto em O Ciúme (1957), de Robbe-Grillet. Tal tipo de “experimentação” sempre me pareceu mais útil para alunos de cursos de Letras e Lingüística do que para leitores de literatura. Seguindo o próprio caminho e em sua melhor forma, Calvino sabe fazer o que poucos escritores conseguem: descreve mundos imaginários com a mais extraordinárias precisão e beleza (palavra que ele, sozinho, retirou da esfera de suspeição que os adeptos do nouveau roman mantêm ao redor de todas palavras e qualquer narrativa).

N’As cosmicômicas Calvino torna possível ao leitor habitar um molusco, um méson, um dinossauro; pela primeira vez, permite ao leitor ver a luz dando fim a um universo mergulhado na treva. Uma vez que se trata de um dom ímpar, penso ser absolutamente alarmante a “literariedade” de Ti con zero. Fiquei particularmente desnorteado diante da história central, “Ti con zero”, que poderia muito bem ter sido escrita por Borges (deveria ter sido, aliás, porque seria melhor).

Munido de arco e flecha, Qfwfq enfrenta um leão rampante. Mentalmente, o herói faz uma equação: o tempo-zero é onde está Qfwfq; onde o leão-0 está. Pela cabeça de Qo passam todas as combinações de series finitas ou infinitas, exatamente como acontece com o homem diante do pelotão de fuzilamento na famosa história de Borges. Ora, é possível que estas histórias tenham maior apelo para mentes mais convergentes que a minha (supõe-se que estudantes de matemática, engenheiros e jovens Republicanos pensem de maneira convergente, ao passo que romancistas, gourmets e humanistas não-cristãos pensem de modo divergente), mas a meu ver esta apresentação pseudocientífica de séries de possibilidades é profundamente chata.

Entretanto, há no livro momentos deliciosos. Especialmente “A Origem dos Pássaros”. “Agora estas histórias podem ser mais bem contadas com desenhos em quadrinhos do que com uma narração composta de frases uma seguida da outra”. Assim, colocando uma frase seguida de outra, o engenhoso Calvino descreve um álbum colorido de aventuras, e o efeito é no mínimo encantador, ainda que a peripécia de Qfwfq entre os pássaros não seja de fato um álbum colorido, e sim a descrição de um álbum colorido em palavras.

A técnica do narrador é a mesma de O cavaleiro inexistente. Primeiro esboça a cena para depois apagá-la, assim como fazia a irmã Teodora, que ia eliminando oceanos e florestas à medida que impelia os amantes rumo ao inevitável encontro amoroso. Como qualquer outro escritor, Calvino também chega a ponto de dizer que aquilo que se sente sobre a criação talvez não possa ser expresso por palavras ou sequer esboçado em desenhos e imagens.

“Consegui envolver num único pensamento o mundo das coisas como eram e das coisas como poderiam ter sido, e percebi que um único sistema incluía todas elas”. Nos braços de Or, a rainha dos pássaros, Qfwfq começa a ver que “o mundo é único e tudo o que existe não pode ser explicado sem ele...”. Mas foi longe demais. Quando já está prestes a dizer o indizível, Or tenta impedi-lo. Mas ele ainda consegue deixar escapar. “Não existe diferença alguma. Monstros e não monstros sempre estiveram próximos uns dos outros! Aquilo que nunca existiu continua a existir… aquilo que nunca foi continua a ser...”. A essa altura, os pássaros o expulsam de seu paraíso; qual um sonhador que acorda de supetão, ele esquece sua visão de unidade: “Os últimos quadrinhos são todos de fotografias: um pássaro, o mesmo pássaro em close, a cabeça do pássaro, um detalhe ampliado da cabeça, o olho…”). É o mesmo olho que aparece ao final d’As cosmicômicas – o olho da consciência cósmica, para todos aqueles que se lembram do guru de uma geração atrás, o Dr. Richard M. Bucke.

Calvino encerra o livro com sua própria versão de O Conde Monte Cristo. O problema que propõe para si mesmo é como escapar do Chateau d’If. O abade Faria faz planos e escava túneis, mas erra continuamente o caminho e acaba por encontrar-se sempre em locais mais profundos da fortaleza sem fim e sem saída. Por outro lado, Edmond Dantès medita acerca da natureza da fortaleza, bem como sobre os vários esboços do romance que Dumas está escrevendo. Em algumas versões, Dantès vai conseguir escapar e encontrar o tesouro e se vingar dos inimigos. Em outros, sua sorte é diferente. O narrador contempla as possibilidades de fuga considerando a maneira com que a fortaleza (ou a obra de arte) é construída. “Para planejar um livro – ou uma fuga –, a primeira coisa que se deve saber é o que excluir”. Esta história em particular é Borges em estado puro; e, levando-se em conta a unidade essencial da multiplicidade de todas as coisas, não se pode descartar a idéia de que a versão de Calvino para O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas seja de fato a mais fina façanha de Jorge Luis Borges, segundo imaginada por Italo Calvino.

O sétimo e mais recente romance (ou tratado de filosofia, ou meditação ou poema) de Calvino, As cidades invisíveis talvez seja sua mais bela obra. Sentados num jardim de magnólias estão o já envelhecido Kublai Khan e o jovem Marco Polo – imperador tártaro e viajante veneziano. O ambiente é de ocaso, de declínio. Próspero ergue pela última vez sua varinha mágica: o grande Khan sente que se avizinha o fim de seu império, de duas cidades, de si próprio.

Marco Polo, entretanto, distrai o imperador com relatos e descrições das cidades que viu e visitou em suas andanças pelo vasto império do conquistador mongol. Kublai Khan ouve atentamente, absorto, e medita, busca estabelecer um padrão, um paradigma para o conjunto de cidades apresentadas pelo aventureiro, que acabam formando uma geografia fantástica: As cidades e a memória, As cidades e o desejo, As cidades e os símbolos, As cidades delgadas [ou sutis], As cidades e as trocas, As cidades e os olhos, As cidades e os nomes, As cidades e os mortos, As cidades e o céu, As cidades contínuas, As cidades ocultas. O imperador logo conclui que todos esses lugares fantásticos são na verdade um mesmo e único lugar.

Marco Polo concorda: “– As margens da memória, uma vez fixadas com palavras, cancelam-se – disse Polo (E o mesmo disse Borges, tantas vezes!). – Pode ser que eu tenha medo de repentinamente perder Veneza, se falar a respeito dela. Ou pode ser que, falando de outras cidades, já a atenha perdido pouco a pouco”. Mais uma vez o tema da multiplicidade e da completitude, “quando toda cidade”, como Calvino escreveu ao final d’O dia de um escrutinador, “é a Cidade”.

Descrever o conteúdo de um livro é a mais árdua das tarefas; e diante da maravilhosa criação que é As cidades invisíveis, é também completamente irrelevante. Pouparei-me do ingrato trabalho. Anoto, porém, que algo de novo e sábio passou a fazer parte do cânone de Calvino. O artista parece ter feito as pazes e chegado a termos com a tensão entre a idéia humana acerca dos muitos e do uno, do coletivo e do individual. E agora poderia, se quisesse, parar de escrever.

Ainda assim, Calvino se vê obrigado a seguir escrevendo, assim como seu Marco Polo é impelido a continuar viajando, porque

não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
“Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: Você viaja para reencontrar o seu futuro? E a resposta de Marco: – Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”.

Adiante, depois de mais descrições de suas cidades, Kublai Khan pensa que “o império talvez não passe de um zodíaco de fantasmas da mente”.

“Quando conhecer todos os emblemas – perguntou a Marco –, conseguirei possuir o meu império, finalmente? E o veneziano: – Não creio: nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas”.

Por fim, o Khan reconhece que todas as cidades caminham na direção dos círculos concêntricos do Inferno de Dante.

“Disse: - É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito. 
E Polo: - O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui. O inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”.

Ao longo do último quarto de século, Italo Calvino esteve muito à frente de seus contemporâneos norte-americanos e ingleses. Enquanto que os anglófonos continuam procurando o lugar em que as aranhas fazem os ninhos, Calvino não apenas encontrou aquele lugar especial como também aprendeu a construir fantásticas teias de prosa nas quais tudo gruda. De fato, lendo Calvino, tenho a desconcertante sensação de que também estou escrevendo o que ele escreveu; assim, sua arte prova que escritor e leitor tornam-se apenas um, ou Um.

* Ainda não li La speculazione edilizia (A especulação imobiliária, 1957). Pela descrição do romance que consta do Dizionario della letteratura italiana contemporanea, trata-se de uma denúncia generalizada do surto imobiliário da Itália do pós-guerra, e da impotência do intelectual Quinto Anfossi para chegar a termos com a “febre do cimento e do concreto”.

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