1 de novembro de 1985

Como extirpar os pobres da nossa consciência

John Kenneth Galbraith


Gostaria de refletir sobre um dos mais antigos exercícios humanos, o processo pelo qual ao longo dos anos, e na verdade ao longo dos séculos, nos temos encarregado de ignorar os pobres.

Ricos e pobres têm vivido juntos, sempre inconfortavelmente e por vezes perigosamente, desde o princípio dos tempos. Plutarco chegou a dizer: "Um desequilíbrio entre os ricos e os pobres é a mais antiga e a mais fatal enfermidade das repúblicas". E os problemas que decorrem da contínua co-existência de riqueza e pobreza – e particularmente o processo pelo qual a boa fortuna justifica-se na presença do infortúnio dos outros – tem sido uma preocupação intelectual durante séculos. Continuam a ser na nossa própria época.

Começa-se com a solução proposta na Bíblia: os pobres sofrem neste mundo mas são maravilhosamente premiados no além. A pobreza é um infortúnio temporário; se eles forem pobres e também dóceis acabarão por herdar a terra. Isto é, sob certos aspectos, uma solução admirável. Permite que os ricos desfrutem a sua riqueza enquanto invejam a futura fortuna dos pobres no além.

Muito, muito mais tarde, nos vinte ou trinta anos que se seguiram à publicação de A Riqueza das Nações, em 1776, no alvorecer da Revolução Industrial na Grã-Bretanha – o problema e a sua solução começou a tomar a sua forma moderna. Jeremy Bentham, um quase contemporâneo de Adam Smith, propôs a fórmula que durante talvez uns cinquenta anos influenciou extraordinariamente os britânicos e, em algum grau, também o pensamento americano. Esta foi o utilitarismo. "Pelo princípio da utilidade", disse Bentham em 1789, "é preciso entender que a razão principal que aprova ou desaprova qualquer ação que seja está em função da sua tendência a aumentar ou diminuir a felicidade da parte cujo interesse está em jogo". A virtude é, na verdade deve ser, autocentrada. Enquanto houver pessoas com uma grande boa fortuna e muitas mais com grande má fortuna, o problema social estava resolvido desde que, mais uma vez na palavras de Bentham, "o maior bem para o maior número". A sociedade fazia o melhor que podia para o maior número possível de pessoas; tinha-se de aceitar que o resultado podia ser tristemente desagradável para os muitos cuja felicidade não era atendida.

Na década de 1830 uma nova fórmula, sempre atual, tornou-se disponível para retirar os pobres da consciência pública. Esta é associada aos nomes de David Ricardo (1772-1823), um corretor de bolsa, e Thomas Robert Malthus (1776-1834), um teólogo protestante. O essencial da mesma é familiar: a pobreza dos pobres era culpa dos pobres. E isso porque era o resultado da sua excessiva fecundidade: a sua luxúria lamentavelmente descontrolada levava-os a proliferar até os limites da subsistência disponível.

Isto foi o malthusianismo. Se a pobreza era causada na cama isso significava que os ricos não eram responsáveis nem pela sua criação nem pela sua diminuição. Contudo, o próprio Malthus não estava isento de um certo sentimento de responsabilidade: ele urgia a que a cerimônia de casamento contivesse uma advertência contra o inter-curso sexual indevido e irresponsável – uma advertência que, é justo dizer, não tem sido aceita como um método plenamente efetivo de controle de nascimentos. Em tempos mais recentes, Ronald Reagan disse que a melhor forma de controle da população emerge do mercado. (Casais apaixonados deveriam reparar na R. H. Macy's, não nos seus quartos). Malthus, deve-se dizer, pelo menos era relevante.

Nos meados do século XIX, uma nova forma de negação ganhou grande influência, especialmente nos Estados Unidos. A nova doutrina, associada ao nome de Herbert Spencer (1820-1903), era o Darwinismo Social. Na vida econômica, tal como no desenvolvimento biológico, a regra predominante era a sobrevivência do mais apto. Esta frase – "sobrevivência do mais apto" – veio, de fato, não de Charles Darwin mas sim de Spencer e exprimia a sua visão da vida econômica. A eliminação dos pobres constitui o meio utilizado pela natureza para melhorar a raça. Sendo expulsos os fracos e infelizes, a qualidade da família humana sai fortalecida.

Um dos mais notáveis porta-vozes americanos do Darwinismo Social foi John D. Rockefeller – o primeiro Rockefeller – que declara num discurso famoso: "A variedade de rosa American Beauty pode ser produzida no esplendor e fragrância que provoca aplauso naqueles que a contemplam só através do sacrifício dos primeiros botões que crescem em torno dela. E assim é na vida econômica. Isto é meramente o desenvolvimento de uma lei da natureza e uma lei de Deus".

No decurso do século XX, contudo, o Darwinismo Social veio a ser considerado um tanto cruel. Ele declinou em popularidade e as referências ao mesmo adquiriram um tom condenatório. Passamos para a negação mais amorfa da pobreza associada aos presidentes Calvin Coolidge (1923-1929) e Herbert Hoover (1929-1933). Para eles, toda assistência aos pobres interferia com a operação efetiva do sistema econômico e tal assistência era incompatível com um projeto econômico que servia muito bem a maior parte do povo. A noção de que há algo economicamente danoso em ajudar os pobres permanece conosco nestes dias como um dos modos pelos quais nós os expulsamos da nossa consciência.

Com a revolução de Roosevelt (assim como anteriormente com a de Lloyd George na Grã-Bretanha), o governo assumiu uma responsabilidade específica pelo povo menos afortunado na república. Roosevelt e os presidentes que o seguiram aceitaram uma medida substancial de responsabilidade para com os idosos através da Seguridade Social, para com os desempregados através do seguro de desemprego, para com os imprestáveis e mutilados através do alívio direto e para com os doentes através do Medicare e do Medicaid. Isto foi realmente uma grande mudança e, por algum tempo, a antiga tendência de evitar pensar sobre os pobres deu lugar ao sentimento de que precisávamos tentar – que estávamos, na verdade, fazendo alguma coisa em relação a eles.

Em anos recentes, contudo, ficou claro que a busca de um meio para extirpar os pobres da nossa consciência não havia acabado; fora apenas suspensa. E assim empenhamo-nos mais uma vez nesta busca de um modo altamente enérgico. Tornou-se outra vez uma grande preocupação filosófica, literária e retórica, bem como um empreendimento não economicamente insatisfatório.

Dos quatro, talvez cinco, métodos atuais que temos para extirpar os pobres da nossa consciência, o primeiro decorre do fato inescapável de que a maior parte das coisas que devem ser feitas em prol dos pobres tem de ser feita de um modo ou de outro pelo governo. Tem sido argumentado que o governo é incompetente por inerência, exceto no que respeita à concepção e compra de armas e à administração geral do Pentágono. Sendo incompetente e ineficaz, não lhe deve ser pedido para socorrer os pobres; ele apenas estragará as coisas ou as tornará piores.

A alegação da incompetência governamental está associada nos nossos tempo à condenação geral do burocrata – mais uma vez excluindo aqueles associados à defesa nacional. A única forma de discriminação que ainda é permissível – isto é, ainda encorajada oficialmente nos Estados Unidos de hoje – é a discriminação contra pessoas que trabalham para o governo federal, especialmente em atividades de bem-estar social. Temos grandes burocracias corporativas repletas de burocratas corporativos, mas eles são bons; só a burocracia e os servidores do governo são maus. De fato temos nos Estados Unidos um serviço público extraordinariamente bom – constituído por pessoas talentosas e dedicadas que são esmagadoramente honestas e só raramente dispostas a pagar demasiado por alicates, lanternas de bolso, máquinas de café e assentos de toilet. (Quando ocorreram estas aberrações foram, surpreendentemente, todas no Pentágono). Quase abolimos a pobreza entre os idosos, democratizamos muito os cuidados de saúde, asseguramos direitos civis de minorias e promovemos amplamente oportunidades educacionais. Tudo isto pareceria uma façanha considerável para pessoas incompetentes e além disso ineficazes. Devemos reconhecer que a atual condenação do governo e da administração governamental é realmente parte da concepção contínua de evitar responsabilidade para com os pobres.

A segunda concepção nesta grande tradição secular é argumentar que qualquer forma de ajuda pública ao pobre apenas o prejudica. Destrói a moral. Estimula pessoas a afastarem-se do emprego proveitoso. Rompe casamentos, pois as mulheres podem obter bem-estar para si próprias e os seus filhos quando ficarem sem maridos. Não existe absolutamente nenhuma prova de que estes danos sejam superiores àqueles que implicariam a supressão dos apoios públicos. Entretanto, o argumento segundo o qual eles prejudicam gravemente os deserdados é constantemente relançado e, o que é mais grave, acreditado. Esta é, sem dúvida, a mais influente das nossas fantasmagorias.

A terceira concepção, estreitamente relacionada, para nos aliviar da responsabilidade para com os pobres é o argumento de que medidas de assistência têm um efeito adverso ao incentivo. Elas transferem rendimento do diligente para o ocioso e irresponsável, reduzindo portanto o esforço do diligente e encorajando a ociosidade do preguiçoso. A manifestação moderna disto é a teoria econômica do lado da oferta (supply-side economics). A teoria econômica da oferta sustenta que os ricos nos Estados Unidos não estão trabalhando porque têm muito pouco rendimento. Assim, ao tomar dinheiro dos pobres e dá-los aos ricos, aumentamos o esforço e estimulamos a economia. Pode-se realmente acreditar que um número considerável de pobres prefira a ajuda social a um bom emprego? Ou que homens de negócios – executivos de corporações, as figuras chave do nosso tempo – estejam desperdiçando o seu tempo devido à insuficiência do seu pagamento? Isto é uma acusação escandalosa contra os homens de negócios americanos, um notável árduo trabalhador. A crença pode ser o servidor da verdade – mas ainda mais da comodidade.

A quarta concepção para extirpar os pobres da nossa consciência é apontar os presumidos efeitos adversos à liberdade o assumir de responsabilidades para com eles. A liberdade consiste no direito de gastar um máximo de dinheiro próprio à vontade de si próprio e ver um mínimo tomado e gasto pelo governo. (Mais uma vez, a despesa com a defesa nacional é excetuada). Nas palavras definitivas do professor Milton Friedman, as pessoas devem ser "livres para escolher".

Esta é possivelmente a mais transparente de todas as concepções. Quando se trata de pobres, habitualmente não é feita qualquer menção à relação entre o seu rendimento e a sua liberdade. (O professor Friedman é uma exceção aqui; através do imposto de rendimento negativo, ele asseguraria a todos um rendimento básico). Não há, certamente podemos concordar, qualquer forma de opressão que seja tão grande, nenhuma construção do pensamento e esforço tão abrangente, como o que decorre de não ter qualquer dinheiro de todo. Embora ouçamos muito acerca da limitação à liberdade do rico quando o seu rendimento é reduzido através de impostos, nunca ouvimos nada sobre a extraordinária promoção da liberdade do pobre por ter algum dinheiro seu para gastar. Mas a perda de liberdade da tributação para o rico é uma coisa pequena quando comparada com o ganho em liberdade de proporcionar algum rendimento ao empobrecido. Certamente aplaudimos a liberdade. Mas ao aplaudi-la não deveríamos utilizá-la como encobrimento para negar liberdade àqueles em necessidade.

Finalmente, quando tudo falha, recorremos à simples negação psicológica. Isto é uma tendência psíquica que em várias manifestações é comum a todos nós. Leva-nos a evitar pensar acerca da morte. Leva um grande número de pessoas a evitar pensar sobre corrida armamentista e a consequente pressão rumo a uma extinção altamente provável. Quer estejamos na Etiópia, no Bronx Sul ou mesmo no Eliseu ou em Los Angeles, resolvemos mantê-la fora das nossas mentes. Pense, somos frequentemente aconselhados, em algo agradável.

Estas são as concepções modernas pelas quais escapamos de preocupações para com os pobres. Todas, salvo talvez a última, testemunham uma grande criatividade na linha de Bentham, Malthus e Spencer. Ronald Reagan e seus colegas estão claramente numa tradição notável – no fim de uma longa história de esforço para escapar à responsabilidade pelos semelhantes. Assim são os filósofos agora celebrados em Washington: George Gilder, uma figura muito favorecida do passado recente, conta com muito aplauso que os pobres devem ter o cruel incentivo do seu próprio sofrimento a fim de garantir esforço; Charles Murray, o qual, com maiores aplausos, contempla "sucatear todo o programa de bem-estar federal e a estrutura de apoio ao rendimento para trabalhadores e pessoas idosas, incluindo a ajuda a famílias com filhos dependentes, Medicaid, tickets de alimentação, seguro de desemprego, indenização por acidente de trabalho, habitação subsidiada, seguro de incapacidade e, acrescenta ele, "o resto. Corte o nó, pois não há meio de desatá-lo". Através de uma triagem, os valiosos seriam selecionados para sobreviver, a perda do resto é a penalidade que deveríamos pagar. Murray é a voz de Spencer no nosso tempo; ele está desfrutando, como indicado, de popularidade sem paralelo em altos círculos de Washington.

A compaixão, juntamente com o esforço público associado, é o menos confortável, o menos cômodo, curso de comportamento e ação no nosso tempo. Mas permanece o único que é compatível com uma vida totalmente civilizada. Também é, no fim, o curso mais verdadeiramente conservador. Não há paradoxo aqui. O descontentamento civil e suas consequências não vem de pessoas satisfeitas – um ponto óbvio pois na medida em que podemos tornar a satisfação quase tão universal quanto possível, preservamos e ampliamos a tranquilidade social e política pela qual os conservadores deveriam, acima de tudo, ansiar.

16 de agosto de 1983

A interpretação de Trotsky acerca do stalinismo

A interpretação de Trotsky acerca do significado histórico do estalinismo, até hoje a teoria mais coerente e desenvolvida sobre o fenômeno dentro da tradição marxista, foi construída ao longo de vinte anos de luta política prática contra isso. Seu pensamento, portanto, evoluiu através da tensão com os principais conflitos e eventos desses anos, e pode ser convenientemente periodizado em três fases essenciais.

Perry Anderson



Tradução / Os primeiros escritos de Trotski sobre o assunto datam da luta interpartidária que eclodiu no PCUS após a Guerra Civil. Eles não nomeiam o estalinismo como tal. O foco é o que a tradição do partido chamou de “burocratismo”. O Novo Curso (1923) é o texto chave desse período. Nele, Trotski assumiu os dois principais termos que foram as explicações de Lênin sobre esse fenômeno antes de sua morte. O burocratismo, Lênin argumenta, estava enraizado na falta de cultura das massas russas, rurais ou urbanas, que as privou das aptidões necessárias para a administração competente do pós-guerra, e no caráter de subsistência e limitado comércio da economia agrária, cuja imensa dispersão dos produtores primários tornava inevitável uma demasiada centralização do aparelho estatal na Rússia. Trotski adicionou uma terceira causa: a inevitável contradição entre os interesses imediatos e de longo prazo da classe trabalhadora em meio à grande escassez e às extremas exigências da reconstrução do pós-guerra. Mais significativamente, entretanto, ele insistiu que o burocratismo não era “apenas o agregado dos maus hábitos dos titulares de cargos”, mas representava “um fenômeno social, um sistema definitivo de administração de homens e coisas” [1]. O principal locus desse fenômeno era o aparelho estatal, mas o último – ao absorver “uma enorme quantidade de elementos partidários mais ativos” [2] – estava infectando o próprio Partido Bolchevique. A expressão dessa contaminação era o crescente domínio do aparelho central dentro do partido, operando através de um sistema de nomeações, reprimindo o debate democrático, e separando a Velha Guarda das bases e da geração mais nova. Esse desenvolvimento representou o perigo de uma “degeneração burocrática” [3] da própria Velha Guarda. O burocratismo foi, portanto – e aqui Trotski claramente foi além da análise de Lênin – “não uma sobrevivência de algum regime precedente, uma sobrevivência em processo de desaparecimento; pelo contrário, é um fenômeno essencialmente novo, decorrente das novas tarefas, das novas funções, das novas dificuldades e dos novos erros do partido” [4].

A derrota da oposição de esquerda

O Novo Curso alertou para os perigos do burocratismo antes da vitória do grupo de Stálin dentro do PCUS. Após a consumação dessa vitória, os escritos de oposição de Trotski na década de 1920 tentaram fornecer uma melhor explicação desse fenômeno. A Terceira Internacional Depois de Lênin (1928, às vezes intitulado Stálin, o Grande Organizador de Derrotas) é provavelmente o texto mais importante da fase intermediária de seu pensamento. Nele, Trotski atribui a derrota da Oposição de Esquerda na Rússia, que selou o triunfo de um regime burocrático interno, à desaceleração da luta de classes internacional, acima de tudo aos desastres a que levaram a Revolução Alemã de 1923 e a Revolução Chinesa em 1927, respectivamente nos lados Ocidental e Oriental da URSS. A mudança no equilíbrio mundial das forças de classe em benefício do capital foi inevitavelmente traduzida em um aumento das pressões sociais externas ao Partido Bolchevique, na Rússia. Estes foram, por sua vez, compostos pelo fracasso da fração de Stálin em alcançar a rápida industrialização na URSS, o que teria contrabalanceado o peso do proletariado soviético. Depois que os efeitos do Primeiro Plano Quinquenal tornaram-se visíveis, Trotski modificou essa alegação para argumentar que a nova “aristocracia operária” criada pelo stakhanovismo, acima da massa da classe trabalhadora, funcionava objetivamente como um ponto de apoio do regime burocrático dentro do partido. A fração de Stálin, que obteve sua vitória através do slogan social-patriótico do socialismo em um só país, Trotski ainda caracterizou, nesse momento, como uma ala de centro e como a criatura do aparato permanente do PCUS, posicionado entre a direita do Partido (Bukharin-Rykov-Tomsky) e a ala esquerda.

Em sua autobiografia Minha Vida (1929), Trotski esboçou o que viu como mecanismos social-psicológicos que converteram muitos revolucionários de 1917 em funcionários desse regime – “a libertação do filisteu que vivia dentro do bolchevique”-. Conforme o impulso das massas insurgentes declinou após a Guerra Civil, a fadiga e a apatia se estabeleceram, criando um período de “reação social” generalizada na URSS.

Em ensaios subsequentes, sobre a condução da industrialização de Stálin, Trotski estendeu a noção de um “centro” fracional para a categoria de centrismoestalinista, de maior alcance, argumentando que, embora o centrismo fosse um fenômeno inerentemente instável nos países capitalistas – uma postura a meio caminho entre reforma e revolução no movimento operário, refletindo mudanças da esquerda à direita ou vice-versa nas pressões de massas –, ele poderia adquirir, na URSS, uma base material durável na burocracia do novo Estado proletário. Os abruptos ziguezagues das políticas de Stálin no país e no exterior, do apaziguamento à guerra total contra os kulaks, da conciliação de classe ao ultra-esquerdismo na Terceira Internacional, eram a expressão lógica desse caráter centrista de seu regime, sujeito às complexas e contraditórias pressões de classe sobre ele. A arena decisiva dessas pressões, no entanto, era internacional, não nacional.

As quatro teses fundamentais

A interpretação de Trotski acerca do estalinismo, até então fragmentada e experimental em muitos aspectos, tornou-se sistemática e conclusiva de 1933 em diante. O motivo, é claro, foi o triunfo do nazismo na Alemanha, que convenceu Trotski de que a Comintern – para cuja retificação de linha ele tinha lutado até o último momento – era agora irrecuperável, e com isso o próprio PCUS estalinizado. A decisão de fundar uma nova Internacional foi, portanto, um impulso imediato para o seu engajamento frontal com o problema da natureza do estalinismo, que, pela primeira vez, tornou-se então o objeto direto de uma extensa interpretação teórica em si mesmo, em vez de um problema tratado no decorrer de textos que discutem muitas outras questões, como foi feito anteriormente.

O ensaio crucial, que fornece quase todos os principais temas do pensamento maduro de Trotski sobre o estalinismo, foi escrito alguns meses após a tomada de poder de Hitler: A Natureza de Classe do Estado Soviético (1933). Nele, Trotski estabeleceu as quatro teses fundamentais que viriam a ser a base de sua posição até a sua morte. Em primeiro lugar, foi necessário distinguir o papel do estalinismo na União Soviética e no exterior. Dentro da URSS, a burocracia estalinista desempenhava um papel contraditório, defendendo-se simultaneamente da classe trabalhadora soviética, da qual usurpou o poder, e da burguesia mundial, que buscou acabar com todos os ganhos da Revolução de Outubro e restaurar o capitalismo na Rússia. Nesse sentido, continuou a atuar como uma força “centrista”. Fora da URSS, em contraste, a Comintern estalinizada deixou de desempenhar qualquer papel anti-capitalista, como já havia provado irrevogavelmente o seu desastre na Alemanha. Consequentemente, “o aparato estalinista poderia desperdiçar completamente o seu significado como uma força revolucionária internacional, e ainda preservar parte do seu significado progressivo como portador das conquistas sociais da revolução proletária” [5]. Logo em seguida, Trotski argumentaria que a Comintern desempenhou um papel ativamente contrarrevolucionário na política mundial, tramando junto ao capital e algemando os trabalhadores no interesse de proteger o monopólio estalinista do poder na própria Rússia, que seria ameaçado pelo exemplo de qualquer revolução socialista vitoriosa, que criasse uma democracia proletária em outro lugar.

Em segundo lugar, dentro da URSS, o estalinismo representava o domínio de um estrato burocrático que emergira da classe trabalhadora e a parasitava, não uma nova classe. Esse estrato não ocupou um papel estrutural independente no processo de produção, mas derivava seus privilégios econômicos da confiscação do poder político dos produtores diretos, dentro da estrutura das relações de propriedade nacionalizadas. Em terceiro lugar, a administração sobre a qual o estalinismo presidiu permaneceu tipologicamente um Estado proletário, precisamente porque essas relações de propriedade – incorporando a expropriação dos expropriadores, alcançada em 1917 – persistiram. A identidade e legitimação da burocracia como uma “casta” política dependia da sua defesa. Com isso, Trotski descartou os dois relatos alternativos do estalinismo mais difundidos no movimento operário na década de 1930 (que emergiu dentro da própria Segunda Internacional, durante a Guerra Civil) – que representavam uma forma de “capitalismo de Estado” ou de “coletivismo burocrático”. A ditadura de ferro exercida pela polícia estalinista e pelo aparato administrativo sobre o proletariado soviético não era incompatível com a preservação da natureza proletária do próprio Estado – não mais do que as ditaduras absolutistas sobre a nobreza haviam sido incompatíveis com a preservação da natureza do Estado feudal, ou as ditaduras fascistas exercidas sobre a classe burguesa o foram com a preservação da natureza do Estado capitalista. A União Soviética era, de fato, um Estado proletário degenerado, mas uma ditadura do proletariado “pura” – compatível com sua definição ideal – nunca existiu na União Soviética em primeira instância.

Em quarto e último lugar, os marxistas devem adotar uma postura dupla em relação ao Estado soviético. Por um lado, agora não havia chance do regime estalinista se reformar ou ser reformado pacificamente dentro da URSS. Seu domínio só poderia ser encerrado por uma derrubada revolucionária vinda de baixo, destruindo todo o maquinário de privilégio e de repressão, enquanto deixasse intactas as relações de propriedade social sobre as quais ele presidia – mas agora dentro do contexto de uma democracia proletária. Por outro lado, o Estado soviético tinha que ser defendido externamente contra a constante ameaça de agressão ou ataque da burguesia mundial. Contra esse inimigo, a URSS – encarnando, como ela fazia, os ganhos anticapitalistas de Outubro – precisava da resoluta e incondicional solidariedade dos socialistas revolucionários em todos os lugares. “Toda tendência política que vira as costas sem esperanças para a União Soviética, sob pretexto de seu caráter ‘não-proletário’, corre o risco de se tornar um instrumento passivo do imperialismo” [6].

“A Revolução Traída”

Esses quatro pilares fundamentais da análise de Trotski sobre o estalinismo permaneceram estáveis até seu assassinato. Foi sobre eles que Trotski ergueu o principal edifício desse estudo da sociedade soviética sob Stálin: o livro intituladoPara onde vai a Rússia? (1936; equivocadamente traduzido para A Revolução Traída). Neste trabalho, Trotski apresenta um levantamento panorâmico das estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais da URSS em meados dos anos trinta, combinando uma ampla variedade de materiais empíricos com um fundamento teórico mais profundo para a sua análise sobre o estalinismo. Ele ancorou todo o fenômeno de uma burocracia proletária repressora na categoria de escassez (nuzhda), básica no materialismo histórico desde a formulação de Marx na Ideologia Alemã. “A base do governo burocrático é a pobreza da sociedade em objetos de consumo, com a luta resultante de todos contra todos. Quando há bens suficientes em uma loja, os compradores podem vir quando quiserem. Quando há poucos bens, os compradores são obrigados a ficar na fila. Quando as filas são muito longas, é necessário nomear um policial para manter a ordem. Tal é o ponto de partida do poder da burocracia soviética. Ela ‘sabe’ quem deve conseguir algo e quem tem que esperar.” [7] Enquanto prevalecesse a escassez, seria inevitável uma contradição entre as relações socializadas de produção e as normas burguesas de distribuição: era essa contradição que fatalmente produzia e reproduzia o poder restritivo da burocracia estalinista.

Trotski, então, prosseguiu à exploração de cada lado dessa contradição, avaliando e enfatizando a grandeza do desenvolvimento industrial soviético, por mais bárbaros que fossem os métodos que a burocracia empregasse para levá-lo adiante, ao mesmo tempo em que expunha meticulosamente a vasta gama de desigualdades econômicas, culturais e sociais geradas pelo estalinismo, e que fornecia estimativas estatísticas do tamanho e da distribuição do estrato burocrático na própria URSS (cerca de 12 a 15% da população). Essa burocracia traiu a revolução mundial, mesmo que ainda se sentisse subjetivamente leal a ela; mas manteve-se como um inimigo irreconciliável aos olhos da burguesia mundial, enquanto o capitalismo não fosse restaurado na Rússia. A dinâmica desse regime era igualmente contraditória: por um lado, o desenvolvimento promovido a um ritmo vertiginoso dentro da URSS aumentava rapidamente o potencial econômico e cultural da classe trabalhadora soviética e a sua capacidade de se levantar contra o regime; por outro lado, o seu próprio parasitismo tornou-se cada vez mais um impedimento para o progresso industrial adicional. Por mais espetaculares que fossem as realizações dos Planos Quinquenais, advertiu Trotski, eles ainda deixariam a produtividade social do trabalho muito atrás da do capitalismo ocidental, em uma lacuna que jamais seria fechada até que uma mudança para o crescimento qualitativo fosse alcançada, o que o desvio burocrático bloqueou com precisão.

“O papel progressivo da burocracia soviética coincide com o período da introdução na União Soviética dos elementos mais importantes da técnica capitalista. O trabalho duro, de empréstimo, imitação, transplante e enxerto, foi realizado nas bases estabelecidas pela revolução. Até o momento, não havia dúvida de qualquer nova palavra na esfera da técnica, da ciência ou da arte. É possível construir fábricas gigantescas de acordo com um padrão pronto por comando burocrático – embora, com certeza, pelo triplo do custo normal. No entanto, quanto mais longe se vá, mais a economia se depara com problemas de qualidade, que deslizam para fora das mãos da burocracia como uma sombra. Os produtos soviéticos são como se fossem marcados com o rótulo cinza da indiferença. Sob uma economia nacionalizada, a qualidade exige uma democracia de produtores e consumidores, liberdade de crítica e iniciativa.”. [8] A superioridade tecnológica ficaria com o imperialismo enquanto o estalinismo persistisse, e lhe asseguraria a vitória em qualquer guerra com a URSS – a menos que estourasse uma revolução no Ocidente. A tarefa dos socialistas soviéticos era realizar, antes que isso ocorresse, uma revolução política contra a burocracia , cuja relação com a revolução socioeconômica de 1917 seria como a mudança de poder em 1830 ou 1848 para o levante de 1789 na França, no ciclo das revoluções burguesas.

Nos dois últimos anos de sua vida, quando começou a Segunda Guerra Mundial, Trotski reiterou suas perspectivas básicas em uma série de polêmicas conclusivas com Rizzi, Burnham, Schachtman e outros defensores da noção de “coletivismo burocrático”. A classe trabalhadora não era, de forma alguma, congenitamente incapaz de estabelecer o seu próprio domínio soberano sobre a sociedade. A URSS – “o país mais transicional em uma época de transição” – situava-se entre capitalismo e socialismo, dominada por um feroz regime policial que ainda defendeu, à moda própria, a ditadura do proletariado. Todavia, a experiência soviética foi uma “refração excepcional” das leis gerais de transição do capitalismo para o socialismo, em um país atrasado cercado pelo imperialismo – não um modelo clássico. O papel contraditório do estalinismo nacionalmente e no exterior foi confirmado pelos episódios mais recentes da política internacional – a sua sabotagem contrarrevolucionária da Revolução Espanhola (para além do seu controle) contrastava com a abolição revolucionária da propriedade privada nas regiões fronteiriças da Polônia e da Finlândia incorporada na URSS. O dever dos marxistas em defender a União Soviética contra o ataque capitalista permaneceu importante. A desilusão e a fadiga não eram desculpas para renunciar às perspectivas clássicas do materialismo histórico. “Vinte e cinco anos nas escalas da história, quando se trata de mudanças profundas nos sistemas econômicos e culturais, pesam menos de uma hora na vida do homem. O quão bom é o indivíduo que, devido às falhas empíricas ao longo de uma hora ou de um dia, renuncia a um objetivo que ele estabeleceu para si próprio nas bases da experiência e da análise de toda a sua vida anterior?” [9]

Uma reavaliação: Quarenta anos depois

Outros quarenta anos depois, nós ainda estamos apenas a algumas horas daquela vida. Essas horas – que, subjetivamente, parecem tão longas – nos dão razões para questionar os julgamentos básicos de Trotski? Como devemos avaliar o legado de sua perspectiva geral sobre o estalinismo?

Pode-se dizer que os méritos da interpretação de Trotski têm três aspectos. Primeiramente, ela fornece uma teoria do fenômeno do estalinismo em uma longa temporalidade histórica, congruente com as categorias fundamentais do marxismo clássico. Em cada ponto de sua análise da natureza da burocracia soviética, Trotski procurou situá-la na lógica dos modos sucessivos de produção e nas transições entre estes, com o poder de classe e os regimes políticos correspondentes, que herdou de Marx, Engels ou Lênin. Daí a sua insistência de que a ótica adequada para definir a relação da burocracia com a classe trabalhadora partia das relações antecedentes e análogas entre absolutismo e aristocracia, fascismo e burguesia; assim como os precedentes relevantes para a sua derrubada futura seriam levantamentos políticos como os de 1830 ou 1848, em vez de um novo 1789. Como Trotski pôde pensar o desenvolvimento e a consolidação do estalinismo em um tal espectro histórico, ele evitou as explicações do jornalismo apressado e as teorizações improvisadas sobre novas classes ou modos de produção não ancorados no materialismo histórico, que marcou a reação de muitos de seus contemporâneos.

Em segundo lugar, a riqueza sociológica e a penetração de sua pesquisa sobre a URSS sob Stálin não tinham igual na literatura da esquerda sobre o assunto. Para onde vai a Rússia? permanece como uma obra-prima de destaque até hoje. Por outro lado, as coletâneas de artigos de Schachtman ou Kautsky, os livros de Burnham ou Rizzi ou Cliff, parecem surpreendentemente superficiais e datados. Os maiores avanços na análise empírica detalhada da URSS desde o tempo de Trotski vieram, em grande medida, de profissionais acadêmicos que se dedicaram aos estudos sovietólogos após a Segunda Guerra Mundial: Nove, Rigby, Carr, Davies, Hough, Lane e outros. Suas descobertas desenvolveram as análises de Trotski, ao invés de contradizê-las, nos proporcionando um conhecimento muito mais amplo das estruturas internas da economia e da burocracia soviéticas. Eram, no entanto, destituídos de uma teoria integrada como a legada por Trotski. O maior trabalho histórico sobre o destino da Revolução são os escritos de Isaac Deutscher, compostos em profunda continuidade com esse legado.

Em terceiro lugar, a interpretação de Trotski do estalinismo foi notável por seu balanço político – a sua recusa de adulação ou cominação, para uma estimativa sóbria da natureza contraditória e dinâmica do regime burocrático na URSS. No tempo de Trotski, a primeira atitude era a incomum na esquerda, em meio ao entusiasmo intoxicado não só dos partidos comunistas, mas de tantos outros observadores da ordem estalinista na Rússia. Hoje, é a segunda atitude que é mais incomum, em meio à denunciação apoplética da experiência soviética, não só por vários observadores na esquerda, mas até dentro de certos Partidos comunistas. Há pouca dúvida de que foi a firme insistência de Trotski – tão fora de moda nos anos posteriores, até mesmo entre muitos dos seus próprios seguidores – de que a URSS era, em última instância, um Estado proletário e a chave para esse equilíbrio. Aqueles que rejeitaram essa classificação em prol das noções de “capitalismo de Estado” ou “coletivismo burocrático” invariavelmente se depararam com a dificuldade de definir uma atitude política em relação à entidade que categorizaram. Uma coisa evidente sobre o “capitalismo de Estado” ou o “coletivismo burocrático” na Rússia era que não havia nenhum vestígio das liberdades democráticas que se encontravam no “capitalismo privado” do Ocidente. Não deveriam, portanto, os socialistas apoiarem este último em um conflito entre ambos, dado que se tratava do mal menor – por não ser “totalitário”? Em outras palavras, a lógica dessas interpretações sempre tendeu, em última instância (embora com poucas exceções, menos consistentes), em deslocar seus adeptos para a direita. Kautsky – pai tanto do “capitalismo de Estado”, quanto do “coletivismo burocrático”, no início dos anos 1920 – é emblemático dessa trajetória; e Schachtman terminou sua carreira aplaudindo a guerra dos EUA no Vietnã na década de 1960. A solidez e a disciplina contrastantes da interpretação de Trotski acerca do estalinismo obtiveram um alívio retrospectivo diante das tentativas que se seguiram de repensar o estalinismo.

As limitações da análise de Trotski

Ao mesmo tempo, como todos os julgamentos históricos, a teoria de Trotski do estalinismo revelou certos limites após sua morte. Quais são estes? Paradoxalmente, eles dizem respeito menos ao balanço “interno” do estalinismo do que a sua trajetória “externa”. Internamente, o diagnóstico de Trotski sobre o motor e o freio do desenvolvimento econômico da Rússia, desde que persistissem as normas burocráticas, provou-se extraordinariamente preciso. Nas quatro décadas posteriores à sua morte, um enorme progresso material foi registrado na União Soviética, mas a produtividade do trabalho se revelou cada vez mais como o calcanhar de Aquiles da economia, como Trotski havia previsto. Conforme chegou ao fim a época do crescimento extensivo, o planejamento autoritário e demasiado centralizado se mostrou cada vez mais incapaz de efetuar uma transição para um crescimento qualitativo e intensivo: uma desaceleração que ameaçava uma crise entrópica para o regime, se não fosse resolvida. A durabilidade da burocracia, que sobreviveu até bem depois de Stálin, tem sido maior, é claro, do que Trotski imaginava em alguns de seus escritos conjunturais, embora não se trate de uma “longevidade” real em termos de tempo histórico, do qual ele falou no final de sua vida.

Parte do motivo dessa persistência foi, provavelmente, a promoção social de setores da classe trabalhadora soviética através dos canais do próprio regime burocrático – o recrutamento de quadros proletários, que frequentemente tem sido enfatizado pelos acadêmicos subsequentes (Nove, Rigby, etc.) Outra parte, é claro, encontrava-se presente na atomização política e no atordoamento cultural da classe trabalhadora amplamente alargada que emergiu durante a década de 1930 – a sua falta de qualquer memória pré-estalinista, que Trotski subestimou. Mas de um modo geral, o retrato da sociedade russa que ele desenhou há aproximadamente meio século permanece preciso e atual.

No exterior, entretanto, o diagnóstico do estalinismo de Trotski se mostrou mais falível. Há dois motivos para essa discrepância em seus prognósticos. Em primeiro lugar, ele cometeu um erro ao qualificar o papel externo da burocracia soviética como simples e unilateralmente “contrarrevolucionário” – quando o seu papel se mostrou ser, de fato, profundamente contraditório em suas ações e efeitos no exterior tanto quanto o era em território nacional. Em segundo lugar, Trotski estava equivocado ao pensar que o estalinismo representava meramente uma refração “excepcional” ou “aberrante” das leis gerais de transição do capitalismo para o socialismo, que seria confinada à própria Rússia. As estruturas do poder burocrático e a mobilização pioneira sob Stálin provaram ser um fenômeno mais dinâmico e mais geral no plano internacional do que Trotski jamais imaginou. Ele terminou sua vida prevendo que a URSS seria derrotada em uma guerra contra o imperialismo, a menos que a revolução estourasse no Ocidente. Na verdade, apesar de todos os erros criminosos de Stálin, o Exército Vermelho repeliu a Wehrmacht e marchou vitoriosamente para Berlim sem o auxílio de uma Revolução Ocidental. O fascismo europeu foi essencialmente destruído pela União Soviética (242 divisões alemãs desdobradas na Frente Oriental a apenas 22 na primeira Frente Ocidental na Itália). O capitalismo foi abolido em mais da metade do continente, por um impulso burocrático vindo de cima – as operações polonesas e finlandesas se estenderam ao Elba. Posteriormente, o comando das massas na tomada do poder. Os Estados assim criados viriam a ser manifestamente cognatos (não idênticos, mas afins) com a URSS em seu sistema político básico. O estalinismo, em outras palavras, se mostrou ser não somente um aparelho, mas um movimento – capaz não só de manter o poder em um ambiente atrasado dominado pela escassez (URSS), mas de realmente conquistá-lo em ambientes ainda mais atrasados e pobres (China e Vietnã) – de expropriar a burguesia e iniciar o lento trabalho da construção socialista, mesmo contra a vontade do próprio Stálin. Com isso, uma das equações da interpretação de Trotski, sem dúvidas, caiu. O estalinismo, como um fenômeno amplo – isto é, um Estado proletário governado por um estrato burocrático autoritário –, não representava meramente uma degeneração de um Estado anterior de (relativo) privilégio de classe, também poderia ser uma geraçãoespontânea, produzida por forças de classe revolucionárias em muitas sociedades atrasadas, sem qualquer tradição de democracia burguesa ou proletária. Essa possibilidade – cuja realização foi a transformação do mapa mundial após 1945 – nunca foi levantada por Trotski.

O estalinismo hoje

Nesses dois aspectos críticos, portanto, a interpretação de Trotski do estalinismo encontrou seus limites. No entanto, eles permaneceram em consonância com a sua ênfase temática central: a natureza contraditória do estalinismo, hostil, ao mesmo tempo, à propriedade capitalista e à liberdade proletária. Seu erro foi, ironicamente, apenas ter pensado que essa contradição poderia confinar-se à própria URSS, enquanto o estalinismo em um só país provou ser uma contradição nos próprios termos. Ao apontarmos aqui os caminhos pelos quais o estalinismo continuou a atuar como um “fator revolucionário internacional”, não deveria ser necessário recordar, ao mesmo tempo, as formas em que também continuou a atuar como um fator reacionário internacional. Todo ganho imprevisível teve um preço incalculável. A multiplicação de Estados proletários burocratizados, cada um com o seu próprio egoísmo nacional sagrado, conduziu inexoravelmente a conflitos econômicos, políticos e agora até mesmo armados entre eles. A proteção militar da URSS, que pode se estender às revoluções socialistas ou às forças nacionais de libertação no Terceiro Mundo, também aumenta objetivamente os perigos da guerra nuclear global. A abolição do capitalismo na Europa Oriental desencadeou as fúrias do nacionalismo contra a Rússia, que, por sua vez, respondeu às aspirações populares da região com a série mais puramente reacionária de intervenções externas, repressoras e regressivas, da burocracia soviética em todo o mundo. A Checoslováquia e a Polônia são apenas os últimos exemplos.

Acima de tudo, porém, enquanto o modelo básico estalinista de uma transição para além do capitalismo possa ter se propagado com sucesso através das zonas atrasadas da Eurásia, a sua grande extensão geográfica e prolongamento temporal – completa com a repetição da demência da Yezhovschina (“Processos de Moscou”) na “Revolução Cultural”, e o “Kampuchea Democrático” – tem prejudicado profundamente a própria ideia do socialismo no Ocidente avançado, principalmente com a sua absoluta negação da democracia proletária, inibindo a classe trabalhadora de derrubar o capitalismo dentro das estruturas da democracia burguesa, fortalecendo decisivamente os bastiões do imperialismo do final do século XX. Rien ne se perd, alas (“Nada está perdido, infelizmente.”).Nós ainda temos que resolver as contas com a ameaça permanente do “campo socialista”, que agiu como o acelerador decisivo da descolonização burguesa na África e na Ásia na época do pós-guerra. Sem o Segundo Mundo das décadas de 1940 e 1950, não haveria o Terceiro Mundo na década de 1960. As duas principais formas de progresso histórico registradas dentro do capitalismomundial nos últimos cinquenta anos – a derrota do fascismo e o fim do colonialismo – têm sido diretamente dependentes da presença e performance da URSS nas políticas internacionais. Nesse sentido, pode-se argumentar que, paradoxalmente, as classes exploradas fora da União Soviética podem ter se beneficiado mais diretamente de sua existência do que a classe trabalhadora dentro da União Soviética. Assim, em uma escala histórica mundial, os custos decisivos do estalinismo foram internos, e os ganhos, externos.

Todavia, esses efeitos foram, obviamente, processos largamente objetivos e involuntários, em vez de produtos de intenções conscientes da burocracia soviética (mesmo a destruição do fascismo, que, certamente, não constou como parte dos planos de Stálin em 1940). Tais efeitos testemunham, não obstante, a lógica contraditória de um “Estado proletário degenerado” – colossalmente distorcido, mesmo que ainda persistentemente anticapitalista –, que Trotski erroneamente suspendeu na fronteira soviética.

No final da década de 60, a URSS até chegou a alcançar algo semelhante a uma parceria estratégica com o imperialismo, o que Trotski achou impossível sob o domínio burocrático. Com isso, a URSS provou ser capaz de ampliar a vital ajuda econômica e militar às revoluções socialistas e aos movimentos de libertação nacional no exterior – assegurando a sobrevivência da Revolução Cubana, permitindo a vitória da Revolução Vietnamita e garantindo a existência da Revolução Angolana. Tais ações, inteiramente conscientes e deliberadas – em contraste diametral com as opções de Stálin em Espanha, Iugoslávia ou Grécia –, foram precisamente as que Trotski descartara para a União Soviética quando a considerou como uma inequívoca e omnipresente força contrarrevolucionária além de suas próprias fronteiras.

O segundo equívoco da interpretação de Trotski foi mais radical. Para ele, o estalinismo era essencialmente um aparato burocrático, erguido acima de uma decadente classe trabalhadora, em nome do mito “nacional-reformista” do socialismo em um só país. Trotski julgou os partidos estrangeiros da Comintern, após 1933, como simplesmente instrumentos subordinados ao PCUS, incapazes de fazer uma revolução socialista em seus respectivos países, pois realizá-la significaria agir contra as diretrizes de Stálin. O máximo que ele concedia era que – em casos absolutamente excepcionais – as massas insurgentes, contra a vontade de tais partidos, poderiam obrigá-los a tomar o poder. Ao mesmo tempo, Trotski olhou para frente, sobretudo para o Ocidente industrializado, como a arena do futuro sucesso socialista, inspirado pelos partidos antiestalinistas no despertar da Segunda Guerra Mundial. De fato, como sabemos, a história seguiu outro caminho. A revolução espalhou-se, mas para as regiões atrasadas da Ásia e dos Balcãs. Ademais, essas revoluções foram uniformemente organizadas e lideradas pelos partidos comunistas locais que professavam lealdade a Stálin – chineses, vietnamitas, iugoslavos, albaneses –, e modeladas, em suas estruturas internas, pelo PCUS. Longe de serem movidos passivamente pelas massas de seus respectivos países, esses partidos mobilizaram ativa e verticalmente uma imensa meada de consequências e conexões internacionais, progressivas e regressivas, revolucionárias e contrarrevolucionárias, que se seguiram ao destino que sucedeu a Revolução de Outubro, que originou o fenômeno que ainda hoje nós chamamos de estalinismo.

Notas

[1] O Novo Curso, Ann Arbour, 1965, p. 45.

[2] Ibid, p. 45.

[3] Ibid, p. 22.

[4] Ibid, p. 24.

[5] A Natureza de Classe do Estado Soviético, Londres, 1968, p. 4.

[6] Ibid, p. 32.

[7] A Revolução Traída, Nova Iorque, 1945, p. 112.

[8] Ibid, p. 276.

[9] Em Defesa do Marxismo, Nova Iorque 1965, p.

Texto de uma comunicação apresentada em Paris, em 1982.

1 de outubro de 1981

Marxismo, estruturalismo e análise literária

Raymond Williams

New Left Review


Tradução / Eventos recentes em Cambridge, sobre os quais alguns de vocês podem ter ouvido falar, convenceram-me a apresentar um pouco do material que eu estava preparando para um curso de outono de cinco aulas. Dado que esse material foi originalmente concebido com essa finalidade, a expectativa para este momento tão carregado pode ser considerada desanimadora. Mas me parece mais importante tentar estabelecer agora uma posição geral do que deixar no ar muitos desses temas, à espera do momento em que eles possam ser analisados de forma mais completa. Meu propósito principal é o de identificar e explicar brevemente algumas posições atuais controversas, para além dos rótulos que estão sendo tão livremente vinculados a elas, mas apresentando aqui um argumento bastante diferente, que me parece apontar para o centro da controvérsia. Há tendências diversas no interior tanto do marxismo como do estruturalismo e há mais diversidade em outras tendências em parte influenciadas por eles. Muitas dessas tendências estão em forte oposição umas em relação às outras. Isso tem de ser enfatizado não apenas para prevenir rotulações redutoras, mas por uma razão mais positiva, porque algumas delas são compatíveis com o paradigma dos estudos literários atualmente dominante, enquanto outras são incompatíveis, sendo, já há alguns anos, um desafio ao paradigma dominante – e, por conseguinte, à sua prática. Uso paradigma, de modo geral, no sentido de Kuhn de uma definição operacional de um campo apreendido de conhecimento, de fato, de um objeto de conhecimento, com base em certas hipóteses fundamentais e que carrega consigo definições de métodos apropriados para a descoberta e o estabelecimento de um conhecimento desse tipo. Ora, parece-me que o caso da literatura seja um paradigma exatamente nesse sentido. Além disso, como argumentou Kuhn, esses paradigmas nunca podem ser simplesmente abandonados. Ao contrário, eles acumulam anomalias até que haja, eventualmente, um ponto de ruptura, e, então, são feitas tentativas para mudar e substituir as hipóteses fundamentais, suas definições e aqueles que são, nessa etapa, os padrões profissionais e os métodos de investigação estabelecidos. Esse é, evidentemente, um momento de crise. Acredito que é nesse momento que nos encontramos, ainda que em um estágio relativamente bastante inicial, nos estudos literários em Cambridge.

Ora, é claro, a definição de um objeto do conhecimento que é apreendido de maneiras determinadas passa a ser, dentro de qualquer paradigma dominante, irremediavelmente confundida com o objeto em relação ao qual o conhecimento deve ser adquirido. Isso é nítido, atualmente, em alguns usos do termo “literatura”, que, embora não seja produzida por departamentos literários, é tida, afinal de contas, em seu sentido geral mais comum, como detida e defendida, em alguma medida, por eles. Isso assume formas variáveis. Assim, diz-se que é nossa tarefa ensinar o “cânone da literatura inglesa”. Esse uso de “cânone”, emprestado dos estudos bíblicos, em que ele significa uma relação de escritos sagrados aceitos como autênticos, é significativo, porque, obviamente, o “cânone da literatura inglesa” não está dado, é produzido. Ele é altamente selecionado e, de fato, re-selecionado. Em sua versão mais simples, ele foi decisivamente desafiado por Richards, em seus experimentos na crítica prática. Este mostrou que até mesmo estudantes altamente treinados poderiam ser iniciados no cânone, mas não poderiam, em sua maioria, produzir, para si mesmos, as avaliações implícitas a ele. De fato, eles geralmente preferiam escritos que estavam bem fora do cânone. Essas descobertas compeliram à redefinição moderna mais efetiva do paradigma, embora não o tenham substituído. Nessa redefinição, a literatura passou a ser equiparada à crítica, pois, desde que, em contraste com os estudos bíblicos, o conhecimento não poderia, por si só, estabelecer o cânone literário (embora pudesse fazer uma verificação local interna a ele), um novo processo – o julgamento crítico – teria de ser ensinado como condição para manter a ideia definidora de literatura.

Literatura significara outrora, pelo menos até o início do século 19, um corpo de escritos impressos; de fato, esse sentido vago sobrevive em contextos como o do “suplemente literário” ou o da “literatura de venda” [literature stall]. Esse uso, obviamente, teve o efeito de uma circunscrição do termo ao material impresso, e isso era, em geral, bastante adequado ao período entre o século 17 e o início do século 20, mas já nesse momento com algumas anomalias. Havia o drama, que era a escrita não para ser lida, mas para ser encenada. Havia o que era chamado, desde períodos anteriores, de “literatura oral” – uma classificação incomum e muitas vezes enganadora. Havia, eventualmente, o status problemático da escrita em suas formas modernas, como a radiodifusão, o filme e as formas revividas de produção oral. Mas, de forma crescente ao longo do século 19, houve mais uma especialização do termo, com base no que são, hoje, categorias evidentemente anômalas. A literatura passou a significar predominantemente os tipos da “escrita imaginativa” de romances e poemas, em uma complexa distinção em relação à escrita “factual” ou “discursiva”. Não que isso apenas tendesse a ocultar, nas áreas então excluídas (“discursiva” ou “factual”), o elemento da escrita, a composição linguística de fatos e argumentos; o fato era que as supostas relações entre “imaginação” e “fatos” para os outros casos “literários” eram, se em alguns momentos óbvias, em muitos casos o próprio problema a ser explicado. Isso seria suficientemente difícil. Mas havia então uma outra especialização na qual, por assim dizer, a categoria de “Literatura” desacreditava a si mesma. Nem toda literatura – romances, poemas, peças – era Literatura com maiúscula. Uma efetiva maioria de romances, poemas e peças era vista como não pertencendo à literatura, que era agora o grupo efetivamente selecionado, e não o “cânone” estabelecido pela crítica.

Assim, se agora alguém diz: “Literatura é mais importante do que todos os ismos”, esta pode parecer uma ideia persuasiva quando os ismos são, por exemplo, aqueles que são os mais distantes dela: marxismo e estruturalismo. Mas há um ismo que não é mencionado tão frequentemente: a crítica, que está agora, em decorrência dessa redefinição do paradigma, de fato incorporada na própria “Literatura” (como aquilo que, de fato, a define e que pode até mesmo vir a regê-la). Há muitas vezes, então, o paradoxo de que o que a maioria das pessoas está realmente fazendo nos departamentos de literatura é tido como crítica ou conhecimento crítico e de que isso é visto como uma atividade literária apropriada, embora seja algo tão distinto do que outros – escritores de romances, poemas, peças – estão fazendo, sempre em outras partes.

Assim, tem-se, na sequência, primeiro uma restrição a textos impressos, depois uma limitação àquilo que é chamado de obras “imaginativas” e, então, finalmente, uma circunscrição a uma minoria criticamente estabelecida de textos “canônicos”. Mas desenvolve-se também, em paralelo a isso, outra especialização, geralmente mais potente: não apenas a da Literatura, mas a da Literatura Inglesa. Por si só, essa é, historicamente, uma construção tardia, posto que, em relação aos escritos medievais, ao menos àqueles do século 17, ela é uma construção obviamente duvidosa. Seria o inglês, então, a linguagem ou o país? Se ele é a linguagem, há também quinze séculos de escrita nativa em outras linguagens: latim, galês, irlandês, inglês antigo, francês normando. Se não é a linguagem, mas o país, seria este apenas a Inglaterra ou seria também Irlanda, Gales, Escócia, América do Norte, os países antigos e novos do Commonwealth?

O paradigma dominante em crise

A ideia de uma “literatura nacional” é uma produção histórica de grande importância para um período determinado. O termo Nationalliteratur surgiu na Alemanha nos anos 1780, e histórias de “literaturas nacionais”, com perspectivas e ênfases consideravelmente novas em relação às ideias mais antigas e gerais das “letras humanas”, estavam sendo escritas em alemão, francês e inglês, no mesmo período em que havia uma grande mudança tanto nas ideias de “nação” como de “nacionalidade cultural”. Desenvolvimentos históricos subsequentes, especialmente em nosso próprio século, tornaram vagas essas especializações “nacionais” e criaram anomalias que têm de ser reguladas temporariamente ano após ano pelo método de exame, etc. “Tendo em vista os propósitos deste ensaio, o inglês deve ser entendido como significando...”. De fato, essa é uma anomalia bastante poderosa, uma vez que a questão da Englishness, tantas vezes referida nos estudos de literatura inglesa, está agora, por razões sociais e políticas óbvias e bastante críticas, repleta de problemas complexos e altamente emocionais de identidade tradicional e ameaça contemporânea. Considerem-se algumas atitudes correntes em relação a novos recentes trabalhos, como o “Francês” ou a “Paris fashion”. Esses não são apenas termos descritivos, mas são usados deliberadamente em um sentido de diferenciação. Parece que o que está sendo geralmente defendido não é apenas um corpo de escritos, mas uma projeção maior disso, na qual as obras, de fato muito diversas, dos escritores ingleses são integradas dentro de uma identidade nacional – muito mais potente porque derivando, em larga medida, do passado –, na qual um ânimo, um temperamento, um estilo ou um conjunto de “princípios” imediatos (os quais podem ser contrastados não apenas com a “teoria”, mas com todas as demais formas de raciocínio) estão sendo celebrados, ensinados e – quando possível – impostos administrativamente. Isso está muito distante da literatura no sentido de escrita ativa e diversa. Antes, isso é um suporte, um último bastião a partir do qual noções muito mais gerais de Englishness, de valores, de tradição são defendidas contra todo o resto; até mesmo dissidentes nativos (para não falar daqueles forasteiros) são vistos não apenas como diferentes, mas como estrangeiros – falando não a nossa linguagem, mas algum jargão incompreensível. Na medida em que isso diga respeito a todos os ingleses, não é assim como a maioria deles pensa e sente efetivamente, em face de problemas relacionados de identidade, tensão e mudança. Mas entre aqueles que podem ser chamados, com precisão, de intelectuais literários tradicionais ingleses, isso não é apenas uma prática; isto é, e soa como, uma vocação e uma cruzada. Em sua própria área, isso é congruente com as manifestações e as lutas muito mais gerais da classe dominante inglesa como um todo, cujos discurso e divulgação da “herança” cresceram em proporção a seus atuais fracassos práticos.

Ora, por diversas razões, tanto o marxismo como o estruturalismo, cada um a seu modo, influenciaram diretamente o paradigma e suas anomalias. De fato, o surpreendente é que, em muitas de suas tendências atuais, eles foram acomodados, ou acomodaram-se, dentro do paradigma, em que eles podem ser vistos como simples abordagens diversas do mesmo objeto de conhecimento. Assim, eles podem ser tidos como os hóspedes, embora ocasionalmente desordenados e indisciplinados, de um pluralismo apropriado. Contudo, certas outras tendências não são tão assimiláveis e são, de fato, consideravelmente incongruentes em relação a essa definição dada. São estas que estão envolvidas, não sem desordem e furor, na crise atual, pois essa crise é, acima de tudo, uma crise do paradigma dominante e de seus padrões e métodos profissionais estabelecidos. Ainda assim, por todas as razões dadas aqui, essa crise adquire uma ressonância que extravasa os termos de uma disputa profissional. Ela é, no sentido mais completo, uma das áreas-chave na qual uma crise cultural bastante geral está sendo definida e travada.

Passarei agora a uma descrição breve das principais e mais diversas tendências no marxismo, formalismo e estruturalismo, no que elas se referem àquilo que, por hábito, chamamos de estudos literários. Conhecer qualquer uma dessas tendências adequadamente exigiria muitos estudos subsequentes, mas desejo ao menos identificá-las e, então, brevemente indicar, porque este é, agora, o ponto crucial, quais dessas tendências são compatíveis com o paradigma – e, portanto, com os sistemas profissionais estabelecidos – e quais, na minha visão, não o são.

Marxismo e a teoria do reflexo

A primeira área a explorar no marxismo é aquela que está centrada na ideia de “reflexo”, em si mesma uma noção muito complexa e usada na tradição marxista de formas bastante diversas. Ela representa, historicamente, a primeira aplicação do marxismo aos estudos literários, mas de três modos interessantemente diferentes. Primeiro, há aquela proposição mais geral no marxismo de que todo o movimento da sociedade é governado por certas disposições dos meios de produção e de que, quando essas disposições – forças e relações em um modo de produção como um todo – mudam ao longo da operação de suas próprias leis e tendências, então as formas de consciência e as formas de produção intelectual e artística (formas que têm lugar, na definição marxista ortodoxa, na “superestrutura”) também mudam. Algumas mudam de modo relativamente direto, como a política e a lei; outras, de modos mais remotos e geralmente mais indiretos – os exemplos tradicionais são a religião, a filosofia e a estética. Segundo essa versão marxista da história da arte e do pensamento, mudanças nos níveis mais básicos da ordem social repercutem nas áreas mais distantes, na medida em que as pessoas se tornam conscientes desses conflitos e passam a se engajar neles sob várias formas.

Essa proposição tem sido longamente discutida, sobretudo na própria tradição marxista. Mas, em sua relação com os estudos literários, podemos distinguir duas versões dela: uma mais grosseira, embora ainda seja largamente conhecida (e, geralmente, tudo o que se conhece) como o marxismo nos estudos literários; a outra, muito mais sofisticada, ou aparentando ser mais sofisticada. A primeira versão grosseira é esta: se é verdade que a produção literária e intelectual é, no sentido mais geral, um reflexo de conflitos fundamentais na ordem social, então a tarefa do marxismo engajado nesses estudos é a de identificar as forças em conflito e, então, de distinguir (como era comumente feito nos anos 1930) tipos progressistas e reacionários de escrita, de tomar posição em relação a eles e, acima de tudo (já que a ênfase recaia muito mais na produção do que na crítica), de encontrar meios de produzir novos tipos de escrita que correspondessem às necessidades do conflito fundamental.

Esta é – e não apenas de forma caricata – uma posição bastante simples. Em seu aspecto mais débil, ela equivale a marcar certos tipos de literatura como bons ou maus, de acordo com suas presumidas tendências políticas ou históricas. De forma mais geral, o argumento literário é visto como dependendo de uma posição supostamente total ou de uma visão de mundo de classe. Ademais, essas verdades gerais são concebidas como vindas primeiro, em primeiro lugar, apenas então sendo demonstradas e ilustradas na literatura. Não surpreende que, quando essa variante de interpretação marxista encontrou, nos anos 1930, um tipo de interpretação muito mais afeito à análise literária, por exemplo, em Leavis (ele próprio engajado e envolvido em discriminações morais e culturais na literatura), ela tenha sofrido uma derrota consideravelmente decisiva. Ela foi vista como grosseira e reducionista ou, na melhor das hipóteses, como dogmaticamente seletiva.

E, mesmo assim, ainda diz-se que nenhum marxista, não obstante ele/ela redefina os termos dessa proposição geral da determinação social, poderá abandoná-la completamente sem abandonar a tradição marxista. Na verdade, as formas mais modernas desse argumento prescindem da ideia de reflexo, porque, mesmo depois de se admitir que há distâncias, de que há defasagens de tempo, etc., é evidente que se assumiu uma correspondência a priori excessivamente estreita e direta, entre coisas que poderiam ser historicamente identificadas como ocorrendo em outras partes da ordem social, entre elas, a própria produção literária. Assim, ao invés de olhar para essas conexões diretas e óbvias, que poderiam apoiar a simples rotulação de obras como politicamente boas ou más ou como representando essa ou aquela tendência ou classe, a posição mais geral foi mantida, mas com uma redefinição radical do que efetivamente são os variáveis processos literários e estéticos. Eventualmente, esta se tornou, em um momento posterior, uma posição bastante complexa; mas mencionei primeiro a versão antiga, tanto porque ela é a mais amplamente conhecida como porque, existindo tanto em formas grosseiras como em formas mais refinadas, ela ainda é complexa e desafiadora.

Ora, a segunda posição que foi construída ao redor da ideia de reflexo era, de fato, muito mais simples. Valendo-se de uma tradição bastante longa do pensamento literário, esta vem a ser uma das tendências mais adequadas da ideia geral de reflexo e, de fato, da versão mais ampla e passiva de mimesis (há um sentido consideravelmente diferente, ativo, de mimesis, que não é absolutamente reflexo, mas um processo de compreensão, interpretação e transformação). Essa tendência define literatura significativa como aquela que reflete a realidade social, e seu método predileto é o realismo: julgar obras de arte por sua fidelidade a ou pela elucidação da realidade social. E, se esse é o critério, então não deve haver nenhuma qualificação externa de obras progressistas ou reacionárias. Como Marx observara sobre Balzac (um homem no extremo político oposto a ele): Balzac é importante precisamente porque representa em seus romances a realidade da sociedade francesa. Ele teria sido um escritor muito inferior se tivesse tentado converter essa representação realística naquilo que tanto Marx como Engels atacaram continuamente como “tendency literature”, na qual, ao invés de refletir a realidade, tenta-se conformá-la a alguma pressuposição política pessoal. Era, portanto, crucial nessa tendência que a obra refletisse a realidade – a realidade tal como era, por mais indesejável que pudesse ser.

Mas temos de admitir algo, talvez muito, dado que o marxismo, enquanto uma posição geral, reivindica insights únicos acerca da natureza dessa realidade ou, melhor dizendo, de suas leis fundamentais. De fato, isso pode ser bastante diferente da ideia de refletir qualquer “realidade” que venha a existir de tempos em tempos. Ainda assim, essa diferença tende a concernir, principalmente, a questões de argumento histórico. O método da análise literária – a demonstração de um reflexo de um estado ou processo definido como a sua base, contexto ou pano de fundo – geralmente permanece adequado, pois esta é, no final das contas, uma posição bastante familiar a todos os estudos literários. As pessoas realmente perguntam, vezes e mais vezes, de modos mais ou menos sofisticados, como esse ou aquele romance relaciona-se a alguma realidade de outro modo observável. De fato, isso forma uma parte bastante grande das pesquisas mais ortodoxas em crítica e conhecimento. Assim, um tipo de posição “marxista”, defendida em seus próprios termos, é na prática quase sempre compatível com métodos muito mais largamente aprovados e comprovados.

Esse é o caso, creio eu, da terceira versão da teoria do reflexo, que se torna particularmente visível na obra de Lukács – as fases anteriores tendo sido representadas principalmente por Plekhanov. Lukács afirmava que podemos ter uma visão enganosamente simples da relação entre uma obra de arte e a realidade, posto que o reflexo da realidade, em sua forma imediatamente apreensível, pode ser ou insuficiente ou de fato ilusório. Donde a definição de realismo que Lukács finalmente abraçou: uma definição em alguns aspectos mais difícil de defender teoricamente do que as posições anteriores, pois diz que a tarefa do escritor é a de refletir movimentos subjacentes. É aqui que o ponto anterior, acerca dos insights privilegiados do marxismo, torna-se muito mais saliente, pois o “movimento subjacente” tende a pertencer às “leis”, às análises privilegiadas, e, assim, afasta-se bastante da citação de detalhes empíricos, seja na perspectiva marxista, seja em qualquer outra. Porém, essa também é uma tentativa de mover-se para além dessas simplicidades empíricas, de algum modo relacionadas a outras tentativas de revelar uma relação indireta ou penetrante ou ideal entre “o que aconteceu” e o que os escritores “fizeram disso”. Donde o ataque de Lukács ao naturalismo, o qual (dizia-se) simplesmente reflete a aparência das coisas tal como elas são, a realidade imediatamente acessível. A alternativa ao naturalismo é um realismo que, ainda que fiel à realidade contemporânea, que é seu tema, está interessado, acima de tudo, em discernir os movimentos subjacentes a ela. Assim, grande ênfase é colocada no realismo mais como uma categoria dinâmica do que estática. As considerações de Lukács sobre o romance histórico ou as formas mutantes do drama são moldadas nesses termos. Contudo, curiosamente, quando tipos bastante diferentes de escrita foram desenvolvidos no século 20 para representar, precisamente, movimentos dinâmicos – como, por exemplo, Brecht –, Lukács atacou-os: de fato, ele tendeu a permanecer profundamente ligado a essa versão antiga de realismo como reflexo e ilustração de uma realidade geral e largamente reconhecível.

A mediação literária da realidade

Assim, durante muito tempo, a contribuição marxista aos estudos literários – ao menos em obras disponíveis em inglês – estava representada na teoria do reflexo. Mas, já desde os anos 1920, uma definição bastante diferente da produção literária e de suas relações sociais se desenvolveu dentro do marxismo. Esta estava centrada não no “reflexo”, mas naquilo que parece ser o conceito consideravelmente diferente de “mediação”. De fato, o primeiro sentido de “mediação” não é nada mais do que um reconhecimento dos sentidos mais refinados de “reflexo”. Ele aceita que é enganoso procurar na literatura pelo “reflexo da realidade”. Necessariamente, por sua construção como literatura, a realidade se torna mediada em certos modos definidos. Esta é, além disso, uma proposição perfeitamente familiar aos estudos literários, até mesmo ortodoxa. Não está distante da noção de Eliot de um “correlativo objetivo”, embora partindo do outro extremo. Mas ela está comprometida, acima de tudo, com a refutação das versões redutivas das fases anteriores, nas quais se supunha possível olhar para conteúdos intocados. Significativamente, os principais argumentos sobre “mediação” assumiram Kafka como objeto, posto que havia aqui um tipo de escrita que ou deveria ser rejeitada a partir das premissas mais simples da teoria do reflexo – como as “fantasias doentias de uma classe decadente”; “elucubrações pessimistas e subjetivistas, distantes da vida ativa e vigorosa do povo” – ou interpretada por diferentes versões da ideia de mediação. Devo resistir à tentação de oferecer exemplos detalhados das diferentes leituras de Kafka – como ficção da alienação, da burocracia, do imperialismo em declínio, do judaísmo na diáspora, do complexo de Édipo, da doença fatal, etc. – que se originaram dessas diferentes versões de mediação, mas elas estão aqui registradas. Ainda assim, contudo, o primeiro sentido de mediação é apenas um refinamento da ideia de reflexo, e devo mencionar brevemente outros três sentidos.

Primeiramente, há a noção muito interessante desenvolvida por Walter Benjamin, nos anos 1930: a ideia de correspondências. Essa é uma mudança decisiva, porque Benjamin não argumenta que uma obra de literatura seja a transformação literária de algum elemento da realidade. Na verdade, há uma “correspondência” observável entre certos tipos de escrita e certas outras práticas sociais e econômicas contemporâneas. O exemplo mais famoso é sua longa análise de Baudelaire, em que ele argumenta que certas novas condições na cidade, conduzindo a novas formas da “multidão” e, dentro dessas, à redefinição do “individual”, produziram novas formas de escrita, incluindo a de Baudelaire. Aí a ênfase não está na realidade social outrora existente e observável, que a literatura “reflete” ou até mesmo “medeia”, mas no fato de haver uma correspondência observada entre a natureza e a forma da atividade literária e a natureza e a forma de outras práticas contemporâneas de um tipo mais geral.

Benjamim veio a se tornar bastante próximo das importantes ideias da Escola de Frankfurt, embora ele tenha, justamente nesse ponto, se desentendido com Adorno, o qual foi mais longe no uso da ideia de mediação. Adorno argumentava que correspondências de conteúdo, deixando de lado observações sobre mediações ou conteúdos, são basicamente irrelevantes para a arte. De fato, a presença de correspondências ou de reflexos desse tipo é virtualmente uma garantia de que a arte não é autêntica. A arte é produzida – e essa foi sua contribuição ao debate sobre Kafka – por um processo que ele chamava de descoberta de “imagens dialéticas”, as quais não tinham possibilidade de serem descobertas ou expressadas em nenhuma outra forma. A “imagem dialética” surge no processo artístico e, uma vez criada, nunca pode ser aberta ou diretamente descrita, embora ela possa ser, na análise, relacionada a toda a estrutura na qual ela foi formada. De fato, a condição de seu sucesso enquanto arte é de que ela alcance uma existência autônoma.

Esse é um sentido de mediação que eventualmente se conecta com formas do estruturalismo literário. Lucien Goldmann, primeiro em seus estudos do drama clássico francês, particularmente Racine, e depois em seu trabalho sobre o romance dos séculos 19 e 20, produziu uma posição que alargou ainda mais a categoria de mediação: correspondência não era uma relação de conteúdo, mas sempre de forma. Ele dizia, ademais, que é apenas na literatura secundária ou inferior que os sociólogos vulgares, como ele tendia a chamá-los, procuravam e encontravam suas relações simples entre literatura e sociedade ou realidade. Ao contrário, ele argumentava, o que está refletido nessas obras é meramente a consciência contraditória e não realizada da época. A consciência de época mais profunda é alcançada apenas em algumas grandes obras e é alcançada por elas em sua forma e não em seu conteúdo. Essa é toda a motivação de sua análise de Racine, embora eu deva dizer que ele nem sempre se mantenha fiel às suas próprias prescrições. Não obstante, a proposição é de que a correspondência, a mediação, é inteiramente uma questão de forma. Certa disposição de relações humanas está sempre presente como a consciência mais profunda de uma época particular, e essa disposição é homóloga a um ordenamento específico dos elementos da obra literária. Goldmann nomeou essa posição de “estruturalismo genético”. Isso estava em oposição deliberada ao estruturalismo ortodoxo, uma vez que ele argumentava que, se quisermos compreender essas formas, devemos compreendê-las em seus processos de constituição, estabilização e desmembramento; enquanto em outras tendências do estruturalismo havia uma rejeição de qualquer noção desse tipo de gênese e dissolução histórica.

Os formalistas russos

Agora talvez fosse conveniente passar imediatamente ao estruturalismo literário, mas, tendo em vista a história dessa temática, devemos fazer um desvio pelo formalismo, pois não resta dúvidas de que o formalismo – tanto as primeiras obras dos formalistas russos como os desenvolvimentos posteriores nos Estados Unidos e na França – teve um efeito prático maior nos estudos literários que são agora largamente agrupados como “estruturalistas” do que aquele estruturalismo mais geral, que é tão ativo em outras disciplinas, especialmente na Antropologia. Brevidade aqui é algo especialmente temerário, mas a principal determinação dos formalistas era uma nova definição do literário. De fato, eles estavam reagindo precisamente contra os modos de estudo, ou a maior parte dos modos de estudo, que eu descrevi anteriormente. A princípio, eles estavam reagindo dentro de um contexto especificamente russo, no qual essas teorias, tanto a marxista como as a ela relacionadas, estavam bastante ativas e em voga. Os formalistas diziam: a omissão crucial que vocês estão fazendo é daquela qualidade que faz de uma obra uma obra literária. Isso não será encontrado naquilo que vocês estão investigando, que é a relação de uma obra com alguma outra coisa. A questão central, necessariamente, é: o que faz dessa obra específica uma obra literária? Assim, foram os formalistas que começaram a usar, com uma ênfase consideravelmente nova, a noção de “linguagem literária”, que ainda se ouve tão frequentemente. Não há necessidade de enfatizar que há, é claro, também conceitos muito mais antigos de “linguagem literária”: seja de um tipo de linguagem apropriada aos processos elevados da literatura, seja de um padrão de correção pelo qual qualquer outro uso pode ser julgado. Essas são posições antigas e, atualmente, posições meramente conservadoras. Ademais, a primeira delas, nas formas fixas nas quais tendeu a se estabelecer, foi repetidamente desafiada e efetivamente desmantelada por escritores, que, em certos períodos, conscientemente rejeitaram estilos “literários” ou “poéticos” dados e tentaram restabelecer relações com a “linguagem viva” e popular. Devemos sempre, de fato, focar a evidência história acerca de formas de escrita efetivas e em transformação e suas relações sociais em mudança, se quisermos nos afastar da noção de uma “linguagem literária” como algo distinto dos usos mais gerais da linguagem. Isso pode ser o problema das relações entre a fala e a impressão ou entre formas nobres e populares ou, ainda, isso pode ser um problema inerente aos modos de qualquer composição consciente.

A ênfase formalista tinha muito pouco que ver com as posições mais familiares de conservação ou aperfeiçoamento. Ao contrário, o que os formalistas propunham era uma ruptura revolucionária, como condição para qualquer literatura autêntica (a posição mais influente) ou como uma condição necessária em sua própria época, à medida que os modos “clássicos” sucumbiam. Esses dois argumentos ainda precisam ser claramente distinguidos, mas o que os primeiros formalistas propunham era um afastamento consciente na linguagem, uma ruptura deliberada em relação ao uso ordinário da linguagem. Isso é o que, na prática, sempre acontece quando uma obra é anunciada como literária. Seja nos usos mais específicos das palavras, seja em alguma ruptura com as convenções e perspectivas a partir das quais um assunto é ordinariamente visto, ela dá o salto para a literatura, para o “literário”. E, então, a tarefa do analista é traçar precisamente essas rupturas que constituem a literariedade de uma obra.

Essa posição é bastante produtiva. A discussão entre os formalistas e os marxistas mais tradicionais foi, creio eu, muito importante. Ademais, desde aproximadamente 1925, há um desenvolvimento menos conhecido de um tipo de formalismo que elevou a discussão a um novo patamar. Ainda assim, quando comparado com as pessoas que conhecem o formalismo como as obras iniciais de Eichenbaum, Shklovsky, etc., há muito menos daqueles que estão familiarizados com Volosinov ou Bakhtin ou Mukarovsky. Mas foi a obra desses formalistas posteriores, com suas pesquisas acerca da “literariedade” geral ou universal, que transformou toda a discussão acerca do estudo da literatura e, ao final, o status do próprio paradigma. Essa fase posterior foi, de fato, um formalismo social e histórico, porque estava preocupado não apenas com uma definição geral da literariedade, mas com as condições em transformação nas quais a “literariedade” – agora, por sua vez, um conceito dinâmico – é alcançada por escritores particulares, assim como com processos mais gerais de desenvolvimento histórico e social.

Considere-se Volosinov, por exemplo. Sua obra permaneceu praticamente esquecida por cinquenta anos (ele estava escrevendo no final dos anos 1920, e são muitos os que acreditam que ele sempre foi apenas um pseudônimo de Bakhtin). Profundamente influenciado pela nova escola da linguística estrutural e aceitando a análise da linguagem como análise de um sistema de signos, Volosinov, não obstante, insistia que a linguagem é, ao mesmo tempo, um sistema de signos e um sistema socialmente produzido de signos. Ele argumentava, além disso, que signos verbais são sempre “multirrítmicos”. Assim, ele podia rejeitar aquelas concepções de “sistema” que estavam sendo oferecidas pela Linguística estrutural – assim como pela Psicanálise –, nas quais certas regras do sistema produziam significados e formas, pois, na vida histórica e social real, há produção sistemática constante, e, ainda assim, essa é também uma produção constantemente aberta. É, então, possível colocar a “literariedade” dentro do potencial aberto de uma linguagem, disponível tanto geral como especificamente.

Essa é uma ruptura decisiva com o formalismo anterior. Mesmo enfatizando o que os formalistas indicaram como distintivo na linguagem literária, ela não restringe a geração e regeneração linguística a obras de literatura. O processo da linguagem é, ele mesmo, uma possibilidade contínua de deslocamento e mudança e de iniciação de sentidos, e esse âmbito de possibilidades está incorporado nas “regras” tanto da Linguística como do sistema social. A obra do próprio Bakhtin, especialmente seu estudo sobre Rabelais, indicou o surgimento de um novo tipo de literariedade – e, assim, de uma literariedade histórica – pela observação da interação e da excelência criativa tanto dos modos da literatura popular, que estavam tradicionalmente presentes, e da literatura culta, que colapsara dentro de uma tradição social mais limitada e conservadora. Foi precisamente na interação dessas tradições dadas e diferentes que uma nova indicação do que significava ser literário se formou.

Tudo isso é muito diferente dos primeiros formalistas, com sua ênfase mais local no que torna a linguagem literária, como o uso local de “dispositivos”. É uma indicação histórica de como tipos específicos de literariedade integram-se à prática social. Há, então, Mukarovsky, que talvez seja o revisor mais sério das posições formalistas originais; de fato, sua obra aponta para alguns dos tipos posteriores mais incongruentes e incompatíveis de análise. Mukarovsky argumentou de forma devastadora (embora, ao final, não leve o argumento às últimas consequências) que a qualidade estética não é, nem mesmo principalmente, produzida dentro de uma obra de arte. Assim, ele se moveu para longe do formalismo estético, que olhara para dentro da obra atrás de indicações de que ela fosse literária ou de que fora planejada para uma resposta estética. Ao contrário, ele dizia, as indicações estéticas, e assim as normas estéticas e os valores estéticos, são, elas mesmas, sempre produzidas socialmente. Há indicações mutáveis do que deve e do que não deve ser visto como arte e do que deve e do que não deve ser visto como arte de certo tipo. Essas indicações, embora se refiram à organização interna da obra, são sempre muito mais amplamente operativas e têm uma história.

Estruturalismo: um primo a muito perdido?

Assim, é bastante significativo que, desde o final dos anos 1950, nos Estados Unidos e na França, o conjunto de obras que foi traduzido primeiro e que primeiro se tornou influente tenha sido a obra dos primeiros formalistas; a obra posterior mais social e histórica sendo comparativamente menos conhecida até muito mais tarde. Isso teve sérios efeitos na forma como certas posições formalistas foram desenvolvidas na análise literária. O tipo mais limitado (embora em termos locais, ainda impressionante) de análise formalista se tornou a forma dominante que se acreditou corresponder, na literatura, ao que era por essa época chamado de metodologia “estruturalista” em Antropologia, em Linguística e em Psicanálise. É por isso que ainda é difícil compreender as relações entre estruturalismo, em seu sentido geral mais completo, e o que são posições literárias frequentemente mais locais. Ainda assim, havia, obviamente, algumas relações.

Uma das tendências mais comuns no estruturalismo, de valor notável em Antropologia e em Linguística, é a de se recusar a interpretar um evento em seus próprios termos isolados ou em sua forma imediata de apresentação. Ela objetiva, isto sim, localizar um evento, uma relação ou um signo dentro de todo um sistema significante. Sistemas desse tipo são governados por suas próprias regras internas: posição essa que foi inicialmente alcançada como uma solução criativa aos problemas, nesse campo, no estudo de linguagens organizadas por noções de sintaxe bastante diferentes em relação a quaisquer noções que estivessem disponíveis na tradição indoeuropeia. Ao invés de apropriar o novo evento a um sistema já conhecido, o esforço era feito no sentido de encontrar seu sentido dentro de um sistema estrutural específico: na prática, pelas relações dessa unidade com outras e, então, pela descoberta das regras gerais internas do sistema específico.

O que um procedimento desse tipo implicaria nos estudos literários? Primeiro, há a possibilidade de alguma influência direta da Linguística estruturalista. De fato, isso fomentou certas técnicas refinadas de análise que estão sendo crescentemente praticadas, embora ainda sejam vistas com ceticismo pelos departamentos literários mais antigos. Há, por exemplo, a estilística, mas muito mais importante é a análise do discurso, geralmente afastada da linguagem ordinária da análise literária, mas também geralmente impondo um vocabulário mais preciso nas análises de formas sintáticas ou na identificação do narrador ou do falante e da relação entre falantes. Algo disso penetrou nos estudos literários alguns anos atrás e está disponível, como uma técnica entre as outras, em procedimentos completamente ordinários da análise literária.

Mais comumente, contudo, a noção de um sistema internamente regulado era facilmente aplicável; de fato, era, em alguma medida, diretamente congruente com uma posição que já havia sido alcançada dentro dos próprios estudos literários sem referência ao estruturalismo. De fato, quando essa tendência do estruturalismo literário apareceu como uma importação da França, nos anos 1960, arrisquei-me a dizer que ela parecia estranha apenas porque era um primo há muito perdido que emigrara de Cambridge no final dos anos 1920 e início dos 1930.

Na verdade, essa não era sua única origem. Contudo, há ao menos uma herança indireta do tipo de reflexão que Richards vinha fazendo sobre a organização interna isolada de um poema, e isso é especialmente aparente quando se atenta para onde o primo esteve: na Nova Crítica norte-americana. O que ocorrera em Cambridge fora, por contraste, uma associação confusa, mas ainda assim impressionante, de julgamentos morais e até mesmo normativos, com essas técnicas de análise interna isolada. Isso era visto, em outras partes, como uma lamentável impureza e um desvio da única disciplina relevante, que era a análise de uma organização verbal específica; de fato, o objeto como ele é realmente em si, um eco irônico nesse contexto. De todo modo, as técnicas formais eram ou poderiam se tornar rapidamente familiares à análise literária, em que elas eram dirigidas à análise da organização interna do texto, do poema.

Esse tipo de estruturalismo literário não é apenas congruente com o paradigma que eu comecei descrevendo. Ele é o próprio paradigma em sua forma moderna mais influente. E, de fato, se ele é genuinamente estruturalista é uma questão que tem de ser enfrentada. Em suas formas usuais, ele é tão marcadamente local e técnico, tão pouco interessado com quaisquer propriedades sistêmicas mais amplas ou gerais, que ele mal merece esse nome. O que pode muito mais razoavelmente ser chamado de “estruturalista”, nos estudos culturais, é aquela obra que analisa a organização interna não como um fim em si mesma – como a competência necessária para a leitura –, mas como a forma necessária de analisar, e assim distinguir, formas específicas ou sistêmicas. Assim, os estudos de Goldmann sobre as formas dramáticas, e muitos dos trabalhos atuais sobre formas narrativas, são tentativas de descobrir as regras, as regras estruturais, das formas gerais específicas do drama ou da ficção. Isso é muito diferente das análises técnicas mais locais derivadas da Linguística. É uma aplicação da ideia estruturalista fundamental a problemas de forma que foram, de fato, profundamente negligenciados nos estudos literários. No caso de Goldmann, tal análise é, ao mesmo tempo, formal e histórica – há formas historicamente mutáveis. Contudo, em intervenções estruturalistas muito mais centrais, tem-se acreditado, de modos que fazem lembrar teorias dos gêneros literários muito mais antigas, que há regras detectáveis da organização literária geral: da “Narrativa” como tal, do “Drama” como tal, e assim por diante. Trata-se de um tipo importante de projeto, mas, tipicamente, ele geralmente une um tecnicismo extremamente local, de análise interna, a categorias extremamente amplas – deliberadamente a-históricas e contidas entre abstrações estéticas ou psicológicas – como as “estruturas” às quais todo detalhe se relaciona.

Um terceiro tipo de “estruturalismo literário” é a obra influenciada pelos argumentos filosóficos de Louis Althusser. Eles penetraram na análise literária por meio de seu pupilo Pierre Macherey e são representados no país, por exemplo, por Criticism and Ideology, de Terry Eagleton. Esta é uma tendência consideravelmente diferente. Ela diz: certamente a sociedade, a ordem social, é um sistema internamente regulado, mas, acima de tudo, ela é um sistema dos sistemas, determinado em última instância pela economia. No quadro dessa determinação mais geral, cada prática – como a escrita – possui uma importante autonomia relativa. Contudo, ela ainda é uma parte e deve ser percebida no final das contas como uma parte de um sistema mais amplo, ao qual ela não pode ser reduzida, mas ao qual ela deve ser, no final das contas, relacionada. Como, na prática, essa relação é tratada e demonstrada? Ela o é por meio daquilo que é visto como a força vinculante de todo o sistema: a ideologia.

Aqui a ideologia é muito mais do que as ideias e crenças de classes ou grupos particulares. Ela é, com efeito, apenas com limitadas exceções, a condição de toda a vida consciente. Assim, a área à qual a maioria dos estudantes de literatura normalmente refere as suas leituras e seus julgamentos, aquela área condensada no decisivo termo “experiência”, deve, na verdade, ser vista como parte da esfera da ideologia. De fato, a experiência é vista como a forma mais comum de ideologia. É onde as estruturas mais profundas da sociedade efetivamente se reproduzem como vida consciente. A ideologia é, de fato, tão penetrante e tão impenetrável, nesse sentido, que se pergunta quem algum dia será capaz de analisá-la. Mas há um precedente, afinal, no caso do inconsciente, com o qual ela tem certas analogias e conexões próximas. Há um inconsciente absoluto, diz a Psicanálise, mas também há técnicas reconhecíveis de entendimento e compreensão. No caso de Althusser, a principal técnica de entendimento é a teoria. Apenas a teoria pode escapar completamente à ideologia. Mas há também, no caso da literatura, uma situação relativamente privilegiada. Literatura não é apenas um portador da ideologia, como na maior parte das formas da teoria do reflexo. Ela é inescapavelmente ideológica, mas sua autonomia relativa específica é tal que ela é uma forma de escrita, uma forma de prática, na qual a ideologia tanto existe como é, ou pode ser, internamente afastada e questionada. Portanto, o valor da literatura reside precisamente no fato de ela ser uma das áreas em que o domínio da ideologia é, ou pode ser, afrouxado porque, embora ela não possa escapar à construção ideológica, a questão de sua literariedade oferece um contínuo questionamento interno. Tem-se, assim, leituras que são muito similares a certas leituras semióticas recentes, em que se constrói um texto e um subtexto, em que se pode dizer “isso é o que é reproduzido a partir da ideologia”; mas também “isso é o que está ocorrendo no texto e que mina ou questiona ou, em certos casos, completamente a subverte”. Esse método tem sido usado em análises bastante circunstanciadas e interessantes.

Semiótica e desconstrução

Em seguida há, finalmente, uma tendência que, sem dúvida, tem uma relação com o estruturalismo, certamente com a Linguística estrutural, mas que – em minha opinião, de forma válida – nega que seja um estruturalismo. Trata-se do que é hoje chamado de Semiótica. Em geral, Semiótica é, sem dúvida, um filho legítimo do estruturalismo. Ela é uma ciência dos signos e uma ciência dos sistemas de signos (não confinados à linguagem). Os significados são interpretados não por seu conteúdo aparente, mas por suas relações dentro de um sistema geral de significação. Na Semiótica mais recente, esse tipo de análise tem sido rigorosamente estendido à propaganda, ao cinema, ao fotojornalismo e, no caso de Barthes, à moda. Quando se tem esse procedimento fundamental de leitura de um sistema de signos – em que os sentidos não se revelam simplesmente, mas devem ser construídos por meio da compreensão de seu lugar em um sistema que nunca está ele próprio revelado, que, de fato, sempre tem de ser lido –, então se tem algo que, embora surja dentro do estruturalismo, pode se tornar, em estudos posteriores, separável dele. Assim, ao invés de ver as obras literárias como sendo produzidas pelos sistemas de signos, o que tem sido a ênfase central do estruturalismo mais ortodoxo, essa Semiótica posterior tem enfatizado, ao contrário, que os sistemas produtivos têm sempre de ser, eles próprios, constituídos e reconstituídos, e que, por causa disso, há uma batalha permanente acerca do caráter fixo do signo e acerca dos sistemas que nós ordinariamente trazemos à apresentação e à interpretação. Um efeito dessa mudança é um novo sentido de “desconstrução”: não a análise técnica de uma organização interna para mostrar de onde vieram todas as partes, todos os componentes, mas um processo muito mais aberto e ativo que está continuamente desmantelando exemplos, como um modo de desmantelar seus próprios sistemas. Trata-se, nesse sentido, claramente de uma tendência muito mais explosiva do que quaisquer das outras tendências dentro do estruturalismo, que não está simplesmente demonstrando a operação de regras sistemáticas em maneiras que podem se estabelecer como competências dentro do paradigma. Ao contrário, analisando seja a literatura, a televisão, seja a representação física, está-se olhando não para o sistema academicamente explicativo, mas para o sistema como um modo de formação, que, à medida que se torna visível, pode ser colocado em questão ou, de fato, rejeitado. Nesse sentido, todo o impulso dessa Semiótica radical é muito diferente da versão estruturalista de produção e reprodução que tem sido muito mais largamente influente – muito mais bem-vinda e muito mais à vontade – nos estudos literários.

Agora quero dizer que, em anos recentes, tem havido um observável avanço em paralelo de duas posições que partiram de pontos distantes. Talvez eu possa melhor ilustrar isso com meu próprio caso. Muito do trabalho literário que eu fiz, feitas duas ou três exceções, pode ser lido como sendo compatível com o que eu chamei no início de o paradigma literário dominante. Isto é, são trabalhos que podem estar abordando a análise e a apreciação da literatura com uma consciência excepcionalmente forte dos determinantes sociais atuando sobre ela, mas o centro da atenção literária continua aí, e os procedimentos são apreciação, explicação, verificação, em termos da explicação histórica, e assim por diante. Um trabalho, contudo, do qual não se pode dizer isso é O campo e a cidade, que está, de fato, bastante próximo daquela primeira posição marxista que eu descrevi, porque nele pretendo identificar certas formas características de escrita sobre o campo e a cidade e, então, insisto em colocá-las não apenas em seu cenário histórico – o que faz parte do paradigma –, mas dentro de um processo ativo, conflitante, histórico, no qual as próprias formas são criadas por relações sociais que são algumas vezes evidentes e outras vezes, ocultas. Assim, isto é, sob qualquer leitura, uma ruptura.

Mas, é claro, houve outros estudos, remontando especialmente a The Long Revolution, que não foram percebidos, de qualquer modo, como próprios aos estudos literários, mas que agora podem ser vistos evidentemente como uma mudança de ênfase que redundaria na rejeição do paradigma dominante. Refiro-me especificamente aos estudos sobre a história social dos escritores ingleses, a história social das formas dramáticas, o advento do inglês padrão e também as novas posições acerca do que é necessário na análise da cultura. Uma mudança ulterior estava aparente nos estudos sobre comunicação, televisão, tecnologias e formas culturais e sobre a Sociologia da Cultura, embora estes fossem mais uma vez vistos como interesses separados, externos aos estudos de inglês ou literários. Ora, tudo isso se tornou claro para mim por volta dos anos 1970 e, a partir daí, desenvolvi uma posição teórica mais explícita, que descrevi finalmente em Marxismo e literatura como “materialismo cultural”. Essa posição está, é claro, completamente fora do paradigma, o que não significa que tenha se afastado da preocupação comum fundamental, dos estudos sobre os quais se trata de avançar. Essa posição avançou muito mais do que a literatura em seu sentido paradigmático, mas ainda inclui centralmente essas grandes formas de escrita, que estão sendo agora lidas, junto com outros tipos de escrita, sob uma perspectiva diferente. O materialismo cultural é a análise de todas as formas de significação, incluindo as formas mais centrais de escrita, dentro dos meios e das condições efetivos de sua produção.

Materialismo cultural e pós-estruturalismo

Foi aqui, talvez para nossa surpresa mútua, que meus estudos encontraram novos pontos de contato com alguns estudos na Semiótica mais recente. Ainda havia diferenças particulares bastante radicais, especialmente em sua confiança na Linguística estrutural e na Psicanálise; mas me lembro de ter dito que uma Semiótica plenamente histórica seria algo muito distinto de alguns dos mais limitados deslocamentos estruturalistas da história e praticamente o mesmo que o materialismo cultural, e eu estava satisfeito em ver certas tendências nessa direção. Podia ver também que algumas das posições mais simples da primeira Linguística estrutural poderiam ser modificadas por novas ênfases nas produções sociais e históricas de sistemas significantes, como em Volosinov e nos formalistas sociais. Restava o problema das bases da Psicanálise, em que ainda havia diferenças radicais, mas, por outro lado, eu sabia que o marxismo fora usualmente fraco nessa área dos problemas da subjetividade, e talvez haja hoje uma nova dimensão radical de pesquisas, testando evidências e proposições nessa área, que é tão evidentemente importante na produção de significados e valores. Assim, na verdade, dois tipos diferentes de estudos estavam agora em contato um com o outro e estavam se desenvolvendo, em alguns casos de forma bastante construtiva. Talvez estivéssemos tão envolvidos nisso em Cambridge que nos esquecemos de que, enquanto nós seguíamos nesses termos, o antigo paradigma ainda estava lá e ainda era institucionalmente poderoso, embora as anomalias estivessem, por essa época, desorganizando-o de forma consideravelmente evidente, até mesmo nos níveis mais práticos. Alguns novos estudos estavam sendo incluídos para contrabalançar as anomalias, mas o resultado já era incoerente, como se via a partir de muitos pontos de vista.

Assim, volto, por fim, ao meu argumento original. As tendências marxistas e estruturalistas mais atuais são e têm sido, embora pouco familiares localmente ou grosseiramente identificadas como estranhas e parciais, compatíveis ou até mesmo congruentes, em um sentido amplo, com o paradigma ortodoxo, especialmente em sua forma praticamente mais frouxa e ecleticamente incoerente. Alguns outros, contudo, não o são: mais especificamente, aquela primeira posição no marxismo, que, ao contrário de privilegiar uma literatura generalizada como uma fonte independente de valores, insiste em relacionar a real variedade da literatura a processos históricos nos quais conflitos fundamentais ocorreram necessariamente, e ainda estavam ocorrendo. Esse era o sentido e o desafio de O campo e a cidade. As outras posições que não são compatíveis com o paradigma e sua organização profissional são o materialismo cultural e a Semiótica radical, pois necessariamente incluem o próprio paradigma como tema de análise, antes do que como uma definição governadora do objeto de conhecimento.

É necessário insistir nessas distinções. Ainda é muito cedo para dizer quais podem ser suas consequências institucionais. Em algumas outras universidades e em algumas das novas instituições de educação superior, a mudança em relação ao antigo paradigma já ocorreu completamente ou em parte. Mesmo assim, ainda importa bastante o que acontece nas instituições mais antigas e estabelecidas. Especificamente em Cambridge, devemos colocar uma questão áspera: é possível que estudos radicalmente diferentes possam ser conduzidos sob uma única chefia ou departamento, quando não há apenas diversidade de abordagens, mas diferenças mais sérias e fundamentais acerca do objeto de conhecimento (apesar das tentativas de sobreposição ao material de estudo efetivo)? Ou deve haver uma reorganização mais ampla das divisões estabelecidas das humanidades, as ciências humanas, em arranjos recentemente definidos e mais colaborativos? Isso é o que agora precisa ser enfrentado no que é também, por outras razões, um clima gélido – de fato, aflitivo. Só podemos estar certos de que o que podemos e devemos fazer é esclarecer, com franqueza, as grandes questões intelectuais subjacentes.

Texto de conferência realizada na Faculdade de Inglês de Cambridge, em 13 de fevereiro de 1981.

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