22 de junho de 1995

Ur-Fascismo

Umberto Eco

The New York Review of Books


Tradução / Em 1942, quando tinha dez anos, recebi o Primeiro Prêmio Provincial do Ludi Juveniles (uma competição voluntário-compulsória para jovens fascistas italianos, isto é, para todos os jovens italianos). Eu discorrera com destreza retórica sobre o tema: "Deveríamos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália? Minha resposta foi afirmativa. Eu era uma criança esperta.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício.

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos... aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade...”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica.

Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j'aime le champagne...” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d'água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.


Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites – as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso – escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do Movimento Social e Italiano (MSI), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?


Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem "Por quem os sinos dobram", de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” - entendendo com isso que combater Hitler nos anos 40 era um dever moral de todo bom americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 30, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.


O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se – conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 30 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contra-revolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D'Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo –com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d'Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas idéias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).


A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

1 2 3 4

abc bcd cde def

Suponhamos que exista uam série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.


A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heróica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte. 


12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma invidia penis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de Nuremberg. Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo da TV ou da Internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “Voz do Povo”. 

Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no parlamento italiano foi: “Eu poderia ter transformado esta assembléia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do parlamento por não representar mais a “Voz do Povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.


Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. 

Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista. Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” - Deus meu -, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está a nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Na amurada da ponte
A cabeça dos enforcados
Na água da fonte
A baba dos enforcados 
No calçamento do mercado
As unhas dos fuzilados
Sobre a grama seca do prado
Os dentes dos fuzilados 
Morder o ar morder as pedras
Nossa carne não é mais de homens
Morder o ar morder as pedras
Nosso coração não é mais de homens. 
Mas lemos nos olhos dos mortos
E sobre a terra a liberdade havemos de fazer
Mas estreitaram-na nos punhos os mortos
A justiça que se há de fazer.

21 de junho de 1995

A arte moderna como "arma" da CIA

Revelado: como a agência de espionagem usou artistas inconscientes como Pollock e de Kooning em uma Guerra Fria cultural

Frances Stonor Saundes


Tradução / Durante décadas nos círculos de arte isso ou era um boato ou uma piada, mas agora confirma-se como um fato. A Agência Central de Inteligência usou-se da arte moderna americana, incluindo as obras de artistas como Jackson Pollock, Robert Motherwell, Willem de Kooning e Mark Rothko, como uma arma na Guerra Fria. Na forma de um príncipe da Renascença, exceto por agir secretamente, a CIA fomentou e promoveu a pintura Expressionista Abstrata Americana em todo o mundo por mais de 20 anos.

A conexão é improvável. Este foi um período, na década de 50 e 60, em que a grande maioria dos americanos não gostava ou mesmo desprezava a arte moderna, o presidente Truman resumiu o ponto de vista popular ao dizer: "Se isso é arte, então sou Hottentot". Para os próprios artistas, muitos eram ex-comunistas que mal eram aceitos na América da era mccarthista, e certamente não o tipo de pessoas que normalmente recebiam apoio do governo americano.

Por que a CIA passou a apoiá-los? Por que na guerra de propaganda contra a União Soviética, esse novo movimento artístico poderia ser apresentada como prova da criatividade, da liberdade intelectual, e o poder cultural dos EUA. A arte russa, presa na camisa de força ideológica comunista, não poderia competir.

A existência dessa política, presente em rumores e contestada por muitos anos, agora foi confirmada pela primeira vez por ex-oficiais da CIA. Desconhecida para os artistas, a nova arte americana era secretamente promovida sob uma política conhecida como "longa coleira", acordos semelhantes aos do apoio indireto da CIA ao jornal Encounter, editado por Stephen Spender.

A decisão de incluir a cultura e a arte no arsenal da Guerra Fria nos EUA foi tomada assim que a CIA foi fundada em 1947. Consternada com o apoio que o comunismo ainda tinha entre muitos intelectuais e artistas no ocidente, a nova agência organizou uma divisão, os Ainventários Ativos de Propaganda(Propaganda Assets Inventory), que em seu auge pôde influenciar mais de 800 jornais, revistas e formadores de opinião pública. Eles brincavam dizendo que era como uma caixa de música Wurlitzer: quando a CIA apertava o botão, podia-se ouvir qualquer música tocando pelo mundo inteiro.

O próximo passo decisivo veio em 1950, quando a Divisão de Organizações Internacionais(IOD) foi instituída por Tom Braden. Foi este escritório que subsidiou a versão animada de A Revolução dos Bichos de George Orwell, que patrocinou artistas americanos de jazz, recitais de ópera, a programada turnê internacional da Orquestra Sinfônica de Boston. Seus agentes foram colocados na indústria cinematográfica, em editoras, assim como escritores viajantes para os celebrados guias Fodor. E, agora sabemos, ela promoveu o movimento de vanguarda anárquico Expressionismo Abstrato.

Inicialmente, mais tentativas abertas foram feitas para apoiar a nova arte americana. Em 1947, o Departamento de Estado organizou e pagou por uma exibição internacional chamada "Avançando a Nova Arte Americana", com o escopo de refutar sugestões soviéticas de que a América era um deserto cultural. Mas o show causou indignação em casa, levando a Truman e sua observação sobre Hottentott e um congressista amargurado a declarar: "Eu sou só um americano idiota que paga impostos para este tipo de lixo". A turnê teve que ser cancelada.

O governo dos EUA agora enfrenta um dilema. Esse filistinismo, combinado com as denúncias histéricas de Joseph McCarthy de que tudo o que era de vanguarda ou não ortodoxo era profundamente embaraçoso. Ele desacreditou a ideia de que a América era uma sofisticada e culturalmente rica democracia. Ele também impediu o governo dos EUA de consolidar uma mudança de supremacia cultural de Paris para Nova Iorque desde 1930. Para resolver esse dilema, a CIA foi chamada.

A conexão não é tão estranha quanto pode parecer. Neste momento a nova agência, composta principalmente por graduados de Yale e Harvard, muitos dos quais colecionavam arte e escreviam romances em seu tempo livre, eram um refúgio do liberalismo quando comparado com um mundo político dominado por McCarthy ou com o FBI de J. Edgar Hoover. Se havia uma instituição política estava em posição de celebrar uma coleção de leninistas, trotskistas e alcólatras que compunham a Escola de Nova Iorque, esta era a CIA.

Até agora não houve nenhuma evidência em primeira mão para provar que esta ligação foi feita, mas nela, pela primeira vez alguém antes oficial no caso quebrou o silêncio. Sim, ele diz, a agência viu o Expressionismo Abstrato como uma oportunidade e sim, ele correu com ela.

"No que diz respeito expressionismo abstrato, eu adoraria ser capaz de dizer que a CIA inventou isso apenas para ver o que acontece em Nova York e no centro SoHo amanhã!", brincou. "Mas eu acho que o que fizemos realmente foi reconhecer a diferença. Foi reconhecido que o Expressionismo Abstrato era o tipo de arte que fez realismo socialista olhar ainda mais estilizado e mais rígido e confinado do que era. E essa relação foi explorada em algumas das exposições.

"De certa forma o nosso entendimento foi ajudado porque Moscou naqueles dias era muito cruel na sua denúncia de qualquer tipo de não-conformidade com os seus próprios padrões muito rígidos. Assim, pode-se de forma adequada e precisa raciocinar que qualquer coisa que eles criticavam muito e com mão pesada valia a pena ser apoiado de uma forma ou de outra".

Para prosseguir em seu interesse clandestino na vanguarda esquerdista da América, a CIA tinha que ter certeza de que seu patrocínio não poderia ser descoberto. "Questões desse tipo só poderia ter sido feito em dois ou três removes", o Sr. Jameson explicou, "de modo que não haveria qualquer questão de ter que limpar Jackson Pollock, por exemplo, ou fazer qualquer coisa que possa envolver essas pessoas com a organização. E não poderia ter sido melhor, pois a maioria deles eram pessoas que tinham muito pouco respeito pelo governo, em particular, e, certamente, nenhum pela CIA. Se você tivesse que usar pessoas que se consideravam de uma forma ou de outra mais próximas de Moscou do que Washington, bem, tanto melhor, talvez".

Essa foi a "longa coleira". A peça central da campanha da CIA tornou-se o Congresso pela Liberdade Cultural, um grande congresso de intelectuais, escritores, historiadores, poetas e artistas, que foi criado com recursos da CIA em 1950 e dirigido por um agente da CIA. Era a cabeça de praia a partir da qual a cultura pôde ser defendida dos ataques de Moscou e seus "colegas de viagem" no Ocidente. No seu auge, ela tinha escritórios em 35 países e publicou mais de duas dezenas de revistas, incluindo a Encounter.

O Congresso para a Liberdade Cultural também deu à CIA a frente ideal para promover sua participação secreta no Expressionismo Abstrato. Seria o patrocinador oficial de exposições itinerantes, suas revistas iriam fornecer plataformas úteis para os críticos favoráveis à nova pintura americana; e ninguém, os artistas incluídos, seria mais sábio.

Esta organização reuniu várias exposições do Expressionismo Abstrato nos anos 50. Uma das mais significativas, "A nova pintura americana", visitou cada grande cidade europeia em 1958-59. Outros shows influentes incluindo a "Arte Moderna nos Estados Unidos"(1955) e "Obras-primas do século XX" (1952).

Pelo fato do Expressionismo Abstrato ser caro para se movimentar e apresentar, milionários e museus foram chamados para o jogo. Preeminente entre estes estava Nelson Rockefeller, cuja mãe foi cofundadora do Museu de Arte Moderna de Nova York. Como presidente do que ele chamou de "Museu da Mamãe", Rockefeller era um dos maiores apoiadores do Expressionismo Abstrato (que ele chamou de "pintura de livre empresa"). Seu museu foi contratado para o Congresso para a Liberdade Cultural para ser organizador e curador da maioria de suas importantes mostras de arte.

O museu também estava ligado à CIA por várias outras pontes. William Paley, o presidente da difusora CBS e um dos fundadores da CIA, sentou-se na mesa de membros do Programa Internacional do museu. John Hay Whitney, que tinha servido em tempos de guerra antecessores da agência, a OSS, foi o seu presidente. E Tom Braden, primeiro chefe da Divisão de Organizações Internacionais da CIA, foi secretário-executivo do museu, em 1949.

Agora em seus oitenta anos, o Sr. Braden mora em Woodbridge, Virgínia, em uma casa repleta de trabalhos do Expressionismo Abstrato e guardada por enormes alsacianos. Ele explicou o objetivo do IOD.

"Queríamos unir todas as pessoas que eram escritoras, que eram músicos, que eram artistas, para demonstrar que o Ocidente e os Estados Unidos eram dedicados à liberdade de expressão e de realização intelectual, sem quaisquer barreiras rígidas sobre o que e como você deve escrever, e o que você deve dizer, e o que você deve fazer, e o que você deve pintar, que era o que estava acontecendo na União Soviética. Eu penso que foi a divisão mais importante que a agência tinha, e eu penso que ela desempenhou um papel enorme na Guerra Fria".

Ele confirmou que sua divisão agiu secretamente por causa da hostilidade do público à vanguarda: "Foi muito difícil fazer o Congresso acompanhar algumas das coisas que queríamos fazer, enviar a arte ao exterior, enviar sinfonias ao exterior, publicar revistas no exterior. Essa é uma das razões por que tinha de ser feito de forma encoberta, tinha que ser um segredo. Para incentivar a abertura tivemos que ser secretos".

Será que o Expressionismo Abstrato teria sido o movimento de arte dominante dos anos do pós-guerra sem este patrocínio? A resposta é provavelmente sim. Igualmente, seria errado sugerir que quando você olha para uma pintura expressionista abstrata você está sendo enganado pela CIA.

Mas olhe onde esta arte acabou: nos salões de mármore dos bancos, nos aeroportos, nas prefeituras, salas de reuniões e grandes galerias. Para os guerreiros frios que a promoveram, estas pinturas foram um logotipo, uma assinatura da sua cultura e sistema que eles queriam mostrar em todos os locais possíveis. Eles conseguiram.

Operação secreta

Em 1958, a exposição itinerante "The New American Painting " , incluindo obras de Pollock, De Kooning , Motherwell e outros, estava em exibição em Paris. A Tate Galery fez questão de recebê-la em seguida, mas não tinha dinheiro para trazê-la. No final do dia, um milionário americano e amante de arte, Julius Fleischmann , entrou em cena com o dinheiro e a mostra foi trazida para Londres.

O dinheiro que Fleischmann forneceu, porém , não era seu, mas da CIA. Ele veio através de um órgão chamado a Fundação Farfield, da qual Fleischmann foi presidente, mas longe de ser um milionário caridoso, a fundação era um canal secreto para os fundos da CIA.

Então , desconhecido para a Tate , o público ou os artistas , a exposição foi transferido para Londres às custas dos contribuintes americanos para servir a fins de propaganda da Guerra Fria sutis. Um ex- agente da CIA , Tom Braden, descrito como tais condutas como a Fundação Farfield foram criadas . "Gostaríamos de ir para alguém em Nova York, que era uma pessoa rica bem conhecido e que dizia: 'Queremos criar uma fundação . Gostaríamos de dizer a ele o que estávamos tentando fazer e prometer-lhe que o segredo , e ele diria: ' É claro que eu vou fazer isso ', e então você iria publicar um papel timbrado e seu nome seria nele e haveria uma fundação. foi realmente um dispositivo muito simples".

Então, desconhecida para a Tate, o público ou os artistas, a exposição foi transferida para Londres às custas dos contribuintes americanos para servir a fins de propaganda da Guerra Fria sutis. Um ex-agente da CIA , Tom Braden, descreveu como tais condutas como a Fundação Farfield foram criadas. "Nós recorreríamos a alguém em Nova York que fosse rico e bem conhecido e que diria: 'Queremos criar uma fundação'. Nós lhe contaríamos o que estávamos tentando fazer e exigir dele o segredo, e ele diria: 'É claro que eu vou fazer isso', e então você iria publicar um papel timbrado e seu nome estaria nele e haveria uma fundação. Foi um dispositivo realmente muito simples".

Julius Fleischmann estava bem colocado para esse papel. Ele sentou-se na mesa do Programa Internacional do Museu de Arte Moderna de Nova York - como fizeram várias figuras poderosas perto da CIA.

13 de junho de 1994

Futebol onírico

Florestan Fernandes

Folha de S.Paulo

Os povos elaboram sua identidade através de suas paixões ou de seu recolhimento. Às vezes, camadas e classes sociais distintas não se sensibilizam da mesma forma. Elas se distinguem pelas tendências e núcleos de seus prazeres e alegrias. Mesmo nas sociedades diferenciadas, porém, existem convergências que estimulam a comunidade de sentimentos e de valores que passam pela música, pela dança, pelas festas coletivas (como o Carnaval), pela leitura, pelo esporte etc.

No Brasil, nada conduz à loucura como o futebol. Durante pouco tempo atividade refinada, irradiou-se por toda a sociedade e tornou-se o emblema da hegemonia popular sobre a "cultura das elites". Estas submeteram-se ao seu desnivelamento e construíram em torno do futebol uma arena de poder, de lucros e de mando, como atestam carreiras políticas, administrativas e financeiras.

Não é por aí, todavia, que se aprende algo profundo sobre o "caráter nacional". Este se evidencia no mundo de sonhos e de ilusões que arranca do futebol. Primeiro, no conceito de arte, que lhe é aplicado como qualificação mestra. Segundo, no significado que recebe entre jogadores e nas suas relações com os torcedores.

Há a união pelo clube e a que nasce de acontecimentos maiores, como campeonatos e principalmente copas mundiais. Terceiro, a exaltação e a consagração dos grandes futebolistas: são entes humanos e heróis-civilizadores (o Pelé e o "rei" ou o "deus" Pelé). Trata-se de um mundo no qual o profano, a magia e a religião se confundem e quebra a rotina da miséria, da ignorância e da opressão, ainda que por alguns instantes e graças à fantasia.

A derrota é pior que a dor, porque ela não permite prolongar a vitória sobre o sofrimento e a plenitude de viver, a comunhão com os deuses.

À vista desse contexto, o empate do Brasil com o Canadá equivale a um desastre moral. O imprevisto se abateu em tempo, segundo Josias de Souza. Sua interpretação, nos planos racional e lúdico é correta. Mas ela ignora o êxtase que elevou a crença na "vez do Brasil" em dogma nacional.

O desânimo e a incerteza torturam mentes e corações de milhões, que não viam o Canadá (e provavelmente nenhum outro time) como adversário à altura. Misturadas as coisas, a competição esportiva seria a última via a ser tomada em conta.

O empate possui limitado alcance explicativo. Ele só desvela o que já era evidente. Como não se leva a sério a educação e a cultura, mesmo os treinadores e a cúpula da seleção estão entregues ao encantamento mágico religioso. A nossa seleção teria de vencer por "direito divino"... Abandonamos nossas tradições futebolísticas, em vez de aperfeiçoá-las com afinco. Robotizamos os jogadores, como se não fossem pessoas. Controlamos suas ações fora do campo e priorizamos o autoritarismo dos patronos como fator seletivo. Não afastamos os que já não são os melhores e entronizamos os que deveriam provar que o sejam. O que esperar?

A "garra" e o "jogo de cintura" resolvem. Mas nem sempre! Urge varrer a complacência do futebol, junto com os "cartolas" que o infestaram e os técnicos que andam com a cabeça fora do lugar.

1 de junho de 1994

O triunfo do capital financeiro

Paul M. Sweezy


Tradução / O assunto desta conferência é "Novas Tendências na Turquia e no Mundo". Eu não devo tentar dizer qualquer coisa sobre as novas tendências na Turquia, parcialmente devido à minha ignorância, mas fundamentalmente porque a Turquia é parte do mundo e neste período a mãe de todas as novas tendências possui natureza global. Para compreender o que está acontecendo em qualquer parte do mundo, deve-se começar a partir do que está acontecendo no mundo todo. A máxima de Hegel que diz "A Verdade está no todo", jamais foi tão verdadeira e relevante como hoje. Em uma passagem muito citada, escrita em 1936, John Maynard Keynes disse:

"É provável que os especuladores não causem prejuízos como as bolhas num rio caudaloso quando o empreendimento é estável e a economia é saudável. Mas a situação é grave quando a bolha vira um redemoinho e o negócio torna-se mera especulação. Quando o desenvolvimento de capital de um país toma-se um subproduto das atividades de um cassino, é provável que a tarefa seja mal feita."

Presumivelmente, Keynes estava aludindo à situação que existia nos anos 20 nos Estados Unidos, o país capitalista mais avançado do mundo. Hoje, esta passagem tem o tom sinistro de uma profecia que estava para ser completamente realizada há mais de um século atrás, nos anos 80 e 90 — não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo.

O capital financeiro, uma vez liberado do seu papel original de ser apenas um catalisador modesto de uma economia eminentemente de produção, para atender às necessidades humanas torna-se sempre um capital especulativo, mantendo-se exclusivamente para sua própria auto-expansão. Em tempos anteriores, ninguém nunca sonhou que o capital especulativo, um fenômeno tão antigo quanto o próprio capitalismo, pudesse se desenvolver para dominar uma economia nacional, deixando desprotegido o mundo inteiro. Mas isto ocorreu.

Esta é a realidade que enfrentamos hoje. Suas conseqüências terríveis são visíveis por todos os lados, a partir dos 35 milhões de desempregados nos países industrialmente avançados, até o recrudescimento da pobreza e da miséria no Terceiro Mundo e a deterioração ecológica incontrolada em todo lugar.

O que está em questão aqui e que precisa ser explicado é como tudo isto aconteceu. A acumulação de capital sempre foi a força motora do sistema capitalista e tem sido tratado como tal por todas as principais escolas de análise econômica — clássica, marxista e neoclássica. Tomou-se como certo de um modo geral, que a acumulação de capital contribui para a riqueza, renda e padrão de vida dos países nos quais isto ocorre. Sempre houve, naturalmente, um outro lado para o processo de acumulação — os pânicos periódicos e as quebras aos quais o mesmo está propenso, os benefícios desiguais conferidos a vários segmentos da população, etc. Mas no todo, tem sido e ainda é visto como um processo necessário, cujos aspectos positivos têm de longe mais importância que os negativos.

Não é a minha finalidade presente, colocar isto em discussão, como um julgamento do funcionamento e das conseqüências à acumulação de capital, vistos sob a perspectiva de sua história, que já dura séculos. O que eu quero argumentar é que as mudanças recentes, a maioria ocorrida desde a Segunda Guerra Mundial, modificaram de tal modo as modalidades da acumulação de capital que o mesmo deixou de ser, no todo, uma força positiva e benigna, tendo-se tornado terrivelmente destruidora.

A história do capitalismo como o conhecemos hoje, começa na revolução industrial, na segunda metade do século dezoito. Os atores principais foram as pequenas empresas operando em mercados competitivos. Os avanços tecnológicos, começando e se expandindo a partir das indústrias têxteis, motivaram o que logo se transformou em um processo de auto-reprodução e auto-expansão de acúmulo e crescimento econômico. Este processo foi a base empírica da primeira ciência social real, a economia política clássica.

Nos primeiros estágios do capitalismo industrial, os mercados eram ainda amplamente locais, um fato que não apenas limitava seu tamanho, mas também agia como um retentor para o comportamento competitivo dos participantes. Mais tarde, com o desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação (canais, barcos a vapor, ferrovias, telégrafo), os mercados expandiram-se muito, produzindo uma concorrência impessoal e acirrada. Até a segunda metade do século passado, a acumulação de capital e o crescimento econômico já haviam chegado a um grau de intensidade febril.

De um ponto de vista, isto era esplêndido. O capitalismo estava fazendo o que se esperava dele. Mas, de um outro ponto de vista, no que se refere à rentabilidade do capital, as coisas pareciam bem diferentes. A dificuldade era que cada vez mais na atividade industrial, os capitalistas, na tentativa de obterem melhores resultados que os outros, expandiram sua capacidade de produção muito além do ponto de lucro máximo, em muitos casos além do ponto de qualquer lucro. As empresas mais fracas caíram em grupos à beira do caminho, e mesmo as mais fortes tinham que lutar para sobreviver. Para os Estados Unidos, já brigando por um lugar de liderança no mundo capitalista, um número conta a história. O índice de preços de venda no atacado (1910-1914) chegou a 185 no final da Guerra Civil em 1865. Em 1890, caiu para 82, um declínio de 57% em vinte e cinco anos. Tanto o capital quanto o trabalho foram gravemente arrochados; a agitação industrial e a violência alcançaram novas alturas; a literatura econômica do período é cheia de pessimismo e presságios terríveis.

Foi nestas circunstâncias que a história deu uma virada decisiva. Em todos os países capitalistas avançados, as duas últimas décadas do século XIX testemunharam um processo intenso de concentração e centralização de capital. As companhias mais fortes abocanhavam as mais fracas e uniam-se de várias formas e combinações (cartéis, "trustes", "holdings", corporações gigantes), visando eliminar a concorrência estreita e obter o controle das políticas de preço e produção. Foi neste período também que os capitalistas dos países principais, buscando avidamente novos mercados e fontes mais baratas de matérias primas, chegaram a colonizar ou por outro lado ganhar o controle de países mais fracos da África, Ásia e América Latina. Até a virada do século XX o que já tinha sido em pequena escala, o capitalismo local de pequeno alcance do século dezenove, transformou-se no sistema imperialista controlado por monopólio típico do século XX .

E importante compreender o papel das finanças nesta transformação histórica. Até o último trimestre do século dezenove, os bancos e os intermediários das finanças, tinham duas funções principais: de um lado, prover o crédito de curto prazo necessário para manter o ritmo da indústria e o giro do comércio e, do outro lado, abastecer as exigências de longo prazo dos governos (especialmente para sustentar exércitos e travar guerras), sejam empresas de serviços privadas ou públicas (canais, estradas de ferro, instalações para distribuição de água, etc.) e grandes companhias de seguro. Após a Guerra Civil (1861-1865), em cujo financiamento e abastecimento foram feitas muitas fortunas, muitos capitalistas direcionaram sua atenção de maneira crescente para a indústria e tornaram-se os principais movimentadores no processo global de concentração, freqüentemente detendo a propriedade ou o controle de vastos títulos e ações no que viria a ser mais tarde chamado de ponto culminante do comando da economia. Em tudo isto, a carreira de J.P. Morgan, o financista mais famoso da América, tornou-se paradigmática de um modo que raramente ocorre no caso de um único indivíduo. Eu deveria mencionar também a literatura extensa, tanto analítica quanto artística, que foi estimulada pela transformação histórica do capitalismo. Três exemplos importantes vêm à mente: nos Estados Unidos, "The Theory of Business Enterprise" (1904) de Thorstein Veblen; na Alemanha, "Das Finanzkapital" (1910) de Rudolf Hilferding; e na Rússia, "Imperialism" (1917) de Lênin.

De nosso ponto de vista atual, aquele das novas tendências globais deste fim do século XX, é importante compreender que o que ocorreu cem anos atrás, já estabeleceu o cenário para o triunfo final do capital financeiro, mas não conseguiu cumprir seus objetivos iniciais. Durante a primeira metade do século XX, o processo de acumulação de capital continuou a se concentrar sobre o capital industrial, como tinha sido no início da revolução industrial. Os financistas desempenharam um papel importante como parceiros e freqüentemente parceiros dominantes dos capitalistas industriais. Os dois grupos partilharam o objetivo de maximizar os lucros do capital produtivo (aço, óleo, produtos químicos, utilidades, papel, etc.), no entanto, muitos deles devem ter lutado pela divisão dos despojos. Havia, naturalmente, especialistas como banqueiros comerciais, corretores da bolsa de valores e negociadores de títulos que viviam em um mundo financeiro onde a especulação sempre foi uma tentação e oportunamente, como em toda a história do capitalismo, poderiam encarregar-se da atividade de seus próprios seguimentos com grande envolvimento na sociedade e com conseqüências desastrosos para muitos. Mas no todo, as finanças eram ainda subordinadas à produção.

No processo de acumulação de capital propriamente dito, ocorreu uma mudança significativa nos últimos anos do século XX , seguindo o período tempestuoso de concentração e centralização que precederam. Os preços 110 atacado que, conforme observado anteriormente, estavam caindo desde a Guerra Civil, começaram a subir com a virada cíclica da metade do século XIX e após isto continuaram numa tendência de elevação (com um grande destaque na Primeira Guerra Mundial) até os anos 20. A contrapartida deste movimento de preços foi uma queda no investimento de capital visto que as corporações oligopolísticas emergentes mais recentes aprenderam como ajustar suas políticas de produção à capacidade de absorção de seus mercados. Os historiadores deste período observaram de maneira geral que a década anterior à guerra foi apática com um nível elevado de do desemprego e declínios não frequentemente longos e curtos períodos de ascensão.

Na retrospectiva, parece claro que o início do século XX foi também o começo de um longo período de estagnação como aquele característico das os anos 30. O que impediu isto de acontecer mais cedo foi a Primeira Guerra Mundial. Após isto, veio um crescimento rápido conseqüente, que por sua vez foi sustentado por uma série de fatores especiais, mais particularmente a primeira onda da revolução automobilística com suas implicações. Mas forças profundamente estabelecidas, tinham sido implantadas na economia capitalista durante a transformação do século XIX e era apenas uma questão de tempo antes que as mesmas emergissem como fator dominante no funcionamento do sistema. Isto finalmente aconteceu como a quebra financeira espetacular de 1929, abrindo caminho gradualmente para a Grande Depressão dos anos 30.

A Grande Depressão era algo novo na história do capitalismo, uma década inteira na qual não houve crescimento: o processo de acumulação de capital simplesmente sofreu uma interrupção. Nos Estados Unidos, já então o país líder capitalista, o desemprego chegou a 25% da força de trabalho em 1933. Uma virada para um novo ciclo de crescimento à qual muitos economistas baseando-se em experiência passada, imaginavam que levaria ao pleno emprego, foi freada com uma taxa de desemprego ainda nos níveis de 14% em 1937. Seguiu-se uma recessão dentro da depressão. O desemprego subiu para 19% em 1938 e a década parecia destinada a terminar não apenas com a economia, mas com toda a sociedade em profunda crise. O Novo Acordo de Roosevelt que tinha introduzido reformas há muito esperadas e que salvou milhões da fome, através de programas de emergência, estava perdendo suporte e pela primeira vez na história dos EUA, o futuro do próprio capitalismo começou a ser questionado seriamente.

O que colocou um fim a este período, naturalmente, foi a Segunda Grande Guerra. Como John Kenneth Galbraith expressou tão apropriadamente, a Grande Depressão nunca terminou, simplesmente fundiu-se à economia de guerra. Nos cinco anos de 1939 a 1944, o Produto Interno Bruto do país aumentou em cerca de 75% e o desemprego praticamente desapareceu. Mas isto não era parte da lógica interna do sistema capitalista. Esta lógica tinha sido exposta em sua forma mais pura na Grande Depressão: a condição normal do sistema capitalista maduro é a estagnação. Na medida em que este não é o estado real dos países capitalistas avançados, a explicação tem que ser buscada nas forças externas e não econômicas.

Aproximadamente 25 anos após a Segunda Guerra Mundial, ou seja, da metade dos anos 40 até os anos 70, estas forças externas estavam influindo fortemente: a reparação dos danos da guerra, a reposição da escassez causada no tempo da guerra, pelo desvio de recursos da produção civil, o aproveitamento das tecnologias desenvolvidas para fins militares, tais como eletrônica e aviões a jato, principalmente uma nova fase de guerras, seja quente ou fria. Durante duas décadas, nos anos 50 e 60, as condições para a acumulação de capital eram extremamente favoráveis. O capitalismo entrou numa nova era dourada, remanescente dos melhores anos de sua juventude. Mas isto não poderia durar e não durou muito. E da natureza da acumulação eliminar a demanda que o estimula. E a menos que novos estímulos surjam, o processo se abate e volta a tendência à estagnação. Isto é o que estava começando a acontecer quando os anos 60 chegaram ao fim, culminando com uma recessão aguda de 1974-1975, de longe a mais séria desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Um novo estímulo era perversamente necessário e surgiu em uma forma que, muito embora e seguramente não previsto, era um resultado lógico de tendências bem estabelecidas dentro da economia capitalista global.

Devo interromper a história aqui, confessando que no território em que estamos para entrar, se não exatamente desconhecido, é em grande parte inexplorado e mapeado muito inadequadamente - além do que eu não estou particularmente bem qualificado, por treinamento ou experiência, a desempenhar o papel de explorador. Além disso, o assunto é tão importante que qualquer coisa que estimule o interesse e o debate pode provar ser útil.

O que estou falando é sobre o desenvolvimento nos últimos vinte anos, ou bem assim de uma superestrutura relativamente independente - relativa, ou seja, ao que foi antes — assentada no topo da economia do mundo e muitas de suas unidades nacionais. É constituído de bancos — central, regional e local — e uma multidão de negociadores em uma variedade atordoante de componentes do ativo financeiro e serviços, tudo interligado por uma rede de mercados, alguns dos quais estruturados e regulados, outros informais e não regulados. Tal entidade é multi- dimensional e não há unidade conceitual que possa ser utilizada para medir seu tamanho. Mas que ela é muito grande e crescente não é apenas intuitivamente evidente mas claramente refletido pelas estatísticas que relacionam aspectos mensuráveis importantes do todo.

Eu disse que esta superestrutura financeira havia sido a criação das últimas duas décadas. Isto significa que seu surgimento foi basicamente contemporâneo com o retorno da estagnação nos anos 70. Mas isto não vai contra toda a experiência anterior? Tradicionalmente, a expansão financeira tem seguido de mãos dadas com a prosperidade na economia real. É possível que isto não mais seja verdade, que agora no fim do século XX o contrário seria o mais próximo da verdade, ou seja, que agora a expansão financeira não se alimenta de uma economia saudável, senão de uma economia estagnada?

A resposta à questão, eu penso, é sim, é possível e isto vem acontecendo. E eu acrescento que estou absolutamente convencido de que a relação inversa entre o financeiro e o real é a chave para o entendimento de novas tendências no mundo com as quais esta conferência está preocupada.

Gostaria de ser capaz de explicar tudo isto em termos simples e compreensíveis. Mas não posso, não apenas por falta de tempo. Estes são problemas muito complicados e eu não conheço ninguém que tenha surgido com soluções satisfatórias. A maior parte dos economistas mais importantes, simplesmente nega sua existência e ao fazer isto, em minha opinião, perde o contato com a realidade. Tudo que posso fazer é tentar sugerir a lógica subjacente do argumento.

A economia real, aquela que produz produtos e serviços que fazem com que as pessoas vivam e reproduzam, é de propriedade de uma minoria diminuta de oligopolistas. É estruturada para proporcionar a eles grandes lucros, muito além do que poderiam ou mesmo quereriam consumir. Sendo capitalistas, querem investir a maior parte de seus lucros. Mas exatamente a mesma estrutura que proporciona estes lucros, coloca limites estritos sobre as rendas da população que está abaixo. Estas pessoas podem simplesmente comprar de maneira escassa, o nível atual de produção oferecido a elas a preços calculados para render a taxa existente de lucro do oligopólio. Não há, portanto, lucro a ser feito a partir da expansão da capacidade de produção de bens que entram em consumo de massa. Fazer isto seria investir em excesso de capacidade, uma irracionalidade capitalista patente. O que, então, eles devem fazer com seus lucros?

Retrospectivamente, a resposta parece óbvia: deveriam investir em ativos produtivos não reais, financeiros. E que, eu penso, é justamente o que começaram a fazer em uma escala crescente quando a economia entrou uma vez mais em estagnação nos anos 70. Do lado do abastecimento, também, a situação estava amadurecida para a mudança. A atividade financeira, geralmente de um tipo tradicional, tinha sido estimulada pelo crescimento rápido do pós-guerra nos anos 50 e 60, sofrendo algo como uma decepção com a volta da estagnação. Os financistas estavam, portanto, procurando novos negócios. O capital que migrava para fora da economia real, foi alegremente recebido no setor financeiro. Então começou o processo que durante as próximas duas décadas resultou no triunfo do capital financeiro.


Quando comecei a me preparar para esta palestra, eu tinha noções pomposas acerca do que queria incluir. Primeiro viria uma afirmação do tema central, a ascensão ao domínio por parte do capital financeiro; depois, um esboço, tanto histórico quanto analítico, das origens e desenvolvimento deste processo; finalmente e o mais importante, pensamentos sobre as implicações para o entendimento do que está acontecendo no mundo e o que esperar quando olhamos para o futuro. Eu até mesmo pensei que poderia encontrar tempo para dizer algo sobre o que poderia ou deveria ser feito por aqueles de nós que não estão satisfeitos com a maneira pela qual as coisas vão.

Ai que ilusão! Eu logo me dei conta que tentar lidar com uma agenda dessas numa palestra poderia resultar apenas em uma cobertura inadequada. Então eu fui obrigado a voltar atrás e concentrar-me no aspecto histórico. Mas eu não quero terminar sem pelo menos algumas observações sobre as implicações.

1) O lugar do poder econômico e político foi transferido juntamente com a ascendência do capital financeiro. Considerou-se como certo por muito tempo, especialmente dentre os radicais, que o lugar do poder na sociedade capitalista estava nas salas de diretoria de umas poucas centenas de corporações multinacionais gigantes. Muito embora não haja dúvidas quanto ao papel destas entidades na alocação de recursos e outros assuntos importantes também, creio que há uma consideração a mais e que precisa ser ampliada. Os ocupantes destas salas de diretoria são por si próprios, numa extensão crescente, constrangidos e controlados pelo capital financeiro, visto que este funciona através da rede global dos mercados financeiros. Em outras palavras, o poder real está nem tanto nas salas de diretoria das corporações, quanto nos mercados financeiros. Aqui uma observação: as corporações gigantes são também os maiores jogadores nestes mercados e ajudam a lhes dar importância. Parece que a mão invisível de Adam Smithestá representando um reaparecimento em uma nova forma e com força aumentada.

2) O que se crê para os chefes executivos das corporações, também se crê para os controladores do poder político. Mais e mais eles também são controlados no que podem e não podem fazer pelos mercados financeiros. Isto é muito óbvio com relação aos membros economicamente mais fracos da comunidade internacional, muitos dois quais estão diretamente sob o domínio do FMI e do Banco Mundial. Mas isto é dificilmente menos verdade no que se refere aos membros mais fortes, incluindo os Estados Unidos. Tudo, como conseqüência assegurada pela administração Clinton, desde a política fiscal até a reforma da saúde, deve passar pelo teste de aceitabilidade nos mercados financeiros. Apenas duas semanas atrás, o The New York Times publicou um relato feito por um de seus mais importantes jornalistas, intitulada "Stock Market Diplomacy" (Diplomacia na Bolsa de Valores) com um subtítulo "A Política Externa de Clinton inclui uma Consideração de Como Uma Mudança Influi no Comércio Mundial". No que se refere às forças intermediárias, aquela que estão entre o mais fraco e o mais forte, é preciso apenas apontar para a experiência da França no início dos anos 80. O povo francês elegeu um governo socialista por uma maioria impressionante. O novo governo, respondendo ao eleitorado, embarcou num curso de reformas sociais suaves e expansão fiscal. O resultado não tardou a chegar: uma séria crise no balanço de pagamentos seguida de um ligeiro retrocesso. Como entre a democracia e o capital financeiro no mundo, como estruturados hoje, existe pouca dúvida sobre qual é o mais forte.

3) O que deve ser feito? Se minha análise estiver correta, no sentido de que tanto a economia global, operando sob suas regras atuais, e o governo compelido a cumprir estas regras, pode proporcionar o que a grande maioria das pessoas no mundo precisa — empregos decentes, segurança, sobrevivência — parece claro que não têm escolha, mas desafiar a própria estrutura. Estou confiante de que eles o farão — eventualmente. A espécie humana está sofrendo há muito tempo, mas não é provável que tolerará para sempre o que parece um escorregão entre a ingovernabilidade e o caos. Nesse ínterim, presságios das coisas que estão para vir podem ser visíveis aqui e lá. Estou particularmente impressionado pela revolta dos camponeses mais pobres no estado mais pobre do México, um país sob um regime que abraçou entusiasticamente o bravo novo mundo da ortodoxia financeira. Os Chiapas não estão prontos para assumir o poder, longe disso. Mas abalaram toda a sociedade em suas bases e o México pode nunca mais ser novamente o que era antes de 1 de janeiro de 1994. Coisas semelhantes provavelmente devem ocorrer em outros lugares. Assim espero.

"Este é um outro triste exemplo da resposta insensível da Administração a uma terrível tragédia humana... Se eu fosse Presidente, na ausência de evidência clara e constrangedora de que eles não eram refugiados políticos — eu lhes daria asilo temporário até que recuperássemos o governo eleito do Haiti". — Candidato Presidencial do Partido Democrático, Bill Clinton, respondendo à decisão do Presidente Bush de repatriar fugitivos Haitianos sem os selecionar pelas reivindicações de asilo político, 27 de maio de 1992.

This article was originally a lecture presented at a conference organized by the Association of Graduates of the Faculty of Economics of the University of Istanbul, Turkey, on April 21, 1994.

21 de outubro de 1993

Sobre E.P. Thompson

Perry Anderson

London Review of Books


Tradução / Ao chegar a minha casa uma noite, nas últimas semanas de 1962, encontrei uma garrafa de vinho, no apartamento vazio, com um bilhete embaixo. Edward Thompson havia terminado “The making of the English working-class”; vivia em Halifax, e necessitava ficar por algumas semanas no Museu Britânico. Nesses dias, eu vivia em Talbot Road e havia me casado recentemente com Juliet Mitchell. Ela dava aulas em Leeds, enquanto eu trabalhava para a New Left Review em Londres. Ocasionalmente, Edward e eu trocávamos ideias sobre nossas preocupações e conversávamos amigavelmente sobre história e sociologia. “Você acredita que Weber é realmente mais importante que Marc Bloch?”, perguntava-me com um ar de maliciosa perplexidade. Se éramos mais circunspectos em relação a temas políticos, isso se devia em parte a uma questão de tato – ele não queria se apoiar demais em mim, editor principiante de uma revista da qual ele era o fundador. Contudo, eu também estava sujeito a uma imagem enganosa.

Edward parecia não apenas uma, mas praticamente duas gerações mais velho, porque entre nós estavam aqueles – o grupo de Stuart Hall ou de Raphael Samuel – que co-fundaram a Nova Esquerda a partir do início dos anos cinquenta, em vez dos anos quarenta. Sua imagem contribuía para a ilusão: suas belas feições ao mesmo tempo revestidos de inquietude melodramática e geologicamente traçadas, uma paisagem de relevos selvagens e depressões. Era, desde já, a conjuntura, que confirmava aquela imagem; nunca as diferenças de idade, por pequenas que fossem, eram vistas tão grandes como neste momento. [...] Mas, provavelmente, para a época, o bibliotecário de Hull era menos sábio que o historiador de Halifax, que contemplava com impaciência as conversas sobre divisões geracionais como uma maneira de evitar discussões difíceis. O resultado era o mesmo, ainda que para mim significasse menos um alívio que uma inibição. Tínhamos poucas discussões políticas. Eu estava no trem que vinha de Leeds quando ele embarcou em Londres com o trabalho concluído, exibindo o que parecia ser uma natureza morta de frustrada boa vontade. Apenas recentemente, na década de 1970, dei-me conta da surpresa de que ele tinha apenas 38 anos.

No ano seguinte, as relações entre os fundadores da New Left Review e seus novos editores se esclareceram. A revista estava presa à causa da Campanha pelo desarmamento nuclear (CND), e lutava sem muito êxito buscando um novo direcionamento. As discussões práticas e as diferenças intelectuais criaram tensões entre Edward e a equipe da rua Carlisle. Ele pensava, com razão, que a revista estava se afastando de maneira amorfa do seu passado sem ter prestado contas a ele e não tinha confiança política alguma em seu futuro. Houve explosões ocasionais. Mas sua atitude em relação aos mais jovens era essencialmente generosa e, quando chegou o momento, eles lhe garantiram sem rancor uma ordem de transição entre o antigo e o novo conselho. Quais tenham sido suas premonições, ele não era possessivo.

Quando a revista formou-se à maneira como existe agora, a posição de Edward mudou. No final de 1964, a New Left Review desenvolveu o tipo de perspectiva política (que ele nos imputava não ter) e um conjunto de teses históricas sobre a relação entre o passado britânico e a crise atual, tal como nós a víamos. Edward não gostava de nenhuma das duas coisas. Mas, agora, finalmente era possível uma confrontação real. A revista aceitaria publicar uma crítica completa feita por ele, “escrita talvez em meu estilo polêmico e notoriamente malicioso?”, ele me escreveu então. Seria bem vinda, respondi o nervosamente, mas não queríamos uma disputa vulgar. Com tato, Edward a publicou, entretanto, na Socialist Register. O resultado foi um de seus ensaios mais famosos, “The peculiarities of the English” (“As peculiaridades dos ingleses”). Ferido por sua ferocidade, respondi o da mesma maneira. O intercâmbio apresentou uma sorte assimétrica. Edward nos atacava por nossas leituras imprecisas da evidência histórica; eu, pelo manejo incorreto da evidência textual. O que me desconcertou foi o recorte por mim elaborado na tentativa de expor argumentos que queria refutar, os que eu não podia enquadrar em tudo definido por ele mesmo como próprio do historiador. Este foi um erro genérico de minha parte. A polêmica é um discurso de conflito, cujos efeitos dependem de um equilíbrio delicado entre os requisitos da verdade e da tentação da ira, a obrigação de argumentar e o gosto de provocar. Sua retórica permite, e inclusive reforça, uma certa licença figurativa. Como os epitáfios dos aforismos de Johnson, que não está sob juramento.

Eu não era o único que ignorava isso. Uns anos antes, Edward havia publicado uma resenha de The long revolution de Raymond Williams na New Left Review, cujo tom era mais temperado que seu tratamento para mim e Tom Nairn, mas tinha um resultado mais doloroso. Uma de suas críticas era que Raymond havia sido em parte absorvido em suas maneiras e preocupações pela academia da classe dominante. “Oh, o pátio universitário iluminado, o brindar das taças de vinho, as conversas tranquilas dos homens ilustrados!”, não é surpreendente que o filho de um porteiro não tenha gostado disso. Na realidade, Edward havia justificado admiravelmente seu discurso. Falando de uma “comunicação genuína”, Raymond havia dito: “pode-se sentir o descanso e o esforço: a abertura e a honestidade necessárias para um homem escutar outro de boa fé e contestado depois”. Edward respondeu: “Burke insultava, Cobbet condenava, Arnold era capaz de insinuações maliciosas, Carlyle, Ruskin e Lawrence, em sua idade adulta, não escutavam ninguém. Isso pode ser lastimável; mas não posso aceitar que a comunicação da raiva, da indignação ou mesmo da malicia seja algo menos genuíno”. Aqui em toutes lettres, a garantia de um polemista. As próprias indignações de Edward dessa época eram artifícios literários, sem rancor pessoal. Uns poucos meses depois de meu contra-ataque, deparei-me com ele em um pub próximo à rua Tottenham Court. Edward, em que não o via por três anos, era um homem de bom coração.

Passou outra década até que voltei a vê-lo novamente. No inverno de 1979, em uma fria igreja em Oxford, levantou-se como um clérigo raivoso para advertir uma vez mais a congregação sobre os perigos do dogma galês. Então, seu ataque a Althusser em The poverty of theory, publicado no ano anterior, havia despertado uma grande controvérsia. Sucedeu um debate diante de um público abalado e extasiado. Um dos que se posicionou foi Stuart Hall. Eu observava do meu assento. Minha própria reação a The poverty [...] foi um pouco diferente. Parecia-me mais importante acertar contas com Thompson do que com Althusser. Tentei empreender isso uns meses mais tarde.

O foco das energias de Thompson se alterou repentinamente. Havia explodido uma segunda onda de intensa Guerra Fria, e ele se lançou sem reservas a uma campanha de resistência. Finalizei meu escrito sobre ele dizendo que era melhor deixar para trás velhas pendências e explorarmos juntos novas questões. Ele respondeu publicando um manifesto de seus temores na New Left Review em notes on the exterminism, the last stage of civilization?, na primavera de 1980. A revista organizou um debate internacional em torno do texto. Apareceu um livro com as conclusões de Edward. O desacordo havia sido superado.

Em 1986 encontramo-nos em Nova York. Christopher Hill, Eric Hobsbawm e eu fomos mobilizados para discutir sobre as agendas para uma radical history na New School. No auditório lotado, pendurado em suas palavras, ele era a imagem do orador romântico com suas explosões do discurso apaixonado, marcadas com aquele típico gesto, um movimento rápido da palma de sua mão sobre sua cabeça – tocando sua sobrancelha ou sua massa de cabelos grisalhos – cujo efeito sempre oscilava entre a arte dramática e o jogo. Logo, quando saímos do jantar oficial – um quarteto incongruente – tive algo da mesma percepção enganosa da primeira vez. O mais jovem dos três doyens, parecia misteriosamente maior – perguntei-me se porque era fisicamente mais alto. Agora, de todos os modos, sua aparência havia mudado. Notei, pela primeira vez, ares de dandy, com o colete delicado e o charuto sem graça, insinuando uma silhueta clássica. Nossa conversa girou entre os escritores do século XVIII. Contestou-me por meu atrevimento com Swift, dizendo que estava escrevendo uma novela que seria algo semelhante à Viagens de Gulliver, porém em versão moderna.

Levou tempo para eu ter uma ideia mais precisa da distinção de Thompson como historiador e como escritor. Sua obra abarca muitas formas para ser julgada facilmente e sua aura pode ser uma tentação para os atalhos. Mas, no centro criativo de sua escrita há uma tensão entre o que se poderia chamar de sensibilidade adequada ao século XIX e o correspondente ao século XVIII. Se bem que no começo de The making of the English working-class, e que conecta ambas as épocas, ninguém nunca duvidou de onde descansa o peso de seu relato. Até onde apontam os trabalhos desenvolvidos por Thompson? Havia uma resposta óbvia: mais à frente, para o que se tornou a classe operária inglesa, uma vez formada, na época vitoriana. Contudo, ele se orientou na direção oposta: um século inteiro para trás, até 1720. O que produziu essa alteração no campo, esse salto tão incomum – ele fazia referência a um salto de paraquedas – para qualquer historiador? Poderia se suspeitar que o tranquilo mundo do sindicalismo vitoriano, por não falar do posterior trabalhismo, não lhe atraía: um retrocesso sobre Morris. Mas se havia um elemento político em sua escolha, como certa resistência a buscar algo que poderia se parecer com o epílogo de Guerra e paz, as razões pessoais deveriam ter mais importância.

Coincidindo com o deslocamento de período, houve uma mudança de residência. Em Yorkshire, ele vivia em uma arejada casa vitoriana, localizada acima das desoladas ruas de Halifax, em meio à horrível escória da revolução industrial. Em Worcestershire, seu lar era uma mansão georgiana, em um campo ondulante, que havia sido a propriedade de um bispo. A transferência permitiu a Williams, que recordava a imputação de Thompson, uma piada travessa sobre “O marxismo de country”. Na realidade, seria o quartel-general do mais ardente trabalho político de sua vida. Porém, houve uma mudança no tom de sua escrita. Whigs and hunters é um tipo de livro diferente de The making of the English working-class, não somente nos objetivos, mas também no estilo. Em um gesto mimético, onde a abundância romântica dá lugar a uma sóbria elegância, e a paixão expressa-se frequentemente de forma mais irônica. Sua distribuição mais à frente variará, mas, em diferentes composições, as cadências dos dois períodos contrapor-se-ão em seu discurso até o final. Essa combinação de expressões foi o segredo de seu sucesso. Foi o maior retórico da época. Mas como a retórica é uma arte estranha, sua resistência é visível na tensão que Thompson tinha com esta era. Seu punho era menos seguro quando seu discurso era mais contemporâneo. Tipicamente, sua escrita desfalece quando busca chegar ao demótico e pouco importante século XX. O resultado pode ser chamativo. Os obituários têm mencionado escassamente a ficção ou a poesia de Thompson. Ele, com toda razão, não as considerava marginais. Seus dois extensos poemas The place called choice e Powers and names (London Review of Books, 23 de janeiro de 1986), que são parecidos em tema e forma (guerra atômica – despotismo), são exemplos vívidos desta irregularidade: passagens de tenra beleza ao lado de outras alcaparras populares. Sua novela The Sykaos Papers é a mais completa expressão singular de seu pensamento; as ideias adquirem uma forma imaginativa que não tem expressão comparável em nenhum lugar de sua obra. Nela, o olhar alheio de uma razão incorpórea cai – tarde demais – no mundo da propriedade, da autoridade e da guerra, na medida em que se move em direção à destruição nuclear. O argumento metafísico está envolto em uma das mais vividas narrativas terrestres, e cada uma de suas máximas mobiliza, instrui e deleita. Mas há ainda um contrastante chamativo entre os breves começos das sessões da novela (carregados de zombarias a uma imprensa popular e da cena urbana dos anos 1980, cujo humor pode nos assustar) e a energia e a astúcia da trama central que segue. Seu clímax, antes da Terra se extinguir, é o idílio em que a razão está sexualmente encarnada, quando a heroína leva a estrela cativa em seus braços, no éden de um “parque de 1740” e “terminado no início do século XIX”.

O livro de Thompson sobre Blake, Witness against the beast, que aparecerá no mês seguinte, pode ser lido de alguma maneira como um anexo que ilustra sua novela. Os mesmos temas aparecem aqui de forma critica. Na News School ele contou a sua audiência como havia descoberto a história marxista lendo Chritopher Hill na sua época de estudante, e quando saiu The making of the English working-class, disse que esperava encontrar algum dia o túnel subterrâneo que podia conectar as ideias de Blake com o mundo da Guerra Civil, ligando diretamente as duas épocas revolucionárias que Thompson e Hill construíram juntos. Witness against the beast encontra essa filiação na seita fundada por John Reeve e Ludowick Muggleton em 1652. A mãe de Blake, sugere Thompson, pode ter sido uma muggletoniana, e muitas de suas noções devem ter derivado de seu ramo do antinomianismo.

O respeito e o afeto que mostra por esse suave e diminuto lado é persuasivo. Não ignora nenhuma sutileza teológica. À medida que explora sua complicada doutrina, aqueles leitores que recordam suas requisições contra o obscurantismo do marxismo parisiense podem esboçar um sorriso enquanto lutam contra os mistérios do influxo divino e das duas sementes, da dispersão versus a unidade de Deus, expostos detalhadamente aqui.

O propósito mais amplo desse livro não depende, contudo, da exatidão da ressurreição muggletoniana. Seu objetivo é sugerir uma nova interpretação de Blake. Thompson argumenta que o poeta é herdeiro de uma longa trajetória “anti-hegemônica”, enraizada entre os artesãos que rejeitavam o amável nacionalismo do século e o substituíam por uma religião do amor igualitário, hostil tanto à nova ciência materialista como à lei moral da igreja e do Estado estabelecidos. Mas Blake transformou sua perspectiva antinomianista em uma constelação mais radical e crítica, sob o impacto do jacobinismo e do deísmo. Do ambiente paineano, desenvolveu uma visão política dos males da propriedade e da pobreza, do clero e do exército, da monarquia e do matrimônio; enquanto que, a partir de Volney, chegou a uma nova crítica da fé alienada ao serviço dos poderes seculares. Em cada caso, porém, Blake viu mais profundamente que seus contemporâneos ilustrados sem reduzir a miséria humana meramente à opressão ou exploração sociais, nem o sentimento religioso à mistificação clerical. Só o chamado do amor pode curar a maldição de Caim, não a razão científica nem o interesse individual. Uma natureza humana alternativa, de acordo com o evangelho eterno, aguarda por ser realizada. “A intensidade dessa visão”, escreve Thompson, “impede Blake de cair nos caminhos de apostasia” quando os fogos revolucionários ardem suavemente em 1801 – enquanto que “os perfeccionistas obsessivos e racionalistas benévolos” de seu tempo “terminam quase todos desencantados”.

Witness against the beast é um brilhante final para uma vida de trabalho excepcional. Como honrar a esse impulso antinominista? Certamente não através de qualquer tipo de piedade. Lendo os obituários de Thompson, os de direita, centro e esquerda, já não sei quantas vezes encontrei a citação de seu desejo de resgatar “inclusive o mais marginal seguidor de Joanna Southcott de enorme condescendência da posteridade”. Essa frase é uma das mais veementes e programáticas. Mas, pela força da repetição, corre o risco de se transformar em uma fórmula estereotipada. Edward, que era a pessoa mais politicamente incorreta do mundo, nunca aceitaria isso. Ele desfrutou com a irreverência e seria melhor segui-lo, quando pudermos, por esse caminho. Para começar, poderíamos observar que Blake foi o primeiro a expressar sua condescendência para Joanna Southcott, sobre cuja inocência escreveu em tom desdenhoso: “O que se faça a ela, não posso saber/ e se lhe pergunta jurar-lhe-á / seja isto bom ou mal, não há a quem culpar;/ Ninguém pode estar orgulhoso, ninguém pode ser culpado”.

Mas há uma questão mais ampla aqui, que se embasa no argumento de seu último livro. Um escritor do século XVIII que nunca atraiu muita atenção de Thompson foi seu grande historiador. Em Witness against the beast, Gibbon, contudo, faz sua aparição. Aqui é apresentado como uma contrafigura, o deísta, cujo retrato de Constantino deverá atrair um antinomiano, mas cuja visão cética do cristianismo fez explodir compreensivamente a ira de Blake (“Gibbon aparece com seu chicote de aço e Voltaire com uma engrenagem”). Thompson cita as linhas de Blake com simpatia. Mas o poema é na realidade uma amostra das fraquezas de Blake – e precisamente nos dois pontos que Witness against the beast apresenta como suas características mais destacadas. Nesse poema, um lastimoso monge é torturado em uma cela por Gibbon e Voltaire por não participar na celebração da guerra: como se o belicismo fosse o gravame de sua crítica à fé. A History de Gibbon era realmente perturbadora, e não só para Blake. Mas se nos perguntarmos por que sua medicina era tão forte, o parecer de Thompson pode ser revertido. A emancipação intelectual de The decline and fall está no que se poderia chamar de sua “enorme condescendência” – que outra coisa é o tom inimitável desses seis volumes? Diante do cristianismo e inclusive do passado clássico. Thompson louva as indignadas anotações de Blake à Apology of the Bible do bispo Watson, dirigidas a Paine. Mas Blake não falou publicamente. Foi Paine que contestou Watson, como havia feito Gibbon antes dele.

O poema de Blake teve origem no julgamento que se iniciou em Chichester, motivado por uma obscura rixa com um soldado em seu jardim, do qual foi absolvido. Assustado com o episódio, imaginou-se como um dos monges acinzentados do antigo presbitério no qual se realizou o julgamento, ferido, porém triunfante: “o gemido amargo de dor de um mártir é / uma flecha do arco do Todo Poderoso!”. Dois anos depois do julgamento, quando ainda o importunava “a história completa de meus sofrimentos espirituais”, fez uma dedicatória à rainha. Na versão manuscrita de Jerusalém, o frade é um “sedicioso”, mas logo reconsiderou o fim e modificou sua publicação para “vago”. Não há, em tudo isso, motivos para censura. Blake tinha um certo lado temeroso; foi vítima do medo de perseguição e saiu mal disso. Eram tempos difíceis para qualquer pessoa progressista. De qualquer modo, é um erro apresentá-lo como politicamente mais intransigente que os oponentes menos místicos ao regime da guerra conservadora. Perseguiu com ímpeto Robert e Leigh Hunt por haver considerado que suas pinturas de Nelson e Pitt eram ícones da reação (um erro compartilhado – pois, Blake nunca o esclareceu – por não poucos historiadores da arte), acusando-os de serem responsáveis por uma guerra sobre a qual falaram com mais franqueza que ele. Processados três vezes, os irmãos foram finalmente encarcerados por insultar o Regente, para a gozação de Blake. “Não posso conceber que um monge possa ser hipócrita”, avisavam os deístas. A ilustração, depois de tudo, pode lhe ensinar algo.

Essas observações não tendem a diminuir o vigor da defesa que Thompson faz de Blake, como um iconoclasta quase genial, mas buscam situá-lo mais criticamente na tradição sobre a qual Thompson chama a atenção. Os muggletonianos foram um grupo atrativo, como ele mostra. Mas era também um grupo isolado e secreto, afastado do culto público e do proselitismo, e sua fé chegou a ser quietista. A ausência em Blake de qualquer forma coletiva de política radical, em tempo de agitação, é chamativa. Sua única experiência direta de contato com a multidão parece ter tido lugar quando, na juventude, mesclou-se, por um momento, com as revoltas de Gordon. Sua aversão a correr os riscos que outros aceitavam deve ter sido em parte de seu temperamento. Mas, por acaso, não refletia a mentalidade retraída do meio do qual provavelmente vinha? A noção de um evangelho eterno proporcionava uma via fácil de recuo do tumulto cotidiano. Contudo, descender da Terceira Comissão, por transfigurado que estivesse, acarreta custos. Não eram somente os limites de uma experiência política, entretanto, também literária. Os fracassos poéticos dos últimos trabalhos de Blake eram o resultado de seu auto-isolamento. Mas significava que sua distância dos círculos jacobinos era a ausência de qualquer resposta romântica a seus trabalhos, apesar dos valorosos esforços de Crabb Robinson, por interessar a Wordworth, Hazlitt e outros. Um bom antídoto para os patrióticos clamores de uma “Inglaterra, terra verde e agradável” é recordar hoje que o único eco significativo da obra de Blake enquanto vivo, encontra-se na Alemanha.

O último artigo de Thompson tratava do patriotismo nessa época. Em uma resenha crítica amistosa do livro de Linda Colley, Britons: forging the nation publicado este verão em Dissent, questionava a consistência da lealdade popular durante as guerras contra a França. A pesar de não negar sua existência, mostrava-se impaciente com aquelas análises que passavam por alto o fluxo de “patriotismo hipócrita” das danças e os desfiles dos voluntários. Embora pudesse irritar adotando os mesmos gestos ingleses, seus compromissos mais profundos foram evidentemente internacionalistas. O desarmamento nuclear europeu foi a causa à qual se dedicou durante toda uma década. Sua imaginativa resposta como escritor estendeu-se à China, Índia, América Latina e aos Estados Unidos. A unidade desses compromissos residiu em seu desejo de acabar com a Guerra Fria.

Em seus atos, demonstrou ser o profeta desse fim. Isso é por si só admirável. O quanto contribuiu o movimento pacifista para esse fim é outro problema; é o debate principal que Thompson deixa pendente. Nesse ponto, diferíamos. Entre os ideais do END (Movimento pelo Desarmamento Nuclear Europeu) e as realidades da queda da União Soviética, há uma grande brecha. Ao distinguir os defensores do fim da Guerra Fria de seus agentes, não os estou depreciando. A Primeira Guerra Mundial não foi concluída pela esquerda Zimmerwaldiana do “Chamado de Estocolmo”, mas pela vitória da Tríplice Entente. Não lhe concedemos menos honrarias por isso. Foi muito diferente o final da Guerra Fria? Edward sustentava apaixonadamente que foi. Ninguém teria mais direito a afirmar que ele. Seu juízo profissional – Ends and histories, concluído na primavera de 1990 e publicado no volume de Mary Kaldor Europe from bellow (A Europa vista de baixo) - é em parte uma resposta a Francis Fukuyama, sobre o qual tínhamos posições convergentes. É uma de suas mais atrativas análises é visionário e autobiográfico ao mesmo tempo. As pessoas o trarão à tona depois que os vereditos mais convencionais tenham sido esquecidos.

O primeiro rascunho foi terminado, explica, justo antes de a velha ordem ser arrasada em Praga, e ele estava à beira da morte em um hospital em Nova York. Em seus últimos anos, sofreu constantes enfermidades. Os leitores da London review of books recordaram um texto sobre a National Health Service (NHS). Não era velho quando morreu. Para nós, é uma perda enorme. Christopher Hill publicou meia dúzia de livros durante os doze anos posteriores à idade que tinha Thompson quando morreu. O que poderia ter escrito Edward? Em pleno auge do movimento pacifista, ele tendia a deixar de lado outras lutas políticas, porque poderiam dividir a causa comum. Com o final da Guerra Fria, seguramente havia contribuído mais uma vez para renovação da esquerda. Há vislumbres disso em Ends and histories. Qualquer que fosse o caminho tomado suas ideias, seriam de oposição. Seu temperamento não era de um contemporizador. A life of dissent é o filme afetuoso que Tariq Ali fez sobre Edward e Dorothy Thompson, no início deste ano, e que recentemente pude voltar a vê-lo. Durante a filmagem, conversaram sobre parentes em comum... “Que estará fazendo Perry por esses tempos?” perguntou Edward. Tariq mencionou algo que eu havia escrito sobre o conservadorismo nesta revista. “Sim, já sei”, respondeu Edward. “Oakshott era um cara ruim. Diga a ele para fortalecer seu tom”.

30 de agosto de 1993

Obituário: E. P. Thompson

Eric J. Hobsbawm

The Independent

Edward P. Thompson, socialista, poeta, ativista, orador, escritor – no seu tempo – da melhor prosa polêmica deste século, e historiador, provavelmente gostaria de ser lembrado pelo último desses itens. E, de fato, quando várias das campanhas que encampou tiverem sido esquecidas, A formação da classe operária inglesa e muitas de suas demais obras serão lidas com a mesma admiração e entusiasmo.

Tanto como historiador quanto como na vida pública, Edward Thompson elevou-se como um foguete espacial. A formação, publicado em 1963 e escrito por um professor de educação de adultos praticamente desconhecido fora dos círculos restritos da velha e da nova intelectualidade de esquerda, foi instantaneamente reconhecido como um clássico e se tornou o mais influente livro de história entre os radicais anglo-saxões dos anos 1960 e 1970. E não apenas entre os radicais. Na década de 1980, Thompson foi o historiador do século XX mais recorrentemente citado, de acordo com o Arts and Humanities Citations Index, e um dos 250 autores citados com mais frequência em todos os tempos. Quando ele se envolveu nas campanhas pelo desarmamento nuclear nos anos 1980, ele quase instantaneamente alcançou algo como o lugar ocupado, em uma fase anterior do movimento, por Bertrand Russell. Porém, não fosse o isolamento da pequena esquerda marxista, o dom de Thompson para a proeminência teria sido reconhecido anteriormente. Em 1956, ele tinha sido (junto com John Saville) o primeiro líder de oposição pública ao stalinismo dentro do Partido Comunista, do qual ele era há muito tempo um membro dedicado.

As fadas que vieram ao seu berço – se a metáfora é correta para o filho de missionários metodistas anglo-americanos de alto nível, liberais e anti-imperialistas uma vida inteira – trouxeram muitos dons: um poderoso intelecto aliado à intuição de um poeta, eloquência, gentileza, charme, presença, uma voz maravilhosa, boa aparência dramática que se tornou mais grisalha e áspera com a idade, e carisma ou qualidade de estrela aos montes.

A única coisa que elas lhe negaram foi a capacidade de sub editar a si mesmo – ele invariavelmente escreveu mais do que pretendia – e planejar sua vida profissional (exceto por ter se casado com sua parceira e colega historiadora Dorothy ainda jovem). Ele seguiu um curso móvel e intuitivo, movendo-se com os ventos e correntes da experiência privada e pública, ou uma combinação das duas. Deste modo, o trabalho em história de Thompson foi interrompido pelo seu sentimento de isolamento, como um homem de esquerda, das várias “novas esquerdas” dos anos 1960 e 1970 e, novamente, pelos seus anos como ativista antinuclear. Recorrentemente, ele pareceu abrir mão de algum curso de pesquisa enormemente promissor para ir atrás de outra presa intelectual. Seu trabalho sobre a história social da Grã-Bretanha pré-industrial, que ele começou a transformar através de algumas monografias aprofundadas no começo dos anos 1970 gerou o livro Costumes em Comum (1991), publicada em edição de bolso pela Penguin nas últimas semanas de sua vida. Seu livro sobre William Blake (o qual, junto com Vico, Marx e William Morris, ele via como seu antecedente) deve ser publicado em um futuro próximo.

Conforme ele envelheceu, as fronteiras entre história geral e autobiografia se tornaram mais tênues, de modo que às vezes foi tentado a se afastar para investigar algum aspecto da família Thompson. Ele se sabia fortemente marcado por suas origens. Em especial sua relação em vida e póstuma com seu irmão mais velho Frank, supostamente mais brilhante e certamente mais favorecido, que o precedeu no Partido Comunista e foi morto aos 21 anos enquanto trabalhava no Executivo de Operações Especiais na Bulgária, onde ganhou um modesto reconhecimento como herói do povo búlgaro. Tradição e lealdade, dentro e fora da família, eram importantes para Edward Thompson.

Cada vez mais ele escreveu sobre história ou qualquer outra coisa na persona de um tradicional cavalheiro rural inglês (não britânico) da esquerda radical. Esse papel, embora pouco convincente, caiu bem com a sua profunda imersão na história do seu povo e sua constituição, e a paixão de sua ligação ao homem e à mulher do passado o qual ele tanto fez, em sua magnífica frase, “resgatar… da enorme condescendência da posteridade”.

O primeiro grande trabalho de Thompson foi a biografia de William Morris (1955, edição revista 1977). Suas publicações sobre história mais importantes depois de A formação da classe operária inglesa, principalmente publicadas nos anos 1970, se concentram no século XVIII. Senhores e caçadores e Albion’s Fatal Tree (do qual era coautor) saíram como livro, assim como a coletânea dos seus brilhantes e enormemente influentes artigos, em uma versão alemã. (Uma versão mais elaborada em inglês saiu em Costumes em Comum). Sua influência internacional aumentou depois de 1969, quando ele se juntou ao corpo editorial da publicação Past and Present, e começou a participar de mesas-redondas internacionais de história social organizadas (em grande parte ao redor dele) sob os auspícios da Maison des Sciences de l’Homme em Paris. Seu principal trabalho teórico, A miséria da teoria, construído em torno de críticas tanto da última obra de Louis Althusser (então muito influente) e algumas teses apresentadas por Anderson e Nairn na Nem Left Review, veio à tona em 1978.

A obra de Thompson combinou paixão e intelecto, os dons do poeta, do narrador e do analista. Ele foi o único historiador que eu conheci que tinha não apenas talento, brilho, erudição e o dom de escrever, mas a capacidade de produzir algo qualitativamente diferente do resto de nós, não para ser medido na mesma escala. Deixe-nos simplesmente chamar isso de gênio, no sentido tradicional da palavra. Nenhuma de suas obras maduras poderia ter sido escrito por outra pessoa. Seus admiradores o perdoam muito por isso, incluindo seu ânimo flutuante, uma relação incerta com organizações e homens de organização, e uma ocasional imprecisão nas incursões de seu poderoso e imaginativo intelecto na teoria. Seus amigos o perdoam por tudo.

Após romper com o Partido Comunista em 1956, ele permaneceu, essencialmente, um lobo solitário da esquerda, e um que obteve algum conforto por não usar os crachás do sistema, alguns dos quais eram injustamente negados a ele. Ele brevemente lecionou em uma universidade britânica, mas após isso viveu como um estudioso livre, ocasionalmente lecionando em universidades no exterior, escrevendo sobre história, teoria, polêmica política, sem mencionar poesia e, pelo menos, uma novela de ficção científica, The Sykaos Paper (1988), e, quando não estava envolvido com o ativismo, jardinando em Worcestershire. Ele morreu após uma longa doença. Igualmente memorável como escritor, homem público e privado, deixou uma profunda marca em todos que o conheceram e muitos dos quais o leram.

Sua morte os deixa desolados. A perda para a vida intelectual, história e a esquerda britânica ainda não pode ser calculada.

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