7 de novembro de 2017

A Revolução Russa aos 100

Estamos cobrindo a Revolução de Outubro e suas conseqüências com nuances pouco características.

Editores

Jacobin

Boris Kustodiev, O Bolchevique, 1920.

Em 7 de novembro de 1917, o primeiro estado operário nasceu de uma revolta popular.

Durante um longo século, os socialistas olharam para a Revolução de Outubro - às vezes com óculos cor rosa, às vezes para brincar com o simplismo contrafactual. Mas por vezes, por uma boa razão. Afinal, a exploração e a desigualdade ainda estão vivas e bem no meio da abundância. Mesmo sabendo como sua história terminou, podemos aprender com aqueles que ousaram lutar por algo melhor.

Dê uma olhada abaixo em nossa série recente sobre a Revolução Russa, que inclui a China Miéville, Alexander Rabinowitch e outros. Até agora, as postagens foram traduzidas para chinês, holandês, farsi, francês, alemão, grego, italiano, coreano, curdo, português, espanhol e, claro, russo.

Também estamos oferecendo assinaturas impressas de $ 19.17 durante todo o dia para marcar a ocasião. Se você já é um assinante, pegue uma para um amigo. (Porque este preço está abaixo dos custos para nós, ele só se aplica a novos subscritores.)

A série

Antes de fevereiro
A Revolução de Fevereiro estourou há 100 anos atrás e varreu uma monarquia empapada de sangue.
por Todd Chretien

A história da Revolução de Fevereiro
Trabalhadores russos entraram em greve no Dia Internacional da Mulher de 1917. Eles acabaram derrubando o tzarismo.
por Kevin Murphy

Da Estação Finlândia
Lenin chegou à Estação Finlândia há 100 anos, reformulando a estratégia bolchevique e o curso da Revolução Russa.
por Yurii Colombo

Gramsci e a Revolução Russa
O que pensou um jovem Antonio Gramsci sobre a Revolução Russa?
por Alvaro Bianchi e Daniela Mussi

De Fevereiro a Outubro
Na conta padrão, fevereiro era a boa revolução e outubro era a extremista. Mas os acontecimentos na Rússia foram muito mais complexos do que isso.
por Lars T. Lih

A revolução na Finlândia
A esquecida revolução talvez tenha mais lições para nós hoje do que os eventos na Rússia de 1917.
por Eric Blanc

As mulheres de 1917
As mulheres não eram apenas a centelha da revolução russa, mas o motor que a conduzia para frente.
por Megan Trudell

Os bolcheviques e o antissemitismo
O anti-semitismo pode ser encontrado em toda o espectro política no ano de revolução da Rússia.
por Brendan McGeever

Violência e revolução em 1917
A violência revolucionária de 1917 empalidece em comparação com aquela nas frentes da Grande Guerra.
por Mike Haynes

Os dias de julho
Os bolcheviques queriam evitar o destino da Comuna de Paris. É por isso que eles não assumiram o poder em julho de 1917.
por Daniel Gaido

As revoluções camponesas de 1917
Na Rússia de 1917, as pessoas comuns do campo tomaram medidas diretas para refazer seu mundo.
por Sarah Badcock

Após o consenso de fevereiro
A revolução de outubro foi impulsionada pela insatisfação em massa com a erosão dos ganhos de fevereiro.
por Chris Read

O golpe de Kornilov
Há cem anos, por que a aliança entre o general Lavr Kornilov e Alexander Kerensky desmoronou?
por Paul Le Blanc

Do compromisso ao poder
Ao longo de 1917, o Soviete de Petrogrado transformou-se de um corpo disposto a negociar com o capital para um pronto para a revolução.
por Kevin Murphy

A Comuna de Baku
A história dos líderes da Comuna de Baku, que perseguiu o poder de forma democrática e não-violenta, desmente muitos dos mitos da Revolução Russa.
por Ronald Suny

Como os bolcheviques ganharam 
A ascensão dos bolcheviques ao poder, há cem anos atrás, revisitado.
por Alexander Rabinowitch

O dia que abalou o mundo
A história de 7 de novembro de 1917 – o dia em que os bolcheviques mudaram a história mundial.
por China Miéville

Próximos autores da série incluem Suzi Weissman, Soma Marik e Neil Davidson.

Do compromisso ao poder

Ao longo de 1917, o Soviete de Petrogrado transformou-se de um corpo disposto a negociar com o capital para um pronto para a revolução.

Kevin Murphy

Reunião do Congresso dos Sovietes de Petrogrado em 1917. Wikimedia

Tradução / Em apenas alguns poucos dias, a Revolução de Fevereiro varreu o czarismo russo. Depois da revolta, o eleito Soviete dos Delegados Operários e Soldados de Petrogrado ficou lado a lado com o não-eleito Governo Provisório. Seu papel ao longo de 1917 não podia ser mais central.

Os militantes operários tinham dado início ao primeiro soviete durante a greve geral de massas de 1905. A ideia se tornou tão arraigada no movimento revolucionário que, no segundo dia do levante de 1917, algumas fábricas começaram a eleger seus representantes, antecipando a própria criação do novo Soviete.

Mas quando os Mencheviques convocaram esses operários, no dia 27 de fevereiro, o socialista moderado Alexander Kerensky prometeu que ele trabalharia para “manter a ordem”. Diferente do que ocorrera em 1905 – quando os sovietes eram órgãos de luta – o Soviete de Petrogrado acabou por eleger, quase que exclusivamente, intelectuais que não tinham participado ativamente da revolução para o seu Comitê Executivo.

No final de março, 2.000 delegados super-representavam as 150.000 tropas em Petrogrado, enquanto apenas 800 delegados representavam os cerca de 400.000 trabalhadores industriais da cidade. Apesar do papel central das operárias têxteis no levante de Fevereiro, a composição do Soviete era dominantemente masculina, com apenas alguma dúzia de delegadas mulheres. As desorganizadas e tumultuadas assembleias gerais indicavam que era o Comitê Executivo que conduzia a maioria dos assuntos importantes.

Esse comitê tinha objetivos muito menos ambiciosas que aquelas dos operários e soldados. Ao invés de tomar o poder, ele imediatamente pressionou seus relutantes aliados liberais a formarem um governo. Os Mencheviques acreditavam que “o governo que substituiria o czarismo deveria ser exclusivamente burguês”, como escrevera Nikolai Sukhanov.

Após o Soviete ter entregue o poder ao Governo Provisório, no dia 2 de março, o jornal oficial do órgão, Izvestiia, explicava que o conselho pressionaria o novo governo para atender os interesses em prol “da democracia”, mas sem forçar demais e gerar, com isso, uma contrarrevolução.

Contudo, o Comitê Executivo não conseguiu sequer atingir seu objetivo mais modesto. Para acalmar o Governo Provisório, os líderes do Soviete recuaram em praticamente todos os grandes temas. Eles postergaram a questão agrária até que fosse eleita uma Assembleia Constituinte, um evento que ele mesmo foi adiado repetidamente. Incrivelmente, eles chegaram até mesmo a concordar com um retorno à monarquia – apesar dessa decisão ter vindo por meio do irmão de Nicolau II, Miguel.

Sobre o tenso debate acerca da guerra, o Soviete lançou um manifesto pacifista no dia 14 de maio, o qual o jornal dos Bolcheviques, o Pravda, descreveu como “um compromisso consciente entre diferentes tendências representadas no Soviete”. O consenso resultante foi tão vago que até mesmo o belicista ministro do exterior, Pavel Milyukov, o assinou, bem como Josef Stalin e Lev Kamenev em nome dos Bolcheviques.

De fato, é difícil distinguir os registros dos Bolcheviques, nesses primeiros dias, em relação àqueles dos Mencheviques e dos Socialistas-Revolucionários (SRs). Os registros do Comitê Executivo revelam que os líderes das facções permaneceram em silêncio na maioria das questões de princípio, o que confirmava a posição de Trotsky na época:

“Ainda está para encontrar nos registros e na imprensa pelo menos uma proposta, anúncio ou protesto no qual Stalin tenha expressado o ponto de vista dos Bolcheviques em oposição à sabujice dos Mencheviques e SRs”.

Tal registro dos Bolcheviques, durante o domínio de Stalin e Kamenev, era tão macabro que, anos depois, eles iriam pressionar Alexander Shliapnikov a revisar suas memórias.

Nessas primeiras semanas, o único ato realmente significante do Soviete foi a Ordem Número 1, que só foi aprovada por conta da pressão de soldados radicais sobre os seus líderes. Esse famoso decreto empoderou os homens alistados no Exército, permitindo que eles elegessem seus próprios comitês e rejeitassem ordens que contrariassem os Sovietes. A Ordem Número 1 se tornou um enorme obstáculo para os objetivos militaristas do Governo Provisório.

Lenin rapidamente reconheceu a instabilidade do sistema dual de poder. O Governo Provisório e o Soviete tinham interesses de classe opostos e que nem a diplomacia e nem a conciliação poderiam unificar. Ao se aproximar de Trotsky e dos grupos extremistas dos Bolcheviques de Vyborg, as Teses de Abril de Lenin argumentavam em favor de sabotar o esforço de guerra a partir da política de confraternização no front, de transferir o poder do Estado aos sovietes e deixar os conselhos operários em controle de toda “produção social e da distribuição de produtos”.

Nas vinte quatro horas seguintes após o seu retorno, no dia 3 de abril, Lenin falou em inúmeros comícios, partilhando sua nova perspectiva radical para milhares de militantes Bolcheviques. Ele agitou contra “a guerra dos piratas capitalistas”, implodiu as negociações de unidade com os Mencheviques que Stalin e Kamenev estavam tocando e invocou a fúria de vários oponentes ao longo do espectro político.

O jornal dos Mencheviques vociferava que o novo programa de Lenin representava um “indubitável perigo” à revolução, enquanto a imprensa amarela, mais histérica, comparava ele à “lenda do Anticristo”. O primeiro ministro Lvov em breve reclamara que, ao invés de receber o “incondicional apoio” que o Soviete prometera, ele teria se tornado “suspeito”. Enquanto isso, na Avenida Nevsky, trabalhadores e soldados carregando faixas com as inscrições “Abaixo os ministros capitalistas!” enfrentavam-se contra liberais que carregavam faixas dizendo “abaixo Lenin!”.

A guerra e a crise de abril

O papel da Rússia na Primeira Guerra Mundial iria levar essas tensões a um ponto de efervescência rapidamente. Pressionado pelo Menchevique Irakli Tsereteli, o Governo Provisório anunciou, no dia 27 de março, que ele tinha apenas objetivos defensivos para com a guerra. Contudo, menos de um mês depois, Milyukov, um membro do liberal Partido Constitucional Democrata (os Kadetes) expediu um bilhete aos Aliados que essencialmente descartava a declaração anterior do Governo.

Milyukov argumentava que a Rússia poderia “levar a guerra mundial a uma vitória decisiva”, tomando controle de Constantinopla e dos Dardanelos. Ao invés de ter enfraquecido os objetivos militaristas do Império, ele acreditava que a revolução havia fortalecido “o desejo universal de levar a guerra mundial a uma vitória decisiva” e que as “garantias e sanções” – o que significava anexações e indenizações – iriam prevenir conflitos futuros.

A sincera explanação de Milyukov sobre os objetivos predatórios do imperialismo russo e dos Aliados despedaçaram a frágil paz que existia entre o Soviete e o Governo Provisório. O Comitê Executivo reuniu-se até tarde da noite naquele dia, mas não conseguiu chegar a nenhum acordo.

Quando o bilhete de Milyukov apareceu nos jornais matutinos de 20 de abril, um sargento do Regimento Finlandês conclamou uma manifestação anti-guerra. Muitos outros regimentos e os marinheiros do Báltico logo juntaram-se ao protesto, até que 25 mil soldados armados foram em direção ao Palácio Mariinsky com placas que diziam “Abaixo Milyukov!”.

No dia seguinte, uma grande manifestação chamada pelos Bolcheviques tomou forma enquanto os Mencheviques e os SRs imploravam aos trabalhadores e soldados que não participassem. Ao longo da imensa faixada do Palácio Mariinsky, os Bolcheviques esticaram um longo estandarte vermelho com as palavras: “Vida longa à Terceira Internacional!”. Os Kadetes convocaram sua própria contra-manifestação, em apoio ao governo e, pela primeira vez desde fevereiro, lutas campais irromperam ao longo da Avenida Nevsky.

Alguns Bolcheviques levaram o apelo “Abaixo o Governo Provisório” de forma bastante literal, tentando atacar o palácio e prender os ministros. O general Lavr Kornilov sugeriu bombardear os manifestantes com sua artilharia. Quando as notícias chegaram aos líderes do Soviete, eles ordenaram que as tropas permanecessem nos quartéis.

O Izvestiia reclamara que a liderança estava tentando resolver o conflito, mas que “muitos apoiadores estavam se manifestando sob bandeiras cujos slogans não correspondiam aos objetivos do Soviete”, tais como “exigir a derrubada do Governo e a transferência de poder ao Soviete”. Naquela noite, o Governo Provisório mandou uma nota reformulada ao Soviete, a respeito da guerra, a qual o Comitê Executivo aprovou numa votação apertada por 34 a 19. Esses líderes consideraram a crise encerrada e expediram um mandato contra futuras manifestações.

Lenin ridicularizou a resolução, dizendo que “os capitalistas são a favor de continuar a guerra” e, depois “da primeira crise, outras virão”. Ele rejeitou as “tentativas blanquistas de tomada de poder” e advogou em prol de uma estratégia de longa duração para persuadir a favor “do método proletário para acabar com a guerra” e para “eleger membros dentro do Soviete”.

O recall ultra-democrático dos delegados dos Sovietes iria atuar em prol dos Bolcheviques. No final de abril, o partido de Lenin tinha conseguido aproximadamente 1/4 dos delegados do Soviete de Petrogrado e um número ainda maior nos conselhos dos distritos. No front, os agitadores chamavam pela política de confraternização para com os soldados alemães, o que angariou apelo perante as já exaustas tropas.

No dia 6 de maio, o Izvestiia fustigava o Pravda e sua tentativa de “sabotar a confiança da soldadela perante os apelos do Soviete [...] Se você acredita no seu Soviete, então aceite o seu apelo para pararem com as ‘confraternizações’!”.

A ofensiva militar de Kerensky

A previsão de Lenin de que o bilhete de Milyukov era apenas a primeira de muitas crises que viriam em seguida mostrou-se verdadeira. Em junho, Kerensky propôs uma ofensiva militar que dividiu ainda mais o Governo Provisório, os Sovietes e o povo que eles supostamente representavam.

Quando o Primeiro Congresso dos Sovietes se reuniu, no dia 3 de junho, em Petrogrado, os socialistas moderados gozavam de um enorme apoio e podiam afirmar que falavam em nome de vinte milhões de operários e soldados. Esse grupo endossava o avanço de Kerensky, mas no clima politicamente carregado da capital, a radicalização desses operários e soldados já superava em muito a do resto do país.

Em preparação para o renovado esforço de guerra, Keresnky tentou reinstituir a disciplina militar, mas enfrentou a reação dos soldados radicais. Uma reunião da Organização Militar dos Bolcheviques de Petrogrado, no dia 23 de maio, anunciava que eles “estavam prontos para agir por conta própria se uma decisão positiva não fosse adotada pelas lideranças”.

No dia 8 de junho, os líderes Bolcheviques, incluindo a Organização Militar, votaram esmagadoramente a favor para fazerem uma manifestação em protesto contra os planos de Kerensky. O jornal Bolchevique, Soldatskaia Pravda, zombava do chamado do Governo Provisório para uma “guerra até sua conclusão vitoriosa”, criando um novo slogan: “guerra até sua conclusão vitoriosa contra os capitalistas”.

Apesar do apoio disseminado na base, o apelo dos Bolcheviques desafiou tanto o Congresso dos Sovietes como o Soviete de Petrogrado. Na manhã do dia 10 de junho, um recuado Comitê Central Bolchevique cancelou a manifestação numa peculiar votação em três a zero, com Yakov Sverdlov e Lenin se abstendo perante a maioria.

A decisão ultrajou os militantes do partido e alguns dos membros em Vyborg rasgaram seus cartões de membros do partido. No comitê de São Petersburgo, orador atrás de orador criticavam o Comitê Central. Receoso de repetir os erros da isolada Comuna de Paris, Lenin apelava aos seus camaradas para que tivessem “a máxima calma, cautela, paciência e organização”.

Numa sessão conjunta do Soviete de Petrogrado e da Presidência do Congresso dos Sovietes, no dia 11 de junho, um histérico Tsereteli acusava os Bolcheviques de tramarem contra a revolução e exigia medidas repressivas.

Kamenev falou em nome dos Bolcheviques. Ele argumentou que nenhum slogan deles falava sobre “tomada de poder”, apenas falavam em “todo poder aos Sovietes!”. “Prendam-me e nós veremos quem, afinal, está tramando contra a revolução”, ele desafiou, enquanto retirava-se junto com os Bolcheviques em protesto perante as acusações.

No dia seguinte, o Congresso endossou a ofensiva planejada por Kerensky e convocou para o dia 18 de junho uma marcha unificada para coincidir com o avanço militar. Porém, os líderes do Soviete de Petrogrado, temendo que os Bolcheviques sequestrassem a manifestação, sugeriram que apenas slogans aprovados pelo Soviete fossem utilizados.

Essa nítida ruptura com as normas revolucionárias – que, de qualquer forma, teria sido impossível de controlar – acabou fazendo com que muitos trabalhadores e soldados se voltassem contra suas lideranças conservadoras. As fábricas e os regimentos que antes eram dominados pelos SRs e pelos Mencheviques resolveram apoiar os slogans dos Bolcheviques.

O Izvestiia reclamava que “os segmentos mais baixos e ignorantes da população” estavam tomados por uma “propaganda anarquista-Bolchevique”. Na véspera da manifestação, Tsereteli disse aos representantes Bolcheviques: “nós vamos ver quem a maioria vai seguir, se são vocês ou se somos nós”.

A manifestação de mais de 400 mil pessoas foi, nas palavras de Maxim Gorky em seu Novaya zhizn, “um completo triunfo do bolchevismo perante o proletariado de São Petersburgo”. As bandeiras e palavras de ordem dos Bolcheviques dominavam. Apenas uma pequena minoria de slogans oficiais dos Soviete, Mencheviques e SRs apareciam no mar de cartazes que exigia “Todo poder aos Sovietes!” e “Abaixo os dez ministros capitalistas!”.

A demonstração coincidiu com o início da terrível ofensiva de Kerensky, que mataria cerca de 40 mil soldados. O Izvestiia reportava que uma delegação do Comitê do Front do Décimo Exército estava sendo chamada para “explicar a essas pessoas o ponto de vista da democracia russa”. Em muitos regimentos, o

“Comitê ouviu que os soldados não reconheciam a sua autoridade, o Soviete de Petrogrado, ou mesmo o Ministro da Guerra e não iriam participar da ofensiva. Eles não pretendiam morrer agora que havia liberdade na Rússia e a chance de finalmente ter uma terra”.

No regimento 703, os soldados ridicularizavam a delegação por “exigir que nós obedeçamos a ordem de Kerensky” e os espancaram, ameaçaram matar e por fim prenderam a delegação do Soviete de Petrogrado.

A tão esperada ofensiva de Kerensky mostrou-se catastrófica. Enquanto publicamente ele afirmava seu sucesso, ele afirmou, em um telegrama codificado no dia 24 de junho que “após os primeiros dias, às vezes após as primeiras horas da batalha”, “os espíritos se arrefeceram” e as unidades “começaram a criar resoluções com exigências em prol de debandarem imediatamente para a retaguarda”.

A semi-insurreição de julho

As Jornadas de Julho intensificaram esses conflitos. Os rebeldes imploraram para que o Soviete de Petrogrado tomasse o poder enquanto os seus líderes, paradoxalmente, imploravam às tropas para que os defendessem desses manifestantes. Um trabalhador mais corpulento expressou, de forma célebre, essa contradição, quando confrontara o líder dos SRs, Viktor Chernov no lado de fora do Palácio Tauride, gritando: “Tome o poder, seu filho da puta, quando ele é dado a você!”.

Em fevereiro, milhares de manifestantes do Primeiro Corpo de Metralhadoras tinham marchado de Orenburg até Petrogrado para defender a revolução. Esses soldados iniciaram uma revolta tão logo dois-terços deles tinham sido mandados de volta ao front, o que eles consideravam ser praticamente uma sentença de morte. No dia 1º de julho, o Soviete exigiu que esses atiradores voltassem aos quartéis, mas eles continuaram com seus planos de fazer uma manifestação armada.

Os delegados da conferência da Organização Militar Bolchevique de Todas as Rússia chegaram com rifles em suas costas, prontos para a luta. Organizações provinciais registravam uma raiva disseminada contra Kerensky e os seus planos. Os soldados exigiam preparações imediatas para um levante armado, o que repetidamente interrompia a conferência. O discurso de Lenin foi uma ducha de água fria, alertando para o risco de estarem fazendo justamente o que queria o Governo Provisório, ao darem início a um levante prematuro e desorganizado.

Em julho, alguns Bolcheviques extremistas mais pareciam anarquistas. No dia 2 daquele mês, uma reunião de anarquistas exigia uma revolta armada e, de fato, esse grupo desempenharia “um papel significativo no levante”, como argumentara Alexander Rabinowich.

O anarquista Bleichman instava aos metralhadores para que derrubassem o governo, mas sua crença de que “a rua irá nos organizar” levou apenas ao caos. Quando dez mil marinheiros armados chegaram de Kronstadt, os líderes do Soviete imploraram para que eles voltassem para casa, mas eles tinham mais simpatias a Bleichman, que novamente instava por uma insurreição.

O Izvestiia imprimia as exigências que aquela massiva manifestação tinha submetido ao Comitê Executivo do Soviete de Todas as Rússias:

“A remoção dos dez ministros burgueses, todo o poder aos sovietes, fim da ofensiva, confisco da imprensa burguesa, transformar a terra em propriedade do Estado e o controle estatal da produção”.

Naquela mesma noite, Kamenev e Zinoviev convenceram os líderes bolcheviques a cancelarem a manifestação do dia seguinte, com medo de que ela saísse completamente fora de controle. Quando ficou claro que a manifestação iria acontecer de qualquer forma e que a estratégia da direita Bolchevique seria entendida como uma traição, o Pravda de 4 de julho foi publicado com um espaço vazio, onde originalmente estaria ali o apelo para o cancelamento.

Meio milhão de pessoas marcharam naquele dia e o governo reagiu violentamente. O Izvestiia descreveu aquele ato como uma bem orquestrada tramoia:

“Conforme eles [os manifestantes] estavam passando por uma Igreja, um sino tocou no campanário e, como se fosse um sinal, os rifles e metralhadoras dispararam nos pontos mais altos das casas”.

Quando eles corriam para o outro lado, “os tiros passaram a vir das casas do lado oposto”. O jornal Menchevique também noticiou que os canhões dos cossacos tinham sido disparados contra os manifestantes.

As Jornadas de Julho mostraram que havia acabado a frágil unidade nacional que se seguiu após a abdicação do czar. “Sob a bandeira vermelha, marcharam apenas os trabalhadores e os soldados”, escrevera um participante:

“Os brasões dos oficiais, os brilhantes botões dos estudantes, os chapéus das “damas simpatizantes”, não eram mais vistos... Os escravos ordinários do capitalismo estavam marchando”.

O célebre membro dos Kadetes, Vladmir Nabokov, escreveu que os manifestantes tinham “as mesmas faces insanas, estúpidas e bestializadas que o lembravam dos dias de fevereiro”. O ódio de classe era agora mútuo. Os trabalhadores carregavam cartazes que diziam “Lembrem-se, capitalistas, que aço e metralhadoras irão esmagá-los!”.

Ao ouvirem que Kerensky estava indo para o front de trem, alguns dos metralhadores fizeram uma caçada em busca dele na Estação do Báltico. Outros se apropriaram dos automóveis dos ricos residentes e dirigiram até Avenida Nevsky, bradando suas armas.

No lado de fora do Palácio Tauride, Chernov pedia calma, até que os marinheiros de Kronstadt o prenderam. Trostky finalmente interviu e assegurou a soltura do líder dos SRs.

Operários armados fizeram uma busca no palácio atrás de Tsereteli e invadiram uma sessão do Soviete onde, de acordo com Sukhanov, alguns dos delegados “falharam na tentativa de mostrar coragem e um adequado auto-controle”. Um dos trabalhadores saltou em direção ao púlpito do orador e, balançando seu rifle, declarou:

“Camaradas! Até quando nós trabalhadores vamos aguentar essa traição? Vocês estão aqui debatendo e fazendo acordos com os latifundiários... Vocês estão ocupados traindo a classe trabalhadora. Bem, então entendam uma coisa: a classe trabalhadora não vai mais tolerar isso! Há 30.000 de nós na fábrica Putilov. E nós vamos fazer as coisas do nosso jeito. Todo poder aos sovietes! Não vamos largar nossos rifles! Seus Kerenskys e seus Tseritelis não vão nos enganar!”

A balança de poder havia virado contra a liderança do Soviete. Designado para encontrar tropas leais, o Menchevique Wladimir Woytinsky descreveu seus “esforços infrutíferos para alistar soldados para defender o Palácio Tauride”. Ironicamente, as primeiras tropas que chegaram eram leais à organização interdistrital de Trotsky. A apavorada liderança do Soviete os recebeu com exclamações de alegria.

Naquela noite, os Bolcheviques clamaram pelo fim das manifestações e, na manhã seguinte, o Governo Provisório lançou uma campanha contra Lenin e seus camaradas afirmando que eles eram agentes alemães.

No final das Jornadas de Julho, os não-socialistas que estavam no governo decidiram esmagar a revolução, restaurar a disciplina no Exército e aniquilar os sovietes. Essa solução de massacrar o levante, contudo, iria fortalecer o próprio alvo que eles esperavam destruir. Os sovietes finalmente se levantariam para proteger a revolução.

O Soviete se radicaliza

Lenin fugiu para a Finlândia, enquanto centenas de Bolcheviques estavam sendo presos por conta de acusações espúrias. Um exemplo delas é que o Governo Provisório afirmava que Trotsky havia viajado no “trem blindado” que os alemães teriam fornecido a Lenin – o que seria prova suficiente de que ambos revolucionários atuaram em prol do inimigo russo; o problema é que naquela época, Trotsky estava preso num campo de concentração em Nova Escócia, no Canadá.

Tsereteli assinou o pedido de prisão para Lenin e momentaneamente pareceu que os Mencheviques haviam se juntado à contrarrevolução. Mas os ataques aos sindicatos dos metalúrgicos, sedes Mencheviques e a prisão de alguns delegados dos sovietes deixaram claro que mesmo os mais conservadores dentre os socialistas não estavam à salvo diante da grande rede repressiva que o Governo Provisório havia lançado.

A conferência do Partido dos Kadetes abandonou suas premissas democráticas e clamou em favor de um ditador forte. Os oradores nesse encontro culparam Kerensky e o Soviete pela Ordem Número 1 e pela “presente e terrível situação na Rússia”.

Os magnatas dos grandes negócios, no Congresso do Comércio e da Indústria daquele ano, pediram por “uma ruptura radical… para com a ditadura dos sovietes” que havia levado a Rússia “à beira da destruição”. Vladmir Purishkevich, pogromista e fundador da União dos Povos Russos, juntou-se ao coro e exigiu a imediata dissolução do Soviete dos Delegados Operários e Soldados.

Os contrarrevolucionários encontraram seu homem forte no general Lavr Kornilov, o mais novo comandante do Exército Russo. Na noite antes de sua tentativa de golpe, Kornilov anunciara que “era hora de enforcar os agentes alemães e espiões, Lenin antes dos demais, e com isso dispersar os sovietes”. Ele prosseguiu, então, prometendo “enforcar todos os membros do Soviete dos Delegados Operários e Soldados” se assim fosse necessário.

De certa forma, isso era um tema comum para o general. Antes mesmo da revolução, Kornilov falava abertamente em enforcer “todos esses Guchkovs e Milyukovs”, mas agora ele estava do lado dos liberais, já que ambos queriam aniquilar a revolução.

Kerensky e Kornilov negociaram os detalhes da restauração da ordem. Eles concordaram em reinstaurar a pena de morte na retaguarda, em dissolver os comitês dos soldados e em instituir lei marcial em Petrogrado.

As tropas começaram a se mover em direção à capital revolucionária no dia 25 de agosto e, dois dias depois, Kornilov reportou que o Terceiro Regimento chegaria nos arredores da cidade naquela noite. Ele então pediu a Kerensky que declarasse lei marcial.

Naquele mesmo dia, os Mencheviques propuseram um Comitê de Defesa contra a contrarrevolução. Se “o comitê quiser agir com seriedade”, comentou Sukhanov, deveria se reconhecer que “apenas os Bolcheviques tinham recursos para tal”.

Cerca de 40 mil pessoas se voluntariaram para as Guardas Vermelhas e outros milhares vieram em apoio. Metalúrgicos militantes produziram centenas de canhões em questões de dias, trabalhando em turnos de 16 horas. A Rússia Revolucionária parecia estar à beira de uma guerra civil aberta.

Contudo, o confronto militar nunca se materializou. Kornilov permaneceu nos quartéis de Mogilev, deixando o general Alesandr Krymov liderar os cossacos e a Divisão de Cavalaria Nativa Caucasiana, melhor conhecida como a Divisão Selvagem. Enquanto isso, o Soviete tinha conseguido chegar até os ferroviários revolucionários, que por sua vez sabotaram os trilhos e isolaram as tropas de Krymov, fragmentando-os em oito diferentes linhas. Os agitadores do Soviete enfrentaram a Divisão Selvagem e os soldados que tinham sido chamados para suprimir a revolução acabaram levantando uma bandeira vermelha por “Terra e Liberdade”.

Em Petrogrado, 2 mil tropas leais estavam sendo esperadas para responder ao fictício levante dos Bolcheviques. O líder cossaco, Alexander Dutov, reclamara: “eu chamei as pessoas para virem às ruas, mas ninguém me seguiu”.

O general Khrystofor Baranovsky, em Petrogrado, apelara ao general Mikhail Alexiev, no quartel-general de Mogilev, afirmando “que os sovietes estavam furiosos e que essa atmosfera só poderá ser dissipada por uma demonstração de poder, com a prisão de Kornilov”. Alexiev respondeu: “nós caímos ferrenhamente nas garras dos sovietes”.

O centro entra em colapso

No dia 30 de agosto, o golpe planejado havia obviamente colapsado, levando junto com ele o Partido dos Kadetes. O seu jornal anunciava que “os objetivos de Kornilov são os mesmos que nós cremos serem necessários para a salvação do país. [...] Nós advogamos eles antes mesmo de Kornilov”.

No dia 1º de setembro, Tsereteli tentou defender seus antigos aliados. Ignorando a proposta de Milyukov para tornar o general Alexiev o novo ditador, esperando com isso apaziguar tanto Kerensky quanto Kornilov, Tsereteli afirmou que “pelo menos as figuras proeminentes dele [o partido Kadete] mantiveram a revolução”.

Tanto os Mencheviques quanto os SRs romperam com seus aliados liberais apenas para voltarem atrás nas semanas seguintes. Enquanto isso, o Soviete e o público aprenderam que Kerensky tinha trabalhado junto com Kornilov para suprimir o conselho popular. O jornal da esquerda dos SRs, o Znamya truda, enfaticamente trouxe isso à tona:

“O golpe de Kornilov não foi uma conspiração contra o Governo Provisório, mas sim um acordo com ele e contra as organizações democráticas”.

Os Mencheviques e a direita dos SRs desesperadamente se agarraram ao agora totalmente desacreditado regime de Kerensky e eles, por fim, pagaram o preço por essa estratégia. No início de setembro, a esquerda dos SRs dominara a conferência do Partido na conferência de Petrogrado. O distrito Menchevique de Vasilevsky, em sua totalidade, juntara-se aos Bolcheviques. Os antigos bastiões Mencheviques nas fábricas agora faziam recall de seus delegados nos sovietes, favorecendo os Bolcheviques. Em outras fábricas, os antigos delegados imploravam por perdão e até mesmo rasgavam e jogavam fora os retratos de Kerensky.

O confronto decisivo pelo controle do Soviete de Petrogrado aconteceu durante a eleição da mesa presidencial no dia 9 de setembro. Trotsky, falando pela primeira vez desde que tinha sido solto da prisão alguns dias atrás, lembrou os seus ouvintes de que “quando eles propuserem a vocês para sancionar a linha política da mesa presidencial, não esqueçam que vocês estarão sancionando as políticas de Kerensky”.

“Todos entenderam que nós estávamos decidindo a questão do poder – da guerra – do destino da revolução”, Trotsky escrevera mais tarde. Ao invés de ser uma típica votação nominal, a assembleia reunida simplesmente decidiu que aqueles que estavam na liderança se resignassem e abandonassem o salão.

Trabalhadores e soldados se dirigiram em direção a porta, em meio a trocas de gritos e acusações de “Kornilovistas!” e “heróis de julho!”. A conta final indicava que 414 tinham votado a favor da mesa Menchevique-SR e do governo de coalizão; 519 votaram contra; e 67 se abstiveram.

Tsereteli congratulou a si mesmo e aos outros antigos líderes, falando que eles eram “a consciência que, por meio ano [...] manteve valorosamente a bandeira da revolução no topo”. Trotsky, por sua vez, lembrou os líderes removidos que “as acusações contra os Bolcheviques [...] de estarem a serviço do Estado-maior alemão, não havia sido retirada”. O Soviete então decidiu “dar todo o seu desprezo aos autores, distribuidores e propagadores da calúnia”.

Com ambos os Kadetes e o próprio Kerensky sendo renegados, Lenin brevemente defendeu uma saída de compromisso com a liderança do Soviete: eles tomariam o poder e os Bolcheviques seriam sua leal oposição. Porém, depois dessa saída, os socialistas persistiram apoiando a coalizão de Kerensky – que ainda incluía os Kadetes – e após os Bolcheviques terem obtido a maioria em Petrogrado, Moscou e nos sovietes de outras cidades, Lenin então voltara-se a estratégia de “Todo poder aos sovietes”. Nas seis semanas seguintes, ele incessantemente barrou todas as exigências do Comitê Central em prol de uma insurreição imediata.

Todo poder aos sovietes

Mesmo depois da famosa resolução do dia 10 de outubro em prol de uma “insurreição armada”, os líderes Bolcheviques titubearam. Alguns deles até mesmo debilitaram as ações revolucionárias.

Quando Kamenev e Grigory Zinoviev publicaram seus argumentos contrários à insurreição no Novaia zhizn, em 18 de outubro, Lenin tinha chegado ao seu limite, defendendo que os “fura-greves fossem expulsos” do partido.

Para aumentar o seu apoio popular, os líderes decidiram que seria a instituição do Soviete de Petrogrado – ao invés de ser o partido Bolchevique – que iria organizar o levante. No dia 16 de outubro, o Comitê Executivo que agora estava à esquerda, anunciara a formação de um Comitê Militar Revolucionário para “a defesa da capital”.

Na batalha por autoridade perante as tropas, o comitê mandou uma delegação ao quartel-general de Petrogrado e informou a eles que “a partir daquele momento, qualquer ordem que não fosse assinada por eles, seria inválida”. Os generais se recusaram a reconhece-los e, no dia seguinte, o comitê declarou que ao romper com o Soviete, o quartel-general havia se tornado uma “arma direta das forças contrarrevolucionárias”.

No meio das frenéticas assembleias do Soviete de Petrogrado nos dias que antecederam o Segundo Congresso, muitos soldados chegavam e exigiam que o Soviete tomasse o poder. Os Mencheviques repetidamente advertiam contra “os rios de sangue” que correriam a partir da insurreição.

Quando Eva Broida perguntou se o Comitê Militar Revolucionário iria organizar uma insurreição, Trotsky lhe perguntou: “em nome de quem, Broido está perguntando, é em seu nome, no nome de Kerensky, do serviço de inteligência, da polícia secreta ou de alguma outra instituição?”

De fato, os Mencheviques não anunciaram suas ações militares com antecedência. Durante a assembleia do dia 23 de outubro, um dos líderes do Soviete de Moscou, Lomov, reportou que os cossacos haviam atacado o Soviete de Kaluga. Os Mencheviques e os SRs da duma da cidade tinham pedido tropas que acabaram por “infringir ultrajante violência” contra os líderes do Soviete.

Naquela mesma noite, Trotsky declarou que a criação de um Exército Revolucionário era um passo político em direção à tomada de poder e transferí-lo para os sovietes”, mas no dia seguinte, 24 de outubro, ele negou que estivesse planejando tal ação.

Na Assembleia Geral, no dia seguinte, Trotsky declarou a uma extasiada plateia que “o Governo Provisório não mais existe. [...] Na história do movimento revolucionário, eu não conheço nenhum outro exemplo em que tivesse tanta participação das massas e que tenha se desenrolado de forma tão pacífica”. Enquanto os oponentes de Lenin, incluindo alguns dentro de seu próprio partido, acreditaram que o novo regime dos sovietes duraria apenas algumas semanas, Lenin manteve-se imperturbavelmente otimista de que a terceira Revolução Russa “iria levar à vitória do socialismo”. Ele estava confiante de que “nós seremos ajudados pelo movimento da classe trabalhadora no mundo todo, algo que está começando a acontecer na Itália, na Inglaterra e na Alemanha”.

A estratégica dos Mencheviques e da direita dos SRs, de comprometer-se com o capitalismo, tinha se mostrado um fracasso. Num momento crucial na história da classe trabalhadora, muitos desses Mencheviques e SRs tinham saído do Congresso dos Sovietes para juntarem forças com o progromista Purishkevich e com outros antissocialistas.

Conforme nos aproximamos do aniversário da Revolução de Outubro, os anticomunistas novamente irão tentar marcar a vitória dos Bolcheviques como um golpe de Estado promovido por uma minoria. Essa fabricação grosseira ignora o mandato democrático que os Bolcheviques buscavam e conquistaram ao longo dos meses de luta.

O dia que abalou o mundo

A história de 7 de novembro de 1917 – o dia em que os bolcheviques mudaram a história mundial.

China Miéville

Jacobin

Lênin com um grupo de comandantes na Praça Vermelha, 25 de maio de 1919. Wikimedia

Tradução / A alvorada do dia 25 se aproximava. Desesperado, Kerensky emitiu um apelo aos cossacos “em nome da liberdade, da honra e da glória de nossa terra natal [...] ajam para ajudar o Comitê Executivo Central do Soviete, a democracia revolucionária e o governo provisório e salvar o Estado russo em perigo”.

Mas os cossacos queriam saber se a infantaria ia para as ruas. Quando o governo deu uma resposta ambígua, todos – menos um pequeno número de ultralegalistas – responderam que não estavam dispostos a agir sozinhos, para “servir de alvo vivo”.

Várias vezes, e com facilidade, o Comitê Militar Revolucionário (CMR) desarmou guardas legalistas em diversos pontos da cidade e lhes disse para voltar para casa. Na maior parte das vezes, era o que eles faziam. Os insurgentes ocuparam o Palácio dos Engenheiros simplesmente entrando pela porta. Eles entravam e se sentavam, enquanto aqueles que estavam lá sentados se levantavam e iam embora”, diz uma reminiscência. Às seis da manhã, quarenta marinheiros revolucionários se aproximaram do Banco Estatal de Petrogrado. Os guardas do Regimento Semenóvski que faziam a vigilância do prédio haviam prometido neutralidade: defenderiam o banco de ladrões e saqueadores, mas não tomariam partido entre reação e revolução. Nem interviriam. Eles se afastaram e deixaram o CMR assumir.

Uma hora depois, quando a aguada luz de inverno lavava a cidade, um destacamento do Regimento Keksgólmski comandado por Zakhárov, um cadete atípico da Escola Militar, juntou-se à revolução, dirigindo-se à Central Telefônica. Zakhárov tinha trabalhado lá e sabia como funcionava a segurança. Quando chegou, não teve dificuldade em dirigir suas tropas para isolar e desarmar os mal-humorados e impotentes cadetes de plantão. Os revolucionários desligaram as linhas do governo.

Esqueceram-se de duas. Com elas, os ministros do gabinete – escondidos e amontoados sobre dois receptores que ficavam entre as pilastras, as filigranas brancas e douradas e os candelabros da Sala Malaquita do Palácio de Inverno – mantinham contato com suas escassas forças. Eles emitiam instruções inúteis, brigando em voz baixa enquanto Kerensky olhava para o nada.


Meio da manhã. Em Kronstadt, assim como fizeram antes, marinheiros armados embarcavam em tudo o que conseguissem achar e fosse navegável. De Helsingfors, partiram em cinco destróieres e um patrulheiro, todos enfeitados com bandeiras revolucionárias. Por toda Petrogrado, os revolucionários esvaziaram mais uma vez as prisões.

No Smolni, uma figura desmazelada invadiu a sala de operações bolchevique. Os ativistas olharam desconcertados para o recém-chegado, até que finalmente Vladímir Bontch-Bruiévitch gritou e correu para a frente com os braços abertos: “Vladímir Ilitch, nosso pai! Não reconheci você, meu querido!”.

Lênin se sentou para redigir uma proclamação. Ele estava se contorcendo de ansiedade, desesperado para que a queda do governo estivesse finalizada quando o II Congresso se iniciasse. Ele conhecia bem a força de um fato consumado.

“Aos cidadãos da Rússia. O governo provisório foi derrubado. O poder do Estado passou às mãos do órgão do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado, o Comitê Revolucionário Militar, que está no comando do proletariado e da guarnição de Petrogrado. 
A causa pela qual o povo tem lutado – a proposta imediata de paz democrática, eliminação da propriedade sobre a terra, controle dos trabalhadores sobre a produção, criação de um governo dos sovietes –, o triunfo dessa causa foi assegurado. 
Viva a revolução dos trabalhadores, dos soldados e dos camponeses!”

A esta altura já bastante convencido da utilidade do CMR, Lênin não assinou pelos bolcheviques, mas em nome desse corpo “não partidário”. A proclamação foi impressa rapidamente em negrito, ao qual o cirílico se presta bem. Tão rápido quanto as cópias podiam ser distribuídas, elas foram coladas em muitos muros. Os operadores transmitiram suas palavras pelos fios telegráficos.

De fato, não era uma verdade, mas uma aspiração.


No Palácio de Inverno, Kerensky usou seus últimos canais de comunicação para se juntar às tropas que se dirigiam para a capital. No entanto, comunicar-se com elas não seria nada fácil. Ele podia fugir, mas o CMR controlava as estações.

Ele precisava de ajuda. O Estado-Maior fez uma longa busca, cada vez mais frenética, até finalmente encontrar um carro adequado. Implorando, conseguiram garantir mais um carro, o da embaixada dos EUA – um veículo com convenientes placas diplomáticas.

Por volta das onze horas da manhã do dia 25, exatamente quando a proclamação prefigurativa de Lênin começou a circular, os dois veículos passaram acelerados pelas barreiras do CMR, mais entusiasmadas do que eficientes.

Um Kerensky arruinado fugiu da cidade com uma pequena comitiva para ir ao encontro de soldados leais.


Para muitos cidadãos, apesar da agitação, aquele parecia um dia quase normal em Petrogrado. Havia barulho e desordem, é claro, e era impossível ignorá-los, mas relativamente poucas pessoas estavam envolvidas na luta, e apenas em pontos-chave. Enquanto os combatentes se ocupavam do trabalho insurrecional ou contrarrevolucionário, reconfigurando o mundo, a maioria dos bondes estava em operação e a maioria das lojas estava aberta.

Ao meio-dia, soldados e marinheiros revolucionários armados chegaram ao Palácio Mariínski. Os pré-parlamentaristas, que discutiam ansiosamente o drama que se desenrolava, estavam prestes a se tornar atores dele.

Um comissário do CMR entrou na sala de surpresa. Ordenou que o presidente do Pré-Parlamento, Avkséntiev, evacuasse o palácio. De armas na mão, soldados e marinheiros abriram caminho e dispersaram os aterrorizados deputados. Atordoado, Avkséntiev reuniu rapidamente o maior número possível de integrantes do comitê. Eles sabiam que resistir seria inútil, mas partiram sob protestos e com tanta formalidade quanto era possível, comprometendo-se a se reunir novamente o mais rápido que pudessem.

Quando saíram no frio cortante, os novos guardas do prédio verificaram seus documentos, mas não os detiveram. O lamentável Pré-Parlamento não era o prêmio que, para a exasperação enlouquecida de Lênin, ainda lhes escapava.

Esse prêmio era o Palácio de Inverno, agora sem a presença de Kerensky. Lá, com o mundo desmoronando, as lúgubres brasas do governo provisório ainda ardiam.

Ao meio-dia, na grande Sala Malaquita, o magnata do ramo têxtil e kadet Konoválov reuniu o gabinete.

“Não sei por que esta sessão foi convocada”, murmurou o almirante Verderiévski, ministro da Marinha. “Não temos nenhuma força militar tangível e, consequentemente, somos incapazes de tomar qualquer atitude.” Talvez, postulou, eles devessem ter se reunido com o Pré-Parlamento – e, no mesmo momento em que falava, chegou a notícia da dissolução do órgão.

Os ministros recebiam relatórios e emitiam apelos a seus interlocutores cada vez menos numerosos. Aqueles que não eram afligidos pelo triste realismo de Verderiévski prolongavam as fantasias. Com os últimos resquícios de poder se esvaindo, eles sonhavam com uma nova autoridade.

Com toda a seriedade do mundo, como se fossem fósforos queimados contando histórias sinistras de incêndios que provocariam em breve, as cinzas do governo provisório da Rússia discutiam entre si a criação de um ditador.

Dessa vez, as forças de Kronstadt alcançaram as águas de Petrogrado em um antigo iate de lazer, dois navios lança-minas, um navio de treinamento, um antigo navio de guerra e uma falange de pequenas barcaças. Outra flotilha maluca.

Perto de onde o gabinete fantasiava sobre uma ditadura revolucionária, os marinheiros tomaram o Almirantado e prenderam o alto-comando naval. O Regimento Pávlovski montou guarda nas pontes. O Regimento Keksgólmski assumiu o controle ao norte do rio Moika.

O horário originalmente previsto para a tomada do Palácio de Inverno, meio-dia, tinha chegado e passado. O prazo foi adiado para as três horas, o que implicava a prisão do governo para depois das duas horas da tarde, horário de abertura do Congresso dos Sovietes – exatamente o que Lênin queria evitar. A abertura do congresso foi adiada.

Mas o salão do Smolni agora fervilhava de delegados dos sovietes da capital e das províncias. Eles exigiam notícias. Não podiam adiar as atividades para sempre.

Assim, às 2h35 da tarde, Trótski abriu uma sessão de emergência do Soviete de Petrogrado. “Em nome do Comitê Militar Revolucionário”, exclamou, “declaro que o governo provisório não existe mais.”

Suas palavras provocaram uma tempestade de alegria. As principais instituições estavam nas mãos do CMR, Trótski continuou, em meio à comoção. O Palácio de Inverno cairia “em instantes”. Outra grande aclamação: Lênin estava entrando no salão.

“Viva o camarada Lênin”, gritou Trótski, “conosco novamente!”

A primeira aparição pública de Lênin desde julho foi breve e exultante. Ele não ofereceu detalhes, mas anunciou “o início de um novo período” e exortou: “Viva a revolução socialista mundial”.

A maioria dos presentes respondeu com prazer, mas houve dissidências.

“Você está antecipando a vontade do II Congresso dos Sovietes”, gritou alguém.

“A vontade do II Congresso dos Sovietes foi predeterminada pelo fato de que os trabalhadores e os soldados se insurgiram”, replicou Trótski. “Agora só temos de levar adiante esse triunfo.”

Mas, entre proclamações de Volodárski, Zinóviev e Lunatchárski, um pequeno número de moderados, na maioria mencheviques, se retirou dos órgãos executivos do Soviete. Eles alertaram sobre as terríveis consequências dessa conspiração.

[...]

After almost eight hours of stalling, the soviet delegates could be put off no longer. An hour after that first shot, in the grand colonnaded Assembly Hall of Smolny, the Second Congress of Soviets opened.

The room was heavy with the fug of cigarettes, despite repeated shouts, many cheerfully taken up by the smokers themselves, that smoking was not allowed. The delegates, Sukhanov recorded with a shudder, mostly bore “the grey features of the Bolshevik provinces.” They looked, to his refined and intellectual eye, “morose” and “primitive” and “dark,” “crude and ignorant.”

Of 670 delegates, 300 were Bolsheviks. 193 were SRs, more than half of them of the party’s left; 68 Mensheviks, and 14 Menshevik-Internationalists. The rest were unaffiliated, or members of tiny groups. The size of the Bolshevik presence illustrated that support for the party was soaring among those who voted in the representatives — and was also bolstered by somewhat lax organizational arrangements that had given them more than their proportional share. Even so, without the Left SRs, they had no majority.

It was not, however, a Bolshevik who rang the opening bell, but a Menshevik. The Bolsheviks played on Dan’s vanity by offering him this role. But he instantly quashed any hopes of cross-party camaraderie or congeniality.

“The Central Executive Committee considers our customary opening political address superfluous,” he announced. “Even now, our comrades who are selflessly fulfilling the obligations we placed on them are under fire at the Winter Palace.”

Dan and the other moderates who had led the Soviet since March vacated their seats to be replaced by the new, proportionally allotted presidium. To uproarious approval, fourteen Bolsheviks — including Kollontai, Lunacharsky, Trotsky, Zinoviev — and seven Left SRs, including the great Maria Spiridonova, ascended the platform. The Mensheviks, in dudgeon, abjured their three seats. One place was held for the Menshevik-Internationalists: in a move simultaneously dignified and pathetic, Martov’s group declined to take it, but reserved the right to do so later.

As the new revolutionary leadership sat and prepared for business, the room suddenly reverberated with another cannon boom.

Everybody froze.

This time the shot came from the Peter and Paul Fortress. Unlike the Aurora’s, its round was not a blank.


The oily flash of detonations reflected in the Neva. Shells soared up, arcing in the night and screaming as they descended towards their target. Many, in mercy or incompetence, combusted loud, spectacular, and harmless in the air. Many more plunged with crashing splashes deep into the water.

From their own emplacements, the Red Guards fired too. Their bullets peppered the Winter Palace walls. The vestiges of government within cowered under the table as glass rained down around them.

At Smolny, as the ominous echoes of the onslaught sounded, Martov raised his tremulous voice. He insisted on a peaceful solution. He called hoarsely for a ceasefire. For negotiations to begin on a cross-party, united, socialist government.

There came a great tumult of applause from the audience. From the Presidium itself, Mstislavsky of the Left SRs offered Martov full-throated support. As, and vocally, did most of those present — including many grassroots Bolsheviks.

For the party leadership, Lunacharsky rose. And then, sensationally, he announced that “the Bolshevik fraction has absolutely nothing against the proposal made by Martov.”

The delegates voted on Martov’s call. Support was unanimous.


Bessie Beatty, correspondent for the San Francisco Bulletin, was in the room. She understood the stakes of what she saw. “It was,” she wrote, “a critical moment in the history of the Russian Revolution.” It seemed as if a democratic socialist coalition was about to be born.

But as the moment stretched out, the guns on the Neva sounded again. Their echoes shook the room — and the chasms between parties reappeared.

“A criminal political venture has been going on behind the back of the All-Russian Congress,” announced a Menshevik officer, Kharash. “The Mensheviks and SRs repudiate all that is going on here, and stubbornly resist all attempts to seize the government.”

“He does not represent the Twelfth Army!” cried an angry soldier. “The army demands all power to the soviets!”

A barrage of heckles. Right SRs and Mensheviks took turns now to shout denunciations of the Bolsheviks, and to warn that they would withdraw from proceedings, as the Left howled them down.

The mood grew more bitter. Khinchuk of the Moscow Soviet took his turn to speak. “The only possible peaceful solution to the present crisis,” he insisted, “continues to lie in negotiations with the Provisional Government.”

Bedlam. Khinchuk’s intervention was either a catastrophic underestimate of the hatred for Kerensky, or a deliberate provocation. It drew fury from far more than just the incredulous Bolsheviks. At last, into the din Khinchuk yelled, “We leave the present congress!”

But amid the stamping, booing and whistling that greeted that call, the Mensheviks and SRs hesitated. The threat to leave, after all, was a last card.

Across Petrograd, the Duma discussed Maslov’s doom-laden phone call. “Let our comrades know that we have not abandoned them, let them know we will die with them,” proclaimed the SR Naum Bykhovsky. Liberals and conservatives rose to vote yes, that they would join those bunkered in the Winter Palace under fire, that they, too, were ready to die for the regime. The Kadet Countess Sofia Panina declared she would “stand in front of the cannon.”

Full of scorn, the Bolshevik representatives voted no. They would go too, they said, but not to the palace: to the Soviet.

The roll call done, the two competing pilgrimages set out in the darkness.

In Smolny, Erlich of the Jewish Bund interrupted proceedings with news of the city duma deputies’ decisions. It was time, he said, for those who “did not wish a bloodbath” to join the march to the palace, in solidarity with the cabinet. Again the Left shouted imprecations, as Mensheviks, Bund, SRs and a smattering of others rose and at last walked out. Leaving the Bolsheviks, the Left SRs, and the agitated Menshevik-Internationalists behind.

Trudging through cold night rain, the self-exiled moderates from Smolny reached Nevsky Prospect and the Duma. There they joined forces with its deputies, with the Menshevik and SR members of the Executive Committee of the Peasants’ Soviets, and together they set out to show their solidarity with the cabinet. They walked four abreast behind Shreider, the mayor, and Sergei Prokopovich, the minister of supplies. Carrying bread and sausages for the ministers’ sustenance, quavering the Marseillaise, the three-hundred-strong group sallied forth to die for the Provisional Government.

They did not make it a block. At the corner of the canal, revolutionaries blocked their way.

“We demand to pass!” Shreider and Prokopovich shouted. “We are going to the Winter Palace!”

A sailor, bemused, refused to let them through.

“Shoot us if you want to!” the marchers challenged. “We are ready to die, if you have the heart to fire on Russians and comradesa . . . We bare our breasts to your guns!”

The peculiar standoff continued. The Left refused to shoot, the Right demanded their right to pass and/or be shot.

“What will you do?” yelled someone at the sailor who doggedly refused to murder him.

John Reed’s eyewitness account of what happened next is famous.

Another sailor came up, very much irritated. “We will spank you!” he cried energetically. “And if necessary we will shoot you too. Go home now, and leave us in peace.”

That would be no fit fate for champions of democracy. Standing on a box, waving his umbrella, Prokopovich anounced to his followers that they would save these sailors from themselves. “We cannot have our innocent blood upon the hands of these ignorant men! . . . It is beneath our dignity to be shot down” — let alone spanked — “here in the street by switchmen. Let us return to the Duma, and discuss the best means of saving the country and the Revolution!”

With that, the self-declared morituri for liberal democracy turned and set out on their embarrassingly short return journey, taking their sausages with them.

Martov remained in the Assembly Hall with the mass meeting. He was still desperate for compromise. Now he tabled a motion criticizing the Bolsheviks for pre-empting Congress’s will, suggesting — again — that negotiations begin for a broad, inclusive socialist government. This was close to his proposal of two hours before — which, Lenin’s desire to break with moderates notwithstanding, the Bolsheviks had not opposed.

But two hours was a long time.

As Martov sat, there was a commotion, and the Bolsheviks’ Duma fraction pushed into the hall, to the delegates’ delight and surprise. They had come, they said, “to triumph or die with the All-Russian Congress.”

When the cheering subsided, Trotsky himself rose to respond to Martov.

“A rising of the masses of the people requires no justification,” he said. “What has happened is an insurrection, and not a conspiracy. We hardened the revolutionary energy of the Petersburg workers and soldiers. We openly forged the will of the masses for an insurrection, and not a conspiracy. The masses of the people followed our banner and our insurrection was victorious. And now we are told: renounce your victory, make concessions, compromise. With whom? I ask: with whom ought we to compromise? With those wretched groups which have left us or who are making this proposal? But after all we’ve had a full view of them. No one in Russia is with them any longer. A compromise is supposed to be made, as between two equal sides, by the millions of workers and peasants represented in this congress, whom they are ready, not for the first time or the last, to barter away as the bourgeoisie sees fit. No, here no compromise is possible. To those who have left and to those who tell us to do this we must say: you are miserable bankrupts, your role is played out. Go where you ought to go: into the dustbin of history!”

The room erupted. Amid the loud sustained applause, Martov stood up. “Then we’ll leave!” he shouted.

As he turned, a delegate barred his way. The man stared at him with an expression between sorrow and accusation.

“And we had thought,” he said, “that Martov at least would remain with us.”

“One day you will understand,” said Martov, his voice shaking, “the crime in which you are taking part.”

He walked out.

Congress quickly passed a spiteful denunciation of the departed, including of Martov. Such barbs were unwelcome and unnecessary as far as the remaining Left SRs and Menshevik-Internationalists were concerned — as they were, too, to many Bolsheviks.

Boris Kamkov was warmly clapped when he announced that his group, the Left SRs, had stayed. He tried to revive Martov’s proposal, gently criticizing the Bolshevik majority. They had not carried the peasantry, or the bulk of the army, he reminded his listeners. Compromise was still necessary.

This time it was not Trotsky who responded, but the popular Lunacharsky — who had previously agreed to Martov’s move. The tasks ahead were onerous, he concurred, but “Kamkov’s criticism of us is unfounded.”

“If starting this session we had initiated any steps whatever to reject or remove other elements, Kamkov would be right,” Lunacharsky continued. ‘But all of us unanimously accepted Martov’s proposal to discuss peaceful ways of solving the crisis. And we were deluged by a hail of declarations. A systematic attack was conducted against us . . . Without hearing us out, not even bothering to discuss their own proposal, they [the Mensheviks and SRs] immediately sought to fence themselves off from us.”

In response, it could have been pointed out to Lunacharsky that Lenin had, for weeks, been insisting that his party must take power alone. And yet, all such cynicism notwithstanding, Lunacharsky was right.

Whether in joyful solidarity, truculently, in confusion, or whatever it might be, like everyone else of every other party, all the Bolsheviks in the hall had supported cooperation — a socialist unity government — when Martov first mooted it.

Bessie Beatty suggested that Trotsky failed to move as fast as he could in response to that first proposal, perhaps out of “some bitter memory of insults he had suffered at the hands of these other leaders.” That was debatable, and even if true, the Mensheviks, the Right SRs, and others had chosen to throw the vote back in the faces of the Bolsheviks. They had gone straight from it to opposition, denouncing those to their left.

Lunacharsky’s question was reasonable: how do you cooperate with those who have rejected cooperation?

As if to underline the point, the departed moderates were, at that very moment, labelling the meeting only “a private gathering of Bolshevik delegates.” “The Central Executive Committee,” they announced, “considers the Second Congress as not having taken Place.”

In the hall, the debate about conciliation dragged into the darkest hours. But by now the weight of opinion was with Lunacharsky, and with Trotsky.

It was endgame at the Winter Palace.

Wind intruded through smashed glass. The vast chambers were cold. Disconsolate soldiers, deprived of purpose, wandered past the double-headed eagles of the throne room. Invaders reached the emperor’s personal chamber. It was empty. They took their time attacking images of the man himself, hacking with their bayonets at the stiff, sedate life-sized Nicholas II watching from the wall. They scored the painting like beasts with talons, left long scratches, from the ex-tsar’s head to his booted feet.

Figures drifted in and out of sight, unsure of who each other was.

One Lieutenant Sinegub remained committed to defend the government. He patrolled the besieged corridors for disjointed hours, awaiting attack, adrift in a kind of sedate panic, extreme, narcotic exhaustion, passing scenes like snips from some half-heard story: an old gentleman in the uniform of an admiral, sitting motionless in an armchair; an unlit, deserted switchboard; soldiers hunkered below the watching eyes of portraits in a gallery.

Men skirmished in stairwells. Any creak on the floorboards might be the revolution. Here came a junker heading somewhere, on some mission. He warned with a stilted calm that the person Sinegub had just passed — he had just walked past someone, yes — was probably one of the enemy. “Good, excellent,” said Sinegub. “Watch! I will make sure at once.” He turned and immobilized him – the other man, he saw, was indeed of the insurgency’s party — by pulling his coat down, like a child in a playground fight, so he could not move his arms.

About 2:00 AM, MRC forces pushed into the palace in sudden numbers.

Frantic, Konovalov telephoned Shreider. “All we have is a small force of cadets,” he said. ‘Our arrest is imminent.” The connection broke.

From the hallways, the ministers heard futile shots. The last of their defense. Footsteps. A breathless cadet came running in for orders. “Fight to the last man?” he asked.

“No bloodshed!” they shouted. “We must surrender.”

They waited. A strange awkwardness. How best to be found? Not, surely, hovering embarrassedly, coats over their arm, like businessmen awaiting a train.

Kishkin the dictator took control. He issued the final two orders of his reign.

“Leave your overcoats,” he said. “Let us sit down at the table.”

They obeyed. And thus they were, a frozen tableau of a cabinet meeting, when Antonov burst dramatically in, his eccentric artist’s hat pushed back over his red hair. Behind him, soldiers, sailors, Red Guards.

“The Provisional Government is here,” said Konovalov with impressive decorum, as if in answer to a knock rather than an insurrection. “What do you want?”

“I inform you, all of you,” said Antonov, “members of the Provisional Government, that you are under arrest.”

Before the revolution, a political lifetime ago, one of those ministers present, Maliantovich, had sheltered Antonov in his house. The two men eyed each other, but did not mention it.

The Red Guards were furious to realize that Kerensky was long gone. Blood up, one shouted, “Bayonet all the sons of bitches!”

“I will not allow any violence against them,” Antonov calmly replied.

With that he led the ministers away, leaving behind them their rough drafts of proclamations, crossed out, those crisscrosses meandering like the dreams of dictatorship into fanciful designs. A telephone began to ring.

Sinegub watched from the corridor. When it was over, his government gone, his duty done, he turned quietly and walked away, out into the blaze of searchlights.

Looters ferreted through the warren of rooms. They ignored the artworks and took clothes and knickknacks. They trampled papers across the floors. As they left, revolutionary soldiers checked them and confiscated their souvenirs. “This is the people’s palace,” one Bolshevik lieutenant chided. “This is our palace. Do not steal from the people.”

A broken sword handle, a wax candle. The pilferers surrendered their booty. A blanket, a sofa cushion.

Antonov led the ex-ministers outside, where a rough, fired-up, and angry crowd met them. He stood protectively in front of his prisoners. “Don’t hit them,” he and other experienced — proud — Bolsheviks insisted. It is uncultured.”

But the growling anger of the streets would not be appeased so easily. After anxious moments, it was by luck, when the noise of nearby machine-gun fire sent people scattering in alarm, that Antonov took the opportunity to run across the bridge, shoving and dragging the detainees to incarceration in the Fortress of Peter and Paul.

As the door to his cell was about to close, the Menshevik internal affairs minister Nikitin found a telegram from the Ukrainian Rada in his pocket.

“I received this yesterday,” he said. He handed it to Antonov. “Now it’s your problem.”

In Smolny, it was that dogged naysayer Kamenev who gave the delegates the news: “The leaders of the counterrevolution ensconced in the Winter Palace have been seized by the revolutionary garrison.” He unleashed joyful pandemonium.

It was past 3:00 AM, but there was still business to be done. For two more hours Congress heard reports come in — of units coming over to their side, of generals accepting MRC authority. There was still dissent, too. Someone called for the release of those SR ministers in prison: Trotsky lambasted them as false comrades.

Around 4:00 AM, in an undignified afterword to his exit, a delegation from Martov’s group sheepishly re-entered, and tried to resubmit his call for a collaborative socialist government. Kamenev reminded the hall that those with whom Martov advocated compromise had turned their backs on his proposal. Still, ever the moderate, he moved to table Trotsky’s condemnation of the SRs and Mensheviks, putting it discreetly into procedural limbo, to spare blushes should talks resume.

Lenin would not return to the meeting that night. He was making plans. But he had written a document, which it was for Lunacharsky to present.

Addressed “To all Workers, Soldiers, and Peasants,” Lenin proclaimed Soviet power and undertook to propose a democratic peace immediately. Land would be transferred to the peasants. The cities would be supplied with bread, the nations of the empire offered self-determination. But Lenin also warned that the revolution remained in danger — from without and from within.

“The Kornilovites ... are endeavoring to lead troops against Petrograd. ... Soldiers! Resist Kerensky, who is a Kornilovite! ... Railway men! Stop all echelons sent by Kerensky against Petrograd! Soldiers, Workers, Employees! The fate of the revolution and democratic peace is in your hands!”

It took a long time to read the whole document aloud, interrupted as it was, so often, by such cheers of approval. One tiny verbal tweak ensured Left SR assent. A minuscule Menshevik faction abstained, preparing a path for reconciliation between left-Martovism and the Bolsheviks. No matter. At 5:00 AM on October 26, Lenin’s manifesto was overwhelmingly voted through.

A roar. The echo of it faded as the magnitude of the shouted resolution became slowly clear. Men and women looked around at each other. That was passed. That was done.

Revolutionary government was proclaimed.

Revolutionary government had been proclaimed, and that was enough for one night. It would more than do for a first meeting,

Surely.

Exhausted, drunk on history, nerves still taut as wires, the delegates to the Second Congress of Soviets stumbled out of Smolny. They stepped out of the finishing school into a new moment of history, a new kind of first day, that of workers’ government, morning in a new city, the capital of a workers’ state.

They walked into the winter under a dim but lightening sky.

Excerto de Outubro de China Miéville (Boitempo, 2017).

A comuna de Baku

A história dos líderes da Comuna de Baku, que tentou conquistar o poder de forma democrática e não-violenta, desmente muitos dos mitos da Revolução Russa.

Ronald Suny

Jacobin

Mesquita do Palácio de Shirvanshahs em Baku, cerca de 1910. Sergeĭ Mikhaĭlovich Prokudin-Gorskiĭ / Biblioteca do Congresso

Tradução / A maioria dos relatos sobre a Revolução Russa conta a história de uma cidade – Petrogrado, onde o regime Romanov colapsou em fevereiro e os Bolcheviques chegaram ao poder em outubro. Tão decisivas quanto os trabalhadores, mulheres, e soldados foram na capital, pessoas de toda a Rússia iniciaram seus próprios movimentos revolucionários ao longo desse ano.

Mil e quinhentas milhas ao sudeste, na cidade de Baku, etnia, religião e classe dividiram a população, alterando o curso da história e influenciando as decisões tomadas por líderes revolucionários. Em Baku, uma metrópole construída sobre o petróleo, outubro chegaria tarde.

Quando chegou, o Lenin caucasiano, Stepan Shahumian, tentou conquistar o poder para o povo de forma democrática e não-violenta. A história da Comuna Baku construída por ele fornece uma importante perspectiva sobre a Revolução Russa e a guerra civil subsequente.

Cidade do petróleo

O petróleo fez de Baku a maior cidade do Cáucaso sul, um oásis cosmopolita de trabalhadores cercado na maior parte por vilas de camponeses muçulmanos. Na virada do século XX, ela produzia mais petróleo que os Estados Unidos inteiro. A despeito das condições de vida e trabalho miseráveis, imigrantes necessitados se aglomeravam nos campos de petróleo a procura de trabalho.

Baku passou a ser não somente o centro da revolução industrial da Rússia imperial, como também um caldeirão para o movimento operário. O primeiro acordo de negociação coletiva entre trabalhadores e indústria foi assinado lá, em 1904, e a cidade serviu de refúgio para os socialdemocratas, particularmente os bolcheviques como Joseph Stalin, quando suas organizações foram destruídas em outras cidades menos hospitaleiras.

As distinções de classe e etnia se entrecruzavam em Baku. Investidores estrangeiros e engenheiros estavam no topo da hierarquia social ao lado de industriais armênios e russos, bem como de proprietários de embarcações do Azerbaijão. Trabalhadores russos e armênios ocupavam as posições mais qualificadas, enquanto a força de trabalho não-qualificada era composta por muçulmanos. Sendo os trabalhadores mais transitórios e vulneráveis, eles acabavam fazendo os trabalhos mais sujos.

A relação de exploração do império com o Cáucaso não podia ser mais evidente do que em Baku, onde acumular as receitas oriundas do petróleo superava todas as outras preocupações. A elite proprietária — isto é, armênios e russos — manejava o governo da cidade, enquanto o bem-estar das classes baixas era relegado à caridade privada. As instituições políticas tinham muitos poucos representantes não-cristãos e o regime proclamava a lei marcial e estado de emergência frequentemente, comprometendo a confiança depositada no governo local e no estado de direito.

Tanto as pessoas comuns como as classes dominantes queriam uma reforma, mas o czar não ofereceu praticamente nenhuma via institucional para uma mudança efetiva. A situação demandava organização extralegal e os militantes revolucionários, que eram poucos numericamente, forneceram a liderança e direção possíveis.

Socialdemocratas e Socialistas Revolucionários (SRs) destacaram muitas vezes que os trabalhadores de Baku, divididos por qualificação, taxa de remuneração e etnia, se preocupavam mais com salários do que com política. Felizmente, as companhias petroleiras estavam especialmente dispostas a garantir concessões para manter sua força de trabalho, principalmente a sua mão de obra qualificada.

Ao focar em benefícios econômicos, a greve geral de dezembro de 1904 ganhou a jornada de trabalho diária de oito a nove horas, melhoras significativas nos salários e auxílio-doença — um acordo tão bom que ganhou o apelido de Constituição do petróleo não-refinado.

Depois que o czar Nicholas II publicou seu “Manifesto de Outubro” em 1905, garantindo a seu povo direitos civis limitados e eleições para a Duma, Baku formou um Soviete de Delegados Operários, um dos muitos conselhos que articularam demandas dos trabalhadores no final daquele ano revolucionário.

Mas os trabalhadores continuaram a se concentrar em seus interesses econômicos e evitar a política. Shahumian lamentava: “Em geral, os trabalhadores aqui são um grupo terrivelmente mercantilista. Eles estão pensando e falando sobre uma nova greve econômica para arrebatar outro gordo acordo e aumentar os ‘bônus’”.

Apesar dos esforços implacáveis da polícia, os revolucionários mantiveram sua presença, ainda que discreta, mesmo depois de 1905, quando o regime czarista reprimiu o movimento operário e forçou muitos radicais para fora da política ou para o exílio. O trabalho deles culminou em uma forte greve de quarenta mil trabalhadores em 1914, logo quando se formava a máquina de guerra russa.

Esses sucessos mascaravam a tensão que fervilhava bem abaixo da superfície. Os trabalhadores qualificados, de maioria russa e armênia, entraram nos sindicatos e assimilaram a mensagem socialdemocrata, enquanto os muçulmanos só se engajavam em protestos e greves de forma relutante.

Expectadores se referiam de maneira condescendente aos “tártaros”, como eram chamados, chamando-os de temnye (escuro) ou nesoznatel’nye (politicamente inconsciente). Muitos trabalhadores muçulmanos se mantinham ligados às suas vilas e aos seus líderes religiosos. Ainda que um número pequeno de intelectuais muçulmanos pregasse o socialismo e o nacionalismo, a maioria deles, no Cáucaso, não se interessava por política.

As divisões étnicas e religiosas em Baku atingiram o ápice em fevereiro de 1905, quando as tensões entre armênios e muçulmanos irromperam em tumultos e matança interétnica. Os muçulmanos, alarmados por rumores de que armênios estavam pegando em armas, atacaram antes. A polícia e os soldados permanecerem inertes.

A Federação Revolucionária Armênia (Dashnaks), um partido nacionalista formado uma década antes para defender armênios no Império Otomano, usou seus soldados para proteger a comunidade. Socialdemocratas e liberais denunciaram a inércia do governo, acusando o alto escalão do funcionalismo de promover um massacre. Acabada a violência, as hostilidades permaneceram acesas e, na véspera da I Guerra Mundial, a população temia que outro surto de violência fosse iminente.

Baku entre duas revoluções

Assim como a maioria da Rússia, Baku teve um breve período de lua de mel entre fevereiro e março de 1917. O burguês Comitê Executivo de Organizações Públicas (IKOO) colaborou com o recém-eleito Soviete de trabalhadores e seu presidente, o Bolchevique Shahumian. Com o Exército russo avançando sobre a Anatólia otomana, a unidade no front doméstico soava indispensável, mas as hostilidades social e étnica anteriores continuavam a ameaçar a paz da cidade.

Do mesmo modo que em Petrogrado, em Baku havia dois centros de governo — o IKOO e o Soviete de Baku — e ambos disputavam a influência entre a população e o controle da cidade. O IKOO era composto por tecnocratas — advogados, funcionários públicos e intelectuais liberais — enquanto socialdemocratas revolucionários (Bolcheviques e Mencheviques), SRs e os Dashnaks lideravam o Soviete. Trabalhadores e soldados russos apoiavam o Soviete junto de um segmento da comunidade armênia, mas, até o verão de 1917, os muçulmanos em geral não participavam.

Os tecnocratas e liberais do IKOO viam os Bolcheviques como inimigos da lei e da ordem, os precursores da anarquia. A maioria de SRs do Soviete de Baku apoiava as posições moderadas sobre a guerra e a paz social vindas do Soviete de Petrogrado: eles defendiam a unidade de “todas as forças vitais da nação” e a paz democrática sem anexações ou reparação.

A maioria dos Bolcheviques apoiou essas posições durante a primavera, mas Shahumian tinha ideias mais radicais. Ele acreditava que a revolução democrático-burguesa de Fevereiro era “o prelúdio da revolução social na Europa, sob a influência da qual a primeira se tornaria revolução social.”

Além disso, a posição resoluta anti-guerra de Shahumian era um anátema para os soldados de Baku. Os Dashnaks, que temiam que uma retirada colocaria em risco os armênios otomanos e até levar a uma invasão turca do Cáucaso, rejeitaram a linha Bolchevique. Em resposta a isso, soldados russos que apoiavam os SRs depuseram Shahumian da presidência do Soviete em maio.

No entanto, assim como nas capitais do Norte e em vários fronts, a revolução em Baku se moveu para a esquerda ao final da primavera e no verão de 1917. As condições econômicas pioraram e a mal concebida ofensiva de junho de Alexander Kerensky indispôs os soldados.

Em Petrogrado, trabalhadores e marinheiros radicais tentaram organizar uma insurreição no começo de julho, esperando forçar o Soviete a tomar o poder. Eles não somente falharam, como colocaram por um breve momento os Sovietes de Baku e Petrogrado contra os Bolcheviques, que pareceram cúmplices da revolução frustrada.

Lenin escondeu-se na Finlândia e o recém Bolchevique Trotsky foi preso. Shahumian e seu lugar-tenente, Alesha Japaridze, defenderam seus camaradas, mas os eventos na capital atingiram os Bolcheviques, que agora pareciam ser aventureiros irresponsáveis.

Esse sentimento se reverteu rapidamente em agosto, quando o general contrarrevolucionário, Lavr Kornilov, tentou dar um golpe contra o Soviete de Petrogrado. Enquanto isso, a fome rondava Baku, afetando particularmente os muçulmanos pobres. Os trabalhadores organizaram uma greve massiva e os barões do petróleo tiveram de relutantemente ceder, assinando o acordo.

Os Bolcheviques locais, na esteira da onda de descontentamento, clamaram por uma transferência pacífica do poder para os sovietes. Enquanto Lenin incitava desesperadamente seus camaradas a tomar o poder pela força, Shahumian conseguiu habilmente organizar novas eleições para o Soviete de Baku, aumentando a representação Bolchevique. Mesmo sem conquistar a maioria para seu partido, o Soviete concorda em depor o IKOO e se declarar soberano.

O Soviete de Baku, dominado por SRs, recusa apoio ao governo de Lenin. Outubro havia demonstrado que os Bolcheviques eram o principal, se não o hegemônico, partido em Baku, mas muitos temiam que uma tentativa de tomar o poder poderia ser a faísca para a explosão da guerra civil e étnica.

O Soviete não havia conquistado pleno poder na cidade. Era ainda desafiado pela Duma da cidade e os socialistas moderados convocavam o retorno a um governo de coalizão de todas as classes.

Não havendo grupo nenhum no controle da cidade e com a desintegração do governo por todo o país, uma sensação de crise caiu sobre Baku. Os soldados começaram a bater em retirada, fugindo do front caucasiano e abrindo caminho para a invasão otomana.

Poder para o Soviete

As eleições nacionais nos últimos meses de 1917 demonstravam o crescente poder da identificação étnica. Os Mencheviques georgianos venceram de maneira esmagadora nas províncias da Geórgia, enquanto o principal partido muçulmano, o Musavat, bem como os Dashnaks, dos armênios, venceram com folga em Baku e nos arredores. A revolução no sul do Cáucaso estava se transformando de um embate de classes em um conflito étnico e religioso.

Não havendo qualquer Exército russo entre elas e o império otomano, as comunidades armênias, georgianas e muçulmanas de Baku começaram a formar suas próprias milícias. Com atraso, o Soviete formou sua Guarda Vermelha multinacional.

Os muçulmanos desarmaram soldados desertores e, num confronto singularmente trágico em Shamkhor, em janeiro de 1918, eles mataram milhares de russos. Esse evento demonstrou que os muçulmanos detinham a força militar mais efetiva da região, enquanto os otomanos, seus aliados em potencial, começaram a se deslocar para a fronteira de antes da guerra. Apesar do esforço de Shahumian para organizar uma revolução pacífica, eram os homens em armas que em breve decidiriam quem governaria Baku.

Dentro dos limites da cidade, as forças armênias e os muçulmanos haviam superado a Guarda Vermelha. As forças do Soviete formaram uma aliança tática com os Dashnaks contra os muçulmanos, que para muitos pareciam uma ameaça contrarrevolucionária.

Shahumian estava agora diante do conflito armado em três frentes: contra as forças anti-soviete dentro de Baku; em Tiflis, onde os Mencheviques haviam declarado a independência do Cáucaso sul da Rússia Bolchevique; e em Elizavetpol, uma cidade essencialmente muçulmana onde o confronto armado impedia a chegada de comida a Baku.

Quando, no final de março, um barco aportou com a Divisão de Ataque Muçulmana a bordo, a cidade explodiu em guerra. O Soviete e as forças armênias enfrentam a população muçulmana na cidade, e a Guarda Vermelha volta sua artilharia para o bairro muçulmano. O que havia começado como um conflito muçulmanos-Soviete se transformou em um massacre anti-muçulmano indiscriminado.

Ao final da batalha, os muçulmanos fugiram da cidade e os armênios protestaram afirmando que o Soviete havia tratado os muçulmanos com muita clemência. Os Bolcheviques sofreram com essas consequências, mas podiam exaltar que a cidade agora estava em suas mãos. “Nossa influência, a dos Bolcheviques, foi grande antes, mas agora nós somos os chefes da situação no sentido mais amplo do termo”, era o informe de Shahumian a Moscou.

Embora o poder do Soviete dependesse dos Dashnaks armados, os Bolcheviques de Baku formaram um novo governo composto apenas por seus membros e por SRs que os apoiavam, excluindo os SRs de direita, Mencheviques e Dashnaks. A Comuna Baku, com seu próprio Conselho de Comissários do Povo (Sovnarkom) e Comissariado de Assuntos Externos, estava agora em posição para transformar radicalmente a vida em Baku.

A Comuna de Baku

O experimento durou apenas noventa e sete dias, de abril a julho de 1918. Os Bolcheviques imaginavam o Soviete e seu Sovnarkom como uma combinação dos corpos Executivo e Legislativo, seguindo a visão de Marx sobre a Comuna de Paris de 1871.

A Comuna nacionalizou a indústria do petróleo, tentou reformar a educação e o Judiciário — apesar da resistência dos tecnocratas — e acreditava que poderia governar a cidade sem recorrer ao terror de Estado, ainda que jornais oposicionistas fossem fechados.

Em junho, Shahumian lançou uma ofensiva para prevenir um ataque muçulmano vindo de Elisavetpol. As lideranças da cidade discutiram um avanço sobre Tiflis, mas, quando as forças de Baku se aproximaram do rio Kura, soldados muçulmanos, georgianos e otomanos as fizeram recuar.

A cidade procurou desesperadamente aliados para prevenir a invasão otomana. Shahumian negociou com cossacos e com ingleses, mas Moscou o proibiu de autorizar que as tropas do General Dunsterville, lotadas nos arredores, entrassem na cidade.

Incapazes de aumentar o suprimento de comida e com apoio limitado dentre os trabalhadores de Baku e camponeses dos arredores, a base de apoio dos Bolcheviques se estreitou. Em 25 de julho o Soviete decidiu, por 259 votos a 236, convidar os britânicos para entrar.

Shahumian declarou: “Vocês ainda não encontraram a Inglaterra, mas já perderam o governo central da Rússia. Vocês ainda não encontraram a Inglaterra, mas vocês perderam a nós”. Seu governo renunciou, um governo não-Bolchevique foi formado e os ingleses chegaram.

No meio de setembro, com os otomanos prestes a tomarem a cidade, os líderes da Comuna de Baku decidiram sair, mas o navio que tripulavam foi desviado do porto seguro de Astrakhan para Krasnovodsk, onde SRs turcomenos prenderam os ex-comissários.

Vinte e seis revolucionários de Baku, a maioria Bolchevique, foram levados para o deserto e executados. Em 1920, seus restos foram exumados e novamente sepultados como mártires soviéticos na praça central de Baku. Lá permaneceram por setenta anos, até que o governo pós-soviético do Azerbaijão destruiu o monumento em homenagem aos Comissários de Baku.

Derrota revolucionária

A história da revolução de Baku desmente muitos dos mitos que cercam os acontecimentos de 1917. Os Bolcheviques de Baku não eram conspiradores desterrados com ânsia de poder, mas militantes socialistas de longa data, com raízes profundas no movimento de trabalhadores da cidade. Eles agiram como democratas, buscando um caminho não-violento para o poder e quando perderam uma votação crucial no Soviete, deixaram pacificamente o governo. Embora tenham ganho o controle da cidade graças aos dias sangrentos de março, enquanto estiveram no poder os Bolcheviques de Baku não empregaram o terror contra seus inimigos.

Em última análise, eles não conseguiram superar as divisões étnicas e sociais da classe trabalhadora, resolver a crise dos alimentos, ou encontrar apoio para realizar uma campanha bem-sucedida contra seus inimigos.

Shahumian tentou encerrar a contrarrevolução em todo o Cáucaso enquanto também transformava Baku. Ele recusou-se a incluir os partidos socialistas mais moderados em seu governo até que eles reconhecessem o governo soviético de Moscou. Sua base era simplesmente muito estreita e a Comuna caiu quando os Bolcheviques perderam os trabalhadores cujas demandas não conseguiram satisfazer.

O destino dos vinte e seis comissários de Baku é irônico: moderados, democráticos, e largamente não-violentos, Shahumian, Japaridze e os outros foram vítimas, na guerra civil, de oponentes muito mais impiedosos.

Contrastando dramaticamente a isso, no final do verão de 1918, Bolcheviques russos e seus oponentes “Brancos” já haviam adotado a lógica da guerra, abandonando os ideais de governo democrático e utilizando o terror de Estado para derrotar seus inimigos. A esperança de que os sovietes socialistas e democráticos triunfariam morreu naquela luta terrível.

Como os Bolcheviques venceram

A ascensão ao poder dos bolcheviques, há cem anos hoje, revisitada.

Alexander Rabinowitch

Jacobin

4 de julho de 1917. Manifestação de rua em Nevsky Prospekt em Petrogrado (São Petersburgo) logo depois que tropas do Governo Provisório abriram fogo com metralhadoras. Viktor Bulla / Wikimedia

Tradução / Na minha contribuição, quero revisitar as principais conclusões dos meus escritos sobre 1917, especialmente no que se refere à questão espinhosa e ainda profundamente politizada de como os Bolcheviques venceram a luta pelo poder na Petrogrado de 1917. No entanto, iniciarei com algumas palavras sobre as opiniões de historiadores anteriores sobre esta questão.

Para os historiadores soviéticos, a revolução de outubro de 1917 foi a expressão legítima da vontade das massas revolucionárias de Petrogrado – um levante armado popular em apoio ao poder Bolchevique liderado por um partido de vanguarda altamente disciplinado, brilhantemente dirigido por V. I. Lenin. Os historiadores ocidentais, por outro lado, tendem a ver o sucesso dos Bolcheviques como conseqüência da brandura do Governo Provisório em relação à esquerda radical; um acidente histórico ou, com mais freqüência, o resultado de um golpe militar bem executado, sem apoio popular significativo, realizado por uma organização pequena, unida, altamente autoritária e conspiratória, controlada por Lenin e subsidiada pela Alemanha inimiga. Para os historiadores que mantêm a última visão – entre eles muitos historiadores na Rússia dos dias de hoje – a estrutura e as práticas do partido bolchevique em 1917 eram inevitáveis progenitoras do autoritarismo soviético.

As conclusões de minha pesquisa sobre 1917 divergem significativamente dessas interpretações corriqueiras. Para ilustrar este argumento, tomarei nota de alguns momentos importantes, ainda que frequentemente omitidos, passados durante o crucial verão e outono de 1917, o que me pareceu de especial importância na compreensão do caráter e do curso da “Revolução de outubro” em Petrogrado. Em seguida, resumirei como vejo o “Outubro Vermelho” hoje.

A insurreição de Julho

O primeiro dos momentos que eu quero abordar é a prematura “insurreição de Julho”, que apareceu para muitos na época, e para a maioria dos historiadores ocidentais desde então, como uma tentativa mal sucedida de Lenin de tomar o poder e como um ensaio geral para o “Outubro Vermelho”.

No meu livro, Prelude to Revolution, concluí que a revolta caótica, sangrenta e por fim malsucedida de Julho era um reflexo exato da falta de vontade por parte dos soldados da guarnição de Petrogrado em aceitar o embarque rumo ao front em apoio à ofensiva russa de julho de 1917 e de uma genuína impaciência e insatisfação, generalizada e crescente por parte da grande massa de trabalhadores fabris de Petrogrado, bem como de soldados e marinheiros da frota do Báltico, com a manutenção do esforço de guerra e com os escassos resultados sociais e econômicos da revolução de fevereiro de 1917. No que diz respeito ao papel Bolchevique na preparação e organização do levante de julho, concluí que sua irrupção foi, em parte, produto de quatro meses de forte propaganda e agitação Bolcheviques; que trabalhadores fabris da base desempenharam um papel de liderança em seu princípio e que os líderes extremistas dos dois maiores braços auxiliares do partido, a Organização Militar Bolchevique e o Comitê Bolchevique de Petersburgo, pressionados por suas novas e impacientes bases, encorajaram-no contra o desejo de Lenin e da maioria do Comitê Central bolchevique.

Eu também arrisquei várias afirmações mais amplas, com implicações importantes para eventos subseqüentes, a partir de meus estudos sobre a insurreição de Julho. Uma parte delas dizia respeito às atitudes das massas de Petrogrado em relação ao Governo Provisório, aos sovietes, e aos Bolcheviques naquele momento. Investigando a evolução da opinião popular entre fevereiro e julho, concluí que entre os trabalhadores, soldados e marinheiros que de alguma forma agiram politicamente, o governo provisório já era – em meados do verão de 1917 – amplamente visto como um órgão das classes proprietárias, opostas a qualquer mudança política e social fundamental e alheias às necessidades populares. Por outro lado, embora os estratos mais baixos da população de Petrogrado sujeitassem os socialistas moderados a críticas crescentes pelo apoio dos últimos ao Governo Provisório e ao esforço de guerra, eles consideravam os sovietes em todos os níveis como instituições genuinamente democráticas de autogoverno popular. Daí compreende-se a gigantesca e crescente atração popular de dois dos principais slogans políticos dos Bolcheviques, "Todo Poder aos Sovietes!” e “Paz Imediata!"

Quanto à situação dos Bolcheviques, a insurreição de Julho terminou em uma derrota dolorosa e aparentemente decisiva para eles. No entanto, o que me pareceu mais significativo foi a grande popularidade do programa radical Bolchevique, demonstrada antes e durante o levante de julho. Num momento em que as expectativas populares de mudanças significativas eram altíssimas, e enquanto os outros grandes grupos políticos pediam paciência e sacrifício no interesse do esforço de guerra, o programa político Bolchevique radical, bem como a evidente sensibilidade do partido às necessidades e aspirações de cidadãos comuns, contribuíram significativamente para a influência e força consideráveis que ele adquiriu em apenas alguns meses.

Isso me levou a um segundo conjunto de afirmações refletidas na experiência de julho. Elas diziam respeito à imagem tradicional do partido Bolchevique em 1917 como uma organização essencialmente unida, autoritária e conspiratória, firmemente controlada por Lenin. Com base em pesquisas empíricas exaustivas, concluí que essa imagem guardava pouca relação com a realidade. Não apenas pelo fato de que de cima a baixo, desde março de 1917, a organização Bolchevique incluísse facções de esquerda, de direita e centristas, cada uma das quais ajudando a moldar a política do partido. Não menos importante, me pareceu, era o fato de que, em meio a condições instáveis, variando localmente e em constante mudança, como as que prevaleceram na revolucionária Petrogrado em 1917 (para não falar da Rússia como um todo), o Comitê Central Bolchevique era simplesmente incapaz de controlar as instâncias formalmente subordinadas a ele. As organizações de base eram relativamente livres para adaptar seus recursos e táticas às suas percepções das situações locais reais. A importância desse fator na interpretação do comportamento do partido Bolchevique durante a revolução de 1917 é, conforme concluí, difícil de superestimar.

Além disso, descobri que a concepção pré-revolucionária de Lenin de um partido pequeno, profissional e conspirador tornou-se obsoleta após a “Revolução de Fevereiro”, e que as portas do partido foram rapidamente abertas para dezenas de milhares de novos membros que também influenciaram sua política. Em outras palavras, em grande medida, a organização Bolchevique em Petrogrado era aberta e sensível às preocupações das massas populares. Indiscutivelmente isso causou grande dificuldade em julho. No entanto, concluí que a longo prazo, as extensas e cuidadosamente cultivadas conexões dos Bolcheviques nas fábricas, em uma miríade de organizações de trabalhadores e unidades militares, foram uma fonte importante da força do partido e de sua capacidade final de assumir o poder.

A reação

O segundo momento revelador de 1917 que eu quero abordar é o breve período de reação em Petrogrado que se seguiu ao colapso da insurreição de julho. Este foi o momento em que a ofensiva russa, inicialmente bem-sucedida no frontOriental, se transformou na pior derrota do Exército russo, e justo quando Alexander Kerensky tornou-se primeiro-ministro. Kerensky encabeçou um governo de coalizão socialista liberal e moderado, basicamente preocupado em suprimir os Bolcheviques, restaurar a autoridade e a ordem interna (se necessário pela força) e, de alguma forma, reforçar o front em colapso.

Por um curto período, parecia que uma calmaria havia sido alcançada no movimento revolucionário dos trabalhadores. A opinião pública em Petrogrado parecia ter girado decisivamente para a direita. Apesar da retórica extravagante e linha-dura de Kerensky, repetida incessantemente por grupos civis e militares conservadores temporariamente ressuscitados, ficou claro que nenhuma das medidas repressivas tão ruidosamente proclamadas por Kerensky fora totalmente implementada ou alcançou seus objetivos (o que também não significa que, se o fossem, pudessem ter restaurado a ordem com sucesso). Mais do que isso, o perigo crescente da contrarrevolução, refletido em eventos como a Conferência de Moscou – a alardeada reunião de forças conservadoras em meados de agosto de 1917 – aumentou a desconfiança popular em relação ao Governo Provisório e estimulou o desejo de deixar o passado para trás e se reunir em torno da defesa da revolução. Encontrei essa reação massiva àquilo que era popularmente percebido como uma perigosa ameaça à revolução refletida em inúmeros documentos da época e que se reforçavam mutuamente.

Se a hostilidade em relação aos Bolcheviques por parte dos cidadãos comuns dissipou-se diante da ameaça evidente da contrarrevolução dentro de poucas semanas após o levante de Julho, então já na segunda metade de agosto – antes do fracassado putsch de direita do general Lavr Kornilov – já existiam sinais crescentes de que o partido, com seu aparelho essencialmente intacto, havia embarcado em um novo período de crescimento surpreendente e rápido. Percebi uma clara indicação do grau em que os destinos do partido melhoraram nos resultados das eleições de meados de agosto à Duma da cidade de Petrogrado. Nas eleições municipais, os Bolcheviques conseguiram um triunfo retumbante.

O caso Kornilov

Talvez tenha sido inevitável que, com a própria existência do Estado russo imediatamente ameaçada por forças militares do exterior e pela desintegração política, social e econômica interna, e com o governo de Kerensky obviamente incapaz de deter a deterioração desta situação, os grupos liberais e conservadores tenham olhado para a alto comando do Exército como a única salvação. Os esforços de alguns desses elementos culminaram no chamado “caso Kornilov” no final de agosto. Ao analisar hoje o fracassado golpe direitista do general Kornilov, minha principal preocupação não são as questões ainda controversas sobre os objetivos e as ambições pessoais de Kornilov, ou sobre a possível cumplicidade de Kerensky em arruinar a autoridade dos sovietes e restabelecer a ordem por meio de uma firme ditadura militar. No contexto atual, a faceta deste momento histórico que mais me interessa é o que a luta contra Kornilov em Petrogrado revelou sobre as atitudes e o poder dos cidadãos comuns de então, bem como o impacto da experiência de Kornilov sobre a estatura dos Bolcheviques.

Recordemos rapidamente o que aconteceu em Petrogrado na sequência do anúncio de Kerensky, em 27 de agosto, de que o general Kornilov se recusara a reconhecer sua autoridade e que as tropas de Kornilov estavam a bordo dos trens e já se aproximando da capital. O Partido Kadete, o principal partido liberal russo, simpático aos objetivos de Kornilov e desconfiado e desdenhoso de Kerensky, recusou-se a apoiar o primeiro-ministro. Por um brevíssimo momento, pareceu que as tropas de Kornilov não poderiam ser impedidas de ocupar a capital e o governo provisório cairia. Mas todos os grupos políticos à esquerda dos cadetes – Bolcheviques, Mencheviques, SRs, anarquistas, todas as organizações trabalhistas de qualquer importância e comitês de soldados e marinheiros de todas posições – imediatamente se uniram em defesa da revolução.

Sob a direção do Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários, as comunicações entre Kornilov no sul da Rússia e suas forças próximas de Petrogrado foram cortadas, e os trens que transportavam as tropas insurgentes foram descarrilados. Em todo lugar, as forças de Kornilov ficaram presas, seus oficiais ficaram obrigados a esperar, impotentes, enquanto multidões de delegados das organizações de massas, alguns despachados de Petrogrado e outros de cidades e vilas vizinhas, rapidamente persuadiram as tropas de Kornilov, selecionadas por sua confiabilidade e disciplina, para não avançar e para prometer lealdade à revolução. Basta dizer que o episódio terminou em alguns dias, sem nenhum tiro disparado.

E na primeira oportunidade, neste triunfo sobre a contrarrevolução, a maioria das organizações de Petrogrado que participaram do movimento anti-Kornilov expressaram suas opiniões sobre a natureza, a composição e o programa de um futuro governo em uma torrente de resoluções políticas. Essas resoluções, obviamente, não foram projetadas por nenhuma agência única, pois diferem significativamente em detalhes. No entanto, era comum à maioria delas a aversão a qualquer tipo de colaboração política com as classes proprietárias e o firme interesse na criação imediata de algum tipo de governo exclusivamente socialista que colocasse um fim àquela terrível guerra. Era evidente que para muitos, incluindo os Bolcheviques, a rápida derrota do general Kornilov confirmou o imenso potencial político de todos os socialistas trabalhando juntos.

Parecia-me que havia outras conseqüências políticas notáveis da experiência de Kornilov. Por enquanto, o movimento direitista fora destruído, isto estava claro. E por causa de seu comportamento antes e depois da crise, os Kadetes agora eram amplamente suspeitos de terem se aliado com o general; eles agora estavam enfraquecidos e profundamente desmoralizados. Além disso, devido a amargas disputas internas sobre o caráter e a composição de um futuro governo, os Mencheviques e os SRs não estavam em muito melhor forma. Cada um agora tinha facções de esquerda crescentes cujos objetivos políticos imediatos estavam bastante alinhados com os dos Bolcheviques moderados. E, enquanto isso, a desintegração da economia russa seguiu em ritmo acelerado. Em Petrogrado, a escassez de alimentos e de combustíveis tornou-se ainda mais aguda.

Naturalmente, o caso Kornilov também causou prejuízo inestimável à reputação de Kerensky entre os derrotados, tanto à direita quanto à esquerda. Claramente, entre os concorrentes políticos na Petrogrado de 1917, os Bolcheviques foram os grandes beneficiários do movimento fracassado da direita. Ainda assim seria questionável argumentar, como muitos historiadores fizeram e ainda fazem, que a derrota de Kornilov tornou a vitória de Lenin praticamente inevitável. Sem dúvida, o fracasso do general demonstrou o enorme poder potencial da esquerda e evidenciou uma vez mais a enorme atração popular do programa de mudança radical dos Bolcheviques. No entanto, o humor das massas não era especificamente Bolchevique, no sentido de refletir o desejo de um governo Bolchevique. Isto, para mim, era o ponto crucial. Na verdade, a idéia de um governo Bolchevique nunca havia sido levantada publicamente antes. Aos olhos dos trabalhadores, soldados e marinheiros de Petrogrado, os Bolcheviques representavam o poder soviético – por uma democracia popular soviética multipartidária. Isto constituía, agora, um impedimento de uma captura unilateral do poder. Conforme revelou o dilúvio das resoluções políticas pós-Kornilov, as classes mais baixas da cidade estavam mais do que nunca atraídas pela possibilidade de criar um governo soviético que unisse todos os elementos socialistas democráticos.

De qualquer modo, a insurreição prematura de Julho e a reação subseqüente demonstraram os riscos inerentes ao excesso de confiança no humor popular. Esta conclusão também foi inevitável. Além disso, a história do partido desde a Revolução de Fevereiro revelou o potencial de discordância programática e atividade indisciplinada e desorganizada dentro das fileiras Bolcheviques. Então, no rescaldo do caso Kornilov, ainda estava em aberto a questão de se o partido encontraria, para tomar o poder, suficiente força de vontade, disciplina organizacional e sensibilidade às complexidades daquela situação potencialmente fluida e ao mesmo tempo explosiva.

“Outubro vermelho”

Esta foi, então, a minha leitura dos momentos históricos significativos do verão de 1917, muitas vezes esquecidos, que me pareciam de particular importância para compreender o “Outubro vermelho”. Agora, considerarei como o sucesso Bolchevique em outubro de 1917 se afigurou, enquadrado nesse contexto. Tenham em mente que, em meados de setembro, Lenin, ainda se escondendo na Finlândia, enviou duas cartas históricas para a liderança do partido em Petrogrado. Nessas cartas, que praticamente saíram do nada, Lenin demandava que os Bolcheviques em Petrogrado organizassem um levante armado e derrubassem o Governo Provisório “sem perda de tempo”. Lembrem também que a diretiva de Lenin foi rejeitada por um voto unânime no Comitê Central.

Havia, como mostraram os registros, várias razões para esta resposta rápida e totalmente negativa – e, na verdade, bastante horrorizada. Por um lado, a recepção da diretiva chocante de Lenin coincidiu com o início da Conferência Democrática do Estado, quando os líderes partidários da capital, sob a impressão de que tinham a benção do próprio Lenin, estavam orientados a convencer a maioria dos delegados da conferência de que a própria conferência deveria iniciar a criação de um governo novo, exclusivamente socialista. Este esforço foi em vão. O fato de a liderança Bolchevique ignorar as ordens de Lenin, mesmo depois de ficar claro que a Conferência Democrática do Estado não abandonaria a política de coalizão, foi em parte devido à influência de Bolcheviques moderados como Lev Kamenev. No entanto, o mais significativo é que mesmo os líderes Bolcheviques como Trotsky, que, em princípio, compartilhavam as premissas teóricas fundamentais de Lenin sobre a necessidade e a viabilidade de uma revolução socialista na Rússia, eram céticos quanto a mobilizar trabalhadores, soldados e marinheiros para “uma carga de baionetas imediata”, como insistia Lenin.

A situação era semelhante àquela ocorrida durante o auge da reação que prevaleceu no rescaldo da insurreição de Julho. Naquela época, a maioria dos líderes do partido em Petrogrado ignorou a exigência de Lenin de que eles abandonassem os sovietes enquanto órgãos revolucionários. Agora, e até o final de setembro, esses Bolcheviques pareciam, mais uma vez, ter tido uma análise mais realista do que a de Lenin, tanto acerca dos limites da influência e da autoridade do partido entre os cidadãos comuns, quanto do contínuo apego destes aos sovietes como órgãos democráticos legítimos em que todos os grupos genuinamente revolucionários colaborariam para cumprir a revolução. Consequentemente, junto aos SRs da esquerda, eles começaram a associar publicamente a tomada do poder e a criação de um governo de coalizão totalmente socialista com a convocação urgente de outro Congresso Nacional dos Sovietes como forma de aproveitar a legitimidade destes em um nível popular.

O impacto das perspectivas dos trabalhadores, soldados e marinheiros, nas táticas bolcheviques, foi mais acentuado durante as duas semanas anteriores à derrubada do Governo Provisório. É confirmado que em uma sessão secreta histórica do Comitê Central em 10 de outubro, na qual Lenin participou, foi decidido fazer da insurreição armada “a ordem do dia”. No entanto, apesar do sinal verde para a organização de uma revolta armada, as massas de Petrogrado não foram convocadas às armas.

Mais uma vez, isto foi em parte devido aos esforços frenéticos dos moderados Bolcheviques liderados por Kamenev para evitar a violência imediata contra o governo. No entanto, na seqüência da decisão histórica de 10 de outubro do Comitê Central, está claro que líderes partidários inclinados à militância e em contato mais próximo com os trabalhadores e o pessoal militar de menor escalão – Bolcheviques que estiveram em essência ao lado de Lenin – exploraram seriamente as possibilidades de organizar um levante popular armado. E depois de vários dias de circulação nos “distritos” (em bairros, fábricas e quartéis militares), um número significativo deles foi forçado a concluir que o partido estava tecnicamente despreparado para iniciar ações imediatas contra o governo. Eles também concluíram que a maioria dos cidadãos comuns não responderia ao chamado do partido a se levantar antes do iminente Congresso dos Sovietes – o qual, no final de contas, os próprios Bolcheviques haviam promovido como a mais alta autoridade política revolucionária da Rússia até a convocação de uma nova Assembléia Constituinte.

Alguns líderes militantes Bolcheviques responderam a esses problemas insistindo que o início do levante fosse simplesmente adiado até a conclusão de melhores preparativos militares. No entanto, havia outra abordagem geral: que os sovietes, por conta de seu prestígio popular, em vez de órgãos do partido, fossem empregados para a derrubada de Kerensky; portanto, que um ataque ao governo fosse mascarado como uma operação defensiva em nome do Soviete; que todas as oportunidades fossem utilizadas para minar o poder do Governo Provisório de maneira pacífica; e que a derrubada formal do governo fosse vinculada e legitimada pelo Segundo Congresso Pan-Russo dos Sovietes. Os líderes Bolcheviques que compartilhavam esses pontos de vista eram mais confiantes que Lenin de que a maioria dos delegados no congresso dos Sovietes apoiaria a formação de um governo de coalizão totalmente socialista. Esta perspectiva, descobri posteriormente, era compartilhada por muitos líderes Bolcheviques em Petrogrado (o mais proeminente deles sendo Trotsky).

Em The Bolsheviks come to Power, procurei reconstruir da melhor forma possível a busca bem-sucedida dos Bolcheviques por essas táticas em vez das de Lenin – em particular, a utilização feita por eles de uma suposta ameaça contrarrevolucionária para ajudar a criar um órgão ostensivamente independente dos partidos, o Comitê Revolucionário Militar do Soviete de Petrogrado. Sob o pretexto de proteger a revolução, este órgão ganhou o controle de praticamente toda a guarnição de Petrogrado, e, neste processo, desarmou o governo sem que um tiro sequer fosse disparado. Foi somente depois que Kerensky respondeu à usurpação da autoridade de comando pelo Comitê Revolucionário Militar sobre a guarnição, iniciando uma repressão militar contra os Bolcheviques, que a ação armada contra o governo que Lenin exigira há mais de um mês, começara. Isso ocorreu na noite dos dias 24 e 25 de outubro, apenas horas antes da abertura programada do Segundo Congresso Pan-Russo dos Sovietes. Naquela época, apenas um número escasso e cada vez menor de cossacos, cadetes e soldados femininos desmoralizados ainda defendiam o gabinete de Kerensky, comprimido e isolado no Palácio de Inverno.

Em seu livro Red October, o falecido Robert V. Daniels, um influente historiador americano do comunismo russo, concluiu que o “levante” tardio de 24 a 25 de outubro teve uma importância histórica crucial porque, ao incitar os Mencheviques e os SRs a se retirarem do congresso soviético nacional, acabou eliminando a possibilidade de que o congresso formasse um governo de coalizão socialista representativo, no qual os socialistas moderados provavelmente teriam uma voz significativa. Assim, abriu o caminho para a formação de um governo soviético exclusivamente Bolchevique, o Sovnarkom. Isso, aliás, também era a visão de Sukhanov. A análise da identidade política e da posição dos delegados que chegaram ao congresso sobre a questão do governo, bem como a dinâmica da decisiva sessão de abertura do congresso, indicaram que esta era realmente o caso. No entanto, um ponto mais importante que se tornou evidente para mim foi que somente após o ataque militar compreensível, porém desesperado, de Kerensky contra os Bolcheviques, a ação armada defendida por Lenin tornou-se viável.

Os trabalhadores e soldados de Petrogrado que apoiaram os Bolcheviques na subversão e derrubada o Governo Provisório o fizeram porque estavam convencidos de que a revolução e o congresso estavam em perigo iminente. Apenas a criação de um governo multipartidário, exclusivamente socialista, pelo congresso soviético, pendentes as decisões sobre o futuro político permanente da Rússia por uma Assembléia Constituinte representativa – que, repito, é o que os Bolcheviques representavam popularmente – parecia oferecer a esperança de evitar a morte no front e de alcançar uma vida mais livre, melhor e mais justa.

Para além de Petrogrado

Deixem-me terminar sugerindo o que me parecem ser as implicações de tudo isso hoje, no centenário da revolução, ao abordar a questão de “como os bolcheviques ganharam?” Está bastante claro que a resposta a esta questão é bem mais complexa do que as interpretações tradicionais soviéticas eocidentais sugerem. Sem dúvida, foi e permanece tão difícil para mim quanto para praticamente qualquer historiador da Revolução Russa imaginar o sucesso Bolchevique na ausência das intervenções fatalmente decisivas de Lenin (de maneira mais importante, seu chamado para continuar a revolução no seu retorno ao Petrogrado, em abril de 1917, e seus apelos para a tomada imediata do poder a partir de meados de setembro de 1917). Essas intervenções de Lenin são um exemplo vívido do papel às vezes decisivo do indivíduo na história.

No entanto, de importância igualmente crucial para a ascensão meteórica dos Bolcheviques e seu sucesso final, foi a correspondência entre o programa público que eles defendiam e as aspirações populares no momento em que o Governo Provisório foi responsabilizado pela rápida deterioração das condições econômicas, pelo esforço de guerra e pela conivência, se não apoio, à contrarrevolução. Isso ao mesmo tempo em que os três outros principais partidos políticos russos – os cadetes, os mencheviques e os SRs – eram amplamente desacreditados pelo seu aparente apoio a Kerensky e suas políticas, doméstica e externa. A diferença mais fundamental entre mim e muitos historiadores da “Revolução de Outubro” é que, na minha opinião, a capacidade do partido em acomodar opiniões teóricas divergentes com um grau significativo de iniciativa e independência tática por parte de agências subordinadas nominais, bem como a estrutura descentralizada do partido e sua capacidade de resposta ao humor popular predominante, explicam tanto o sucesso do partido (se não ainda mais), do que a disciplina revolucionária, a unidade organizacional e a obediência a Lenin. Pois é evidente que as táticas bem-sucedidas dos Bolcheviques de Petrogrado, no outono de 1917, emergiram de um intercâmbio contínuo de ideias sobre o desenvolvimento da revolução e uma constante interação entre os membros do partido em todos os níveis com trabalhadores das fábricas, os soldados e os marinheiros.

Como vimos, em uma série de ocasiões em julho, setembro e outubro de 1917, Lenin emitiu diretivas as quais, se seguidas à letra, pr0ovavelmente teriam sido desastrosas. Em cada vez, as agências do partido e os líderes Bolcheviques, em sintonia com as realidades políticas altamente flutuantes e respondendo à opinião popular, rejeitaram as ordens de Lenin ou as adaptaram às circunstâncias prevalecentes. Caso contrário, os Bolcheviques provavelmente não teriam conseguido tomar o poder. A partir desta perspectiva, o “Outubro Vermelho” em Petrogrado foi, em grande parte, uma expressão genuína das forças populares, tanto uma luta política complexa quanto uma disputa militar, em que o destino do Governo Provisório – embora não a composição e nem o caráter do novo revolucionário Regime soviético – foi selado bem antes das tão enfatizadas operações militares.

Minha explicação sobre o sucesso Bolchevique em Petrogrado mudou significativamente? A resposta é: não, não fundamentalmente. Se pudesse, mudaria o título do meu primeiro livro, Prelude to Revolution. Com a perspectiva de um século completo, a insurreição de Julho e até as revoluções de Fevereiro e Outubro aparecem como fases chaves de um grande e fundamental processo político e social que pode ser apropriadamente chamado de “A Grande Revolução Russa”. O acesso aos arquivos russos e as coleções relativamente recentes de documentos publicados e monografias acadêmicas lançaram novas luzes sobre temas tão longos e negligenciados como a Revolução de 1917 nas províncias, acrescentando novos e valiosos detalhes ao conhecimento dos processos singulares no centro da Rússia. No entanto, eles não minaram minha sensação geral da importância da estrutura do partido Bolchevique e da atração popular do poder soviético democrático ao explicar “como os Bolcheviques venceram”.

Sobre o autor

Alexander Rabinowitch é professor emérito de história, Universidade de Indiana, Bloomington e autor mais recentemente de The Bolsheviks in Power: The First Year of Soviet Rule in Petrograd.

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