4 de janeiro de 2018

O que não falamos quando falamos sobre o hacking russo

Jackson Lears


Tradução / A política americana raramente apresentou um espetáculo mais desanimador. As repelentes e perigosas excentricidades de Donald Trump são muito preocupantes, mas também o fracasso da liderança do Partido Democrata em compreender o significado da campanha eleitoral de 2016. O desafio de Bernie Sanders para Hillary Clinton, combinado com o triunfo de Trump, revelou a amplitude da raiva popular contra a política de sempre - a combinação de política interna neoliberal e  política externa intervencionista que constitui um consenso em Washington. Neoliberais celebram a utilidade do mercado como o único critério de valor; os intervencionistas exaltam a aventura militar no exterior como meio de combater o mal a fim de garantir o progresso global. Ambas as agendas se mostraram calamitosas para a maioria dos americanos. Muitos registraram sua desanimação em 2016. Sanders é um social-democrata e Trump um charlatão demagógico, mas suas campanhas ressaltaram um repúdio generalizado ao consenso de Washington. Por cerca de uma semana após as eleições, os especialistas discutiram a possibilidade de uma estratégia democrata mais ampla. Parecia que o partido poderia aprender algo com a derrota de Clinton. Então tudo mudou.

Uma história que circulara durante a campanha sem grande alarido voltou a circular: tinha a ver com a acusação de que agentes russos teriam invadido e hackeado os servidores do Comitê Nacional Democrata, revelando e-mails comprometedores que teriam minado as chances da Clinton. Com velocidade espantosa, uma nova ortodoxia centro-liberal brotou do nada e envolveu toda a grande mídia e o establishment dos dois partidos em Washington. Essa religião secular atraiu hordas de neoconvertidos durante o primeiro ano do governo de Trump. Em sua capacidade para excluir o contraditório, é evento de construção de opinião pública como jamais vi em toda a minha vida adulta, embora me faça lembrar algumas memórias infantis desbotadas, do tempo da histeria anticomunista durante o início dos anos 1950.

A pedra de toque da nova fé, baseada nas acusações de hacking, é a crença de que Vladimir Putin teria orquestrado um ataque contra a democracia norte-americana e ordenado que seus asseclas interferissem na eleição a favor de Trump. Essa história logo virou evangelho pregado e acreditado com estonteante rapidez e completamente. Quem não creia e duvide é declarado herege, defendedor(a) de Trump & Putin, os dois males gêmeos, e cúmplices da conspiração que atacou o coração da democracia norte-americana. Responsabilidade pela total ausência de debate cabe em grande parte aos grandes veículos das grandes mídias. O modo acrítico como abraçaram e puseram-se a repetir sem parar o conto dos hackers russos, fez do conto um fato consumado na mente dos cidadãos. Difícil estimar até onde vai a fé popular nessa nova ortodoxia, mas não parece ser credo pelo qual rezem só os insiders de Washington. Se você questiona em conversas casuais a narrativa que todos recebem já pronta e embalada, expõe-se ao risco de provocar olhares da mais viva reprovação e de furiosa hostilidade – até de velhos e queridos amigos. Para mim, é desconcertante e preocupante; em alguns momentos as mais alucinadas fantasias da cultura popular (traficantes de órgãos, Kool-Aid) me vieram à mente.

Como qualquer ortodoxia que valha o que custe, a religião do hacking russo não depende de haver provas, mas só, exclusivamente, de haver ‘sumidades’ que repitam seus sermões ex cathedra – instituições e respectivos sacerdotes senis. As escrituras sobre as quais se assenta a nova religião são uma mistura confusa e absolutamente sem provas chamada ‘avaliação’ produzida em janeiro passado por um grupo de ‘especialistas escolhidos a dedo’ – como os descreveu James Clapper, diretor da Inteligência Nacional – da CIA, do FBI e da Agência de Segurança Nacional dos EUA, ASN-EUA. As acusações dessa última foram feitas com certeza apenas ‘moderada’. O rótulo de Avaliação pela Comunidade de Inteligência gera a enganadora impressão de que haveria unanimidade. Mas fato é que só três, das 16 agências de inteligência dos EUA, contribuíram para o tal relatório da tal ‘avaliação’. E, verdade seja dita, a própria ‘avaliação’ inclui uma admissão crucialmente importante: “Nossas avaliações não visam a significar que temos provas de que alguma coisa seja fato. As avaliações baseiam-se em informações coletadas, as quais muito frequentemente são incompletas ou fragmentadas, assim como a lógica, a argumentação e os precedentes.” Pois apesar de tudo a ‘avaliação’ entrou na imaginação da mídia e de seus jornalistas como se fosse fato sobejamente demonstrado e comprovado, o que permitiu que os jornalistas assumissem imediatamente como fato o que ainda teriam a obrigação de demonstrar. Ao fazê-lo, os próprios jornalistas passam a operar como avalistas do que digam as agências de inteligência ou, no mínimo, como avalistas dos tais ‘especialistas escolhidos a dedo’.

Não é a primeira vez que as agências de inteligência desempenharam esse papel. Quando ouço falar de Avaliação pela Comunidade de Inteligência referida como fonte confiável, sempre recordo o papel que teve o New York Times no serviço de legitimar a ameaça que seriam as inexistentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein; para nem falar da longa história do projeto de desinformar a opinião pública (hoje mascarado como crítica às ‘fake-news’), como tática para propagandear a agenda política de um ou outro governo ou grupo que mais interesse às empresas de mídia e seus proprietários e acionistas. Hoje, mais uma vez, a imprensa e a mídia estabelecidas operam para legitimar pronunciamentos e ‘declarações’ que façam os Pais da Igrejinha. Clapper está entre os mais vigorosos desses pronunciadores e declaradores. Em 2013 Clapper cometeu crime de perjúrio, quando negou perante o Congresso que a ASN havia ‘deliberadamente’ espionado cidadãos norte-americanos – mentira e crime de perjúrio pelos quais jamais foi formalmente acusado e devidamente processado. Em maio de 2017, disse a Chuck Todd da rede NBC que os russos muito provavelmente teriam agido em colusão com a equipe de campanha de Trump, “porque são quase geneticamente dados a cooptar, furar, invadir, obter favores, o que for, o que é típica técnica russa”. A atual ortodoxia isenta os Pais da Igreja de responder às leis às quais estão submetidos os cidadãos comuns; e condena os russos – e dentre eles o pior de todos, Putin – como o mal encarnado, como “quase geneticamente” diabólicos.

É difícil para mim compreender como o Partido Democrata, que antes tantas vezes mostrou-se cético e crítico do modo como operam as agências de inteligência, aceita hoje a CIA e o FBI como fontes de verdade indiscutível. Uma explicação possível é que a eleição de Trump tenha gerado uma emergência permanente na imaginação mais progressista, baseada na fé que ensina que a ameaça trumpeana é única, rara, sem precedentes. É verdade que Trump é ameaça visceralmente real. Mas George W. Bush e Dick Cheney foram ameaças tão reais quanto Trump. O dano causado por Bush e Cheney – que destruíram o Oriente Médio, legitimaram a tortura e expandiram o poder executivo inconstitucional – foi, aquele sim, realmente sem precedentes e, provavelmente, permanente. Trump é ameaça sem precedentes aos imigrantes sem documentos e a viajantes muçulmanos – pessoas cuja proteção é dever urgente e necessário para todos os cidadãos de bem. Mas na maioria das questões Trump não passa de mais um problema Republicano padrão. Está perfeitamente à vontade com a agenda de austeridade de Paul Ryan, que envolve gigantescas transferências de riqueza para os norte-americanos já mais privilegiados. Está tão comprometido quanto qualquer outro Republicano com derrubar a [lei] Affordable Care Act, de Obama. Durante a campanha posou como apóstata do livre comércio e opositor das intervenções militares dos EUA em outros países; mas agora, já instalado no poder, sua ‘visão de mundo’ sobre o livre comércio e sua política externa já voltou a ser ditada por uma equipe de generais com imaculadas credenciais pró-intervencionismo.

Trump está comprometido com dar prosseguimento ao financiamento pródigo de um já inchado Departamento da Defesa, e sua Fortaleza América é versão supurada e indisciplinada da ‘nação indispensável’ de Madeleine Albright. Ambos, Trump e Albright assumem que os EUA devem poder fazer o que lhes dê na telha na arena internacional: Trump porque é o maior país do mundo; Albright porque é força excepcional para o bem global. Tampouco há qualquer novidade em Trump desejar uma détente com a Rússia, a qual, até pelo menos 2012 foi posição oficial do Partido Democrata. Sem precedentes, no que tenha a ver com Trump é o estilo ofensivo: desdenhoso, de provocação, inarticulado, perfeito para apelar à ira e à ansiedade de seu público alvo. Seus excessos já permitem racismo escancarado e vaidosa misoginia dentre alguns de seus apoiadores. Isso é causa para denúncia, mas não me parece que justifique a mania anti-Rússia.

Além da suposta singularidade de Trump, há duas outras premissas por trás do furor em Washington: a primeira é que o hack russo ocorreu inquestionavelmente, e o segundo é que os russos são nossos implacáveis ​​inimigos. O segundo fornece a carga emocional para o primeiro. Ambos me parecem problemáticos. Com relação ao primeiro, não há qualquer prova para as acusações de hacking e é bem provável que tudo continue como está. Edward Snowden e outros que conhecem a Agência de Segurança Nacional dizem que, se tivesse havido hacking de longa distância, a agência teria monitorado e conheceria todos os detalhes e poderia divulgar a operação sem comprometer as próprias fontes e métodos secretos. Em setembro, ele disse à revista Der Spiegel que a ASN-EUA “provavelmente sabe muito bem quem foram os invasores”. Mesmo assim “não apresentou qualquer prova, embora eu suspeite que existam. A pergunta é: por que não? Suspeito que descobriram outros invasores nos sistemas, talvez houvesse seis ou sete grupos em ação.” A capacidade da ASN-EUA para rastrear a ação de hacking até as fontes é questão de registro público. Quando a agência investigou o bem-sucedido hacking chinês em instalações militares dos EUA e em pontos da indústria da defesa, ela foi perfeitamente capaz de rastrear os hackers até o local de onde partira a ação – um prédio do Exército Popular de Libertação em Xangai. A informação foi publicada no New York Times, mas dessa vez o fato de a ASN-EUA não ter oferecido qualquer prova passou estranhamente sem comentários. Quando The Intercept publicou uma matéria sobre a suposta descoberta, pela ASN, de que a inteligência militar russa tentara invadir os sistemas eleitorais dos EUA e locais, as falas sem qualquer prova documental da Agência sobre as origens russas do hacking apareceram e lá ficaram, sem que ninguém questionasse coisa alguma; e rapidamente passaram a ser tratadas como se a simples notícia fosse alguma espécie de autoconfirmação por poder midiático divino.

Entrementes, formou-se uma bruma espessa de acusações complementares, que incluíam acusações muito mais amplas e vagas de colusão da equipe de campanha de Trump e o Kremlin. Permanece possível que Robert Mueller, ex-diretor do FBI agora nomeado para investigar as acusações, apareça com alguma prova aproveitável de qualquer contato entre o pessoal de Trump e vários russos. Surpreendente seria se um procurador experiente, dotado de poderes que lhe permitem levar a cabo investigação séria, acabe o trabalho sem ter o que mostrar. Pelo sim, pelo não, já começaram as prisões. Mas o que mais chama a atenção nessas prisões é que as acusações nada têm a ver com interferência de russos em alguma eleição. Houve muita conversa sobre a possibilidade de os acusados fornecerem provas contra Trump em troca de sentenças mais leves, mas não passa de especulação. Paul Manafort, que foi diretor de campanha de Trump no início do período pré-eleitoral, declarou-se inocente nas acusações de que não teria registrado sua empresa de Relações Públicas como agente estrangeiro, nos órgãos do governo da Ucrânia; e de que teria ocultado os milhões de dólares que recebeu por serviços. Mas tudo isso aconteceu antes da campanha de 2016. George Papadopolous, ex-conselheiro de política exterior, declarou-se culpado na acusação de ter mentido ao FBI sobre esforços que empreendeu para conseguir um encontro entre o pessoal de Trump e o governo russo – oportunidade que a campanha de Trump dispensou. O preso mais recente de Mueller, Michael Flynn, islamófobo obcecado que serviu por pouco tempo como Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, declarou-se culpado nas acusações de ter mentido ao FBI sobre reunião com o embaixador russo em dezembro – semanas depois da eleição. Trata-se aí do tipo de diplomacia de bastidores que acontece rotineiramente no período entre um governo que sai e o que o substituirá. Absolutamente não se pode cogitar de crime de colusão com autoridade estrangeira.

Até aqui, depois de meses de ‘petardos’ que acabaram por se revelar traques de salão, ainda não há sequer uma prova prestável de que o Kremlin tenha ordenado alguma interferência nas eleições nos EUA. Ao mesmo tempo, surgiram graves suspeitas quanto aos fundamentos jurídicos das acusações de promotores e seus investigadores. Observadores independentes já disseram que o mais provável é que os emails tenham sido vazados [de dentro para fora], não hackeados [de fora para dentro]. Nesse front, o caso mais persuasivo foi construído por um grupo chamado “Profissionais Veteranos da Inteligência, pela Sanidade” [Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIP)], todos ex-funcionários de agências da inteligência dos EUA que ganharam fama e respeito quando, em 2003, desmascararam as mentiras de Colin Powell sobre as tais ‘armas de destruição em massa’ que Saddam Hussein teria no Iraque, apenas horas depois de Powell ter exibido sua falsa ‘prova’ na ONU. (Há membros dos VIPS que discordam das conclusões do relatório da organização; mas os argumentos deles são rebatidos pelos autores do relatório.) As descobertas dos VIPS não mereceram qualquer atenção dos grandes veículos, exceto de Fox News – o que, do ponto de vista do centro-esquerda é ainda pior do que ser ignorado por Fox News. A mídia dominante descartou o relatório dos VIPS como ‘teoria da conspiração’ (aparentemente, não se aplicaria à fábula dos hackers russos). A questão crucial aqui e em todos os demais locais é que já foram completamente excluídas da discussão pública todas e quaisquer perspectivas de crítica à narrativa ortodoxa, mesmo quando a crítica vem de gente com credenciais profissionais e respeitável currículo.

As duas histórias, a dos hackers que teriam invadido o Comitê Nacional Democrata, e a dos e-mails que envolveram os emails de John Podesta, agente da equipe de campanha de Clinton, têm, ambas, a colaboração de uma gangue de supostos hackers russos chamados Fancy Bear – também conhecidos entre o pessoal técnico como APT28. O nome Fancy Bear foi introduzido por Dimitri Alperovitch, chefe de tecnologias da empresa Crowdstrike, firma de segurança cibernética contratada pelo Comitê Nacional Democrata para investigar o roubo de seus emails. Alperovitch é também membro do Conselho Atlântico [Atlantic Council], think-tank anti-Rússia que opera em Washington. No relatório que apresentou, a empresa Crowdstrike não apresentou sequer uma prova, que fosse, que desse algum fundamento à ‘conclusão’ de que os russos seriam responsáveis pelo ataque, e, isso, para não mencionar a ideia, que o relatório promove ativamente, de que os ‘hackers russos’ seriam ligados à inteligência militar russa. E, no entanto, a partir deste momento, a suposição de que se tratava de uma operação cibernética russa tornou-se inquestionável.. Quando o FBI chegou à cena, os seus agentes nem pediram acesso nem algum acesso lhes foi negado, aos servidores do Comitê Nacional Democrata; em vez disso, o FBI confiou integralmente na análise da empresa Crowdstrike. E a empresa Crowdstrike, naquele momento, estava também dedicada a rastrear outra acusação: de que os russos teriam hackeado com sucesso o sistema de orientação da artilharia ucraniana. Os militares ucranianos e o Instituto Internacional Britânico para Estudos Estratégicos desmentiram essa ‘conclusão’; Crowdstrike recuou. Mas a análise que Crowdstrike entregou, do caso do Comitê Nacional Democrata continuou valendo e chegou, até, a ser tomada por base para a Avaliação que a Comunidade de Inteligência distribuiu em janeiro.

A boataria em torno da ação de hackers jamais teria chegado a ter o caráter de urgente gravidade que adquiriu, não fosse por um segundo pressuposto que vinha com ela: o de que a Rússia seria inimiga excepcionalmente perigosa, com a qual se deve evitar qualquer contato. Sem essa fé auxiliar, os encontros entre o advogado-geral Jeff Sessions e autoridades russas em setembro de 2016 teriam sido vistos como reuniões de rotina entre um senador e autoridades de outro país. As conversas pós-eleições entre Flynn e o embaixador russo tampouco pareceria suspeita e não passaria também de rotina. Os esforços de asseclas de Trump para conseguir negócios na Rússia seriam só imorais. O encontro entre Donald Trump Jr. na Trump Tower com a advogada russa Natalia Veselnitskaya seria transformado, de um melodrama de roteiro ruim, numa comédia de erros – com o filho do candidato esperando obter informação a ser usada contra Clinton, até se dar conta de que Veselnitskaya só queria falar contra as sanções e da retomada do fluxo de órfãos russos para os EUA. E o próprio Putin seria convertido em mais um autocrata daqueles com os quais as democracias podem ter negócios, sem ter de endossá-los.

Vozes céticas, como as dos especialistas VIPS, foram afogadas num tsunami de desinformação. Matérias claramente mentirosas, como a que o Washington Post publicou, segundo a qual os russos teriam hackeado a rede elétrica de Vermont, são publicadas, e 24 horas depois, desmentidas. Às vezes – como as matérias sobre interferência dos russos nas eleições francesas e alemãs – nunca são desmentidas, nem depois de já estarem completamente desmascaradas e desacreditadas. Essas matérias vêm sendo desmontadas completamente pelos serviços de inteligência de França e Alemanha, mas nem por isso param de circular, envenenando a atmosfera e desnorteando a discussão social. A ideia de que os russos teriam hackeado os sistemas de votação nos EUA já foi refutada por autoridades eleitorais dos estados da Califórnia e de Wisconsin, mas as considerações dessas autoridades só geraram sussurros, se comparados à gritaria e ao alarido gerados pela mentira inicial. A pressa para publicar sem suficiente atenção à correção da informação já está convertida em nova normalidade no jornalismo comercial. Retratação ou correção praticamente nada valem, porque a mentira publicada já fez o que foi concebida para fazer.

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Consequência disso é uma confusão sempre crescente que tudo envolve. O niilismo epistemológico prospera, mas algumas pessoas e instituições têm mais poder que outras para definir o que constituirá uma realidade ‘combinada’ para satisfazer essas pessoas e instituições, mais que outras. E quem diga o que aqui digo, arrisca-se a ser descartado e expulso da ordem humana como o mais desprezível dos desprezíveis no léxico da Washington contemporânea: o divulgador de teorias da conspiração. Seja como for, fato é fato e permanece: às vezes, gente muito poderosa dá jeito de ‘noticiar’ e repetir, repetir, repetir ideias que só beneficiam interesses comuns daqueles poderosos. Não faz qualquer diferença se se chama a isso hegemonia, conspiração ou simples e puramente privilégio. O que importa é o poder para criar o que Gramsci chamou de “senso comum” de toda uma sociedade. Ainda que grande parte dessa sociedade seja indiferente ou desconfie do senso comum oficial, mesmo assim ele é incorporado entre os pressupostos tácitos que fixam os limites da “opinião responsável”. O establishment Democrata (e uns poucos Republicanos) e os grandes veículos da mídia converteram em senso comum do atual momento uma dita ‘interferência dos russos’. Que tipo de serviço cultural presta esse senso comum? Quais as consequências do espetáculo que a mídia batizou e chama (com a originalidade que lhe é característica) de ‘Russia-gate’?

A consequência mais imediata é que, ao encontrar demônios estrangeiros que podem carregar toda a culpa pela ascensão de Trump, a liderança dos Democratas encontrou local para onde transferir a culpa pela derrota, depositando-a bem longe das próprias políticas democratas, sem ter de questionar nenhum dos pressupostos básicos daquelas políticas. Em pleno afastamento geral para cada vez mais longe de Trump, os Democratas deram jeito, até, de se apresentar como dissidentes – ‘#a resistência’, como os clintonistas logo se autodenominaram, apropriando-se da expressão logo nos dias que se seguiram à eleição. Os Democratas vedetes começaram a servir-se da palavra ‘progressista’ para designar uma plataforma que se reduz a pouco mais que a preservação do Obamacare, com muita gesticulação na direção de maior igualdade de renda e de proteção às minorias. É agenda tímida demais. Nada diz sobre enfrentar a influência da concentração de capitais no campo político, sobre reduzir o super inchado orçamento da Defesa nem sobre retirar militares dos EUA superdistendidos, de já quase incontáveis compromissos em terras estrangeiras; contudo, sem iniciativas nessas direções decisivamente importantes, até a mais tímida das políticas igualitaristas enfrenta obstáculos insuperáveis. Estão em gestação insurgências mais genuínas, que confrontam o poder das grandes empresas e conectam as políticas internas à política externa, mas terão de enfrentar duros combates morro acima contra o dinheiro e o poder que já se entrincheirou na liderança Democrata – gente feito Chuck Schumer, Nancy Pelosi, os Clintons e o Comitê Nacional Democrata. Russia-gate oferece às elites Democratas um modo para promover a unidade partidária contra Trump-Putin, enquanto o Comitê Nacional Democrata expurga os apoiadores de Sanders.

Para o Comitê Nacional Democrata, a grande valia da fábula dos hackers russos é que ela foca a atenção bem longe da questão de o quê, afinal de contas, estava realmente escrito nos tais emails. Os documentos revelaram organização profundamente corrupta, cuja fachada de imparcialidade nunca passou de puro engodo. Até o sempre pro-Clintons Washington Post já admitiu que ‘muitos dos emails mais comprometedores sugerem que o Comitê tentava ativamente minar a campanha presidencial de Bernie Sanders.’ Mais provas de que a máquina Clinton cometeu crime de colusão com o Comitê Nacional Democrata apareceram recentemente num memorial redigido por Donna Brazile, que se tornou presidente interina do Comitê Nacional Democrata depois que Debbie Wasserman Schultz renunciou nos primeiros dias das revelações dos emails. Brazile relata ter descoberto um acordo, datado de 26 de agosto de 2015, que especificava (ela escreve):

“que em troca de levantar dinheiro e investir no Comitê Nacional Democrata, Hillary controlaria as finanças e a estratégia do Partido, além de todo o dinheiro levantado. A campanha dela tinha o direito de vetar nomes para o cargo de diretor de comunicações do Partido e tomaria decisões finais sobre todos os nomes para todos os cargos da equipe. O Comitê Nacional Democrata também teria de consultar a campanha da candidata sobre todos os indicados para todos os cargos, sobre decisões de orçamento, de dados, analíticos e distribuição de material por correio (mailings).”

Antes mesmo de as primárias começarem, o supostamente neutro Comitê Nacional Democrata – que estivera à beira de falir – já fora arrendado pela campanha de Clinton.

Outra recente revelação de táticas do Comitê Nacional Democrata diz respeito à investigação de supostos laços entre Trump e Putin. A história começou em abril de 2016, quando o Comitê Nacional Democrata contratou uma empresa de pesquisa com sede em Washington, de nome Fusion GPS, para descobrir quaisquer conexões entre Trump e a Rússia. O negócio envolveu o pagamento de ‘dinheiro em troca de lixo’ [‘cash for trash’], como a campanha de Clinton gostava de dizer. A empresa Fusion GPS conseguiu produzir o lixo que se esperava dela, um relato redigido em tom sinistro pelo ex-agente da inteligência britânica, Christopher Steele, baseado em boatos e comprado de fontes russas anônimas. Entre prostitutas e chuveiros de ouro, afinal havia uma história: o governo russo há anos estaria chantageando e subornando Donald Trump, a partir do pressuposto de que seria presidente e poderia servir aos interesses do Kremlin. Nesse conto de realismo fantástico, Putin é pintado como vidente com dotes sobrenaturais, capaz de adivinhar o futuro. Como outras acusações de colusão, essa também foi-se tornando mais e mais vaga à medida que o tempo passava, tornando cada dia mais obscura a atmosfera e sem oferecer nem fiapo de prova de coisa alguma. A campanha de Clinton tentou persuadir os veículos da mídia do establishment a dar publicidade ao dossiê Steele. Mas com surpreendente compostura, todos se negaram a promover aquele repugnante lixo político. No entanto, o FBI aparentemente levou o processo Steele a serio o suficiente para incluir um resumo dele em um apêndice secreto para a Avaliação da Comunidade de Inteligência.

Duas semanas antes da posse, James Comey, diretor do FBI, descreveu o dossiê para Trump. Depois que o comunicado de Comey vazou para a mídia, o website Buzzfeed publicou a íntegra do dossiê – que gerou histeria e gargalhadas no establishment em Washington. O dossiê Steele habita um reino penumbroso onde ideologia e inteligência, desinformação e revelação sobrepõem-se. É a antecâmara do sistema mais amplo de niilismo epistemológico criado por várias facções rivais na comunidade de inteligência: a ‘árvore de fumaça’ que, para o romancista Denis Johnson, simbolizava as operações da CIA no Vietnã. Inalei, eu, pessoalmente, aqueles fumos em 1969-70, quando trabalhava como criptógrafo com acesso aos mais altos escalões Top Secret num navio da Marinha dos EUA que transportava mísseis armados com ogivas nucleares – cuja existência era absolutamente negada. Perdi minha autorização Top Secret e adiante fui demitido com desonra, quando me recusei a ser integrado ao Sistema do Autenticador Selado, que autorizaria o lançamento das tais armas nucleares supostas inexistentes. Desde então a árvore de fumaça só fez crescer e tornar-se mais impalpável e mais complexa. Mesmo assim, agora, o Partido Democrata embarcou num processo de reabilitação em escala total da comunidade de inteligência – ou, pelo menos, da parte dela que apoia a ‘hipótese’ do hacking russo. (Pode-se ter absoluta certeza de que há desacordo por trás do palco.) E não é só que o establishment Democrata esteja abraçando o estado profundo. Parte da base do Partido, convencida de que Trump e Putin são irmãos siameses unidos pelo osso pélvico, dedica-se a vociferar sobre ‘traição’, como uma neo-Sociedade John Birch.

Pensei em todas essas ironias quando visitei em Londres a exposição na Tate Modern intitulada Soul of a Nation: Art in the Age of Black Power [Alma de uma nação: arte na era do Black Power], que reúne trabalhos de artistas norte-americanos negros dos anos 1960s e 1970s, quando agências de inteligência (e agentes provocadores) comandavam um ataque das autoridades contra militantes negros, contra os que se opunham ao recrutamento militar obrigatório, aos desertores e a ativistas pacifistas. Entre as pinturas, colagens e assemblages havia uma bandeira dos Confederados cercada de sombrias reminiscências do passado de Jim Crow – um membro da KKK em traje completo, um cadáver negro pendurado numa árvore. Também lá estavam pelo menos meia dúzia de bandeiras dos EUA, justapostas ou em pedaços a imagens da opressão racista contemporânea que poderia ter acontecido em qualquer ponto dos EUA: cadáveres de homens negros presos em máquinas de tortura por esqueletos em uniformes de policiais; um prisioneiro negro amarrado a uma cadeira, à espera da tortura. A ideia era mostrar contraste bem visível entre as pretensões da “terra dos livres” e as práticas das forças do estado de segurança nacional e polícias locais. Os artistas negros daquela era conheciam bem o inimigo: os negros não estavam sendo mortos e encarcerados por algum nebuloso inimigo estrangeiro, mas pelo FBI, a CIA e a polícia.

O Partido Democrata desenvolveu hoje uma nova visão de mundo, uma parceria mais ambiciosa entre os intervencionistas humanitários liberais e os militares neoconservadores, do que a que existiu sob Obama, o cauteloso. A consequência mais desastrosa para o Partido Democrata, da nova ortodoxia anti-russos, pode ser a seguinte: perderam a oportunidade para formular uma política externa mais humana e mais coerente. A obsessão com Putin apagou qualquer chance de complexidade, do quadro que os Democratas se fazem do mundo, e criou um vácuo que foi rapidamente preenchido pelas fantasias monocromáticas de Hillary Clinton e de seus aliados excepcionalistas. Para gente como Max Boot e Robert Kagan, a guerra é um estado de coisas desejável, especialmente quando vista do camarote confortável de seus teclados, e o resto do mundo – exceto uns poucos maus rapazes – está cheio de populações que só fazem ansiar por construir sociedades exatamente como as nossas: pluralistas, democráticas e abertas aos negócios. É difícil pôr abaixo essa fantasia, quando se adere a algum sentimento humanitário. No mundo há sofrimento horrendo; os EUA têm recursos abundantes para ajudar a aliviá-lo; o imperativo moral é claro. Há incontáveis formas de engajamento internacional que não envolvem intervenção militar. Mas a trilha pela qual opta a política dos EUA, muito mais frequentemente do que suporia a retórica humanitarista não passa de tênue cortina para cobrir as vergonhas de uma geopolítica muito mais mundana – que define o interesse nacional dos EUA como se fosse global e virtualmente sem limites.

Tendo chegado à maioridade durante a Guerra do Vietnã, consequência calamitosa dessa visão deformada de interesse nacional, sempre me senti atraído pela crítica realista do globalismo. Realismo é rótulo maculado para sempre pela associação com Henry Kissinger, que usava a expressão como argumento a favor de intervenções clandestinas e não clandestinas nos assuntos de outros países. Mas há outra tradução mais humana de realismo, de George Kennan e William Fulbright, a qual enfatiza os limites da força militar e insiste em que todo grande poder exige grande contenção. Essa tradição desafia a doutrina da mudança de regime escondida sob a máscara da promoção da democracia, a qual, apesar dos fracassos abissais no Iraque e na Líbia – ainda preserva desconcertante legitimidade na Washington oficial. Russia-gate prolongou sua vida útil.

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Para aferir o impacto corrosivo da fixação dos Democratas contra a Rússia, pode-se começar por perguntar por tudo de que os Democratas não falam, quando falam do ‘hacking russo’. Para começar, não falam de outros tipos de interferência na eleição, como os muitos meios do Partido Republicano para expurgar os direitos de eleitores que se incluam em grupos minoritários. Também não falam sobre o orçamento de um trilhão de dólares da Defesa, que já extingue, no berço, a possibilidade de serviço social de atendimento à saúde pago por família [single-payer healthcare] e outros programas sociais urgentemente necessários; nem falam sobre a modernização do arsenal atômico dos EUA, que Obama iniciou e Trump planeja acelerar, e que aumenta o risco de calamidade ambiental irremediável, de guerra nuclear – ameaça hoje mais grave do que jamais foi em décadas de animosidade dos EUA contra a Rússia. A ambição de derrubar Trump por impeachment, condenando-o por crime de colusão com a Rússia, gerou uma atmosfera de ansiedade quase frívola entre os Democratas, o que os fez esquecer que o resto do Partido Republicano é constituído de vários políticos muito mais astutos para operar nos subterrâneos de Washington do que o presidente Trump jamais será.

Não é o Partido Democrata que está liderando a busca de alternativas aos destroços criados pelas políticas republicanas: um plano de imposto que imergirá a classe média e pobre para beneficiar os ricos; uma busca descuidada de combustíveis fósseis que já está resultando na contaminação do abastecimento de água do povo de Dakota; e apoio contínuo às políticas policiais de militarização e encarceramento em massa. As populações locais é que são ameaçadas por vazamentos de petróleo e espancamentos pelas polícias –, e nessas populações sobrevive o popularismo humano. Uma multidão de grupos insurgentes começaram a usar a indignação contra Trump como alavanca para empurrar o Partido na direção de políticas igualitaristas: Justice Democrats, Black Lives Matter, Democratic Socialists of US, além de grande número de organizações locais e regionais. Essas organizações reconhecem que há razões muito mais urgentes – e genuínas – para fazer oposição a Trump, que vagas alegações não provadas e provavelmente falsas do começo ao fim, de colusão com a Rússia. E essas organizações impõe um desafio muito necessário ao longo reinado do neoliberalismo e à arrogância tecnocrática que levou à derrota da Clinton nos estados do "Cinturão da Ferrugem". Convencidos de que a liderança atual jamais conduzirá mudanças significativas, esses grupos buscam fundos e financiamento bem longe do Comitê Nacional Democrata. Essa é a verdadeira resistência, e nada tem a ver com ‘#theresistance’.

Em algumas questões importantes, como o apoio que se alastra ao sistema de assistência à saúde por família; aumento no salário mínimo ou garantia de proteção a imigrantes sem documentos, contra as formas mais flagrantes de exploração – esses insurgentes conquistam apoios cada dia mais amplos. Candidatos como Paula Jean Swearengin, filha de mineiro de carvão de West Virginia e candidata às primárias do Partido Democrata, aspirante à indicação para o Senado dos EUA, desfiam hoje o establishment Democrata que insiste no rosto colado com os Republicanos para mais bem servirem ao capital concentrado. Contra Swearengin concorre Joe Manchin, que o Los Angeles Times comparou a Doug Jones, outro Democrata ‘muito conservador’ que venceu recentemente a eleição no Alabama para o Senado dos EUA, derrotando por poucos votos um Republicano acusado repetidas vezes de agressão sexual contra meninas de 14 anos. Esse resultado causa-me algum alívio, mas nem por isso integro-me ao êxtase coletivo dos Democratas, o qual só revela o insuperável comprometimento do Partido com a velha política de sempre. Os líderes Democratas se persuadiram (e persuadiram também grande parte da base) de que a única coisa que falta à república é restaurar o status quo ante Trump. Mantêm-se cegos e surdos ante a impaciência popular ante as velhas fórmulas. Jess King – menonita, graduada pelo Bard College e fundadora de uma ONG local sem finalidades de lucro que concorre ao Congresso pelo grupo Justice Democrat em Lancaster, Pensilvânia – pôs a coisa nos seguintes termos: "Vemos uma paisagem política em transformação nesse momento, que não se pode aferir pelas políticas de esquerda e de direita de antes, mas por políticas de baixo para cima. Na Pensilvânia e em muitos outros lugares nos EUA vê-se crescer um popularismo econômico de base, que se organiza contra o establishment e o status quo que não se ocuparam com ajudar e salvar a vida e o futuro de tantos seres humanos em nosso país."

Democratas insurgentes também estão construindo uma crítica popular contra a húbris imperial que patrocinou incontáveis cruzadas fracassadas, exigiu um enorme sacrifício da classe trabalhadora e mobilizou apoio a Trump – porque se apresentou (embora nunca tenham cumprido a promessa) como opositor do intervencionismo sem fim. Na política exterior, os insurgentes enfrentam oposição ainda mais ferozmente entrincheirada que na política interna: um consenso bipartidário altamente inflamável pelo ultraje ante a ameaça que o ‘hacking russo’ imporia à democracia. Mesmo assim, encontraram uma saída tática à frente, focando-se na carga desigual que pesa muito mais sobre os pobres e a classe trabalhadora, para promover e manter o império norte-americano.

Essa abordagem anima Autopsy: The Democratic Party in Crisis, documento de 33 páginas, de vários autores, entre os quais Norman Solomon, fundador de um lobby insurgente tecido na rede, RootsAction.org. ‘O mote do Partido Democrata, de que lutaria por ‘famílias trabalhadora’, foi gravemente minado pela recusa dos Democratas a se opor em desafio contra o poder dos empresários, o que permitiu que Trump aparecesse travestido em guerreiro pelos direitos do povo’ – lê-se em Autopsy. Mas a especificidade desse documento, que o diferencia da maior parte de outras críticas progressistas, é a conexão necessária, inescapável, que o ensaio aponta entre a política de classes doméstica e a política exterior dos EUA. Para os que mal sobrevivem no Cinturão da Ferrugem, frequentemente o serviço militar surgia como única via de fuga das ruínas que as políticas neoliberais deixaram por ali; mas o preço da fuga já está alto demais. Como Autopsy observa, “a lógica da guerra continuada” – que Clinton chama de “liderança global” –

"era [em 2016] muito mais compreensível para o correligionário médio dos Democratas do que para os norte-americanos das regiões que sentiam diretamente a tragédia dos soldados mortos, dos mutilados, dos traumatizados de guerra. Depois de uma década e meia de guerras ininterruptas, pesquisas de dados extraídos de padrões de voto sugerem que a campanha da Clinton, movida por intransigente propaganda pró-guerras, influenciou contra a candidata Democrata as comunidades de trabalhadores mais duramente feridas pelas baixas de militares no Iraque e no Afeganistão."

Francis Shen da Universidade de Minnesota e Douglas Kriner da Boston University analisaram os resultados das eleições em três estados chaves – Pensilvânia, Wisconsin e Michigan – e descobriram que, “mesmo operando em modelo estatístico que admitia várias outras explicações alternativas, podemos afirmar que há forte relação, muito significativa, entre a proporção de militares sacrificados em cada comunidade, e o apoio a Trump.” O currículo de Clinton, de apoio acrítico a intervenções militares, permitiu que Trump ganhasse eleitores pelos dois lados: tanto ao se beneficiar do ressentimento jingoísta, quanto ao se apresentar como quem defendesse o fim das guerras superprolongadas e sem sentido. Kriner e Shen concluem que os Democratas talvez tenham de “reexaminar a própria postura na política externa, se quiserem superar os ganhos eleitorais que Trump obteve em blocos de eleitores exauridos e alienados da realidade política próxima, por 15 anos de guerra.” Se os movimentos insurgentes dentro do Partido Democrata começarem a formular uma política externa inteligente e crítica, nesse caso é possível que os eleitores reconsiderem. E o mundo poderá ser analisado sob foco mais fino, como lugar onde o poder dos EUA é limitado, assim como também é limitada a virtude dos EUA. Para este democrata, isso é um resultado devidamente desejado. É um tiro longo, mas há algo acontecendo lá fora.

3 de janeiro de 2018

As terríveis alternativas para a Itália

Liga do Norte, Movimento Cinco Estrelas, Berlusconi? Como a direita se prepara para a eleição italiana de março

David Broder


Silvio Berlusconi no Congresso do Partido Popular Europeu em 29 de março de 2017. Partido Popular Europeu / Flickr

O parlamento italiano foi dissolvido em 28 de dezembro, sendo então convocadas as eleições gerais de 4 de março de 2018. Se as indicações das disputas regionais recentes e das pesquisas estivessem corretas, os democratas, que hoje governam em aliança com pequenos partidos de centro, poderão ter uma derrota histórica.

Mas o que virá a seguir? A cobertura internacional se concentrou no Movimento Cinco Estrelas (M5S), uma agremiação populista pós-crise que está à frente nas pesquisas, mas parece improvável que seja capaz de formar uma coalizão para governar. Um cenário mais plausível é a volta de Silvio Berlusconi, cujo partido Forza Italia está à frente da recuperação da direita. Depois, há o potencial drama de outro parlamento dividido.

A Itália está prestes a mergulhar a zona do euro em uma nova crise? E depois de anos de estagnação econômica e desemprego massivo de jovens, quais são os sinais de esperança? David Broder da revista Jacobin relata de Roma

A direita ressurgente

A última vez que um político italiano liderou seu partido na eleição e depois se tornou primeiro-ministro foi em 2008. Esse líder foi Silvio Berlusconi, e todos os governos italianos desde sua queda em 2011 foram formados por tecnocratas não eleitos, ou coalizões híbridas unindo forças de centro-esquerda e centro-direita. A crise econômica intensificou a fragmentação a longo prazo do sistema partidário italiano, que persiste desde o fim da Guerra Fria. Continuando nessa tendência, na véspera da eleição de 4 de março de 2018, há novamente um bric-a-brac de novos nomes e alianças partidárias.

Mesmo a força mais antiga no parlamento italiano - a Liga do Norte, fundada em 1991 – é um bom exemplo disso, e mudou seu nome para apenas "Liga". É uma força que faz campanha para separar as regiões mais ricas, ao norte, do centro-sul da Itália. A Liga de Matteo Salvini é um movimento de direita, que tenta se expandir para o sul e criar um partido semelhante ao Front National francês, e rivaliza com a centro-direita. Com cerca de 15% da votação nacional, a Liga está atrás da Forza Italia de Berlusconi que, sendo seu concorrente mais direto, é também seu possível parceiro de coalizão.

O Partido em Crise

Se o M5S é uma grande ameaça para Berlusconi, o principal rival histórico da direita é o Partido Democrático centrista (PD). Grande parte de sua base militante e institucional mais antiga provém do Partido Comunista histórico e, em menor medida, dos democrata-cristãos, ambos extintos no início dos anos 90. Sob a liderança do primeiro-ministro Matteo Renzi, o PD continuou sua evolução pós-guerra fria, passando de um grupo de centro-esquerda para um explicitamente baseado no liberalismo corporativo. Ao longo da última legislatura, impôs uma "Lei do Emprego" flexível, reformas e medidas de educação neoliberal que obrigam os italianos em idade escolar a trabalhar em estágios não remunerados. Renzi é o candidato dos democratas para primeiro ministro, na esperança de substituir o titular Paolo Gentiloni, que também é membro do seu partido.

Se a Liga do Norte acabou de se reformular como apenas Liga, o partido de Renzi ainda não abandonou formalmente o nome de "Democrático". No entanto, desde sua tentativa de reescrever a constituição italiana, que foi derrotada no referendo de dezembro de 2016, o partido vacilou, e agora enfrenta uma oposição mais aguerrida à esquerda. Aqueles que saíram em rachas recentes incluem Pierluigi Bersani (um ex-comunista, líder do partido nas eleições gerais de 2013) e o primeiro-ministro de 1998-2000, Massimo D'Alema. Seu novo partido, MDP, no entanto, permaneceu no governo em aliança com o partido de Renzi e pequenas forças centristas e ex-berlusconianos.

Na eleição de março, o MDP fará parte da Liberi e uguali [LeU; Livre e Igual], que é um dos maiores projetos de centro-esquerda, fora do PD. O ex-comunista D'Alema, um dos personagens do MDP menos interessados em um pacto pré-eleitoral com o PD, fez parte da deriva da Terceira Via na social-democracia européia e mal se distinguia de Tony Blair ou Gerhard Schröder no final de na década de 1990.

Talvez, de forma mais reveladora, a perspectiva de futuro que o MDP tem, Bersani. rapidamente afastou a marca socialdemocrata que o partido tinha, insistindo que, como liberais, não queriam "nacionalizar tudo". Seu projeto é esperar para entrar no governo com o PD, puxando-o pelo menos um pouco para a esquerda.

O afastamento do MDP foi o resultado imediato da tentativa de Renzi, em dezembro de 2016, de reescrever a Constituição de 1947, que é uma pedra angular da identidade republicana italiana devido a seus vínculos simbólicos com a derrubada do fascismo. A juíza Anna Falcone, uma das principais ativistas da campanha pelo "Não", contra a pretendida reforma na Constituição, esperava unir uma nova aliança de esquerda nessa base. No entanto, após uma série bastante caótica de iniciativas de unidade nos últimos meses, as forças envolvidas no grupo D'Alema-Bersani, bem como outros pequenos partidos de centro-esquerda acabaram sob liderança de Piero Grasso, um magistrado anti-mafioso que hoje é o presidente do Senado e, até o final de outubro, foi membro do PD. Sua LeU tem atualmente em torno de 6-7%nas pesquisas.

Mas LeU é apenas um dos problemas para os democratas e seu líder Matteo Renzi, cuja promessa de demitir-se caso não pudesse impulsionar o referendo - insistindo na necessidade de remover barreiras às reformas econômicas planejadas - transformou um debate sobre arranjos constitucionais em uma expressão mais geral de descontentamento com seu governo. A derrota e a renúncia de Renzi não só enfraqueceram gravemente suas próprias pretensões de popularidade, mas também lançaram novas dúvidas sobre o mantra blairista de que o caminho da esquerda italiana para a vitória viria da tentativa de manter o centro político. Grasso sublinhou recentemente a necessidade de "levar para casa" aqueles que se deslocaram da esquerda para o M5S.

As eleições regionais da Sicília, em novembro passado, sugeriram que mesmo as forças centristas neoliberais, antes aliadas ao PD, estão se afastando deste, pois se tornou menos importante para a aritmética eleitoral. O líder alternativo popular Angelino Alfano, que foi até 2013, um aliado chave de Berlusconi, foi nos últimos quatro anos, um sólido aliado do PD no governo, sendo atualmente ministro das Relações Exteriores. No entanto, ele anunciou sua intenção de demitir-se na eleição.

O comportamento destas pequenas forças na eleição siciliana foi uma expressão adicional da crise geral do PD, cujo candidato teve apenas 18%, contra 30% cinco anos antes. No meio do quadro político fragmentado, ainda é bem possível que um PD enfraquecido surja como o maior partido nas eleições de 4 de março, e suas listas também serão reforçadas pela integração de pequenas agremiações liberais, de outra forma incapazes de passar o limiar (a cláusula de barreira) para conseguir representação parlamentar. No entanto, mesmo isso é provável que leve a centro esqueda, dirigida pelo PD, a apenas 30% dos votos, longe de poder formar uma maioria.

O PD enfrenta desafios comuns a todos os partidos social-democratas. Para conquistar o apoio dos eleitores centristas a uma nova coalizão, deve ser capaz de manter pelo menos o apoio passivo de sua base histórica na classe trabalhadora e na esquerda. Isso é difícil em tempos de austeridade, especialmente quando o sistema eleitoral facilita o surgimento de novos rivais. Nessas circunstâncias, o partido corre o risco de seguir o mesmo caminho do Partido Socialista, na França, e do Partido Trabalhista holandês, vencidos pelos liberais precisamente porque sua própria base se tornou tão esvaziada.

O movimento

Diante do surgimento de um rival à esquerda, Renzi acusou a todos os que não votaram no PD de minarem os valores do antifascismo e abrir caminho para uma nova extrema direita, uma ameaça que sua retórica ampliou. Dada a história eleitoral recente e pobre dos democratas, é incerto que tais apelos por uma votação pragmática tenham um efeito galvanizador, e o poder emocional deste tipo de recurso para os eleitores de esquerda é, de qualquer forma, enfraquecido pelos reacionários.

Nos últimos anos, Renzi esperava realinhar a política italiana em algo como o que houve no segundo turno francês de 2017, onde os liberais exigiram o apoio da esquerda para impedir a vitória do Front National. No entanto, este imaginário simplista sempre foi inadequado para combater seu próprio alvo polêmico, o M5S.

Este movimento é uma ameaça particular para o PD por causa da base que construiu entre os jovens e os desempregados. Atualmente, está em primeiro lugar nas pesquisas de opinião, embora esteja longe de estar claramente a caminho do poder.

Fundado em 2007 como "Amigos de Beppe Grillo", o M5S se beneficiou tanto do colapso da esquerda como da crise econômica para se estabelecer como a voz dos excluídos, em rebelião contra a "casta" representada pela corrente principal e pelo centro-direita. O fato é que Berlusconi e o PD foram de 2011 a 2013, vinculados por várias formas de acordos de coalizão. E ligados a escândalos de corrupção, como o caso do desfalque da Mafia Capitale; isso ajudou o "Movimento" a se diferenciar dos "partidos". O apelo do M5S deve menos às propostas de políticas específicas do que a promessa de revisão política, eliminando os velhos partidos que dominam a vida pública italiana.

Em uma Itália abatida pelo desemprego juvenil de massa, o M5S conseguiu capturar e expressar esse descontentamento. No entanto, o aspecto oposicionista da retórica do M5S enfraqueceu ao longo do tempo, tanto por sua presença em governos locais quanto pela reorientação do partido feita por Luigi Di Maio, seu candidato de trinta e um anos. E pela ligação com o primeiro ministro. Em setembro, Di Maio fez uma visita simbólica ao fórum dos líderes empresariais, no Lago de Como, insistindo que o M5S não queria um "governo populista e extremista anti-UE", nem que fosse realizado um referendo sobre o euro.

Duas mudanças recentes nos estatutos do Movimento também enfatizaram uma alteração em sua direção. Em primeiro lugar, apesar das origens do M5S como um movimento anticorrupção, a investigação policial contra a prefeita Virginia Raggi, de Roma, por abuso no cargo obrigou-o a abandonar o princípio de suspender qualquer membro que tenha sido submetido a um processo judicial. Em segundo lugar, ciente de que o seu peso eleitoral (superior a 25%) não garante uma rota óbvia para o governo, abandonou uma base fundamental que o distinguia, a recusa, por princípio, de fazer alianças com outras agremiações.

O M5S nunca fez acordos com agremiações mais estabelecidas e nem participará de qualquer tipo de lista eleitoral conjunta para o dia 4 de março. Na proximidades da votação, Di Maio deixou isso um pouco vago Que tipo de coligação o M5S faria?. Até agora, limitou-se a afirmar que após as eleições, assim que os resultados forem anunciados, o M5S vai colaborar com qualquer partido disposto a realizar seu programa. Essas declarações são projetadas para proteger o partido de ser visto como se alinhando com os blocos centro-esquerda ou centro-direita.

Em uma recente entrevista à La Stampa, Di Maio, no entanto, observou que ele "não descarta" uma coalizão com LeU ou Liga. Não só Di Maio levou o M5S a uma abordagem mais "possibilista" para as alianças do que as aceitáveis pelo fundador do Movimento Beppe Grillo, mas ele também é mais à direita dele. Isso é particularmente evidente em sua dura retórica sobre a crise dos refugiados, acusando as ONGs de oferecer um "serviço de táxi" pelo Mediterrâneo para os migrantes. No entanto, é difícil ver como tal força composta, como M5S, poderia sobreviver a uma aliança com um partido tão duro quanto a Liga.

Na verdade, ao longo da existência do M5S, seus deputados se abstiveram em questões polêmicas da política social, como as uniões civis homoafetivas ou a situação dos refugiados, precisamente para continuar defendendo "todas as coisas para todas as pessoas".

Figuras no M5S, como Roberto Fico, adotaram abordagens muito mais progressistas para a política social do que Di Maio. Embora mesmo os escândalos financeiros em Roma e Livorno, não comprometeram a popularidade do Movimento, impedindo-o de assumir a responsabilidade governamental - particularmente em aliança com a Liga - inevitavelmente forçaria sua liderança inexperiente a definir sua agenda mais claramente.

Isso também coloca a questão de saber se a corrente pricipal do M5S pode abrir o espaço anti-establishment que recentemente conseguiu ocupar. Interessante a este respeito é o que aconteceu em Nápoles. Na maior cidade do sul, o prefeito Luigi de Magistris que, nos últimos anos, construiu sua própria coalizão populista multiforme, e impediu efetivamente o M5S de estabelecer um ponto de apoio. O centro social Je So 'Pazzo, que apóia De Magistris, embora não seja politicamente vinculado a ele, lançou uma iniciativa eleitoral nacional com a esperança de representar os movimentos sociais, sindicatos, jovens desempregados e trabalhadores precários, e negou ao M5S voz naquela disputa.

Enquanto De Magistris e outras figuras de centro-esquerda estão mais alinhadas com Liberi e Uguali, a iniciativa Potere al Popolo lançada por Je So 'Pazzo, uniu movimentos sociais do resto da Itália, junto com a Rifondazione Comunista – isto é, os restos do antigo Partido Comunista - e forças menores da extrema esquerda. A iniciativa não espera alcançar o limite de 3% para a alcançar a representação parlamentar, e marca o início de uma recomposição do movimento de esquerda, sem representação no parlamento desde o desastre da Rifondazione em 2008.

Potere al Popolo realizou assembléias em mais de uma centena de locais na Itália e está tentando atravessar uma paisagem de mídia hostil. Sem dúvida, a próxima eleição é um desafio para um ativista que ainda não emergiu do trauma de décadas passadas. A força do M5S é uma expressão da fraqueza da mobilização social na Itália, marcada com movimentos populistas anti-austeridade, como a France Insoumise, ou o Podemos na Espanha. No entanto, baseando-se no reaparecimento dos protestos e na organização trabalhista, nesta campanha, Potere al Popolo poderia pelo menos ser a base de uma alternativa radical para os próximos anos.

Acordo geral

Na falta de um novo avanço para a direita, o resultado mais provável é um novo tecnocrata, e a julgar pelo que ocorreu nos últimos seis anos, provavelmente seria liderado por figuras que nem são parte desta campanha eleitoral. Alcançando o fim do período parlamentar, o primeiro ministro Paolo Gentiloni indicou seu orgulho de, no ano passado, seu governo ter mantido as instituições italianas funcionando. Esta foi uma demonstração notável de complacência diante de um crescimento econômico de apenas 1%, emigração maciça e uma taxa de desemprego juvenil de 36%. Sua despreocupação constante reflete a decadência da vida pública italiana; e, além disso, é ecoada pela postura superficial da campanha eleitoral, em que questões tão significativas como a reforma da UE, a moeda única e a crise bancária italiana parecem menos proeminentes do que um choque de personalidades e uma acalorada retórica sobre a imigração.

A última questão que o parlamento italiano enfrentou antes da sua dissolução em 28 de dezembro ilustrou esse sentimento de impasse. Um debate acentuado deveria definir se os filhos de imigrantes nascidos na Itália teriam a cidadania italiana. Isso naturalmente encontrou a forte hostilidade de Forza Italia, da Liga e da direita pós-fascista, que nearam o quórum opara a votação no parlamento, e o projeto de lei ficou em suspenso. Este foi um final adequado para um governo liderado por PD que cortou a entrada de imigrantes da Líbia em 87%.

Esta rejeição aos novos italianos, obviamente, se deve à hostilidade com os imigrantes e ao medo do multiculturalismo. No entanto, talvez também possa ser visto como uma escolha natural para uma sociedade que oferece tão pouco até aos jovens que nascem dos pais italianos. Um primeiro-ministro recente rejeitou os temores de uma mão-de-obra fragmentada e casual ao apontar que "ter um emprego estável é maçante de qualquer maneira"; o atual ministro do Trabalho da PD insistiu que seria melhor para os jovens saírem, "ao invés de ficar sob nossos pés ".

Esse desprezo pelo jovem é uma aula política sem plano para o futuro da Itália. Seu compromisso inabalável com o centro neoliberal não produz estabilidade nem estagnação, mas atomização e desespero social. Hoje, os maiores vencedores nesse pântano de cinismo são a Liga e o M5S. Com o colapso de 2008 da Rifondazione Comunista, o período pós-crise foi marcado pela ausência da esquerda radical. Sua tarefa neste período até 4 de março e depois é reverter uma derrota histórica e abrir canais que possam novamente oferecer avanços materiais e um espírito de esperança para os esquecidos e explorados.

Sobre o autor

David Broder é especialista em história do comunismo francês e italiano. Está escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

2 de janeiro de 2018

Ronaldinho e a ala direita

O recente apoio de Ronaldinho a um demagogo da extrema direita é mais um capítulo bizarro no declínio político do Brasil.

Euan Marshall

Jacobin

Ronaldinho no Carnaval do Rio de Janeiro em 27 de fevereiro de 2017. Raphael Dias / Getty

Tradução / Seria difícil imaginar companheiros de cama mais estranhos do que Ronaldinho e Jair Bolsonaro. Ronaldinho tornou-se um ícone global na década de 2000, sua maneira despreocupada no campo dispensando um enorme talento que o fez o melhor jogador do mundo antes da emergência de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Ele era o filho de um trabalhador de estaleiro que morreu quando ele só tinha 8 anos e cresceu na pobreza em Porto Alegre. Bolsonaro, ao contrário, é o campeão dos ricos do Brasil — um político bombástico de extrema direita que fez sua carreira direcionando insultos a mulheres, homossexuais e minorias étnicas.

No entanto, no mundo cada vez mais bizarro da política brasileira, os dois foram vistos juntos. Em dezembro, Ronaldinho encontrou Bolsonaro e foi fotografado segurando seu livro — um endosso para sua campanha presidencial que atraiu manchetes pelo Brasil. Nos dias seguintes, houve rumores de que ele seria um possível candidato ao senado pelo partido Patriota, de Bolsonaro, embora ambas as partes digam que isso ainda não foi acordado.

O pano de fundo dessa história improvável é a turbulência produzida pelo golpe parlamentar de 2016 contra a presidente brasileira, Dilma Rousseff. Para a direita, sua remoção deveria reivindicar o antipetismo, uma crença fanática de que o Partido dos Trabalhadores (PT) de Dilma era a raiz dos problemas de corrupção do Brasil. A onda de alegações de corrupção que se seguiram à remoção de Dilma, envolvendo até mesmo seu sucessor historicamente impopular, fez pouco para dar credibilidade àquela tese.

Para a esquerda do país, o episódio estava cheio de injustiça — acusações falsas de má gestão orçamentária, tratadas como corrupção por uma imprensa hostil, usadas para depôr uma líder eleita. Mas também mostrou o quanto a popularidade da esquerda tinha diminuído nos treze anos em que o PT esteve no poder, sem o próprio partido nem outras forças da esquerda capazes de montar uma oposição ao golpe.

A saga contribuiu grandemente para a desilusão com o sistema político do país. No início deste ano, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostrou que 83% desaprovavam o governo, 78% os partidos políticos e o mesmo número políticos em geral. 55% disseram que não votariam no mesmo candidato que votaram nas últimas eleições. Isso preparou o cenário para uma perigosa nova política na política brasileira — o crescimento da anti-política e do populismo de extrema-direita.
Direita crescendo

Até agora, Jair Bolsonaro tem sido o beneficiário mais proeminente dessa tendência. Um ex-capitão do exército durante a ditadura no Brasil e deputado pela sétima vez, ele fez uma carreira cortejando controvérsia com comentários intolerantes. Notoriamente, em 2003, ele disse a uma deputada do PT que ela não merecia ser estuprada quando ela falou do uso de estupros pela ditadura contra presas políticas. Isso foi complementado ao longo dos anos por incidentes em que ele descreveu as mulheres políticas como “putas” e “sapatões”, declarou que preferia ver seu filho morto do que gay e disse que ativistas negros eram “animais” que deveriam “voltar para o zoológico”.

Mais recentemente, ele dedicou seu voto de 2016 pelo impeachment de Dilma a Carlos Brilhante Ustra, coronel que encabeçou o programa de tortura durante a ditadura militar do país. Dilma, uma ex-guerrilheira marxista, foi uma das vítimas do programa — um fato que Bolsonaro conhecia muito bem, referindo ao coronel como “a fonte do medo de Dilma”.

Apesar da sua falta de programa político, Bolsonaro está ganhando terreno antes das eleições presidenciais de 2018. Nas últimas pesquisas de opinião do Datafolha, ele aparece em segundo lugar atrás do ex-presidente Lula, atraindo entre 17 e 18% dos votos. Com a clara possibilidade de Lula não ser elegível — a depender de sua condenação por corrupção ser confirmada por um tribunal de apelação neste mês — Bolsonaro pode entrar na corrida como favorito. Sem Lula, ele lidera o cenário com uma votação entre 21 e 22%.

A base de Bolsonaro é bem definida — homens jovens com origens de classe média e alta, com maior concentração entre evangélicos, brancos e pessoas do sudeste. Mas sua estreiteza também é provável que seja um obstáculo para sua progressão em qualquer corrida presidencial: três vezes mais homens que mulheres o escolhem como seu candidato preferido, enquanto Lula tem quatro vezes mais apoio entre os pobres.

Isso não deve ser surpreendente para um candidato que se revela no autoritarismo. Bolsonaro não só justifica a história da ditadura no país, ele promete soluções brutais aos problemas de segurança atuais do Brasil. Em 2016, houve 61.619 mortes violentas registradas no país, maior número já registrado. A resposta de Bolsonaro a isso foi propor uma escalada da violência policial, dizendo que os oficiais receberiam “medalhas, não julgamentos” por matarem criminosos. Ele também disse que a polícia deveria ter “carta branca para matar” e, mais recentemente, que “um policial que não mata não é um policial”.

Bolsonaro também conseguiu construir uma reputação como incorruptível, um dos poucos políticos em destaque não afetados pelos escândalos dos anos recentes. Isso, porém, pode refletir mais seu apelido, “o mito”, do que a realidade, dadas as dúvidas sobre seu envolvimento com um projeto de mineração de ouro durante seu período nas forças armadas.

Seu programa político não é mais substantivo, oferecendo poucas soluções para uma economia brasileira que mergulhou na recessão por vários anos. A plataforma de política frágil que apresentou a Bloomberg em outubro teve como objetivo evidenciar sua crescente sofisticação nessa área — mas em vez disso levou a revista de negócios a chamar atenção ao seu “entendimento superficial” de economia. Apesar da sua falta de detalhes, seus contornos amplos foram claros: Bolsonaro apoiaria a privatização, aumentaria o envolvimento dos EUA na economia brasileira e continuaria a reforma da previdência.

Mas obter essa mensagem pelos meios tradicionais vai ser difícil. Devido ao seu tamanho minúsculo, o partido Patriota de Bolsonaro vai receber um tempo muito pequeno na televisão. Como resultado, sua campanha vai depender muito de uma forte presença nas redes sociais. A página oficial de Bolsonaro no Facebook tem um total de 4,8 milhões de curtidas, em comparação com 3 milhões de Lula, e teve 93,4 milhões de interações para as 66,4 milhões de Lula desde 2014.

Esse perfil é complementado por seus seguidores enfurecidos e fiéis, conhecidos como Bolsominions. Ecoando sua demagogia e sua abordagem agressiva ao discurso político, esses seguidores são organizados em grandes grupos no Facebook, muitas vezes com centenas de milhares de membros, e provavelmente desempenharão um papel significativo na campanha de 2018. De acordo com o pesquisador acadêmico Peterson Fernandes, que recentemente escreveu sobre o tempo que ele passou monitorando os grupos, eles são mobilizados rotineiramente contra notícias e personalidades que criticam Bolsonaro.

É com a influência dessa campanha de redes sociais em mente que Bolsonaro cortejou o endosso das celebridades — um caminho que o levou a Ronaldinho.
Futebol e a extrema-direita

É difícil descrever quão bom foi Ronaldinho para pessoas que nunca o viram jogar. Sua habilidade, criatividade e alegria para o futebol hipnotizaram fãs durante seu auge em meados dos anos 2000. Jogando no Barcelona, Ronaldinho era o melhor do mundo, um fato que mesmo seus mais ferozes rivais não puderam negar.

Em novembro de 2005, Ronaldinho marcou dois gols, quando o Barcelona acabou com o Real Madrid no Santiago Bernabéu. Sua performance foi tão espetacular que, depois de marcar seu segundo gol, quando passou bailando pela defesa adversária antes de chutar em curva para o gol, recebeu uma ovação de pé dos torcedores do Real Madrid.

No entanto, apesar de seu incrível talento, que lhe rendeu duas vezes o título de melhor Jogador do Mundo pela FIFA (2004-05), entre outros, sua fraqueza sempre foi sua falta de dedicação. Ronaldinho Gaúcho gostava de jogar futebol, mas não de ser um jogador profissional.

Essa atitude teve seu preço quando demonstrou um desinteresse em voltar à forma depois de sofrer uma série de lesões musculares durante sua última temporada com o Barcelona. Perdeu cruciais força de velocidade e explosão, sendo então transferido para o clube italiano AC Milan em 2008.

Lá, ganhou peso por conta do estilo de vida, pelo qual passou a ser conhecido, e perdeu seu lugar na equipe do Milan. Mais tarde, teve momentos de brilho no Flamengo e Atlético Mineiro, onde ainda mostrou alguns momentos de genialidade, mas lutou para permanecer em forma e consistente. Sua última boa temporada foi em 2013, quando ajudou o Atlético Mineiro a vencer a Copa Libertadores, a competição entre clubes mais prestigiada da América do Sul.

Mas, apesar de seu sucesso, permanece um porém em sua carreira: Ronaldinho Gaúcho foi um jogador muito especial e trouxe muita alegria para milhões de torcedores, mas poderia ter sido muito melhor.

Mas se sua carreira acabou em desencanto, não foi nada comparada à sua primeira incursão na política. Ao longo de sua carreira como jogador, Ronaldinho nunca discutiu a política, dando sempre a impressão de que nunca tinha dado muita importância ao assunto. Embora nunca tenha sido associado à esquerda brasileira, seu estilo de vida e atitudes em relação ao jogo pareciam mais adequados aos futebolistas boêmios e muitas vezes esquerdistas da história de seu país do que os da extrema direita.

Principalmente dada sua formação. Nascido pobre na favela de Vila Nova, na zona sul de Porto Alegre, uma região onde apenas 17,7% da população se declara não branca – em comparação com 52,5% em todo o país –, Ronaldinho cresceu em um barraco com seus pais e irmão mais velho.

Seu pai tinha dois empregos: como trabalhador braçal nos estaleiros navais de Porto Alegre e, à noite, como guarda de segurança do estádio do Grêmio, onde Ronaldinho assinou seu primeiro contrato profissional em 1998. O pai morreu em um acidente quando Ronaldinho tinha apenas oito anos.

Mas sua infância pobre não é o único aspecto que faz de Ronaldinho um improvável aliado de Bolsonaro. Como a maioria dos grandes jogadores brasileiros, é negro e sofreu, inclusive, abuso racista ao longo de sua carreira.

Em 2014, após assinar com o clube mexicano Querétaro, o político local Carlos Manuel Treviño Núñez provocou controvérsias ao chamar Ronaldinho de “macaco”. Quando no Barcelona, ameaçou sair de campo, quando seu companheiro de equipe, o camaronês Samuel Eto’o, foi alvo de insultos racistas por parte dos fãs adversários.

Bolsonaro tem uma longa história de incendiários comentários racistas. Em abril, durante uma palestra no clube social judaico A Hebraica no Rio de Janeiro, comentou uma visita que fez a um quilombo, afirmando que “a pessoa negra mais leve pesava sete arrobas”, uma unidade de peso usada historicamente para os escravos. E continuou dizendo que os quilombolas “não servem nem pra procriar” e que o governo estava desperdiçando dinheiro ajudando essas comunidades.

Em 2011, Bolsonaro apareceu em horário nobre como convidado do programa CQC, protagonizado por Marcelo Tas na TV Bandeirantes. Ao discutir a política de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras, declarou que “não viajaria em um avião pilotado por um cotista, nem se deixaria operar por um médico cotista”. Posteriormente, argumentou que a Fundação Nacional Indígena estava roubando terras dos brancos para “entregar aos negros e aos índios “.

Ronaldinho está longe de ser o primeiro jogador de futebol brasileiro a endossar a demagogia de Bolsonaro. Felipe Melo, anteriormente da seleção brasileira e atualmente jogando no Palmeiras, postou um vídeo nas mídias sociais no Dia Internacional dos Trabalhadores em 2017, elogiando o candidato de extrema-direita.

“Deus abençoe todos os trabalhadores e pau nos vagabundos! Bolsonaro neles!”, rosnou Melo, em um tom digno de sua personalidade agressiva e muitas vezes violenta no campo. Dias depois, outro ex-jogador da seleção brasileira, Jadson, do rival Corinthians, juntou-se a Melo em apoio ao candidato patriota, afirmando que “viu algumas das entrevistas [do Bolsonaro] no YouTube e ele parece ser uma boa pessoa”. E continuou dizendo que, se Bolsonaro fosse candidato à presidência, votaria nele, citando, como justificativa, “a luta do candidato para preservar os valores familiares”.

O apoio de Melo e Jadson a Bolsonaro pode ser explicado pelo fato de que ambos são cristãos evangélicos, um segmento da população que dá significativo apoio à Bolsonaro. Embora se defina como católico, Bolsonaro viajou recentemente para Israel, onde foi batizado no rio Jordão por um pastor evangélico. Desde então, fez do fundamentalismo cristão parte fundamental de sua plataforma política, na tentativa de obter apoio de um grupo que, há décadas, busca controle sobre a presidência do país para defender sua “herança judaico-cristã”.
Deixados para trás

Antes de serem representados pelos apoiadores de Bolsonaro, Palmeiras e Corinthians tinham uma história bem diferente. Ambos nasceram em áreas da classe trabalhadora e foram fundados por imigrantes. Em 1945, os dois rivais organizaram um amistoso para arrecadar fundos para o Partido Comunista Brasileiro, com as equipes entrando em campo atrás dos símbolos icônicos do martelo e da foice.

Esse episódio reflete mais precisamente uma tradição do futebol brasileiro que, na maior parte de sua história, esteve firmemente ligado à esquerda. Na década de 80, um grupo de jogadores do Corinthians formou a famosa Democracia do Corinthians, liderada pelo meio de campo Sócrates. O movimento se apoiava na ideia de que todos no Corinthians deveriam ter uma opinião nos assuntos do clube, desde o presidente até os jogadores e a equipe de treinadores. Essa era, na verdade, uma resposta à maneira tradicionalmente autoritária na administração dos times de futebol brasileiros na época. Mais importante ainda: serviu de desafio à ditadura militar e a uma lição de democracia.

Antes ainda, durante o governo Médici, conhecido como os anos do “Milagre Econômico e da Tortura Oficial” (1968-1974), outro jogador rebelde famoso, Afonsinho, ajudou a desafiar o regime, fazendo campanha contra as relações arcaicas entre os clubes de futebol e seus jogadores. Na época, os clubes brasileiros possuíam licenças para cada membro de sua equipe, tirando a liberdade dos jogadores na assinatura dos contratos, tratando-os, essencialmente, como uma propriedade do clube. Em 1970, Afonsinho foi desempoderado pelo Botafogo, onde atuou como representante de seus companheiros de equipe, exigindo que seus salários fossem pagos em dia. Foi emprestado ao pequeno clube Olaria, período que se formou em medicina.

Ao retornar ao Botafogo, Afonsinho apareceu no primeiro dia de treinamento com cabelos longos, encaracolados e barba desalinhada. Marcado como “subversivo” por seu aspecto “comunista”, foi impedido de jogar para o time e, como o Botafogo possuía sua licença, Afonsinho não tinha permissão de se transferir para outro clube.

Afonsinho levou sua luta ao tribunal, da qual saiu vencedor, conquistando o controle de sua própria licença e liderando uma revolução entre seus pares. Politicamente ativo desde jovem, Afonsinho quase assumiu a luta armada em 1968, após o estudante de dezoito anos, Edson Luis Souto, ter sido assassinado nas mãos da polícia militar no Rio de Janeiro.

O grande time de 1970 – com Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino – foi treinado antes da Copa do Mundo por João Saldanha, militante do Partido Comunista. Saldanha substituiu Vicente Feola, depois que o time não conseguiu progredir da fase de grupos da Copa do Mundo de 1966, e levou-os a um recorde perfeito de qualificação, com vinte e três gols marcados e apenas dois sofridos.

Recrutado pelo Partido Comunista durante o levante de 1935, Saldanha continuaria a desempenhar um papel importante no movimento sindical do país, principalmente durante a Greve dos 300 mil em 1953. Durante seu tempo como treinador da fabulosa Seleção do Brasil, lutou para limitar a influência da ditadura sobre a associação de futebol do país – uma campanha que o levou a ser retirado do comando da seleção na véspera da Copa do Mundo em 1970.

Mais recentemente, o antigo meio de campo do Lyon, Juninho Pernambucano, apontou para Bolsonaro e seus seguidores. Encontrando-se sob cerco por compartilhar um post no Twitter, quando mostrou sua preocupação com a trajetória da direita no Brasil, Juninho disse não querer ser seguido por Bolsominions, afirmando que preferia interagir com pessoas com mais “qualidades humanas”. Acabou, em seguida, entrando em uma discussão com o filho de Bolsonaro, que Juninho acusou de preconceituoso e desrespeito à igualdade.

Mas Juninho representa uma rara voz próspera entre essa geração de futebolistas brasileiros. Mais conhecido por sua incursão na política está o atacante Romário, que teve seu auge no futebol dos anos 90, e mais recentemente se tornou deputado e depois senador.

Apesar de suas proeminentes e valiosas campanhas contra a corrupção no futebol, seus partidos escolhidos – o Partido Socialista e Podemos (PODE) – são mais uma variedade de partidos de centro estilo Blairite (uma referência aos apoiadores e às ideias políticas do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair). Romário também apoiou o golpe contra Dilma, assim como a maioria dos futebolistas brasileiros pesquisados em 2016.

Na eleição presidencial de 2014, Neymar e o atacante aposentado Ronaldo apoiaram o candidato centrista Aécio Neves, do PSDB. A transição das raízes de esquerda do esporte brasileiro para uma disposição mais elitista provavelmente reflete sua ascensão a uma indústria de multi-trilhões de dólares em todo o mundo, com todas as recompensas que traz para os jogadores brasileiros. O fato é que os futebolistas famosos ndo Brasil são homens muito ricos que vivem em grandes cidades, segmentos da população mais propensos a se oporem à política de esquerda. A pesquisa mais recente do Datafolha mostra Lula com 16% entre os muito ricos, menos de metade da votação do ex-presidente entre a população em geral. Sem surpresa, Jair Bolsonaro lidera a pesquisa nesse segmento com 24%.

Ainda não está claro até onde vai essa jornada de Ronaldinho com Bolsonaro. Desde que se aposentou do futebol profissional em 2015, Ronaldinho saltou de um projeto para outro, nunca se mantendo por muito tempo em nenhum deles. Jogou para dezenas de clubes nas Américas em amistosos, tentou o ramo da música, jogou na liga indiana de futebol de salão, que abandonou após duas partidas, e foi pioneiro no novo esporte estilo “teqball”, uma mistura de tênis de mesa com técnica de futebol-vôlei (Futevôlei).

Em abril de 2017, em entrevista à revista de futebol britânico “FourFourTwo”, Ronaldinho foi perguntado se tinha alguma ambição de entrar para a política. Com seu marcante sorriso cheio de dentes, respondeu: “De forma alguma. Quero fazer mais pelo Futevôlei para torná-lo um esporte olímpico “.

Se ele decidir voltar atrás e concorrer para o Senado, Ronaldinho entrará em uma corrida difícil. A notícia do Globo sugeriu que ele sairia por Minas Gerais, onde competiria com Dilma Rousseff e Aécio Neves. A julgar pelo seu recente condicionamento físico, provavelmente é uma corrida que ele driblará.

Sobre o autor

Euan Marshall é um jornalista escocês que vive em São Paulo. É co-autor de "A to Zico: An Alphabet of Brazilian Football".

1 de janeiro de 2018

O modelo da propaganda revisitado

Edward S. Herman

Monthly Review

Tradução / Em Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media (Pantheon, 1988) Noam Chomsky e eu avançamos um "modelo de propaganda" como quadro para a análise e o entendimento de como os meios de comunicação de referência dos EUA trabalham e porque atuam como o fazem. Estávamos há muito impressionado pela regularidade com que os meios de comunicação operam dentro de suposições restritas, dependendo fortemente e acriticamente de fontes de informação da elite e participando em campanhas de propaganda que ajudam os interesses da elite. Ao tentam explicar porque eles assim o fazem procuramos fatores estruturais como as únicas raízes possíveis deste comportamento sistemático e padrões de desempenho.

O modelo de propaganda estava e está em contraste nítido com as explicações prevalecentes do comportamento e desempenho dos meios de comunicação de referência (mainstream) – tanto a liberal como a conservadora. Estas abordagens subestimam factores estruturais, pressupondo geralmente sua pouca importância ou impacto positivo devido à multiplicidade de agentes e, portanto, competição e diversidade. Os analistas liberais e conservadores enfatizam a conduta jornalística, a opinião pública e as fontes de notícias como as principais variáveis determinantes. Contudo, os analistas são inconsistentes a este respeito. Quando discutem sistemas de media em estados comunistas ou autoritários, a ideia de que jornalistas ou opinião pública podem suprimir a força daqueles que possuem e controlam os media é afastada como absurda e considerada mesmo uma apologia da tirania.

Também há uma diferença característica entre as implicações políticas do modelo de propaganda e a sabedoria convencional. Se fatores estruturais modelam o contorno vasto do desempenho dos meios de comunicação e se esse desempenho é incompatível com uma cultura política verdadeiramente democrática, então é necessária uma mudança básica na propriedade, organização e propósito dos meios de comunicação para alcançar uma democracia genuína. Nas análises convencionais uma tal perspectiva é politicamente inaceitável e argumentos em seu apoio raramente são sujeitos a debate.

Neste artigo descreverei o modelo de propaganda, tratarei de algumas das críticas que foram apontadas contra ele e discutirei como o modelo se mantém aproximadamente uma década após a sua publicação.[1] Também apresentarei alguns exemplos de como o modelo de propaganda pode ajudar a explicar a natureza da cobertura pelos meios de comunicação de tópicos políticos importantes na década de 1990.

O modelo de propaganda

O que é o modelo de propaganda e como funciona? Os fatores estruturais cruciais decorrem do fato de que os meios de comunicação dominantes estão firmemente inseridos no sistema de mercado. Eles são negócios à procura de lucro, possuídos por pessoas muito ricas (ou outras companhias); são financiados em grande medida por anunciantes que são também entidades em busca do lucro e que querem que os seus anúncios apareçam num ambiente propício às vendas. Os meios de comunicação também estão dependentes do governo e de grandes firmas de negócios como fontes de informação, e tanto a eficiência como considerações políticas, e frequentemente interesses sobrepostos, fazem com que um certo grau de solidariedade prevaleça entre o governo, grandes meios de comunicação e outros negócios corporativos. O governo e grandes negócios não-meios de comunicação também estão melhor posicionados (e são suficientemente ricos) para serem capazes de pressionar os meios de comunicação com ameaças de retirada de publicidade ou licenças de TV, processos por difamação e outros modos de ataque direto e indireto. Os meios de comunicação também estão constrangidos pela ideologia dominante caracterizada por forte anti-comunismo antes e durante a era da Guerra Fria e foi mobilizada muitas vezes para evitar que os meios de comunicação de criticassem ataques a pequenos estados rotulados como comunistas.

Estes fatores estão todos ligados, refletindo a capacidade em múltiplos níveis de poderosas entidades de negócios, governamentais e coletivas (ex.: Business Roundtable; U.S. Chamber of Commerce; lobbies industriais e grupos de frente) para exercer poder sobre o fluxo de informação. Notamos que os cinco fatores envolvidos – propriedade, publicidade, fontes, crítica e ideologia anti-comunista – atuam como "filtros" através dos quais a informação deve passar e que individualmente e muitas vezes de modo cumulativo eles ajudam a moldar as escolhas da mídia. Enfatizamos que os filtros atuam principalmente através da ação independente de muitos indivíduos e organizações; estas frequentemente, mas nem sempre, partilham uma visão comum de questões e interesses semelhantes. Em suma, o modelo de propaganda descreve sistema de controle e processamento via mercado descentralizado e não-conspiratório, embora por vezes o governo ou um ou mais atores privados possam tomar iniciativas e mobilizar a manipulação coordenada da elite de uma questão.

Campanhas de propaganda podem ocorrer só quando em consonância com os interesses daqueles que controlam e administram os filtros. Exemplo: todos estes administradores aceitam a visão de que a medida de força do governo polaco sobre o sindicato Solidariedade em 1980-81 era extremamente valiosa em termos de notícia e merecia severa condenação; enquanto os mesmos interesses não acharam que a igualmente brutal medida de força do governo militar turco contra os sindicatos na Turquia, cerca da mesma época, fosse valiosa em termos de noticiário ou repreensível. Neste último caso, o governo dos EUA e a comunidade de negócios gostava da posição anti-comunista do governo militar e da abertura de portas em política econômica; e a medida de força contra os sindicatos turcos tinha o mérito de enfraquecer a esquerda e manter salários baixos. No caso polaco, pontos de propaganda podiam ser marcados contra um governo apoiado pelos soviéticos e podia ser exprimida preocupação por trabalhadores cujos salários não eram pagos pelos patrões do Mundo Livre!

A adaptação desta dicotomia a interesses corporativos e à ideologia anti-comunista é óbvio.

Utilizamos os conceitos de vítimas "valiosas" e "não valiosas" para descrever esta dicotomização, com um traço de ironia, pois o tratamento diferencial era claramente relacionado com vantagens políticas e econômicas ao invés de qualquer coisa como valor real. De fato, os sindicalistas polacos rapidamente deixaram de ser valiosos quando o comunismo foi derrubado e os trabalhadores estavam a lutar contra um regime neoliberal orientado pelo ocidente. Agora, o trabalho de operários polacos, tal como aquele de operários turcos, já não passa através dos filtros do modelo de propaganda. Ambos são vítimas sem valor nesta altura.

Nunca afirmamos que o modelo de propaganda explica tudo ou que mostra a omnipotência da mídia e eficácia completa na manufaturação do consentimento. É um modelo de comportamento e desempenho da mídia, não dos seus efeitos. Apontamos explicitamente para os meios de comunicação alternativos, para fontes de informação das bases e para o ceticismo público acerca da veracidade da mídia como limites importantes quanto à eficácia da mídia no serviço de propaganda – e instamos ao apoio e utilização mais eficaz destas alternativas. Frequentemente apontamos para o desacordo do público geral para com a mídia e a elite quanto à moralidade da Guerra do Vietnã e a desejabilidade do assalto à Nicarágua na década de 1980 (dentre outros assuntos). O poder do sistema de propaganda dos EUA repousa na sua capacidade para mobilizar um consenso da elite, dar a aparência de consentimento democrático e criar bastante confusão, incompreensão e apatia na população geral a fim de permitir que os programas da elite sigam em frente. Também enfatizamos o fato de que muitas vezes há diferenças dentro da elite, o que abre espaço para algum debate e mesmo ataques ocasionais (mas muito raros) sobre as intenções, bem como os meios tácticos de a elite alcançar os seus fins.

Embora o modelo de propaganda fosse geralmente bem recebido na esquerda, alguns queixaram-se de um impulso alegadamente pessimista e da implicação de que não havia esperança de ultrapassar as disparidades. Uma objeção estreitamente relacionada era a sua inaplicabilidade a conflitos locais onde a possibilidade de resistência efetiva era maior. Mas o modelo de propaganda não sugere que vitórias locais e mesmo maiores sejam impossíveis, especialmente onde as elites estão divididas ou têm interesse limitado numa questão. Exemplo: a cobertura de questões como controle de armas, oração nas escolas e direito ao aborto pode muito bem receber um tratamento mais variado do que, digamos, comércio global, tributação e política econômica. Além disso, campanhas bem organizadas em favor do trabalho, direitos humanos ou organizações ambientais a combaterem contra negócios locais abusivos podem por vezes obter cobertura positiva da mídia. De fato, gostaríamos de pensar que o modelo de propaganda sugere mesmo onde e como ativistas podem melhor empregar seus esforços para influenciar a cobertura da mídia de referência de certas questões.

O modelo sugere que a mídia de referência, como instituições da elite, habitualmente estruturam as notícias e permitem o debate só dentro dos parâmetros dos interesses da elite; e que quando a elite está realmente preocupada e unificada e/ou quando cidadãos comuns não estão conscientes do seu próprio interesse em uma questão ou estão imobilizados pela propaganda eficaz, os meios de comunicação servirão interesses da elite de forma intransigente.

Críticas dos liberais e acadêmicos "de esquerda"

Muitos liberais e um certo número de analistas acadêmicos à esquerda não gostaram do modelo de propaganda. Alguns deles consideraram repugnante uma condenação generalizada de um sistema no qual desempenham um papel respeitado. Para eles, trata-se de um sistema basicamente são, suas desigualdades de acessos são lamentáveis mas toleráveis, seu pluralismo e competição respondem efetivamente a exigências do consumidor. No modo pós-modernista, as análises globais e soluções globais são rejeitadas e ridicularizadas; lutas individuais e pequenas vitórias são enfatizadas, mesmo por pensadores nominalmente de esquerda.

Muitas das críticas efetuadas mal escondem a ira. E na maior parte o modelo de propaganda foi descartado com uns poucos clichês superficiais (conspiratório, simplista, etc) sem a mínima apresentação do modelo ou sujeição do mesmo a um teste de evidência. Deixem-me discutir brevemente algumas das críticas principais.

Teoria da conspiração. Explicamos em Manufacturing Consent que análises críticas como a nossa inevitavelmente provocariam gritos de teoria da conspiração e, num esforço fútil para impedir isto, dedicamos várias páginas do prefácio a mostrar que o modelo de propaganda é melhor descrito como um "sistema guiado pelo mercado" e explicitamente rejeitamos a conspiração. Os críticos convencionais (mainstream) não podiam abandonar a acusação, parcialmente porque sabiam que acusar falsamente uma crítica radical de teoria da conspiração não lhes custaria nada e parcialmente por causa da sua suposição superficial de que uma vez que os meios de comunicação abrangem milhares de jornalistas e companhias "independentes" qualquer consideração de que eles seguem uma "linha do partido" ao serviço do estado deve repousar sobre uma conspiração assumida. (De fato ela pode resultar de uma crédula aceitação generalizada de notas oficiais para a imprensa, crenças comuns internalizadas, temor de represália por análises críticas, etc) O modelo de propaganda explica o comportamento e desempenho dos meios de comunicação em termos estruturais e concentra-se em um incomensurável desvio de atenções (red herring). Todos nós sabemos que os meios de comunicação e os jornalistas enganam-se em conjunto – alguns sem dúvida internalizam uma linha de propaganda como verdade, alguns podem saber que é falsa, mas o caso é inescrutável e irrelevante.

Falha em considerar o profissionalismo e objetividade da mídia. O professor de comunicações Daniel C. Hallin argumentou que falhamos em considerar a maturidade do jornalista profissional, o qual, afirmou ele, é "central para o entendimento de como opera a mídia". Hallin também declarou que na proteção e reabilitação da esfera pública "o profissionalismo é certamente parte da resposta".[2]

Mas o profissionalismo e as regras da objetividade são difusas, flexíveis, e manifestações superficiais de um poder mais profundo e de controle de relacionamentos. O profissionalismo ascendeu no jornalismo naqueles anos em que o negócio dos jornais estava a tornar-se menos competitivo e mais dependente da publicidade. O profissionalismo não era um movimento antagonista dos trabalhadores contra os proprietários da imprensa, mas era ativamente encorajado por muitos destes últimos. Ele deu uma insígnia de legitimidade ao jornalismo, assegurando ostensivamente aos leitores que as notícias não seriam influenciadas pelos preconceitos dos proprietários, anunciantes ou dos próprios jornalistas. Em certas circunstâncias proporcionou um grau de autonomia, mas o profissionalismo também internalizou alguns dos valores comerciais mais queridos dos proprietários dos meios de comunicação, como confiar em fontes oficiais baratas como fonte de notícias críveis. Como observou Ben Bagdikian, o profissionalismo tornou os jornalistas inconscientes quanto aos compromissos com a autoridade que estão constantemente a fazer. Mesmo Hallin reconhece que o jornalismo profissional pode permitir algo próximo do controle governamental total via dominação das fontes.

Apesar de Hallin afirmar que o modelo de propaganda não pode explicar o caso da cobertura dos meios de comunicação das guerras na América Central na década de 1980, onde houve considerável hostilidade interna às políticas de Reagan, de fato o modelo da propaganda funcionou ali extremamente bem, ao passo que o foco de Hallin sobre o "profissionalismo" fracassou abissalmente. Hallin reconheceu que "a administração foi capaz mais frequentemente do que não de prevalecer na batalha para determinar o molde dominante da cobertura televisiva", "os padrões vastos de moldagem da narrativa podem ser quase inteiramente responsabilizados pela evolução da política e do debate da elite em Washington" e "declarações coerentes de visões alternativas da ordem mundial e da política dos EUA raramente apareceram nos noticiários". [3] Isto é exatamente o que o modelo da propaganda prognosticaria. E se, como sustentou Hallin, uma maioria do público se opusesse à visão da elite, que espécie de "profissionalismo" permite uma virtualmente completa supressão das questões tal como a maioria o percebe?

Hallin menciona uma "perspectiva alternativa emergente" na reportagem sobre El Salvador – um enquadramento nos "direitos humanos" – que "nunca avançou". O modelo da propaganda pode explicar porque nunca avançou; Hallin não. Com 700 jornalistas presentes nas eleições salvadorenhas de 1982, alegadamente "muitas vezes céticos" quanto à integridade eleitoral, porque é que isto resultou numa "vitória de relações públicas" para a administração e uma grande falsificação da realidade (como descrito no Manufacturing Consent )? [4] Hallin não explicou isto. Ele nunca mencionou o Gabinete de Diplomacia Pública ou o despedimento do repórter Raymond Bonner e o trabalho das máquinas de blindagem (flak). Ele nunca explicou o fracasso dos meios de comunicação em informar mesmo uma minúscula fracção dos crimes dos contras na Nicarágua e os esquadrões da morte de El Salvador e da Guatemala, em contraste com a sua inflação de malfeitorias sandinistas e duplos padrões na reportagem sobre a eleição da Nicarágua de 1984. Dadas as divisões da elite e a hostilidade pública à política de Reagan, a subserviência da mídia foi fenomenal e comprovadamente excedeu aquilo que o modelo da propaganda podia ter antecipado. [5]

Fracasso em explicar a oposição e resistência continuadas. Tanto Hallin como o historiador Walter LaFeber (em uma revista no New York Times ) apontaram a continuada oposição à política de Reagan na América Central como de certo modo incompatível com o modelo. Estes críticos deixaram de compreender que o modelo de propaganda é acerca de como a mídia funciona, não quão eficazes são. Pela lógica desta forma de crítica, se muitos soviéticos não engolissem os escritos do Pravda isto demonstraria que este não estava ao serviço da propaganda do estado.

Modelo de propaganda demasiado mecânico, funcionalista, ignora a existência de espaço, contestação e interação. Este conjunto de críticas está no cerne das reações negativas dos analistas sérios à esquerda do centro, tais como Philip Schlesinger, James Curran, Peter Golding, Graham Murdoch e John Eldridge, bem como de Hallin. Destes críticos, só Schlensinger tanto resume os elementos do nosso modelo como discute a nossa prova. Ele reconhece que os estudos de caso apresentam casos impressionantes, mas acaba no fim por considerar "uma visão altamente determinista de como a mídia opera complementado por uma concepção funcionalista direta da ideologia". [6] Especificamente, deixamos de explicar os pesos a serem dados aos nossos cinco filtros; não permitimos influências externas, não apresentamos uma "análise completa dos modos pelos quais opera-se a dinâmica econômica para estruturar tanto a amplitude como a forma das apresentações da imprensa" (citando Graham Murdoch); e apesar de avançar "um modelo de efeitos poderosos" admitimos que o sistema não é todo-poderoso, o que põe em questão nosso determinismo.

A crítica do modelo de propaganda por ser determinista ignora várias considerações importantes. Qualquer modelo envolve elementos deterministas, de modo que isto é um espantalho a menos que os críticos também mostrem que o sistema não é logicamente consistente, opera sobre premissas falsas ou que o poder previsional das variáveis determinantes é fraco. Os críticos muitas vezes reconhecem que os estudos de caso que apresentamos são poderosos, mas não mostram onde o alegado determinismo conduz ao erro nem tão pouco apresentam ou apontam modelos alternativos que cumprissem melhor essa tarefa. [7]

O modelo de propaganda trata de conjuntos de eventos extraordinariamente complexos e pretende só oferecer um quadro de análise vasto que exige modificação conforme os muitos locais e fatores especiais – e pode ser inteiramente não aplicável em alguns casos. Mas eles oferece uma percepção em numerosos casos importantes que têm efeitos vastos e força ideológica cumulativa, é defensável a menos que um melhor modelo seja proporcionado. Habitualmente os críticos sabiamente apegam-se a generalidades e não apresentam qualquer pormenor crítico e modelo alternativo; quando apresentam alternativas, os resultados não são impressionantes. [8]

A crítica do modelo de propaganda por funcionalismo também é dúbia e os críticos por vezes parecem apelar a mais funcionalismo. O modelo descreve um sistema no qual os meios de comunicação servem a elite, mas por processos complexos incorporados dentro do modelo como meios pelos quais os poderosos protegem os seus interesses naturalmente e sem conspiração aberta. Isto pareceria um dos méritos do modelo de propaganda; ele mostra uma dinâmica e um sistema auto-protetor em operação. A mesma comunidade corporativa que influencia os meios de comunicação através do seu poder como proprietário, financiador dominante (publicidade) e uma fonte importante de notícias subscreve também o Accuracy in Media e o American Enterprise Institute para influenciar os meios de comunicação através da importunação e do fornecimento de peritos "saudáveis". Críticos do funcionalismo do modelo de propaganda, como Eldridge e Schlensinger, contraditoriamente apontam para o mérito de análise que focam sobre "como fontes organizam estratégias da mídia" para atingirem seus fins. Aparentemente é admirável analisar estratégias micro-corporativas para influenciar a mídia, mas focar sobre esforços corporativos globais para influenciar a mídia – juntamente com os efeitos complementares de milhares de estratégias locais – é funcionalismo ilegítimo!

Também não é verdade que o modelo de propaganda não implique constrangimentos sobre proprietários/administradores dos meios de comunicação. Nós explicamos claramente as condições que os afetam quando os meios de comunicação são relativamente abertos ou fechados – principalmente desacordos entre a elite e a medida em que outros grupos na sociedade estão interessados em, informados acerca e organizados para combater acerca de tais questões. Mas o modelo de propaganda não parte da premissa de que uma economia política crítica formulará cabalmente a análise do locus do controle dos meios de comunicação e os mecanismos pelos quais os poderosos são capazes de dominar o fluxo de mensagens e limitar o espaço de partes contestantes. Os limites do seu poder certamente são importantes, mas porque deveriam eles vir em primeiro lugar, exceto como um meio de minimizar o poder dos interesses dominantes, inflacionar os elementos de contestação e pretender que os marginalizados têm mais poder do que realmente possuem?

Relevância reforçada do modelo de propaganda

As mudanças dramáticas na economia, indústrias e políticas de comunicação durante a última década tenderam a reforçar a aplicabilidade do modelo de propaganda. Os primeiros dois filtros – propriedade e publicidade – tornaram-se ainda mais importantes. O declínio da rádio-televisão pública, o aumento do poder corporativo e do seu alcance global, e as fusões e centralização dos media tornaram as considerações básicas mais dominantes. A competição para atender anunciantes tornou-se mais intensa. As redacções foram incorporadas mais a fundo nos impérios corporativos transnacionais, com recursos reduzidos e ainda menos entusiasmo das administrações pelo jornalismo de investigação que desafiaria a estrutura do poder. Em suma, a autonomia profissional dos jornalistas foi reduzida.

Alguns argumentam que a Internet e as novas tecnologias de comunicação estão a romper a camisa de força sobre o jornalismo e abrem uma era sem precedentes de media democrática interactiva. Não há evidência a suportar esta visão quanto ao jornalismo e à comunicação de massa. De facto, alguém poderia argumentar que as novas tecnologias estão a exacerbar o problema. Elas permitem às empresas de media contrair as equipes enquanto atingem maiores produções e tornam possíveis sistemas de distribuição global, reduzindo portanto o número de entidades de media. Embora as novas tecnologias tenham grande potencial para a comunicação democrática, deixadas ao mercado há pouca razão para esperar que a Internet sirva finalidades democráticas.

O terceiro e quarto filtros – as fontes e a blindagem (flak) – também foram fortalecidas como mecanismo de influência da elite. Uma redução nos recursos dedicados ao jornalismo significa que aqueles que subsidiam os media através do fornecimento de fontes para copiar ganham maior alavancagem. Além disso, trabalhos de pessoas como Alex Carey, John Stauber e Sheldon Rampton ajudaram-nos a ver como a indústria das relações públicas tem sido capaz de manipular a cobertura de imprensa de questões em favor da América corporativa. A indústria de RP entende como utilizar convenções jornalísticas a fim de atender os seus próprios fins. Estudos de novas fontes revelam que uma proporção significativa das notícias tem origem na indústria das RP. Há hoje, numa contagem conservadora, mais de 20 mil agentes de RP a trabalharem para adulterar as notícias do que jornalistas a escrevê-las.

O quinto filtro – ideologia anti-comunista – estará possivelmente enfraquecido pelo colapso da União Soviética e do socialismo global, mas isto é facilmente compensado pela maior força ideológica da crença no "milagre do mercado" (Reagan). Agora há uma fé quase religiosa no mercado, pelo menos entre a elite, de modo que sem considerar as evidências, mercados são assumidos como benévolos e mecanismos de não-mercado são suspeitos. Quando a economia soviética estagnou na década de 1980, isto foi atribuído à ausência de mercados; quando a Rússia capitalista desintegrou-se na década de 1990 isto verificou-se porque políticos e trabalhadores não estavam a permitir que os mercados operassem a sua mágica. O jornalismo internalizou esta ideologia. Acrescente-se a isto o quinto filtro, num mundo onde o poder global das instituições de mercado faz com que quaisquer outras opções além do mercado pareçam utópicas, dá-nos um pacote ideológico com imensa força.

O modelo de propaganda aplica-se extremamente bem ao tratamento dos media do North American Free Trade Agreement (NAFTA), à subsequente crise mexicana e ao colapso de 1994-95. Mais uma vez houve uma divisão aguda entre as preferências dos cidadãos comuns e a elite e comunidade de negócios, com pesquisas de opinião a mostrarem firmemente maiorias substanciais a oporem-se ao NAFTA – e ao salvamento (bailout) de investidores em títulos mexicanos – mas a elite estava a favor. A cobertura dos noticiários dos media, a selecção de "peritos" e as colunas de opinião foram distorcidas consequentemente; o seu julgamento era que os benefícios do NAFTA eram óbvios, acordados por todas as autoridades qualificadas em que só demagogos e "interesses especiais" a ele se opunham. Meg Greenfield, editorialista do Washington Post, explicou o enorme desequilíbrio na sua coluna: "Na rara ocasião em que colunistas da esquerda, direita e centro estão todos de acordo... não acredito que seja correcto criar um equilíbrio artificial onde não existe nenhum". [9] Mas com a maioria do público a opor-se ao NAFTA, a unidade pró NAFTA entre os sabichões simplesmente realçou o enorme viés de tais sabichões. Pode ser valioso observar que as corporações de media transnacionais têm um auto-interesse diferente nos acordos comerciais globais, pois elas estão entre as sua primeiras beneficiárias.

O viés pró corporativo e anti-trabalho dos media de referência também foi evidente nas denúncias editoriais (tanto no New York Times como no Washington Post) de tentativas do movimento trabalhista no sentido de influenciar votações sobre o NAFTA, sem qualquer crítica comparável do lobbying e RP corporativo ou governamental (estado-unidense e mexicano). Depois de ter louvado o modesto movimento trabalhista e os acordos de protecção ambiental tardiamente acrescentados ao NAFTA, os media então deixaram de acompanhar sua aplicação e, de facto, quando o trabalho tentou utilizar suas disposições para impedir ataques à organização sindical no México, a imprensa ignorou o caso ou ridicularizou-o como "agressão" trabalhista. [10] Com o colapso mexicano iniciado em Dezembro de 1994, os media deixaram claro que o NAFTA não devia ser culpado e, num virtual fileira cerrada, apoiaram o salvamento(bailout) mexicano (dos investidores), apesar dos inquéritos de opinião quanto à maciça e generalizada oposição pública. Peritos e media reiteradamente explicaram que o mérito do NAFTA era o de ter "trancado o México dentro [do NAFTA] de modo a que não pudesse recorrer a controles para proteger-se da severa deflação. Eles abstraíram-se da natureza profundamente anti-democrática desta tranca. [11]

Tal como é sugerido pelo tratamento do NAFTA e do direito do trabalho a participar nos seus debates, o modelo de propaganda aplica-se tanto a questões internas como estrangeiras. O trabalho tem estado acossado nos Estados Unidos durante os últimos quinze anos, mas dificilmente se saberia isto a partir dos media de referência. A anulação de certificações de sindicatos, a utilização de trabalhadores de substituição e as longas e debilitantes greves como aquela que envolveu a Caterpillar foram tratadas de um modo muito contido. E numa notável ilustração da aplicabilidade do modelo de propaganda, à longa greve dos mineiros de Pittston foi concedida muito menos atenção do que à greve de mineiros na União Soviética. [12] Durante anos os media dispuseram da evidência de que a maioria dos cidadãos comuns estavam a sair-se mal na Nova Ordem Económica Mundial mas consideraram ser isso de interesse marginal; eles "descobriram" esta questão só sob o ímpeto dos clamores populistas de Pat Buchanan, da extrema-direita.

A cobertura das "guerras da droga" é bem explicada pelo modelo de propaganda. [13] Na controvérsia de 1992-93 do seguro de saúde, os media recusaram-se a tomar a sério a opção do pagador único (single-payer), apesar do aparente apoio público generalizado e da eficácia do sistema no Canadá, o que servia muito bem os interesses do complexo de seguros e serviços médicos. A informação e comentários acríticos dos media sobre a alegada urgência de contenção fiscal e de um orçamento equilibrado nos anos 1992-96 ajustava-se bem ao desejo da comunidade de negócios de reduzir o orçamento social e enfraquecer a regulamentação, culminando no Contract with America. [14] A aplicabilidade do modelo de propaganda neste e em outros casos parece clara.

Nota final

Em retrospectiva, talvez devêssemos ter deixado mais claro que o modelo de propaganda era acerca do comportamento e do desempenho dos meios de comunicação, com efeitos incertos e variáveis. Talvez devêssemos ter explicado com mais pormenor as forças concorrentes tanto dentro como fora dos meios de comunicação e as condições sob as quais estas provavelmente são influentes. Mas nós claramente abordamos estes pontos e é bastante possível que nada do que pudéssemos ter feito teria impedido de sermos etiquetados como teóricos da conspiração, deterministas rígidos e negadores da possibilidade de que o povo possa resistir (mesmo quando apelávamos à resistência).

O modelo de propaganda ainda parece um quadro muito viável para analisar e entender os meios de referência – talvez ainda mais do que em 1988. Como observado anteriormente na referência à América Central, ele frequentemente ultrapassa as expectativas da subserviência dos meios de comunicação à propaganda governamental. E ainda estamos à espera de que os nossos críticos apresentem um modelo melhor. 

Notas:

[1] Noam Chomsky analisa algumas destas críticas no seu Necessary Illusions (Boston: South End, 1989), appendix l.
[2] Daniel C. Hallin, We Keep America on Top of the World: Television Journalism and the Public Sphere (London: Routledge, 1994), 13, 4.
[3] Hallin, We Keep America on Top of the World , 64, 74, 77.
[4] Hallin, We Keep America on Top of the World , 72.
[5] Para documentação irrefutável sobre esta subserviência extraordinária, ver Chomsky, Necessary Illusions, 197–261.
6. Philip Schlesinger, "From Production to Propaganda?" Media, Culture and Society 11, no. 3 (1989): 283–306.
7. Deveria ser observado que os estudos de caso em Manufacturing Consent são apenas uma pequena porção daqueles que Chomsky e eu fizemos, os quais suportam a análise do modelo de propaganda. Uma menção especial deveria feita àqueles que cobrem o Médio Oriente, a América Central e o terrorismo. Ver especialmente Necessary Illusions, The Fateful Triangle (London: Pluto, 1983) e Pirates & Emperors (Montreal: Black Rose, 1987) de Chomsky, bem como o meu The Real Terror Network (Boston: South End, 1982) e (with Gerry O'Sullivan) The Terrorism Industry (New York: Pantheon, 1989).
8. De facto, a única tentativa de apresentar um modelo alternativo foi a de Nicholas Lemann no New Republic . Para uma análise deste esforço, verNecessary Illusions ,145-48, de Chomsky.
9. Howard Kurtz, "The NAFTA Pundit Pack," Washington Post , November 19, 1993.
10. Para uma discussão ver Edward Herman, "Labor Aggression in Mexico," Lies of Our Times (December 1994): 6–7.
11. Para discussões do tratamento pelos media do NAFTA e do colapso mexicano, ver Thea Lee, "False Prophets: The Selling of NAFTA," Economic Policy Institute, 1995; Edward Herman, "Mexican Meltdown: NAFTA and the Propaganda System," Z (September 1995).
12. Jonathan Tasini, " Lost in the Margins: Labor and the Media ," EXTRA! (Summer 1990).
13. Ver Noam Chomsky, Deterring Democracy (London: Verso, 1991), 114–21.
14. "Health Care Reform: Not Journalistically Viable," EXTRA! July–August 1993); John Canham-Clyne, "When 'Both Sides' Aren't enough: The Restricted Debate over Health Care Reform," EXTRA! January-February 1994).

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