26 de junho de 2018

Uma potencial ruptura no México

Andres Manuel Lopez Obrador está prestes a vencer a presidência do México. Ele prometeu aos mexicanos um novo país - ele pode entregar?

Edwin F. Ackerman

Jacobin

Andres Manuel Lopez Obrador na Cidade do México, no México, em 17 de maio de 2018. Hector Vivas / Getty Images

Em sua terceira disputa pela presidência, Andres Manuel López Obrador (AMLO) detém uma vantagem esmagadora de 17 a 20 pontos percentuais no dia das eleições, em 1º de julho. Como em suas tentativas anteriores, há muitos inimigos poderosos. Dois dos homens mais ricos do país pesaram abertamente contra ele, enviando mensagens a seus funcionários alertando contra um “modelo econômico iminente... que dá doações sem ter que trabalhar” e pedindo que votassem para “preservar o sistema econômico que permite que você tenha o seu trabalho."

Os ataques são reciclados a partir de eleições anteriores: a velhice de AMLO (embora tenha apenas 64 anos), o espectro de um desastre ao estilo da Venezuela, um "retorno" às estratégias protecionistas falidas do Partido Revolucionário Institucional (PRI) dos anos 70, o então e agora partido governante. A comentocracia do país - o elenco recorrente de especialistas em televisão e colunistas de opinião - tráfica em hipérbole, alimentando temores de um governo populista autoritário.

AMLO, comandado por seu recém-criado Movimiento de Regeneración Nacional (MORENA), está em uma disputa de quatro vias. Ele enfrenta Ricardo Anaya, um pretenso prodígio neoliberal liderando uma coalizão entre os fragmentos dos partidos históricos de centro-direita e de centro-esquerda (o Partido da Ação Nacional [PAN] e o Partido da Revolução Democrática [PRD]) e atualmente sob investigação por lavagem de dinheiro; José Antonio Meade, o atual burocrata do regime do PRI, com base em uma "expertise" tecnocrática; e Jaime Rodriguez Calderon, que renunciou ao cargo de governador do grande estado de Nuevo León para fazer uma campanha independente como o "outsider" folclórico cuja principal contribuição ao ciclo eleitoral até agora foi sua proposta de cortar as mãos de detentores de cargos corruptos.

Lopez Obrador chegou muito perto de ganhar antes. Em 2006, ele perdeu por menos de 1% dos votos em uma eleição marcada por irregularidades (embora nunca tenha ficado claro quão sistemáticas eram essas). Em 2012, ele perdeu por uma porcentagem maior (6%), em uma eleição com táticas de compra de votos bem documentadas, implementadas pelo vencedor do PRI, Peña Nieto.

AMLO está em evidência nacional desde 2000, quando se tornou prefeito da Cidade do México. O que explica seu sucesso astronômico agora?

Um status quo em desordem

O estado atual do país parece confirmar a crítica que AMLO expôs durante sua primeira disputa há doze anos.

O ex-governo Peña Nieto presidiu um crescimento econômico anêmico que deixou os níveis de pobreza - que oscilam em torno de 50% - praticamente intocados. O número de mortos no combate às drogas, já na casa das centenas de milhares, cresceu para um pico histórico no ano passado. Casos de corrupção de alto perfil têm atormentado a administração do PRI. Muitas reformas de livre mercado como a abertura da estatal petrolífera PEMEX ao investimento privado e uma “reforma educacional” destinada a enfraquecer os sindicatos de professores - produziram resultados mansos.

Lopez Obrador usou esses anos para construir uma personalidade anti-establishment. Se os defensores do hardcore agora projetam nele muito mais do que ele realmente promete, é porque sua figura se tornou parte de um subconsciente coletivo. Um anúncio da campanha MORENA que intencionalmente omite o nome dele usou uma frase que chamou a atenção do público em geral: "Seria melhor você saber quem é."

Mas o PRI não é o único grande partido político a entrar no ciclo eleitoral em desordem. O PAN, que governou o país entre 2000 e 2012, transformou-se em uma “oposição opressiva” durante a presidência de Peña Nieto, apoiando a maioria de suas principais reformas propostas em bloco.

Além disso, quando chegou a hora de escolher um candidato para a próxima disputa presidencial, Anaya, então presidente do partido, armou com força na indicação, alienando uma ala inteira do partido comprometida com a candidatura de Margarita Zavala, esposa do ex-presidente Felipe Calderón. Zavala se separou e fez uma disputa de curta duração como independente, acabando por desistir da disputa, já que seus números permaneceram em um único dígito.

O PRD, que nomeou a AMLO em suas duas disputas anteriores, entrou em crise após a derrota de 2012. Os centristas do partido assumiram, cortando laços com AMLO e lançando uma reformulação completa do partido como colaboracionista, "responsável à esquerda".

O partido assinou um "Pacto pelo México", prometendo concentrar-se em objetivos políticos compartilhados com a presidência de Peña Nieto. Isso marcou o início de uma erosão de sua identidade como um partido de oposição esquerdista e condenou qualquer tentativa de encaminhar uma mensagem anti-establishment posteriormente. A coligação do PAN-PRD para esta eleição foi um fracasso.

Um ecumenismo questionável

O sucesso da AMLO, no entanto, veio com alianças políticas questionáveis. Um vasto elenco de velhos adversários mudou a sua mente de forma bizarra.

Muitos oportunistas chegaram à costa do partido, abandonando os navios que afundavam. O pragmatismo testou os princípios mais de uma vez, mais claramente na aliança de MORENA com o Partido Encuentro Social, de inspiração evangélica, conservador. AMLO aceitou todos com pouco a nenhum controle. Isso não é totalmente surpreendente de alguém que, em tenra idade, era ele próprio membro do PRI (mais tarde foi parte da ala esquerda do partido que se fragmentou no final dos anos 80). Não é difícil ver nessas alianças as sementes de escândalos e problemas que estão por vir.

Este "ecumenismo" aparentemente contrasta com seus ataques recorrentes contra, como ele cunhou, a máfia do poder. A “máfia do poder” é uma categoria nebulosa, mas refere-se principalmente aos comparsas de um Estado rentista. Não há lista definitiva de membros; também não é uma classe no sentido sociológico, mas mais uma atitude em relação ao exercício do poder. O gerente de campanha da AMLO (e proeminente empresário) Alfonso Romo, por exemplo, afirma que ele "se converteu longe da máfia do poder".

O conceito permite que a AMLO retenha um discurso político de confrontação sem ter que nomear indivíduos (embora frequentemente o faça), e faça uma crítica a um “sistema” sem precisar especificar posições de classe estruturais. Ele não fala de uma classe capitalista explorando uma classe trabalhadora ou de 1% sobre 99%. Em vez disso, ele traça um cisma muito mais obscuro: uma máfia que roubou o aparato estatal do "povo".

Essa visão limita uma agenda esquerdista mais robusta. Seus detratores à direita vêem nessa constante repreensão da máfia do poder uma perigosa tática de polarização social. Eles estranham, no entanto, que o conceito se baseia no princípio de que os interesses entre classes mais baixas e mais altas não estão fundamentalmente em desacordo e podem ser harmonizados.

Para cada membro da máfia no roteiro de AMLO, há um "empresário socialmente orientado". Aqui, a extrema esquerda está certa ao suspeitar que o MORENA será na verdade um cavalo de Tróia para renovar uma classe alta que atualmente carece de autoridade moral e legitimidade política.

Poucos apoiadores de AMLO estão votando de forma ingênua. Como diz um cartaz de um ativista, parafraseando humoristicamente uma canção famosa: "Ele não é perfeito, mas está próximo do que eu simplesmente sonhei". No entanto, enquanto a esperada vitória de AMLO se aproxima, uma efervescência popular rompe a superfície nas grandes manifestações que ele realiza. em todo o país. Se apenas porque os problemas do país correm tão profundamente, a presidência de Lopez Obrador tem, afinal de contas, o potencial para tirar milhões da pobreza, reconstruir uma nação manchada e expandir os horizontes de exigências políticas aceitáveis. A esquerda está prestes a vencer no México, graças à aposta dos eleitores na possibilidade - e não na certeza - de um novo país.

25 de junho de 2018

O George Orwell político

Assinala-se esta semana os 115 anos do nascimento de George Orwell. Lembrado como um exemplo de lucidez e verdade, ele esteve também muito empenhado na política socialista. 

David N. Smith


Getty

George Orwell Illustrated is out now from Haymarket Books.

Tradução / George Orwell levava a política a sério.

Isso pode parecer óbvio, dado o cariz político disseminado no discurso “Orwelliano” e nas pedras de toque dos seus famosos romances, a revolução bolchevique em A Quinta dos Animais [também intitulado em português O Triunfo dos Porcos] e o controlo totalitário do pensamento em 1984. Mas o nível de imersão de Orwell nas correntes da política radical tem sido quase sempre subestimado. Tanto se falou sobre a sua lendária linguagem clara e o seu pensamento livre que ele agora é, para muitos, um símbolo do pensamento não-doutrinário e mesmo anti-doutrinário.

George Orwell, cujo romance mais aclamado apresenta um panfleto de trinta páginas de um inflamado ideólogo ao estilo de Trotsky sobre “a teoria e a prática do coletivismo oligárquico”, é visto muitas vezes como um ingénuo naif para quem o socialismo era moral em vez de teórico, intuitivo em vez de intelectual. A verdade é mais complexa.

Orwell era um iconoclasta, mas no quadro da tradição socialista, não fora dele. As suas sátiras de excessos ideológicos soavam a verdadeiras porque ele conhecia de perto esses excessos — tanto ideologicamente como culturalmente e teoricamente.

Como agora sabemos, graças às suas Obras Completas publicadas entre 1986 e 1998, Orwell sentia-se em casa nos meandros da política de esquerda. Em 1945, quando ele repreendeu os escritores pró-soviéticos por exagerarem o papel de Estaline na revolução russa, foi buscar as provas a uma fonte inesperada: o homem que tinha sido ministro dos Negócios Estrangeiros de Estaline de 1930 a 1939 e que regressara à função após ser embaixador nos EUA durante a II Guerra Mundial.

“Tenho à minha frente”, escreveu Orwell, “o que deve ser um panfleto muito raro, escrito por Maxim Litvinoff em 1918 a descrever os acontecimentos recentes na Revolução Russa. Não faz nenhuma referência a Estaline, mas faz rasgados elogios a Trotsky, e também a Zinoviev”.

Os leitores que por acaso tenham reparado, de passagem, que os personagens inspirados em Leon Trotsky são centrais tanto em 1984 (Goldstein) como em A Quinta dos Animais (Bola-de-Neve), ficam muitas vezes surpreendidos ao encontrarem discussões em torno do trotsquismo nas cartas e ensaios de Orwell — trotsquismo não-filtrado, herético. No seu ensaio de 1945, “Notas sobre Nacionalismo”, Orwell apresenta um catálogo de tendências políticas, incluindo “3. Trotsquismo”, no qual afirmou que esse termo é frequentemente “usado de forma tão vaga que inclui anarquistas, socialistas democráticos e até liberais. Eu utilizo-o aqui no sentido de um marxista doutrinário” e de “hostilidade ao regime de Estaline”.

Ele avisou, para além disso, contra a confusão entre a doutrina e o seu homónimo: “O trotsquismo pode ser melhor estudado através de panfletos obscuros ou em jornais como o Socialist Appeal do que nas obras do próprio Trotsky, que não era de forma alguma um homem limitado a uma ideia”. Ele interessava-se de igual forma por muitas outras correntes, mais ou menos relevantes.

Isso não era uma excentricidade. Orwell nunca romantizou os grupos de esquerda, mesmo os de quem gostava, como o Independent Labour Party britânico ou a milícia do POUM com quem lutou na Guerra Civil espanhola. Mas ele admirava a divergência e sabia que a construção de uma força de oposição, mesmo pequena, é uma conquista. “Nunca o tinha visto com tanto entusiasmo”, viria a lembrar Arthur Koestler, sobre o momento em que decidiram trabalhar juntos para fundarem uma organização de direitos humanos em 1946.

Quando os grupos a que ele se opunha mas respeitava eram vitimados, ele juntava-se em sua defesa, tanto em privado como publicamente. Durante a guerra foi um crítico acutilante dos resistentes anarquistas, mas quando a Scotland Yard invadiu a sua tipografia em 1944, Orwell publicou uma crítica retumbante na socialista Tribuna.

Quando Vernon Richards e outros foram presos por serem contra a guerra, Orwell aceitou o seu convite para ser o vice presidente do Comité em Defesa da Liberdade. Após a sua libertação, ajudou Richards e Marie Louise Berneri a estabelecerem-se como fotógrafos. Ele acabava de conhecer a fama enquanto autor de A Quinta dos Animais, e as fotos que tiraram (do autor reticente e do seu filho Richard) tinham valor comercial. E também continuam a ser as melhores fotos de Orwell.

Organização implica esforço e coragem, e Orwell não tinha vergonha de começar por baixo. Ele recolheu panfletos até dos grupos mais pequenos, e levou-os a sério. O inventário de 214 páginas da sua coleção de 2.700 artigos inclui panfletos do All-India Congress Socialist Party, People’s National Party (Jamaica), Polish Labour Underground Press, Leninist League, Groupe Syndical Français, Workers’ Friend, Freedom Press, Russia Today, Meerut Trade Union Defence Committee, Anglican Pacifist Fellowship, e tantos outros.

Não é desta forma que Orwell é geralmente conhecido. Os seus editores e os seus críticos capitalizaram a sua morte prematura para promover o estereótipo do firme profeta anti-intelectual, cujas fábulas distópicas nasceram ou do bom senso comum ou da lamentável idiossincrasia.

Nenhum destes estereótipos é útil. Orwell escreveu com lucidez, desprezou as ninharias casuísticas, mas estava longe de ser ingénuo ou anti-intelectual. Mesmo nos anos finais marcados pela tuberculose, com a energia a desfalecer enquanto acabava o 1984, ele lia prolificamente.

Isto foi uma realidade por muitos anos, mas fiquei impressionado qiando descobri no capítulo final das Obras Completas, que Orwell conhecera Ruth Fischer na primavera e verão de 1949. Fischer, que tinha sido por pouco tempo a secretária-geral do Partido Comunista Alemão — antes de cindir com a Rússia em 1926 — acabara de publicar um enorme estudo, Estaline e o Comunismo Alemão, publicado em 1948.

Em Abril de 1949, Orwell escreveu a Fischer: “Certamente já recebeu muitos parabéns, mas gostava de lhe dizer o quanto apreciei ler o seu livro Estaline e o Comunismo Alemão”. Fischer respondeu pouco depois, agradecendo as “palavras motivadoras” e dizendo que esperava “arranjar tempo” para o visitar no Sanatório Cotswold durante a sua próxima visita a Inglaterra. Ela acabara de reler a “muito estimulante” Homenagem à Catalunha de Orwell e esperava poder discuti-la com ele em pessoa.

A 23 de maio, ela voltou a escrever, agradecendo a Orwell por lhe mandar uma cópia de 1984 duas semanas antes de ser publicada. Um mês depois, logo após a visita de Fischer, Orwell escreveu ao seu amigo Tosco Fyvel, que lhe tinha mandado o livro de Fischer: “foi engraçado encontrar alguém que tinha conhecido de perto Radek, Bukarine e outros”.

Em julho, Orwell e Fischer trocaram prendas (Burmese Days de Orwell, chocolates de Fischer) e Orwell pediu o conselho de Fischer acerca de um pedido que recebera de um jornal, POSSEV, acabado de fundar por russos refugiados em Frankfurt. (Fischer também esteve em Frankfurt por pouco tempo).

“Suponho”, perguntava Orwell a Fischer, “que os editores deste jornal são pessoas de boa fé e também não Brancos?” (referindo-se às forças da reação na Rússia revolucionária). Noutra carta, ao seu agente, Orwell indicou que pedira a Fischer para contactar o POSSEV.

Tudo isto aguçou a minha curiosidade. Ruth Fischer é agora uma desconhecida para a maior parte dos estudiosos de Orwell e também ignorada por muitos dos atuais especialistas no comunismo. Mas ela foi formidável, chamada pelo romancista Arthur Koestler de “provavelmente a mulher mais brilhante na história do Comunismo”. Fischer era próxima de vários amigos de Orwell, para além de Koestler, Dwight Macdonald e Franz Borkenau.

Borkenau e Orwell eram há muito próximos politicamente. A primeira vez que Orwell usou a frase “coletivismo oligárquico” foi numa recensão crítica a um dos livros de Borkenau, e viria depois a escrever críticas de outros dos seus livros, incluindo a história crítica da Internacional Comunista em 1938. Em março de 1949, quando David Astor pediu a Orwell que sugerisse um académico que pudesse escrever enquanto especialista sobre a Guerra Civil espanhola, ele propôs Borkenau, por considerar The Spanish Cockpit o melhor livro sobre a guerra espanhola logo em 1938. Quando, no mês seguinte, Celia Paget lhe pediu alguém que fosse de confiança para defender a democracia contra o estalinismo, ele voltou a escolher Borkenau.

Em agosto de 1949, Ruth Fischer e Franz Borkenau encontraram-se com Melvin Lasky, cuja revista em alemão e apoiada pelos EUA Der Monat publicava A Quinta dos Animais em fascículos. Esse encontro num hotel alemão é considerado o cadinho no qual se criou a ideia do Congresso para a Liberdade Cultural. Mais tarde, Fischer escreveu a Lasky desde Paris: “Estou a tratar do projeto para o Congresso de Berlim e encontro apoio em todo o lado. Por exemplo, de Koestler, com quem estive ontem”.

Dois dias depois, Koestler enviou a Fischer uma proposta escrita para uma liga dos direitos humanos “que há uns anos queria fundar com Russell e Orwell. Está desatualizada e foi escrita com um objetivo diferente, mas uma ou outra formulação pode ter alguma utilidade”.

A esse texto, que encontrei no ano passado num arquivo esquecido, chamo “Manifesto de Orwell”. Escrito por Orwell no início de 1946 em diálogo com Koestler e o filósofo Bertrand Russell, este manifesto apela à criação de um novo tipo de grupo pelos direitos humanos, que iria lutar para promover “igualdade de oportunidades” para cada “cidadão recém-nascido”, aprofundar e alargar a democracia, e opor-se à exploração económica. Orwell também esperava promover o “desarmamento psicológico” entre as nações.

Eram objetivos ambiciosos, que apenas foram expostos neste manifesto. Mas eram característicos do Orwell político, cuja orientação era sempre prática, bem como literária.

As crescentes tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética depressa abriram uma clivagem entre Orwell e os seus antigos co-autores, com Koestler e Russell a tornarem-se militantemente russofóbicos. Orwell acreditava que a melhor forma de evitar o perigo de uma terceira e atómica guerra mundial era pressionar para uma livre troca de notícias e opiniões sem fronteiras. Mas os seus antigos colaboradores assumiram uma posição distinta e mais beligerante.

Orwell morreu em janeiro de 1950, pouco antes do encontro fundador do Congresso para a Liberdade Cultural em Berlim. As opiniões divergem sobre se ele se juntaria a Koestler, Russell e Borkenau nessa organização firmemente anti-soviética, que não só alinhou sem pejo com o Ocidente na Guerra Fria, mas também (como se veio depois a descobrir) foi financiada clandestinamente pela CIA.

Koestler duvida que Orwell se teria juntado a eles, dizendo no seu obituário de Orwell que o seu querido amigo George era demasiado idealista para dissolver o seu socialismo ou calar as suas críticas ao capitalismo e ao Ocidente. Essa teimosia, dizia Koestler pesarosamente, era lamentável, pois ele teria gostado de ver Orwell juntar-se a ele no campo dos EUA. Mas, acrescentou, num tom de um tio mais velho e mais sábio, esse idealismo era encantadoramente típico. George era George e pronto.

Koestler retomou desta forma o que se tornou a escolha padrão para tantos dos críticos políticos de Orwell: a acusação de ingenuidade. Em vez de levar Orwell a sério, ele simplesmente caluniou-o enquanto um peculiar inocente, um excêntrico adorável.

Felizmente, o vasto público leitor de Orwell leva-o bem mais a sério. E entre aqueles leitores que vão mais fundo — lendo os seus ensaios menos conhecidos e as suas recensões críticas, bem como os seus romances proféticos — depressa aprendem que a sua ficção tem raízes na familiaridade com a política do mundo real que não é menos especialista por ser despretensiosa. Nestes tempos de desinformação, a clareza política e a integridade são raras e valiosas.

Orwell foi, e continua a ser, um modelo de lucidez, de verdade e de genuíno discernimento. Que ele encontre um público ainda maior.

Sobre o autor
David N. Smith é professor de sociologia na Universidade do Kansas. É o autor do recém lançado livro George Orwell Illustrated, bem como de muitas outras publicações, incluindo Marx’s Capital Illustrated,.

11 de junho de 2018

Se Trump quer explodir a ordem mundial, quem o impedirá?

Por mais horrorizados que possamos estar com as bufonarias de Trump, é importante entender as mudanças tectônicas que as sustentam.

Yannis Varoufakis


"Trump analisa os fluxos de comércio com o resto do G7 e chega a uma conclusão inescapável: ele não pode perder uma guerra comercial". Fotografia: Evan Vucci / AP

Tradução / A saída antecipada de Donald Trump e sua subsequente recusa em endossar o comunicado do G7 lançaram a imprensa em uma apoplexia, refletindo uma incompreensão mais profunda de nossa realidade global em desenvolvimento.

Em uma tentativa de misturar dureza com humor, Emmanuel Macron havia dito que o G7 poderia se tornar o... G6. Isso é absurdo, até porque, sem os Estados Unidos, o capitalismo, como o conhecemos (sem falar nos lamentáveis encontros do G7), desapareceria da face do planeta.

Há, é claro, pouca dúvida de que com Trump na Casa Branca há muita coisa sobre a qual devemos nos angustiar. No entanto, a reação do establishment às peripécias do presidente, nos Estados Unidos e na Europa, é talvez uma preocupação ainda maior para os progressistas, repleta como está de perigosas intenções e profusos erros de cálculo.

Alguns depositaram sua fé na investigação de Mueller, assumindo que Mike Pence seria mais gentil com eles como presidente. Outros estão prendendo a respiração até 2020, recusando-se a considerar a possibilidade de um segundo mandato. O que todos eles não entendem é o real movimento tectônico que sustenta as artimanhas rudes de Trump.

A administração Trump está construindo um impulso econômico substancial no plano doméstico. Primeiro, ele aprovou cortes nos impostos de renda e corporativos que o establishment republicano não poderia ter imaginado em seus sonhos mais loucos há alguns anos. Mas isto não foi tudo. Nos bastidores, Trump surpreendeu Nancy Pelosi, a líder dos democratas na Câmara dos Deputados, aprovando cada programa social que ela pediu a ele. Como resultado, o governo federal está efetivando o maior déficit orçamentário da história dos Estados Unidos, enquanto a taxa de desemprego é inferior a 4%.

O que quer que se pense desse presidente, ele está distribuindo dinheiro não apenas para os mais ricos, que, claro, recebem o máximo, mas também para muitas pessoas pobres. Com um nível de emprego comprovadamente forte, especialmente entre os trabalhadores afro-americanos, a inflação sob controle e o mercado de ações ainda dinâmico, Donald Trump tem sua frente interna defendida enquanto viaja para terras estrangeiras para confrontar amigos e inimigos.

O establishment anti-Trump dos EUA reza para que os mercados punam sua prodigalidade. Isto é precisamente o que teria acontecido se a América fosse um outro país qualquer. Com um déficit fiscal que deve chegar a US $ 804 bilhões em 2018 e US $ 981 bilhões em 2019 e com o governo que se espera tomar emprestado US $ 2,34 trilhões nos próximos 18 meses, a taxa de câmbio estaria disparando e as taxas de juros atingindo o teto. Exceto que os EUA não são um outro país qualquer.

À medida que seu banco central, o Fed, reduz seu programa de flexibilização quantitativa (“quantitative easing”) vendendo seu estoque de ativos acumulados para o setor privado, os investidores precisam de dólares para comprá-los. Isso faz com que a quantidade de dólares disponíveis para os investidores diminua em até US $ 50 bilhões por mês. Adicione a isso os dólares que os capitalistas alemães e chineses precisam para comprar títulos do governo dos EUA (em uma tentativa de colocar seus lucros em algum lugar seguro) e você começa a ver por que Trump acredita que ele não será punido por uma corrida ao dólar ou a títulos do governo.

Armado com o privilégio exorbitante de possuir as máquinas de emitir dólar, Trump dá, então, uma olhada nos fluxos de comércio com o resto do G7 e chega a uma conclusão inevitável: ele não pode perder uma guerra comercial contra países que têm superávits tão altos com os EUA (por exemplo, Alemanha, Itália, China), ou que (como o Canadá) pegarão pneumonia no momento em que a economia americana pegar o resfriado comum.

Nada disso é novo. Richard Nixon também confrontou o establishment europeu em 1971 e Ronald Reagan esmagou brutalmente os japoneses em 1985. Mesmo a linguagem não era menos incivilizada - relembremos a síntese da atitude do governo Nixon nas palavras inimitáveis de John Connally: “Minha filosofia é que todos os estrangeiros estão aí para nos ferrar, e é nosso trabalho ferrá-los primeiro.” Entretanto, a agressão dos EUA de hoje em relação a seus aliados distingue-se desses episódios de duas formas.

Primeiro, desde o colapso de Wall Street em 2008 e apesar da reestruturação subsequente do setor financeiro, Wall Street e a economia doméstica dos EUA não podem mais fazer o que estavam fazendo antes de 2008: ou seja, absorver as exportações líquidas de fábricas europeias e asiáticas através de um superávit comercial financiado por um influxo equivalente de lucros no exterior. Essa insuficiência é a causa subjacente da atual instabilidade econômica e política global.

Em segundo lugar, ao contrário dos anos 1970, a década europeia, de administração inadequada da crise do euro, fez com que o establishment franco-alemão ficasse agora desunido e em fuga - com nacionalistas xenofóbicos e antieuropeus assumindo governos.

Trump dá uma olhada em tudo isso e conclui que, se os EUA não puderem mais estabilizar o capitalismo global, ele poderia explodir as convenções multilaterais existentes e construir do zero uma nova ordem global parecida com um eixo central (“hub”), com a América como centro e todos os outros poderes seus tributários - um arranjo de acordos bilaterais que garante que os EUA sempre serão o maior parceiro em cada um deles, e assim conseguirão extorquir o seu quilo de carne através de táticas de divisão e regramentos.

Pode a UE criar uma aliança antiTrump “Europe First”, talvez envolvendo a China? A resposta já foi dada após a anulação de Trump do acordo nuclear com o Irã. Minutos depois da declaração da chanceler Angela Merkel de que as empresas europeias permaneceriam no Irã, todas as corporações alemãs anunciaram que estavam se retirando, priorizando os cortes de impostos que Trump lhes oferecia dentro dos Estados Unidos.

Em conclusão, temos boas razões para ficarmos chocados com Trump: ele está ganhando contra um “establishment” europeu que chafurda na perfeita ignorância das forças que o minam e que abrem caminho para seus desalentadores desdobramentos. O ônus recai sobre os progressistas na Europa continental, no Reino Unido e nos Estados Unidos, para colocar na agenda um New Deal Internacionalista - e para vencer eleições fazendo campanha apoiado nessa agenda.

Em meus raros momentos otimistas, imagino uma aliança de Bernie Sanders, Jeremy Corbyn e nosso Movimento Democracia na Europa, o DiEM25, dando uma carreira na Internacional Nacionalista liderada por Trump. Há alguns anos atrás, um triunfo dos Trump nos EUA, Europa e além, parecia ainda mais improvável do que isso. Vale a pena tentar.

9 de junho de 2018

O mito português

O governo do partido Socialista de Portugal parece ser uma excepção ao declínio da social democracia europeia. Mas o seu registo no combate à austeridade é menos claro.

Catarina Príncipe

Jacobin

O primeiro-ministro português Antonio Costa fala em uma conferência de imprensa em 9 de outubro de 2016 em Pequim, China. Naohiko Hatta - Pool / Getty

Tradução / O anterior primeiro-ministro Pedro Passos Coelho gostava de afirmar que “Portugal não é a Grécia”. Na verdade, a sua palavra de ordem não significava que a austeridade era diferente nos dois países. Sob as regras impostas pelo memorando da troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e a Comissão Europeia), o desemprego e a pobreza dispararam, o mercado de trabalho foi muito liberalizado, houve um aumento de impostos de 35%, os bancos foram resgatados e os serviços sociais subfinanciados. Centenas de milhares de pessoas emigraram.

A diferença em relação à Grécia também não residia na força da economia portuguesa. Na realidade, a sua estrutura estatal era ainda mais fraca que a da Grécia e a sua economia mais dependente do centro da Europa, após a destruição de quase todos os sectores produtivos através de quatro décadas de integração europeia. Este processo não foi diferente do que ocorreu na Grécia. Portugal serviria de exemplo para o resto da Europa: era suposto provar que a austeridade funciona.

A contradição é que enquanto Portugal é conhecido por ter um governo de esquerda, não é uma administração significativamente “anti-austeridade”. A retórica de limitar a pobreza veio substituir qualquer iniciativa para resistir às políticas de austeridade impostas a nível europeu.

Portugal já não é tanto um teste para uma nova política de esquerda, mas sim uma demonstração dos limites de uma acção governamental perseguindo uma austeridade de consenso.

Uma insurreição perdida

Para compreender a actual situação política em Portugal, precisamos de entender uma outra forma em que “não é a Grécia”. Em 2010, na altura da introdução do memorando da troika na Grécia, aquele país era governado pelo social-democrata Pasok. Isto levou à chamada “pasokização”: a erosão da social democracia tradicional, uma vez que se tornou uma força neo-liberal vazia.

Este processo não começou com o Pasok. De facto, em toda a Europa e nas últimas três décadas, os partidos sociais-democratas têm muito frequentemente imposto os mais duros cortes, como é o caso da Agenda 2010 do chanceler alemão Gerhard Schroeder. Mas na Grécia o processo foi mais longe, com o desaparecimento do partido social-democrata tradicional.

No entanto, em Portugal, embora três partidos tenham assinado o memorando – o Partido Popular (CDS-PP na sigla portuguesa), partido de direita conservadora, o partido de centro direita Partido Social Democrata (PSD), e o partido de centro-esquerda Partido Socialista (PS) – foi a coligação de direita que governou o país durante os quatro anos em que o acordo com as instituições europeias vigorou.

Isto criou uma situação política diferente: o PS foi visto como oposição à dura austeridade, e a margem para os partidos anti-austeridade de esquerda crescerem era muito menor que aquela de que Syriza pôde gozar na Grécia.

Apesar das enormes mobilizações populares contra a austeridade, o sentimento de descontentamento nunca se traduziu em partidos políticos organizados. Isto reduziu a possibilidade de uma insurreição de esquerda em Portugal e foi por isso que este país pode ser usado para estabelecer o exemplo.

A União Europeia, e a Alemanha em particular, precisavam de uma narrativa positiva para o desfecho das medidas de austeridade. Seria politicamente desastroso para Merkel – que prosseguiu políticas de baixos salários e cortes sociais – permitir um cenário em que a austeridade apenas pudesse ser implementada sob crises sociais e políticas extremas ou, pior, permitir a possibilidade de uma força de esquerda que suplantasse a austeridade.

O mau-estar português surgiu como a melhor oportunidade para provar que a austeridade podia funcionar, caso fosse implementada num ambiente de baixa mobilização e obediência acrítica às medidas impostas pela troika.

Portugal pediu resgate em 2011, um ano depois da Grécia, e desde o início foi apelidado de “bom aluno”. “Portugal não é a Grécia” foi repetido inúmeras vezes. E é verdade. Desde o fim de 2014 que o Banco Central Europeu, através do Banco de Portugal, permitiu a compra directa de títulos da dívida pública, sendo quantitativamente um alívio.

Isto teve duas consequências positivas, baixou a taxa de juro da dívida e uma parte dos juros pagos pelo governo Português pode então ser paga ao Banco de Portugal e dessa forma injectar esse dinheiro na economia Portuguesa. As instituições europeias nunca autorizaram o governo do Syriza a recorrer a esse alívio na Grécia.

Mais tarde, em 2016, embora o défice estivesse acima do limite imposto pelo pacto fiscal, a comissão europeia decidiu não aplicar sanções a Espanha e a Portugal. Foi uma decisão política pensada não só para dar ao governo português alguma margem de manobra, mas mais importante que isso, evitar o ascenso da esquerda em Espanha num cenário em que a austeridade imposta pela Europa ameaçava exacerbar a crise política.

Além do mais, em Março de 2018, Portugal chegou a acordo com a comissão europeia para manter o dinheiro gasto na recapitalização do banco estatal Caixa Geral de Depósitos fora das contas do défice. Apesar dessa decisão, a agência de estatística europeia Eurostat estabeleceu o défice português em 3%, acima do limite do tratado orçamental e muito acima da previsão de 0.9% do governo (que teria sido o mais baixo de sempre). Uma vez mais a comissão europeia mostra a sua verdadeira face: joga com os números conforme necessário, desde que sirva os seus objectivos políticos – e desde que os actores políticos da periferia se mantenham fiéis às regras impostas pelo centro.

Neste sentido, é justo dizer que Portugal não é a Grécia. Se a Grécia fosse para ser tida como exemplo dos que não seguem as regras do jogo, Portugal era para ser um exemplo de sucesso. E esta jogada política, feita num quadro de recuperação económica, permitia o surgimento de um novo centro-esquerda no poder, que não traria qualquer resistência séria à imposição de medidas de austeridade.

O ressurgimento do liberalismo social português

As eleições de 2015 resultaram num parlamento altamente dividido. Enquanto os partidos de direita, concorrendo em coligação, obtiveram a maioria dos votos, não havia nenhum partido com maioria absoluta. Finalmente, coube ao Partido Socialista (PS) decidir do futuro governo depois do governo de direita ter sido rejeitado por uma maioria parlamentar.

Durante um mês e meio, foi enredado em debates sobre o que devia fazer. As duas possibilidades que havia eram juntar-se à direita como parceiro menor num governo de coligação (o que teria sido uma escolha sem precedentes num país sem História de grandes coligações), ou aceitar o desafio lançado pela esquerda e negociar um governo com o seu apoio. Contrariando todas as expectativas o PS decidiu por esta opção.

Em retrospectiva, foi uma jogada táctica inteligente: num clima de recuperação económica lenta mas firme tanto a nível nacional como a nível europeu, permitiu ao PS usar o balão de ar a seu favor, como medidas de austeridade moderadas. Em simultâneo, foi o momento perfeito para cooptar as exigências da esquerda, que se encontrava numa situação muito difícil de apoiar um governo que nunca seria seriamente contra a austeridade nem adoptaria as exigências realmente de esquerda.

O PS não imaginava o acordo com a esquerda como uma saída provável para o resultado das eleições. Em vez disso, o partido sonhava que as eleições lhes dariam entrada triunfante para o poder, visto que o povo rejeitava as medidas de austeridade do governo de direita. Na realidade, o governo ficou a muito pouco de conseguir uma maioria. A PaF – a coligação do PSD com o CDS-PP – obteve 38,5% dos votos contra apenas 32,3% do PS.

A parte positiva da eleição veio da esquerda da social-democracia. O Bloco de Esquerda e a CDU (coligação do Partido Comunista com os Verdes) alcançaram 10,2% e 8,2% respectivamente.

Para o Bloco de Esquerda, que granjeou mais de meio milhão de votos, foi a maior votação de sempre. Embora os campeões da austeridade de direita tenham mantido o controlo do parlamento, quase 20% da nova assembleia estava ocupado por deputados que se opunham explicitamente não só à austeridade como ao próprio capitalismo. Enquanto que o resultado do PCP não trouxe surpresas, os dois partidos combinados criaram uma situação sem precedentes na política do Portugal moderno que mostrou claramente o quanto a crise polariza a política.

Nas declarações finais de um dos debates antes das eleições, a representante do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, surpreendeu António Costa do PS desafiando-o a discutir um governo de esquerda pós-eleições, sob a condição de deixar cair algumas das medidas mais neoliberais do seu programa.

O desafio ficou sem resposta. O mesmo PS que discriminou as propostas do Bloco de Esquerda, que apelidou de irrealista, juntando-se à Direita argumentando que levariam o país ao “pesadelo Syriza”, acabou com um silêncio derrotista.

As três principais condições do Bloco de Esquerda colocadas ao PS, em troca de apoio num governo minoritário foram: 1) o descongelamento das pensões; 2) nenhuma redução adicional do imposto social único pago à segurança social pelos trabalhadores e pelos patrões; 3) fim da liberalização do mercado laboral.

Aceitar estes três pontos obrigaria o PS a alterar a sua plataforma política e económica.

Foi uma táctica inteligente: forçou o PS a definir-se politicamente e a clarificar as suas lealdades. Mas era baseada em três premissas que mais tarde se revelaram incorrectas: 1) que o PS venceria as eleições; 2) que o Bloco de Esquerda obteria uma baixa percentagem de votos; 3) que o PS se recusaria a negociar com a Esquerda.

O resultado ambíguo destas eleições obrigou a uma série de negociações de coligações. O excelente resultado do Bloco de Esquerda, e o papel activo que tinha desempenhado ao oferecer ao PS os termos básicos para um acordo, empurrou-o para a dianteira destas negociações. O Bloco de Esquerda, o Partido Comunista e os Verdes (que concorreram em coligação com o PCP) foram todos levados a tomar posição no novo governo.

O processo de negociação foi complexo, cheio de momentos tensos e quase todo passado à porta fechada. Cada um dos três partidos de esquerda negociaram o acordo com o Partido Socialista separadamente. Uma decisão problemática uma vez que deu toda a informação ao Partido Socialista enquanto os partidos à esquerda não comunicaram entre si nem avançaram com propostas em comum.

Mais de um mês volvido, o Bloco de Esquerda e a CDU (coligação eleitoral do PCP e Verdes), negociaram acordos com o PS em que se comprometeram votar a favor do Orçamento de Estados e outras leis. A 26 de Novembro de 2015, pode então tomar posse com o apoio parlamentar dos partidos de esquerda.

O acordo permite aos partidos de esquerda votar contra algumas das medidas do governo, uma vez que não estão sujeitos à mesma disciplina de uma coligação real. Eles insistiam que este não era o seu governo e que não resolveria os problemas fundamentais do país ao mesmo tempo que tentavam responder às esperanças do povo no fim das medidas de austeridade mais gravosas.

No entanto, enquanto que o acordo estipulava a formação de um governo para apenas um ano, a ser seguido por novas negociações, na verdade, o texto dos acordos continua a ser a base de todas as discussões destes partidos sobre cada orçamento de estado.

Dados os seus aspectos de difícil manejo, um político de direita ridicularizou o novo governo chamando-o de Geringonça, um termo que se disseminou e é hoje comummente utilizado, mesmo por aqueles que apoiam criticamente esta solução.

Este acordo também se deparou com vários focos de resistência, tanto a nível nacional como europeu. No seio do PS, o antigo secretário geral atacou agressivamente a actual liderança, que se situa ligeiramente mais à esquerda.

A nível europeu, houve entendimentos da situação muito diferentes em cada uma das famílias políticas. Os partidos e os representantes da Internacional Socialista apoiaram tendencialmente esta solução. Mas o ministro das finanças alemão Wolfgang Schauble foi muito crítico e céptico do novo governo.

Uma fase importante do acordo foi o “acalmar” das instituições europeias – o PS tinha de garantir que as relações de Portugal com a Europa (a eurozona, o Banco Central Europeu, os tratados, a dívida) – permaneciam inalterados com os seus acordos com a esquerda. O PS apenas podia prosseguir quando tivesse obtido luz verde das instituições europeias.

Embora este acordo tenha posto um travão ao empobrecimento em massa (que era o objectivo real do governo, mais do que ultrapassar efectivamente a austeridade), seria ingénuo sugerir que colocou Portugal no caminho da recuperação económica. Os relatórios de publicações liberais como o Financial Times elogiam o novo milagre económico português como uma recuperação económica que se deve a um novo governo de esquerda que reduziu o défice orçamental para apenas 2%. Contudo, se vamos levar esta discussão a sério, temos de distinguir os factos da ficção e perceber o que realmente está a acontecer à economia portuguesa.

Em primeiro lugar, é importante perceber que, em períodos de crise, os défices orçamentais tendem a crescer: há menos actividade económica, menos lucro, e mais intervenção estatal (em protecção social, subsídios de desemprego, resgates a bancos). A austeridade supostamente corrige este aumento do défice cortando o investimento do estado e seus gastos (isto é, em matérias sociais, gastar no sector financeiro continua lesto) e aumentando os impostos de forma a aumentar a receita fiscal.

E longe de ser uma solução, a austeridade agravou o problema, criando um ciclo vicioso de baixos salários, baixo consumo, subidas de impostos e o aumento da dívida pública. Mas Portugal ganhou de facto algum oxigénio, quando foi aliviado este processo.

Durante os anos de vigência do memorando, o défice orçamental português foi descendo, lentamente mas de forma consistente, a União Europeia previu um défice de 2.6% para 2016, acima do limite imposto pelo Tratado Orçamental. Mesmo a previsão do Governo para 2016 era de 2.2%, mas o número final real foi de 2% – o défice orçamental mais baixo dos últimos 40 anos. Espera-se que caia agora para os 0.9% (excluindo os gastos com a recapitalização da banca pública). Os números indicam uma grande mudança na política económica. Mas é realmente isso que se passa?

A resposta é simples, não. Embora existam alguns factores mais complexos. Os três orçamentos deste governo até agora não tiveram o objectivo de reverter a austeridade, mas sim de lhe pôr alguns limites: falando-se então na mudança para parar o “empobrecimento”. O facto é que a austeridade não estando tão agressiva permitiu haver um muito pequeno aumento de rendimento (sobretudo para os funcionários públicos e dos pensionistas)., que começou lentamente a reconstruir a desmantelada classe média.

Os outros factores que explicam a redução do défice foram o tremendo aumento do turismo (e a dinâmica económica de curto prazo que isso criou), a queda do preço do petróleo (um factor decisivo para uma economia pesadamente dependente de importações), e, mais importante, uma mudança na narrativa de que “não havia alternativa” à austeridade.

A crise e a austeridade também produzem medo e conservadorismo no consumo. Quando um governo consegue assegurar uma medida de “balão de oxigénio” e consegue um ligeiro aumento de rendimentos, consegue também alterar a narrativa para clamores optimistas de que “a austeridade acabou e agora a partir de agora tudo vai ser melhor”. Isto também permite uma alteração nos padrões de consumo, uma vez que as pessoas têm menos medo de gastar dinheiro, ou comprar bens ou pedir créditos. Este facto ajuda a alimentar a recuperação.

Portugal passou por um período de profunda recessão. Estes períodos reduzem em muito a capacidade produtiva porque não existe mercado. Mas o aumento do consumo interno (por consumidores nacionais, mas sobretudo pelos estrangeiros) viabiliza haver mais produção em tempos de recessão mesmo sem quaisquer novos investimentos.

O investimento público tem estado no seu nível mais baixo de sempre desde o início deste governo, sem quaisquer alterações na capacidade produtiva do país e um nível muito baixo de investimento privado. Ainda assim, houve crescimento económico.

Isto não é milagre nenhum: é uma combinação de factores internos (pequeno aumento de rendimentos, a mudança de narrativa em torno da austeridade, e por isso, nos padrões de consumo) e mais importante que isso, factores políticos externos.

Não só parte das instituições europeias apoiam este governo, como também o país beneficiou com a crise política no Médio Oriente, no sentido em que levou à queda do preço do petróleo (um factor importante para uma economia baseada em importações) e porque afastou o turismo dessa zona a favor de destinos como Portugal.

Se prestarmos atenção, veremos que este governo apresenta outros problemas. As leis laborais da troika permaneceram intactas, os contratos colectivos de trabalho praticamente desapareceram, a precariedade cresce. Um estudo do Observatório das Desigualdades coloca o nível de desemprego real em 17,5% – muito menos que os 38% de 2013, mas muito acima dos números oficiais de 8,5%. Praticamente todos os novos empregos criados são precários. Os serviços públicos estão a cair aos pedaços: tanto a Educação como a Saúde estão desesperadamente subfinanciados e à beira do colapso. O sistema bancário português é uma bomba-relógio, com mais bancos resgatados com fundos públicos, mas nenhum sob controlo público, deixando-o muito mais vulnerável a mudanças no centro da europa do que em 2008. A questão central da dívida despareceu do debate público.

Não obstante, o ministro das finanças português Mário Centeno, a quem o comissário europeu para os assuntos económicos e financeiros Pierre Moscovici chamou “o Ronaldo das finanças portuguesas”, foi eleito presidente do Eurogrupo. Foi uma jogada inteligente e simbólica, não só para mostrar aos opositores do PS o que a social-democracia europeia podia fazer pela revitalização, mas também como elogio ao “bom aluno” da periferia que obedeceu às regras do centro. Tacticamente, o PS jogou bem o jogo: não só obteve o seu melhor resultado de sempre nas eleições autárquicas em 2017, mas está à beira da maioria absoluta nas previsões sobre as intenções de voto nas eleições legislativas de 2019.

A esquerda além do acordo e da austeridade

Por toda a Europa, os partidos do centro tradicionais enfrentam dilemas. Os resultados desastrosos destes partidos na maioria dos países da Europa ocidental, juntamente com as terríveis previsões para as eleições europeias de 2019, põem em evidência um dilema estratégico muito complicado. Se, por um lado, a era do contrato social acabou, a mudança em direcção a mais políticas sociais é a única forma da social democracia renascer.

O debate ideológico mais interessante em Portugal tem lugar dentro da liderança do Partido Socialista, um lado quer avançar com a continuação e aprofundamento de políticas sociais, o outro defende uma Terceira Via, um partido e um programa ao estilo Blair.

À medida que os Partidos da Internacional Socialista abandonam cada vez o espaço político que já ocuparam, a Direita cresce. Se foi a liberalização da social democracia tradicional que criou o espaço para o crescimento da Direita, estes partidos argumentam agora que o povo deveria aceitar os seus programas neoliberais em vez de abrirem caminho às forças reaccionárias emergentes.

Seria o mal menor Europeu. Neste contexto, a Esquerda também não está a ganhar força. Como o crescimento que vimos em 2015 se mantém, existem hoje menos possibilidades para os partidos de esquerda do que em anos recentes.

Se Portugal serve de exemplo de alguma forma de realinhamento dos partidos sociais democratas, é também um exemplo de precaução para a esquerda radical.

Teria sido difícil ao Bloco de Esquerda recusar-se ajudar na formação do governo encabeçado pelo Partido Socialista. Mas as necessidades de sobrevivência do Partido Socialista também ofereceram mais espaço de negociação ao Bloco de Esquerda do que este explorou nos últimos tempos. Participar neste acordo exigia uma estratégia forte para encarar uma situação muito perigosa. Esta estratégia deveria ter acentuado as contradições do governo do partido Socialista, através de uma estratégia de “dentro e fora” com o foco em exigir medidas essenciais para um real ultrapassar da austeridade e construir o acumular do descontentamento. Para tal era necessário deixar em aberto a possibilidade de romper o acordo em última instância e arriscar algum recuo eleitoral temporário.

Pelo contrário, a esquerda radical encontra-se hoje praticamente impossibilitada de quebrar a actual situação. Se o Partido Socialista propuser um novo acordo para a governação, que base política é que a esquerda poderia usar para recusar? Se em 2015 o “medo da direita” serviu para justificar todos os tipos de acordos, o que poderia servir o mesmo propósito em 2019?

A verdade é que o Bloco de Esquerda está hoje em dia refém do PS. Foi enfraquecido a muitos níveis, desde o número de militantes até ao seu nível de actividade e programa. E apesar da dificuldade da situação presente, o partido está céptico em relação ao debate estratégico sério ou divergências internas de qualquer espécie.

O debate estratégico necessário não é uma questão de se devemos ou não lutar pelo poder institucional, mas sim que papel específico e qual a prioridade que a esquerda radical deve atribuir a esta esfera. Se a nossa análise nos diz que a política institucional pode servir como amplificador para as exigências políticas, mas que em última instância não consegue transformar a sociedade como um todo, então, claramente, a necessidade de construir instrumentos de organização política que funcionem dentro das instituições e a aprendizagem da actividade neste campo, não retira a necessidade de construir estes instrumentos fora destes polos de poder.

Mesmo em tempos em que a mobilização social está temporariamente em refluxo, a esquerda radical tem a responsabilidade de reconstruir estes movimentos, agregá-los e acumular poder para o confronto necessário com o poder instituído.

Para isto acontecer precisamos de partidos que deem voz e poder às bases dos movimentos, que criem múltiplos protagonistas, que aprofundem o processo da democracia.

Só então poderemos combinar as bases descontentes dos velhos partidos social democratas com os movimentos e forças anti-capitalistas na sociedade. Mas se os partidos da esquerda radical se contentam com orientações estratégicas que apenas ajudam a revitalizar os partidos sociais democratas, desligando-se dos elementos mais críticos destes partidos e se perdem em dilemas institucionais, irão começar a reproduzir formas, comportamentos e processos da democracia burguesa. Com medo de fracos resultados eleitorais, intimidam-se de desenvolver uma estratégia capaz de mudar a sociedade e mais ainda de desenvolver um instrumento político capaz de o fazer.

Isto exige o repensar radical das nossas prioridades. A esquerda radical tem de trabalhar desde a base, para reinventar a sua democracia, para crescer a partir das bases e reconstruir o movimento popular. Tem de ajudar colectivos auto-organizados a florescer, trabalhar na direcção do renascimento do movimento trabalhista, e construir uma frente social e política que lute contra a austeridade moderada bem como contra as suas variantes mais duras. O momento presente não é nenhuma aberração. Mas se nos ficarmos pelos horizontes actuais de possibilidades, mais do que criar as condições para a mudança de que precisamos e queremos, então a nossa situação tornar-se-á ainda mais difícil.

Sobre a autora

Catarina Príncipe é uma ativista dos movimentos sociais em Portugal. É membro do Bloco de Esquerda e contribui também como autora e editora da Jacobin. É co-editora da Europa em Revolta.

5 de junho de 2018

Para alguns, retroceder 20 anos em 2 parece pouco

Sociedade é aprisionada por regressivo projeto neoliberal

Marcio Pochmann

Folha de S.Paulo

Uma das peculiaridades históricas percebidas na transição de uma sociedade para outra no Brasil tem sido a reprodução do passado sobre o presente. Sinal disso parece ser a convivência do arcaico com o moderno neste início do século 21, quando emerge inédita sociedade de serviços aprisionada pelo atraso e pelo regressivo projeto neoliberal conduzido por Temer e apoiado por consultores como S. Pessôa.

Para eles, a presença do povo no orçamento público, especialmente daquela parte pertencente à base da pirâmide social, seria responsável pela desordem nas finanças do Estado.

Por isso, o desembarque do segmento empobrecido dos programas governamentais promovido desde a arbitrária ascensão do governo Temer se mostra fundamental para a contenção do gasto social e reorganização, cada vez mais enxuta, do Estado, deixando-o livre para as próximas décadas continuar o financiamento do rentismo para o enriquecimento dos já privilegiados no país.

Os cortes orçamentários nos dois últimos anos, por exemplo, apontam para o desmonte do Estado de bem-estar social ainda em fase inicial, desorganizando políticas públicas e inviabilizando o papel das empresas estatais, cada vez mais submetidas à lógica privada.

Mesmo assim, a economia não retomou o crescimento, bem como o endividamento público seguiu aumentando continuamente em face do desordenamento fiscal.

O recente problema do desabastecimento de combustível gerado pelo protesto do setor de transporte apresenta-se emblemático da lógica privatista e entreguista que predomina e acoberta a regressão de duas décadas transcorrida em somente dois anos do governo Temer.

Com isso, a volta da mortalidade infantil, da fome em grande escala, do desemprego sem paralelo histórico, do abandono de massas de estudantes dos ensinos médio e superior, da presença generalizada nas cidades dos moradores de rua e de mendigos nos cruzamentos em vias públicas, entre outros sinais de manifestação do caos.

Não bastasse isso, a sagrada defesa do receituário neoliberal parece seguir imutável, assim como o inabalável ataque às ideias e às personalidades que defendem visões distintas. A prevalência do passado sobre o presente durante a transição para uma nova sociedade foi percebida por Walter Benjamin (1892-1940) em sua obra "Projeto das Passagens" para algumas realidades nacionais.

No Brasil, a passagem da antiga sociedade escravista para a capitalista ao final do século 19 foi acompanhada pelo projeto de branqueamento populacional. Defendido por influentes políticos do antigo Império (1822-1889) como o conselheiro Antônio Prado ou por intelectuais da estirpe de João B. de Lacerda na República Velha (1889-1930), a tese do atraso brasileiro devido à população negra viabilizou a imigração branca e a sua ocupação nos principais postos de trabalho, após a escravidão.

Com isso, o passado, que era representado por cerca de 2/3 do total da população brasileira à época, foi excluído das possibilidades de ingresso na nova sociedade capitalista, que seguiu reproduzindo uma profunda desigualdade. Somente a partir da década de 1930 que uma lenta e gradual inclusão dos empobrecidos passou a ocorrer, todavia marcada até os dias de hoje pelo processo de exclusão.

Pelo andamento do projeto em curso do governo Temer denominado “Ponte para o Futuro”, o neoliberalismo associa justamente o atraso do país ao recente processo de inclusão social conduzido pelos governos do PT. Por conta disso, os pobres —razão alardeada da crise fiscal pelo governo Temer— e seus defensores são atacados pela generalização de políticas de exclusão social promovidas pelo desmonte do Estado brasileiro.

Sobre o autor

Professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) entre 2007 e 2012 (governos Lula e Dilma).

A semana que parou o Brasil

A greve que paralisou o Brasil na semana passada não veio da esquerda, mas de um grupo de trabalhadores ignorado e isolado.

Caio Almendra

Jacobin

Caminhoneiros protestam no Rodovia Presidente Dutra no Rio de Janeiro, Brasil. Tomaz Silva / Agência Brasil

Há alguns anos, David Harvey chamou a atenção da esquerda para a enorme dependência do capital pelas cadeias de abastecimento. Especulei que, se os motoristas de entregas da cidade de Nova York entrassem em greve, a cidade passaria fome por cerca de uma semana. Na semana passada, seus colegas brasileiros provaram que Harvey estava certo. Em poucos dias, caminhoneiros em greve conduziram São Paulo - que conta com cerca de quatro milhões de cidades a mais do que a cidade de Nova York - e muitas outras cidades no Brasil a uma parada brusca.

A ascensão repentina de trabalhadores geralmente invisíveis empurrou o presidente de direita Michel Temer para o preço do diesel. Desde a década de 1950, o estado brasileiro tem priorizado o transporte rodoviário sobre as ferrovias; hoje, o país possui apenas vinte e nove mil quilômetros de ferrovia, mas 1,6 milhão de quilômetros de estradas. Como resultado, a atividade comercial é altamente dependente do transporte rodoviário, tornando os bloqueios dos caminhoneiros extremamente eficazes. Muitas localidades ficaram sem combustível, a classe média teve que abandonar seus carros e andar de transporte público, e empresas, escolas e outras entidades fecharam suas portas.

A greve chocou a esquerda, cujas mobilizações, apesar da greve geral de abril de 2017, não alcançaram o mesmo impacto que a greve dos caminhoneiros. Sindicatos esquerdistas, como a Federação Única dos Petroleiros (FUP), estão agora tentando empurrar as demandas dos caminhoneiros por preços mais baixos do diesel em um protesto político contra as políticas econômicas de Temer. Mas eles não conseguiram reproduzir o ímpeto dos caminhoneiros.

Petrobras e política

Em 2015, a crise econômica global finalmente chegou ao Brasil. A China reduziu sua demanda por commodities brasileiras, como soja e ferro, e uma crise fiscal estava surgindo como resultado das isenções fiscais para "setores estratégicos" da presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Ao mesmo tempo, Dilma trabalhava para controlar a inflação, impondo preços controlados pelo governo em bens e serviços essenciais. A Petrobrás, estatal petrolífera, começou a subsidiar os preços do gás e do diesel.

Esta política saiu pela culatra. A Petrobras manteve os preços congelados por um ano, mas quase dobrou em 2016. A direita, que já estava agitando o impeachment de Rousseff por acusações de corrupção, aproveitou a oportunidade para minar ainda mais o governo do PT. Suas alegações de que os altos preços do gás eram graças à corrupção de Dilma motivaram muitos caminhoneiros a se mobilizarem por seu impeachment.

Quando o então vice-presidente Michel Temer assumiu o governo em abril de 2016, ele mudou radicalmente a política de preços da Petrobras. A empresa não apenas parou de subsidiar os preços, mas começou a reajustá-los diariamente, ligando-os às variações nos preços do petróleo e à taxa de câmbio com o dólar.

O valor de mercado da Petrobras cresceu seis vezes em menos de dois anos, uma vez que os consumidores brasileiros foram forçados a pagar a conta.

Essa volatilidade levou sindicatos patronais do setor de transportes, micro-organizações de extrema-direita e caminhoneiros frustrados a montar a greve da semana passada. As demandas centrais dessa estranha coalizão eram reduções nos preços do diesel e nas tarifas de pedágio.

Estranhos companheiros de cama

A greve confundiu e dividiu a esquerda. Por um lado, parte dos membros do PT, intelectuais e até mesmo alguns congressistas caracterizaram publicamente a greve como o próximo estágio do golpe, se não um passo para a intervenção militar. Alguns até argumentaram que motoristas de caminhões em sofrimento estavam recebendo o que pediam, já que alguns haviam defendido o impeachment de Dilma Rousseff.

No entanto, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), uma federação sindical próxima ao Partido dos Trabalhadores, apoiou os caminhoneiros, assim como os sem-teto e os movimentos sem-terra. E apesar do papel dos empregadores nos primeiros dias da greve, a maioria da esquerda radical endossou totalmente a paralisação, na esperança de moldar a narrativa da greve e politizá-la contra Temer.

Os caminhoneiros no Brasil são extremamente precários. Enquanto alguns trabalham diretamente para empresas, outros motoristas “autônomos” possuem seus próprios veículos e vivem de contratos em contratos. Sua vulnerabilidade à atual crise econômica foi claramente a principal razão para a paralisação do trabalho, apesar da participação oportunista dos sindicatos patronais.

O conteúdo político da greve era ambíguo. A maioria dos participantes se concentrou em demandas econômicas imediatas, mas outros falaram sobre corrupção e contra o governo de Temer. Pequenas seções da greve pediam intervenção militar. Isso não quer dizer que os motoristas em greve eram todos de direita. Eles faziam parte de correntes maiores na população brasileira que se sentem desiludidos com um sistema político “democrático” que constantemente reproduz a corrupção.

Não é fácil coordenar uma greve de caminhoneiros dispersos pelo Brasil continental. No início, grande parte foi dirigida pelos sindicatos patronais. Mas sua energia derivada dos grupos do WhatsApp costumava trocar informações sobre as condições da estrada, roubos de carga e assim por diante. Estes tornaram-se espaços importantes para os condutores de caminhões frustrados se comunicarem uns com os outros e emprestaram-lhes uma força independente.

Desde que os preços do gás subiram ao mesmo tempo que os preços do diesel, a maioria da população apoiou a greve. As primeiras pesquisas mostraram mais de 80% de aprovação do movimento.

Dois dias depois da greve, o presidente Temer negociou com os sindicatos patronais para fornecer uma pequena isenção de impostos para o diesel, reduzindo marginalmente seu preço por trinta dias. Ele seguiu com um pronunciamento de TV nacional declarando o fim da greve.

O corte de preços foi suficiente para devolver a lucratividade às empresas de transporte, e a maioria delas saiu do movimento. Mas não foi suficiente para caminhoneiros autônomos, que ganham entre um e três salários mínimos e trabalham longos turnos. Eles, juntamente com algumas empresas de transporte, decidiram continuar a greve. Foi quando os sindicatos de empregadores começaram a se voltar contra o movimento, uma vez que bloqueios continuados de estradas interferiram em seu retorno aos negócios.

Enquanto os motoristas os ficavam fora, as cidades ficavam cada vez mais paralisadas e as prateleiras espalhadas pelo país ficavam vazias. A pressão forçou Temer a anunciar uma segunda rodada de cortes. O diesel seria subsidiado pelo governo federal por sessenta dias e o preço cairia em R $ 0,60. A oferta tirou o fôlego das velas da greve, embora não a tenha matado completamente. Os grevistas que ficaram de fora não ficaram satisfeitos com a oferta - eles simplesmente não confiaram que Temer ou o Congresso a implementasse sem penalizar os caminhoneiros de outras formas. E eles notaram que Temer ainda não havia mudado a política geral de preços da Petrobrás.

Um Temer desesperado mobilizou os militares para acabar com os bloqueios de estradas. Surpreendentemente, apesar de um punhado de confrontos, os soldados em geral se recusaram a reprimir os grevistas. Alguns da esquerda especularam que isso se devia à ideologia de extrema-direita dos grevistas e apoio à intervenção militar. Outros achavam que os soldados estavam exercendo restrições às ordens do governo. Com a popularidade de Temer em baixa e a popularidade dos grevistas perto de 90%, imagens de brutalidade policial ou militar não seriam boas. Os comentaristas de direita temiam que, ao mobilizar os militares, Temer pudesse desencadear uma rebelião total.

O presidente evitou isso colocando os grevistas contra o “bem público”. A greve resultou na escassez de gás, no desabastecimento em supermercados e até na morte de animais com pouca ração. Escolas, universidades e outros departamentos públicos fecharam durante a semana. Temer percebeu que ele poderia acusar o movimento de travar um bloqueio politicamente influenciado em uma tentativa de drenar o apoio público inicial para a greve. Sua narrativa foi ampliada pela principal rede de TV do Brasil, a Globo, que foi fundamental para a mobilização contra Dilma em 2015 e 2016.

A esquerda responde

Ideologicamente, o movimento dos caminhoneiros é diverso. A maioria de suas bandeiras pedia uma intervenção militar para acabar com a presidência de Temer. Outros exigiam um recall presidencial ou impeachment. (O processo de impeachment contra Temer não chegou a lugar nenhum no Congresso desde o ano passado.) Os pedidos de intervenção militar refletem a profunda crise de representação do Brasil, que surgiu pela primeira vez em 2013 e se ampliou com o impeachment de Dilma. Mas também é um sinal de que a esquerda abandonou a tarefa de organizar caminhoneiros. Isso proporcionou uma abertura para grupos de extrema direita para capturar segmentos da mobilização.

O isolamento dos motoristas do movimento sindical tradicional também limitou as tentativas de generalizar seu protesto. Partes significativas da esquerda queriam usar o apoio da CUT aos motoristas para pedir uma greve geral. Mas a CUT tem sido cautelosa sobre greves gerais desde a ascensão de Temer ao poder. Deu seu peso à greve do ano passado, convocada em 28 de abril, para protestar contra as reformas da lei trabalhista e em homenagem ao centésimo aniversário da greve geral mais importante do Brasil. Semanas depois, porém, a CUT desistiu de uma proposta de greve em 30 de junho, levando uma série de sindicatos menores a se desmobilizar. E o apoio da federação dos sindicatos aos motoristas continuou sendo retórico.

A esquerda está agora tentando corrigir essa situação. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), por exemplo, trabalhou para construir relacionamentos com caminhoneiros, fornecendo alimentos e suprimentos para os bloqueios de estradas. Nacionalmente, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) decidiu entrar em greve esta semana e está mobilizando seus membros para conversar com caminhoneiros. Ao explicar a relação entre os preços do diesel e os mercados internacionais de commodities, eles conseguiram conter a narrativa dos sindicatos patronais, que culpam os altos impostos pelos custos do diesel.

Lições aprendidas

A greve foi quase totalmente reduzida, com o gás e outros produtos voltando às cidades brasileiras. As longas filas nos postos de gasolina sumiram. A greve da Petrobrás foi considerada ilegal pelos tribunais brasileiros, embora não esteja claro quais serão as consequências.

“A semana que parou o Brasil” ensinou à esquerda e aos trabalhadores algumas lições importantes. Primeiro, que não devemos amortizar os movimentos influenciados pelos empregadores. Em vez disso, devemos nos conectar com os integrantes da base e ajudá-los a perceber que seus empregadores são uma parte central do problema. Além disso, em uma situação combinada de "greve-lockout" como essa, embora os interesses dos empregadores e dos trabalhadores possam coincidir a princípio, tal convergência não durará por muito tempo. Eventualmente, os empregadores deixarão o movimento e os trabalhadores podem radicalizar suas demandas.

Em segundo lugar, os sindicatos não são mais os únicos protagonistas das greves. Em um contexto de sindicatos altamente burocratizados, os trabalhadores podem ser criativos e encontrar outras formas de organizar ações coletivas. Isso não significa o fim dos sindicatos tradicionais, mas indica claramente a necessidade deles se reinventarem, aprenderem com as greves dos trabalhadores não-sindicalizados e adotarem novas táticas de mobilização. Como E.P. Thompson nos ensinou, é a experiência de luta dos trabalhadores que informa os métodos das organizações, e não o contrário.

Só podemos esperar que, à medida que a Federação Única dos Petroleiros (FUP) trabalhe para levar os caminhoneiros para a esquerda, também aprenda a revitalizar sua própria organização e o movimento sindical brasileiro em geral. Isso será fundamental para montar uma greve geral verdadeiramente bem-sucedida.

1 de junho de 2018

Relembrando Pier Paolo Pasolini

Um olhar sobre a vida e a visão política de Pier Paolo Pasolini, um comunista heterodoxo.

Luca Peretti

Jacobin

Pier Paolo Pasolini no túmulo de Antonio Gramsci, 1970. Wikimedia

Tradução / No dia seguinte ao violento assassinato de Pier Paolo Pasolini em 1975, o L’Unità, o jornal do Partido Comunista Italiano (PCI) o descreveu como “vero militante“, um verdadeiro militante. Algumas décadas antes, uma coluna no mesmo jornal havia causado a expulsão de Pasolini do PCI.

Em 1949, o dirigente partidário local Ferdinando Mautino denunciou as “influências deletérias de certas tendências ideológicas e filosóficas dos vários Gides e Sartres... que posam como progressistas, mas que na realidade acolhem os aspectos mais deletérios da degeneração burguesa”. O PCI enxotou Pasolini por conta dessas “influências deletérias”, mas a verdadeira questão era a sua homossexualidade.

Um comunista heterodoxo, Pasolini permaneceu como um aliado do Partido Comunista por toda a sua vida adulta. Sua complicada relação com o PCI espelhava suas interações com o restante da esquerda italiana e internacional, que variavam do seu apoio cético aos movimentos estudantis até a sua paixão quase acrítica pela nova esquerda estadunidense.

Fora da Itália, Pasolini é mais lembrado pelo seu trabalho como cineasta. O cinema foi a sua atividade principal entre 1960 e 1975 – mas ele nunca se dedicou apenas a ela. Seus romances e poemas também são traduzidos e estudados, mas recebem muito menos atenção da crítica. Algumas de suas produções teatrais – uma parte menor, mas não sem importância de seu trabalho – também já apareceram em outras línguas. No entanto, ele é muito menos conhecido como um intelectual público, o papel que lhe garantiu um lugar duradouro na cultura italiana.

A Roma de Pasolini

Isolado do PCI (que em grande parte ainda era anti-gay na época) e ostracizado em sua própria cidade, quando irrompeu o escândalo em torno de sua homossexualidade, Pasolini trocou seu lar no norte da Itália por Roma. Foi um novo começo: ele forjou um forte relacionamento com a cidade, especialmente com o borgate, as áreas periféricas habitadas por uma classe baixa carente, que ele chamava de uma grandiosa metrópole plebeia. O borgate inspirou muitos dos romances e filmes de Pasolini, mas, por lembrar o terceiro mundo e suas dificuldades, também se tornou o local de seu trabalho político e cultural.

Não devemos procurar uma agenda marxista em romances como Meninos da Vida e Uma Vida Violenta, ou em filmes como Accattone e Mamma Roma, que abordam todos as classes mais baixas de Roma. Em vez disso, Pasolini usou essas obras para apresentar uma transição que estava em andamento: o fim de uma época antiga que pertencia aos camponeses do Sul, que lentamente vinham perdendo suas tradições seculares, e aos romanos, que haviam vivido como uma comunidade sem serem absorvidos pelo Vaticano ou por outros poderes.

Pasolini se interessava por esses párias, que ele apresentava com uma sensação de nostalgia. Como disse em sua última entrevista, dada horas antes de sua morte, ele sentia falta “daquelas pessoas pobres e verdadeiras, que lutam para derrotar o mestre [padrone] sem nunca se tornar esse mestre. Como elas haviam sido excluídas de tudo, elas permaneciam incolonizáveis”.

Ele não via a cultura que matou aquela época antiga como uma melhoria: o capitalismo desumanizava, homogeneizava e corrompia, causando um genocídio (como ele o chamava) que esvaziou o borgate de seus residentes, que tinham sua própria linguagem e sua própria solidariedade, nem sempre política. Hoje, aqueles que não puderam se tornar pequenos-burgueses perderam o sensação de pertencimento, conforme o mundo mudou em torno deles.

Diferente de vários outros intelectuais da esquerda italiana, muitos dos quais tinham uma visão quase mítica da classe trabalhadora e da classe baixa, ou que as viam como homogêneas, Pasolini realmente conhecia as pessoas sobre as quais escrevia. Se os pontos de vista dele traziam às vezes um sutil tradicionalismo, não caíam na ignorância de vastos setores da esquerda ou naquilo que ele chamou, em um artigo sobre Israel-Palestina, de “o tradicional e nunca admitido ódio [dos comunistas] contra os lumpemproletários e populações pobres”. Em 1959, ele convidou o PCI a se tornar “’o partido dos pobres’: o partido, podemos dizer, dos lumpemproletários.”

Pasolini e os comunistas

Em seu poema “As cinzas de Gramsci”, Pasolini se imaginou num diálogo com o fundador do PCI, no qual descreveu se sentir simultaneamente com Gramsci e contra ele. O poema expressa suas contradições internas, um dos aspectos mais discutidos da vida e da obra de Pasolini. O livro homônimo foi publicado em 1957, mas Pasolini havia escrito o poema em 1954, antes do divisor de águas que foi 1956, quando os tanques soviéticos chegaram em Budapeste, fazendo com que muitos membros do PCI e aliados rompessem com o partido.

No entanto, nem 1956 e nem 1954 marcaram os primeiros sinais de tensão entre Pasolini e o Partido Comunista. Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, Pasolini havia se tornado um ativista político na região do Friuli, que fazia fronteira com a Iugoslávia comunista. Pela primeira e única vez em sua vida, ele era um militante pleno e respeitado no PCI, uma liderança local que participou de reuniões em Paris, Hungria e por toda a Itália como delegado do partido.

Sua estatura dentro do partido, no entanto, não o impedia de criticá-lo. Em 1945, seu irmão Guido, ele mesmo um partisano, foi morto por uma brigada comunista no chamado massacre de Porzûs, um dos vários eventos muito debatidos que ocorreram na fase final da guerra. Já em 1948, Pasolini aconselhava seus camaradas a reconhecer a responsabilidade do partido, mas, ao mesmo tempo, condenava veementemente aquelas figuras – inclusive os democratas-cristãos – que usavam a morte de seu irmão para alimentar a propaganda de direita.

A relação de Pasolini com o PCI tornou-se mais tensa em 1956, quando publicou Polêmicas em Verso, um ataque aos intelectuais comunistas ortodoxos. Aqueles que ele criticava reagiram como se poderia imaginar, mas, curiosamente, o ataque mais violento veio de Franco Fortini, outro pensador heterodoxo não afiliado ao PCI e, além disso, querido amigo e interlocutor constante de Pasolini. Por outro lado, ele se aproximou mais do PCI no final da década, quando o mundo cultural comunista abraçou seu segundo romance, Uma Vida Violenta.

Entre 1960 e 1965, ele escreveu uma coluna na revista de notícias do PCI, a Vie Nuove. Em suas páginas, ele interagia com os leitores, membros ou simpatizantes do partido, comentando sobre uma ampla variedade de tópicos, desde o papel dos intelectuais até a literatura húngara e a tentativa de suicídio de Brigitte Bardot. Este corpo de trabalho interessante e muito pouco lido (especialmente fora da Itália) foi publicado em 1977 como As Belas Bandeiras.

Apesar dessa colaboração, Pasolini nunca se tornou plenamente um intelectual orgânico. Ele sempre se manteve em busca de públicos diferentes. Na última fase de sua vida, ele escreveu para o Il Corriere della Sera, na época (e ainda hoje) o principal veículo de comunicação do establishment burguês italiano, que um jornalista independente, Piero Ottone, estava editando. Foi lá que Pasolini escreveu os artigos mais polêmicas de sua vida, talvez sentindo-se livre de quaisquer restrições nesse espaço neutro, quando não hostil a ele.

Mesmo com o crescimento do seu público, o PCI permaneceu como o interlocutor principal de Pasolini. Em junho de 1975, ele declarou que ainda votaria no partido porque ele representava “uma ilha onde a consciência crítica é sempre defendida desesperadamente: e onde o comportamento humano ainda tem sido capaz de preservar a antiga dignidade”. Em seu célebre artigo do final de 1974 – muitas vezes invocado como slogan – intitulado Eu sei, ele sustentou:

“O PCI é a graça salvadora da Itália e de suas pobres instituições democráticas. O PCI é um país limpo em um país sujo; um país honesto em um país desonesto; um país inteligente em um país idiota; um país educado em um país ignorante; um país humanista em um país consumista.”

Nos últimos meses de vida, Pasolini desenvolveu uma relação próxima com a seção romana da FGCI, a organização da juventude do PCI, aceitando convites para reuniões públicas e até mesmo recebendo membros em sua casa.

Um deles, Vincenzo Cerami, leu um discurso que Pasolini daria no congresso do Partido Radical se tivesse sobrevivido – naquela época, o partido representava uma força de espírito libertário na centro-esquerda. Nesse discurso, Pasolini uma vez mais enfatizava seu marxismo, seu apoio ao PCI e suas grandes esperanças para a nova geração de comunistas.

Quando ele morreu, outro membro romano da FGCI, Gianni Borgna, fez um discurso em seu funeral, que por sua vez foi um evento do partido: começou na Casa das Culturas, então associada ao PCI.

Como um intelectual não-orgânico e heterodoxo da esquerda italiana, Pasolini compreendeu antes de muitos outros o papel que o intelectual desempenharia não apenas na Itália, mas no resto do mundo ocidental. Em uma das primeiras edições da Officina, uma revista cultural e política que ele criou em 1959, ele escreveu que os intelectuais marxistas viviam essencialmente numa contradição: eles falavam com uma classe burguesa que não queria ouvir. Essa situação exigia que os intelectuais se tornassem guias espirituais. Segundo Pasolini, esse processo estava concluído em 1968: a esquerda – para não mencionar o PCI – já não tinha hegemonia cultural. Em vez disso, a hegemonia pertencia à indústria. “O intelectual”, escreveu ele, “está onde a indústria cultural o coloca: porquê e como o mercado o quer”.

1968

Durante o verão de 1968, Pasolini lançou uma coluna para a revista Tempo, que não era de esquerda. Na sua primeira contribuição, ele escreveu: “Certamente o leitor sabe que sou comunista: mas ele também sabe que sou um companheiro de viagem do PCI, numa relação que não implica em qualquer compromisso recíproco (pelo contrário, é um relacionamento bem tenso, e tenho muitos inimigos entre os comunistas assim como os tenho entre os burgueses).” O artigo também mencionava um pequeno partido que havia se formado na época, o Partido Socialista da Unidade Proletária – Pasolini o desprezava porque o considerava sectário – e a esquerda católica. Mas surgiria outro interlocutor devastador para Pasolini naquele ano: o movimento estudantil.

A maioria das pessoas acredita que Pasolini se opôs aos estudantes e que ele apoiou a polícia, um mito persistente que acabou se espalhando por todo o mundo. A Vida de um Cineasta, um documentário de 1971 sobre Pasolini, inclui uma narração dizendo que “de uma maneira completamente surpreendente e inesperada, ele toma o lado da polícia”.

Esse mito começou com “O PCI para os Jovens”, um poema que Pasolini compôs após a Batalha de Valle Giulia, que marcou o início do 1968 italiano. Em seu estilo contraditório habitual, ele escreveu que ficava do lado dos policiais porque, ao contrário dos estudantes, eram os filhos dos pobres. Apenas algumas linhas depois, porém, ele afirma que “obviamente somos contra a polícia como uma instituição”. O fim não poderia ser mais explícito: “Será que tenho de levar em consideração a possibilidade de lutar a Guerra Civil do seu lado, deixando de lado minha antiga ideia de Revolução?

Ler o poema todo e conhecer o contexto nos ajuda a entender como a opinião de Pasolini sobre o movimento estudantil era mais complexa e favorável do que comumente se acredita. Wu Ming 1, um membro do coletivo Wu Ming, conclui: “Depois de ler todo esse discurso (a totalidade, não apenas os 4 ou 5 versos extrapolados que são bradados feito clavas por alguns bandidos) não é possível concluir que Pasolini estava com a polícia.”

Os críticos, no entanto, especialmente os de direita, podem fazer citações aleatórias não apenas para diminuir um autor, mas também para explorá-lo por suas próprias razões – algo que os conservadores na Itália e no exterior vêm fazendo com Antonio Gramsci há décadas.

Pasolini de fato apoiou os estudantes e outros movimentos que surgiram na Itália entre 1968-1969 – mas como aliado, ao invés de militante orgânico (e como poderia ter sido um militante orgânico desses movimentos, dado que tinha quase cinquenta anos na época e fazia parte da geração anterior da esquerda?). Ele disse que as duas únicas “experiências democrático-revolucionárias” do povo italiano foram a resistência aos fascistas e o movimento estudantil. Ele escreveu sobre isso em uma carta aberta ao primeiro ministro italiano, Giovanni Leone, quando a polícia violentamente esmagou os protestos durante o Festival de Cinema de Veneza de 1968.

Ele falou e escreveu repetidamente contra a polícia, mas isso não significa que ele se opusesse a eles como indivíduos – muitas vezes pobres lumpemproletários e camponeses – que trabalhavam para o braço armado do estado. A Itália era, afinal, também o local onde organizações como o Proletari in divisa (Proletários de Farda) tentaram organizar as forças armadas e ganharam certa tração durante aqueles anos.

Em 1971, Pasolini tornou-se diretor da revista Lotta Continua, uma das organizações da esquerda extra-parlamentar pós-68 na Itália; ele financiou e ajudou a filmar um documentário investigativo com essa mesma organização sobre o bombardeio a Piazza Fontana, planejado pelos fascistas.

Fora desse contexto, é impossível entender o Pasolini da época. Como escreveu Wu Ming 1:

“O que sobra sem o contexto? Um punhado de imagens – vaga-lumes, o fim do mundo dos camponeses, corpos homólogos aos dos hippies – reduzidos a clichês e tornados inofensivos... alimentados pela mesma cultura dominante que perseguiu Pasolini, pelos herdeiros jornalísticos de seus caluniadores e pelos herdeiros políticos daqueles que o atacavam nas ruas.”

A Nova Esquerda

A relação de Pasolini com a esquerda não-italiana e não-européia merece seu próprio artigo, dada a importância que o Terceiro Mundo – tanto como lugar quanto como conceito – assumiu para o cineasta. Já em 1961, ele se referiu à África como “minha única alternativa” e escreveu que Bandung era a capital de três quartos do mundo e de metade da Itália.

A visão de Pasolini sobre a esquerda estadunidense demonstra que ele precisava procurar novas ideias, novos estímulos, novos rostos e lugares, cuja importância às vezes ele acabava exagerando. Durante sua primeira visita a Nova York em meados da década de 1960, ele se convenceu de que a nova esquerda estadunidense “levará a uma forma original de socialismo não-marxista”. Ele escreveu que a “SNCC, SDS e muitos outros movimentos que, de maneira caótica, compõem a Nova Esquerda Americana são lembretes para mim dos tempos da Resistência aqui na Itália”, e, depois de visitar o Harlem, ele afirmou que “o núcleo da luta pela revolução no Terceiro Mundo é, na verdade, a América”.

Em sua famosa invectiva contra os estudantes italianos em 1968, ele apontou precisamente para o movimento estadunidense como um exemplo a ser seguido. Podemos, portanto, alinhar Pasolini com os muitos intelectuais e artistas que visitaram os Estados Unidos na segunda metade da década de 1960 em busca de movimentos revolucionários, incluindo outro importante cineasta italiano, Michelangelo Antonioni, que filmou Zabriskie Point na Califórnia. Também podemos ver a resposta de Pasolini ao Harlem como parte de uma exploração controversa (e com certeza eurocêntrica) sobre o Terceiro Mundo, seu principal locus de pensamento entre o final da década de 1960 e sua morte.

Numa época em que os comunistas italianos olhavam mais para o Oriente do que para o Ocidente, vale a pena mencionar a paixão de Pasolini pela esquerda estadunidense. Um comunista por toda a vida, o poeta e ensaísta não tinha medo de pensar contra a linha do partido, buscando os movimentos revolucionários mais promissores, enquanto permanecia aberto às contradições e desafios de um mundo capitalista em evolução.

Relembrar seu pensamento incisivo e heterodoxo nos permite incluir Pasolini como parte do que há de melhor nas tradições da esquerda italiana – com todas as suas antinomias, contrações, divisões, mas também sua capacidade de inspirar e influenciar a esquerda global.

Sobre o Autor

Luca Peretti é professor visitante na Ohio State University, nos Estados Unidos. Ele é co-editor do livro Pier Paolo Pasolini, Framed and Unframed: A Thinker for the Twenty-First Century.

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